segunda-feira, 30 de maio de 2011

Propósito

Há alguns anos, deprimido diante ao que me afigurava ser um constante fracasso emocional, escrevi alguns cartázes de urgência com a frase”Jamais, em qualquer ocasião, magoe as pessoas!”, e afixei em pontos estratégicos pela casa. Quando retornei, ao final da tarde, encontrei-os empilhados sobre a estante, e imaginei que a moça da limpeza deveria ter sentido um constrangimento quase igual ao meu por não saber onde colocar aqueles frutos do meu esquecimento. Uma das histórias dolorosamente inesquecíveis e redentoras do meu avô, que ele a contava sempre à atenção dos constantes pedidos da família, foi quando, em uma de suas idas da fazenda à cidade, parou sua caminhoneta para auxiliar um homem que se encontrava com o carro danificado ao lado, na estrada de chão. Meu avô não se lembra que peça sobressalente de sua caminhoneta ele dispôs para sanar o avario do veículo, ele só se lembra da para sempre incompreensível resposta que deu quando o desconhecido lhe perguntou quanto havia sido a ajuda, e meu avô respondeu:”Uns dez reais e morre o assunto”. Como haveria de ser, um mês depois, meu avô se viu com o pneu do carro retalhado, em uma estrada de terra de pouquíssimo movimento, sozinho e sem macaco sob o sol a pino… e quem aparece? Para-lhe do lado aquele mesmo desconhecido, com um sorriso cordial e uma disposição de erguer o carro com os braços, se fosse preciso. Mas não foi; ele retirou seus assessórios do porta malas, trocou o pneu de aro espesso e trabalhoso, detectou que se perdera um dos parafusos e usou um dos seus. No final, diante o homem suado e sujo de terra, meu avô profere aquela já por ele intuída sentença de condenação:”quanto foi?”, ao que o homem responde:”ô compadre!, coisas assim a gente não cobra não. Somos um pelo outro.” Foi a maior vergonha da vida de meu avô, ele contava. Ele nunca desejou tanto um tapa na cara. Imagino que, numa escala continental, ele se sentiu como a companhia imperial inglesa diante todos aqueles indianos seminus sentados em posição de lotus e não reagentes, que conseguiram a independência nacional através de uma arma inédita na història: o constrangimento do lado que detêm o poder, pela súbita consciência explícita da insensata desproporção do uso do poder.

Minha preocupação constante continua sendo o de não magoar as pessoas com o que digo, por várias razões. Piegas dizer isto?é;mas não sei dizê-lo de uma forma menos convencional, menos lyaluftiniana. Ao mesmo tempo, acho salutar expressar o pensamento, com toda a afronta a enorme tendência ao senso comum que nos domina, com seu poder de atração quase irrefutável. Por isto a surpresa de, após um noite de insônia diante o micro, aterrorizado diante o passeio alucinógino por tantos endereços cheios de pretensões, vaidades, inocuidade de espírito e de intelecto, com “ensaios” literários atravessados em colunas opressivas de propaganda de varejo e últimas novidades tecnológicas (textos que sempre me lembram aqueles coitados sentados em pleno centro urbano, com um colete amarelo no qual se lê”Compra-se Ouro”), retorno ao seu espaço e vejo essa confluência cigana de medos intimamente arraigados sobre fúria, necessidade de calma, e ainda a necessidade da crença desesperada na palavra.

Vou ter um filho daqui a quatro meses, o que me faz temerosamente feliz. E a maior lição que prevejo pela frente, a passar para ele, é o exercício salutar e superestimadamente sofrível de engolir sapos, e ao mesmo tempo incentivá-lo ao contato com mortos ilustres que nunca fizeram outra coisa senão expulsar anuros a grito. Ensina-lo que a gentileza possui uma estética muito sui generis, às vezes não tão catártica quanto acompanhar aos berros “God Save the Queen” dos Sex Pistols, mas mais verdadeira e compensadora na hora de saber o valor de favores abnegados e aceitar o dedo em riste no trânsito até que se desgaste por total inapetência a vontade onanística de matar. Por que, no primeiríssimo momento que precede à reação, nós somos uns serezinhos cruéis. Mas só nesse enorme e libidinoso momento inicial.


Para terminar, uma lembrança de uma grande palestra do Joseph Bródski ( no livro de ensaios”menos que Um”), que versa sobre a interpretação do dito “ofereça a outra face”. Bródski diz que ignora-se, a maioria das vezes, o que vem depois neste vaticínio, que é: “e se alguém lhe solicita acompanhá-lo por uma jarda,vá com ele mais cem”. E cita o exemplo de um prisioneiro de um gulag, que, oprimido por um guarda à tarefa inócua de remover um monturo de pedras de um lado para outro do pátio da prisão, o faz inúmeras vezes, durante um dia e uma noite inteiras, durante muito mais tempo que o guarda levou para se humanizar e olhar aquilo como o reflexo de seu brutal constrangimento.
(escrito em 09 de abril de 2009)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os Hereros

Um excerto de O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, sobre os hereros.

Uma geração atrás, o número cada vez menor de nascimentos de crianças vivas entre os hereros era um assunto de grande interesse para os médicos de toda a África meridional. Os brancos preocupavam-se, tal como se o gado estivesse atacado de peste bovina. Uma coisa desagradável, ver a população subjugada diminuindo daquele jeito ano pós ano. O que é uma colônia sem seus nativos de pele escura? Que graça tem, se todos eles vão morrer? Apenas uma ampla extensão de deserto, sem criadas, sem trabalhadores rurais, sem operários para a construção civil e as minas_ peraí, um minuto, é ele sim, Karl Marx, aquele velho racista manhoso, escapulindo de fininho, com os dentes trincados, sobrancelhas arqueadas, tentando fazer de conta que é só uma questão de Mão-de-Obra Barata e Mercados Internacionais... Ah, não. Uma colônia é muito mais que isso. A Colônia é a latrina da alma européia, onde o sujeito pode baixar as calças e relaxar, gozando o cheiro de sua própria merda. Onde ele pode agarrar sua presa esguia rugindo com todas as forças sempre que lhe der na veneta, e beber-lhe o sangue com prazer incontido. Não é? Onde ele pode chafurdar, em pleno cio, e entregar-se a uma maciez, uma escuridão receptiva de braços e pernas, cabelos tão encarapinhados quanto os pêlos de sua própria genitália proibida. Onde a papoula, o cânhamo e a coca crescem luxuriantes, verdejantes, e não com as cores e o estilo da morte, como a cravagem e o agárico, as pragas e fungos nativos da Europa. A Europa cristã sempre foi morte, Karl, morte e repressão. Lá fora, nas colônias, pode-se viver a vida, dedicar-se à vida e à sensualidade em todas suas formas, sem  prejudicar em nada a Metrópole, nada que suje aquelas catedrais, estátuas de mármore branco, pensamentos nobres...As notícias nunca chegam lá. Os silêncios aqui são tão amplos que absorvem todos os comportamentos, por mais sujos e animalescos que sejam...

Alguns médicos mais racionais atribuíram a queda na taxa de nascimentos dos herero a uma deficiência de vitamina E em sua dieta _ outros, à dificuldade de ocorrer fertilização entre os herero, dado o formato longo e estreito dos úteros de suas mulheres. Mas por trás de todas essas explicações razoáveis, todas essas especulações científicas, nenhum africânder branco conseguia expressar o modo como se sentia em relação a isso... Havia algo de sinistro solto no veld: ele estava começando a olhar para aqueles rostos, principalmente os das mulheres, alinhados do outro lado das cercas de espinhos,  e sabia, sem precisar de qualquer prova lógica: havia uma mente tribal em ação, e ela optara pelo suicídio... Não dá para entender. Talvez nós não tenhamos sido tão razoáveis assim, quando tomamos deles o gado e as terras... e depois os campos de trabalhos forçados, é claro, o arame farpado, as paliçadas... Talvez eles não tenham mais vontade de viver neste mundo. Mas é típico deles, desistir, ir morrer num canto... por que não tentam negociar? Poderíamos encontrar uma solução, alguma solução...

Para os herero, a escolha era simples, entre dois tipos de morte: a morte tribal ou  a morte cristã. A morte tribal fazia sentido. A morte cristã não fazia sentido algum. Parecia-lhes um exercício de  que eles não tinham necessidade. Mas para os europeus, que caíram no Conto do Menino Jesus, vigarice que eles próprios inventaram, o que estava acontecendo com os herero era um mistério tão indevassável quanto os cemitérios de elefantes, ou os lemingues correndo em direção ao mar.

Embora não o admitam, os Vazios que vivem no exílio da Zona, europeizados no idioma e no pensamento, separados da velha unidade tribal, também acham o porquê da coisa misterioso. Porém apegam-se a ele, tal como uma mulher doente apega-se a um amuleto. Não pensam em termos de ciclos, de retornos, estão apaixonados pelo glamour da idéia de todo um povo cometer suicídio _ a atitude,  o estoicismo, a bravura. Esses Otukungurua são profetas da masturbação, especialistas em aborto e esterilização, paladinos dos atos orais e anais, podais e digitais, sodomíticos e zoofílicos _ sua abordagem e seu jogo é o prazer: eles se esforçam muito para vender seu peixe, com sinceridade e eficiência, e a gente do Erdschweinhöhle lhes dá ouvidos.

Os Vazios garantem que dia chegará em que os últimos herero da Zona morrerão, o zero final de uma história coletiva vivida integralmente. Isso tem um certo atrativo. 

domingo, 22 de maio de 2011

Juan Carlos Onetti


"É uma lembrança, faz dois anos, em Necochea. Mami se levantava muito cedo para ir à praia e eu ficava dormindo até o meio-dia no hotel. Acho que ela madrugava porque já tinha aceitado que estava gorda e velha e àquela hora encontrava pouca gente na praia. Acordei e fiquei olhando pela janela; descobri-a lá embaixo, se movendo. Mas ninguém poderia descrever o modo como se movia. Tinha uns sujeitos pintando as paredes do hotel, e o caminho de areia por onde as pessoas voltavam para almoçar. Você teria de se transformar num bicho e lembrar e compreender como se move uma fêmea para atrair o macho. Mas Mami, naturalmente, precisava de pretextos e ia de um lado para outro, arrancava folhas das árvores, chamava um cão, sorria para as crianças, sondava o céu, se espreguiçava, corria alguns passos e parava como se alguém a tivesse chamado; agachava-se para levantar do chão coisas inexistentes. Tudo isso entre o caminho da praia ao hotel e com os pedreiros no andaime. Pensei, e continuo acreditando nisso, que era a última tentativa, o desespero na caça e na pesca, dê no que dê, desde que dê em alguma coisa. Pobre Mami! Entendi tudo isso e comecei a dizer pobre Mami olhando-a da janela do hotel. Só havia ela lá embaixo; ela e a possibilidade que representavam os pedreiros, um empregado do hotel, um dos que guiavam seus carros vindos da praia. Naquele meio-dia em Necochea tomei um pifão daqueles e na sesta me obriguei a fazer amor com ela até a exaustão. É impossível que ninguém, ninguém no mundo possa conceber a pureza, a humildade com que eu teria oferecido o que quer que fosse aos pintores ou pedreiros para que um deles se aproximasse de Mami e a cantasse com uma frase suja, brutal, como quando a pessoa não consegue mais controlar-se." (A Vida Breve)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Adam Filho de Cão, de Yoram Kaniuk


Hoje recordei de um longínquo livro que li há cerca de 8 anos. A temática do palhaço e do nazismo do livro Pontos de vista de um palhaço, do escritor alemão Heinrich Böll, me fez ir a uma das estantes de livro daqui de casa e desencalhar Adam Filho de Cão, uma das obras mais perturbadoras e estranhas, escrita por uma autor quase desconhecido chamado Yoram Kaniuk (quase um anagrama de Ohran Pamuk). Lembro-me que cheguei a ela numa tarde de peregrinação à livraria do shopping, que por acaso é a mesma Saraiva (que Deus te dê longa vida!), e estava sedento por encontrar algo novo, alguma leitura inolvidável que escapasse das cansativas placas de identificação dos autores conhecidos. Algo que não fosse badalado e que eu nunca tivesse visto, mas que me chamasse a atenção de forma imediata, ou pela capa, ou pela editoração, ou pelo comentário daquele arroz de festa do elogio a autores desconhecidos que foi Susan Sontag. Claro que estava preparado para a decepção e cogitava sair dali com o último livro do V.S.Naipaul debaixo do braço, o que me levaria a passar a insônia das noites na metrópole transitando por cidades de burocracia capengas da América Central ou sentado em uma avião ao lado de algum negro promissor que ganhara bastante grana com a especulação imobiliária, tão típicos dos livros do Naipaul.

Mas achei o que estava procurando, severamente dentro das expectativas, até com a seguinte frase na contra-capa: "Dos escritores que descobri em tradução [...] os três que mais admiro são Gabriel Garcia Márquez, Peter Handke e Yoram Kaniuk". Adivinha de quem? Dela: Susan Sontag. (Na época ainda não tinha como saber que ela diria quase a mesma coisa de Roberto Bolaño.) Um livro muito bonito da Editora Globo, com o nome do autor e a repetição minimalista do título em vinil, e um comunicado interno dizendo que se tratava da segunda_ e aprimorada_ tradução da obra por uma editora brasileira. (Havia um tom de que a primeira era coisa por demais execrável para se levar a sério.) O resumo da contra-capa é um dos que mais faz cair na rede os amigos que me vem pegar livros emprestados, pois apresenta uma história irresistível: o palhaço judeu Adam Stein que consegue sobreviver em um campo de concentração entretendo os prisioneiros (inclusive a mulher e a filha), "antes que estes fossem encaminhados às câmaras de gás." Quem consegue se manter inócuo à comichão da leitura diante uma coisa destas?

Os amigos catalogados para o empréstimo (aqueles que sei que gostam de ler e me devolverão o livro no rigoroso prazo marcado) direto sucumbem sob o impacto desse resumo e leem Adam Filho de Cão. Desses amigos, uns 3 ou 4 gostaram muito, 1 ou 2, os leitores convencionais que estão apenas à busca de um bom enredo, disseram que se tratava de um livro maluco demais para eles. O problema é que, assim que comecei a ler o livro, já percebi que Kaniuk, ai!, é um dos grandes. Isso quer dizer não só que encontrei um produto raro onde a embalagem e o comercial correspondem ao conteúdo, como também que a história de Adam Stein não limita a ser um conto retilíneo, o que submerge na decepção os que queriam ter de imediato as lágrimas e o espetáculo à la Roberto Benigni.

E vejo que, após tantos anos, não me é difícil recordar desse livro. Não que o houvesse esquecido. É estranho mesmo que não tenha retornado a ele durante esse tempo, devido à minha devoção a autores judeus. Minha suspeita é que, após procurar e não achar mais outros títulos de Kaniuk, o releguei a um milagre isolado, e lá ele permaneceu debaixo de uma pilha de outros livros, até que me veio o ensejo de resgatá-lo. A prosa de Kaniuk é elétrica, de frases curtas, muito rápida às vezes. Revela o leitor global por detrás da formação do escritor cujo conhecimento da literatura o permite decantar o estilo até um coloquialismo em que aparece fontes do cinema e da música moderna, sobretudo o jazz. (Há um capítulo em que Adam transita pelo hospício no deserto em que está  internado, ouvindo pelos auto falantes do corredor uma obra de Rimsky-Korsakov, e eu juro que não pode ser apenas efeito da lembrança truncada que os pensamentos do personagem seguem a cadência de O Príncipe Kalender. Um dos principais amigos de Adam, interno desse hospício, diz ser ninguém menos que Miles Davis.)

Nesse romance, os eventos no campo de concentração surgem aos poucos, intercalados à rotina de Adam no hospício. Os que não gostaram do livro devem ter sido barrados nas cenas quase psicodélicas dos loucos, no programa de conversão paulatina de Adam no messias que julga retornar à Terra para salvar as vítimas da Shoá. Para mim, que agora sei fadado a uma nova leitura, Adam Filho de Cão assume tudo o que a boa tradição dos grandes romances requer em envolvimento e originalidade. Uma sinfonia de ira, uma crítica joyceana que não se limita ao lugar comum de uma narrativa facilmente assimilável, uma condenação de uma humanidade que, nos dizeres de Moacir Amâncio no texto das orelhas do volume, "produz Dante, Wagner, Goethe, Heidegger e a Shoá."

Dia de Finados, de Cees Nooteboom



Toda temática do grande romance do holandês Cees Nooteboom, Dia de Finados, está densamente resumida no longo parágrafo de abertura: as preocupações compulsivamente desatentas do personagem principal, Arthur Daane, com o conceito e utilização moral da História; sua religião pessoal de viver em um ócio quase absoluto,  como o javanês de uma antiga anedota popular, só interrompido pelo exercício esporádico de sua função de documentarista cinematográfico para suprir as necessidades financeiras básicas; sua devoção a um grupo de amigos boêmios altamente intelectualizados com os quais se relaciona em  estadas alternadas entre a Alemanha e a Áustria. Mas tem algo mais a se saber sobre Daane, que Nooteboom nos comunica nesse magistral parágrafo de uma maneira afiadamente direta e sem sentimentalismos, com a falta de importância de descrever um esquecido ato social: a mulher de Daane e seu filho único de 11 anos foram mortos num acidente aéreo. Estavam lá, e depois "eles somem". Todo o livro é um desenvolvimento a partir desses aspectos peculiares de uma homem solitário que tem um nível de percepção intelectual bem apurado para sentir todo o impacto do conhecimento de que a orfandade a que sua família lhe relegou é também uma ampla orfandade histórica. O cruel lapso de sentido em que o destino lhe lançou é um tanto mais pesado no que tem de exigência de suportar uma pena por não lhe escapar que toda a humanidade, desde o fim da segunda grande guerra, vive num limbo de ausência de significados. Nesse tom limpo de existencialismos ou escolas modernas do pesar o romance se desenvolve, cheio de atmosfera invernal e de calor humano arduamente preservado entre os amigos de Daane como a título de se protegerem contra o ulular da barbárie e da inércia do moto perpétuo que existem do lado de fora. Um exemplo da filosofia de indiferença vaidosa contra o externo desse grupo de amigos, é quando uma das amigas de Daane responde que bebe contra a História.  Numa escala de graduação do desencanto, Daane e seu grupo formam a última reserva de civilidade e sofisticação cultural de um mundo em franca desintegração. Arthur Daane e seus amigos compõe o ápice da cultura tradicional européia, com seu excesso de esclarecimento e seu espanto indisfarçável que subjaz à ternura por tudo que esse conhecer traz de desencanto. Podendo-se resumir a frente de batalha na qual se lançam os personagens do livro, diria que é o arranjo bem vigiado dos que vivem no interior contra as evocações e fogos-fátuos de tudo que está no exterior.

A partir dessa tragédia da perda, Arthur Daane se sente como liberado a não mais participar da vida corrente, a ser um out-sider, um fantasma encarnado, alguém a quem não se deve cobrar mais nada nessa altura da vida e da história da humanidade em que os projetos levantados, a aposta na singeleza das alegrias domésticas, as grandes ideias e os grandes primores, mostraram-se inconsistentes demais para se manterem em pé diante as leis de um acaso incontrolável e de uma biologia meramente constituída pela violência e a animalidade. A única ação relativamente positiva que move os dias de Arthur é a dele se postar com a câmera em diversos pontos da Alemanha filmando um mosaico de imagens sem significados diretos, marcas de passos na neve, o vapor da respiração numa estação de metro após as pessoas embarcarem. Filmes que ele não sabe se um dia tornarão por sua vontade um produto acabado, mas que ele vai fazendo numa compulsão desiludida e angustiada não só na atmosfera ebuliente de emanações históricas da Alemanha, como pelos outros países que visita em seu trabalho de documentarista. Nesse sentido, o romance é tanto um romance ensaio como um muito bem engendrado diálogo da visão pessoal de um humanista desencantado com as teorias da história, mantendo uma indagação corajosa que lança através da liberdade de expressão desatrelada de especifismos da arte, a necessidade de se saber para que serve a história, qual seu propósito último; a história não nos imporia a obrigação de um aprendizado genuíno além do academicismo e dos jogos políticos? Não à toa que Nooteboom compõe aqui personagens hiper-cerebrais mas com uma profunda reserva espiritual, personagens extenuados pelo conhecimento, para os quais já estão estrapolados o valor das palavras e da erudição e por debaixo da vaidade do saber estão os escombros e os tantos mortos que a ciclicidade da incoerência da passagem sem domínio do homem pelo mundo repete em infinita sucessão. Para Daane e seus amigos o rótulo heráldico da história não resiste mais ao fato de que ele serve apenas a uma vaidade efêmera de estar colado sobre o catálogo da brutalidade, afim de exercer controle organizacional sobre uma hermenêutica do puro terror e do pragmatismo da fúria.

Mediante isso, pode-se interpretar as longas cenas filmadas por Daane como uma investigação espontânea sobre a passagereidade, uma imersão na interferência do esquecimento sobre os toques e as impressões de pegadas desvanecentes na neve, em busca do humano naquilo que nos grandes espaços significativos mostrou-se não existir, e por isso o humano talvez esteja no inapreensível, na comunicação destinada a ninguém feita na neve e no piso das  gáreas das estações de metrô pelo anônimo padrão  fadado a figurar nos livros de história entre as cifras da quantidade daqueles que foram exterminados, destituídos ou exilados. No frio de um pátio de construção à noite, quando as máquinas estão paradas e o cenário deserto, Daane atrás de sua câmera ligada dirigida ao nada, simula ser o receptor desses gestos invisíveis. Afinal, a última lembrança que tem da esposa e do filho antes de entrarem no avião é a dos gestos de adeus, o sorriso, o símbolo do beijo que, dentro da normalidade plausivelmente requerida, promete o retorno. Aqueles sinais de ausência que tanto seu olhar sofrido acostumou a perceber no oferecimento do mundo quanto na leitura da história. E é justo nessa sua exposição a essa fonte de conhecimento da verdade_ de que o que distinguiria o homem como potência específica longe da bestialidade e da des-razão não está no rigorismo vazio da impessoalidade da história_ que Doane descobre o quanto é leviano para um fantasma encarnado sair de seu espaço de refúgio. Uma gangue de neonazistas o ataca, o espancando quase até a morte.

Dia de Finados é também um romance de amor entre Arthur Daane e uma estudante de história chamada Elik Orange. Os dois se conhecem na seção de periódicos de uma biblioteca alemã, e o relacionamento dos dois é deficitário de todas as normas da convivência entre um homem e uma mulher. Um capítulo do livro, narrado por observadores metafísicos, revela através de uma série de intuições cronológicas o passado traumático de Elik, dando as linhas de explicação de seu intuito de se refugiar no estudo de uma obscura rainha ibérica. É um romance surpreendentemente terno em detrimento da pesada carga de reflexão contestatória sobre a inocuidade de um estudo a-moral da história. A linguagem de Nooteboom é arrebatadoramente poética sem ser pedante; os diálogos entre os amigos de Daane _ o escultor holandês Victor Leven, o filósofo alemão Arno Tieck e a física russa Zenobia_ são intensamente concentrados mas desapegados da frieza asséptica do distanciamento da filosofia; e Elik, a estudante molestada pelos seus esquecidos fundamentos do resguardo da infância (fazendo lembrar a bela cena analisada por Hannah Arendt, em Homens em Tempos Sombrios, de quando Isak Dinesen percebe que os braços do pai que a levava carregada pelo jardim já não poderiam protegê-la do mundo lá de fora) é mais uma usina de forças represadas do que diz a impressão despertada por seu indevassável isolamento. A força de Dia de Finados está na cordialidade de uma novo posicionamento do pensamento frente a desproteção do humano. Para consolar Arthur Daane na cama de convalescência do hospital, seu amigo Victor demonstra a vitória temporária que se pode ter o poder da amizade por sobre a prisão das palavras: sem proferir uma só palavra, avesso ao ridículo ou aos padrões normatizados de comportamento, Victor demonstra a superação que resta à fragilidade humana de seus erros e pesadelos, através da dança. Na solidão da pequenez daqueles que se refugiaram da história, intimamente à espera de novas alternativas, Victor não refaz a dança de Davi a deus, mas a dança de um homem para outro, com todos seus caracteres de desvalidez. Todo o livro desmente numa visão particular a poesia de Yeats de que por detrás de cada olho há oceanos de gelo incorporados ao coração.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Flanêur

O único livro de Sabato que encontrei por toda Goiânia foi em um sebo do centro, O Escritor e Seus Fantasmas. Lançado em 1963, e aqui 40 anos após pela Cia. das Letras, tem várias partes dedicadas à tão mencionada "falência do romance". Todo mundo sabe o quanto de grandes romances se produziram depois disso, abalizando a defesa de Sabato. Estou sentado aqui na casa da mamãe folheando esse voluminho, como o Onetti que finalmente adquiri ontem e pela primeira vez (imperdoável) vou ler. Já li muita literatura latino americana, uma das minhas preferidas, mas nunca, não sei por que, li Onetti. A leitura tem uma contraposição interessante, pois há autores que se ganha conhecendo-os cedo, como Dostoiévski e Tolstoi, e outros cujo benefício é conhecê-los mais tarde, como Bernhard e Benedetti. Na juventude Bernhard se perderia para mim pelo risco de achá-lo arrogante, e Benedetti por julgá-lo escritorial em excesso. Numa página de Sabato acho essa frase extraordinária:

O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa. (Hölderlin)