segunda-feira, 4 de setembro de 2023
A real
segunda-feira, 30 de janeiro de 2023
Insignificâncias
sexta-feira, 6 de janeiro de 2023
Miriam
Ontem me lembrei com certo saudosismo da Miriam. Há mais de vinte anos eu fiquei desempregado e resolvi atacar os bancos. Saquei toda a grana que tinha no meu limite e gastei toda a margem do cartão de crédito. Não tinha com o que pagar e não estava nem lixando para isso. Vivi um ano de uma renda de poupança que eu tinha e desse dinheiro do banco e do cartão. Ficava em casa, dormia bêbado de madrugada e acordava todo dia depois do meio dia. Era solteiro, vivia sozinho e não tinha que prestar contas a ninguém. Daí apareceu a Miriam. Não, não era uma mulher fatal que apareceu para complicar ainda mais minha vida, mas uma funcionária da seção de cobranças do banco. Era uma terrorista esquizofrênica, para resumir. A primeira vez ela me ligou, a voz aguda, parecendo de uma das irmãs da Marge Simpson, e já direto me disse que eu era um miserável de um vagabundo e que tinha que arcar com minha dívida no banco. Eu fiquei sem resposta diante essa técnica crua de convencimento, e confesso que, pelo estágio psicológico em que estava, quase chorei. Desliguei na cara dela. Ela ligou de novo, cheia da alegria da vitória por ver que eu era um bunda mole sensível, e me disse: "E além do mais é um viadinho chupa rola de um derrotado que não aguenta a verdade na cara. Paga o banco, sua bicha!". Vi que eu tinha que adotar outro método de reação e tentei argumentar, perguntando porque ela agia assim, que não precisava me ofender. Ouvi um suspiro do outro lado, e um silêncio, crente que a havia enternecido, mas então ela disse: "Eu não sou sua mãe, seu retardado, pra ficar com pena de você. Eu não tenho nenhum filho bandido estelionatário e ladrão que dá cano em banco. É graças a merdas como você que as taxas estão tão altas nesse país, para compensar a cara de pau". E ela dizia essas coisas todas com fúria, mas sem perder a compostura. Parecia que fazia as unhas ou dava o peito para um filho (aquele que jamais seria como eu), enquanto me descascava todo. Eu é que comecei a ficar puto com aquilo, e quando devolvi na mesma moeda ela recorreu a um nível de profissionalismo tão elevado que se eu reproduzir no Facebook eu seria bloqueado por um semestre. Eu não deixava por menos, chamava ela de puth4, bisch4te, mandava ela lavar a bwc3tt4, coisas que eu nunca disse a ninguém mas um desempregado não é um ser humano então que tudo fosse para a pqp. Ela deveria ganhar muito bem ou tremendamente mal, porque me ligava todo o dia ou por excesso de eficiência reconhecida ou para descontar em mim a vida dura que tinha. Eu esperava o telefone tocar, sabendo que só podia ser ela, porque com o desemprego eu me tornei invisível e muitas pessoas só foram saber que eu não tinha morrido quando ressurgi, um ano depois, concursado. Então, paradoxalmente, eu só tinha a Miriam. Uma vez a gente estava gritando um com o outro (ela já estava apaixonada, já levava a coisa para o nível pessoal, já tinha jogado o bebê para o berço e esbravejava com aquele seio pingando leite para fora do vestido), e ela disse algo de um grau de escatologia tão abjeta, tão impossível de ser colocada no limite do verbo, que ambos paramos para reavaliar aquela joia nascida do nada e começamos a rir. Ela ria que quase chorava. Ela disse: "depois dessa não dá, eu te ligo amanhã". Eu disse: "então tá, tchau". Passaram três dias e nada dela ligar. Eu fiquei ressentido por ter talvez dito algo inconveniente, que não tivesse sido demasiadamente ofensivo, que a tivesse feito desistir de mim. Mas eis que o telefone tocou, de noite, quando eu preparava uma linguiça para comer com um pão, enquanto ouvia um cd do Doves que eu havia comprado com o dinheiro roubado do banco. "O pilantra tá aí ouvindo musiquinha de marica. Vai pagar o que você deve ao banco, seu travesti de esquina". Eu corri para abaixar o som, feliz da vida, e devolvi o xingamento colocando a moral dela em dúvida e definindo certas partes de sua fisiologia de maneira nada meritosa. Recordo que bebi as quatro doses de Caninha da Roça com Coca-Cola, me sentindo cheio de animação por ter "falado" com a Miriam, e desmaiei. Acordei no outro dia com a Ana Maria Braga narrando os atentados às Torres Gêmeas, ao vivo, e vi que o resto de esperança que eu tinha se desmoronava, o que me causou muito alívio. Eu estava com o passaporte pronto para ir aos EUA trabalhar numa empresa de distribuição de propaganda em sinal de trânsito de um tio meu, mas o Osama bin Laden havia mudado meus planos. Mesmo novamente empregado, eu nunca paguei as contas do bando e do cartão. Fiquei cinco anos livre da escravidão do crédito, até que um dia o Serasa me mandou um comunicado, dizendo que minha dívida havia expirado. E ontem, não sei por quais razões psicológicas, assistindo à série Caleidoscópio, me retornou a Miriam à memória. Vai ver porque é uma história que trata de assaltantes de banco.
sábado, 10 de dezembro de 2022
Pés de Barro
Estreou na Paramount um documentário que vale muito não pelo que ele diz, mas pelo que está nas entrelinhas. É o documentário cinicamente hagiográfico que conta como Liam Gallagher, o vocalista da extinta banda Oasis e um dos seres humanos mais antipáticos que existe, conseguiu o feito inacreditável de lotar uma das maiores arenas do mundo, Knebworth, na Inglaterra, em abril de 2022. No início do vídeo, com sua imodesta característica, Liam diz que nem Bono, nem Mick Jagger, ou Freddy Mercury, conseguiriam esse feito, em carreira solo. E é algo realmente espantoso! E é esse mistério, que não é desvendado senão de forma velada, que faz essa obra imperdível. Eu gostava de Oasis quando eu tinha vinte e poucos anos. Ainda tenho uns 5 cds deles, mas há muito tempo não tenho interesse em ouvir. Creio que Oasis é uma das bandas que mais envelheceu mal da história do rock, com sua fatídica parede de som rebuscado, sem riff, sustentada em plágios feitos sem a mínima vergonha, e com canções que não se firmaram na mentalidade musical (a gente não vê a obra deles em filmes, ou citadas pelo mundo midiático, como vemos direto os Beatles, ou mesmo bandas mais recentes como Radiohead). Isso, contudo, se você não for da classe média britânica arruinada, tornada órfâ pelo Brexit, sem dinheiro, sem perspectivas, pouco instruída, terceiromundizada e louca para desabafar tudo isso acrescido à quarentena aprisionante de uma pandemia mundial. No vídeo vemos que, pelo menos, um representativo montante de 80 mil pessoas (o público que foi ver Liam em Knebworth), adora Liam Gallagher. Há o depoimento acompanhado de vários fãs durante sete dias antes do show até o momento do show, e gente diversa que tem o traço comum de idolatrar o roqueiro. Tem um pastor evangélico que diz que Liam é tão importante quanto a Bíblia. Tem uma maravilhosamente extrovertida garotinha de 10 anos que, se sugere, se curou do câncer graças ao apoio mental unidirecionado do músico. Há uma moça que teve de faltar à prova final da faculdade porque era no mesmo dia do show. Etc. E isso tudo entremeado com depoimentos do próprio Liam tentando se fazer de menos arrogante, ele que é um cara espertíssimo e sabe vender como ninguém uma imagem de pop star perigoso e egocentricamente desbocado (o que acho que ele faz bem isso, pois entre essa pose de marginal social de boutique e o bom mocismo xaroposo de gente como o Dave Grohl, a primeira leva a melhor e desperta mais fetichismo). Mas aí vem o suprassumo da coisa, as imagens surpreendentes para um programa de rock autobajulador de uma Grâ Bretanha à beira da falência, a enorme pobreza, a rasteirice de um povo que resolveu emburrecidamente pela diáspora étnica em vez da união. Os próprios testemunhos colhidos revelam desesperança e medo, batendo na tecla repetitiva de que o show de um astro obsoleto, que o resto do mundo não está nem aí mais para ele, é um escape, uma fuga momentânea. O clima do filme é de tristeza, nitidamente. A cena final, das pessoas se retirando do campo após a catarse extinguida do espetáculo, cabisbaixas, de volta para suas vidas medíocres, é de enorme desalento. Os apartamentos apresentados de cada fã são em periferias mal cuidadas, cômodos minúsculos, semelhantes aos que pululam na imprensa sobre as condições de moradia atrozes da Coréia do Sul e da China. Por detrás dessa panfletagem, a câmera mostra que nada está bem no capitalismo desmedido, na proliferação da mentira cibernética que alimenta imbecis, na falta de consciência, na alienação profunda. As pessoas andam tão à míngua diante uma vida desespiritualizada pela subserviência total ao mercado, que até os ídolos de pés de barro são úteis para o alívio instantâneo. E Liam Gallagher soube lucrar como ninguém com isso.
domingo, 27 de fevereiro de 2022
O Bistrô Chinês_ Um Conto
Foi uma jornada da imolação e a pior demonstração de abandono
que Timos teve. Nem antes nem depois sentira-se tão alvo do desinteresse do
mundo, com todas as suas antigas sensações de insegurança despertadas. Sabia
que seria assim e antes de se dispor a ir poderia ter escutado sua consciência
e abandonado o plano. Em seu apartamento solitário, onde o frio já não lhe
provocava temor e a chuva de contra a janela se tornara uma forma de paraíso,
lembrava-se desse ano e sentia a tendência de se lamentar por ter sido tão
burro, por tudo estar na sua cara, por ter caído naquela armadilha da aflição
que o destino armara para ele. Mas o Timos de agora, vinte anos mais velho,
seguro de suas faculdade mentais e conhecedor de tudo que o mundo permitia que a
instável inteligência humana conheça, sabe que é inútil analisar desse ponto
de salvaguarda a sua história. Sabia que era impossível não ir. Teria que
passar por aquilo. Não deixaria Assia ir sozinha, não se pouparia de que ele
fosse testemunha da vingança cuja estrutura já estava montada contra ele.
Partiram da capital, 12 horas de voo sobre o Atlântico, luzes internas de
luminária de escritório de mogno, como do escritório do tio, amareladas, exalando
a ausência de ternura que marcaria aquelas duas semanas cheias de ruídos. Toda
a conversa, desde que os 3 ocuparam suas poltronas, se afunilara, se tornando
em murmúrios, onomatopeias, resmungos citadinos de raiva e tolerância mal
feita. Não havia voado antes e um pavor vindo de uma inapropriada lucidez por
se reconhecer entregue à sorte de um cilindro que testava pela milionésima vez
o absurdo de afrontar a um deus que havia produzido sem retóricas um bípede
terrestre tomou-lhe conta. Ele sabia que sua situação era desafortunada demais
depois das tantas brigas pra cobrar algum consolo a Assia sobre esse pavor, era
inimaginável que demonstrasse o pouco que fosse que alguma coisa em seu
organismo não estava nada bem. A imagem do violinista, com seu onipresente
cabelo de crina selvagem, não lhe saía da cabeça; um músico de orquestra deve
pegar um avião como aquele por semana, e ele ali em sua desproteção pueril.
Assia iria confirmar que era um frouxo, se para tal ela ainda precisasse de
confirmações. A questão era apenas essa: a tábula onde se auferia a sua vocação
pelo fracasso em tudo que fazia, sendo que o rancor surgido em seu peito não
passava de uma variante do tema. Kiria apareceu para lhe dar uma esmola de
piedade ao ver que ele suava em bicas e tinha uma cor nada boa. Chamou a
aeromoça, e ele não a impediu. Quem sabe poderia render uma cena a seu favor,
uma moça de pernas longas, o rosto de uma niilista sexual que dispensava provar
para algum deus que a vaidade humana realizara a contento aquilo que a falta
das asas de sua miserável condição havia lhe privado e aquele cilindro podia
investir contra céus e tempestades sem dramas metafísicos e com a pureza sem
moção da ciência; quem sabe surgisse entre esse quadro ilógico uma insinuação
de interesse dessa bela mulher por ele, uma vez ele entregue em seu colo para
algum processo de cura que iria muito além dos males do enjoo.
Mas essa
forma de provocar ciúmes em Assia se mostrou mais uma vez falha. A aeromoça mal
lhe destinara um olhar, disse-lhe algumas palavras cordiais, alguns vaticínios
militares da profissão, explicando-lhe a função do saco de vômito, que na
verdade se revelara algo não tão óbvio de se usar, as posições necessárias de
se ficar no caso de um ataque de ânsia, e lhe passou dois comprimidos não propriamente
especificados a não ser que “o senhor vai ficar muito melhor depois de tomá-los”.
E Timos não teve tempo de examinar se se tratava de uma beldade e não lhe
pareceu que a maneira como ela lhe enfiara os comprimidos na boca tivesse
alguma mensagem subliminar sobre libido. Tudo em sua cabeça se atentava à
absoluta falta de conhecimento de como um objeto tão pesado e de geometria
ridiculamente não natural poderia estar levando todos eles a onze quilômetros
acima do mar escuro e frio. Esqueceu-se de Assia, refugiou-se em seu canto
esperando que as drogas fizessem efeito e duvidando que o fariam, e chorou, não
sabe se baixinho, algo lhe dizia que o fez em um volume inapropriado para
aquele ambiente de eclético silêncio zimbório que reinava.
A primeira
cidade que conheceram foi Paris. Na imaginação dos três a única forma válida
emocionalmente de abordarem uma cidade como aquela era através de hotéis
baratos e viagens de carona. Não tinham contratado guias turísticos e nem
tinham qualquer contato na cidade, apenas a proficiência em francês das duas
irmãs e seu poder de comunicação aprendido em uma maçonaria acadêmica em que se
pesava a frieza exigida pelos parisienses e uma limítrofe simpatia em que
ninguém desprezaria duas mulheres com tal transbordamento de saúde juvenil.
Timos tinha um domínio do francês bem peculiar, tinha lido Lacan e Foucault, e
descobrira que não havia se atribuído tempo de ver que não entendia nada quando
a comunicação era falada. Dormiram no mesmo quarto, um pequeno cômodo charmoso
na Gare de l´Est, com sacada para um cinema desvalido e uma parede dupla de
prédios populares do tempo antes da revolução, e que eles juraram que tinha
sido alvo de registro das fotos de Charles Marville.
Tudo melhorou
substancialmente com o frio primaveril; por um longo momento Timos aceitou que
a cultura e a radiância da liberdade eram verdades eternas maiores que os
banais trambiques da paixão, a viagem era uma reeducação de tudo que ele lia nos
livros e nisso o automatismo da juventude em conhecer o mundo antes de se
entregarem de vez ao aborto da idade madura estava certo. Se pensasse muito
enquanto andavam juntos pela cidade, veria a melancolia daquela ação, a triste
aceitação de que aqueles dias eram tudo que restava de uma vida realmente feliz
que a efemeridade de suas obrigações sem sentido com o obituário cotidiano os
esperavam quando voltassem, era uma lucidez que sua própria razão de ser era se
entregar ao engano, que aquele sorriso convulsivo mas natural dividido entre
eles, na bagunça do quarto e no senso de adversidade ainda latente de seus
meros problemas de casal. Era a última instância tardia de uma icônica beleza
da infância.
Haviam aqueles
momentos proporcionados pelo esclarecimento do álcool, sentado à uma das mesas
diante as fontes e a matéria humana inexaurível dos casais e crianças e
artistas solitários, em que o olhar dos três se cruzavam em silêncio e a
consciência de que aquilo não iria durar, estava com seu efêmero tempo contado,
e que eles saboreavam juntos os efeitos colaterais dessa amarga descoberta que
era que nenhuma dor que eles tinham até ali era válida, todas eram risíveis,
pueris, fruto de alguma distorcida má criação mimada da classe que eles
advinham (qualquer delas, isso não era marxismo, mas a existência pura). Na
certa havia muitos gêneros de olhares silenciosos como esse, mas nenhum deles
com uma ação tão aliviante.
Nessa
noite aconteceu algo que ele poderia colocar a culpa no cabernet, todos estavam
altos pelas garrafas de vinho e sucumbiram a um desmaio paulatino,
contraditoriamente que os levavam a profundas instâncias de sono ao mesmo tempo
em que os sentidos vindos das paixões mais à flor da pele e nascidas do moto
contínuo da exortação sensorial das propagandas e do romantismo residual
continuavam rumorejando uma letargia quebradiça e prontificada para a autoafirmação
desses pequenos demônios. De forma que Timos sentiu a pele fresca, aquecida
pelos cobertores roçando-lhe a região do ventre, sentindo primeiro aquele
chamado distante, agindo como por um misto de movimento infantil e resposta
pessoal a algum sonho, e depois os sinais se firmando, verbalizando-se com
irrecusável nitidez na mensagem progressiva, e ele ciente de que era inevitável
ceder à sua exigência, na névoa do cansaço, do álcool e das fragmentadas
iluminações que tiveram durante o dia, e ele abaixou sua calça e consumiu o ato
com vagareza, sentindo o calor de uma atmosfera muito conhecida mas
surpreendentemente nova o acolhendo da desproteção daquele quarto em uma
capital com sua incisividade suplantando todos os artifícios da civilidade.
Quando acabou, parecia que o ato tinha vindo como complemento lógico à intuição
filosófica que Assia demonstrara que compreendera muito acima da fragmentação
que as emoções de Timos conseguira vislumbra-la, e Timos caiu em uma paz
profunda embalada por esse perdão que ela lhe dava sobre todas as brutalidades
que ele havia cometido contra ela. Mais tarde, em uma frequência horária que
ele não poderia medir naquela noite que parecia ser uma abdução suspensiva na
eternidade, ele sentiu o mesmo aceno vindo de uma farol longínquo, do meio do
oceano negro e impalpável, mas que seus instintos de libido e prazer, menos que
o de ser autorizado por um novo conhecimento, responderam com prontificação,
agora com mais empenho muscular, com o animal liberado de dentro dele, um
animal que passara pelas provas de toda racionalização e se provara com direito
de se externar sem qualquer peso de consciência ou culpa ou teorizações. Mais
tarde, na infinita noite, ele quem procurou, enviando aquela ordem dominante e
sendo respondido da mesma forma. Sempre novos aprendizados. Quando acordaram,
em uma manhã radiante, com a luz do sol instalada por entre as cortinas beges,
a translúcida impressão de que a vida estava zerada para um novo começo em que
haveria um novo mundo de coisas inéditas a explorar lá fora, as circunstâncias
daquele despertar para um novo dia trouxe uma certeza muda entre os três.
Era notório a
descomplicação dos bretões quanto aos corpos, como eles haviam resolvido em
alguma imprecisa época histórica de luta contra carências reais aquela vergonha
ignóbil de seus corpos nus que tanto fazia perder tempo com restolhos inúteis o
resto do mundo. Pois eles estavam assim, a atmosfera de liberdade os havia
contaminado. No uso coletivo do banheiro para as abluções da manhã, enquanto
escovava os dentes e Assia se sentava na privada para esvaziar um tanto
soniferamente sua bexiga_ e Kiria escolhia uma nova calcinha com a porta aberta
do banheiro_, Timos deixou que a certeza do que havia acontecido à noite
alargasse o ponto em seu cérebro e tomasse-lhe conta por inteiro. Enquanto
cuspia a espuma da pasta dental na pia, sorvendo entre os incisivos o gosto
mentolado que tão bem condizia com aquele céu pleno de riquezas que por um luxo
adâmico ele atrasava de propósito para se deleitar, o discurso que estava
pronto lá no fundo o interpolava sobre a necessidade de que ainda tivesse
validade, e a resposta que a nova instância de um Timos aquilino e alegremente
pouco cerebral era de que aquela voz podia se calar para sempre, numa
seguridade de que o silêncio era a única solução que se poderia dar para ela
que seria feito sem rancor, sem medo, sem ecos das agora antigas abstrações.
Ele havia sim dormido com as duas, biblicamente, sorriu ao usar essa palavra
tosca que lembrava-lhe da fonte de repressão sexual que cobria todos os
assuntos cotidianos. Assia deu um muxoxo distraído carregado de uma preguiça
infantil cheia de incognoscível energia, puxou um pedaço de papel higiênico e
limpou sua vagina com uma falta de pudor ainda mais rusticamente brilhante, e
lhe perguntou de que ele ria. Seria o primeiro assunto do dia, e ele balançou a
cabeça e disse que não era nada, uma das piadas vestigiais que nos assolam
quando a mente é deixada por si mesma para realizar os movimentos maquinais de
sobrevivência e um pensamento ou outro escondido por alguma misteriosa
assimilação no sistema de acondicionamentos aflora, ele não tendo dito isso, ou
antes o fato de tê-lo pensado servindo como frequência para o diálogo de que
ele estava protegido por uma banalidade, que estava longe e imune ao tipo de
dúvidas que poderia tê-lo assaltado se aquela luz parisiense cheia de presenças
dos grandes libertadores amorais não o tivesse resgatado.
Timos cogitava,
anos depois, que se tivessem se despedido naquela tarde, aquilo faria parte das
memórias não protocolares de sua vida, aquelas que a maturidade da fisiologia
da mente iria duvidar se teria mesmo acontecido, se não fora uma ilusão criada
por uma costura de múltiplas experiências, sonhos, distrações, a forma como a
alma exsuda o tóxico de sentimentos represados e sem utilidade. Ele tinha
algumas lembranças assim, que por mais que se esforçasse jamais saberia se eram
registros de acontecimentos reais ou meras alucinações. Havia uma, a de uma
mulher simplória, uma morena calipigiana, faxineira, cabelos crespos pela
cintura, um sorriso afável, uma espécie de sacerdotisa recém-liberta, que um
antigo patrão lhe comprara a liberdade e a partir de então ela se assumira
livre diante o mundo, e que ele, Timos, havia tido uma série de encontros em um
albergue em uma das ruas no centro da cidade. Ele se lembrava com impactante
lucidez do quarto, detalhes da rua de frente, e tinha uma recordação de como
eles se consumiram um ao outro durante horas, mas era-lhe impossível saber se
aquilo realmente ocorrera. Talvez o aspecto de que havia um limite a que seu
esforço por averiguar se batia e insuflava, para se tornar apenas um adiamento,
fosse parte do recurso sináptico, que talvez já houvesse sido catalogado pela
neurologia_ ou pelo esoterismo, ou pela ciência dos sonhos e das lembranças das
vidas passadas, ou pela intersecção de ondas de dimensões alternativas
paralelas_, ou um dia seria, quem sabe. Assia seria mais uma “morena de frente
ao mundo”, ela e sua irmã, se eles não tivessem mais duas semanas pela frente,
só que a liberdade comprada dessa vez apareceria como tendo sido a dele.
Foram para Madri,
para Bruxelas, para as ilhas gregas, conheceram inúmeras pessoas, a maioria
jovens mas tendo também aventureiros de meia idade e senhores e senhoras que
faziam aquele percurso de autodescoberta pela duodécima vez, confrontadas pela
finalização dos anos que a suavidade do olhar adquiria um agradecimento
ancestral, uma melancolia que emitia uma crisálida na forma de seus corpos
enrugados, os ombros enlanguescidos pelas sucessivas despedidas da juventude em
todos seus variados graus, e que se justificava por ser o rastro que deixava do
retorno ao cosmo em suas matérias finitas. Depois daquela noite ele transara
com Assia em locais reservados, ou que era possível que soubesse que Kiria não
estava presente. Mas havia acabado. Em Creta, diante os campos decíduos onde
Odisseu a Eros revoluteavam nas pupilas ébrias, ele se sentara ao lado dela, na
comunidade de viajantes sentada em seus mantos e toalhas e com suas cestas de piquenique,
e a olhou longamente, abaixando os olhos não por timidez, enquanto aqueles
olhos dela, que antes lhe inspiravam noções mefistofélicas suspeitas, o viam da
mesma maneira com ela o vira desde que se conheceram no restaurante da
faculdade. Um casal muito velho estava sentados no declínio um pouco abaixo
deles, ele com uma camisa com uma estampa de uma cerveja black ale onde se via
um hippie octogenário sorrindo em cima de uma Harley Davidson, e com uma
bermuda folgada com bolsos laterais muito amarrotada, e ela com um vestido
floral que não se cansava em emitir uma cauda lateral expandida pelo vento, e
um chapéu de palha que ela segurava toda vez que a faceirice do vento serrano
tentava como uma cãozinho lhe arrematá-lo de cima dos cabelos, se olhavam
conversavam molemente, com muita atenção recíproca, como se um histórico de
sobrevivência individual que trançava-se em um muito vigiado sistema de cuidados
recíprocos lhes mostrassem que precisavam ser plenamente cordiais e cuidadosos
um com o outro. E Timos e Assia os olhavam, mudos, sorriam depois um encarando
o outro, como se a dizerem o que as palavras que se lhes aumentava no
vocabulário nas experiências daquele momento ainda não lhes autorizassem a
matizarem a apreensão do inefável que exigia silêncio. Quantas lembranças o
casal de idosos teria, que espécie terrível de felicidade que suplantara tanta
imaginável corrupção e acusações recíprocas havia enterrado abaixo de toda
aquela leveza. Não era para eles, nunca seria para eles.
Não
voltaram a ser ver, além dos cruzamentos rotineiros de dois ex-conhecidos pelos
corredores da faculdade. Timos se demitira do estágio, voltara às suas aulas
(por muito pouco tempo, porque pedira demissão delas também quando concluíra a
grade no final do ano). Estudara com moderado afinco sobre política e
filosofia, o brilhantismo de seu regime mental sendo transparente mesmo com
todo o muro anárquico de sua dissenção natural. Anos depois, vinte anos para
ser exato, Timos e Assia voltaram a se encontrar. Ela tinha se tornado funcionária pública do
ministério de agricultura, sua paixão pela China a alçara do doutorado para o
comércio mundial e ela se estabelecera como uma senhora redimida com a solidão,
morando agora em um apartamento despretensioso de alto nível numa rua que
atendia a todas suas necessidades perfeitamente acomodadas de divorciada que
come croque monsieur à noite com uma taça de vinho assistindo algum talk-show
em que presta atenção como uma criança hipnotizada por uma versão atual dos
Muppets. Um casamento com um colega de trabalho que não durou um ano e que não
gerara filhos ficara pelo meio. Três lances de escadas era a distância que
tinha que atravessar para chegar à rosa dos ventos de sua independência
estabelecida, com uma praça com bistrô e quatro postes de luz de sódio e alguns
bancos de ferro ornado sobre os quais não era uma mera casualidade do destino
que a fizessem lembrar-se de Paris, de certo ar em que transitavam em suas
acomodações mnemônicas um quarto pequeno diante um cinema desvalido, porque sua
fixações da juventude a fizeram ter pleno domínio de sua vida para ter
escolhido aquele local para morar, a China e as noites de leitura sobre o
costume da obscura geração Mu Guiying a fizeram senhora de si, gestora de seu
dinheiro, dona de seus sentidos, de suas manhas, de seus pequenos e
incontornáveis vícios advindos de pertencer à espécie humana; a banca de
jornais onde um senhor magro, de bigode que lembrava um teutônico de alguma
imprecisa e para sempre inatingível suspeita de que era uma estampa em algum
cartaz de festa da cerveja que vira em alguma representação de um povoado na
Baviera, e até ele poderia ser um detalhe que ela quis que estivesse ali, para
que, na volta do prédio do ministério, que ficava a cinquenta passos de sua
casa, pudesse fazer um cafuné em suas vistas observá-lo com seus suspensórios
perfazendo o enfeixe sensorial devido do clichê de sua boina xadreza limpa e
perfumada arrumados os jornais do mundo todo nas estantes da banca de paredes
de treliças e flores em vasos na entrada. Timos a encontrara na padaria em que
ela comprava seu brie, ele tendo ido ali por alguma distração, pois sua vida
não tinha ganho a áurea de ser perfeitamente manejável por uma vontade pessoal.
Ela quem o reconhecera, embora ele mais tarde pensasse sobre isso e achasse que
era mais uma manifestação de sua profunda inteligência tê-lo escavado de todo
aquele inchamento e maceramento corporal.
Ela fez uma
festa, o abraçou, falava alto o deixando sem jeito diante o assombro inesperado
daquilo, chamando os funcionários do local pelo nome e o apresentando como se
ele fosse alguém cuja importância em sua vida era restaurada naquele momento de
extrema felicidade. Em seu modo de existência no exílio qualquer mudança no
termômetro emotivo, vinda com a quebra da harmonia de decibéis, deixava-o muito
incomodado, o equilíbrio de sua percepção racional ficava em frangalhos e era
substituído por uma excessiva misoginia. Por isso achou que aquela garota
estabelecida em sua história, em um local glorioso, ressurgira como uma mulher
de meia idade louca e histérica para destruir a honrada herança da outra. Ela
tinha perdido a beleza, era óbvio, uma beleza fulgurante como a que havia tido
era um milagre que só se perpetuaria se a Assia tivesse sido devolvida ao
princípio criador junto a ela numa morte na juventude. Ela fez questão de
leva-lo a seu apartamento, preparou-lhe um chá de ervas que correspondia
milimetricamente com o avatar de velha solitária com deliciosas manias
domésticas remetendo à jovem que era tão afeita a seus cheiros pessoais e à
suas umidades quando a tirania de Timos a fazia chorar.
Enquanto
tomavam vinho, ela lhe perguntou se achava que tinha realmente transado com Kiria
em Paris, naquela noite. Ele lhe olhara firmemente, um meio sorriso surgindo, à
procura de onde estava a artimanha na pergunta. Depois, como se um pensamento
muito antigo, cujo adiamento distante por analisa-lo despertasse um sentimento
de ameaça, disse que achava que sim. Assia tombara a cabeça por sobre o escoro
do sofá, suas pernas cobertas por uma calça comprida que lembrava vagamente uma
influência chinesa dobradas na almofada e a taça sustentada por sua mão
equilibrista dançando de frente ao seu rosto, abriu a boca mostrando os dentes
fortes e brancos, com o rosáceo da mucosa úmida pelo vinho aparecendo num gesto
sem alacridade ou crítica, apenas que ela reavaliava uma verdade sempre renitente
mas também adiada. Era como se, naquele mundo simplificado e sem gastos
desnecessários de energia, aquela questão tivesse um exotismo estimulante de
uma era que se perdeu no passado; como se descobrisse em um manual de uso de um
brinquedo, subitamente reencontrado, uma finalidade do brinquedo desaparecido
que ela talvez um dia tivesse intuído mas que não levara a sério.
_ Até o momento
eu achava que isso fosse uma das poucas certezas da minha vida_ Timos
respondeu, com a presença espiritual de não deixar que o humor do encontro se desfizesse.
Ela se voltou
para ele e o observou com uma seriedade que realmente nada tinha muito a ver
com a seriedade taciturna e intelectualmente fanatizada de quando era uma
garota. Timos notou através do novo movimento calmo e descontraído dela para
mudar as pernas de posição os tornozelos roliços, imaginou ou viu uma pintas
negras do pelo depilado crescendo novamente. Seria mesmo a piada das piadas se
um tom sexual surgisse de um portal que os ligassem a duas décadas atrás, ela
tinha a faceirice agora da terna mulher que já alcançara a plenitude de toda a
sua confiança feminina. Não desmereceu sua ilusão, não zombou dele_ se o
fizesse, teriam ido de maneira mais fácil para o nível que a conversa exigia,
mas existia uma educação superior naquele avatar dela.
_ Você não a
viu mais, não é? Nunca mais depois que chegamos de Paris. Ela foi para as
Filipinas, quis se formar em administração de empresas depois que conhecesse o
mercado por dentro, era avessa a teorizações, tinha energia demais para ficar
apenas com os estudos.
Atendendo a
certa premonição, ele ficou em silêncio, mas ela percebeu a delicadeza da
suspeita e negou: Não, não. Não foi isso, ela ficou bem por vários anos e ainda
está viva. Chegamos a uma idade em que se tem que apontar esse detalhes
primeiro no discurso.
_ Mas então, transei
com ela ou não?_ Timos perguntou, sorrindo.
_ Naquela noite fomos apenas nós dois. Ela nem sequer estava
na sala. Foi para o quarto do lado, deitou-se em um sofá ferrugem tipicamente
francês, retirado de um filme de Agnès Varda.
_ Eu me lembro do sofá_ Timos respondeu, querendo disfarçar que não sentia uma perda com o fato daquela experiência ter-lhe sido retirada. Quando se importava com essas caras tolices da vaidade, saber que tinha tido Kiria em suas mãos era uma de suas lembranças mais valiosas. Sentiu a masculinidade viciada em quantificações totêmicas, as tantas cabeças de mulheres dependuradas na sala de coleção de sua mansão interna. Mas Kiria era diferente; não só pela aventura lubricamente incorreta, mas pela beleza inalcançável dela, sua força afiada como um machado, o modo de sua inteligência em ser cruamente direta, sem os subterfúgios das reflexões e das pausas metafísicas. Não era a mulher perfeita; aliás, quem tivesse se casado com ela deveria ter sofrido, não era feita para esse tipo de união normativa.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2021
Volta à Ítaca
A odisseia fizera bem para Kyria_ que profunda inocência a minha, que falta sagrada de premonição para ter achado isso, diante tudo o que ela viria a sofrer_, fizera bem para meu pobre e errático Timos, mas não para mim, que continuava como era antes, acrescentada apenas com a frágil lembrança do ar da França e da vertigem dos alpes suíços, uma quantas geometrias velhas e umas cornijas eônicas apelando para alguma indevassável nostalgia da espécie. Eu sabia que tudo havia acabado entre nós dois, de forma beatífica, ambos deveríamos apresentar um sorriso letárgico, falar sobre nossos antigos problemas como velhos octogenários falam de seus brinquedos de madeira sumidos no parque da mansão desaparecida. Ah, dizermos como é inefável a vida e essas porcarias abstratas a que estão cheios os jovens, sempre achando que estão passando de uma revolução mental e uma subversão do olhar intermitentes. Daí eu fui ao seu dormitório, creio que duas semanas depois; fui na cara dura, sem ter inventado nenhuma desculpa para justificar um ato tão anacrônica naquela nova fase de nossas vidas, mas não o encontrei. Seus antigos colegas me disseram que você havia sumido, pago a parte do aluguel correspondente e se mudado para a casa de alguém, não me lembro, de uma tia que voltara de Albuquerque, não sei. Passei dias desesperada diante o aborto da lógica de saber que te amava, que tudo o que eu havia passado para exorcizá-lo tinha sido um esforço vão, que enfim você com seu rancor invencível pela estrutura do mundo, suas fobias sobre a dominação e seu ódio ao poder estavam certos, o que acabava o transfigurando como um super-homem para mim, olhe só o quanto eu estava perdida e o quanto eu precisava de ajuda a ponto de cair no erro de supor que ela deveria vir de você. (Não se magoe ao ouvir isso, foram duas décadas e meia atrás e eu analiso aquela que eu fui com o destemor amoral de saber que eu estava enfunado em um estágio muito para trás de todos os passos evolutivos que você com certeza deu para frente, no caminho da luz, ou, sem sarcasmo, no caminho pelo menos do distanciamento daquelas sombras que já não tinham capacidade de te assustar.)
Caí em um catastrófico mau humor; as espinhas pulularam meu rosto de forma que se não fique desfigurada foi porque a compadecida piedade do tempo ajudou enchendo minha pele de camadas extras de gordura, estufando a maioria dos buracos das cicatrizes das espinhas para fora. Fiquei emporcalhada, não tomava banho, vestia as mesmas roupas, aproveitando aqueles dias finais antes das aulas, imaginando onde estaria você, se você retornaria para seu curso, o mais natural seria que você fizessem como Ivan Karamázov e assumisse sua falta de teto, seu magistral desvinculo a todas as instituições terrenas, seu peripatetismo por entre as dores do mundo para colhê-las e as reportar para seu núcleo espiritual conservado. Então eu fui justamente recorrer à maior e a mais simbólica das falácias de nosso namoro, o violinista. Não soube porque, vai ver se eu fosse até onde estivera a possiblidade de nossa mais abrupta desavença eu cambiasse algo que ficou para trás indigerível e isso pudesse me trazer uma transformação empobrecida e de segundo nível que eu teria direito já que minha odisseia foi inaproveitada. Oskar Liebeumicth, era o nome dele, ainda me lembro. Nascera em Principado de Mônaco, essa exoticidade ajudara que eu memorizasse alguns pormenores literários de sua personalidade. Encontrei-o nos ensaios de um quarteto de Schubert, no centro cultural da faculdade de música. Para o desagrado dos seus temores profundos, ele havia cortado o feixe de crina equina, fazendo um topete que lhe conferia um substituto burguês e bem menos proteinizado da áurea de macho dionisíaco de antes. Assisti ao ensaio e depois fui falar com ele. Na verdade me ofereci explicitamente a ele. Sem nenhum pudor, ou ao menos eu imagino que fora assim, nessa altura da observação oracular em que a velha narradora em seu sofá de couro italiano com o terceiro cálice de camembert na mão supõe interpretar essas fraquezas tremeluzentes e profundamente aterrorizadas transfiguradas em ousadia. Agora pensando bem creio que, se Oskar Liebeumich, o paganini das terras lendárias da lavagem de dinheiro e do paraíso dos magnatas bancários, me viu naquela noite com os olhos enfeitiçados pela minha graça feminil despertadora de libido as circunstâncias da imprevisibilidade como eu me apresentei deve ter colocado um filtro de aparo diante seus sensores corporais para que ele se apresentasse muito polido, muito distanciado, muito cavaleiril.
Eu estava quase chorando, de pé entre os poucos senhores e algumas senhoras prussianas em seu camarim para lhe dar os cumprimentos, minhas pernas mal me sustinham por cima dos sapatos marrons estornil que eu comprara em uma loja chique da cidade grande em uma das minhas andanças solitárias; eu sentia a meia calça que lhe acompanhavam, silentemente desconjuntada nas pontas dos dedos dos pés que ficavam massacrados no bico fino, e que mais acima enlaçavam minhas belas pernas de então até se findarem no início representado pela liga da cintura, esquentando minha virilha seca tornada desesperadoramente dessexualizada embrulhada na calcinha depois desse exorcismo que nós três buscamos encontrar a dez mil quilômetros e só você e Kyria haviam encontrado. Eu estava para chorar, parada na porta daquela salinha onde os grandes astros do futuro se maquiam e respiram a solidão efêmera de antes da apresentação, e que naquele momento tudo eram apenas promessas, Oskar Liebeumich ainda estava um ou dois anos longe de ser famoso como um dos violinistas mais jovens e talentosos, assim como as mulheres não eram prussianas um milímetro na realidade afora na minha imaginação exercida em romances de exilados russos, talvez donas de casa, estudantes de arte em cursos vendidos em apostilas e em encontros quinzenais, sem reconhecimento pelo ministério da educação, assim como os magnatas não deveriam ser nada senão velhos donos de livrarias cults da parte mais arborizada da cidade. Eu também era uma formação insurgente do que alguns anos depois eu viria a ser, a solteirona convicta, mesmo que entre a verdade e o conceito houvesse um marido despachado sem cerimônia e com mútuo compadecimento pela erraticidade humana, parada ali olhando o ás do instrumento com os olhos de uma vampira exangue, uma noive do Drácula que algum van Helsin distraído arrancada com a estaca sua morticidade sem fazê-la soltar o grito de terror secular antes de a pele se dissolver com os ossos e sobrar apenas uma múmia de duzentos anos, sobrando por misericórdia uma dama sem charme e com os olhos e boca borrados e já escoada de qualquer conteúdo peçonhento. Oskar sorria e beijava os visitantes e foi aí que me viu; o tempo ficou suspenso, como se a natureza tivesse feito um foco em seu belo rosto de queixo viril e nariz insuportavelmente aquilino para mostrar que eu lhe causara uma apreensão suficiente para ter-lhe cortado o sorriso_ o sorriso que, junto a tudo o mais daquela perfeição adâmica o deixava perdido de ódio e medo, o medo macho santificado por todas as biologias de que o padrão genético angariado em algum mapa de superioridade quantitativa haveria de fazê-lo destruído e humilhado, castrado e vituperado.
Ele se lembrava de mim, claro. Ássia, uma das poucas vantagens de ter um nome subalternamente midiático, uma propaganda que toda pessoa culta quer se reconhecer no entendimento consagrado. Engraçado que se passaram oito meses, não havia nenhuma história, só havia em sua cabeça, Timos, em sua cabeça e posteriormente na minha, por tanta insistência sua. É para rir mesmo, temos que rir disso. Nós fizemos se abdicar todas as arraigadas narrativas de nossos pesadelos e de nossas cismas imaturas, e tínhamos agora o direito de sermos livres, de termos nascidos de novo, e era isso que eu sabia que você e Kyria estariam fazendo, de olhar radiante e claro, de pés firmes e cheios de vigor, desbravando a vida salutar, que não se exibe, a vida filosófica e carregada de fé sublime, e eu estava tão atrasada e caída em fracasso e havia traído tão profundamente o propósito que eu revertera meu curso e decidira voltar a uma dessas histórias, a mais banal e contraproducente delas. A história com Oskar Liebeumich, o violinista do País de Gales que fizeram meu ex-namorado ficar enlouquecido de ciúmes. Por que você teve a audácia de achar que poderia remover essa fantasma pesado de um Oskar Liebeumich de sua vida? Por que você tinha a petulância de achar que seria assim tão fácil? O que um mês nos Alpes, e uma noite em Paris onde se achara merecedor de um bacanal íntimo com duas irmãs, haviam feito de legítimo para te dar a certeza de uma experiência libertadora genuína? Isso não existia, meu caro! Foi isso que eu tinha descoberto no trâmite daquela ilusão toda. Não existem arrebatamentos, ou se existem não são concedidos assim tão levianamente para jovens cheios de empáfia como éramos nós. Um sono, um langor de eras e gerações, passados pelo sangue apaziguado até um incrível grau de indolência de nossos avós boçais, para nossos pais boçais, e inoculados com extrema confiança em nossos avatares juvenis boçais, olheiras, odor rançoso piorado com perfumes caros, e com nossos buracos e falos tesos e sem graça de tanta manipulação sem nenhum pingo de sagrado.
Por que Kyria iria realizar de forma tão escorregadia e pacificada sua vocação ao comando mundial, sua imersão ao mundo empresarial, apenas porque ela atingira uma certa disposição interpretativa auto-convincente de ter esquecido o que deveria ser esquecido?
Por que você, Timos, iria atingir o próximo passo natural de ser um Ivan Karamázov ou o que é que diabos você gostaria de ser afinal das contas após tanta trama deixada pelo meio e tanta paixão intelectual cujo fim lógico era sempre escamotear o objeto visível para que ele continuasse não-visível e suficientemente obnubilado, para assim dar ensejo maior ao que você não queria ser? E por que apenas eu dessa tríade havia feito o trajeto santificado, a via sacra transformadora, tendo caído na armadilha de abrir os olhos antes da coisa ter se completada e assim visto os mecanismos expostos que não deveriam ter sido vistos, contemplado a farsa de tudo?
Quando Oskar Liebeumich dispensara as visitas, tendo me agarrado pela mão na frente dos olhares questionativos, bocas arreganhadas querendo perguntar se a grande promessa musical afinal tinha uma namorada mas sem a coragem para o fazer, me levando para o carro tendo retirado o casaco do terno e envolvido meus ombros com ele, eu fiz o que não poderia fazer na situação, chorei, em silêncio mas bombasticamente, você sabe que eu não tinha esse talento que algumas mulheres frágeis e belas tem de se tornaram exponencialmente ainda mais frágeis e belas quando choram, a ponto de se tornarem insuportavelmente hipnóticas para os homens; os homens, pelo contrário, estavam passivos a se desinteressarem de vez ao me verem chorar, fico vermelha em excesso, músculos até então relegados a um sono eterno eram chamados a darem sua contração máxima em meu rosto, de forma que se via algo do que havia reservado para o sortudo detrás daquela beleza prometêica dali a umas boas décadas, quando nem o rímel sutil nem a hena indiana mais cara poderiam esconder a velha murcha que eu estava destinada a ser. Mas mesmo assim, Oskar Liebeumich estava suficientemente interessado para que me colocasse no carro minúsculo, francês, estilo como é aquele do Mr. Bean da séria de televisão, e me levasse até seu apartamento. Ele só me dizia que estava tudo bem, me olhava com surpresa enquanto girava o volante dirigindo sua máquina enxuta e prosaicamente funcional até sua moradia querendo saber mas não perguntando o que havia acontecido. Subimos, não tinha porteiro no prédio, um prédio escuro de paredes descascadas, de certa forma tendo algo a ver com a disciplina ilesa de desejos desviantes dele, serviria para o deixar mais concentrado, me fascinava com algumas pinceladas de sombra a capacidade dessas pessoas de transportar toda sua necessidade estética para um mundo inoculável e hermeticamente privado apesar do cimento horroroso e do cinza prostrante.
Ah, Timos, o violinista era o oposto de todos nossos temores_ meus e seus. Onde estava meu pensamento, em que substrato do hades ele titubeava as pernas para me fazer enxergar toda a situação como a de uma mulher fragilizada que estava prestes a ser sodomizada pelo seu protetor ocasional, que tanto seria uma sodomização passível da mais purgativa critica bíblica pelo agente infrigidor ser um violinista, um ser devoto à arte, devoto do silêncio. Eu não seria puta nas mãos dele. Ele me cedeu sua cama, eu já não chorava mas mantinha-me calada. No rol das vergonhas aquela era até uma espécime pouco vistosa, com sua desprovidão de brio e sem desenhos peculiares nas secas asas presas ao corpo cravado na placa. Era como se minha derrota me devesse aquela pausa em todos os processos cerebrais e preconceitos civilizatórios, me dando o direito de ser estúpida, sem entraves do que eu julgava ter criado de socialmente importante em minha personalidade. Que se danasse meu academicismo, minha cultura, os tantos livros que eu li, os idiomas que eu aprendi, que se fodesse eu saber as trintas aulas avançadas do diagrama chinês. Eu tinha o direito de me livrar daquela entidade em que eu me encarnei de uma menina ocidental predestinada. Eu não era nada, e como era bom ser nada em um apartamento pequeno, iluminado como uma caverna tangida de amarelo cheio de calor e recolhimento, com os objetos aparecendo apenas o suficiente para o olhar apontar sua existência sem intuir suas funções e seus significados, uma moradia povoada na discreta medida certa de totens, amuletos, pequenos quadros paisagísticos, uma mesa com livros que eram tão sofisticados que prescindiam da necessidade de serem lidos, estavam ali porque tudo ali tinha apenas essa exigência descomplicada: existirem sem justificativa, ou então com uma justificativa que o estágio em que elas e eu estávamos na ocupação do espaço e do tempo não precisava ser adquirida agora. Um sursis.
Eu dormi com uma alegria que eu não sentia desde que era criança,
desde que meu pai me vinha à noite da loja de armarinhos que tinha e me dava um
beijo, cheirando a cola e a raspas de madeira, os talos do bigode se dobrando
com uma incrível maciez contra meu rosto me enchendo da sensação de que tudo
tem sua plenitude no universo, tudo tem sua tenridez e delicadeza, tudo está
moldado em uma escala do sagrado e talvez o drama nessa terra fosse apenas um
incidente involuntário resultado de nossa procuração não permitida em tentarmos
achar o nível de calibragem certo, o peculiar e ultra-fino tom que nos dê o
indicativo da posição correspondente de cada nota nessa melodia imorredoura e
perene e eterna. Meu pai que era dono de uma loja de antiguidades e que
trabalhara por 30 anos como professor de mecânica quântica na universidade
central, e junto ao qual eu aprendera tanta coisa que não vem ao caso falar
agora. Será que Freud e Lacan, ou a revista de psicologia, ou os anais de
psiquiatria tem que ser codificadas com a mesma leveza que eu senti naquele
apartamento? A nostalgia do pai. Descubra o perfume que o pai usava a você vai
fazer com ela o que quiser. Mas que merda, será que foi realmente a isso que
nossa pífia capacidade de transcendência nos levou? É disso que nós fugimos,
abraçando essas experiências forjadas com unhas e dentes e querendo receber o
arrebatamento pelas beiradas, por dedução, atingir o reino perdido com a
indolência da sensação do choque do acidente que é querer obtê-lo e não pela
limpidez impossível de um pouso seguro. Não há pouso seguro. Lembra daqueles
reis todos das dinastias chinesas, e os vinte czares Románov. Eles enforcavam
bebês e evisceravam mulheres grávidas, empalava embaixadores e samurais
titubeantes, desmembravam irmãos, envenenavam mães, mandava para o exílio no
ártico como gratidão as noivas rejeitadas. Tudo no mundo é um choque contínuo e
de energia inesgotável em que a mínima percepção do inominável é um efeito
colateral não estabelecido nas leis desse lado de cá, o que torna a fagulha de
obtenção um milagre. Você estava certo mais uma vez, como sempre esteve certo e
eu me recusava a sequer levar a sério essa sua lacônica cosmogonia. Não podia
ser tão simples, minha vaidade intelectual prenhe de vitalidade não podia
admitir que a aspiração ampla para uma multifacetada dialética fosse
acondicionada em uma teoria tão sem graça e coesa, sem reverberação e
perfeitamente prática. Sua teoria do segredo da existência era uma fórmula de
bakara infalível.
Tudo era vão, o ser humano era inconfiável e em última instância tendente ao morticínio, e a paz poderia ser simulada através do isolamento. Você era o santo da não-coaptação, o São Francisco cínico da negação. De uma forma diferente na finalidade das sombras, Kyria era semelhante a você. Ela chegara à mesma apreensão da verdade por caminhos próprios, com uma capacidade mais sólida que a sua, com um ingrediente feminino não-filosófico que era mais avançado e menos tediosamente amparado em uma melancolia heroica que a sua. Não há personagens femininos relevantes nos Irmãos Karamázov; ela não poderia nem ser associada àquela que mais pareceria com ela no panteão de mulheres melífluas e fortes de Dostoievski, a M..., pois Kyria era impermeável à maldade, e a bondade e os infernos das dúvidas espirituais estavam longe a uma distância impossível dela. Uma vez você me disse que sua vida poderia ser, na melhor das hipóteses, a continuação nunca escrita dos Karamázov, realizada no século posterior e em uma sociedade material outra que não a Rússia de aldeias de estradas de terra enlameadas do romance original.
Algumas vezes você me dizia que sua história alternativa pretendida não giravam em torno das grandes questões humanas, não queria saber o que seria do mundo se Hitler tivesse ganho a guerra, ou se Lênin não tivesse morrido, ou melhor ainda, se Tesla não tivesse sido destruído pela campanha difamatória dos magnatas que não queriam que os automóveis fossem movidos a eletromagnetismo e nem que a energia elétrica fosse distribuída de graça. Você gostaria muito de ver a história alternativa em que o velho Dostoiévski tivesse vivido mais uns bons 5 anos para que escrevesse a continuação daquela inusitada jornada de dois irmãos cujas opções já haviam sido extintas no primeiro livro. Aliosha Karamázov e Ivan Karamázov_ já que a terceira perna desse painel metafísico, o hedonista Dmitri, fora suficientemente coerente para morrer dentro da capacidade cumulativa de transtornos que a quantidade de anos que sua faixa etária lhe deu sobre essa terra. Aliosha era o santo, o homem que alcançara toda pureza e visão leve e compadecida, e Ivan era o filósofo, o errante questionativo e a mente que não para. Dois espíritos muito antigos, forjados talvez não no início do cosmos, como aquele outro mais sagaz e transposto em definitivo para outro planto que está nas escrituras, mas no princípio computável das mazelas e dos horrores que tão bem se serviu a mente que os inventara, mil anos talvez, ou talvez no início dos Románov, 1613, ou talvez eles fossem reencarnações assustadas pela imprevisibilidade do relógio teológico de samurais ninjins, que traíram a coligação por não verem mais razão na morte, nem que fosse o assassinato autorizado pelo qjin e por deus de seus inimigos. Eu também gostaria que algo do que seria esse livro viesse a tona, contanto que minha curiosidade seja menos predisposta que a sua por me entregar a enredos que me destituísse da narrativa convencional dessa realidade_ levei tanto tempo para me acondicionar a ela, me desviando o máximo possível dos seus percalços, que não iria querer me abster do animal semi-domado (ou do animal que presume ter nos esquecido por um tempo, em nossa idade avançada e já não despertadora de seu interesse). Mas você quis saber como seria fazendo-se de si mesmo a reencarnação da trama inexistente.
O fato de não ter um cérebro megatômico de tal potência por detrás, regendo seus destino e seus pensamentos_ estar livre de um Dostoiévski como um deus, o mais dicotômico e dual dos deuses, espargindo ternura e estridente loucura e eventuais mortes estapafúrdias pelo caminho, talvez como seja o próprio deus ortodoxo que, mudando-se aqui e ali em detalhes de somenos importância e tangidos de cores diferentes, é o deus de todas as religiões desde o começo do mundo. Estando livre de um deus assim, você pode ser um herói adâmico com uma liberdade ainda mais insuportável e extasiante do que a do Ivan Karamázov. Ivan se escandalizava de deus permitir a morte de uma criança, o que Timos Karamázov não poderia enriquecer essa incongruência brutal com tudo que ele sabe do século XX que Ivan não soube? Se Ivan não suportava a complacência de um deus que permitia que os cães de um nobre da corte czarista trucidasse o filho pequeno de uma das servas da propriedade, ou que a menina morresse de frio no porão da casa no inverno cumprindo o castigo do pai de se sentar sobre o barril de água, o que ele pensaria das tantas e tantas filhinhas desse mesmo deus que morreram nas desapropriações de terra dos kolkhozes, vítimas da fome, do canibalismo das próprias mães; o que Ivan pensaria dos fornos crematórios de Auschwitz e Treblinka, dos massacres de Ruanda, das crianças prostitutas das beiras do asfalto no Brasil, das crianças índias albinas caçadas e massacradas e tantas tantas e tantas outras. Eu havia lido Tolstói e Turgueniev quando estava no colegial e alguns anos antes, meu pai e minha mãe revezavam na leitura de Gógol, A dama do cachorrinho e tudo que fosse publicados nas línguas que eles conheciam do áspero e desestabilizador e comovente Checov, mas do dostoiévski eu confesso que nunca me atraia muito, eu tinha com ele uma ligação pouco venal e determinantemente respeitosa em que eu lhe dava a concessão de aceitar sua grandeza sem precisar comprová-la.
Creio que tinha lido a história do Ralkolnikov, que todo mundo minimamente declarado pensante havia lido, e só. Peguei os Karamázov na biblioteca da universidade antes do feriado da páscoa, motivada pelas tantas referências que você fazia da obra, e o li uma sentada, como dizem, li dividindo o livro com tudo que me estivesse pela frente, comida, lavar as louças, atender o telefone com a ligação de algumas das meninas que foram para a casa dos pais, com a ida ao supermercado para comprar gorgonzola, e finalmente na cama, com o cobertor puxado até o queixo com um cuidado redobrado pois eu entrava na aldeia invernal em que Dmitri Karamázov estava amarrado pelos mujiques para passar pelo seu destino definido do julgamento de assassinato. Talvez seja mesmo o maior romance já escrito. Ele me envolveu tanto que após ler, após passar pelos meninos que bateram no pai do pequeno D., depois pelo Grande Inquisidor (recebendo o sopro de tudo o que eu havia lido do existencialismo), e sobre o monólogo do Ivan e do stárets Józima, após fechar o livro em sua última página foi que percebi que a experiência havia sido tão cativante que nem cheguei a pensar nos ganhos que sua leitura teria em nosso namoro. O quanto eu estava inconscientemente me preparando para chegar mais próxima a você, meu pequeno Ivan, para onde mais o Ivan libertado dos grilhões da moral e do pensamento iria após ter enxergado tão longe senão para uma clínica de abortos?
Naquela época você era uma promessa, como Oskar Liebeumich, a seu modo turvo e impactante. Eu passava horas de adolescente apaixonada tentando imaginar o que você estava destinado a se tornar, mas sua completa deflação a tudo não permitia ver o que seria. Um escritor, um ensaísta, era a aproximação mais cabal a que eu chegava. Mas para isso eu cogitava que seria necessário um certo empenho, e sua extraterrenidade não era compatível com uma carreira acadêmica ou com os processos bajulatórios para angariar uma bolsa de doutorado. Você brigava com todo mundo, era algo que me afligia no que eu tinha de mais feminino e pragmático. Eu confesso que pensava que nosso namoro poderia dar em algo maior, mais duradouro, eu era uma moça esperançosa por debaixo de minhas ambições pessoais irrestritas, eu chegava a acalentar um andamento temporal em que nós sobrevivêssemos ao enfado e à necessidade de conhecer novos amores e alcançássemos vitoriosos um patamar depois de realizadas nossas ambições profissionais pessoais, e viéssemos a nos unir em um desses casamentos metalinguísticos e elegantemente possíveis a toda contradição em que se lançam escritores, cientistas e importantes sumidades mundiais.
Não vai rir de mim
agora se eu disser que meus moldes eram ternamente ambiciosos, a nível de uma
Angel e Marie Curie e Sartre e Bouviar. Eles não podiam ser tão infelizes como
aparentam nas fotos e nas fofocas oficiais, tão estranhos, reptilínicos,
doentes e obcecados na promoção do sofrimento mútuo; não podia ser que alguma
missão outorgada nesse mundo viesse com o adendo perverso de que os
super-homens e as super-mulheres devessem se comportar no refúgio do lar como
cobras peçonhentas; deveria ser a imprensa específica para esse tipo de gente
ousada e rara que não sabe que não se tece sobre ela as mesmas aberrações que
se tece sobre as pessoas comuns, as que morrem de sífilis e que introduzem nos
canais vaginais das esposas objetos impossíveis. Eu pensava que duraríamos, mas
o que você poderia ser? Desde o começo eu soube meu lugar, o que eu seria, mas
e você? Ivan karamázov não podia se casar, levar uma vida comum, suburbana. O
grande vazio era seu único deus, e sua existência, atravessando gerações e
cláusulas atemporais no registro das encarnações sucessivas só se presta ao
eterno diálogo com esse deus silencioso, imóvel e mimado, que quer tudo de seu
servo para si. Uma relação bem mais doentia que a das sumidades artísticas
dessa terra; você já tinha o seu Angel Curie e seu James Joyce; seu deus era
quem te mandava torpedos com uma letra concupiscente trêmula no papel
amarfanhado te pedindo obscenidades para mais tarde.
Desculpe, fui longe demais. Sobre o violinista? Não, mais uma vez eu tenho que ser
sexta-feira, 4 de junho de 2021
Emerson
Uma das mais tocantes cenas da literatura está em Dia de Finados, de Cees Nooteboom. Um amigo dança para outro amigo enfermo em seu quarto de hospital, após este ter se recobrado de seu estado de quase morte. Sem dizer uma palavra, ele entra no quarto e, sem música, executa com extrema seriedade os passos desengonçados da dança. Dia de Finados foi um dos tantos livros que eu dei de presente para meu amigo Emerson. Semana passada, ao ouvir que Emerson tinha saído do estado grave para estável, eu fiz o plano de que, assim que ele voltasse para casa e estivesse apto a receber visita, eu iria colocar "O Pulso", dos Titãs, no meu celular, e iria dançar para ele. Eu sou um péssimo dançarino e profundamente tímido para esses arroubos, mas eu estava convicto. Imaginei algo tão ridículo quanto aquele vídeo do Houellebcq dançando no deserto. Algo me dizia que quanto mais ridículo, maior seria a catarse. Não importa quem estivesse presente, todos iriam ver o sujeito com cara de idiota, de quase dois metros de altura e 110 quilos pulando e agitando os braços enquanto a voz imponderável da música fosse elencando cada uma das doenças que teriam feito a fatal diferença se o pulso ainda não pulsasse. Eu manifestei os sintomas da covid no primeiro dia desse ano, fiquei muito, mas muito mal, a ponto de pensar mesmo que iria para a UTI. Essa é outra história e só serve aqui para dizer que, quando enfim eu pude andar mais que dez passos, eu coloquei em volume máximo "O Pulso", e ouvi umas três vezes, junto com "Todo mundo quer amor". Eu que sou paranoico em jamais perturbar os vizinhos; eu que sequer gostava dos Titãs. Andei em torno da casa chorando, e ouvindo essas músicas, que eu senti uma necessidade inexorável de escutar, sabe-se lá por quê. Eu contei isso ao Emerson, antes dele mesmo se contaminar, e aconselhei: se você pegar, se tranque em casa, tome anti-inflamatório, se alimente bem, tome muita água, e só. Mas não; sem apresentar sintomas sérios, ele ia todos os dias ao médico e, num ato colossal de desespero, ele voluntariamente se internou em um hospital a 400 quilômetros de sua casa. Ficou três dias na enfermaria, sem propósito algum e, depressivo, muito assustado, e vendo o terror de perto de um pronto-socorro em época de pandemia, a doença tomou total frente nele e o levou à UTI, à intubação. Hoje o celular me acorda com a informação de uma amiga de que o pulso do Emerson parou de pulsar. Estou todo o dia sentindo o quanto eu o amava e nem sabia, e tremo a cada vez que sinto o quanto ele me fará falta. Com quem conversar agora? Parte da minha alegria com os livros e com a música se devia a ele, à ânsia de lhe apresentar aquilo nesses campos que eu acabara de descobrir. Suas últimas palavras para a esposa, antes de ser intubado, pelo vídeo do whatsapp, foram: "Eu devia ter aproveitado melhor a vida". Suas últimas palavras para mim, na fila do banco, quando comentávamos sobre o boato de alguns dias atrás sobre ele estar mal com a covid, foram: "Mas quem sabe eu não venha a pegar? Eu vou deixar um testamento doando meus livros para você". Eu respondi: "Eu tenho todos os livros que você tem". Ele retrucou: "Tem alguns escondidos que você não tem". Respondi: "Esses não me interessam".



