Em um vídeo sobre o álbum Bitches Brew, um músico de jazz depõe que achava estranho os críticos de jazz mais radicais, na época de seu lançamento, terem desprezado e condenado esse trabalho, pois, segundo esse músico, essa música já não era mais jazz, era algo novo, sob o qual não cabia mais o direito de ser criticado por um nicho específico. Essa é uma das minhas constatações corriqueiras quando li o leviano e excessivamente ácido texto que Nabokov fez sobre alguns dos principais romances de Dostoiévski. Como é de se imaginar, Nabokov destrói por completo qualquer possibilidade de que algum dia uma pessoa como Dostoiévski tenha tido talento literário. Tudo, aos olhos aristocráticos do autor de Ada ou ardor, perpetrado pelo autor de Os demônios, é grosseiro, infame, mal escrito e tosco. Das dezenas de páginas dedicadas em decantar Dostoiévski, as únicas que se ocupam com o que se pode chamar para os padrões nabokovianos de elogios são atribuídas a uma cena específica de Memórias do subsolo, nas quais o russo expatriado nos EUA reconhece justamente o que pouco é apontado: que Dostoiévski era uma grande comediante. Para firmar que realmente gostara apenas dessa cena, Nabokov a reproduz em toda sua extensão, o que ocupa 3 páginas do ensaio. No restante das avaliações_ que só se lê porque, afinal de contas, foram escritas por Nabokov, e porque para um leitor contumaz de literatura russa soam de uma desfaçatez e suprema arrogância divertida_, a impressão que se pretende passar é a de que Dostoiévski era algo assim como um sujeito pouco inteligente, desprovido da mínima capacidade de refinamento intelectual, e que é tão mau escritor e tão irrisório que sua imortalidade só se explica através da constatação óbvia de que a humanidade é uma ralé reflexa do autor. Nabokov chega à graça melíflua da bravata colegial de afirmar que a tese do assassinato e da vontade de potência por detrás de Crime e castigo é mal costurada e absurda, o que ele teria que rever toda a literatura do século XX que nela se embebedou à farta se alguém lhe confrontasse para se explicar (a questão limitante de todos esses textos, contidos no volume Lições sobre literatura russa, é que ele os escreveu para ministrara em obscuras aulas universitárias para alunos americanos, antes da fama).
Sim, Nabokov é um escritor extraordinário. Cometeu 3 obras primorosas, a autobiografia, Lolita e os Contos Reunidos. Também escreveu livros rasteiros e sem expressividade alguma. Mas no todo, Nabokov é algo um nível acima do excepcional virtuose estilista. Em sua autobiografia, Fala, memória, por exemplo, há páginas e páginas sobre espécimes de borboleta e sobre a personalidade de seus tutores educacionais, o que deveriam ser de uma chatice sem igual mas são absolutamente fascinantes. Há cenas de uma futilidade sublime em que ele se deleita em rememorar nostalgicamente os anos em que sua família era da aristocracia dos Románov; descreve o perfil nobiliárquico da mãe, o porte marcial do pai, os vestidos e roupas e detalhes sobre etiqueta. Descreve com minúcias a escrivaninha de seu gabinete de trabalho. E tudo é igualmente interessante e parece alimentar o leitor, ainda que Nabokov não esteja fazendo outra coisa que se vangloriando. Tudo nele é vaidade e exibicionismo. É por demais evidente que ele sabe que é um dos maiores estetas do século, e na delícia calma e onanista de se consumar em seus próprios poderes, ele acaba oferecendo isso aos leitores. Se formos estudar a fundo seus principais romances e contos, eles não dizem muita coisa: mas brilham com uma luz indizível. Lolita é uma caso patológico, aliás clinicamente não muito diferente do caso do Raskólnikov, que ele acusa de implausível, e que contêm uma história que, escoado o caráter equivocadamente erótico que serviu para potencializar sua fama, hoje soa banal. Seus contos são, quase todos, o que Picasso fazia: uma infindável exposição de genialidade artística que se afirma mais na metalinguagem e na anatomia estrutural da composição do que no enredo_ em um dos mais representativos, o personagem está viajando em um trem e o autor explora em 3 páginas as opções de que ele seja assassinado ou de ser inserido em algumas das formas clássicas da literatura.
Já Dostoiévski é o contrário extremo de Nabokov. Neste mês li O adolescente da única forma que se pode ler Dostoiévski, concentradamente, em uma semana. E para recuperarmos a comparação não finalizada que inicia esse texto, Dostoiévski não pode ser alvo de uma crítica literária, pois o que ele fez vai além da literatura. Em O adolescente, romance soberbo que mostra de ângulos inusitados porque Dostoiévski é um gênio superior, já no início nos pega em uma das páginas mais magníficas em que o personagem do título confessa que é dominado por uma ideia; que por essa ideia sacrificou todos os outros referencias de sua vida, a ponto de voluntariamente passar fome. O narrador faz algo que Nabokov nem em delírios ousaria fazer: se admite um sujeito com pouca inteligência, que não sabe descrever as coisas e que purga a deficiência cognitiva natural de seu 22 anos. O que ele faz ali, tanto o autor quanto seu narrador, é confessar sem brios que não é literatura, numa sucessão de afirmações de que é incapaz_ ou são incapazes_, de dizerem minimamente o que pretendem dizer. Mas é justamente assim, nessas insuficiências e nessas declarações de astuciosa ingenuidade, que Dostoiévski transforma seu livro em algo impagável, em algo extraterreno e para o qual as formas de estilo se mostram incapazes e empobrecidas para emoldurar. Se Dostoiévski parece não cumprir a tarefa insinuada de transformar seu narrador em um monstro moral equiparável a outros de sua extensa legião de casos espirituais, já que ele se abstém ao longo da obra em ser o mega capitalista desalmado que freme de vontade infernal no início, o romance não perde em qualidade ao ser desviado para o estudo de caso sobre o alvo cabal que é a juventude em uma sociedade politicamente fragmentada. E é aí que Nabokov se engana, assim como se enganou ao afirmar que eram medíocres escritores como Mann, Cervantes e Faulkner. Dostoiévski é uma bomba cerebral tão seriamente engajada em sua missão exploratória sobre deus, a humanidade, a política, as aberrações e deformações a que nos prestamos sob o cotidiano, etc, etc, que sua estética é muito mais profunda e pretensiosa que o mero luminar linguístico. Ele é muito mais visceral como escritor que não se estaca nas regiões mais baixas do profissionalismo: não escrevia apenas pela arte. Em seus textos maravilhosos no Diário de um escritor (lançado aqui em uma edição indispensável da editora Hedras, da qual se espera o cumprimento da promessa de editarem os outros 5 volumes da coleção), vemos nitidamente seu método de trabalho, ao tratar temas como a libertação dos servos na Rússia imperial e a severidade das penas capitais aos crimes contra a vida por todos os lados possíveis, suscitando nos mais distraídos a impressão de incorreção política.
Não há como comparar Nabokov com Dostoiévski. Pode-se passar bem sem Nabokov, ainda que se sinta falta de suas proezas da mais alta prestidigitação estética, mas Dostoiévski é indispensável. Nabokov, mesmo em seus momentos mais delirantes, é o mais rigoroso controle. Dostoiévski, o que soa um clichê, é uma fúria deliberada, uma profusão de energia e vigor. Nabokov, em seu ponto-morto idiótico, diz que Crime e castigo é literatura juvenil rasteira, cuja frase que lhe marcou como sintoma da mediocridade da obra foi: "A vela bruxuleava no quarto miserável, iluminando precariamente o assassino e a prostituta, que liam juntos o livro eterno". Ele nada fala sobre Dostoiévski escrever os melhores diálogos da literatura; de ter trazido para a literatura os mais amplos questionamentos filosóficos, ou o de ter criado algumas das entidades mais definidoras do homem do século XX. O que soa como imperfeição e pieguismo para Nabokov, na verdade é a sinceridade nua e plena de um escritor que, para parafrasear Nietzsche (um admirador de Dostoiévski, por sinal), sempre escreveu com sangue. Nabokov não fundou uma literatura; Dostoiévski sim.






