sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Anamnese _ fim



Na parte correspondente ao estudo da paranoia de Daniel Schreber em Massa e poder, Canetti mostra que Schreber sabia que estava louco para todos os parâmetros sociais, mesmo na fase sem retorno em que ele passou a viver inteiramente em seu delírio. A cosmogonia criada pela mente de Schreber é um dos mais assustadores e opressivos casos clínicos clássicos, uma espécie de marco fundador da psiquiatria, e o estudo de Canetti é tanto mais interessante do que o estudo famoso escrito por Freud, pois Canetti, como é sabido, era totalmente independente da ortodoxia da psicanálise, o que faz com que sua abordagem tenha uma certa liberdade esotérica. Schreber é um desses paranoicos que fazem com que aquele que tem contato com sua história sinta o temor de ser contagiado. A diferença entre a paranoia de Schreber com a paranoia de Philip K. Dick, além do defeito congênito de que foi uma causa possível no caso de Schreber, e o abuso das drogas lisérgicas associado a uma natural imaginação hiper-atrofiada no caso de Dick, é que o Dick escritor sabe se situar fora de sua personalidade delirante, enquanto o escritor Schreber é apenas um jornalista que narra suas muitas visões, simulando apenas uma fraca imparcialidade. Schreber conta sobre os raios que Deus envia por todo o universo e vem todos se convergirem nele, com uma minuciosidade inquietante que extravasa a sua excelente educação jurista e sua exímia erudição. Não tem como o leitor se sentir confortável em um discurso que aos poucos perde sua preocupação pela forma dialética de apresentar pontos de vista antagônicos, e se torna um labirinto onde no centro se posta a figura monádica da prepotência pelo poder de seu autor. Em determinado momento, na fase irreversível de sua loucura, Schreber se considera a "noiva de Deus", e evangeliza que o sentido de todos os bilhões de anos do universo tem como propósito o cortejamento de Deus pelo espírito do ente encarnado chamado Daniel Schreber. Esse namoro, essa dança de acasalamento trabalhosa do Ser Divino pela noiva Schreber, confeccionou uma realidade simulada, contra a qual Schreber se coloca em defesa, em que as pessoas, os prédios da cidadezinha alemã onde ele vive, e tudo que sempre o cercou em seus anos de vida, são disfarces e marionetes de Deus, artifícios sem vida e mecânicos cujo intuito é tomar Schreder nos braços de seu noivo plenipotenciário. Uma imagem que fica na mente do leitor é do Schreber absolutamente consumido, já fora do resgate do mundo, trancado em um quarto-cela de uma cara instituição psiquiátrica, agachado na cama, a única peça de um ambiente controlado para não o ferir, os olhos arregalados vendo infinitos fios de luz se conectando parasitariamente em seu corpo.

VALIS pouco tem a ver com Memórias de um doente dos nervos. Philip K. Dick tem uma prancha de salvamento que raramente se vê em outros paranoicos: um senso de humor paradoxalmente iconoclasta para alguém que julgava ser uma das poucas pessoas com quem Deus conversava. Há muitas passagens em VALIS de pura dissuasão simpática, nas cenas de conversas dos amigos malucos, que lembram os descontraídos diálogos de V, o romance de Pynchon. Aliás, a aproximação entre Dick e Pynchon é uma constante em VALIS (e no restante da bibliografia de Dick, pelo que ele vem constatando em leitura compulsiva). O que o leitor astuto percebe é que talvez, na poesia altiva e no anedotário típico dos romances de estrada americanos, VALIS tenha uma demência legítima escondida pelo amplo domínio da graça da narrativa de seu autor. Talvez Dick seja tão genial que ele consiga fazer a ponte entre o que tem que fazer, ou seja, um romance apesar de tudo bem digerível e cumprindo sua função de entretenimento, e ao mesmo tempo um testamento sério em que emite uma mensagem transcendente; o que faz com que o leitor pense qual desses perfis da obra ele tem que considerar realmente. É como se Dick estivesse dizendo: a graça externa da narrativa é para provocar riso e divertir, mas sua profundidade é para fazer o leitor refletir na cama, à noite. Pois é isso que se tem: VALIS fica muito tempo na cabeça do leitor. VALIS propõe questões que se fazem imprescindíveis, que saem do subconsciente aturdido pela rotina do conhecimento aceito e emplastado do leitor e se colocam no primeiro plano. Aqui Dick perpetra a mais ousada ambição do escritor: transformar o imaginário em algo tão convincente quanto a realidade, convencendo o suficiente para que passe a não ter importância onde um termina e a outra começa. De modos que aceitar que tudo seja imaginação de Dick, ou que tudo seja real, passa a não ter a menor relevância.

Ao contrário de Schreber, a preocupação por tomar a percepção por todos os ângulos possíveis é um dever para Dick. Tanto que ele se exonera de ser o personagem principal e cria um alter-ego chamado Horselover Fat, no começo do livro fazendo um interessante jogo de desfocamento entre Dick e Fat para avalizar sua honestidade quanto ao que ele mesmo investiga sobre as características de um e outro. Dick também é um personagem, o personagem narrador, que olha a Fat com misto de ternura, preocupação, descrença. É um belo recurso, um recurso muito humano e tocante: Dick em nenhum momento age com prepotência; sua paranoia, considerando bem por baixo esse diagnóstico limitante, em nada se aproxima das necessidades de poder de Schreber, o que em fundamento clínico já põe por terra que seja paranoia. Sua visão sobre si mesmo (tanto sobre Fat quanto sobre o personagem Dick) é revestida de humildade, ele não se julga Deus, nem mesmo dá por completo que tenha recebido algo legítimo de Deus_ no diálogo inesquecível que Fat mantêm na incrível cena final do livro, alguém lhe diz que ele pode acreditar no que escuta pois a mensagem foi enviada exclusivamente para ele, ao que Fat responde: se foi só para mim, então não é verdadeira. Dick aqui é o mais preparado para receber uma mensagem do sublime no campo da literatura desde Tolstói, e ele tem o ceticismo de Tolstói. Ambos, Tolstói e Dick, são os místicos do existencialismo, os que, por mais que são seduzidos para a propensão da Verdade revelada (principalmente no caso de Dick), professam a máxima de Pascal de que sua religião é a da dúvida sincera. Um dos generosos assombros de VALIS é que, depois de todo road movie místico, no final há uma forte inclinação de Dick para a conclusão de que talvez tudo tenha sido um estelionato tecnológico, uma pura ação humana (mais uma estratégia de um grande narrador após o leitor se sentir convencido?).

Dick é tão sagaz que ele se comunica com o cliniquês clichezístico da psiquiatria ao revigorar a palavra anamnese. Um termo sem graça e banal que equivale a um questionário de sintomas do doente, ele purifica ao trazer de volta sua etimologia, e a conceitua como "supressão do esquecimento". O que ele vê que ocorreu com Fat foi uma supressão de sua capacidade de esquecer. Ele repete as portas da percepção de Blake ("quando o homem conseguir abrir as portas da percepção, verá as coisas como realmente são: infinitas"), e o escritor de ficção científica que é funde a origem das religiões, com seus usos primitivos de psicotrópicos, com a ciência que diz que o cérebro é o mais potente catalizador não usado do universo.

Em um dos filmes de Jornada nas Estrelas, os astronautas da Entreprise chegam à borda do universo e encontram uma entidade que diz ser Deus. Aos poucos a voz de Deus vai demonstrando uma melifluidade que fica um tanto mais terrível por a tripulação da Entreprise se ver na dúvida de se a manifestação de Deus não teria mesmo aquela superior indiferença, aquela plenipotência absoluta que revela em contraste quanto o ser humano é minúsculo. O paradoxo do crente que perde a fé ao se confrontar com a prova de que tudo em que ele acredita é verdade (frase de VALIS). Em VALIS o leitor é levado ao que ele espera mas duvidava que o autor fosse capaz de oferecer com tamanha mestria: uma cena com a mesma intensidade e estupefação de Star Treck. Dick cumpre seu papel: o que é verdade afinal de contas? Quem é o louco? 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Anamnese _ meio



Como é a lógica desses relacionamentos pautados pela descoberta sexual e a insegurança da adolescência, o namoro dos dois acabou na branda forma trágica da vaidade ferida. A vaidade dele, que depois de 4 anos da acomodação em tê-la de prontidão para aceitar todas as suas grandiloquências de macho jovem à procura de sustentação heroica no mundo, ela teve aquele amadurecimento puramente feminil em sua tecnicidade de passar a enxergar esse mundo sem mais os amparos de algo que não fosse o mais lúcido pragmatismo. Algo que fora fomentado lentamente às custas dos desmandos sofridos na relação por esses 4 anos inglórios de aprendizado sobre a natureza frágil revertida para o desespero raivoso do adolescente masculino, e que só conservava a aparência de que houvesse brotado nela do dia para a noite. A lembrança nele, já passado agora dos 40 anos, ainda era latente, da tarde em que ela o escorraçou de sua casa e que ele viu nela a primeira versão daquilo que veria em uma série de mulheres que ele teria pela frente, a terrível perda do eufemismo quanto ao valor dele, a inexorável visão radioscópica de toda sua miséria tiranizadora. Soube no instante em que a coisa apareceu no rosto dela que ele estava extirpado em estado definitivo de sua vida. Ela não só não mais nutria o mínimo amor por ele, como tinha uma perene certeza de que o que houve entre eles estava longe de ser amor, mesmo o amor passível do aprimoramento social que ela acalentava em seus propósitos agora mais deterministas; aliás, ele viu nela a verdade de que se ele morresse assim que dobrasse a esquina, para ela pouco importaria. Saiu da casa com uma roupagem espiritual de um mendigo que perde sua deixa para passar a noite no último albergue da cidade, e dobrando a esquina não chegou a morrer para provar a consonância daquela lógica terrível sobre o coração das mulheres, algo que encolhido em seus ombros pouco protetores jamais achava merecedor de descobrir naquela altura da sua juventude, mas o que lhe aconteceu equivaleu em humilhação à morte, pois torceu o pé em um desnível da calçada. A torção foi tão forte que o pé inchou de imediato, e foi mancando sentindo dores lancinantes até sua casa, Sua mãe teve que chamar um tio para levá-lo ao hospital, pois seu tornozelo parecia uma batata-doce ultra-turbinada com os mais descarados agrotóxicos geneticamente modificadores. Ele passou o primeiro dos três meses de descontaminação da rotina de ter ela à seu bel prazer ao alcance de um telefonema, com o pé engessado e de cama, pois apesar da indiferença total de sua mãe quanto à sua previsão de morte ele tinha a certeza de que vivia seus últimos dias. Algo iria acontecer, algo indefinível a não ser pela áurea factível de que seria catalizado pela imagem de frieza dela que não lhe daria a importância de entrar pela porta de seu quarto e executar o homicídio, mas cambiaria o mal por zonas aéreas mais sutis. Ele descobriu ao final daqueles três meses, em que a lembrança dela desapareceu até um nível inofensivo de enquadro estatístico pessoal, que a maldição do homem é levar um tempo infinitamente superior ao da mulher para descobrir sobre a efemeridade dessa ridicularia inventada como amor, que elas descobrem isso no ponto ideal em que a cumplicidade no relacionamento extrapola o limite do inercialmente aceitável, e descobrem isso com a certeza concisa de uma visão mais fundamentada no mercado financeiro de um casamento futuro do que do baixo revanche contra o tempo perdido com aquele cônjuge obsoleto e incompleto, onde enxergam o conforto doméstico e a real proteção de um homem maduro para exercerem seus destinos de mães plenas. Por isso ela o esqueceu limpidamente naquela tarde, sem tempo para ódios e rancores. Enquanto os homens trafegam pela lâmina imaginária da eterna adaga romântica dos livros de aventura que moldaram seu espírito pueril eternamente preso a ilusões, e sofrem por três meses as agruras do pior inferno da abstinência, quando não se matam ou cometem as maiores barbaridades. Três meses, ele computava com surpresa; só esperar três meses e temos uma reativação da harmonia judiciária social, e foi-se sua vontade de invadir a casa dela e fazê-la de refém, e em consequência ter coragem de se matar diante o certo olhar dela da estatura de sua descomunal inconveniência.

Dois anos do rompimento se passaram e ela voltou a procurá-lo. Na mesma cama de casal da mãe dele, em um final de semana em que ele assegurou que estaria sozinho em casa, ela se despiu, sem aceitar um beijo e numa nova impressionante demonstração de funcionalismo sem palavras irrelevantes. e montou nele como o diplomamento definitivo de que era a sua forma agora piedosa de cumprir o assassinato que ele esperara com fervor naqueles três meses. Piedosa porque tendo se passado tanto tempo, isso não iria prejudicar mais ninguém, nem seu noivo que ele descobriria anos depois que ela tinha na ocasião e que por suas contas regressivas soube que se casaria alguns meses depois, pois se tratava de um expurgo de algum resquício trivial mas que precisava daquele sacrifício para não ganhar tamanhos inesperados no futuro. Quando terminou, ele perguntou se fariam mais dali para frente, perguntou por coqueteria pois sabia que não precisariam mais daquilo, e ela respondeu que só tornariam a fazer quando ela quisesse. E agora, ele intuiu essa mensagem, quase vinte anos depois, lendo o blog dela, de que aquela seria a hora de fazerem aquilo de novo, bastava que ele lhe mandasse um e-mail. Ele tinha certeza de que ela lhe mandara uma mensagem no mesmo grau aéreo de ninfa racionalizada desprovida de vaguidão sobre eles que ela passou a ser quando o extinguira, agora pelo ambiente cibernético que eles jamais imaginariam que existiria e poderia algum dia facilitar aquela sutileza de uma nova experiência sobre o desejo. Ele ficou dias imaginando o reencontro. Na ordem impecável dela, claro que ela não iria querer que ele fosse à Brasília. Seria na capital, no antigo hotel decadente do centro em que frequentavam no acirrado atendimento à libido exagerada daqueles anos que não respeitava nem o calor massacrante das segundas-feiras, um hotel que vai ver ainda era comandado pela mulher lésbica que toda vez fazia um elogio mais que cerimonial da beleza dela. Cada um em seu carro, ou talvez ela quisesse repetir as circunstâncias de ser ela a sempre buscá-lo no carro do pai, em algum lugar. Subiriam pelo elevador hollywoodiano de portas sanfonadas, que sempre o fazia lembrar de que era um ambiente ideal para um assassinato noir, e iriam para o mesmo quarto que a lésbica lhes reservava, o que o fazia imaginar que ali houvesse alguma câmera escondida e a gorda mulher gravasse as cenas da nudez dela e dos intensos entremeios corporais dos dois para assistir reservadamente mais tarde. Esse era apenas o mobiliário da cena, o que menos importava. O que ele mais tentava ver era como estariam um para o outro, a que exponencial chegaria o espanto de se verem no interstício súbito de ter se passado duas décadas sem que algum dos dois tivesse se visto nem erraticamente. Pelas fotos ela estava ainda bonita, mas ele não desconsiderava o uso ostensivo de óculos escuros e acúmulos estudados de adornos dela ao aparecer nessas fotos como um amaneiramento da realidade sob uma luz não previamente controlada. Em uma das fotos ele detectou um cansaço da pele, um detalhe praticamente escondido que talvez tivesse sido percebido por ela, mas que ela tenha aceito como uma introdução digna para que os olhares mais atentos já antecipassem sobre o que a técnica não podia acobertar sem artificialismo. E como ela o veria? Não sentia a mínima preocupação sobre isso_ mesmo se tudo fosse além do simplesmente teórico, coisa que enfim jamais aconteceria_, mas sabia que se alguma coisa pudesse ofender a sua já estoica vaidade, seria se ele recaísse, por instinto ou pelas armadilhas da falta de apreço real pelas situações que era algo costumeiro nele, naquela fragilidade em busca de refúgio de seus vinte anos. Se a mulher-concha, o símbolo valquiriano que ele inadvertidamente esperava que surgisse para cantar a sua predisponência à glória naquela época, retornasse como sabia que retornam em drogados curados já há muitos anos os sintomas de suas mais vigorosas viagens lisérgicas. E ele percebesse através disso que ainda não conhecia nada sobre si mesmo; que imenso desamparo seria naquele quarto de hotel vagabundo, após o coito_ que não teria, talvez, essa sinonímia tão cartorial com fins de corrigir qualquer ato indesejável de fuga para denominações que quisesse fazer uma ponte de conexão para aqueles paroxismos perigosos do sexo que eles tinham na época do amor_ ele descobrir capaz de emular o vício postural de se encolher sobre as axilas dela, ou passar a falar algumas daquelas tolices que antes eram toleradas por terem um funil de tempo a ser contado onde as possibilidades mais absurdas poderiam ainda evadir-se da gravidade de fundo. Ele não saberia o que fazer depois que saísse dali e reativasse sua vida normal, caso sucumbisse nesse deslize. Um ritual que se prestaria a quê? Nada disso seria pelo sexo, pelo culto aos anos em que tiveram o sexo de forma mais visceral que ele entenderia ser possível na vida, e somente para alguns privilegiados, e que depois, ele sabia, por mais que se obtivessem a aproximação cada um por si em seus outros relacionamentos, jamais seria o mesmo. Não seria por isso. Seria pelo quê? Haveria, afinal, uma última descoberta a ser feita através do sexo? Seria esse o ponto ao qual os levariam um aprimoramento tardio de uma revelação que eles se deixavam ter pela presciência de que seria algo arrebatador acima do que eles tiveram naqueles anos de juventude? Algo não fluvial, não enzimático, não febril, mas um conhecimento apto para suas idades, perfeitamente encaixável na circunstância complexamente vetorial de tudo que aprenderam em suas vidas de zelosos pais e cidadãos dessensibilizados da antiga leviana loucura. Serviria para confirmar que estavam certos, um ato sexual para terminar com um sorriso de sabedoria e uma despedida terna dessa vez para sempre, conscientes definitivos de que haviam sim encontrado o verdadeiro amor racional nos braços de outros, que cada um comprovava que o outro havia sido um canal onde o lodaçal do imaginário da traição nada tinha a ver com a plenitude tranquila obtida.

Ele havia tido um sonho com ela, há tempos, há muito e muito tempo. Se havia algo que ele tinha certeza sobre seus relacionamentos é que não a amava, nunca a amara, e não guardava nenhum rancor ou vergonha dela. Daí o estranhismo desse sonho. Se ele fosse atender às tantas especulações levantadas por Dick, não se tratara de um sonho, mas de uma percepção de uma realidade paralela em que havia um outro Charlles e uma outra Lorena. Às vezes ele chegava a simular acreditar nisso, principalmente porque ele não conseguia definir quando havia sido acometido pelo sonho, e nem quanto tempo ele durara. Simplesmente um dia acordou com a lembrança pormenorizada em vários detalhes de que ele e ela voltaram a namorar quando ambos já tinham mais de trinta anos, quase beirando os quarenta. Depois que o pai dela morrera, depois que ele se separara de uma outra mulher, depois que ela se separara do marido, subitamente, eles voltaram a se encontrar e, num mundo alternativo outonal, em que as árvores da rua da casa dela pareciam mais fractais em seu dourado enferrujado de velhas bijuterias circadianas, e os troncos respiravam com pulmões centenários cansados, ele ia buscá-la. Era tudo muito triste e calado, mas eles ficaram juntos. Ele sucumbira ao desejo dela de ter uma vida de casada com um homem distinto, aceitando conquistar a distinção às custas de tudo, e ela aceitara em troca a necessidade dele que não fora totalmente desfeita nos três meses e pelo inchaço do tornozelo. Ele procurava se lembrar bem, situar graficamente, o momento naquela realidade paralela, em que morreu em um leito de hospital, entubado e asfixiado pela própria incapacidade de respirar um minuto a mais nesse mundo em que ele fora conquistando o direito de pertencer, tendo atendido a todas a genuflexões exigidas que isso lhe custara.






quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Anamnese



Ele leu no excepcional romance VALIS, assinado por Philip K. Dick, que o universo é irracional, moldado pela selvageria violenta, mas que a partir de determinado ponto na história, uma côncava deterioração na ordem deu espaço a uma gota de racionalidade. Ocorreu uma invasão da racionalidade no universo. Ele leu essas palavras com êxtase, como costuma fazer sempre que se depara com as tantas intrusões de percepção ao absoluto que vê na arte, na ciência, nas conversas cotidianas, na religião informal, ou mesmo_ ou, principalmente_, naquilo que é conveniente chamar de loucura. Philip K. Dick, ao que parece e é imediatamente entendível, estava louco quando escreveu VALIS, ou se curava paulatinamente dos sintomas mais graves de sua loucura. Para todos os efeitos, o romance é uma auto-biografia dos anos em que Dick esteve declaradamente louco, deportado da realidade a um nível paranoico em que sua mente inusitadamente criativa confeccionou uma cosmogonia própria. Ele sempre foi fascinado pela loucura. Não nesse lance de querer ser psiquiatra, mas sempre foi fascinado pela loucura não sistematizada pela ortodoxia acadêmica, os loucos que são mais eremitas refugiados em seus mundos privados internos, não os loucos que são explicados no resumo deploravelmente pobre da escatologia do recalque de seus orifícios biológicos. Sheridan Le Fanu, Robert Walser, William Blake, Daniel Schreber, Arthur Bispo do Rosário, Swedenborg. Ele colocaria nesta lista de grandes notáveis, ainda, Kafka e Beethoven, que, na sua concepção, só não foram declarados loucos porque o poder visionário do primeiro só foi deflagrado postumamente em um mundo com seus eufemismos racionais já devastados, e o segundo porque a música salvaguarda para o bem ou para o mal seus criadores em uma categoria em que a loucura não aparece com tantos deméritos sociais. Nunca ouvira falar sobre a loucura de Mussorgski, por exemplo, naquele quarto invernal em que escreveu seus mais terríveis pesadelos, enquanto Le Fanu é tido como um pobre pinel indefeso escutando atrás de si na vida real os passos das entidades invisíveis sobre as quais escreveu seus contos.

Por isso na noite de natal, quando todos estavam dormindo, ele se trancou na biblioteca, já um pouco alto pelo espumante espanhol que sua irmã trouxera, e uma garrafa de seu fiel Gato Negro, e pôs-se a ler VALIS. Ouvia a casa reverberando no silêncio da madrugada, imaginou a respiração de sua mãe, de sua filha, de sua esposa, e da irmã, naquele estereofônico cósmico sofisticado que é a noite em uma casa fechada, e seguia na leitura do livro. Acontecera uma coisa, como sempre. Muitas coisas. Se estava lendo aquele livro, que sequer pensara em Philip K. Dick há anos e não nutria nenhum interesse especial por esse autor, era porque a imprescindibilidade inesperada de suas leituras não programadas agia mais uma vez. Em um mundo onde o esoterismo desaparece nas frestas do cotidiano, a olhos vistos, ter essa impressão de uma mensagem direcionada de algum lugar para compor sua lista de leituras, era um agarrar terno à sua dose de incorreção à lógica. O que acontecera, pela ordem do mais brutal ao mais terno, era: primeiro, seu vizinho de frente, o advogado milionário dono de dez lotéricas e que desde 4 anos mantêm diariamente o contrato de um grupo de pedreiros na construção de um bunker faraônico, sofreu um grave acidente de carro, na noite do domingo antes do natal. Ele fora buscar no aeroporto da capital sua filha de 17 anos, que cursa medicina em Minas Gerais, e há 50 quilômetros antes de chegar na cidade, deparou-se com dois cavalos soltos na estrada. Estavam no carro mais a outra filha de 7 anos, e uma amiga da família, que junto a ele sofreram escoriações leves. Todo o impacto da batida caiu sobre a sua filha mais velha. Ele ficara sem saber sobre a gravidade da tragédia; sabiam que a casa, o bunker, com seus altos muros indevassáveis, está deserta e sem sinal de qualquer movimento, as luzes de neon do escritório de advocacia de frente apagadas. Sabiam que pelo facebook solicitaram doações de sangue. Só quando foram à livraria da lotérica, que sua esposa perguntou à funcionária notícias sobre a menina. Sua esposa lhe contou e ambos ficaram um longo momento em silêncio. A funcionária disse que a menina passara por duas cirurgias no rosto, iria passar por mais outra no maxilar; quebrara todos os dentes; não fora retirada da sedação; que os médicos disseram que não sabiam se ela iria andar novamente. Ele ficou quieto diante o volante, ao ouvir a esposa contar. Ficou analisando o quanto deveria se sentir mal com isso, o quanto deveria se sentir chocado. Em vez de grande indignação e reconhecimento humano, ele sentiu um vazio sensorial. Vasculhou com toda sinceridade que devia para com a menina, para ver se detectava em si algum indício de alívio, ainda bem que não foi comigo. Lembrou do personagem em Ruído branco que diz ao outro com um enorme câncer de fígado: não vou mentir para você que eu penso que melhor isso ter acontecido com você do que comigo; é perfeitamente humano pensar assim, por isso você não deve me recriminar. Mas não viu esse alívio em nenhum lugar dentro de si, ainda que tais coisas, dentre as armadilhas ilesas à auto-avaliação, sejam as mais impenetráveis.

Ele caiu em uma ciclo de negatividade. Não era supersticioso, mas às vezes se surpreendia de como as coisas passavam a não funcionar ou a quebrar em suas mãos, quando se tornava negativo. O máximo de controle que obtivera nesses anos de combate contra tais períodos foi o de não falar mais sobre eles. Antes saía por aí reclamando que não entendia, deus isso, deus aquilo. Agora, fica em silêncio, segue vivendo com absoluta normalidade, com o humor surpreendentemente mais apurado, mas sente que se um pássaro predispusesse a fazer o clichê clássico de pousar em sua mão, o bichinho iria encolher e sair assustado, trôpego pelo ar, até cair morto em alguma moita, ou quem sabe se a negatividade não teria nenhum pudor mais de se mostrar a todos ao fazer com que a avezinha se estrebuchasse no chão logo em seguida, no centro da praça e para o horror das crianças. O controle da tv a cabo não funciona em suas mãos, mas nas mãos dos outros da casa sim. A azaleia que sua esposa comprou murcha sem motivos, senão os que ele sabe sobre sua radioatividade. Seu notebook deu pau. Levou o note para o conserto, o rapaz ficou três dias com ele, usou um secador feminino (como chama aquele aparelho que as mulheres usam no cabelo?, o rapaz, no intuito de ressaltar seus esforços) para ver se a placa mãe não soldava, mas não teve jeito. A placa fundiu, o rapaz disse. Ele o olhou não tão de todo assustado, porque sabia que o único culpado era ele próprio por não ter sido previdente, e pensou nos tantos esboços e trabalhos literários nos quais trabalhava, gravados naquele computador torrado. Havia feito cópias em hds externos, não de tudo. Talvez a parte perdida não fosse tão importante. O rapaz lhe propôs pagar 150 reais pela carcaça do aparelho, ele respondeu que ia ver, conforme fosse, voltaria. Entrou numa loja e, ao fim de um dia de pesquisa, comprou por um preço aviltante outra máquina. Dólar alto, recessão acentuada em vista. Levou o novo computador para formatação, e o velho para casa. Ligou o velho por curiosidade, para ver que nível de ruído da origem do universo estaria aparecendo em sua tela fantasmal, e lá estavam, os arquivos restaurados, as fotos, os 180 cds do Mozart pela Phillips que levara uma semana toda para baixar e não fizera back-up, a discografia do Elvis Costello, as inúmeras páginas de Panorama 17 em várias variações de preguiça e desespero criativo, as primeiras 50 páginas de teste do romance que estava escrevendo. Tudo lá, funcionando que era uma beleza. E o carnê da prestação do novo notebook no porta-luvas do carro. Ele pensa em duas alternativas: ou o negativismo estava acabando, ou passara para outro avatar mais intrincado, em que o que era pervertido era a confiança das relações pessoais. O que ele estragara era a índole do rapaz do conserto, que queria lhe fazer crer que a placa mãe do aparelho se fundira, para comprá-lo por uma bagatela. Volta ao programador e ele diz que o note novo veio com um defeito na tecla "M", que às vezes se afunda acionando uma infinidade de mmmmmms histéricos na tela. Claro que ele não sistematizara essa teoria da negatividade e não pensava sobre ela a um nível racional durante esses momentos, senão teria se sentado na cadeira de frente ao homem e começado a chorar, solicitando em desespero que lhe trouxessem um pai de santo. Ele pensara nisso bem depois, ao se sentar já com o note novo em mãos e escrever sobre o assunto_ o note que ele levara de volta à loja, sob a proteção um tanto frágil do Código do Consumidor que estabelece a troca imediata do produto com defeito por um novo, e que lhe disseram para ele ir usando o aparelho defeituoso até sexta-feira, quando trariam um novo de outra loja e o reporiam. (Não tendo a resolução para o problema ocorrido nessa linearidade insofrível: o gerente, um cara amável e solícito em todas as outras ocasiões que lidara com ele, fora atingido por sua radiação, se mostrando misógino quanto à legitimidade de que um computador recém retirado da loja estivesse mesmo avariado, ao que ele precisou recorrer à parte simiesca de sua personalidade ao invocar processo, polícia e a perda inexorável que a loja teria de um cliente com um histórico de 15 anos de compras. Isso tudo para, depois, em casa, a letra "M" seguir dali para a frente sem a menor mácula de imperfeição.)

Na porta do programador, ele encontra seu amigo Emerson, que acabava de pagar ao lado sua mensalidade da internet a rádio. É uma das raras, senão únicas ocasiões, em que ele tem a oportunidade de falar sobre assuntos elevados. Ao longo das semanas ele tem que se inteirar passivamente sobre a mesma trivialidade boçal sobre regras econômicas provincianas e modelos de carros, e sobre quem está ferrando quem em diversos graus de literariedade. Os assuntos falados nas rodas de seus conhecidos naquela cidade é o suprassumo do tédio e da imbecilidade consistente. Sua sorte é que ele tem essa veia palhaçal, quando percebe que um silêncio exagerado pode passar a imagem inadequada de sisudez, ele recorre ao histrionismo mais baixo. Com seu amigo Emerson, a tecla do diálogo é outra, uma eletricidade de temas possíveis alimentados durante a ausência um do outro faz com que muita coisa se perca da memória, que anteriormente ele tentara fazer exercícios mnemônicos para se lembrar quando o encontrasse. Tanto que, ao Emerson descer de sua velha bicicleta azul, eles ficarem um diante o outro na paradoxal atitude monossilábica dos que não tem nada a dizer. O músculo da interação entre eles vai relaxando e começam a aparecer as notícias culturais. Emerson acabou de ler o primeiro volume dos Karamázov, que ele recomendara; parece entusiasmado, tocado, enternecido. Muitas vezes ele se enraivecia pela aparente falta de emotividade de seu amigo por esses grandes livros. Dava vontade de dar-lhe um tapa imaginário na cara, ainda mais quando, diante um puta filme, ou um puta texto que ele lhe recomendava de determinado autor, e se preparava para desenrolar seu cordel de divagações, Emerson apenas lhe respondia: "Loco demais". O cara era o maior devorador de livros em um raio de dez mil quilômetros, e fazia questão de externar uma falsa idade mental espelhada pelos zumbis do segundo grau para quem dava aulas. Emerson costumava escrever textos de revolta primários contra o sistema, e afixava-os no mural da faculdade de história da cidade. Era uma emulação anacrônica e constrangedora de uma banda de rock nacional que ele gostava, e das tantas vezes em que Emerson lhe passava um desses textos, ele sentia as glândulas salivares encolherem abruptamente. Doía o pescoço. Ao menos ele não gosta de rimas, santo deus!, pensou. Em determinado momento em que a amizade entre os dois foi ficando mais intensa, e que ele viu que por um má interpretação inercial da intimidade por parte do amigo fazia com que tais textos fossem parar cada vez mais em suas mãos, ele escreveu em um dos textos no mural uma frase crítica. Falava sobre o infantiloidismo do texto, para que o autor variasse de assunto. Ele escreveu a frase com uma caneta tinteiro, olhando para os lados temeroso de ser flagrado, não só o teor como as circunstâncias do crime repetiam o descerebralismo plástico do amigo. Ele se arrependeu por ter feito tal coisa, pareceu uma traição. Os textos acabaram, nunca mais houve nenhum no mural. Talvez se ele tivesse tido a coragem de falar cara a cara, externasse o que era irritante na auto-limitação que o amigo se impunha, a crítica teria sido construtiva. Imaginou o amigo lendo, com choque, a frase, ao buscar a esposa na faculdade, coçar sua imensa barba marxiniana, e com puro desconsolo arrancar o texto e jogá-lo fora, julgando se trata de um outro adolescente que lhe respondia.

Emerson está bem mais loquaz já faz um tempo. Se esforça para falar em suas conversas. Chega a traçar longas e interessantes reflexões. Na calçada da avenida onde conversam, com borracharias, carroças, carros de som falando com estridência descomunal sobre a queima de estoque de uma loja de sapatos para o ano novo, seu amigo relembra a reflexão de Ivan Karamázov sobre sua incompreensão irada pela indiferença do Ente Superior quanto ao sofrimento infantil. O garotinho que acerta uma pedra em um dos galgos do amo, e o amo faz com que os cães destrocem o menino ao colocá-lo como presa da caçada. Isso tudo diante os olhos da mãe do menino. Lembra a nota de rodapé dizendo que tal fato ocorrera na verdade, na época de Dostoiévski, gerando uma comoção social de certa relevância violenta. Ele responde ao amigo lembrando de várias passagens em Guerra e paz, Memórias de um caçador e nos Karamázov, que prefiguram a sombra do massacre da revolução. Há uma cena impressionante de caçada em Guerra e paz em que o mujique caçador não se contem diante a imperícia do amo em abater o animal caçado, e inclusive se nega a cumprimentá-lo no final. Essas coisas que formam a figura premonitória maior em um tapete.

Depois passam a falar sobre a menina acidentada. Ele se surpreende um pouco ao ver o sofisticado cérebro do amigo em suas reviravoltas retóricas tentar dizer com sutileza que talvez houvesse certo determinismo por detrás da tragédia. O pai da menina impunha um regime de quase escravidão aos funcionários da lotérica; a usura era um sinal característico da família. O que ele aceitou sem muitas reservas foi o fato comprovado de que o pai dirigia em alta velocidade. Um sujeito atarefado mesmo em uma noite de domingo. Ele meio que concorda com as coisas que o amigo diz, por hábito do diálogo, o que talvez não ia tão de contra o que bem no fundo ele se permitia pensar. Ele fala então de VALIS, sobre a teoria de que o universo é irracional mas que foi invadido por uma luz de racionalidade. Nunca o termo irracional foi-lhe tão revelador. O ser humano cada vez mais brutalizado é a afirmação de que a luz tinha muito caminho pela frente. Isso faz a gente pensar, ele disse, retornando ao assunto da menina, no que fazemos para nós mesmos merecermos uma compensação cósmica.

No capítulo final de True detectives, o detetive Rust diz algo colhido de Dick, de que, enquanto esteve em coma, ele entrou na profundidade plana do universo, no escuro incomensurável, e quando estava lá ele pôde sentir a força do amor de sua filha morta por debaixo disso tudo, e como foi ruim voltar à vida, como ele queria ficar naquele amor acolhedor que o abrangia e o protegia. O universo era escuro e irracional, mas foi invadido pela luz. E a luz, ao contrário do que parecia, estava ganhando.

No primeiro volume de José e seus irmãos, Thomas Mann cria uma cosmogonia. O homem foi moldado no barro de sucessivas metamorfoses, e em determinado ponto, o espírito foi insuflado na carne.

A outra coisa que aconteceu foi que ele obteve um contato inesperado de sua primeira namorada, uma mulher que anos atrás ele cometera o ato incauto de fazer um comentário no blog que ela escrevia. Naquela ocasião, ele digitara o nome completo dela no buscador da internet, e se deparou com um blog em rosa, absolutamente desconcertante no anacronismo dos textos publicados, em que uma mulher beirando os 40 anos rememorava antigos prodígios vaidosos da juventude. E como ele fora seu primeiro namorado por 4 anos, ele acabou encontrando uma menção a ele em uma lembrança que o descrevia com os pudores comedidos de se o marido dela resolvesse algum dia averiguar aquelas leviandades. O rapaz intelectual que não dava bola para nenhuma outra e que ela conquistou com sua beleza e sua bravura feminil, ele reconheceu com constrangimento, ser ele. Ele digitou uma resposta, algo que dizia em poucas linhas que o rapaz tímido agora era um senhor bem casado, e publicou. Na mesma hora em que viu a frase grudada na tarja branca dos comentários para todo mundo ver, ele se arrependeu, embora aparentemente ninguém frequentava o blog. A intenção fora essa?, ele pensou, sentindo-se um tremendo estúpido, que as matronas eventuais que dividiam o gabinete de trabalho dela e que por ventura fossem convidadas a visitar o blog, as antigas amigas daquela garota que se lembravam do frágil magricela com 16 anos, pudessem saber por uma incompreensível vingança a elas dirigidas, que aquele garoto havia sobrevivido bem da adolescência? Ela retirou o comentário, mas todos os dias ele visitava o site e lia os textos precários que ela escrevia. Receitas de beleza, uma dicotomia em que vaticinava que as mulheres deveriam aceitar a necessidade biológica de seus maridos por sexo fora do casamento, e mais um bocado de besteira. Ela atingira seu objetivo: na superfície, não envelhecera, congelando-se na atmosfera das revistas Capricho que assinava nos anos em que namoravam. E pelas fotos, ela ainda continuava com 20 anos, os traços faciais tendo recebido uma espécie de bóson de Higgs nas escoras que as zonas de luz dos músculos recebiam de sombras bem recortadas nas concavidades das bochechas e do pescoço, que realçavam a magreza cultivada contra a tendência evolutiva de acúmulo de gorduras da espécie, e que só poderiam revelar a degradação natural que avançava quando se olhava as fotos maldosamente desconsiderando a estética de olhares fatais e viradas de rosto estudadamente surpresos. Um dia uma leitora apareceu na caixa de comentários. Ele foi ler detectando em si mesmo a emoção do fanzine diante uma reviravolta na vida de seu ídolo. Alguém que não assinava o nome escrevera um texto longo com uma ira afiada, matematicamente calculada para destruir todo o castelo de vento da dona do blog. Vociferava contra sua vaidade vazia, o ridículo de suas afirmações de programa de entrevistas, da estética alienada, e sobretudo de sua total submissão ao direito do macho de se impor em todos os sentidos sobre a mulher. Ele releu várias vezes a resposta isolada na frequência das micro-pulsações imperceptíveis da tela, sentindo algo misto a uma revanche por ver ali expresso todos os seus piores pensamentos sobre o blog, e uma pena por ela, em seu universo imutável em que preservara seu quarto rosa naquela fáscia artificial na internet, ter que ler aquilo, ter que ser confrontada com aquilo. Era uma mensagem de alguém que tinha muito mais proeminência que ela na escrita e que articulava argumentos de refutação que soavam como evidente covardia. Ela havia expresso desde o começo de seus textos que a escrita deles servia a espairecer sua mente do estudo intensivo para prestar um concurso público no fórum de Brasília, onde morava com seu marido empresário e seus dois filhos pré-adolescentes. Ele pensou que se a pessoa que respondera também estivesse estudando, se fosse alguém do convívio dela e estivesse de olho no mesmo concurso, ela não teria chance alguma. Ela apareceu no final da tarde, e manteve o comentário. No dia seguinte ela deu sua resposta, no mesmo estilo vaticinado de menina que é líder de torcida, mas com uma educação que revelava enfim o que a idade lhe trouxera. De incorreção, só levantou a suspeita de que talvez quem escrevera aquilo não fosse uma mulher. Daí em seguida, ela interrompeu o blog. Passados uns cinco meses, ele retornara ao blog e viu uma última notícia, dizendo que ela tinha atingido o propósito de passar em um concurso forense.

E uns dias atrás, ele reencontra, pela mesma curiosidade de bisbilhoteiro, outro blog dela, que ela acabara de abrir. Agora ela tem mais que 40 anos, e revela uma tristeza que em nada parece superior à ingenuidade que tinha. Ele sente um enternecimento poderoso em relação a ela. Não escrevia mais sobre seu marido, o atleta lutador de karatê que aparecia nas fotos com uma barriga tanquinho e uma sunga de boneco do Falco, com óculos escuros diante uma praia, ou aparecia ao lado dela, ela com vestidos talhados na mesma impressão de seriedade social que lembrava-se de ver na adolescente cujo desejo de ascensão social era taxativo, mas que nunca lhe caía bem, deixando-a como uma boneca quadradona bonita mas encontrada inadvertidamente nos estoque de lembranças de uma tia velha, e ele com sua barba por fazer de empresário aventureiro, ambos dentro de um avião indo para o sul. Agora ela não escreve sobre o quanto era divertido andar na garupa da moto que ele comprou para eles andarem nas imediações do lago, não fala sobre quanto ela é presença importante para o bom desempenho dos negócios do marido. Ele lê e entende pela metade, como é notório o tipo de visão cubista que se tem de antigos conhecidos através das redes sociais cibernéticas. Esses espaços, essa vaguidão, é muito mais expressivo para ele, acostumado com esse conhecimento subliminar; ele é como aqueles labradores que detectam a depressão no amplo campo de incompreensão verbal entre duas espécies simbióticas ao sentir o cheiro da exanguidade que vem dos joelhos da dona. Pode ser tudo impressão, mas os indícios vão se casando em uma premonição reversa, em que o adivinhado vem do passado. Em seu blog anterior ela nem sequer escrevera sobre o suicídio de seu irmão, apenas dissera que sentia muita saudade, e reproduzira a letra de uma canção popular. O irmão se matara porque também era-lhe taxativo desde a infância a ascensão financeira, e no meio do caminho vertical seus gados e seu universo de chapéu de cowboy, caminhonetas e cerveja ruíram. Agora, no blog novo, ela escreve novamente para ninguém_ para ele_, sobre o quanto sofrera, o quanto tudo era uma enorme perda de tempo. Ele não se expressava nessas palavras; era bem outra coisa; falava sobre modelos de vestidos, o correto e o incorreto para se usar; falava de uma apresentadora da tv pública. Mas o labrador identificava a obsolescência e a perda da fé naquele imobiliário não mais irrepreensível. Ele se lembrou de um antigo filme que assistira em sua juventude de madrugada na tv, As sete faces do Dr. Lao. Uma mulher entra na tenda do dr. Lao, este utilizando a sua face de velho cego que prevê o futuro, e essa mulher, desconsoladoramente fútil e burguesa em seu vestido rosa e sua cara de empáfia, pergunta ao velho o que lhe espera o futuro, se muita riqueza e felicidade. O velho, com sua cara devastada pelos furos dos olhos, que tem algo de Rembrandt e demônio, diz à mulher que a única coisa que ela preservará do agora é sua empáfia e sua frieza em relação às outras pessoas, e lhe mostra a paulatina decomposição que a acompanhará em sua longa vida solitária até o envelhecimento e a sepultura. A mulher abandona a tenda aos prantos e correndo. Não que ela, sua antiga namorada, seja como a mulher, mas é como se ela houvesse tido a lucidez da farsa que era seus propósitos e sua vida bem arrumada, com suas concepções nunca refutadas em nenhum momento daqueles 40 anos, concepções implantadas em sua cabeça pela mãe misógina que havia vampirizado o marido, seu pai, até que ele morrera de câncer em um leito de hospital no começo dos anos 90. (Ele se recordava disso, de como ela chorara em seu ombro e ele, querendo consolá-la, disse que seu pai havia sido uma pessoa admirável, ao que ela respondera que ele nunca teve nada de admirável. E ele recordou de única foto que vira do pobre homem, aos vinte e poucos anos, na pose incompreensível para o mundo eternamente impermeável a seu calado direito de também ter ilusões da juventude, levemente encurvado para a frente com um mão como tapa-olho, uma truncada inspiração dos filmes de pirata que fracassava diante seu terninho de incipiente funcionário de banco, de olho no que o futuro lhe reservava, e mesmo nesse único demonstrativo de seu recolhimento havia o referencial em torno da megera com quem se casara, pois a foto fora-lhe apresentada como "olha só como papai era assim que se apaixonara pela mamãe". O futuro fora de uma vida insossa em um banco que lhe explorara até a medula, de uma família que lhe massacrara sem nunca lhe dar direito de voz, da única forma de evasão que conseguia vinda do tabagismo compulsivo, que lhe matara junto a todas essas primeiras coisas.)



sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Hoje, assim como qualquer outro dia



Por vários motivos, reedito este texto que escrevi por ocasião de uma data comemorativa para as mulheres que amo.

A minha mais distante memória é de uma mulher com vestido florido abaixo dos calcanhares e óculos grossos bifocais me dizendo sobre os benefícios de se levar uma vida reta para fugir do fogo do inferno. Todas as outras incursões em meu passado além desse momento resultam em borrões de quedas de velocípedes, os besouros que me aterrorizavam invadindo a casa, o sorriso de meu pai, o cheiro de baba no travesseiro da minha mãe, a minha cadela Paquita, vestígios da lembrança da febre da catapora, o som dos postes de madeira estalando nas tardes de ventania. Nada que se iguale em impacto aos relatos das chamas eternas que essa mulher me dizia, com a voz doce e estranhamente consoladora. "Se você aceita Jesus no coração desde agora, jamais irá passar por esses sofrimentos. Crescerá uma pessoa boa e cheia de paz no coração." Desde cedo tive a certeza de que as seis mulheres que me amaram e com quem morei até os meus dez anos, o faziam cada uma da sua maneira e com profunda sinceridade, tanto que essa senhora, que era uma das minhas 3 avós_ ou a minha madrasta-avó_ recorria a ingênuos artifícios de desobstrução do peso daquelas imagens do inferno ao me trazer a maior das maçãs, ou me dar um abraço e um beijo fortíssimos que determinava de vez que nenhum demônio iria ter forças para me tirar daquela fortaleza de proteção.

De forma geral, só as mulheres da minha família são dignas e seres-humanos comprovados desde a raiz dos cabelos até à sola dos tamancos. Os homens, por outro lado, são os eternos amaldiçoados pela sina obrigatória de repetir incessantemente o vício do patriarca pelo orgulho forçado da fornicação. Meu avô teve 22 filhos oficiais com as sete esposas de seus sete casamentos ou amasiamentos concomitantes. Até anos depois que ele morreu, costumava aparecer todo ano mais um sujeito espigado, de ar desatento e a latente concupiscência do olhar, que comprovava que era mais um de seus filhos bastardos procurando um rumo no mundo. Eram morenos, brancos dos olhos azuis, negros, mas sempre com aquela reprodução genética seriada do porte alto e dos olhos de peão saliente que parecia ser uma janela na alma através da qual a presença do meu avô vigiava, atenta, se seria respeitado o prosseguimento obsessivo do espólio sexual que ele deixara. Todos os homens da minha família são infelizes e se parecem, e, só de uma geração para cá pode-se dizer: as mulheres, cada qual, são felizes à sua maneira. Só a geração das minhas primas, que estudaram e se tornaram independentes financeiramente, tanto que se eximiram da opção do casamento, é feliz; as minhas tias, pelo contrário, afundaram num oceano de péssimas escolhas amorosas que faz-me crer que isso não passa de mais um efeito colateral da idiotia dos homens da família, que as infundiram o mal exemplo.

Até os dez anos morei com cinco das mulheres infelizes que compensavam por bom tempo parte de suas agruras em dispensar amor para a única criança da casa. Morávamos em um enorme apartamento no centro da capital, em frente a uma catedral portentosa, que muito desgostava minha avó pentecostal que me falava do inferno. Minhas duas tias solteironas, minha mãe divorciada, e a Dezi, que trabalhou para a família nas atividades domésticas até se aposentar, não poupavam abraços e mimos comigo. Minha mãe sempre foi uma pessoa dura e defensiva, mas, assim como se pode angariar amor de narrações do inferno que culminavam em maçãs chilenas gigantes, eu retirava de seu amargor de batalhadora solitária para conseguir pagar minha escola e colocar o único bife na mesa de seis lugares em meu prato, nos tempos de recessão, como o seu sentimento incomensurável materno nas sobras de tempo entre o trabalho e a faculdade de Direito. Minhas duas tias tinham a aparência atarantada que a consciência da velocidade incontida do tempo lhes dava. Lembro o quanto eram bonitas, até na maturidade, quando, já morando longe delas, flertei com a tia Marta num ponto de ônibus quando ia para a minha faculdade, e só depois vi, constrangido, que era ela. Mas como ela e minha Tia Tércia, depois que o destino nos retirou do purgatório daquele sombrio apartamento aquecido pelas mais ternas apreensões, cada uma teve uma vida infeliz, maluca; cada uma cedeu à depressão de que jamais dariam conta do que se perdeu para sempre em suas infâncias e elas poderiam, enfim, parar de procurar, porque não iriam achar nunca. Minha tia Tércia dera entrada várias vezes no núcleo do Pronto-Socorro, com hematomas e escoriações múltiplas, até que teve a coragem de dar um basta no marido. E minha tia Marta foi retirada do quarto onde morava por seus outros irmãos, que receberam chamadas dos vizinhos sobre sua franca deterioração mental, suas orações de madrugada sentada na calçada, seu sofrimento pela vergonha de não conseguir parar a rotação das pupilas que o lítio administrado todos os dias causava.

As únicas dessas que suportaram bem seus fardos foram a Dezi, que é uma paraibana de língua dura que nunca deixava nada por menos, que perseguia ladrões que lhe arrancaram a bijuteria do pescoço e os atiravam de cima da bicicleta e lhes deferia chutes nas costelas; a minha avó Mirtes, que me ensinou muito sobre a vida em suas cartas do exílio em Boston; e minha mãe, que, em seu silêncio, em sua aspereza, me deu o que mais tenho de importante, educação e uma noção fundamentada de ser incorruptível. Minha esposa me diz, brincando, que ainda bem que eu fui o único homem que puxou o lado feminino da família, ao que eu cruzo as pernas e lhe tiro as mais deliciosas gargalhadas com minha imitação já clássica de uma mulher afrontosa: "Eu sou mulher, sua coisinha!" Não sou adepto desses dias espetaculosos em que se comemora a compensação por tanto sofrimento, como se isso fosse arrombar anos de martírio apenas pelas propagandas das lojas de perfumes e bolsas. Mas enquanto escrevo isso, são 16:41 da tarde, e minhas outras duas mulheres da minha vida estão para chegar aqui em casa, após uma ausência de uma semana , e não vou me negar, hoje e sempre, de dizer à minha filha e à minha esposa, o quanto, absurdamente, as amo.

Elas e eu

domingo, 23 de novembro de 2014

Dias de chuva



A chuva é maravilhosa. Chove ininterruptamente aqui há 4 dias. Uma atmosfera que combina com a soturnidade confortável da casa e o prazer da leitura. Passei estes dias envolvido intimamente com Robert Musil; o vício era tanto que cheguei a cogitar em uma lista alternativa dos meus melhores livros e colocá-lo lá entre os cinco primeiros. 

Entremeando esta leitura, li alguns contos desse volume magnífico da Antologia da literatura fantástica editado pela Cosac Naify, cujas assinaturas de Borges e Bioy Casares o torna menos imprescindível que mítico e cultuado. Esse livro tem uma inteligência fina por detrás, que o situa além da quase previsibilidade de seus títulos. Tem o Pata de macaco, um conto que eu amo durante muito tempo e que ainda não o tinha na minha biblioteca, e que me pareceu ainda mais desamparado agora do que quando o li na juventude_ mas com um toque vulgar que não tinha reparado antes, uma certa insuficiência que, em contrapartida, tornam ainda mais humanos esses leitores inveterados que foram Borges e Casares. Há uma gema preciosa de autoria de Casares, A lula opta por sua tinta, que é pura inteligência e humor finíssimo. Há um conto de Maupassant que não figura entre seus melhores, e nem talvez entre os segundos melhores, mas que corrobora com o intuito de que essa antologia se presta à correspondência idiossincrática da personalidade de seus organizadores, o que o torna mais genuíno do que se em seu lugar houvesse um Maupassant mais puro. Há uma série de excertos curtos, de três linhas, que são absolutamente deliciosos. E há, o que confirmei com renovado espanto há poucas horas, essa diatribe inclassificável que se adéqua a todas as expectativas da sublimidade literária, intitulada Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Esse é o conto mais extraordinário, genialmente bem escrito e maravilhoso que já li. Chega a ser algo próximo à loucura, literalmente. Li esse conto várias e várias vezes, desde que ele provocou aquele assombro majestoso e profundo de quando o li pela primeira vez lá pelos meus 15 anos. A sua primeira página é de uma leveza e ardilosidade que só pode ser definida pelo adjetivo multi-simbólico de borgeano. Borges o escreveu, com absoluta certeza, em um estágio de alteridade de consciência que me faz correlacionar com uma definição de felicidade de Nietzsche: um conto escrito com a leveza de uma borboleta ou de bolhas de sabão. Vou transcrever agora o início da parte 2 desse breve conto, uma das páginas mais engraçadas e arrebatadoras da literatura; notem a traquinagem de como foi escrito, a sua alegria satânica e sua laconicidade paradoxal de onde partem infinitas insinuações deduções multifocais (Martin Amis foi de uma obviedade correta ao confessar seu deslumbramento pelos contos de Borges, nos quais cada página equivalia a romances inteiros). Lá vai:

Alguma lembrança limitada e minguante de Herbert Ashe, engenheiro das ferrovias do Sul, persiste no hotel Adrogué, entre as efusivas madressilvas e no fundo ilusório dos espelhos. Em vida sofreu de irrealidade, como tantos ingleses; morto, não é sequer o fantasma que já era então. Era alto e apático e sua cansada barba retangular já fora ruiva. Acho que era viúvo, sem filhos. De tempos em tempos ia para a Inglaterra: visitar (presumo, por umas fotografias que nos mostrou) um relógio de sol e uns carvalhos. Meu pai tinha estreitado com ele (o verbo é excessivo) uma dessas amizades inglesas que começam por excluir a confidência e que bem depressa omitem o diálogo. Costumavam fazer um intercâmbio de livros e revistas; costumavam bater-se no xadrez, taciturnamente... Lembro-o no corredor do hotel, com um livro de matemática na mão, olhando vez por outra as cores irrecuperáveis do céu. Uma tarde, conversamos sobre o sistema duodecimal de numeração (no qual doze se escreve dez). Acrescentou que esse trabalho lhe fora encomendado por um norueguês: no Rio Grande do Sul. Há oito anos que o conhecíamos e ele nunca mencionara sua estada nessa região... Falamos de vida pastoril,  de capangas, da etimologia brasileira da palavra gaucho (que alguns velhos uruguaios ainda pronunciam gaúcho) e nada mais se disse_ Deus me perdoe_ sobre funções duodecimais. Em setembro de 1937 (nós não estávamos no hotel) Herbert Ashe faleceu devido ao rompimento de um aneurisma. Dias antes, ele recebera do Brasil um pacote selado e registrado. Era um livro in-oitavo maior. Ashe deixou-o no bar, onde_ meses depois_ eu o encontrei. Comecei a folheá-lo e senti uma vertigem assombrada e ligeira que não vou descrever, porque esta não é a história de minhas emoções e sim a de Uqbar e Tlön e Orbis Tertius. Numa noite do Islã chamada a Noite das Noites, abrem-se de par em par as secretas portas do céu e é mais doce a água nos cântaros; se essas portas se abrissem, não sentiria o que senti nessa tarde.

Eu quase chorei de rir ao reler e reler essa página hoje. Parece Monty Python. Que piedosa orfandade tinha esse sujeito Herbert Ashe, que criança solitária crescida era ele. Visitava um relógio de sol e uns carvalhos na Inglaterra. O pai de Borges estreitava um amizade com ele, verbo para a qual era excessivo. É delicioso isso. Isso é raro, não se vê muito nem entre a mais alta literatura. Uma dessas amizades inglesas que começam por excluir a confidência e que bem depressa omitem o diálogo_ que anedota sofisticada, e como Borges faz com que nos fiquemos completamente à vontade com sua genialidade, uma vez que reconhecemos a sutileza de seu amplo universo; e o reconhecemos com a morte da sisudez através do riso desbragado. Não me surpreende Vargas Llosa dizendo que um dos piores sofrimentos dos escritores latino-americanos era suplantar a vontade imperiosa de escrever como Borges. E nisso voltamos ao conto de Maupassant escolhido para a coletânea: lá pela página 291 encontramos as seguintes frases "o deserto cujo ar transparente e leve ignora, dia e noite, as obsessões", e "ao descer por uma rua inverossímil". A coletânea orgânica revela que sua consumação segue o roteiro pessoal de mostrar as influências que foram construindo os escritores Casares e, principalmente, Borges, pois essas frases maupassanteanas, repetindo o ensaio Kafka e seus precursores, são frases automaticamente assumidas como borgeanas. Talvez venha da impressão que teve Borges com esse conto parte do seu manejo artesão de adjetivos inusitados e inesperados, cujo inverossímil é bastante recorrente, e cuja quebra do período com seus usos muito particulares de apostos e vocativos é algo bem evidente para seus leitores.

Essa antologia, pois, é uma maravilha. Um belíssimo livro, que dificilmente algumas de suas outras edições pelo mundo superam essa edição primorosa da Cosac. O carinho da edição é tão atenta que, ao pegar meu volume das obras completas de Borges, editado pela Globo, para confirmar coisas sobre esse conto de Borges, minhas vistas doeram instantaneamente com a crueza da página branca da Globo. A impressão suave e a folha que absorve o excesso de luz ambiente da Cosac é só mais um mérito desse livro que parece que foi feito sob medida para mim_ o que cada leitor pensará o correspondente para si mesmo.

sábado, 15 de novembro de 2014

Lendo Musil



Meu leitor autônomo, esse ser que habita em mim e sobre o qual exerço bem pouco domínio, não consegue parar de ler O homem sem qualidades, de Robert Musil. Esse livro tem sido responsável pela fama de marido e pai excessivamente tolerante que a Dani diz que suas amigas passaram a me retribuir, pois é bem fácil e mesmo muito agradável ficar esperando a Dani e as crianças, seja o que for que elas façam e para onde elas vão, dentro do carro ou sentado em um banco de praça, ou escorado em alguma árvore, uma vez que esse romance esteja lá comigo para me entreter. Se a Dani vai para a cabeleireira, lá está o marido modelo dentro do carro, alvo dos olhares assombrados de todas as outras senhoras de família dentro do salão para as quais declaradamente seus maridos não tem nem 1% da disposição de espera; sem saberem, porque do ângulo de visão em que elas estão é impossível ver, que minha cabeça baixa não revela a atitude de um cochilo, mas a leitura de Musil. Semana passada, a Dani foi questionada por uma amiga, estando nós em um parque vigiando as crianças brincando, se eu estava estudando para prestar algum concurso público, já que eu passava pelo martírio de estar sentado ali distante, embrenhado na leitura de um livro, e para quem a Dani respondeu, com inevitável ar de jocosidade, que eu era assim mesmo, gostava de ler sem propósitos práticos imediatos nenhum. A mulher demorou, segundo relatou a Dani, a consertar o queixo de volta para o nível normal na linha do maxilar, já que essa sua peça anatômica teimava em permanecer decaída em estado de perplexidade.

Quando eu volto da academia de musculação, pela manhã, paro o carro na praça principal, e me sento em um dos bancos, com o Musil de três quilos na mão. A leitura desse livro é compulsiva, exige bem menos atenção do que eu previa (embora, claro, eu dê toda a atenção possível), e está sendo motivo de intenso deleite. Me dá uma baita vontade de voltar para a situação acadêmica de ter que escrever uma monografia, pois tenho o tema perfeito: as raízes de Rayuela em O homem sem qualidades. Assim como Faulkner está para Garcia Márquez, e o Sartre e Camus estão para o primeiro Vargas Llosa, Musil está para Cortázar. Isso é evidente e incontestável assim que se passa a ter intimidade com O homem sem qualidades. Dele Cortázar retirou as intensas cogitações filosóficas, enleivadas de iconoclastia e distorção das lógicas da ótica; retirou o espanto bem humorado de virar de ponta cabeça os conceitos arraigados pelos costumes, a sociologia e a história; retirou o excepcional domínio de enxergar a magia explosiva e oculta por detrás da mesmerização dos rituais cotidianos. O mesmo exílio voluntário de não-coaptação de Ulrich, o herói de Musil, se encontra nos heróis de Rayuela, e a Maga reflete os apelidos criados pelo herói de Musil para encobrir a mundanidade das grandes mulheres do livro, investindo-as de romantismo. E a voz de sofisticação que tanto me impressionou em Cortázar, vem toda de Musil, o que Cortázar destilou com o movimento surrealista e o non-sense latino-americano criado por ele. E é incrível ver a limitação dos estudiosos de Cortázar em nunca ter visto isso, pela culpa evidente de que Musil tem a má-fama de ser incompreensível ou germânico demais, ou simplesmente porque Musil é pouco conhecido em nosso continente. Mas Cortázar dá uma dica importante dessa influência, já que dedica um capítulo de seu grande romance em reproduzir um excerto de O homem sem qualidades.

Esse Musil tem 1273 páginas, na edição comemorativa dos 40 anos da Nova Fronteira. Estou para acabar a primeira parte do livro, que se encerra na página 704, e que é, propriamente, o romance lançado em 1930 e que teve enorme sucesso. As outras 500 páginas equivalem à continuação virtual inacabada sobre a qual Musil trabalhou até o final de sua vida, e que varia o número de páginas e a quantidade de capítulos aceitos ou não do espólio de rascunhos conforme as edições que o livro tem pelo mundo. No Brasil, dispomos dessa tradução, assinada pela Lya Luft (excelente tradutora) e Carlos Abbenseth, o que é um trabalho memorável. O que dá um pouco nos nervos é que essa edição tem mais erros de revisão do que seria desejável para uma obra dessa importância, mas..., relevemos. É um livro realmente magnífico, fundador (fácil ver também influências reconhecidas ou não em muitos outros escritores importantes), que exige um lápis sublinhador para acompanhar a leitura, e que provoca profundas e incontáveis perturbações. Musil tinha plena ciência do gigantismo que estava escrevendo, e sua extrema segurança o coloca entre os maiores escritores de todos os tempos. Como deveria de se esperar em se tratando de um livro pouco conhecido no país, esse livro custa muito caro; deixei de comprá-lo por várias vezes por causa disso, até que, há algumas semanas, o achei por 74 reais (frete grátis) na Amazon, o que equivale a praticamente metade do preço. Assim que terminar a primeira parte, retorno com uma análise sobre a obra, para os raros que se interessarem por algo desse tipo.

P.S.: O homem sem qualidades é composto de capítulos pequenos, frenteados por títulos histriônicos, que se leem com agilidade de contos ou mesmo crônicas. Esse é um dos poderes da obra: as mais de mil páginas, e a linguagem sofisticada, imergem o leitor com uma fluidez deliciosa, sem experimentos vocabulares de um Ulysses. E a escrita de Musil é direta, às vezes dura, sem pomposidades, sem plasticidades acadêmicas. E as partes narrativas alcançam uma pureza invejável_ como no capítulo que trata da transferência do assassino de mulheres Moosbrugger para uma casa de detenção. Está aí também mais similitudes com Rayuela, já que se vê esses mesmos procedimentos neste Cortázar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A frigidez emocional reinante



Tolstói no ensaio Uma confissão, e Dostoiévski nos discursos do padre Zossima, dizem a mesma coisa: integrar-se no mistério da existência é deixar-se atravessar pela alegria de viver. Tolstói fala de suas enormes depressões durante suas certezas de que Deus não existia, e de como intentava acabar com sua vida para escapar do peso da gratuidade, até resolver o problema do absurdo ao descobrir que, instintivamente, a natureza é destinada a acreditar em Deus. E acreditar em Deus era compartilhar da alegria da criação, independente de especulações filosóficas, intuições metafísicas ou códices religiosos. Só se mantêm vivo aquele que é alegre. Bashevis Singer, em seu comovente conto Alegria, faz o rabino que perdeu a fé depois que toda sua família sucumbira à peste, ouça em seu leito de morte suas desaparecidas esposa e filhas lhe dizerem: "Devemos estar sempre alegres." O padre Zossima diz que devemos respeitar as crianças e os animais, e deixá-los imolados, porque eles são a expressão mais pura da alegria de Deus.

Isso me dá o que pensar. Não se preocupar com nada. Seguir adiante, com menos bagagens possíveis. Assim que eu fui conquistado pelo gato vira-latas que está morando aqui em casa. É um bichinho tão delicado, tão equilibrista da sobrevivência, tão simples e descomplicado. Descobri que eu sempre tive um medo supersticioso de gatos, um medo tolo. Achava-os frios e distantes, megalomaníacos e tiranos. E não tem nada a ver. Esse gatinho pula no meu colo, me crava de leve os dentes (até minar sangue) de tanta volúpia, e me segue para o quintal e procura a ameaça desconhecida por sobre o muro como um autêntico companheiro. Come o que lhe dou: hoje mesmo devorou um prato de macarrão; ontem, comeu o resto de carnes que eu lhe atirei no chão. Ele ainda não tem nome, e não tem vasilha para comida. Ainda está em quarentena de não se aceitar de vez que ele é nosso novo bichinho de estimação. Ele veio do nada, e resolveu se instalar no sofá da garagem. E forçou a amizade de maneira mais despudorada possível, como se fosse um amigo distante de vínculos amorosos inabaláveis. Ele invade o quarto de brinquedos da casa e persegue as bolas de plástico com uma entrega faceira; ontem o vi instalado no canto da bicama da biblioteca, com uma solenidade de gentleman que não quer ser incomodado após horas de leitura. E eu o pego no colo, ele se estende com uma maciez lânguida que revela indignação, e dou-lhe uma bronca suave, e o coloco de volta no sofá de fora. Há uma série de temores ainda: toxoplasmose, hidrofobia, e, em última escala, o temor de que passemos a amá-lo e seu instinto libertino faça com que nos abandone. Brigas lá fora por fêmeas no cio, crianças maldosas com espingardas de chumbo, tocaias de cães de grande porte. Antes que o envolvamos, a velha prevenção dialética do amor nos aponta os contras para que sopesemos com razão. Eu que nunca gostei de gatos. Chego em casa e ele pula do sofá e vem me contar as novas fofocas. É um sujeito pra lá de desinibido.

Penso em algum nome jazzístico para lhe dar. Mingus? Milt? A Júlia tema na aposta mais prosaica: Fofinho. Mas eu tento desconversar. Ela bate os pés e reafirma: Fofinho.

O pior dos gatos é isso. Meu amigo Emerson tinha dois gatos, que apareceram em sua casa repentinamente, e ele saiu desconsolado seis meses depois à procura deles, que não voltaram mais de uma aventura noturna. Ficou muito triste; sua depressão controlada por remédios pesados elevou para picos perigosos. Sua visão decadentista ficou ainda mais negra por algum tempo.

Taí porque escritores gostam tanto de gatos. Cortázar na bela foto do gatinho em pé lhe olhando por uma janela. Hemingway nas belas passagens de As ilhas da corrente. São animais cordiais, não incomodam, mas estão tão presentes e atenciosos como os cães. É como se essa economia toda se revertesse para uma companhia destilada, concentrada, cortando os papos furados. Uma amizade em supra-sumo.

Por conta do um pedido de socorro deixado por um trabalhador chinês na encomenda de um produto via internet feito por uma brasileira, em que vinha escrito "I slave. Help me", eu reli o ensaio Matar um mandarim chinês, de Carlo Ginzburg. A premissa do ensaio parte da lenda urbana de que, se lhe oferecessem um milhão de dólares, às custas de que uma pessoa de toda desconhecida por você fosse morta do outro lado do mundo, na China, e que a morte de tal pessoa não lhe interferisse em nada em sua vida e que você nem mesmo saberia de sua existência, você aceitaria? É uma questão moral de extrema relevância e atualidade. Li na revista Piauí um ensaio sobre duas cidades industriais chinesas em que os índices de poluição no ar estão catastróficos. Pessoas morrendo de câncer pulmonar e de várias doenças decorrentes do excesso de monóxido de carbono. E nada é feito; não só as autoridades são absolutamente indiferentes ao pesadelo dos milhões de pessoas que moram por lá, como a própria matemática da exportação mundial dos produtos feitos nesses polos industriais é conivente com as mortes. Mata-se milhares de mandarins chineses para que um ocidental padrão tenha seu tênis Nike, ou qualquer badulaque ubíquo que entra em nossas casas. Eu me emocionei com o bilhete desse desconhecido funcionário que pedia ajuda. Uma moça, não sei de qual estado do Brasil, encomendou um produto da China, via internet, e o pacote feio, todo envolto de celofane negro, lhe foi entregue com um atraso de meses. E dentro, o bilhete, escrito à mão e num inglês funcional de triste desesperança: I slave. Help me. A moça sentou-se de imediato à mesa da cozinha de sua casa, e caiu em um choro convulsivo. Imaginou o que é possível imaginar: as mãos desumanizadas que colocaram aquele regalo inútil da blusa comprada por ela, confeccionada às custas de muita agrura e abuso salarial, por mãos pagas em situação de miséria que fazem os movimentos repetitivos por 12 a 15 horas por dia. Mãos que ganham um proporcional ridículo de um subemprego martirizante que equivale à escravidão. E essas mesmas mãos estavam tão desesperadas, que resolveram fazer a atitude inútil de escrever às pressas um pedido de ajuda, sem assinatura (assinatura para quê, se pertencem a um invisível?), e mandá-lo clandestinamente junto com a compra. Claro que a pessoa foi a primeira a ter plena consciência de que não seria salva por aquilo. Claro que ela sabe que, se tiver algum resultado aquilo, será ao longo de anos de pedidos de socorro paulatinos, e ela mesma já terá desaparecida, gasto sua mísera existência em ser uma máquina invisível e brutalmente vilipendiada. Entre a moça que recebe o bilhete e a pessoa que o escreveu, paira o mais surdo enigma humano nunca resolvido, a de para se perpetrar o assassinato de alguém, não é preciso sequer que o assassino saiba que está matando. O que é uma blusa, um tênis, o penico de brinquedo de uma boneca (eu segurando com um morno terror o penico da Monster High da minha filha, lendo gravado abaixo a frase Made in Chine), diante uma vida humana? Mas, contudo, ainda se continua comprando isso tudo, no círculo de pesadelo que é a frigidez emocional reinante. (Roberto Bolaño foi genial ao tacar na cara do leitor esse anestesiamento em que matamos um mandarim chinês a cada dia, nas 345 páginas massacrantes da Parte dos crimes em 2666. Nestas páginas, ele se limita a narrar, exaustivamente, os assassinatos sem solução nas maquiladoras mexicanas, assassinatos brutais de mulheres funcionárias nessas fábricas de exploração do trabalho barato. O estilo é de jornalismo marrom, sem sentimentos, um tanto sadomasoquista em sua propulsão inercial. É uma versão do pedido de socorro do chinês desconhecido: inútil, afogado em seu trivialismo sem imersão na correria moderna, feito para ser desconsiderado. Não à toa que muitas pessoas pulam essas páginas, e pedem para que sejam removidas nas próximas edições.)

Há dois livros sintomáticos dessa situação, escritos em diferentes épocas por Coetzee. Em Idade do ferro, Coetzee aproxima uma mulher com câncer de um mendigo. O mendigo passa a pernoitar na varanda da casa da mulher, e a mulher descobre que é a única companhia que tem em seus meses finais de vida. Ela aos poucos vai o trazendo para dentro de sua casa, aquele ser ressabiado que está em um estágio de deserção que quase lhe faz esquecer seu idioma. São dois seres deportados do tempo, dois seres que já não vivem mais no mundo real. Daí o assombro e condenação dos vizinhos e da filha da mulher, que passa a voltar sua atenção para a mãe doente por causa dessa sensação insana de sua amizade com o mendigo. É um livro duro, daqueles insubmissos que Coetzee costumava escrever antes que algo nele também se calcificasse e se rendesse. O outro livro é um meio termo entre sua visão terna de outrora com sua nova concepção de um cristianismo pagão vingativo: Desonra, talvez seu romance mais impactante. Em Desonra eu vejo contatos entre a vida do personagem principal com traços da minha vida. O herói do livro trabalha em uma clínica de eutanásia animal; ele se condói com um cãozinho aleijado, no qual lhe faz carinho e lhe alimenta na gaiola do que equivale ao corredor da morta da clínica. No momento final, entretanto, quando sua parceira de trabalho lhe pergunta se ele vai ficar com o cãozinho, o poupando do sacrifício, ele diz que abrirá mão dessa obrigação, e mata o animal. Eu trabalho na fiscalização de abate de centenas de animais por dia, em minha profissão de fiscal veterinário, e amo um gato de rua. Nossa maior ambição, a ambição mais infrutífera e banal, é esperarmos por uma explicação, a menor possível; poderia ser ao menos uma pista.