sexta-feira, 15 de agosto de 2014
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
True Detective
"Só existe um tipo de história, a mais antiga: luz contra a escuridão." (Rust Cohle, True Detective)
Cometi a distração de assistir pela HBO na segunda-feira o primeiro episódio de True Detective. Não descansei enquanto não assisti aos outros 7 episódios da série. Acabo de ver o último deles, e estou completamente deslumbrado. Foram 8 horas da mais generosa abdução para um mundo de refinada estética e entretenimento, um primor para o intelecto e um deleite para os sentidos. Não há como não ficar apaixonado pelos dois detetives_ sobretudo o ultra-niilista Rust Cohle.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
A onisciência de não se saber nada
No filme Nostalghia, de Tarkóvski, um homem amargurado pelo exílio tenta repetir a ação obsessiva de um professor louco: atravessar uma extensa piscina vazia equilibrando uma vela acesa nas mãos, sem deixar que a chama se apague. A cena demora bem uns dez minutos, em completo silêncio, enquanto o homem retorna e refaz seu propósito um sem número de vezes, toda vez que um vento vem apagar a chama no meio do caminho. O espectador que acompanhou o filme até aqui sabe que a pensão italiana onde o homem deambula está em decadência, sem hóspedes e à espera de um sinal de desistência para que nela se instale todo o peso devastador do tempo, sabe que o professor morreu ateando-se fogo em um flagelo público e que na verdade o homem repete seu gesto em uma versão muito mais simples, visto que o professor atravessava com a vela acesa uma piscina cheia de água e de turistas beberrões e escandalosamente histriônicos. O núcleo dessa belíssima metáfora tarkovskiana é a representação da fagulha não adulterada da persistência humana em um mundo onde todos os caminhos levam à corrupção, à loucura e à dor, todas essas entidades organizadas em apagar o que resta de lucidez em um espírito absurdamente desacreditado. Toda obra de Jean-Marie Gustave Le Clézio, esse inigualável escritor franco-mauriciano, tem como eixo a incompatível mas incrível força real e desprovida de eufemismos poéticos que vem da fragilidade, se aproximando daquele outro memorável discurso de Stalker que diz "a dureza e a força são atributos da morte; flexibilidade e fraqueza são a frescura do ser".
Os livros de Le Clézio, assim como os filmes de Tarkóvski, sempre me fazem restituir uma espécie de muito antiga consciência sobre a abrangência da arte, o que me faz deitar por um momento o livro no peito_ ou dar pause no filme_, para buscar mais fundo a origem desse pressentimento e firmá-lo melhor em seus contornos metafísicos. Lendo, por exemplo, o conto História do pé, de Le Clézio, semana passada, me veio uma quente sensação do que, já em minha infância como leitor, eu intuía ser a religião comunitária onde se juntam os retratos mais puros do homem, em toda sua nudez e crueza, e que essa arte, ou esse reservatório de informações seculares, é algo tão visceralmente verdadeiro e superior, que são poucos os escritores atuais, afogados em um urbanismo cibernético sobre-humano, que conseguem perceber e usar isso. Aliás, no afã de uma originalidade que lhes deem maior aceitação nesse mundo sintético, muitos escritores e artistas fazem é fugir o mais distante possível disso. Por isso que quando eu leio um autor tão antigo, tão sintonizado com o sagrado da solidão humana, como Le Clézio, o estranhismo quase inóspito de sua escrita me faz ter essa sensação de aproximação de algo esquecido, através do pressentimento, o que talvez seja um paradoxo pois pressinto algo que já conheço mas que a obtusidade cotidiana me apaga da memória mas não da alma. Le Clézio me informa retardatariamente que eu tenho uma alma, nessa altura do campeonato que saber disso parece não trazer nenhum benefício. História do pé é um recado sobre o que continua quando as máquinas travam, os índices econômicos despencam nas reviradas fatais dos começos de século, a imunidade passa a não ter mais nenhum escudo científico contra as doenças reformuladas pela engenharia do acaso, as saudades e as paixões são queimadas esquecidas nos álbuns de retratos; e tudo contado na mais simplória história de uma moça que engravida e insiste em ter o filho apesar da miséria, do abandono e de toda a incompatibilidade. Dói ver o quanto é intenso em sua absoluta leveza esse conto, dói ter que ver de um autor que já ganhou o Nobel e poderia muito bem estar escrevendo o trivial elegante um texto tão reafirmador, tão desarmadoramente humano, tão ele mesmo crente em sua unicidade solitária de ter um alvo comburente do outro lado da página, na presença do leitor que se emociona, que se transforma. E Le Clézio já fez isso antes, muitas outras vezes, no romance da quarentena que é de um nível de beleza sobrenatural_ e note: Le Clézio não é um poeta, não tem o ranço da poesia vernissagem_, naquele começo da história sobre sua mãe em que dos vaticínios médicos protecionistas do homem saciado moderno ele fala do quanto a fome fazia com que se desejasse encher a boca com os cristais acinzentados do sal, e dava sede de gordura e vontade de beber o óleo das latas de sardinha. O que mais assusta em Le Clézio é que seus personagens jamais brincam de existir, jamais acalentam o prêmio da vida por esse desgaste suntuoso do enorme benefício passageiro oferecido; jamais são suicidas, por mais que sofram e são confrontados pela história e pela natureza, por mais que sejam diminuídos a um nível de ruído ruinoso pelo furacão que devasta do lado de fora de suas peles (e todos não possuem nada mais de patrimônio do que suas próprias peles). Eles existem, não brincam de existir. A verdade incontornável de poderem tocar esse mundo com os sentidos os posicionam acima das teorizações tanto do desespero quanto das espiritualidades vendedoras de esperança: eles próprios em sua carnalidade são o Espírito, ancestral, indeterminável e não conceitualizável, vagante em sua pobreza cheia de inesgotável mérito; não precisam de instituições lhes dizendo como é que se vive: eles vivem. E digo eles por uma armadilha de encadeamentos sentenciosos da língua portuguesa, porque a maior parte é de mulheres, Le Clézio povoa sua obra de mulheres_ os contos de História do pé tratam cada qual de uma mulher em determinado momento e geografia do globo. Leio não me recordo onde que o homem moderno vive simulacros de situações verdadeiras: o pai, por mais que ame seu filho, finge ser pai, talvez mesmo pela adaptação à sobrevivência das condições da paternidade a um cotidiano de trabalho que o priva da presença do filho: assim, na omissão involuntária, ele finge através das creches, dos solilóquios à mesa de jantar, dos parques do domingo, que se investe de uma paternidade imaginária que a soma rejeitada de suas negligências desmente.
Ujine, a mulher do conto de Le Clézio, é um axioma de permanência que repete aquela frase de Rosa de que um menino nasceu_ o mundo tornou a começar. É um estudo sobre a fragilidade confrontadora e o equilíbrio feminil: o professor de Nostalghia conservava sua chama humana intocável diante a sevícia, mas se deixou queimar pelo excesso de lucidez. Ujine, levando ao término a sua gravidez, dá o nome à filha de Eulália, o nome do feio mato chinês invasor tido por todos como praga que ela via nos campos de Londres e que a restituía à verdade de que não sabia nada, mas que o poder da sua onisciência bastava.
Ujine, a mulher do conto de Le Clézio, é um axioma de permanência que repete aquela frase de Rosa de que um menino nasceu_ o mundo tornou a começar. É um estudo sobre a fragilidade confrontadora e o equilíbrio feminil: o professor de Nostalghia conservava sua chama humana intocável diante a sevícia, mas se deixou queimar pelo excesso de lucidez. Ujine, levando ao término a sua gravidez, dá o nome à filha de Eulália, o nome do feio mato chinês invasor tido por todos como praga que ela via nos campos de Londres e que a restituía à verdade de que não sabia nada, mas que o poder da sua onisciência bastava.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Conversa apressada
George Saunders não me convenceu. Ainda me faltam dois contos de Dez de dezembro para ler, mas, a julgar pela premissa de Borges de que temos que nos aferrar ao prazer da leitura, ou a julgar pela leitura disciplinada em busca de esclarecimento mais que prazer, esse livro me deu nos nervos. Sinergismos exagerados, quase ao ponto do lisérgico, e aquela adolescenciofilia tão típica dos escritores norte-americanos cultuados mas de terceiro time, à lá Salinger. Não que seja ruim o autor, mas sei lá, temo que minhas 4 décadas de vida estejam pesando em meus gostos ou eu já esgotei por completo minha capacidade de me entusiasmar em saber o que uma menina de 14 anos pensa sobre sexo. Funciona para um estágio de leitor que ainda procura o que eu em meu estágio já encontrei. Não tem assombros em Saunders que me choquem ou, no mínimo, me tire um segundinho de pudor, o que não me deixa de entristecer um tanto. Há algumas semanas tive uma daquelas discussões infrutíferas com o Ssó_ infrutíferas porque somos ranhetas e indispostos a darmos os braços a torcer_, em que ele dizia que nada mais o emocionava na ficção desde Svevo, e eu contra-atacava alegando que de dois em dois meses sou arrebatado por algum romance ou livro de contos. Ssó me deu os parabéns, cheio de cinismo, e eu mencionei menos indiretamente que seria educado a elevada idade dele e as consequências disso. Pois nada é mais verdadeiro que essa minha afirmativa: eu sou uma criança quando leio. Eu rabisco os livros, entorto eles no colo, leio de cabeça para baixo com os pés estirados na parede, fico profundamente apaixonado pelo autor e logo passo a odiá-lo amorosamente. Se não me engano este foi um dos conselhos de Hemingway para uma vida longa, o de nunca se cansar diante o descobrimento da leitura. O que me causa auto-policiamento quando um autor como Saunders ou Egan não me diz nada, veio por um momento e eu não tornarei a procurá-lo em definitivo.
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Mas logo me animo quando me vejo com um novo livro de algum escritor do qual gosto muito. Semana passada me chegou pela Livraria Cultura o novo lançamento de Michael Chabon, Telegraph Avenue. Comprei uma carrada de livros, e pretendia começar com a releitura de Condição Humana, versão estendida e revista, da Hannah Arendt, mas o Chabon ficava me atiçando da estante, querendo atravessar a fila. E eis que, sem me dar conta, já estou na página 200 do romance. Cara, eu gosto muito do Chabon! Gosto pra caralho do cara! Ele é o equilíbrio espantosamente perfeito de todo escritor descomedido que faz pose nas esferas atuais da grande literatura: ele sabe deliciar o leitor com as trivialidades saborosas do provincianismo moderno, entremeando romance de gênero e metalinguagem elétrica, de forma muito mais encorpada e visceral que um Paul Auster; seus diálogos são afiados e inteligentes (incrivelmente inteligentes!), vindo de personagens que não precisam ter a maldade e promiscuidade justificadora dos de Martin Amis; ele faz grande literatura de uma maneira que parece involuntária, e não escorando em insossas peraltices do manual de redação criativa de um Jonathan Franzen; e, em comparação à supracitada Egan, a obra de Chabon antes de se prestar à dinâmica de cenas de seriado de tv, é literatura em alto nível, para leitores inteligentes. Chabon é best-seller nos EUA para um público leitor que tem de ter um QI equivalente à potência de sua escrita. E é viciante como ele escreve. Chabon foi co-autor dos roteiros do Homem Aranha do Sam Raimi, e é fácil para seu leitor identificar quais são os toques dado por ele nesses filmes: um dos que eu apontaria sem medo de errar é o quarto do Peter Parker no último filme da trilogia, um pequeno cômodo rústico no alto de uma arranha-céu, com todo o mobiliário remetendo a uma idade de crise financeira, cama de molas que lembra as de albergues filantrópicos, espelho de tinta esfumaçada na parede, um balde de metal para as abluções, uma penteadeira caindo aos pedaços; o único detalhe vantajoso é a enorme janela da qual Parker vê a metrópole entardecendo, o que lembra jazz, lembra nostalgias da vida aventureira da porra-louquice da juventude. O quarto é precário mas plasticamente encantador. Isso é o que Chabon povoa em seus livros: um cenário no qual o leitor se esconde, apartado da modernidade, exilado das fórmulas modísticas pré-fabricadas e institucionalizadas para o uso geral do imenso rebanho. Em As aventuras de Kavalier & Clay, o refúgio de um dos heróis da trama é um andar interditado e esquecido do sótão do Empire State, de onde ele manipula o imaginário de uma geração de jovens da segunda guerra mundial loucos pela catarse das histórias em quadrinhos que ele produzia; em Associação judaica de polícia, o cenário é uma cidade esquecida no meio do gelo do Alasca, para onde foram os sionistas emancipados do sonho de uma Israel oriental. E agora, neste, temos personagens que estão na iminência da bancarrota quando veem sua loja de vinis raros de jazz ameaçada pela chegada de uma mega-companhia de venda de música na cidade. Que bom chegar à noite e me preparar para o deleite de mais algumas páginas de Chabon, com toda a alegria contagiante de sua escrita, o humor incansável de suas histórias.
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Cem anos de nascimento de Júlio Cortázar. Há uma matéria longa, longa, longa sobre Cortázar na Piauí deste mês. Nada como uma longa matéria sobre Cortázar em uma revista requintada como a Piauí, desde que tenha algo de interessante para contar. O texto do Reinaldo Moraes é só enfadonho. Paro na metade e vou caçar a foto do autor para ver o que ele manda. Um sorriso, uma boa saúde, uma cara que me lembra um tio boa praça que tenho em São Miguel. De imediato reafirmo minha decisão de, desde agora em minha intenção de ser escritor, tomar o máximo cuidado com fotos. Nunca me deixar fotografar. Olhando a cara do Moraes e mais uns outros da equipe da Piauí, não me contenho em pensar que são simpáticos demais, urbanos demais, 3x4 sem conflitos. Um escritor não pode ser assim. O Carlinos me disse que vem me visitar qualquer dia desses e vai ser ótimo; se quiser pode passar o fim de semana, tem quarto de sobra pra ele e a esposa. Vai ser leve e risonho, mas na hora da fotografia vou parecer aqueles bestas que cerceiam a exposição da própria imagem. Eu não sou ninguém e não é metidez, mas estou com o Pynchon. Já viram a cara do Pynchon?, pois é; chego a arrepiar ao imaginar aquela cara tão exposta quanto a do Garcia Marquez, por exemplo, com aqueles dois dentes protuberantes e aquelas orelhas de abano. Já me foi difícil erradicar a imagem de velho safado de Nabokov para poder lê-lo, das tantas fotos em que sua vaidade exagerada deixou aparecer. Pynchon não seria Pynchon se não tivéssemos dele apenas essas duas fotos célebres, em que desculpamos seu prosaísmo por ser algo restringido ao branco e preto do passado. Mas voltemos ao tema (?): amaldiçoado pela cara de bom moço da literatura brasileira (a Carol Bensimon jovial demais... o Galera com aquela barba longa de botique... (bom mesmo são as falhas dentárias à lá Maiakósvki, que impregnam o autor de uma seriedade shakespereana, onde se intui o futuro suicídio, ou a velhice recolhida)), continuei e finalizei a leitura do artigo do Moraes sobre Cortázar. A única coisa interessante é a reafirmação da polêmica declaração de uma ex-affair do escritor de que Cortázar na verdade morreu em consequência da AIDS. Cortázar, segundo Cristina Peri Rossi, foi uma das primeiras vítimas da doença em Paris, depois que recebeu uma transfusão de sangue contaminado em um programa do ministro da saúde (deposto em razão dos altos índices de contaminação advindo dessa desastrosa decisão) em usar como doadores estrangeiros ilegais. Cortázar contaminou sua companheira, Carol Dunlop, que definhou com infeliz rapidez e morreu antes dele. Disso eu não sabia.
terça-feira, 22 de julho de 2014
O dia mundial da resignação
Vai parecer esperança, mas não passa da velha resignação. Hoje acordei com vontade de dar um basta em todas as reservas. Acordei de um sono completo, com quarto envolvido nesses escuros absolutos que me dão anseios de procurar algum indício de luz de que não esteja cego, com um lençol macio, com o travesseiro usual entre as pernas e o outro caído manhosamente de lado, sem uso. Foi um sono reparador, sem sonhos, e por isso não teria motivos que de súbito, agora pela manhã, diante o computador, eu fosse assolado por esse gigantesco tédio. Faulkner está errado, pensei, Faulkner é um fingido; como acreditar que o homem sobreviverá?, como acreditar que o homem é bom? Vai ver é porque meu trabalho de ficção não me esteja parecendo nada promissor; palavras de mais, adjetivos que não se desgrudam de mim, advérbios que escondem a obstrução de uma coisa genuína. Leio o que escrevo e parece que sofri uma involução, voltei a escrever com aquela paixão adolescente sem consequências do colegial, que só cativava por procuração professoras piedosas, que queriam elas mesmas brincar que acreditavam que algum de seus alunos levavam a promessa. Um analfabetismo no final das contas. Vontade de desistir; a felicidade está mesmo na música perecível; vontade de ser um cantor sertanejo, vontade de me assumir da forma mais franca possível que não tenho nada, ser canalha de cara limpa e acolher os dividendos da onomatopeia. Criar uma musiquinha para celular, se isso ainda é viável. Vontade de ganhar um prêmio acumulado na loteria federal, e gastar ostensivamente o resto de vida jogando para todos os desafetos a arte da corrupção na prática, e não tentar fazer isso através do placebo pobre da escrita. Ser um Edmund Dantés que inventa a sua própria vingança, vai criando-a no momento em que faz dobrar diante de si os joelhos dessa criaturinha levianamente vendível que é o homem, esse homem que o bêbado Faulkner, mal se aguentando em pé no palanque do Nobel, mentiu acreditar.
A minha vontade hoje é ser desbragadamente ingênuo, não me proteger contra nada. A eterna proteção exaure. Dá vontade de, de uma vez por todas, me resignar diante esse otário cibernético, máquina, presidiário ou quem quer que seja, que todos os dias, infalivelmente, deposita em minha caixa de e-mails inúmeras tentativas das mais idiotas extorsões. Aumentar meu pênis, receber uma bolada de um milhão de dólares, enviar auxílio para algum senhor de cômico nome mutante entre indiano e angolês, encontrar aquela garota ninfomaníaca que me descobriu e me envia notificações lúbricas de imediata intimidade, requerer meu prêmio (mais uma vez, que sujeito sortudo eu sou!) na loteria inglesa (!), comprar um imóvel promocional em Recife, ir a uma festa literária para a qual me convidaram com honras (até isso!). Vou abrir esses e-mails e vou seguir diligentemente cada passo exigido por eles; chega. Hoje é meu dia da resignação. Vou assistir a esses programas de adivinhas que passam de madrugada na tevê aberta, e ligar para o número embaixo, mesmo sabendo que o programa é gravado, para exigir meus 150 reais, e quando me atrasarem de propósito com musiquinhas de Kenny G., ou gritarem em meu ouvido que tem novos enigmas que podem aumentar o dinheiro, vou esperar com paciência, até que a tarifa do "serviço" telefônico ascenda aos 4 dígitos e eles me façam perder, "ahhhh, lamentamos que você não tenha visto quantos dentes tem o desenho do bode; da próxima você leva". O que pode acontecer comigo? Perdas econômicas? A vida não é isso, além de todo retumbar dos bumbos da filosofia de boteco? Que eles me roubem. Quem sabe a verdade esteja na profunda desproteção; quem sabe Faulkner tenha visto com sinceridade e seu texto adocicado do Nobel seja canalha por osmose da falta de consolo cotidiano. Se essa entidade se esforça tanto para me enganar, se esforça religiosamente para isso, se em sua distância ela só pense no serzinho passível de vilipendiação que eu sou, há nisso uma forma evoluída de amor. Dizer assim provoca até arrepios na nuca, mas, no fundo no fundo, qual o argumento contrário? Vou agora mesmo responder à Samantha, que tremula com os seios voluptuosos quase para fora do top de ginástica na tarja ao lado da caixa de e-mails. Oi, estou vendo que você mora em Goiânia, a mesma cidade que eu, e, quem sabe, poderíamos nos encontrar para um drinque. Mas não sei se vou conseguir me conter com você! Me digam, por que não acreditar nela? Mesmo que eu tenha a absoluta certeza de que é um computador que me joga essas frases pré-formuladas e que um nível de tesão tão engajado às oito da manhã de uma terça-feira é algo que nem os anjos de Jó seriam capazes, mas... considerem o altruísmo que fundamenta a coisa, a fé de quem planejou, as horas de trabalho que nada devem à concentração e o abandono de um cientista diante sua pesquisa, ou o compositor diante sua partitura. Oi Samantha, como vai? Não moro em Goiânia, mas posso chegar aí em uma hora e meia, é só me dizer que horas que é o encontro. Obrigado por ser tão atenciosa, mas acho que exagera em seus elogios; não sou essa tentação física que você acredita ver; tudo não passa da generosidade de seu olhar. Mas devo avisar que eu é que fico um tanto assanhadinho depois de alguns drinques, ainda mais diante uma loira monumental como você. Minha conta bancária? Lá vai...
Me recordo de não sei qual estoico, se na literatura ou na vida real, certa vez disse que era um encanto que às vezes um beija-flor viesse lhe atazanar as orelhas ou ficasse com o bico próximo a seu ombro; "não é enternecedor que um animalzinho destes te elogie ao confundir você com uma flor?" Claro que não sofro de uma estrondosa carência desse porte, mas hoje estou disposto a considerar que a ternura sofre uma brutal evolução. Não é enternecedor que um programa estelionatário na corrida louca da vida moderna escolha aleatoriamente você como remetente de todas as horas de zelo de quem o criou? Quando eu for me encontrar com a Samantha na capital hoje, vou sentir mais uma vez isso, como sinto a cada vez que tenho que enfrentar uma cidade grande. A vontade de assassinato que existe por trás de cada buzinada. Uma vez fui de carona com um amigo; ele parou diante a garagem de um prédio o tempo suficiente para retirar as malas do bagageiro para que sua esposa descesse, e um senhor esperou dentro de um carro do outro lado da rua, com elegante parcimônia, para poder entrar na garagem, até que esse amigo entrou no carro e deu a partida; então, o senhor começou a xingá-lo, filho da puta, caipira, vai tomar no cu seu bastardo, seu corno. O senhor fez isso com um ódio tão puro que o que antes era sua completa inofensividade invisível da qual eu nem reparara, agora eu o via como um guerreiro tribal psicopata que iria de uma hora para outra retirar uma pistola do porta-luvas e nos transformar a todos em estatística. A fuga da estatística no mundo moderno é nossa atual forma de ternura, me diz a voz de meu bêbado interno especialista em filosofia de caneca. E como fazer isso senão através da única coisa que sobrou de um depauperado aprendizado de amor ao próximo? Através da catarse do trânsito, ou da carranca no elevador, ou da virada de rosto em negação no shopping, ou da desconfiança esquizofrênica nas filas do banco da qual temos que nos comunicar em silêncio eloquente o quanto somos unidos no respeito sagrado em não tentarmos furá-la. Um dia, quando minha esposa passava por uma convalescênça logo após uma cirurgia cardíaca, eu resolvi aliviar a tensão inútil da espera indo à livraria de um shopping próximo, e na fila do caixa, onde eu via que havia apenas eu, um sujeito cortou vindo de não sei de onde por mim me dizendo que não iria aceitar que eu passasse na sua frente, ah, isso não!, eu pensei que se eu fosse um cidadão daquele mundo, seria lógico meu agradecimento por ele me oferecer daquela forma um calor humano de consolo, por mais estranho que tenha sido tal contato. Se não nos matamos após a buzinada e o xingamento, é porque nosso amor era legítimo, pois fugimos à estatística. Não seria impossível que o senhor e meu amigo se sentassem no final do dia para uma cerveja, e começassem uma forte amizade. Um dos personagens de meu romance despirocado é um conceituado especialista em Marx que deixa, de hora para outra, sua cátedra em uma universidade alemã e parte para um povoado esquecido do Caribe, e que mais tarde se descobre que seu desaparecimento aponta para a coincidência do surgimento das mais populares canções valenatas do rádio. Há um longo discurso com sotaque carregado de como tudo o que ele ambicionara no campo da escrita erudita se cumprira na composição das músicas banais de refrão fácil e que só falam do único sentimento que ainda traz um pouco de perseverança: o amor. Ele era um importante mantenedor da perseverança biológica da espécie, ele se julgava orgulhosamente um promulgador do equilíbrio social. Mesmo que houvessem facadas de bêbados nos bares dos povoados, sob o som de suas músicas, mas isso era a natural exacerbação que vem com derivativos da homeostase. A estatística não conta, a estatística é a mentira séria de uma derrota que nunca virá, que só existe no papel. Blá-blá-blá.
Por isso hoje minha vontade de cair em todos os engôdos, sem me sentir humilhado. Acessar os links sobre as ditas "celebridades", e confiar que elas são mesmo divinatórias. Fazer um mapa cabalístico das trivialidades delas e ver nisso um plano profundo da providência.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
O embaraço das crinas
Li o último texto de Vladimir Safatle no site da Carta Capital ontem, logo após ter feito meu vasculhamento habitual no Facebook para a cata sistemática de notícias trivialescas. No Facebook, vi um diálogo entre duas mulheres da minha cidade, uma delas anunciando a necessidade de contratar um empregado, a outra oferecendo o filho para a vaga oferecida. Tal diálogo era, como o costume, um prodígio do autismo do analfabetismo funcional que se vê em 99% das ocorrência nas redes sociais. Ainda assim, era espantosamente difícil de entender o que as duas mulheres escreviam. Chamei minha esposa para ler, eu já estando quase chorando de tanto rir, e ela também caiu na gargalhada, logo após passar a incompreensão natural diante o cubismo da coisa. As palavras usadas pelas ditas cujas chegavam a ser involuntariamente quase obras de arte de uma ainda não de toda explorada forma de expressão verbal. De certa maneira dava uma estranha inveja por elas serem tão articuladas e conseguirem se entender tão bem. Passou pela minha mente uma fagulhar dúvida se elas não estavam de brincadeira, mas é claro que elas jamais ouviram falar do Monty Python _ talvez uma inversão da cena do carcereiro corcunda e do carcereiro magricela em A vida de Brian, que, às portas fechadas, discutiam eruditamente filosofia e altos assuntos, mas em suas atividades de algozes eram exemplarmente bestiais e onomatopeicos. O Facebook já não me alegra mais. Antes era um vício; acessava-o de hora em hora, mas não tanto nas esferas mais elevadas de um Milton Ribeiro e de um Idelber Avelar (que para a cultura as redes sociais não me servem em nada: o que não substitui o livro só me cativa por sua inerente patetice). Mas depois vira como todo espetáculo circense demorado: os palhaços perdem a graça, os bancos de madeira passam a pressionar o glúteos, os leões já se revelam gatos apalermados pela magreza e maus tratos, os malabaristas deixam de fascinar pelo talento de enganar a gravidade e passam a intuir tratados sociológicos sobre o sub-emprego; até os cavalos brancos, sobre os quais quase é impossível se quebrar a beleza plena de seus eufemismos, revelam aqui e ali nas crinas a certeza de que foi usado um shampoo inapropriado, comprado a preços promocionais em queima de estoque de loja veterinária. No Facebook (que me faz pensar esse emprego recorrente de um F, assim maiúsculo, para uma empresa que, ao contrário das coca-cola e das volkswagen, ou das kolinos e das durex, enfrentam uma renitência em se tornar realmente um adjetivo popular: esse F em caixa alta me assinala como a premonição de uma meteórica derrocada nesses tempos em que marcas bilionárias se orkuteam_ vai esse epitáfio para você, orkut, ou Orkut, olvidado que nunca utilizei), também a exposição demorada me cansou. Atualmente pouco ligo o computador, para falar a verdade, e o Facebook (nunca Face, para mim) já esgotou todo fetiche que tinha para me oferecer. Algumas vezes a Dani ainda me mostra algumas pérolas amarelecidas pela previsão, como um veterinário formado na mesma faculdade federal que eu, e dono de um pet-shop local, que perpetrou um texto em resposta a uma acusação postada na rede social de uma cliente inconformada por um cheque depositado antes da data, que melhor seria para a gramática e para a manutenção da já tão combalida imagem intelectual dos veterinários que ele pagasse os juros do cheque especial da cliente em vez de se lançar naquela aventura linguística (só para dar um gostinho, ele se referia, enraivecido, várias vezes sobre sua loja como "IMPRESSA", assim mesmo em maiúsculas, querendo dizer... (pasmo!), empresa_ toma agora as consequências do descaso mercurial contra as aulas de filosofia e português do primeiro ano, hijo de puta! [nosso professor de filosofia era um espanhol de elegante e inabalável estoicismo diante a inconsideração]).
O diabo é que faleceu João Ubaldo Ribeiro hoje. Nunca li nenhuma das ficções de Ubaldo, mas li um volume de crônicas jornalísticas dele, acho que chamado Sempre aos domingos (não sei de onde tirei que se chamava Outubro ou nada, mas que pesquisei no Google e vi que tal título é da banda Bidê ou Balde_ misturei com Ubaldo?). Neste livro há uma crônica que fala de sua ansiedade quando lançou seu grande romance, Viva o povo brasileiro, e de como ele atormentava seus amigos todos os dias na esperança de que eles já tivessem concluído a leitura da obra. Um deles lhe respondeu: "Mas Ubaldo, o livro é um calhamaço de 700 páginas, vai levar um tempo". A crônica me fez rir muito e pensar que Ubaldo era um grande escritor, e que eu deveria ler seu grande livro. Mas nunca li. Talvez o estalo surja, não devido à morte, mas por esses interesses repentinos que já me veio em ocasiões inesperadas e que sempre me faz ler coisas não programadas, sequer suspeitadas. Procurei na Carta Capital, antes de escrever isso aqui, a mesma Carta da crítica de Safatle sobre o crime tradicional milimetricamente mantido contra a educação nacional, e até então não vi qualquer menção à morte do que pode se dizer seja nosso maior escritor da última metade do século passado_ talvez assim que eu concluir esse post e voltar lá, a machete já esteja em letras garrafais, como um conserto súbito pelo inexplicável esquecimento. Espantei-me por ver que a Veja digital dedica o mesmo cabeçalho que dedicou aos dias da Copa a Ubaldo; até me enterneci com isso. (Recordei do Jô Soares contando a uma emocionada filha da Elis Regina como, ao chegar nas lojas de discos de Nova York, que todas tem uma estante dedicada exclusivamente a Elis_ coisa que, ele afirma, nunca viu no Brasil_ ele arrumava os cds da antiga amiga, recolocava em ordem alfabética ou de lançamento, alisava as capas dos vinis.)
Será que para isso eu nunca obterei a cura: o espanto de que uma simples lesão de um jogador de futebol brasileiro mereça dias e dias de acompanhamento em destaque em todas as mídias, mas a morte de alguém como Ubaldo passe pelo esquecimento, mesmo que momentâneo?
segunda-feira, 14 de julho de 2014
A pesquisa, de Juan José Saer
A literatura muitas vezes descamba para a filologia dialógica mais pura entre amigos. Quando isso acontece, quando eu seguro em mãos um livro cujo tema de eixo para os outros temas movimentados mais identificáveis é a amizade em seus profundos matizes, me alargo mais na poltrona e relaxo de prazer. Analisando a isca desses meus trinta anos como leitor acirrado, vejo que grande parte dos livros que procurei por instinto ou por filiação direta trata da amizade. Nada de Huckleberry Finn ou Kim. O que estou falando é dos longos diálogos e intensos silêncios que permeiam a reflexão individual movida pelo conforto do companheirismo que existe em Montanha Mágica e Dias de Finados. A natureza humana, enfim, é o que mais vale, sendo que sua latente extraterrenidade entra na intuição das ideias que não são passíveis de expressão verbal, daí que um amigo console o outro que está alquebrado na cama não com palavras, mas com uma dança no quarto de hospital; daí que no extraordinário romance A pesquisa, de Juan José Saer, dois amigos do círculo de intelectuais são vistos sob um céu de iminente tempestade, sentados cada qual em silêncio em suas poltronas, parecendo "ter resolvido [] mergulhar no rio daquilo que lhes é exterior e deixar-se fluir, tranquilos, na correnteza". A amizade em sua corporificação mais extrema, sem muito zelo e energia juvenil, mas como o sucedâneo plausível único para o desabrigo dos perigos do mundo. A amizade justo para os que precisam dela e pela experiência alcançada são os que estão à altura de seu merecimento: os velhos ou os que estão de alguma forma na transição transfiguradora de um grande cansaço.
Como tudo na existência parece estar do avesso, atendendo a um humor de uma potestade sarcástica, a amizade tem suas armas para inventar a sensação de ordem. Daí nas reuniões de amigos haver sempre uma charutaria de qualquer tipo, um refinado maquinário mental alimentado por vinhos, cigarros, cafés, filatelia, para promover na sala fechada a impressão de segurança que não existe fora da parede de fumaça e de paletós pendurados nos cabides. E no romance de Juan José Saer um desses sucedâneos causados pela antiga amizade é tanto a literatura quanto o crime. Os amigos ouvem uma história recente, contada por um deles, de 28 velhinhas assassinadas no prazo de nove meses em Paris, e essa narrativa é entrecortada pela pesquisa que fazem sobre um manuscrito de um romance de oitocentas páginas encontrado no espólio de um outro amigo. O leitor vai sendo aos poucos aceito por essa comitiva fechada, vai sentindo o odor do charuto Romeo & Julieta, vai olhando a paisagem da costa da Argentina quando eles viajam de barco durante a investigação do manuscrito. Tanto o romance herdado (que eles não sabem ao certo quem é o autor), quanto o assassino das velhinhas procuram a mesma coisa: um sentido que exorbite a pasmaceirice cotidiana, um gesto efêmero mas que resulte em alguma reação de truculência contra o relógio biológico sem alma em que todos estão inseridos em prontificado determinismo de nascimento e morte, sem que nada possa ser feito contra. O assassino que anda pelas ruas de um inverno excessivamente rigoroso parisiense, e o autor indeterminado que narra as diferentes visões da tomada de Tróia do manuscrito, estão cada qual burlando o caos cosmológico, imprimindo a suas maneiras uma sensibilidade elétrica contra o vazio sensitivo que atravessa toda matéria e todo espaço. Estão ambos brincando como duas crianças que desaprenderam o desespero e confeccionam em particular um mundo próprio em que exercem suas deidades com mais justiça que o deus inexistente. E por isso são tão meticulosos e paranoicos, são prontificados a morrerem pela causa criada_ e por isso o amigo finado que deixou o manuscrito, em seu caráter dissipativo, parece não ser o real escritor dessas páginas. Um escolhe o assassinato violento e covarde para elevar a sua matemática à solitária plenitude contestatória, o outro escolhe o retorno ao tempo, o recolhimento em uma lógica insular própria. Há longas e propositais descrições de minúcias da paisagem feitas por Saer, plantas tropicais mostradas em seus mais detalhistas pecíolos, cantos de pássaros em seus tons instrumentais mais particulares, como a dizer o quanto pode ser requintado o extravasamento exagerado de nossa prisão sinestésica.
O romance tem muito desse típico argentinismo cerebral que não pode ser mais criticado por ser uma assinatura geográfica. Bebe de Henry James, de Faulkner, e de uma solidão em que se treinou a fundo particulares néctares de percepção que tornam a voz de Saer tão diferenciada. Um livro soberbo.
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