Meu resquício de destemor da juventude se ressente com dor quando eu olho em volta a casa vazia e descubro ter desacostumado com a solidão. Todos foram para a casa da minha mãe e eu fiquei sozinho em casa. Uma casa velha que se transformou em uma nova. Na verdade, destruíram a casa velha e construíram outra completamente diferente. Foram embora as paredes tarkovskianas as quais eu dedicava tanto amor, e desde quatro dias eu vejo paredes rescendendo brancura, pisos brancos por toda parte, janelas que abrem e fecham com uma facilidade emborrachada. Ontem saí do banheiro e senti como se estivesse em um hotel. Os quartos ficaram maiores, o forro foi trocado, o que era de madeira deu lugar ao geso. Minha filha direto chorava, na casa provisória onde estávamos, querendo voltar para "a casa amarelinha". Nem amarela ela é mais: ficou rosa por fora, no muro, e vermelha. Trocaram o portão gradeado, pelo qual éramos vistos sentados especulando sobre a vida, e colocaram outro, todo fechado, impermeável a qualquer olhar, tanto de fora quanto de dentro. Miles Davis odiou o portão, e seu silêncio nesses 4 dias revela um desbaratino em como ele vai achar o caminho para latir para os outros cães e perceber a aproximação de estranhos.
Comprei a casa por um preço bem abaixo do mercado. Caía aos pedaços. Comprei-a quando solteiro e não sabia que iria me tornar casado. Se soubesse, na certa teria sido diferente. Adoro casas antigas. Sou mesmo paranoico por elas. Fico horas olhando para elas; um de meus passatempos de adolescente era cabular as aulas e vagar pelas praças escondidas à procura desses refúgios anacrônicos vindos do passado. Há um eco, uma sacralidade, uma informação de impermanência, uma intuição forte e sempre imprecisa de relicários com cachos de cabelo e registros fotográfico esquecidos sobre desaparecidas tardes de sol com saúde, uma comunhão com o movimento de distantes vidas alheias gravadas já por inteiro nos desvãos do tempo. É como tempo tornado espaço. Tentei por anos entender a raiz dessa paixão. O mais próximo dela achei definido em um livro de Slavoj Zizek: tais paisagens são remansos deportados do capitalismo, exceções de existência eterna que nada mais tem a ver com o mundo. Isso me calou profundamente. Olhar ruínas era, então, entrar na eternidade, recolher-se no silêncio rumorejante de tantos fantasmas concluídos, flutuando no miasma de suas verdades alcançadas de que as grandes paixões e os sentimentos exacerbados de morticínio foram esvaziadas para sempre. Claro que a casa não estava em ruínas, era bem acolhedora, vivemos ali os melhores anos de nossas vidas, ali o choro do bebê, o engatinhar, os primeiros passos, os primeiros sorrisos: fui feliz de uma maneira concreta e inapelável. Daí a saudade que a Júlia tem da "casa amarelinha". Mas abria o precedente do exercício de olharem para nós pelo que a casa do lado de fora representava, o povo miúdo das velhas ideias prontas. Eu sabia que um dia as paredes tarkovskianas seriam trocadas pelas outras, e nos pusemos para fora, e juntamos dinheiro e fizemos financiamento para que a direção mudasse da poesia já usufruída com demora (a Dani, minha esposa, sempre muito paciente comigo) para a praticidade segura e confortável.
Hoje então acordo com a grande e nova casa vazia, e confesso que me sinto angustiado. O tipo de situação que cabe retirar de nós a exclamação do senso comum "como sinto o peso da idade", e nem por isso será o retrato incorreto da realidade. Ontem ouvi Lizard, do King Crimson, quando arrumavam as malas, e a beleza da música me deixou em estado adrenérgico: enfim, amanhã estando só, vou fazer uma compilação dos primeiros álbuns do Crimson e vou ouvi-los em volume proibitivo, vou abrir uma garrafa de vinho e fazer um mega-sanduíche de alcatra. Até os muros foram ampliado na altura, de forma que o Crimson não mais incomodará os vizinhos. Mas hoje acordo, abro as portas e me sento na varanda, tento ler as últimas 150 páginas de O homem duplicado que demorou dois meses para chegar na encomenda que fiz à livraria local, mas aí eu sinto minha desproteção. Assisto ao canal de séries até dar a hora do almoço, em que coloco o que sobrou da janta no micro-ondas, almoço e levo o ventilador à biblioteca (ou escritório pessoal), que não fica mais nos fundos da casa e que se tornou maior, e durmo por quatro horas. Quatro horas dormindo em uma tarde de sábado. Isso, há um tempo, era o diagnóstico de depressão para mim. Acordo porque me acorda o celular, a chamada da Dani para dizer que almoçaram com minha mãe, minha irmã, meus tios e não sei mais quem da família. Uma alegria esfuziante que me faz recuperar os ânimos: outro sinal da idade: meu prazer agora é mais intenso naqueles que amo, não mais o velho egoísmo de outrora.
Esse ano será o da economia. A casa nos obriga à contenção. Sobraram para mim, nesse mês, mas para meus livres gastos pessoais, sessenta reais. Posso fazer o que quiser com eles. Pois eu escolho o livro que mais vou precisar pelos próximos 3 ou 4 meses, e peço pela Estante Virtual o volume 3 das Obras Reunidas de Walter Benjamin, Um lírico no auge do capitalismo. Já tenho os outros dois primeiros volumes, e descubro que esse está esgotado nas lojas de novos. Pago 52 reais com o frete. Encontro 5 para a venda, dois deles mais baratos, mas como o que escolho é anunciado como novo, opto por pagar um pouco mais. Chega de livros por bons meses. Economia regrada. Os únicos gastos pessoas que tenho são livros e vinhos, e o que está reservado para hoje à noite será o último por muito tempo. Amanhã planejo escrever o que tenho que escrever o dia todo. Há muitos caramujos no quintal, hoje peguei uns trezentos, coloquei-os em um saco e joguei sal por cima. Há um silêncio enorme por sobre tudo, um silêncio de coisa limpa e arrumada, o silêncio de locais aprazíveis e iluminados por luz elétrica. Sinto muita vontade de rever Nostalghia; amanhã à noite o farei.


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