sábado, 8 de fevereiro de 2014

Um lugar limpo e bem iluminado


Meu resquício de destemor da juventude se ressente com dor quando eu olho em volta a casa vazia e descubro ter desacostumado com a solidão. Todos foram para a casa da minha mãe e eu fiquei sozinho em casa. Uma casa velha que se transformou em uma nova. Na verdade, destruíram a casa velha e construíram outra completamente diferente. Foram embora as paredes tarkovskianas as quais eu dedicava tanto amor, e desde quatro dias eu vejo paredes rescendendo brancura, pisos brancos por toda parte, janelas que abrem e fecham com uma facilidade emborrachada. Ontem saí do banheiro e senti como se estivesse em um hotel. Os quartos ficaram maiores, o forro foi trocado, o que era de madeira deu lugar ao geso. Minha filha direto chorava, na casa provisória onde estávamos, querendo voltar para "a casa amarelinha". Nem amarela ela é mais: ficou rosa por fora, no muro, e vermelha. Trocaram o portão gradeado, pelo qual éramos vistos sentados especulando sobre a vida, e colocaram outro, todo fechado, impermeável a qualquer olhar, tanto de fora quanto de dentro. Miles Davis odiou o portão, e seu silêncio nesses 4 dias revela um desbaratino em como ele vai achar o caminho para latir para os outros cães e perceber a aproximação de estranhos.

Comprei a casa por um preço bem abaixo do mercado. Caía aos pedaços. Comprei-a quando solteiro e não sabia que iria me tornar casado. Se soubesse, na certa teria sido diferente. Adoro casas antigas. Sou mesmo paranoico por elas. Fico horas olhando para elas; um de meus passatempos de adolescente era cabular as aulas e vagar pelas praças escondidas à procura desses refúgios anacrônicos vindos do passado. Há um eco, uma sacralidade, uma informação de impermanência, uma intuição forte e sempre imprecisa de relicários com cachos de cabelo e registros fotográfico esquecidos sobre desaparecidas tardes de sol com saúde, uma comunhão com o movimento de distantes vidas alheias gravadas já por inteiro nos desvãos do tempo. É como tempo tornado espaço. Tentei por anos entender a raiz dessa paixão. O mais próximo dela achei definido em um livro de Slavoj Zizek: tais paisagens são remansos deportados do capitalismo, exceções de existência eterna que nada mais tem a ver com o mundo. Isso me calou profundamente. Olhar ruínas era, então, entrar na eternidade, recolher-se no silêncio rumorejante de tantos fantasmas concluídos, flutuando no miasma de suas verdades alcançadas de que as grandes paixões e os sentimentos exacerbados de morticínio foram esvaziadas para sempre. Claro que a casa não estava em ruínas, era bem acolhedora, vivemos ali os melhores anos de nossas vidas, ali o choro do bebê, o engatinhar, os primeiros passos, os primeiros sorrisos: fui feliz de uma maneira concreta e inapelável. Daí a saudade que a Júlia tem da "casa amarelinha". Mas abria o precedente do exercício de olharem para nós pelo que a casa do lado de fora representava, o povo miúdo das velhas ideias prontas. Eu sabia que um dia as paredes tarkovskianas seriam trocadas pelas outras, e nos pusemos para fora, e juntamos dinheiro e fizemos financiamento para que a direção mudasse da poesia já usufruída com demora (a Dani, minha esposa, sempre muito paciente comigo) para a praticidade segura e confortável.

Hoje então acordo com a grande e nova casa vazia, e confesso que me sinto angustiado. O tipo de situação que cabe retirar de nós a exclamação do senso comum "como sinto o peso da idade", e nem por isso será o retrato incorreto da realidade. Ontem ouvi Lizard, do King Crimson, quando arrumavam as malas, e a beleza da música me deixou em estado adrenérgico: enfim, amanhã estando só, vou fazer uma compilação dos primeiros álbuns do Crimson e vou ouvi-los em volume proibitivo, vou abrir uma garrafa de vinho e fazer um mega-sanduíche de alcatra. Até os muros foram ampliado na altura, de forma que o Crimson não mais incomodará os vizinhos. Mas hoje acordo, abro as portas e me sento na varanda, tento ler as últimas 150 páginas de O homem duplicado que demorou dois meses para chegar na encomenda que fiz à livraria local, mas aí eu sinto minha desproteção. Assisto ao canal de séries até dar a hora do almoço, em que coloco o que sobrou da janta no micro-ondas, almoço e levo o ventilador à biblioteca (ou escritório pessoal), que não fica mais nos fundos da casa e que se tornou maior, e durmo por quatro horas. Quatro horas dormindo em uma tarde de sábado. Isso, há um tempo, era o diagnóstico de depressão para mim. Acordo porque me acorda o celular, a chamada da Dani para dizer que almoçaram com minha mãe, minha irmã, meus tios e não sei mais quem da família. Uma alegria esfuziante que me faz recuperar os ânimos: outro sinal da idade: meu prazer agora é mais intenso naqueles que amo, não mais o velho egoísmo de outrora.

Esse ano será o da economia. A casa nos obriga à contenção. Sobraram para mim, nesse mês, mas para meus livres gastos pessoais, sessenta reais. Posso fazer o que quiser com eles. Pois eu escolho o livro que mais vou precisar pelos próximos 3 ou 4 meses, e peço pela Estante Virtual o volume 3 das Obras Reunidas de Walter Benjamin, Um lírico no auge do capitalismo. Já tenho os outros dois primeiros volumes, e descubro que esse está esgotado nas lojas de novos. Pago 52 reais com o frete. Encontro 5 para a venda, dois deles mais baratos, mas como o que escolho é anunciado como novo, opto por pagar um pouco mais. Chega de livros por bons meses. Economia regrada. Os únicos gastos pessoas que tenho são livros e vinhos, e o que está reservado para hoje à noite será o último por muito tempo. Amanhã planejo escrever o que tenho que escrever o dia todo. Há muitos caramujos no quintal, hoje peguei uns trezentos, coloquei-os em um saco e joguei sal por cima. Há um silêncio enorme por sobre tudo, um silêncio de coisa limpa e arrumada, o silêncio de locais aprazíveis e iluminados por luz elétrica. Sinto muita vontade de rever Nostalghia; amanhã à noite o farei.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Mia


O homem mais saudável da Terra



Um dos pontos mais resignadamente espantosos do diagnóstico de Jared Diamond sobre o movimento inercial da humanidade rumo ao suicídio é esse em que ele diz que o problema do aquecimento global é exaustivamente conhecido por todo mundo, mas todo mundo age como se desconhecesse a dimensão real da tragédia que se avoluma. Agimos com uma festiva farsa diante a iminência de nossa destruição, como se nada na verdade estivesse acontecendo. É uma crença subliminar de que somos milesimais o suficiente para termos o direito de não usarmos a capacidade cerebral para o raciocínio direcionado pelos fartos sinais. Nada mais pavloviano em grande escala do que isso: repetimos incessantemente os gestos que nos definham como seres humanos, não interrompendo nem por um segundo nosso ataque sistemático contra a atmosfera do planeta que pretensamente julgamos dominar, mesmo tendo a inexorável certeza de as coisas como estão não poderão perdurar por mais tempo. Vejo pelo jornal de hoje que certo local próximo a Curitiba acaba de atingir a marca recorde de 50 graus Celsius de calor. Em Curitiba! E neste último final de semana, no centro-oeste, os termômetros marcaram 28 graus. Há algo de involuntariamente cosmético nessa inversão da crença estabelecida sobre o gráfico geográfico onde a zona azul do frio e a vermelha costumavam estar, como se, de repente, fizéssemos parte de um filme de Hollywood cuja fantasia catastrófica começou a ser acionada para nossa diversão na acolhedora poltrona do cinema. E talvez a metáfora seja séria demais para já não ser a própria realidade. Talvez já atingimos, com o excesso de telas coloridas que nos cercam por toda parte, um novo estágio evolucionário em que passamos a interpretar os eventos do cotidiano através da transposição ilusória de que vemos tudo pela instância dinâmica do cinemascope; só conseguimos atentar pela intuição de entender através da imaginação de estarmos enxergando através de pixels. Hoje mesmo, na imensa fila do banco, percebi, no enfado da espera e das horas roubadas da minha vida pela ineficiência mafiosamente trabalhada das instituições financeiras, que o que antes eram críticas que provocavam nos mais cordatos o constrangimento pelo celular que toca em volume altíssimo, e a fala descompassada e alta do autista que atende ao telefone, sem nem se importar de que esteja ofendendo os ouvidos dos que estão ao seu lado, antes o que era constrangimento não passa hoje de um modus operandi bastante tolerado, respeitado até. Se gritam pelo celular no meu ouvido, é porque o que detêm mais um desses apêndices naturais do homem do século em que estamos é uma prova cabal e relativamente bem sucedida de cosmopolita adaptado, consumidor salutarmente irredimível, que para se chegar ao fechamento de seu negócio de empreendedor, para se falar com a moça que leva e trás o filho herdeiro da escola à casa e vice-versa, um novo e sempre permutável modelo de celular é um instrumento de glória indispensável que abaliza a atitude geral de se fazer surdo à antiga ofensa, de modos que é tão louvável o ruído inconteste por todo o espaço natural e espiritual do banco, é nesse ruído que eu mesmo identifiquei o convite para uma paz de espírito. Senti mesmo um acolhedor pertencimento na estapafúrdia de sons que adormeciam minha crítica e me fazia simpático ao que antes me era algo que tirava por completo a paciência.

Semana passada, em meu último dia antes das férias, comendo um pão de queijo e bebendo um chá de erva cidreira, ouço o senhor octogenário que pediu licença para se sentar à minha mesa dizer o quanto estava fazendo calor. Seu desalento em dizer "estamos acabando com o mundo, se queima tanto e se produz cada vez mais carros e carros" era tanto um suspiro de estoicismo quanto um fundo residual de alegria por estar perto o dia em que não pertencerá mais a esse mundo, não será mais um problema seu e nem dos de sua geração. Eu engoli o chá e lamentei que fosse de um senhor com essa idade que eu pudesse escutar um lamento tão carregado de nostalgia. Estamos todos morrendo, e estamos felizes por não fazermos nada. A lamentação já perdeu seu estágio mais adiantado de consolo, e virou somente um resmungo, a mesma desfuncionalidade esvaziada que determinou que se tornasse um cacoete nacional a análise popular do clima na Inglaterra. Quanto tempo mais nos será dado para que essa exclamação se torne um sacramento cívico? Ou será que já é?

Um conhecido de um amigo meu, que lhe vendeu um carro modelo 2008, ofereceu para esse meu amigo seu carro modelo 2010; quer trocá-lo por um modelo 2014. A meu ver, em minha retrógrada capacidade de análise, isso seria uma compulsão. Mas a maioria das pessoas que conheço, inclusas aí minha irmã e mãe, agem da mesma forma. Minha irmã tem como plano mais fundamentado a curto prazo acabar de pagar o financiamento de seu carro para, imediatamente, entrar com outro financiamento para adquirir um carro zero quilômetro. Há duas semanas passou dois dias aqui em casa um tio que fora morar nos Estados Unidos. Quando a Dani me avisou que viria ele, minha mãe e minha irmã para passarem um final de semana aqui, eu já de antemão me preparei para vencer a depressão que me abate ao ver minha frankesteineidade devassada tão cruamente. A última vez em que estive com esse meu tio, ele me deixou bastante para baixo. É o tipo que olha os objetos da casa e o desmazelo que o acolhimento familiar constrói com cúmplice felicidade, o tipo intrancedente. O homem mais provido de saúde da Terra. Para ele, tudo que não for grana, status social e poder sexual galinídeo, é doença e perda de forças. Conservar darwiniana a força é trabalhar para que tudo isso encha a vida de alto a baixo. Tendo isso com fartura, ele pode se instalar em uma teia de satisfação e hibernar na conservação de sua força vital, igual a uma aranha, ou como um leão-marinho ao sol. Daí que ele chega e o final de semana está irremediavelmente perdido. Falar sobre o quê com uma criatura que exala perfeição destas? O jeito é sair pelos bares e pesque-pages, inflar sua digestão, colocar em overdose suas papilas gustativas e os pelos minúsculos de seus minúsculos músculos tegumentares diante a brisa que vem das árvores da praça ao pôr-do-sol. Esse filósofo pós-filosofia tão certo de seu estágio avançado na escala final das razões sociais. Mas ele pegou mais leve comigo, talvez por advertência da minha combalida mãe (o Charlles é um fundamentalista, não estraguemos a coqueteria necessária do fim de semana com olhares críticos enviesados). Vieram no carro da minha mãe, de forma que quando falo em sair ele pega a chave do carro e me dá, antes que eu proponha irmos em meu veículo de quinze anos de uso. Ao se sentar na sala, de frente à televisão com a onipresença santificada da Globo, ele diz que os médicos lhe disseram para pegar garotas novas e fazer exercícios, que esse é o segredo da longevidade. Sua esposa nativa (ele tem uma outra, em sua bigamia bem conhecida aceita desde que ninguém demonstra saber do assunto) amua-se diante a piada, e eu não perco a deixa: "então seu futuro já está garantido, já que você já faz as duas coisas há muito tempo". Ah esse Charlles é um gozador! Tem 58 anos, e parece que vai viver para sempre. É um leão na savana, um senhor que merece todos os respeitos, além da crítica. Sua esposa se encolhe para fazer todos seus desmandos gentis, só lhe basta a cara de sofrimento resignado que estampa ora aqui e ora ali mais como reação aos possíveis pensamentos impuros sobre sua situação que possa vir de nós.

Jared Diamond me consola um pouco ao dizer em Colapso que a diferença entre pessoas como esse meu tio e eu é o curto prazo de sobrevivência de um sobre o outro. Os mais adaptados terão o benemérito de serem os últimos a morrer. Esse meu tio não quer voltar para o Brasil. Trabalha das oito da manhã às onze da noite, de domingo a domingo. É um cidadão nacionalizado da América, dono de um pequena empresa. Quando eu lhe pergunto qual seu passatempo lá, ele diz não ter tempo para o ter. Lembra, como num estalido, que foi à China com um amigo. Ficou dois meses lá. Um assunto que poderia ser tão rico e salvador, e ele só diz que a China é muito rica. Só isso, sem fotos, sem nenhuma observação feminizante ou doentia sobre detalhes exorbitantes de sua saúde intranscedente. Sorri com descansada alegria. O último a morrer, que privilégio. 

Vida querida, de Alice Munro



O mais certo é não acreditar nos jornais e revistas. Cada dia mais vejo que as opiniões sobre literatura e escritores que partem dessas publicações ou vem de profissionais que não gostam de leitura, ou de acadêmicos cuja ambição mal sucedida é construírem algo novo e original usando o livro como base. Desse último exemplo vi um ensaio na revista Cult sobre Ar de Dylan, romance recente de Vila-Matas, que tinha o absurdo talento involuntário de não dizer absolutamente nada, de não servir para o esclarecimento do leitor sobre o livro em foco, e de ser apenas um rocambole da pretensão do articulista em sofismar para o vazio.

O que se fala de Alice Munro na imprensa cabe no primeiro modelo de tratamento acima. Propagou-se que a nobel do ano passado era o Tchécov moderno; li na Veja um artigo apontando que os contos de Munro são repetitivos e que falam demais em doenças e em mulheres solitárias; em não sei que outra publicação fala-se que Munro tem um inequívoco traço em comum com Raymond Carver. O que sei e posso falar como leitor é que há muitos erros e más intenções nessas críticas. Li Fugitiva e Vida Querida, ambos lançados pela Companhia das Letras (embora o primeiro esteja esgotado e já fora do prelo, à espera de relançamento pela Editora Azul), e descobri que ninguém mais longe no ramo dos contos que Munro de Tchécov. Os contos de Tchécov são carregados de uma ternura cruel, de um humor ferino e desolado, de uma limpidez e clareza de compreensão. Uma das grandezas de Tchécov é ser um escritor descomplicado ao extremo, mas sem que isso recaísse em didatismo ou simploriedade. É um tanto leviano falar de Tchécov, já que ele é uma das maravilhas da literatura. Mas aqui cabe salientar essas coisas para ressalta meu espanto ao ver que tentam vender Munro de forma errada, pois quem ama Tchécov (todo mundo que lê) pode muito bem chegar a Munro por essa ilusão e passar a odiá-la.

Os contos de Munro são complexos, apesar da simplicidade e quase total despojamento da escrita, adotam quebras repentinas de ponto de vista e recorrem ao estratagema de desmentir na cara do leitor as verdades antes apregoadas sobre os personagens. Isso, confesso, me desbaratinou no início, sobretudo nos primeiros contos de Fugitiva. A autora nos dá as mãos e nos leva por um caminho tido como seguro, para, covarde e sardonicamente, nos abandonar logo em seguida. Tchécov jamais faria isso. Mas isso é uma das vantagens de Munro, é o estabelecimento escolhido por ela para se inserir na narrativa moderna. No conto Fugitiva, vi isso com mais maestria_ aliás um conto excepcional!_: somos levados a crer na perfídia de um plano de extorsão, somos deixados desabrigados no centro da história, estamos na iminência de vermos o golpe realizado, até que tudo vira um assombro em que questionamos nosso entendimento quando a linha reta se encurva e segue outro caminho no final. Tive que reler as última páginas para confirmar a coisa. Em Fugitiva, em todos os oito contos, fica notório porque deram o Nobel para Munro, e porque gente como Javier Marías tece loas para ela (Munro é uma das dignificadas a pertencer ao Reino de Redonda, do qual Marías é o atual monarca).

Já sobre a repetição acusada no artigo da Veja, vi isso como um machismo involuntário (é uma mulher quem escreveu o artigo). Todos os escritores são repetitivos, porque Munro não poderia ser? A maioria dos escritores produzem suas obras desnovelando um só e único assunto, e se Munro fala muito de doenças e solidão (principalmente em Vida querida), esses assuntos são obsessão de Philip Roth e vem sendo usado em seus últimos dez romances. Vida querida é bem menor que Fugitiva. Os personagens não são tão convincentes e o enredo peca por desnutrição em alguns pontos. Mas mesmo assim são contos que tem muito o que dizer, são exercícios vorazes de uma velha escritora por continuar a perseguir o enigma que lhe motivou a começar a escrever. E, só a última parte, composta por textos confessionais e declaradamente auto-biográficos, já vale o investimento no livro. Aqui vemos o valor de Munro por uma ótica diferente da criadora de labirintos prosaicos de Fugitiva, por sua sinceridade e sua facilidade. Também não vi nenhuma semelhança entre Carver a Munro. Descontando o óbvio minimalismo, que conceitua a maior parte dos contos de Carver, e no qual Munro não se enquadra em nada, Carver só serve como referência para Munro pela estima declarada dela por sua obra. 

Em nossa época, e superficialidade dos difusores de opinião vende a ideia de que leitura é entretenimento. A alta literatura não é entretenimento. O prazer é uma ocorrência secundária. Munro não é Dan Brown (aliás, tentei ler Brown e fiquei profundamente entediado). Passei muitas horas de prazer lendo esses dois livros. Fugitiva é uma ótima iniciação. Vida querida tem artificialismo e a repetição dos possíveis cacoetes de uma vida inteira dedicada à escrita (como o tem A memória de Shakespeare, do velho Borges), e bons textos auto-biográficos.

Um outro ótimo ponto de vista sobre Vida Querida, pelo Carlinus, aqui.

Clã



Um de meus poucos amigos intelectualizados por aqui é um advogado que dá aulas de filosofia na faculdade. Fui seu aluno há 15 anos (entrei na faculdade de História em 1999, me mudei da cidade, fui jubilado, e em 2004 voltei a me ingressar nela passando mais uma vez no vestibular). Recordo com nitidez que nos primeiros dias em que estive nessa cidade, ainda acabrunhado e espantado pela ultra-realidade que as cidades desconhecidas oferecem aos forasteiros, eu o vi sentado na sala de espera de um Banco. Eu estava na fila e não conseguia desgrudar os olhos daquele senhor que era um anacronismo visual no meio daquela gente tão ocupada com seus negócios domésticos. Um senhor de barbas bem cuidadas, encanecidas com esmero, magro e vestido com sucinta praticidade (camisa social e calça de brim, que na certa mal chegasse em casa trocaria com alívio pela bermuda, chinelos e camiseta), e, espanto!, de pernas cruzadas à inglesa lendo serenamente um livro. Seu nariz aquilino e seus óculos de armação fina lhe davam uma parecença com Sean Connery. A primeira impressão, ou a segunda, visto que a primeira foi a de que ele se tratava de uma bela espécime de animal, foi que ele emanava uma áurea de pessoa temível. Tranquilamente ele parecia seguro de seus poderes intelectuais que garantia uma liberdade em estágio de plenitude superior acima daquelas pessoas. Senti muita vontade de falar com ele, mas esse temor do contato súbito me desmotivara. Fiz malabarismos discretos para ver se lia o título do livro, mas me foi impossível.

Era Admirável mundo novo, ele me disse quando estávamos sentados na varanda de sua casa. Na época os únicos livros que eu havia lido do Huxley foi o Contraponto, do qual nutria uma intensa admiração, e aquele ensaio sobre o ácido lisérgico que ajudava a que a crítica desconstrutivista me convencesse que talvez fosse bom que deixássemos esse velho inglês em seu devido lugar no esquecimento. Ele me repreendeu, dizendo que Admirável mundo novo era um dos livros do século e uma obrigação de leitura para toda pessoa esclarecida. Eu já me acostumara com seu tom peremptório, de quem sabe que é dele por direito a última palavra, e sua idade e seu inequívoco amaneiramento permitia que ele a soltasse com gentileza, depurado a prepotência quase automática que anos de convívio com uma cidade encalacrada na torpeza do senso comum havia lhe criado. Ele me emprestou o Huxley, e isso, ainda penso hoje, foi o gesto definitivo de aceitação da nossa amizade, visto que era notório que ele jamais emprestava livros para ninguém (sabendo disso, o Huxley foi como um tubo de estricnina pelas duas semanas que estive com ele, tamanho meu receio de que eu não estivesse à altura da manutenção daquela honra). Mas ele era bem mais simples do que parecia; na verdade, à semelhança de outro amigo em comum que tínhamos, o Gahleb, ele era um dos únicos homens que eu conhecia que havia planejado milímetro a milímetro sua personalidade social, no intuito de preservar por completo sua verdadeira intimidade. Não cumprimentava as pessoas; andava impavidamente, altivo, e todos já sabiam que ele não usava do artifício das perguntas prontas para saber as inúteis informações se o outro ia bem de saúde ou se iria dar bom tempo para aquele dia. E ele fazia isso com uma magistral leveza, de forma que nunca foi tido por esnobe; se percebessem bem, ele simplesmente não cumprimentava porque ia assoviando baixinho uma serenata e olhando adestradamente aos pássaros.

E ele também era um esquerdista roxo, ortodoxo e decidido. Algumas vezes o pega pra capar entre nós quase transcendia os limites da amizade, mas nunca ia além, o que era outro abalizamento do que sentíamos um pelo outro. Tivemos uma discussão à distância, que soou dramática para as pessoas que nos assistiram, mas que a nós, retroativamente, era bastante cômica, uma noite em que um monge agostinho veio realizar uma palestra em nossa cidade. Os alunos e os curiosos desocupados de sempre aportaram em peso no salão da faculdade, e quando o monge começou a falar uma série de truísmos idiotas sobre Cuba e sobre Fidel, da ordem de que Cuba estava bem mais perto do céu do que o Brasil e de que Fidel era um iluminado de deus, eu me vi em pé rebatendo essas sandices, o que motivou que o advogado se levantasse do outro extremo da platéia e por sua vez me devolvesse com severidade o rebate de minhas opiniões. Acabou que ninguém ousava contradizê-lo, de modos que quando pediu as palmas para o maior político do século XX (Fidel), todos se bateram palmas imediatamente. Foi uma bruta de uma provocação e confesso que, de pirraça, eu esperei que ele viesse a mim com seu sorriso sarcástico no final da exibição.

Outro detalhe é que ele conserva o mesmo carro que tinha desde que conhecemos, um Gol quadrado vermelho. Ele possui uma chácara deliciosa onde mora, no alto da serra da cidade, com uma casa que é um espetáculo. Sua esposa é um doce de pessoa, enquanto seu filho é um reacionário indigesto que parece ter a missão de expurgar os pecados de soberba da família, e sua filha é uma psicóloga que puxou a simpatia da mãe. Ele vive a vida que sempre quis, isolado da sociedade, mas sem se extrair dela. Esnobe no sentido de que preserva sua integridade contra a vulgaridade, e tem uma história pessoal que revela enfrentamentos com a polícia e refregas homéricas contra a ignorância local. Você não conhecia como era isso aqui na minha juventude, ele me disse certa vez, antes de viramos cada qual uma dose de sua pinga de engenho, e por aí vi que seu filho era a parcela de seu sangue que programaticamente só aquiesceria depois dos 50 anos.

Ele foi ficando velho e nós passamos, não sei porque, a nos vermos pouco. Certa vez imprimi um jornal, pelo simples medievalismo da coisa, e ele escreveu um conto para que eu ajuntasse à publicação. Ele escreve contos certinhos, muito bem escritos e bem humorados, e que nunca pediu a opinião de ninguém sobre eles. Só me repreendeu quando lhe disse que não teríamos um segundo exemplar, dizendo que tais jornalecos tinham que ter por direito uma segunda edição só por birra.

Necessitava vê-lo nesse final de semana. Subi a serra e bati-lhe à porta. Como naquela música do Roberto Carlos, tudo estava igual a como era antes. Ele um tanto mais magro e com uma certa erraticidade nos gestos, que me fez pensar na miséria da vida, mas ainda forte, ainda perspicaz, ainda um monumento moral e intelectual. Precisava vê-lo pois eu havia tido uma conversa com um colega e precisava me depurar do nojo que sentia. Esse colega defendia um caso de corrupção local que de certa forma me envolvia. O caso é que um dos motivos que pedi demissão do colégio particular onde eu lecionava, foi que o diretor dessa instituição fraudara um documento em benefício de uma aluna, fazendo com que ela ganhasse uma bolsa integral para cursar medicina na mais cara faculdade do estado. Por seis anos, a federação pagara para a moça a mensalidade e lhe dera mais um bônus de alimentação e moradia de um salário e meio por mês. Tudo porque o diretor assinara um documento dizendo que ela cursara o colégio como bolsista, tendo feito todo seu ensino em escola pública (o que é requisito para tais bolsas). Esse meu colega (tá bom, mais uma vez, se trata do N.), afirmava que não via erro algum nisso, que ele mesmo faria tal coisa em prol de um filho, se o tivesse, e coisa e tal. Errei feio ao me incomodar com isso. Sempre sei que diante tais pessoas o melhor que se há de fazer é virar as costas e seguir meu caminho calado. Conversar com tais pessoas me esvazia e me causa uma instantânea infelicidade. Pois eu jamais faria isso para um filho meu, lhe respondi, sabendo que a frase certa seria "jamais faria isso com um filho meu", mas o tal não acreditou. Tão enxovalhado na prostituição que não consegue ver que possa haver pessoas que pensam e agem diferentes dele.

De modos que falar com esse meu amigo me renovou os ânimos.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Num estado livre, de V. S. Naipaul



Talvez nossa época seja a mais rica em escritores velhos que anunciam sua aposentadoria em toda a história da literatura. Poderíamos usar um truísmo fácil e não estaríamos incorrendo tanto assim no erro se disséssemos que nunca houve tantos escritores octogenários como hoje. Há algumas semanas, foi o octogenário Gunter Grass que anunciou sua aposentadoria, após ter feito o mesmo a Alice Munro, o Philip Roth, o Imre Kertész e o Garcia Marquez (este compulsoriamente). Herman Hesse, em seu O lobo da estepe, já escrevia, de frente ao busto de Goethe, que há algo de francamente obsceno em um escritor que chega aos oitenta anos. Thomas Bernhard, por sua vez, afirmava que chegar mesmo aos 50 era um ato de incompreensível rendição à bestialidade do mundo. Afora esse relativismo em um ou outro grau quanto à tendência da faixa etária andar de mãos dadas com o misantropismo ou com a malemolência ideológica, é notório que a idade avançada oferece uma mudança de perspectivas para a maior parte dos escritores, em que eles se confrontam com uma necessidade de readaptação ainda mais desmotivante por requerer uma nova originalidade que os afaste das armadilhas da auto-repetição ou da escrita mecânica. V. S. Naipaul, também octogenário e também aposentado, segue por um isolamento que em muito tem de semelhante com o de seus parceiros de profissão, no amargor e na desilusão com o mundo moderno, mas com uma forma de repúdio nova no que tem em seus ataques à instituição das letras inglesas e na auto-imolação de seus pecados.

Na polêmica biografia de Naipaul, escrita por Patrick French_ uma biografia dita "autorizada", e que o próprio Naipaul antes de virar as costas para ela admitia isso_, há um retrato desalentador do homem por detrás do escritor. Um Naipaul martirizante que não dispensava da violência no trato com suas ex-esposas, e com tanta negrura sobressalente em seu caráter cotidiano que assinalava que ele, obedecendo a ciclicidade que recria em desmascaramento escritores antes tidos como modelos de honra, era o novo Céline, o novo Mann, o novo Sartre da vez (todos esses, por diversos motivos, caídos na fogueira de seus próprios passados). A diferença é que Naipaul não gastou um segundo sequer de seu tempo em desmentir o que havia em sua biografia; pelo contrário, aquilo serviu para que ele abrisse as comportas e deixasse sair uma negrura ainda maior. Ele praticamente disse o que por nossas terras brasílicas é comum ouvir de entidades políticas do passado: me esqueçam! Disse que o meio literário inglês nunca o tratou à altura, que ele sempre foi considerado uma espécie de aberração colonial, que nunca o engoliram, mas só o aceitaram em nome da fria educação britânica. Essas palavras, proferidas na série de seus últimos aparecimentos na imprensa, serviram para tornar a biografia do monstro um best-seller internacional, o que nenhuma mente voltada para a paranoia dos arranjos promocionais do mercado de livros cogitaria que Naipaul as dizia para o benefício do aumento do número de vendas; ele mesmo desapareceu em sua velhice conformada depois disso e não voltou a dar as caras.

Para um leitor antigo de Naipaul como eu, por mais estranho que isso possa parecer, não houve surpresa nenhuma no ressentimento declarado desse autor. Li quase todos seus livros (99% deles, posso dizer), alguns li mais que duas vezes, e aqui percebo que o estardalhaço feito em torno daquilo que pode ser tido como uma personalidade maligna até então não descoberta é uma tolice de quem não o leu ou o leu superficialmente. Toda a sua misantropia e sua acidez contra o Império britânico, e toda sua decantada visão sobre a América e a África pós-colonial, estão em seus livros. Seus livros são tratados sobre o poder que a dominação histórica e política tem para corromper as almas dos dois lados do jogo de comando. Assim como foi despropositado a reação retalhadora contra Gunter Grass quando esse escreveu em sua auto-biografia que servira às frentes nazistas por um curto período na juventude. Quando vi a fogueira feita na imprensa contra Grass, o primeiro pensamento que tive foi mas todo mundo já não sabia disso? Em Anos de cão não haviam sinais mais que contundentes afirmando isso? Ninguém conseguiu ver que Oskar Matzerath, debaixo dos palanques em que ouvia o führer, ou debaixo da mesa em que via a concupiscência do povo alemão daqueles anos demonstrada pelo pé do amante entrando pelos entremeios da saia de sua mãe, dizia com mais eloquência e fatídica simplicidade o que estava tardiamente anunciado na auto-biografia?

Naipaul alegar ter sido tratado como um colono desigual e apiedante pelos seus páreos na literatura inglesa acaba sendo revalidado pela forma com que sua obra parece ter sido mal lida na Inglaterra. Em uma literatura cuja característica secundária (mas veemente) ser a de seu hermetismo voltado para dentro de sua própria relevância patriótica, o lugar de Naipaul no interior dela ainda é uma questão não definida e obscura. Mesmo que na maioria das listas dos grandes autores em inglês da metade final do século passado ser dividida em seus dois primeiros lugares entre Naipaul e Bellow, e mesmo com a grande fama e reconhecimento de Naipaul como uma espécie de embaixador exilado com voz proeminente sobre o subdesenvolvimento alcançadas há alguns anos, Naipaul parece sofrer um processo de decrescente teor de relevância no mundo que seguirá após o seu desaparecimento físico, um mundo onde seus personagens tirados da realidade de mazelas morais e nada auto-afirmativos do pós-colonialismo parecem sem lugar na globalização revestida de gloriosa procura por sucessos financeiros. Não é um sinal a ser desprezado que Naipaul é pouco citado na literatura inglesa: tirando os ensaios primorosos de Edward Said que o elevam e o desbancam como protótipo reconhecível do intelectual exilado que fala a verdade ao poder, o que conheço é que Martin Amis o cita em uma passagem de Campos de Londres sobre descrições feitas por ficcionistas sobre sexo anal. Naipaul parece ter conquistado um curioso ponto cego em que ele existe com toda sua excelência e superioridade sobre os demais, mas cujo misto de fatos mundanos de origem, cor e visão o congelam em um adorno paulatinamente sem expressão.

Será isso verdade? Em uma crônica de Garcia Marquez sobre literatura centro e sul americana, um dos amigos do escritor colombiano o lembra que Naipaul também é um escritor caribenho. Não é sem estranhamento que se lê sobre essa verdade básica: Naipaul é tão passível de ser classificado como escritor caribenho quanto Garcia Marquez, nascido que é em Trinidad e Tobago e sendo que parte considerável de sua produção fala sobre a realidade desse país. E, para ressaltar com certa dose de comicidade fantástica o caráter de leveza conceitual de Naipaul, talvez ele seja menos conhecido nas América do que é lá fora. Deveria-se falar mais de Naipaul por aqui, tendente a nossa imprensa literária à maledicência como é, pois a leitura de seus livros se presta a uma acusação da miséria moral, do imobilismo e do estancamento espiritual, da falta de redenção dessas nossas terras, em nível mais sem eufemizações que o de Vargas Llosa. Por aqui se perde muito em não saber o quanto seria bom falar mal de Naipaul.

Um exemplo pontual da excelência e da superioridade de Naipaul está em seu volume de contos lançado com um atraso de 42 anos pela Companhia das Letras ano passado, Num estado livre. É um dos livros mais aclamados e conhecidos de Naipaul, ganhador do Booker Prize, e um ótimo cartão de apresentação para quem queira se iniciar na leitura desse monumental autor. Antes de mais nada, as circunstâncias de sua publicação no Brasil podem demonstrar o quanto tem-se a tendência de vilipendiar a importância de Naipaul. Lembro-me que, no ano de publicação de um dos romances menores de Philip Roth, Fantasma sai de cena, li em certas plagas conceituadas da internet a eleição desse romance como "a melhor publicação nacional do ano", além do que a imprensa dedicou certo esmero em sua divulgação. Quanto a Num estado livre, uma das maiores realizações de Naipaul, pouco se acha a respeito na internet, além de uma ou outra opinião pequena, e a imprensa simplesmente o ignorou (bons tempos em que a imprensa ainda comportava personalidades ambíguas como Paulo Francis, que, por mais que se  possa dizer contra o formalismo de suas opiniões, ele podia se alardear como jornalista voltado para a literatura_ e Francis foi quem me levou ao desconhecido Naipaul, por ser um de seus autores preferidos). Pois Num estado livre é, de longe, o mais bem escrito livro lançado ano passado no Brasil, com uma linguagem precisa, uma clareza de imagens que já na primeira página demonstra o potencial de Naipaul, com personagens complexos e viscerais, e com uma fluidez na leitura que é uma das preciosidades em mostrar o quanto a leveza serve ao estranhamento (o livro é cheio disso que se convenciona perceber como subníveis de leitura, como espaços voluntariamente vagos para a interpretação, com opressivos silêncios de trivialidade).

É impossível ficar incólume diante as 17 páginas do conto-prólogo que abre o livro, intitulado O vagabundo no Pireu. Nessa peça tudo é trabalhado para não se ter nada ali. Uma simples narrativa sobre a empáfia mal disfarçada de um vagabundo numa travessia de navio. Não se sabe nada sobre ele, e ele é tão insignificante em sua graça grotesca que se torna centro dessa narrativa em forma de diário apenas como procura pelo que contar entre situações de náuseas de viagem e suportamentos sob o sol escaldante. Os demais contos, mais encorpados no centro entre esse prólogo e um epílogo retirado do mesmo diário, na soma de três (sendo o último uma novela mais longa homônima do título), continuam a temática sobre a não-representatividade dos personagens. Em Um entre muitos, temos um empregado indiano que parte com seu patrão para viver em Washington, no segundo, Diga quem tenho de matar, dois irmãos saem de uma ilha caribenha para tentar a vida em Londres, um deles no serviço pesado para garantir o sustento do outro em uma improvável carreira universitária; no terceiro conto vemos um homossexual atravessando de carro na companhia de uma mulher um país africano em guerra civil tribal. São peças que beiram a perfeição, em uma pureza flaubertiana. Os dois primeiros contos dão ao leitor, de onde quer que ele seja, a impressão agoniante de estar dentro dos personagens, e com eles se ver abandonado em um mundo cruel em que os afazeres pessoais de uma civilização babélica mata não por ações de violência ativa, mas por um desprezo tão cabal e impessoal por vir da corrente determinista de história. O determinismo é o fulcro dessas narrativas: por vezes o leitor acredita que os personagens descambarão para o terrorismo e o assassinato, mas a calma e pesada rotinização das convenções desproteiniza os personagens ao ponto de uma quase inexistência, de uma invisibilidade ellisoniana. É esplêndido o controle da voz de Naipaul neste livro: ele sofreu tudo pelo que passam seus personagens fracassados, e sua frieza, pela própria afirmação de existir em sua escolha em escrever essas palavras, é uma forma de demonstra carinho para esses números humanos que são engolidos sem piedade pelas estatísticas, pelo seguramente sadio na normativa rigidamente funcional da ortodoxia sociedade-política. O livre do título é algo que está bem acima da ironia: é uma dessas verdades exorbitantes afiadas pela sua infalível precisão. O que pode preocupar é se essa narrativa, e a série de romances e livros de viagens e ensaios que Naipaul produziu em seguida, sãos os últimos que a atual situação do mundo comporta receber. Naipaul fala da farsa da independência, das marionetes servidas ao rearranjo do poder por parte das mesmas forças de dominação, só que seus personagens sequer esbarram com esse poder: são mostrados em sua asséptica posição de seres descartados suave mas determinadamente pela história, em seus últimos momentos, de maneira quase sem drama e sem tragédia. É uma ternura única essa do velho misógino resignado em seu refúgio londrino.


Rock ostentação


Há uma parte em Era dos extremos em que Hobsbawm escreve que os Beatles produziam uma música com estrutura musical reconhecível, eufônica, garantindo com isso uma certa imortalidade para os anos vindouros, mas quanto à música dos Rolling Stones, ele diz, ela é um pastiche perecível do blues feito por grupos de jovens negros da década de 50, uma imitação fraca e um quanto ridícula que decretava que os Stones estariam esquecidos dali a algumas décadas. Esse trecho nada afetou o fã incorrigível dos Stones que eu era quando o li, aos meus vinte e poucos anos de idade, mas anos mais tarde, quando li o livro sobre jazz do grande historiador alexandrino, vi que o gosto de Hobsbawm era um tanto dogmático para a música de improvisação, um tanto retrô e de costas para as revoluções que surgiram nessa divina música negra e que Hobsbawm podia muito bem intuir mesmo no meio da década de 50 em que escrevia o referido livro. Para o Hobsbawm da década de 50, o auge do jazz era o jazz de câmera de Duke Ellington, um jazz limpo, ainda apoiado na partitura. Na minha análise (um tanto rasa), isso explicava porque Hobsbawm aceitava como legítima a música dos Beatles, por sua limpidez e sua relojoaria em que tudo parecia estar no lugar, e rejeitava a música dos Stones, em seu cacofonismo e sua sujeira de fundo. Na mesma linha pre-conceituosa e imprecisa da minha análise, o gosto de gentleman do historiador era limitado pelo jazz ordeiro e conceitual que vinha dos grandes salões de baile (ele diz em sua auto-biografia que foi tomado pela força do jazz ao assistir Duke Ellington em Newport), o que impossibilitava que ele aceitasse que, de um certo ângulo de vista, os Stones podiam ser mais indelimitados pelo padrão da música comercial, com suas minúcias travessas de grandes instrumentistas, do que os Beatles, por mais que os Beatles foram quem direcionaram todas os caminhos da música pop nos anos 60.

Falar dos Beatles e dos Stones me faz usar luvas de pelica. Certa vez a Marília Gabriela perguntou ao Paulo Coelho de qual dos dois ele gostava mais, e ficou surpresa ao ouvir do mago que ele gostava mais dos Beatles. Eu jurava que você diria que era os Stones, porque eles foram mais audaciosos e ousados que os Beatles, ela diz, ao que o sábio mago (ao menos dessa vez), responde com absoluta confiança de entendido que os Beatles foram bem mais revolucionários que os Stones, foram os Beatles que criaram a música psicodélica, que abriu as portas para o progressivo, que inventou o hard rock em 1968 (Helter skelter), que isso e aquilo..., enquanto os Stones, ditado pelas premissas do mercado fonográfico, até um exaustivo tempo, só fazia copiar os Beatles, da forma mais descarada possível. Concordo plenamente. Os Stones era uma cópia dos Beatles, ainda que enormemente talentosa, e só alcançaram a grandeza insofismável quando decidiram plena e libertariamente serem eles mesmos, com o magnífico Exile on Main Street. Como um crítico disse, Exile é cheio de música suja e sublime, um álbum duplo muito mais belo que a chatice do álbum branco da turminha de Liverpool. Concordo. Exile foi um dos marcos espantosos de minha vida de ouvinte de música; é o melhor disco de rock de todos os tempos, e continuará inalcançável.

Muito provavelmente eu fale com essa levianidade sobre os Beatles porque me encontro num estágio de saturação de tanto ouvi-los. Há uns dois ou três anos não os ouço mais, aguardando que as baterias do amor sejam recarregadas. Há três anos não me seria fácil dizer que o álbum branco é uma chatice. Mas também, fazia três ou dois anos que eu não escutava mais os Stones. Para ser sincero, nesse período meu gosto pelos Stones se atrofiara consideravelmente. Cheguei mesmo a achar o Jagger e o Richards um porre. Principalmente o Jagger. Pelo tanto que ele fala mal da própria banda, aquilo acabou me convencendo. O cara não poderia sair por aí dizendo que é tudo comércio, que tudo foi feito simplesmente pelo dinheiro. Isso é horrível para um fã. Isso é horrível para uma música que veio do ideologismo dos sessenta. Paint in black ter sido feita simplesmente pela grana (um outro Paulo, o Francis, disse que essa canção era a maior crítica contra o Vietnã). Acabei acreditando. Tá bom, Mick, então faremos as coisas de seu jeito, mas o jeito foi passar a tratar os Stones como os macacos de palco que eles pareciam ser. Deixei de ouvir os Stones.

Até ontem, quando os pedreiros vieram nos dizer que poderemos retornar à nossa casa na segunda-feira, após meses em que estávamos deportados em outra casa aguardando a reforma. A turma daqui me deixou sozinho à noite, e eu, em comemoração, inventei de passar umas três horas ouvindo os Stones, não sei por quê. Coloquei o Sticky fingers, depois fui direto para uma compilação dos clássicos. Eu costumava limpar a casa, quando solteiro, ao som deles. E ontem a paixão toda retornou, altiva, integral, de corpo inteiro. Que música catártica é Can´t you hear me knocking! E que coisa é aquela que faz com que Street fighting man tenha tantas camadas de riqueza?, eles estão contando uma história emocional ali. Eu havia me esquecido que Jagger já fora sim o maior vocalista do mundo, diferente do esbravejador de purpurina que passou a ser já desde a metade final dos setenta. Do alto de meus 40 anos (Nick Horby dizendo que a perda maior da idade é deixar de acreditar que Hot Salad e Heartbreak são maravilhosas), eu pude entender esse tipo de música de uma maneira mais profunda, dando total crédito ao adolescente que eu fui e tendo uma nova percepção sobre a grandeza dela com a idade. Ontem eu tive a convicta certeza que os Stones é uma benção de Deus. Ainda não fiz o mesmo processo com os Beatles, mas passar anos sem escutar os Stones depurou a obra deles ao máximo (não faço o mesmo com o Led porque nunca deixei de ouvir o Led). Não pude me negar à tendência reflexiva de comparar a alegria e a contestação radical de músicas como Satisfaction e Brown Sugar com a merda que se produz hoje no mercado de música alienante. Imaginei se a vizinhança pudesse escutar Get out of my cloud, se aquilo não iria arrepiar os cabelos da nuca, se eles não jogariam o MC da hora no lixo. Música é isso: ira feliz concentrada, liberdade pura, selvageria santa, falta de escrúpulos e tudo embalada em um senso filosófico natural. Os Stones são o que o Nietzsche dizia sobre a elevação da música dionisíaca. Pensar só, eis sabedoria, cantar só seria estúpido. O personagem de Richard Dreyffus em Adorável professor, um adepto fanático da música clássica, apresenta para seus alunos uma cançãozinha simplória de rock, que passava nos rádios, e diz "é uma música pobre, com três acordes, centrada quase toda na percussão, mas eu adoro; ela é hipnótica, e tão maravilhosa quanto a música de Bach". Quando passou Satisfaction ontem, sem que eu a esperasse, sendo que eu já havia até me esquecido dela, eu comprovei a veracidade profunda do que já falaram dela: Satistaction é a nova quinta sinfonia de Beethoven. Reconheço o teor erraticamente infantil da tentativa de comportar em palavras o que eu senti, mas me imaginei em uma lamborghini, não pela lamborghini em si, mas pelo processo de desnudamento almático que a música provocava, da mesma maneira daquela célebre texto sobre o índio de Kafka, em que Kafka se imagina um índio cavalgando em um cavalo em uma padraria americana, e que vai lhe desaparecendo o arreio, o cavalo, até que desaparecem o chão e a padraria, desaparece tudo. Só o vento que precede a incorporalidade. Precisa-se esperar mais de uma obra de arte?

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Mudamos de casa para as reformas e nossa vizinha, a senhora Luiza, após cinco anos que eu moro ali, confessa à minha esposa que ali havia sido um centro de rituais de macumba. Minha esposa retorna sorrindo com essa informação, esperando alguma reação racional da minha parte. Nossa casa foi um centro de oferendas a Ogum, Charlles, o que você acha disso? Eu deponho o livro que estava lendo, o terceiro do ciclo das obras do racional e refinado Niall Ferguson, e falo racional e refinadamente um e daí, meu amor? (Cristianamente, como requeria a invocação de uma proteção espiritual suficiente para a possível batalha que se insurgiria dali para frente contra o tranca-rua, eu poderia ter parafraseado "o que tenho eu a ver contigo, mulher?") O certo é que meu passado de personagem de Pynchon não me permite uma postura tão honrosa, e a Dani sabe disso, e no micro-segundo que separa sua pergunta do mecanismo enzimático necessário na cabeça dela para me tacar por cima a lembrança, eu já prevejo a ataque e me concentro. E aí ela se lembra e me diz, sorrindo: se lembra da vez em que você se mudou para uma casa, e quando lhe contaram que a casa havia sido um puteiro histórico em que cinco pessoas haviam sido assassinada nela, você dormiu numa cadeira na varanda e no outro dia se mudou dela? Harrãn, respondo, escondendo estar contrafeito. Mas isso foi há 15 anos, Dani, eu penso em responder, mas não respondo para não dar mais corda para essa enorme chance dela curtir com a minha cara, isso foi antes deu ler Niall Ferguson, Dani. Continuo calado, mas vejo o imediatismo da coisa, que eu devo pensar rápido e tomar as rédeas de situação, pois logo-logo a Dani vai estar contando a radiante notícia para minha sogra, minha mãe e o diabo-a-quatro (que pelo visto, foi o primeiro a saber, já que nos descobrimos inquilino dele). É necessário mesmo que eu desça de meu nível fergusoniano para falar sobre essas coisas? É. Me sento com a Dani, me rendendo ao sorriso, e explico que ou Satã fracassou redondamente, ou nós é que acabamos por enternecê-lo, pois vivi os melhores anos da minha vida nessa casa, fui enormemente feliz aqui, aqui a Júlia foi trazida bebê, ela falou suas primeiras palavras, engatinhou, deu seus primeiros passos. Essa casa de Exu proporcionou um isolamento acústico acolhedor contra o mau gosto do lado de fora, pois foi aqui que nos demos a conhecer a nossos filhos a música de Bach, as sinfonias de Beethoven, o gosto aprendido da música de Mahler, só para ficarmos nesse estilo de música. Ou seja, Dani (continuei, percebendo uma linha de vingança dialética que poderia me reaver o domínio histriônico da situação), convertemos o diabo, o que pode ser uma coisa gravíssima, visto aí a teoria de Giovani Papini de que toda a razão da existência é a tentativa de Deus em resgatar o jovem Lúcifer rebelde de volta para as hordas celestiais.

_ Minha mãe bem que dizia que não se sentia bem em ficar sozinha na nossa casa, ela dizia morrer de medo_ a Dani disse.

_ Pois então está aí a explicação, Dani. Foi sua mãe que expulsou os demônios da casa.

_Sei bem o que você pretende dizer, Charlles, vou contar para ela.

_Filha ingrata, desconhece a presença de espírito da própria mãe!

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