
Na universidade, conheci aquele que tenho pelo meu modelo de homem mais esnobe. Era um sujeito baixinho, magro, com essas caras não isentas de beleza muito bem recortadas, concisas, que passam um ar cênico de sofrimento filosófico, maçãs e queixo duros que me faziam pensar que só sua aparência renderia um bom utensílio teatral. Mas os olhos desmentiam qualquer anseio esotérico, pois eram claramente eficazes apenas nas regiões do pragmatismo bem planejado; era um homem que me parecia ter uma superdesenvolvida crença no dinheiro e no poder. Fazia medicina, e sempre que o via, parado em frente às portas das salas e dos laboratórios, mas nunca imóvel em seus cálculos mentais de máximo rendimento das horas, não me continha em demorar a apreciá-lo. Sua autoestima era irretocável e insofismável, o que era belo de se ver. Nunca ouvi sua voz e jamais descobri seu nome, mas o via falando num laconismo cinzelado com seus colegas; ele não perdia tempo com conversa fiada ou com interatividades sociais de simpatia. Imagino que seria um bom resultado a seus projetos se tornar dono de algum hospital especializado em cirurgias cerebrais ou estéticas, mas não o vi mais depois daquele ano em que disciplinas em comum entre nossos cursos me fazia cruzar com ele pelos prédios do campus. Ele me recordava também um personagem bastante coadjuvante de Lorde Jim, em que o narrador de Conrad nos apresenta um portentoso capitão de navio com a mesma elevada régua de medição de sua auto-importância semi-divinatória; Conrad dedica um único e extenso parágrafo a descrevê-lo, com todas as suas qualidades e altas formações, e conclui com aquela poética abrupta e desapiedada típica do autor: "Ele se suicidara."
Esnobismo me parece sempre a mais ridícula das características humanas. Não sei se a palavra apropriada aqui seja esta, esnobismo, ao que gostaria de indicar como o conjunto de pretensões individuais que cria a ilusão de sobreposição de valor de uma pessoa sobre outra. Uma das recentes ocorrências deste comportamento vi num blog de uma mulher que se intitula, em seu perfil, como um misto de tantas coisas que acaba revelando a sua desamparada realidade de ser coisa nenhuma, ou, melhor, de ser esposa de um nefrologista. Ela se diz psicóloga, pianista aprendiz, escritora, e mais algumas outras qualidades tangenciais de que não me recordo. Em suma, os qualificativos servem para autorizar seus textos sobre os tantos concertos de jazz que assiste aqui e nos Estados Unidos, e suas gracinhas estilísticas em que pretende mostrar debaixo das mangas arregaçadas de seu sofisticado gosto artístico as suas armas simpaticamente refreadas de propensa ensaísta. Conheci seu blog por ser ele um da algaravia de blogs de um amigo, e fiquei fascinado por descobrir um laboratório tão rico de estudo sobre como pensa e se comporta e se pinta uma determinada espécie de gente que compõe num agradecimento extático a chamada elite nacional. A tal esposa do nefrologista, por exemplo, escreve um longo e minucioso texto em que descreve com ares de sumidade entendida todo o concerto que Keith Jarrett fez no Rio de Janeiro. Em outro texto mais atualizado ela faz uma mea culpa de classe no estilo fui ao shopping fazer minhas compras semanais e vi o quanto uma de nosso clã pode ser deselegante ao gritar com a ascensorista, e complica retoricamente, como deve ser toda escrita com uma profunda cadência filosófica, com a conclusão será que nós podemos condená-la, será que nós não fazemos o mesmo e em nós é esquecível mas no outro é criminalizante? Um detalhe delicioso é que ela diz que estava com uma blusinha simples e barata no shopping, como qualquer outro mortal, mesmo que a houvesse comprado na quinta avenida em New York. Os comentários dos leitores são instrutivíssimos, com os tantos aplausos à perspicácia e à riqueza humanitária da autora, e uma série de casos de campo em que se confessam do mesmo pecado com o mesmo tom de convalescimento moral instantâneo. Em mais um outro texto, a peça de maior aproveitamento sintomático é o comentário de uma mulher, cuja foto do perfil bebe da obscuridade moderna em mostrá-la elegantemente enviesada, que pergunta à autora quais livros ela indicaria para ler, já que ela leu de tudo e a alta literatura atual é tão insossa que a enfada; daí a autora recomenda, se não me engano, um romance ganhador do Pulitzer do ano passado, ao que a leitora enfadada agradece e diz que vai seguir a recomendação lendo-o enquanto suporta o maravilhoso sol de Ibiza. Com esse panorama didático do blog, me prontifiquei mesmo a desconsiderar a crença da esposa do nefrologista nas qualidades redentoras do seriado Lost. (Quando, há dois anos, eu procurava o download de um álbum de Joni Mitchell, eis que encontro, após coletar o material e gravá-lo no computador, na caixa de comentários do blog disponibilizador, um comentário do próprio nefrologista, laconicamente dizendo: "Isso é roubo. Vou denúncia-los à polícia federal". Que graça, pensei, recordando os textos de sua amada, o quanto a apreciação da Mitchell por ele deve ficar comprometida ao saber que plebeus a escutam sem terem que ir aos EUA desembolsar uma grana em uma edição remasterizada especial.)
Não que eu seja simples. A simploriedade e a humildade compulsória me enojam. Eu creio numa certa aristocracia espiritual. Quando comecei minha vida profissional como veterinário, há uns 15 anos, conheci um senhor que morava isolado na mata, nas proximidades de uma cidadezinha minúscula em Minas Gerais. Eu era responsável por expedir documentos de fiscalização sanitária em um escritório governamental em que não entrava ninguém por longas e modorrentas horas, e eis que entra esse dito senhor, um homem extremamente bonito de uns sessenta anos, espadaúdo (no ato me veio justamente esta palavra obsoleta, pois ele transmitia esse anacronismo e esse deslocamento temporal, como alguém tão independente das estruturas citadinas que não me surpreenderia se falasse em um esplendido português arcaico), magro e altíssimo, cabelos brancos e uma paciência e recolhimento tocantes. Nada nele era ostensivo e tudo nele era desarmante por sua completa liberdade de defensivas. Vendo alguém assim, ao vivo, se sabe o que eu digo com essa de defensiva: vendo-o evidencia-se o comportamento intrínseco de todo mundo de se auto-defender do outro, mesmo que seja a auto-defesa de se mostrar social, com o propósito de ser bem aceito e bem visto, de ser_ como diz Hegel, afirmando ser esse desejo a matriz por todas as disputas humanas_, reconhecido. Neste homem não havia a minima importância pelo reconhecimento, mas era uma ausência e não uma presença negativa, a importância de demonstrar que não se importava. É Walt Whitman, pensei. Recolhi as notas de vacina que ele me apresentara das vacas que tinha em sua pequena propriedade, e ele sumiu para o meio do mato. Isso é a aristocracia espiritual a que me refiro, o que não o isenta de, talvez, por debaixo de sua estampa, estar um leitor de Kant nas horas vagas de suas atividades rurais, ou um matemático, ou um poeta, ou um pintor ou escultor. As pessoas como a esposa do nefrologista veem a leitura e as diversas formas da arte como único atestado de supremacia espiritual, com o único propósito de legitimar seus estilos de vida endinheirado, seus distanciamentos dos diferentes e inferiores.
Minha concepção da aristocracia é a mesma de William Blake e Swedenborg, de que a arte é um instrumento poderoso para o esclarecimento e o descobrimento pessoal e do mundo, nada tendo a ver, ou estando na direção oposta, à do dinheiro. Um caso interessante é o do escritor Javier Marías, que em um de seus textos em seu blog, estuda essa visão que alguns tem dele de o considerar antipático e esnobe. Não vou entrar no mérito desse referido texto de Marías. Marías é um grande escritor aristocrático, ainda que a aristocracia baixa dos níveis terrenos apareça em sua obra, em seu estupendo livro sobre Oxford, em seus personagens que ocupam distintos cargos culturais e políticos. Mas a aristocracia espiritual de Marías sobressai a essas arquétipos de sua prosa, que poderiam irritar os menos pacientes e menos perspicazes. Diferente de um outro estudante de Oxford, um brasileiro cuja única relevância na mídia foi o lançamento de um blog de claros interesses eleitoreiros, que teve milhares de acessos diários durante a campanha que promoveu para a eleição da atual presidente do Brasil, e que depois deste ser eleita, nunca mais deu as caras. O blog mostrava sua concepção pessoal de oráculo político a dirigir o caminho para os incautos, o privilegiado progressista que via sua função social em dividir parte de sua luz com os menos favorecidos. Tanto que aspirou um dia a resenhar no blog, como desafogo necessário ao excesso de partidarismo político monotemático, um livro de Ian McEwan, o que mostrou o quanto era um intelectual raso e sem qualquer outra qualidade que não especifismos muito dirigidos e maçônicos.