quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Murakami e a Reverberação da Linguagem (Uma Previsão de Empatia)


Ontem o carteiro me entregou o Norwegian Wood, de Haruki Murakami, e a previsão é que hoje ele me entregue o 1Q84. Fiquei feliz e envaidecido que a tradução da Alfaguara seja direto do japonês e, segundo algumas fontes, mais confiável que as traduções apressadas feitas pelo mercado livreiro dos Estados Unidos ao perceber a emergência de aproveitar os milhões de exemplares vendidos no Japão na ocasião dos lançamentos do autor. Li por longas horas madrugadinas o romance tido como de mestre sobre o amor no final dos anos 60. Pareceu-me que Murakami é por demais convencional e sem muitos arroubos linguísticos, com forte acento da tradição japonesa (e chinesa) de relatar com esmero episódico e com uma poética com suas tipicidades trágicas um tanto anacrônicas para a velocidade da literatura ocidental. Uma narrativa sem experimentalismos de qualquer tipo, bastante convencional. Seu monocromismo me pareceu isento de eufonismo, mas pensei que afinal essa é uma das pretensões declaradas de Murakami, extinguir o beletrismo da ficção japonesa e torná-la eficiente, prática, voltada para algum fim doutrinário de descobrimento espiritual. Também ficou claro para mim a indisposição que vi entre admiradores de Pynchon quanto a Murakami, o desprezo que nutrem por ele: Murakami perto de Pynchon me soa um tanto japonês, um tanto certinho e engomado, como soa estranho o rock japonês e o cinema de ação japonês. Pynchon nasceu antes para a literatura, com uma enorme carga de perigo e inconveniências; já Murakami é um neófilo com um seguro ar de pedantismo oitocentista, suavizado em muito pela decantação da prosa pop. Talvez isso não tenha passado batido para Murakami e essa lentidão démodé tenha lhe incomodado, o que fez com que partisse para o canivete em punho de seu últimos livros fantasiosos e lisérgicos, onde se juntam universos paralelos e releituras de antigos mitos.

Mas, percebo, isso não desmereceu Murakami para mim, e sua leitura segue sendo bastante prazerosa e instrutiva. Com o tempo pode ser que eu veja nele a sua estatura iniludível de mestre, o seu direito certo de grandeza artística. Li apenas umas cem páginas, precipitação escrever essas palavras. O que achei mais libertador é o que me motivou a procurar por ele: a paixão da escrita como um dever e não como um artesanato radical de traços impecáveis. Para um oriental e nipônico isso deve ser um tanto mais difícil, com todas aquelas escolas caligráficas as quais são talvez as encarnações mais singelas do rigor da beleza da escrita. Penso em A Montanha da Alma, o livro de perfeição ofensiva do chinês Gao Xingjian que li há dez anos. Essa aproximação doutrinária da literatura japonesa e chinesa do gesto coreografado deve ter sido uma dura pena a ser superado por Murakami. Por isso é muito bom ver os descuidos tolstoianos de Murakami em usar profusamente os advérbios, a repetição enfática da mesma palavra em um mesmo parágrafo, do favorecimento da expressividade do sentimento sincero e não da disposição enganosa da poesia bombástica, as imagens e metáforas de gosto duvidoso mas sem solenidades e por isso surpreendentemente eficientes (algo como faz genialmente Günter Grass). Murakami na certa vai causar em mim o mesmo que causa os escritores puros, John Fante, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Cortázar com seus infinitos defeitos e obsolescências, o mais próximo e amador Marcos Nunes: a grandeza inerente à insuportabilidade que seria abnegar-se da escrita, o que os torna relevantes compulsoriamente. De forma que ler Murakami não deixa de ser uma incrível libertação.

Breno


Eu tinha 17 anos, estudava em um colégio da elite, e quase não possuía amigos. Os dois rapazes que podiam se enquadrar na categoria de amigos estavam tão envolvidos no fascínio da descoberta da idade que era uma aspereza emocional ficar na periferia de suas camaradagens distantes. Ao final do dia eu voltava para casa com a impressão de que era mantido próximo a eles só para ser testemunha da grandeza áurea de suas personalidades. Enquanto andavam de peito estufado observando por cima de todos, satisfeitos de seus destinos, a única qualidade inegável que eu tinha de ser um ouvinte perfeito me fazia parecer o escudeiro fiel no encalço dos dois, um patético Igor. Um deles se chamava Erasmus e era o que indicava que a qualquer momento nossa convivência se romperia nessas tantas amenas tragédias da juventude, e foi o que acabou acontecendo num dia em que por motivos irrisórios trocamos socos. O fato de mal termo-nos despenteados os cabelos com a briga, conferindo apenas um rubor que poderia bem ser confundido com uma carreira para não se chegar atrasado ao ônibus, e alguma poeira nas roupas, mas nada de arranhões e nem tão pouco sangue, pareceu-nos significativamente degradante. Ainda penso que foi essa inofensividade incômoda que fez com que não nos falássemos mais, depois da vergonha que ridicularizava muito de nossos planos pessoais secretos, de modo que o único recurso era esquecermo-nos para sempre um do outro. Tinha algo de alivio velado em romper com Erasmus; as visitas à sua casa eram de uma tristeza infinita, por muito tempo me perturbava a figura apática de sua mãe que se escondia no quarto e que, para meu terror, Erasmus criava pequenos e sádicos expedientes para trazê-la de volta à nossa frente como se fosse parte do exibicionismo da torpidez cotidiana que tinha que suportar para tornar-se um adulto estoico demasiadamente racional. Ela nunca nos servia lanches, como era das mais comum das praxes que as mães de colegas fizessem, e lhe faltava grotescamente a compostura de nem sequer tentar disfarçar o pânico que a presença de um amigo do filho lhe causava. O pai de Erasmus já era outra coisa: das duas vezes que o vi senti a carência conceitual que só me viria com o tempo, de maneiras que se sentar na sala junto a seu silêncio hermeticamente alheado de homem político, enquanto Erasmus tomava banho, me remeteria bem mais tarde à tensão contida de um criminoso sexual. Essas coisas juntas tornavam a insípida convivência com Erasmus em algo opressivo, que inconscientemente não via a hora de encerrar. Foram socos muito esperado, enfim. Já Breno era alguém do qual minha solidão não podia prescindir. 

Breno era uma espécie de eleito para os altos escalões sociais bem mais limitado. Era um técnico e não um filósofo. Não havia nenhuma malícia nele, fora a vaidade insular de que recebesse de mim todos os aplausos. Tinha mesmo uma cadência infantil na voz que a adolescência não conseguia esconder e que sempre recorria a ela para evidenciar seu direito à predestinação. Seu humor não resultava daquela sofisticada genialidade sarcástica da qual ele julgava vir, mas tinha uma ternura erraticamente analgésica de desenho animado. Era alguém que não nascera para as mínimas formas de sofrimento, e talvez minha segunda qualidade inegável fosse a de zelar ativamente para que essa ilusão fosse preservada. Eu ria de suas piadas como se elas fossem geniais, mostrava meu fascínio corroborador diante seu magnetismo com as meninas, e me calava em estuporado respeito diante a premência dos sinais que seu vitorioso futuro enviava. Magoá-lo seria como bater em uma criança. Alguém assim possuía por detrás pais completamente diferentes dos de Erasmus. Os pais de Breno eram um sonho de todo rebento recalcado pelos traumas de um lar desfeito. Eu que só possuía uma mãe cujo esgotamento a que tinha que se submeter para pagar as despesas de casa e o alto custo de meu colégio rendia um regimento doméstico severo cheio de espaços de laconismos, olhar os pais perfeitos de Breno era me submeter ao escapismo culposo de diálogos sorridentes e de uma adstringente lentidão. 

Não me passava pela cabeça a possibilidade de perder Breno nos três anos de colégio, mas o conhecimento de seus pais me fez temer que algum erro fechasse para mim a adesão àquele mecanismo irretocável de saúde nuclear. Depois que Breno me levou em sua casa pela primeira vez e eu fui apresentado ao homem sacerdotal de grossas sobrancelhas, bermuda bem lavada e camisa desabotoada até a terceira casa da gola para baixo, em explícita e descomplicada informalidade sentado à mesa do café, com uma calvície em que sobravam dos lados uma profusão de cabelos simpaticamente desalinhados, o seu pai, eu revi as possíveis brechas de nossa relação em que pudessem entrar os maus entendidos aos quais se atribuem as desavenças definitivas. No meio da descompressão que era ouvir a voz cheia de matizes quase insuportáveis de vagar do pai de Breno, dirigida sem derivações direta e atentamente para mim, eu senti crescendo o medo de ser posto para fora daquilo, da fragilidade que aquele arranjo inesperado poderia ter para mim. Percebi com nitidez porque Breno fora conservado numa permanente infantilização recuperativa, como aquele senhor tão cheio de brilho argumentativo, suavidade cênica, domínio do tempo e com a valorização absoluta dos primordiais poderes da palavra, havia propositadamente dado aquele recolhimento sagrado ao filho. Eu me sentia infantilizado na presença dele, o que não deixava de ser cruel ter que recolocar todo o fardo deixado na porta de volta às costas quando eu fosse embora. (...) 


domingo, 11 de novembro de 2012

A Aventura dos Passantes



Na universidade, conheci aquele que tenho pelo meu modelo de homem mais esnobe. Era um sujeito baixinho, magro, com essas caras não isentas de beleza muito bem recortadas, concisas, que passam um ar cênico de sofrimento filosófico, maçãs e queixo duros que me faziam pensar que só sua aparência renderia um bom utensílio teatral. Mas os olhos desmentiam qualquer anseio esotérico, pois eram claramente eficazes apenas nas regiões do pragmatismo bem planejado; era um homem que me parecia ter uma superdesenvolvida crença no dinheiro e no poder. Fazia medicina, e sempre que o via, parado em frente às portas das salas e dos laboratórios, mas nunca imóvel em seus cálculos mentais de máximo rendimento das horas, não me continha em demorar a apreciá-lo. Sua autoestima era irretocável e insofismável, o que era belo de se ver. Nunca ouvi sua voz e jamais descobri seu nome, mas o via falando num laconismo cinzelado com seus colegas; ele não perdia tempo com conversa fiada ou com interatividades sociais de simpatia. Imagino que seria um bom resultado a seus projetos se tornar dono de algum hospital especializado em cirurgias cerebrais ou estéticas, mas não o vi mais depois daquele ano em que disciplinas em comum entre nossos cursos me fazia cruzar com ele pelos prédios do campus. Ele me recordava também um personagem bastante coadjuvante de Lorde Jim, em que o narrador de Conrad nos apresenta um portentoso capitão de navio com a mesma elevada régua de medição de sua auto-importância semi-divinatória; Conrad dedica um único e extenso parágrafo a descrevê-lo, com todas as suas qualidades e altas formações, e conclui com aquela poética abrupta e desapiedada típica do autor: "Ele se suicidara."

Esnobismo me parece sempre a mais ridícula das características humanas. Não sei se a palavra apropriada aqui seja esta, esnobismo, ao que gostaria de indicar como o conjunto de pretensões individuais que cria a ilusão de sobreposição de valor de uma pessoa sobre outra. Uma das recentes ocorrências deste comportamento vi num blog de uma mulher que se intitula, em seu perfil, como um misto de tantas coisas que acaba revelando a sua desamparada realidade de ser coisa nenhuma, ou, melhor, de ser esposa de um nefrologista. Ela se diz psicóloga, pianista aprendiz, escritora, e mais algumas outras qualidades tangenciais de que não me recordo. Em suma, os qualificativos servem para autorizar seus textos sobre os tantos concertos de jazz que assiste aqui e nos Estados Unidos, e suas gracinhas estilísticas em que pretende mostrar debaixo das mangas arregaçadas de seu sofisticado gosto artístico as suas armas simpaticamente refreadas de propensa ensaísta. Conheci seu blog por ser ele um da algaravia de blogs de um amigo, e fiquei fascinado por descobrir um laboratório tão rico de estudo sobre como pensa e se comporta e se pinta uma determinada espécie de gente que compõe num agradecimento extático a chamada elite nacional. A tal esposa do nefrologista, por exemplo, escreve um longo e minucioso texto em que descreve com ares de sumidade entendida todo o concerto que Keith Jarrett fez no Rio de Janeiro. Em outro texto mais atualizado ela faz uma mea culpa de classe no estilo fui ao shopping fazer minhas compras semanais e vi o quanto uma de nosso clã pode ser deselegante ao gritar com a ascensorista, e complica retoricamente, como deve ser toda escrita com uma profunda cadência filosófica, com a conclusão será que nós podemos condená-la, será que nós não fazemos o mesmo e em nós é esquecível mas no outro é criminalizante? Um detalhe delicioso é que ela diz que estava com uma blusinha simples e barata no shopping, como qualquer outro mortal, mesmo que a houvesse comprado na quinta avenida em New York. Os comentários dos leitores são instrutivíssimos, com os tantos aplausos à perspicácia e à riqueza humanitária da autora, e uma série de casos de campo em que se confessam do mesmo pecado com o mesmo tom de convalescimento moral instantâneo. Em mais um outro texto, a peça de maior aproveitamento sintomático é o comentário de uma mulher, cuja foto do perfil bebe da obscuridade moderna em mostrá-la elegantemente enviesada, que pergunta à autora quais livros ela indicaria para ler, já que ela leu de tudo e a alta literatura atual é tão insossa que a enfada; daí a autora recomenda, se não me engano, um romance ganhador do Pulitzer do ano passado, ao que a leitora enfadada agradece e diz que vai seguir a recomendação lendo-o enquanto suporta o maravilhoso sol de Ibiza. Com esse panorama didático do blog, me prontifiquei mesmo a desconsiderar a crença da esposa do nefrologista nas qualidades redentoras do seriado Lost. (Quando, há dois anos, eu procurava o download de um álbum de Joni Mitchell, eis que encontro, após coletar o material e gravá-lo no computador, na caixa de comentários do blog disponibilizador, um comentário do próprio nefrologista, laconicamente dizendo: "Isso é roubo. Vou denúncia-los à polícia federal". Que graça, pensei, recordando os textos de sua amada, o quanto a apreciação da Mitchell por ele deve ficar comprometida ao saber que plebeus a escutam sem terem que ir aos EUA desembolsar uma grana em uma edição remasterizada especial.)

Não que eu seja simples. A simploriedade e a humildade compulsória me enojam. Eu creio numa certa aristocracia espiritual. Quando comecei minha vida profissional como veterinário, há uns 15 anos, conheci um senhor que morava isolado na mata, nas proximidades de uma cidadezinha minúscula em Minas Gerais. Eu era responsável por expedir documentos de fiscalização sanitária em um escritório governamental em que não entrava ninguém por longas e modorrentas horas, e eis que entra esse dito senhor, um homem extremamente bonito de uns sessenta anos, espadaúdo (no ato me veio justamente esta palavra obsoleta, pois ele transmitia esse anacronismo e esse deslocamento temporal, como alguém tão independente das estruturas citadinas que não me surpreenderia se falasse em um esplendido português arcaico), magro e altíssimo, cabelos brancos e uma paciência e recolhimento tocantes. Nada nele era ostensivo e tudo nele era desarmante por sua completa liberdade de defensivas. Vendo alguém assim, ao vivo, se sabe o que eu digo com essa de defensiva: vendo-o evidencia-se o comportamento intrínseco de todo mundo de se auto-defender do outro, mesmo que seja a auto-defesa de se mostrar social, com o propósito de ser bem aceito e bem visto, de ser_ como diz Hegel, afirmando ser esse desejo a matriz por todas as disputas humanas_, reconhecido. Neste homem não havia a minima importância pelo reconhecimento, mas era uma ausência e não uma presença negativa, a importância de demonstrar que não se importava. É Walt Whitman, pensei. Recolhi as notas de vacina que ele me apresentara das vacas que tinha em sua pequena propriedade, e ele sumiu para o meio do mato. Isso é a aristocracia espiritual a que me refiro, o que não o isenta de, talvez, por debaixo de sua estampa, estar um leitor de Kant nas horas vagas de suas atividades rurais, ou um matemático, ou um poeta, ou um pintor ou escultor. As pessoas como a esposa do nefrologista veem a leitura e as diversas formas da arte como único atestado de supremacia espiritual, com o único propósito de legitimar seus estilos de vida endinheirado, seus distanciamentos dos diferentes e inferiores.

Minha concepção da aristocracia é a  mesma de William Blake e Swedenborg, de que a arte é um instrumento poderoso para o esclarecimento e o descobrimento pessoal e do mundo, nada tendo a ver, ou estando na direção oposta, à do dinheiro. Um caso interessante é o do escritor Javier Marías, que em um de seus textos em seu blog, estuda essa visão que alguns tem dele de o considerar antipático e esnobe. Não vou entrar no mérito desse referido texto de Marías. Marías é um grande escritor aristocrático, ainda que a aristocracia baixa dos níveis terrenos apareça em sua obra, em seu estupendo livro sobre Oxford, em seus personagens que ocupam distintos cargos culturais e políticos. Mas a aristocracia espiritual de Marías sobressai a essas arquétipos de sua prosa, que poderiam irritar os menos pacientes e menos perspicazes. Diferente de um outro estudante de Oxford, um brasileiro cuja única relevância na mídia foi o lançamento de um blog de claros interesses eleitoreiros, que teve milhares de acessos diários durante a campanha que promoveu para a eleição da atual presidente do Brasil, e que depois deste ser eleita, nunca mais deu as caras. O blog mostrava sua concepção pessoal de oráculo político a dirigir o caminho para os incautos, o privilegiado progressista que via sua função social em dividir parte de sua luz com os menos favorecidos. Tanto que aspirou um dia a resenhar no blog, como desafogo necessário ao excesso de partidarismo político monotemático, um livro de Ian McEwan, o que mostrou o quanto era um intelectual raso e sem qualquer outra qualidade que não especifismos muito dirigidos e maçônicos.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Parte de um conto


Um dia os céus ficaram na conformação de nuvens adequada às elevadas expectativas de Anton. Nenhum serviço de meteorologia havia previsto aquilo; a moça do tempo em seu vestidinho collant dissera na tv que o sol reinaria incólume por todo o final de semana. Mas a graça casuística da matemática eólica desviara uma massa de escuridão eletricamente latejante de seu curso para o Atlântico e a estacionara em toda sua extensão de quilômetros por sobre a cidade, e ela pôs-se a fazer o que era de sua incumbência: soprara vetores de ar instável que se chocavam contra as casas, cabriolavam para cima e retornavam a cair na arena das ruas cada vez mais lotada de furiosas energias dissuasórias. Anton parou de preencher os formulários de mais uma das decisões dos altos escalões do poder terrestre estipulando o pagamento na casa do milhar a um homem que se acidentara no trabalho, e se entregou a olhar aquela outra potestade mais pura lá de cima, que nada tinha a ver com as preocupações comezinhas daqueles seres que, mesmo sob uma potência indizível e uma ameaça homicida iminente, não paravam com suas labutas insignificantes, ou só o fariam quando os trovões e as trombas d´água começassem a cair. Ouviu a cauda de vento passando rente à janela e volteando em torno da extensão do prédio, dando uma chibatada que fez tremer num impacto de traquinagem inamistosa os vidros nos caixilhos. As árvores balançando suas cabeleiras verdes de um lado para outro, deixando uma profusão de folhas se soltarem em elipses autodestrutivas e eternamente resilientes seguindo em debandada pelas calçadas. O coração de Anton parou: um ribombar magnífico tomou conta dos céus congestionados, calando tudo, fazendo tudo se encolher em nervosa submissão expectante. Daí a chuva começou, maestralmente disciplinada a aparecer naquele momento exato da orquestração, uma cortina de onipresença, a própria alegria materializada, a própria grandeza inominável dando suas caras naquele campo de sensações onde Anton cabia respirar. Dignava-o em acontecer onde a previsibilidade imperava em toda sua inércia pujante, como um antídoto ocasional para as pessoas não enlouquecerem. Como se sua piedosa função, se sua convergência desinteressada e brincalhona para esses graus do baixo existir algum dia representasse alguma coisa a ela, fosse recordar um estado permanente de sonhosa leveza. Anton fechou os olhos e deixou-se penetrar pela floresta de sons. A luz elétrica apagou por todo o prédio; o computador à sua frente emitiu um apito que lembrava um ponto se implodindo, e desligou. No escuro das quatro da tarde, Anton sentiu-se em seu ambiente. Eu nasci para estar aqui, pensou, sentindo o bafio gelado que a entidade em imaculada esquizofrenia lançava pelas frestas das tantas rupturas e vãos minúsculos que os pedreiros e a ruína progressiva e inerente às coisas deixaram no prédio do fórum.

(Esse é o excerto de um conto que estou escrevendo e que publicarei aqui na próxima semana, ou assim que estiver pronto. Por enquanto se intitula, horrivelmente, "Cinderela das Chuvas". Murakami tem me salvado mesmo sem eu nunca tê-lo lido. Tem feito que o ato de escrever possa ser leve para mim, e me abrindo para meus anseios por tentar fazer uma literatura distinta que misture os gêneros. Provavelmente o conto, assim que acabado, não vá agradar mais da metade das poucas pessoas que se dispuserem a passar por aqui, e as poucas entre estas que se aventurarem a lê-lo. Tenho tido um pesadelo recorrente em que acordo com uma enorme impressão de que estou gastando minha vida. Uma enorme carga de fracasso. Tenho bom emprego, uma família de amores recíprocos: no mais, a acalentadora sensação de felicidade. Mas acordo com esse fardo de infelicidade que me angustia. Desde que comecei a escrever este e outros contos, tais pesadelos não me visitam mais (sei, isso tá parecendo os testemunhos de fé das igrejas evangélicas, mas em escala oposta: eu quero que o demônio entre em meu corpo). Pelo contrário, tenho dormido muitíssimo bem, e meu humor melhorou bastante. Nada para ser publicado ainda na prensa, mas o contínuo exercício.)

domingo, 4 de novembro de 2012

Uma Visita Magistral, um Filme da Trilogia, e Uma Outra Coisinha de Menos

Júlia e Aline
Ontem, enquanto o céu abençoadamente desaguava, fechamos as cortinas da sala e improvisamos duas sessões de cinema aqui em casa. Minha irmã, minha esposa e eu. Recomendei que pegassem o dvd do filme "Os Homens que Não Amavam as Mulheres", de preferência a versão sueca, que é superior à americana. Minha irmã adora suspenses bem feitos e iria gostar. As duas voltam da locadora com a versão americana do referido filme, e um mimo da espontaneidade da Aline_ minha irmã_ intitulado "E Aí, Comeu?", um filme brasileiro que de cara tinha de tudo para ser intragável: o título descolado, Bruno Mazzeo, as organizações Globo e Marcelo Rubens Paiva, o tipo de combinação com a qual eu jamais gastaria cinco minutos de meu tempo, quanto mais o período de um longa metragem. Mas a vinda da Aline aqui em casa, depois de meses, valeria o sacrifício. Minha esposa, como de praxe, dorme nos 15 minutos iniciais de Os Homens..., mas ficamos minha irmã e eu fascinados com o ritmo da história, a soberba personagem Lisbeth Salander, a fotografia, e uma gama de aspectos de primeira do cinema de entretenimento com inteligência. Já havia assistido ao filme, nas duas versões, e comprei os três livros da trilogia (vou ter de arranjar uma brecha entre minhas leituras para encaixar esses livros, pois morro de vontade de assistir às duas sequências suecas, mas pretendo absorver a surpresa da leitura primeiro). Minha irmã ficou maravilhada; voltou o filme várias vezes para entendermos direito detalhes fundamentais, e ficamos uma hora discutindo-o apaixonadamente. 

Aline é uma fisioterapeuta excessivamente ocupada; trabalha doze horas por dia e tem uma agenda de clientes fiéis, daí ser ótimo poder tê-la aqui, descansada e despreocupada com o tempo, acordando tarde, comendo com apetite insaciável as tantas receitas que ela de antemão pede para a Dani fazer, e essa discussão sobre o filme me lembrou (assim como tenho certeza que a ela também) nossos longos e belos anos em que morávamos na casa de minha mãe; eu ia buscá-la na escola; a colocava para corrigir provas dos meus alunos; a acordava de seu sono da tarde para irmos às Lojas Americanas gastar metade de meu salário de professor com chocolates; escutávamos música em último volume e nos extasiávamos tentando cantar Incompatibilidade na mesma velocidade que Oswaldo Montenegro. Ela tem dez anos a menos que eu. Um coração gigantesco, e uma personalidade forte. Quando se formou, passou a trabalhar no Hospital das Clínicas, e, felicíssima da vida, me mostrou em seu celular as fotos das crianças suas pacientes. Olha como são lindos, falava, citando o nome de cada um, mostrando que os brinquedos que cada um portava foram comprados por ela (gasto todo meu salário com eles, disse, sorrindo), e atentei mais  às fotos e vi que todos tinham síndrome de Down. Meus olhos se encheram de lágrimas e só não a beijei fortemente para não cair num dramalhão; mas meu peito se estufou de orgulho. É penoso sair com ela, pois ela tem um metro e setenta e é deslumbrantemente linda, o que me incomoda os tantos olhares que atrai. Mas ela nunca percebe e quando está comigo conserva os mesmos trejeitos da menina de antigamente. Deita-se sempre de meu lado na cama, ergue a camisa e intima: Coça as minhas costas. Quando soube que a Dani estava grávida da Júlia, olhou em meus olhos, séria, e disse: mas isso não vai fazer com que eu deixe de ser a caçula da família. Não há um dia em que eu não troque o nome da Júlia pelo dela, pois ela realmente nunca deixou de ser a caçula da família. Quando a Dani estava com quatro meses de gravidez da Júlia, a Aline me levou a uma lojinha no térreo da academia onde trabalha, para comprarmos o primeiro vestido do futuro bebê. Foi quando contei que a gravidez da Dani era de altíssimo risco e os médicos estavam avaliando as chances da Júlia nascer. Compramos o vestido sob uma pesada sombra, foi um dia tristíssimo, mas nenhum de nós dois jamais voltou a tocar no assunto médico, e conseguimos continuar a planejar a Júlia como uma realidade. Eu nunca contei isso para a Aline, mas essa atitude dela, essa fé ensolarada de que a Júlia iria usar o lindo vestido, é o que mais me deu forças, pois nos meses seguintes de gravidez, o mutismo de todos da família era ensurdecedor, como se o veredicto já houvesse sido dado.

Daí que a Júlia e ela se amam ardorosamente. Esse final de semana passaram uma no colo da outra, misturadas. A Júlia arranjou de a chamar apenas de um incompreensível Tatá. Mas, voltando aos filmes... À noite, quando todos já estão acordados e a primeira fornada de pizza é assada no forno, colocamos o filme do Mazzeo/Paiva para rodar. Aguentamos dez minutos. Tudo ali é previsível e de péssimo gosto. A pretendida canastrice dos atores é de dar dó. Uma cópia descarada e baratissima dos cacoetes das comédias americanas. Paramos na cena em que um dos atores globais do elenco, numa conversa de bar com os amigos, instrui uma amante imaginária na felação perfeita. Tá! Mas é tão sem imaginação e pobre a cena, roteiro e tudo, que só fica uma impressão de insulto tanto para o público feminino quanto para o masculino. Há filmes de humor cujo mote é o esteriótipo declarado, como em um dos American Pie, em que um adolescente fornica com uma torta de maçã. Seria extraordinário e teria rendido nossa paciência e boas risadas se Mazzeo/Paiva tivesse copiado este bastião do cinema americano. Mas não: a merda do cineminha chinfrim nacional é querer ser subproduto do subproduto mas disfarçar os sinais com um toque cabeça, intelectualizado. Daí talvez eles terem escolhido o Marcos Palmeira para interpretar a cena da análise felacionista, aproveitando sua áurea dissidente de intelectual da Globo, pois afinal foi ele, ao que me parece, que abandonou diversas atrizes esculturais para tratar de um haras. A cena só se limita ao Marcos Palmeira dizendo em meio tom à mulher que escabeceia na faixa de sua cintura: devagar, devagar. Eu torci, sinceramente, para que a coisa evoluísse para o estilo esperma-gel no cabelo, do Quem Quer Ficar com Mary. Em vão.

Desligamos o filme, ninguém pensou mais nisso (a não ser eu), e deixamos as crianças assistirem pela enésima vez ao episódio preferido delas dos The Backyardigans: O Meteoro. Fiquei pensando o quanto Marcelo Rubens Paiva, que faziam bem uns 25 anos que nunca mais ouço falar dele, continua ruim. Fui forçado a ler dois de seus romances, o Feliz Ano Velho, e Blecaute. Divertidos, mas mais um dos escritores de revista Capricho e Contigo, que, no auge, passam um de rebeldes à frente de seu tempo. Escreveu sobre sobreviventes em uma São Paulo em que todos são tomados por uma paralisação completa; sobreviventes que aproveitam da liberdade surgida com isso para explodirem a torre das Organizações Globo. Livrinhos que se lê com incrível velocidade e pouca coisa se conserva na memória. Lembro que havia um elemento de violação moralmente controlada mas intuitivamente sugerida no fato do personagem de Blecaute não fazer sexo com as tantas garotas imobilizadas da cidade apocalíptica. O mesmo fetiche de mau gosto que identifiquei no estilo modernoso de eterno adolescente descerebrado dos personagens do filme. Um tipo de coisa tão inexpressiva que não chega sequer a fazer sombra em um fim de semana excelente.

Banksy

















































sábado, 3 de novembro de 2012

Um Desses Sábados Desterrados do Infinito


"Puxa", disse o rato, "o mundo fica menor a cada dia. No início era tão grande que me dava medo, eu vivia correndo sem parar, e fiquei contente quando consegui avistar muros distantes à esquerda e à direita, mas esses muros compridos se estreitaram tão rápido que já estou na última sala, e ali no canto está a ratoeira na qual acabarei pisando." "É só você mudar de direção", disse o gato antes de comê-lo." (Uma Pequena Fábula, Franz Kafka)