sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Kafka, Benjamin, Tolstói, João do Rio

Acabo de ler um dos melhores ensaios sobre Kafka, o Franz Kafka: a propósito do décimo aniversário de sua morte, escrito por Walter Benjamin. Nele, uma peça magnífica cujo único similar que conheço é uma análise das cartas de Kafka a Felice produzida por Elias Canetti, Benjamin estuda as duas interpretações mais correntes sobre a obra do autor de O Castelo: a familiar e a teológica. Alcançando o melhor que há nessas duas vertentes, Benjamin conclui que o principal personagem em Kafka é o esquecimento. Através de muitos excertos de contos e dos três romances, Benjamin esclarece que Kafka bebia do Talmude, das primitivas fábulas judáicas, dos contos chineses sobre Confúcio, de tal modo que era um caso inédito de filósofo que descartava a filosofia em favor das fábulas, e era um fabulista que descartava a imagética dos animais falantes infantis para ser, involuntariamente, o sucessor direto de Kierkegaard e Pascal. Numa conversa com seu amigo Max Brod, Kafka aventa a possibilidade de existirem várias outras realidades dimensionais acima da nossa, onde os seres ali viventes são passiveis de maior esclarecimento e, por isso, mais felizes, numa antecipação prodigiosa da Teoria das Cordas. Brod, fascinado com essa visão, pergunta ao amigo: "Existiria então esperança, fora desse mundo de aparências que conhecemos?" Ao que Kafka ri e responde: "Há esperança suficiente, esperança infinita _  mas não para nós."

Nesse diálogo, na visão lúcida de Benjamin, se esconde toda a tese de Kafka sobre o esquecimento, sua concepção religiosa da deposição dos fardos dessa vida, de que tudo é inútil, toda preocupação e toda luta é vã. E, contrariando a superficialidade das primeiras impressões, isso constitui-se no mais puro otimismo kafkiano. Na mesma linha vai o texto que a professora Rachel Nunes postou em seu blog hoje, uma crônica de João do Rio em que um mendigo professa a teoria kafkiana da eterna inutilidade. E com isso, Benjamin corrobora com as teses de Tolstói de que só existe arte quando nela existe o elemento moral, mesmo que intrinsecamente subjacente. Há moral mais fina que nos microcontos de Kafka, em que Bucéfalo abandona seu dono, Napoleão, e senta-se numa paisagem tranquila, à sombra de uma árvore, a ler antigos livros sobre batalhas? Ou o conto aforístico do índio, em que Kafka diz que gostaria de ser um índio rumando velozmente sobre um cavalo em direção ao horizonte, e que, progressivamente, lhe sumiam debaixo as celas, os arreios e, por fim, o cavalo? E não é uma curiosa intersecção desses dois autores ambos verem que na origem da escrita descança a necessidade sagrada do resgate de um deus? Mas entre o moralismo de Kafka e o de Tolstói interrompe-se uma encruzilhada. Tolstói, mesmo absolutamente descrédulo, ainda se esforçava por apostar na mudança deste mundo. Quem tem razão?



Hoje, no jornal da Globo da manhã, noticiou-se que 3.426 servidores do Judiciário e magistrados movimentaram, de forma suspeita, cerca de 855 milhões de reais de 2000 a 2010. Com tais informações, vamos dar uma olhadinha no tópicos mais comentados da revista de maior difusão do país:

Comportamento: beber cerveja todo dia faz bem à saúde.
Reality Show: conheça, um a um, todos os participantes do BBB12
Televisão: BBB12 começa com histeria, incitação ao sexo, e campanha contra evangélica
Automóvel: o Fusca, agora em versão elétrica
Afeganistão: soldados que urinaram em corpos deverão se explicar
Gente: corre bem o transplante de Reynaldo Gianecchini
Crime: Bruno treina para voltar ao Flamengo, diz advogado
Cultura: similar a sigla de droga, título de novo disco de Madonna rende marketing muito antes do lançamento
Neurociência: internet pode afetar o cérebro assim como álcool e cocaína
Televisão: BBB12: ex-namorado de Renata se diverte com assédio a estudante.



Há salvação?

"Sancho Pança, que aliás nunca se vangloriou disso, conseguiu no decorrer dos anos afastar de si o seu demônio, que ele mais tarde chamou de Dom Quixote, fornecendo-lhe, para ler de noite e de madrugada, inúmeros romances de cavalaria e de aventura. Em consequência, esse demônio foi levado a praticar as proezas mais delirantes, mas que não faziam mal a ninguém, por falta do seu objeto predeterminado, que deveria ter sido o próprio Sancho Pança. Sancho Pança, um homem livre, seguia Dom Quixote em suas cruzadas com paciência, talvez por um certo sentimento de responsabilidade, daí derivando até o fim de sua vida um grande e útil entretenimento." (Franz Kafka)


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Brega

Uma explicação feita por uma revista semanal para o programa mais popular da tv atualmente é a de que ele atingiu todo esse sucesso por ser brega. O brega não é mau, cocluiu a revista, com um falso ar de quem registra o estoicismo condecendente de uma faixa de leitores sofisticados ao exterior empobrecimento geral. Mas o fato é que o conceito de brega foi um dos primeiros a sofrer perdão dos olhos astutamente interesseiros dos que trabalham com a opinião pública, os jornais, os programas de televisão que são baluartes do bom gosto da classe média, e a futura mídia virtual que se dividiria entre o prisma majoritário dos que seguem a tendência e os gatos pingados que exercitam a dissidência. Oriundo de um linguajar que guetizava a imigração nordestina e a conjurava em um grupo de pequenos e curiosos animais cheios de idiossincrasias cômicas, o termo "brega" delimitava um traçado determinista para tudo aquilo que se relacionava, com ingenuidade promíscua, ao passado feudal brasileiro, cujos movimentos revoluteantes despejaram os elementos desse grupo para a sobrevida nas grandes cidades brasileiras. Na superfície eram as miçangas, os rebolados da cintura dos que preteriam o intelecto à sensualidade dos ritmos sexuais, as roupas coloridas de retalhos improvisados, a paixão pelas palavras musicadas em melosidades dos contos de amor de boteco; na profundidade, o brega assinalava abaixo da suavização eufemística a indiferença dura e simples da eugenia que os povos desenvolvidos do sudeste e sul do país se serviam para controlar o limite da inserção. Brega era o que não seria, em hipótese alguma, inserido. O humor em mão única, que por isso pouco tinha de humor a não ser um ácido desprezo ao serviçal inferior, impunha o alfinete que setoriava em seu local facilmente vigiado o outro de cores excêntricas, afincado no quadro das amplas espécies sociais. Apenas que quem os monitora situava-se de fora da catalogação, como dono plenipotente de tudo que era verdadeiro no cotidiano superior daquele que, na puritana América do Norte, invejavelmente já tinha a tranquila segurança de se auto-denominar W.A.S.P. Mas esses agentes ultra-lúcidos das possibilidades do lucro da imagem, posicionados no centro dos acontecimentos e responsáveis pelo feedback da opinião pública, viram a enorme fonte de ganhos que advinha da expansão do conceito. Sua genialidade só não foi maior por perceberem, primeiro que todos, que a expansão seria um fenômeno inevitável. Permanecendo imóveis por sobre seus barcos cujas velas conduziam-os ao sabor da maré e do vento, chegaram sem esforço às ilhas paradisíacas do poder e do dinheiro infinito. Já tinham toda a composição genética da efetiva adaptação para se incluirem na extática babélia de cores e sons, para se deixarem incomodar que ao lado dos coqueiros e da praia de mar azul translúcido haveria o lixo acumulativo e ensurdecedor que o conceito expandido regurgitaria. Brega ascendeu-se de uma extração espiritual limitada a uma restrita fantamasgoria regionalista e tomou para si todos os pecados do mau gosto e da bestialidade com que o homem branco sentia não ser erradicável em si. O brega mapeou as tendências da cultura e fez da multitude inevitável acentuada pelos novos meios de comunicação democráticos a sua bênção expurgatória do nojo, e suas peças tornaram-se avantajadoramente cult e elegantes. Daí a razão do sucesso histórico do reality show, dai as vênias educadas e simpáticas da revista semanal. O brega serviu na longa história do mutismo para abortar todo o discurso que subjaz à inflamada derme das diferenças sociais do país, cambeando a moda global, dando a impressão aurífera de que o patrão compactua com a arte apreciada pela empregada doméstica, de que o branco perdoa a leviandade lasciva do mestiço trazendo sua jinga aos grandes salões, que, a dona de casa da alta classe socializou-se com a faxineira por ambas assistirem às mesmas novelas, não havendo nenhuma diferença verdadeira de classe. Os porões das concepções de hierarquias de raça e demais falácias biológicas, cuja pressão última descamba sempre e irrefreavelmente na velada ultra-violência, foram aparentemente fechados em decorrência da unificação da linguagem.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Abstinência


Então ele queria que tudo fosse para as cucuias, emprego, vida familiar, intenções adultas para o futuro, prevenção do câncer, admissão segura do amor. Com uma lassidão de um guerreiro submetido a experiências limítrofes, cuja racionalidade condicionada pelo tédio havia sido pulverizada, ficava deitado no sofá nas tardes de folga, com uma Heineken na mão esquentando-se enquanto mal admitia para si que seu olhar indolente, perdido no torpor das ondas de calor e barulho que solapavam o ar e entravam pela janela, continuava por procurar um sentido superior para o desencanto, ansiava como uma criança submetida a um pós-operatório de dois meses prostrada na cama por uma tarde de sol no campo.  A tarde de sol feliz no campo que justificaria o propósito da vida. Ela retornava para seu emprego numa creche municipal, dirigia-lhe um beijo rápido da porta, sem meios tons ou sentidos ocultos para não agravar mais a sua hipersensibilidade por sinais subliminares, e deixava-o sob seu rastro de perfume estival, cherry blossom and peach fruit, que transformava a casa no mais perto da certeza da perca do Sonho a que suas antenas excitadas poderiam apreender. Às vezes se levantava, erguendo a perna por sobre a mesinha de centro numa altura que acentuava a pouca acomodação de seu corpo à nova realidade pulsante da meia idade, o nervo ilíaco querendo tomar as manhas para si, e ficava em pé diante a janela acompanhando-a sumir na próxima esquina, os cabelos perolados num tufo grosso saindo da cabeça e afinando-se numa ponta eqüina que batia-lhe no cóccix, os passos decididos e coloquiais arremetendo sua presença segura no teatro das ruas; inegável que atraía um monte de olhares de sentimentos multifacetados, o ardor da recusa obrigada nos tantos homens civilizados que lhe olhavam na distância estabelecida pela reconhecida falta de méritos, aqueles que tinham fé que poderiam ter a estatura certa, os milimétricos requisitos financeiros para abatê-la, olhos que vinham de vidros fechados de carros com ar condicionados ligados, os suspiros jocosos, que escondiam de forma fácil e já condicionalmente pronta uma nostalgia sabe-se lá do que partindo dos trabalhadores do prédio em construção ali em frente, do silêncio constrito das mulheres que lhe passavam em sentido contrário pela rua. Todos eles sofriam por um segundo a mesma ilusão de que ela lhes pertencia, pela simples e paradoxal abstinência do olhar, assim como ele, cuja respiração embaçava o vidro para que suavizasse o momento em que ela seria engolida de uma vez pela próxima esquina.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Danúbio, de Claudio Magris

A história da literatura e a história da humanidade se confundem e se subtraem na viagem sensorial por um grande rio. Não é a primeira vez que se tentou fazer isso, mas Claudio Magris o faz com uma assertividade em mostrar que nem a primeira nem a segunda existem realmente, mediante a única lei catalogável ser a do inexorável acaso que rege essas impressões de ordem, tanto quanto o curso do rio que afigura em sua viagem só se chama Danúbio por uma convenção de medidas geográficas que desaparecerão no tempo. O que choca nas páginas de Danúbio é a dimensão poética de Magris que convence abarcar milênios, coleção infindável de memórias de uma infindável quantidade de pessoas desaparecidas, paisagens, sombras de cidades, entardeceres, sorrisos, solitárias amarguras efêmeras, de tal modo que não é menos herege a impressão de que o olhar do autor transverte-se do deus impossível que deveria estar por detrás dessas coisas insubstanciais. Onde Magris depõe a sua poderosa carga de emoção e sua balanceadora erudição, deixa-se de se vigorar as forças da aleatoriedade e Magris resgata o objeto à sua condição de imortalidade, que durará enquanto o leitor atravessar as 442 páginas do livro, e o quanto a lembrança restituir o sagrado ao seu devido esquecimento. São 170 textos curtos divididos em 9 capítulos, que tratam desde as tantas hipóteses alegadas da nascente do rio, inclusive a de uma torneira de dentro da casa simples de uma velha senhora, até o desague em seu delta no Mar Negro; mas o que importa são as tantas impressões sobre o sanatório onde Kafka morreu, as últimas horas do criador de O Castelo, a casa da infância de Canetti, a estrada onde foi encontrado o corpo de Walser, o vislumbre de Haynd por uma janela, o café vienense o qual Marx frequentava, a prisão de panóptica invertida na qual os sentenciados se transformavam em apreciadores das óperas vistas no grande teatro municipal pelas grades das celas. Magris tem tanto da capacidade fenomenal de Borges de condensar o texto ao seu intenso núcleo significativo, aparentando narrar tudo, quanto da beleza cheia de reviravoltas surpeendentes de Conrad em descrever um rosto tal qual se descreve uma paisagem, ou os acontecimentos de um milênio. Sae-se do livro com a solidão profunda e a amplitude aflitiva do grande rio em aparentar suportar a leveza de tantos fantasmas desvanecentes e do nome que lhe imaginaram possuir.

Objeto de Ouro Resplandecente


Foi há dez anos. Eu voltava a pé do centro da cidade para casa, após assistir a um filme no cinema. Faltando duas quadras para chegar, comecei a sentir o que tenho por ser a pior dor possível, que foi crescendo de dentro do meu estômago e se espalhou pelas costas. Sentei-me num banco de praça, na posição desesperada de pés no chão e tórax por sobre as coxas, na intenção de respirar profundamente para ver se aquilo passava, mas nada... Comecei a suar frio e já não poderia me levantar. A dor exigia concentração tamanha que não me preocupei se alguém notasse que eu chorava e rumorejava cada vez mais alto. Se há um grau mensurável de dor, de zero a dez, aquilo era o dez absoluto. Não me lembro como consegui me levantar, andar o restante do caminho, subir pelo elevador, entrar pelo apartamento e retirar da gaveta de remédios dois comprimidos de dipirona e os engolir. Recordo que o que fiz em seguida constituiu-se como a técnica que eu empregaria dali por diante nas sucessivas repetições dessa dor que eu teria pelos próximos três anos: deitei-me na cama de bruços e fiquei aguardando que o ouro resplandecente se desencravasse de dentro de mim. Passou-se meia hora, em que a coisa recrudesceu, atingiu um estágio impossivelmente ainda mais avançado para depois ir sumindo gradativamente. No ato de me deitar, o sangue e a consciência se concentraram por inteiro na dor, e eu a tive plenamente.

Não fui ao médico pois naquela época do final dos vinte anos tinha a fé abençoada, vinda unicamente da ignorância, na imunosuficiência da juventude. Freud escreveu que o único afeto que não mente é a angústia. Pois a pessoa submetida à dor extrema não só é incapaz de mentir como está bem próximo a alcançar uma espécie de nirvana. Quando eu sentia os indícios da dor aparecendo, eu deixava tudo que estava fazendo, tomava duas dipironas (apesar de ser altamente contraindicado para dores estomacais, era o único artifício que funcionava), procurava algum local para me deitar, e aguardava. Ela assomava lentamente, comparecia com toda a sua saudável presença, ficava por longos minutos discutindo com zonas obscuras de minha mente, e depois, se despedindo, retirava seu tropéu de enxame de pequenas criaturas peçonhentas e ia embora vagarosamente. Já na primeira vinda, quando se erguia com elegância diante a miséria de meu corpo retorcido aos olhos de desconhecidos no banco da praça, discursava sobre esse intento secreto que eu ensaiava contra uma recente ex-namorada que havia me abandonado. Das outras vezes me deixava ver ser mesmo verdade que nas vísceras a dor era muito mais sublime, e como sobre esse conhecimento as técnicas de tortura eram a invenção mais importante do século para o estado policial. Uma vez ela veio quando eu estava a sós em casa com uma nova namorada, e pôs por baixo toda minha ensaiada compleição de macho proficiente ao me fazer chorar diante os olhos impotentes da garota. Acostumei-me a ela, mas não à sua potência, que sempre me parecia inadivinhável, por mais que eu me colocasse em genuflexão e me preparasse diante suas revelações sagradas. Ela me fez perdoar muitos inimigos, desconsiderar o que me pareciam afrontas infinitas, me encher de ternura por coisas que já não me pareciam tão pequenas, me curou da pressa e de um resíduo de medo que ainda me restava da solidão. Quando partia (eu chegava a ouvir a porta fechando-se com delicadeza sobre a algarávia que decrescia à distãncia), me parecia carregado de um novo silêncio e de uma nova clareza o desmanzelo do quarto.

Segui a recomendação de alguém e as quatro cabeças de alho que passei a comer por dia mandaram-na embora de forma definitiva. Nunca mais nem pressenti sua aproximação. Quando minha esposa foi acometida por dores excruciantes causada pelos cálculos biliares ano passado, antes que se submetesse à cirurgia, eu achava que ela (a Dani) era forte demais por conseguir andar, por esperar dentro do carro até que eu chegasse ao hospital e por esperar até que lhe injetassem duas doses cavalares de forte anestésico. A cirurgia descarregou-lhe as finas pedras fragmentadas e ela nunca mais sentiu aquela dor novamente. Assim como julgo que o alho serviu a me dar a indicação de como descarregar-me dela para sempre_ embora eu tenha o nítido aprendizado que não foi o alho que me curou.

Tolstói X Shakespeare


Sempre bom descobrir o quanto escritores canônicos podem ser extremamente engraçados. Quem teme a literatura não consegue conceber, por exemplo, que autores como Kafka são grandes humoristas, que por detrás da imagem fácil de que o homem de letras vive  em sérios debates sobre a alma existe um observador descompromissado tão loquaz e divertido quanto alguém que se oferece para uma fofoca na fila do pão da padaria. Tenho essa realidade como uma das mutilações a que sofre, inconscientemente, aquele que julga como entretenimento genuíno a novela global, o videogame, ou algum dos escapes da internet, e considera que a leitura é um tédio infinito.

Pois bem, não quero falar de Kafka, mas de um ensaio intitulado Sobre Shakespeare e o teatro (Um ensaio crítico), do qual ainda sinto o peito desobstruído pelas gargalhadas que estava tendo há pouco, quando o lia. Seu autor é, ninguém menos, que Liev Tolstói (ééé, os visitantes esporádicos do blog terão que ter paciência comigo), alguém do qual não me é surpreendente a sua veia cômica, já que sei de páginas em seus dois principais romances que não ficam devendo em nada a Thomas Pynchon ou Mark Twain (para citar apenas dois dos mais engraçados escritores). Esse ensaio consta da compilação de textos tardios de Tolstói, Os últimos dias, publicado pela Penguin Companhia. Em tal ensaio de 80 páginas, o célebre russo analisa as principais peças de Shakespeare com dedicação total, narrando enredos, citando sentenças, descrevendo detalhes cênicos, apontando idiossincrasias dos personagens e do autor inglês no ato de composição das obras. 

Como introdução, Tolstói declara que quando jovem,  lia muitas personalidades importantes falando do gênio absoluto, do inigualável conhecimento humano, e da poesia inalcançável de Shakespeare, mas que, ao começar a ler sua peças, não conseguiu de forma alguma perceber esses elogios e, indo mais longe, só via em tais trabalhos uma falta de talento, uma pobreza estética e um misto de arranjos sem lógica para costurar tramas de pontas soltas, que lhe provocava um peso de consciência e uma sensação de que lhe faltava os méritos devidos de leitor por ser cego a evidências tão nítidas à maioria quase unânime dos que glorificam o bardo inglês. Por essa impressão lhe causar bastante incômodo, Tolstói pôs-se a estudar a fundo a obra de Shakespeare. Leu-a em inglês, em alemão, em russo e em francês; leu todos os estudiosos de Shakespeare e todas as referências feitas a ele. Faz um pormenorizado arrebanhamento de citações da grandiosidade de Shakespeare na introdução para concluir que (aí entra a sua precisa noção do time-in do humor), agora, aos 75 anos, não consegue mais esconder as suas sólidas ideias sobre o que dá a entender ser o grande engodo da cultura ocidental em fundamentar a sua literatura num autor cheio de falhas gritantes.

Aí sim inicia-se uma deliciosa _ e gargalhante_ sequência de exames cuidadosos sobre as peças de Shakespeare. Tolstói não é o único a refutar a excelência de Shakespeare: Bernard Shaw o fez, mas de maneira paradoxalmente séria e ortodoxa para um comediante, utilizando o que para ele era a mais fraca das composições do autor, Hamlet_ Shaw utilizou, durante toda sua vida, a nomenclatura mutilada de "Shakespear", para demonstrar a noção de franca incompletude do criticado. Mas são nessas páginas do russo que o leitor se brinda do encontro de dois dos maiores escritores de todos os tempos, no exercício inédito de descanonização da parte de um deles, que, após uma vida de pesquisas e interação comprometida, se lança ao que, para qualquer outro, seria um desplante abominável. 

Pode-se discordar das invectivas de Tolstói, mas acompanhar a sua implosão de Rei Lear, por exemplo, é um convite a reler a peça com esse novo olhar. Tolstói assinala inconsistência a cada página, aponta erros, imposturas, despropósitos, puras besteiras para agradar a platéia, e assim vai. Já na primeira cena da peça, se pergunta como um rei que amava de forma especial à filha mais nova, Cordélia, e que tinha plena certeza do amor e dedicação desta, a renega peremptoriamente só porque não soube bajulá-lo da mesma forma que suas outras duas filhas, Goneril e Regana (tidas notoriamente por todo o reino como víboras), o que disso faz surgir toda a desgraça e destruição de si e de tudo que o cerca. Tolstói salienta como Shakespeare abortava qualquer força e convencimento das cenas por intercalar monólogos longuíssimos e sem sentido do velho Lear a todo momento. Descreve como todas as ações dos personagens não faz qualquer sentido e vão imediatamente de contra a qualquer lógica da convivência. O texto é recheado de análises como as que seguem abaixo:

"Nesse momento, por algum motivo, chega Lear, coberto de flores silvestres. Ele enlouqueceu e suas falas são ainda mais absurdas do que antes: discorre sobre cunhagem de dinheiro, sobre arco, entrega a alguém uma luva de ferro, depois grita que está vendo um rato, que quer atraí-lo com um pedaço de queijo, e em seguida, de repente, pergunta a senha para Edgar, e Edgar na mesma hora responde com as palavras 'manjerona doce'. Lear diz: Passe!_ o cego Gloucester, que não reconheceu nem o filho nem Kent, reconhece a voz do rei."

"Em seguida, Lear pronuncia um monólogo sobre injustiça nos tribunais que é de todo incoerente na boca de alguém enlouquecido. Depois disso, chega um cavalheiro com soldados, enviado por Cordélia para buscar Lear. O rei continua agindo como louco e sai correndo. O cavalheiro enviado à procura de Lear não corre atrás dele, mas por um longo tempo fala a Edgar sobre a disposição dos exércitos franceses e britânicos."

"Em seguida, entra Lear com Cordélia morta nos braços, apesar de ter mais de oitenta anos e estar doente. De novo começa um terrível delírio de Lear, que provoca vergonha com suas brincadeiras sem graça. Lear exige que todos uivem e ora pensa que Cordélia morreu, ora que está viva. 'Com vossa língua e olhos eu faria/ Ruir os céus.' Ele conta que matou o escravo que enforcou Cordélia, em seguida diz que os olhos dele enxergam mal e nesse instante reconhece Kent, que lhe passara despercebido o tempo todo."

As análises seguintes no ensaio são da mesma forma desconstrutivistas e altamente cômicas, o que faz dessa pequena obra de Tolstói uma das mais engraçadas da literatura.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Felicidade em Guerra e Paz


Não deixa de ser curioso que em 2500 páginas já de todo memoráveis, os capítulos em que o leitor tem a imediata consciência de estar presenciando um dos maiores momentos da literatura correspondam a cenas felizes de caçada na neve que se encerram num idílico jantar numa cabana camponesa. Tais capítulos do incriticável Guerra e Paz (quem seria louco o bastante, ou capacitado o bastante?) confirmam a sentença de Richard Tull, o autor falido de A Informação, de Martin Amis, que diz ser Tolstoi o único escritor que conseguiu registrar a felicidade por escrito. A leitura sensorial sobre Nicolai Rostóv e sua irmã, Natascha Rostóv, no último momento de interação amorosa tida por eles antes que o primeiro parta para a segunda etapa da guerra russa contra Napoleão, e antes que a segunda se case, corresponde ao processo eminentemente telepático da leitura, que Walter Benjamin descobre em seu ensaio sobre o surrealismo. Essas cenas são tão monumentais que a simplicidade com que são tratadas despertam a sensação tardia de que Tolstoi utilizou de um joguete mefistofélico correspondente à transposição no papel da crueldade investida em toda a efemeridade dos momentos felizes, o que o faz um dos escritores mais perigosos, indevidamente colocado como um sujeito mais espiritualmente são que o para sempre indissociável a ele Dostoiévski. Enquanto o autor de Os Demônios dá sua estocada sobre o destino incontornável do homem para a falência e o crime através de uma miríade de palavreado desconexo e selvagem, Tolstoi caminha pela linha direta de sua genialidade de narrador puro, sem barreiras, sem frenetismos, sem as intercambiações pela clinica psiquiátrica, o que, de um outro ponto de vista, soa mais pérfido que a perfidez atribuída há um século ao seu perturbado colega de letras. Sua telepatia dada na fluidez ligeira do texto proporciona a lucidez incômoda de uma ciência da vida nessa terra como condicionada unicamente a uma entidade histórica indiferente, para a qual a decisão humana não representa nada, que, se os estudiosos acadêmicos se propuserem a reavaliar o modernismo de Tolstoi, talvez percebessem ser essa visão mais factível da verdade do que a neuropatologia dostoiévskiana que inspirou toda a literatura do século XX. Os heróis de Dostoiévski mostram, em negativo, que a doença reina como comandante suprema das hordas da história, e por isso, numa sequência lógica distante, a cura progressiva dessa doença faria com que esses exércitos de sevícias, concupiscências, ambições de poder, egoísmos e egolatrias, barbáries e bestialidades, dispusessem das armas naturalmente num estágio de conserto evolutivo planejado; já Tolstoi, como alguém detentor de uma posição privilegiada de observador bem acima do ruído onipresente, sabe que a doença humana é incurável e, pior, não tem a minima participação fagulhar nos mecanismos históricos. Dois exemplo disso são o capítulo inicial do volume 2, e as elucubrações da segunda parte desse mesmo volume de Guerra e Paz. No primeiro, numa cena engraçadíssima, um grupo de soldados ulanos, na ânsia de cumprir uma mísera ordem de Napoleão para atravessar um rio de águas caudalosas, se afoga vaidosamente em honra do atarefado e indiferente imperador francês.

"Quando o ajudante de ordens voltou e, escolhendo um momento apropriado, dignou-se a chamar a atenção do imperador para a dedicação dos poloneses à sua pessoa, o homem pequeno de casaco cinza levantou-se, chamou Berthier e pôs-se a caminhar com ele de um lado para outro, pela margem do rio, dando-lhe ordens e, de vez em quando, lançando olhares descontentes para os ulanos que se afogavam e distraíam a sua atenção."

No outro momento, Tolstoi faz uma análise do que levou russos e franceses à guerra de 1812, por todos tida como absurda e assassina, mas que, à revelia da razão e das decisões internas de paz de ambos os lados, motivou dois exércitos ao suicídio pelo único motivo da determinação histórica estar acima do controle humano. E Tolstoi entremeia um ensaio decantado sobre a vanidade das ações humanas como um observador posicionado 55 anos à frente dos eventos, numa dessas liberdades idiossincráticas típicas de Tolstoi de não estar nem aí para as técnicas do romance europeu, arrebanhando a estultície de historiadores franceses e russos apontando o quanto cada um puxar a sardinha da interpretação da vitória para sua pátria não desanuvia em nada a compreensão dos fatos.

A falta de uma perspectiva real da grandiosidade de Guerra e Paz para a literatura do século XX, seus elementos simbólicos no estudo da História, da sociologia das massas, do poder, sua força premonitória de mostrar a insurgência do massacre desafogador bolchevique, seu caráter chocantemente à frente das correntes modernistas e sua lucidez despercebida, revelam a suspeita de que trata-se de um romance não devidamente lido e inconsequentemene negligenciado.Tolstói não é nem um pouco panfletário, ao contrário dos impulsos didáticos de Dostoiévski que o levaram ao estudo pormenorizado da queda adâmica; o cristianismo de Tolstói é amplamente iconoclasta e investido da concepção de que Cristo é a derradeira figura diabólica (Zizek, A Visão em Paralaxe), enquanto o cristianismo de Dostoiévski bebe do mais profundo ufanismo de povo escolhido da velha Rússia piedosa e primitiva, com todo o seu ortodoxismo canhestro. Tolstói levou às últimas consequências sua concepção da história como um fardo inescapável, conduzindo-se para um isolamento ativo (na medida em que foi pedagogo e anarquista thoureano social amplamente participativo) em que a definição oca de místico demonstra desconhecimento do quanto suas teorias religiosas eram fincadas com os pés no chão, e o quanto obras como O Reino de Deus Está em Vós atribuem-se a um filósofo de peso com a mesma sanguinidade de um Nietzsche do que de um raso pregador evangélico. Tolstói foi menos esotérico na fé no expurgo do pecado através de sua descrição fatídica na escrita do que Dostoiévski, e vemos isso em dois momentos sublimes desses imensos escritores: nas cenas finais de Os Demônios, após a densa viagem do leitor pela atmosfera policialesca e pelas revelações do inferno que há por detrás das realizações políticas, o gênio diabólico da revolução Piotr Stiepánovitch Vierkhoviénski, após a crueldade extrema do assassinato de um inocente em nome da causa revolucionária, encerra o romance de límpida consciência assim como começou, conversando com novos adeptos ao movimento com a mesma paixão imolada pela culpa e incapaz de arrependimento. Dostoiévski aqui faz mais uma vez seu panfletarismo sobre a queda, mostrando didaticamente a lição da cozinha onde a política realmente é confeccionada, sem eufemismos, sem encantos, sem demagogias; assim como amplia o diagnóstico dos mecanismos do poder de submissão político e religioso no discurso do Grande Inquisidor nos Irmãos Karamazov. 

Já Tolstoi, na cena acima mencionada da caçada em Otrádnoie, impressiona por sua pureza narrativa, a sua absoluta ausência como autor das cenas, de forma que toda a carga subliminar aflora da ação, das expressões faciais, da tensão do encontro, da fúria da descrição dos cães atacando o lobo, da forma carregada de reprimido ódio como o servo exímio caçador se dirige com asco latente ao principe que fracassa no cerco à presa. Nessa cena há toda uma pulsão profética sutilmente aterrorizante da virada dos ciclos de dominação em que o dominado pega as rédeas da história e massacra seu senhor que se pressupunha eterno. Há de se descrever minimamente a cena para que se saiba o que estou querendo dizer: saem para a caçada na neve, nas propriedades do príncipe Rostóv, o velho príncipe, seu filho Nicolai, sua filha Natascha, e sua afilhada Sônia, na companhia dos servos caçadores cuja única obrigação que devem pelo generoso direito de sobrevivência lhes dado nas terras do fidalgo é exercerem suas ciências da caça. Os príncipes são seres que trazem a notória distinção de classe nas roupas elegantes, na postura senhorial, na educação primorosa nas melhores escolas européias, no direito de lutarem pela pátria em cargos de comando distantes do perigo dos campos de batalha; as moças são aristocratas belíssimas, rescendendo à doce curiosidade pela vida. Já os caçadores são homens broncos, quase maltrapilhos, misto de selvagens proficientes nas artes do combate contra a natureza, uma espécie de forças cósmicas controladas pela constituição limítrofe em corpos humanos regidos pela intuição perene do chicote e da deportação para a Sibéria, caso queiram burlar a sólida e tranquilamente inamovível paisagem social. Um dos caçadores, de nome Danilo, que demonstra um ódio profundo para com seus patrões e por tudo que lhe cheire a pompa palaciana, depois que o velho príncipe deixa que o lobo fure o cerco, contorna a falha do seu senhor atirando-se junto com os cães por sobre a presa reconduzida. Quando Danilo se aproxima do velho príncipe_ o conde Rostóv_, o conde, por um brevíssimo instante, pressente o perigo atemporal a que os da sua classe estariam sujeitos no desnodoamento cíclico da história dali a cem anos, na fúria de confronto abortada que vê em Danilo.  Mais tarde, à noite, quando todos se sentam em volta de uma fogueira e o lobo, ainda vivo, é exposto para a apreciação amarrado a uma tala de madeira por sobre uma manta de couro, a amenidade do controle habitual se reconstitui tanto na atitude servil de Danilo, quanto do perdão bonachão do conde. 

"O conde lembrou-se do lobo que ele deixara escapar e do seu atrito com Danilo.
  _ Puxa, irmão, quando você se zanga, se zanga mesmo_ disse o conde. Danilo nada respondeu e apenas sorriu, um sorriso infantil, tímido e simpatico."

Aqui o leitor prevê o massacre da família Romanóv e tudo que viria a ser a União Soviética e as nações prototípicas do socialismo do século XX. E Tolstói antevê, com sua pureza diabólica, o aprisionamento a que estamos fadados à perene repetição dos reconfiguramentos da História, que nenhum esclarecimento didático sobre sua relojoaria interna fará que pare o seu devir infinito. Na mesma época que Marx, Tolstói descobre por si mesmo que os eventos históricos acontecem primeiro como tragédia, e depois como farsa, numa sucessão inevitável e sob um moto perpétuo. Nisso está todo o seu abandono às suas obras, na velhice, e toda a sua desabnegação a tudo que faça parte aos mesquinhos esquemas de dominação humanos, desde a política à religião. Nisso está sua excomunhão e sua negação ao dinheiro e às pobrezas simbólicas de amor à pátria, que desde sempre se lhe revelara ser sinônimo de amor à guerra. E nisso está a força incomensurável da dor da felicidade tolstoiana nas cenas sublimes dos Rostóv descansando-se da caça na aldeia camponesa de Otrádnoie. A dor de que a pairagem de esplêndida alegria infantil naquele contínum de tempo aparentemente desvinculado e refugiado da história está vinculada à consumação da infelicidade futura daquela família já na iminência da falência, em que Natascha sucumbiria à desonra social, Sônia às decepções da solidão da maturidade, o conde ao desaparecimento natural, e Nicolai à volta aos campos da guerra.