terça-feira, 25 de outubro de 2011

Joseph Conrad



"O homem passa a vida inteira tentando pronunciar suas últimas palavras"
(Frase de Otta Lara Resende, plagiada de Lord Jim, de Joseph Conrad)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Voltando a Ler Céline

Há dois dias estou me afundando na leitura de De Castelo em Castelo, de Louis-Ferdinand Céline. Fazia bem uns cinco anos desde a última incursão minha ao universo idiossincratissíssimo desse autor francês, quando li o ilimitado Viagem ao Fim da Noite. Em Castelo, o seu estilo cheio de reticências, cheio de exclamações, cheio de marginalidade coloquial, é levado ao extremo. Uma página lida em separado dá a impressão de algo retirado de uma caderneta de um chefe de gangue adolescente, ou dos desabafos de um verdureiro. Foi uma surpresa ver o quanto ele levou adiante a linguagem conceitualmente revolucionária de Viagem até esse nível avançado, e, nas primeiras páginas não escondi uma certa decepção. Viagem é um dos melhores livros que já li, um dos mais verdadeiros, enfurecidos, sublimes, arrebatadores. Só quem o leu sabe que não há um pingo de exagero nesses elogios. Não conheço ninguém que o tenha lido por inteiro que não compartilhe dessa veneração desavergonhada (há os que leram as primeiras cem páginas apenas e saem por aí maldizendo-o). Recordo que o capítulo em que o narrador alter-ego de Céline percebe, em sua viagem  ao exílio para uma província além-mar, que a tripulação do navio armou um esquema para matá-lo, são as páginas mais engraçadas que já li. Sofri convulsões de riso diante a paranóia auto-depreciativa e a consciência da desgraça que são duas das qualidades valiosas que Céline trouxe para as letras do século passado.

O humor de Céline é um dos componentes formadores do grande paradoxo circundando a imagem desse que é o mais maldito dos escritores, e serve para dividir os que leram Céline dos que apenas leram sobre Céline. Os que leram sobre Céline tem o suficiente para se saírem bem numa conversa de "alto nível", são os que vão cair nos caminhos já exaustivamente trilhados de que é o autor dos três panfletos pérfidos defendendo a execução sistemática de judeus, o Bagatelles pour un massacre (1937), o L'École de cadavres (1938), o Les Beaux Draps (1941); que terão de se sair no auge da diplomacia da visão artística distanciada em considerarem que apesar disso, foi um dos escritores realmente indispensáveis do século XX ao escrever o Viagem; que mesmo autores judeus não escondem a apreciação de suas obras; que foi dele que saiu a geração beat, os minúsculos repetidores do calibre de Henry Miller e Burroughs, etc, etc. Já os que leram Céline tem o privilégio de reforçar por este lado a certeza dos esquemas obtusos dos academicismos literários e os rasos padrões de esteriótipos construídos para isolar um criador dentro de seu nicho burocrático de compreensão. Começa-se por se perguntar como um romancista tão libertário (nas palavras de um de seus ardentes admiradores, Philip Roth) pode ser julgado apenas pela convenção preguiçosa de ser um monstro moral; como um narrador que tem o potêncial único de nos limpar a alma através do riso desmedido_ não o risinho enrustido, mas a gargalhada enfática do Viagem_ é visto pelos manuais institucionalizados das universidades como um escritor que deve ser lido com cautela, com as antenas arriadas típica do contato com tratadistas do massacre, e não como um humorista soberbo do nível de Rabelais e Sterne.

Nesse sentido eu faria côro a Roger Nimier quando escreveu o artigo Dêem a Céline o prêmio Nobel, em 1956, quando o nome de Céline já era sinônimo por toda a Europa de colaboracionista traidor e antissemita. Claro que não se pode ignorar o imenso estigma do apoio de Céline aos alemães, de sua acirrada proximidade ao marechal Pétain a ao governo de Vichy, de seu pedantismo fronteriço de se apegar ao nazismo de maneira mais torpe e sem nem a relativizante razão de retorno a um Estado moralizador forte de Knut Hamsun e Ezra Pound. Numa olhada rápida e descomprometida, Céline realmente foi um monstro. Mas essa é a palavra-chave: descomprometida. Quando se lê Céline, o leitor perde o conforto da imparcialidade, é obrigado brutalmente a ver o que está abaixo da planificação do jogo de ideias que prevaleceu no século passado por ocasião das guerras, do nazismo, da Shoá, da formação hipócrita do politicamente correto daqueles que foram aceitos como heróis ao escamotearem seus pecados com astúcia. Céline, o médico que, segundo suas nada eufemísticas descrições da própria miséria, não era respeitado pelos vizinhos não por ser acusado de oferecer aos alemães os pontos estratégicos de passagem pela linha Maginot, mas por não ter um carro, indo visitar sua parca clientela a pé, não ter um terno decente, levar seu próprio lixo para a calçada, não ter uma empregada, é o escritor desabnegado intrínseco, o verdadeiro homem das letras, o verdadeiro visitante das zonas de sombra, o que levou a escrita a níveis mais distantes de lucidez que foi preciso seu próprio sacrifício, o seu próprio massacre. É justo por ser o Céline público um monstro que o Céline criador é o mais valioso dos escritores, o mais soberbo.


Por isso a certa decepção que tive nas primeiras páginas de Castelo. Não há mais o humor anárquico e incapaz de constrangimento de Viagem, aquele riso inédito que não comporta nenhum pudor. Céline mesmo afirma isso no eterno lamento de sua miséria quando diz que o folclórico editor Gallimard (por ele chamado execravelmente de Achille) lhe cobrava mais romances engraçados, aos quais agora sua percepção do mundo não poderia dar. Castelo é uma obra anti-Tolstoi, no tocante a negar que a importância da poesia para a obtenção da verdade não existe. Para leitores não iniciados podem parecer tediosas as páginas iniciais em que Céline sublima o enredo para cair numa lamúria interminável, mas quando se entra nas cenas tocantes e terríveis do seu refúgio junto com a cúpula colaboracionista no castelo de Sigmaringen, mesmo a aparente gratuidade dessas páginas ganha um valor de contexto: o propósito exorcizante da poesia sui generis do autor em destruir todas as convenções da escrita e do pensamento corporificado, sua catarse em mostrar que a escrita foi a única coisa lhe destinada em vida, e daí o desbalde, a liberdade, o excesso. A poesia de Céline é indissociável à sua escrita, está em seu coloquialismo, em seus xingamentos, vai se tornando grandiosa em seu prosaísmo desconcertante, até o ponto em que ele desnuda a própria tradição literária como um estupidificante burguês, com uma eficiência talvez superior a Joyce. Céline mostra que não há nenhuma diferença moral entre ele e Sartre (um de seus mais ferozes condenadores_ citado no livro pela corruptela de Tartre), e tantos outros autores alavancados pelo mérito da aceitação pública e premiação acadêmica por meras manipulações geográficas e políticas (Céline escreve que se tivesse aceito o convite da União Soviética para morar na Rússia, à época do Viagem, estariam lhe dando o Nobel e estátuas no pátio das universidades em vez de querendo matá-lo).

A miséria, a negação como médico a aceitar o pagamento dos famélicos pacientes às consultas, a  desgraça completa que indicava prematuramente o esquecimento público, servem à sua escrita como a crença na transcendência da alma serve aos religiosos, através dessa libertação a qualquer impostura em que emparelha todos no mesmo nível de abjeção e ódio, de culpa e hipocrisia; as descrições da miséria absoluta tanto física quanto espiritual do após guerra e da perseguição dos escolhidos como culpados pela História (entre estes, ele), inauguram uma nova escola da expressão, a qual não se pode sinonimizar como dantesca, apesar de ter a força equivalente. O que Céline escreve é celiniano, ele tem a vantagem rara de ser um fundador. Dele veio tanto os animaizinhos magros como Henry Miller, esse poltrão cínico que deve tudo a seu mestre, os mornos do primeiro andar como Salinger, os influenciados renitentes como Sartre, e os realmente fabulosos como Thomas Bernhard. Céline explora o mal incorporado à visão dos derrotados e dos previamente condenados do século passado. Ele não pede desculpas por nada, não tenta se explicar por nada, explicar-se a um defensor do assassino Mao como Sartre?, do militante das fileiras da grande genocida igreja católica como Mauriac?, aos gordos de bundas flácidas e papadas que semeam um câncer no cu e angiomas fatais no peito, como ele descreve os banqueiros e magnatas diretamente responsáveis por milhões de vidas chacinadas e que são os senhores da guerra? Quando fala dos panfletos antissemitas, chega a rememorar uma antiga senhora judia rica que o humilhou sobejamente, a ele e a seu pai, quando era criança, o que me fez recordar as razões do mal implantados no peito de Thomas Sutpen. Faço minhas as palavras de Philip Roth: na França, meu Proust é Céline. 










quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Uma Reversão da Panóptica



Claudio Magris escreve que em sua visita à cidade de Grein encontrou uma prisão construída ao lado de um velho teatro. Os detentos podiam "olhar o espetáculo através das grades, purificando aristotelicamente as suas almas de criminosas paixões". Pelo restante do dia essa imagem me toma por completo. Vejo os rostos  calados observando através das traves o pequeno lance de palco que a lua iluminando a histórica cidade favorece com intimistas tons de azul. Mistura de Edmond Dantés e as sombras confidentes de Rembrandt, da escuta da história da humanidade através das conversas com o abade Faria, e o velho filósofo sentado em paz resignada debaixo da escada de sua humilde casa. Os assassinos, ladrões, pervertidos sexuais, apaziguados por um momento na hora em que os atores lá embaixo vão transcender o papel em fingirem ignorá-los, mas que repetirão a apresentação àquele público impossibilitado de saír da própria clandestinidade. No silêncio da trégua aos jogos de azar e às lembranças de seus sentenciosos momentos de excesso de vida, verão a impetuosidade das tragédias pessoais revestida naquelas variadas versões da violência humana. Shakespeare, Beckett, Sófocles, Shaw, Pirandello... Uma panóptica ao avesso, já que quem vão assistir serão os presos. Imagino essa técnica de reeducação jurídica espalhada pelo mundo, ao lado de cada prisão um teatro, com janelas estrategicamente construídas para suportar ambas uma astuta espontaneidade de aprendizado lírico. Vem-me em mente as lembranças de Brodski recolhendo as cartas que os presos atiravam por sobre os muros para o pátio da fábrica em que trabalhava, e a sua comprometida entrega destas para as esposas e os jornais clandestinos; Elias Canetti morando por três anos próximo ao presídio de loucos, ouvindo-lhes os murmúrios, as risadas, os gritos, de tal forma que tece seu grande romance com o que aprendera da impropriedade de atribuir-se a falácia social e filosófica da razão; o conto de Tchécov em que a aposta prestes a ser concluída, em que o vitorioso conseguira se manter trancado por trinta anos num quarto, ocupado a ler todos os livros, é interrompida momentos antes por este ver que todo o conhecimento humano é leviano, descabível, supérfluo, mentiroso, o que o leva a abandonar o quarto e sumir no mundo. Não seria levar a arte a seu limite extremo? A saturação diante a exposição franca daquilo que não tem conserto, ao determinismo da queda? Isso avalizaria ainda mais o crime para essa audiência específica, que aprenderia também pela arte sobre a regência da violência desmedida, fazendo-os mais violentos? Ou a faria se converter na espiritualidade de presos políticos, para os quais o destino reserva encontros com poetas bem intencionados que sempre lhes farão chegar as mensagens aos receptores pretendidos?

Retalhos

Discussão no trabalho sobre a inevitabilidade da televisão e eu não sei por que cargas d`agua participo. Ainda mais que foi motivada por uma observação despretensiosa da minha parte, ao anunciar que meus filhos não assistem ao tubo. Como alguém que tivesse confessado inconscientemente um crime abominável, a série de acusações veladas de elitismo tolo e pai propenso ao fracasso se encerra com um chiste nos olhos no qual se revela um ódio concentrado à arrogância da diferença. Por pouco não caem numa dimensão paralela de insinuarem à administração pública o meu afastamento. Fico calado, não sem sentir o peso de um sorriso forçado nos lábios e um absurdo pesar por talvez eu ser mesmo alguém fora da realidade. Quando seus filhos entrarem para a escolinha, não haverá como você impedir isso. Então segue a pedra final do debate já ganho, em que meus colegas relembram entre si seus nostálgicos tempos de infância, seus Jaspions, o Clubinho do Mickey; depois, afirmam a tolice saudável de suas filhas cantarem as músicas de Justin Bieber, de uma delas ter optado por assistir ao show do Luan Santana a uma festa de aniversário, do filho saber de cór as canções dos palhaços Patati Patata, dirigindo os metros de normalidade exclusivamente a mim (mas sem me olharem, o repudiado fariseu por sua atitude de orar ostensivamente em público).

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Passo na feira diante uma amiga que estava na companhia da filha. Aproximo-me de propósito, desde que percebo que ela puxa a menina pelo braço se enfunando no meio da multidão, justamente para evitar cruzarem comigo. Hahhá!! Pulo na frente delas com a subitilidade de um apresentador de palco desses tristes programinhas televisivos locais, ou antigo palhaço gordo e pobre que afinal as tantas chuvas destruíram concomitantemente a lona do circo e sua já abolida alegria sincera, e, com a mão que está livre das sacolas de brócolis e queijo de minas, faço o que minha amiga mais temia e tentava evitar: estico os dedos até o nariz de sua filha e torço-o com uma força calculada, fazendo um som com a boca como o de um esmagar cômico de cartilagens de brinquedo. A menina sorri deliciosamente, segurando o nariz e dizendo um desesperado não! não! não!, assim como sempre fez desde quando tinha sete anos e seu corpo hoje com dez anos não simulava a aceitação de uma puberdade explicitada por sainhas curtas e os primeiros traços de maquiagem no rosto. Um dia antes minha amiga já havia me feito o alerta taxativo: sua filha já menstruava. Minha esposa me olha compadecida, como se eu fosse a única pessoa a quem era vedado a revelação do oráculo de que no futuro teriam de me amarrar a uma árvore e me darem sopinha na boca, e faz reparos aos meus argumentos de que aos dez anos ainda se é criança. A biologia dela diz o oposto, me diz. Mas devemos ser então reacionários à biologia! Ou a biologia pede que sejamos reacionários contra ela para que ela ache o caminho da própria recuperação. Minha esposa sabe que estou certo, mas se firma em seu papel de mediadora. No domingo recebemos visitas e ligamos a tv porque afinal ela parece inevitável, e minhas duas sobrinhas de dez anos riem como garotinhas com segredos ao verem dois dançarinos de tanga no programa de auditório às 4 da tarde. Então as puxo para o chão e faço-lhes cócegas nas barrigas, ou outra brincadeira sem graça e afrontosa, mas que, afortunadamente, elas cedem com sorrisos da mais absoluta pureza e esquecimento.

Estarrecido, escuto um lúcido amigo com longa prática de advogado criminalista sentenciar que ainda veremos o tempo em que um pedófilo será absolvido no tribunal e ressarcido pelo Estado de todos os danos materiais e morais sofridos, com a alegação taxativa de seu advogado de que se a menina já ovulava, quem seríamos nós para decretar que a natureza que a apresentava como sexualmente pronta estaria errada?

                                                                 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Expectativas? Que Expectativas?

Tomas Tranströmer, Nobel de Literatura de 2011
Eu estava torcendo para Philip Roth ou Cees Nooteboom. Mas Prêmio Nobel de Literatura parece que só existe para frustrar toda e qualquer expectativa. Já até ouço o sorrisinho dos acadêmicos de Estocolmo, diante mais um ano de total desbaratino e surpresa com o nome do laureado. Nunca ouvi falar no poeta sueco Tomas Tranströmer, o ganhador anunciado hoje. Vai ser fácil um monte de gente dizer que não passa de mais uma das singelas falcatruas da academia, mas vou esperar para ver.

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Aqui vão quatro poemas de Tomas Tranströmer na tradução de João Luís Barreto Guimarães:

HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente 
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza, 
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos 
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca 
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo. 
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite. 
Ali, onde o único sobrevivente pode estar 
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
***
A ÁRVORE E A NUVEM (1962) 

Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva, 
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza. 
Leva um recado. Da chuva arranca vida 
como um melro ante um jardim de fruta. 

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras, 
à espera, como nós, do instante 
em que flocos de neve floresçam no espaço.

***

DESDE A MONTANHA (1962) 

Estou na montanha e vejo a enseada. 
Os barcos descansam sobre a superfície do verão
. «Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.» 
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida. 
Abrimos as portas lentamente. 
Assomamo-nos à liberdade.» 
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo. 
Todos, no mesmo rumo – uma só frota. 
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.» 
Isso dizem as velas brancas.

***

PÁSSAROS MATINAIS (1966)

Desperto o automóvel 
que tem o pára-brisas coberto de pólen. 
Coloco os óculos de sol. 
O canto dos pássaros escurece. 

Enquanto isso outro homem compra um diário 
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga 
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.


Não há vazios por aqui.


Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa 
e conta como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem 
chega a gralha
negra e branca.
Pássaro agoirento. 
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão, 
salvo a roupa branca na corda de estender: 
um coro da Palestina:


Não há vazios por aqui.


É fantástico sentir como cresce o meu poema 
enquanto me vou encolhendo 
Cresce, ocupa o meu lugar. 

Desloca-me. 
Expulsa-me do ninho. 
O poema está pronto.

Cerimônia Viking

Agora as fotos em todos os jornais e sites da internet estampam os rostos desconsolados e as atitudes ritualísticas religiosas dos fãs pelo mundo de Steve Jobs. Como todo amanhecer que advém da morte de um herói, o amanhecer que se abriu diante o mundo com a gritante ausência do criador da Apple também tem aquele matiz de cor de cinemascope que dá a impressão de que as mínimas labutas cotidianas foram suspensas, por um instante, para que os corações e as mentes se enchem de uma angústia deliciosamente nostálgica. O site do bol, ontem, um dia anterior ao da morte de Jobs, cobrava de mim que eu fosse o enérgico homem de libido inesgotável já às seis da manhã, quando, antes de ir ao trabalho, ao confirmar meus emails, as fotos da entrada mostravam as garotas de biquine dos times de futebol nacionais; hoje, nessa atmosfera sagrada de enterro viking, as fotos são de um garoto chorando diante uma coroa de flores, uma mulher acendendo velas, uma fila de adoradores olhando pro céu; o apelo, meu cérebro teve que entender de imediato, era completamente outro: exigem de mim um discreto grau de monasterismo, um quê de recato, nada de pegar pelas emoções mais baixas, hoje não, hoje vamos chorar O homem. Nada mais moralizante para as tendências intrínsecas ao individualismo latentemente pervertido do homem cibernético do que cortar-lhe o barato sexual autômato com a notícia que um grande homem morreu; ainda mais se o grande homem for, ele mesmo, um dos principais responsáveis por essa luxúria sexual, essa farra do isolamento condicional que numa catarse paradoxa nos oferece a impressão de conquistarmos a amostra grátis de todas as plenas sensações do convívio social. Pulo para meus blogs rotineiros de visita, e lá está: Jobs no silêncio reverente da Companhia das Letras; Jobs no site do NYT, nas notícias principais do Google. Logo Jobs vai me pegar de frente nos telejornais não só do restante do dia, mas da semana, do mês, da retrospectiva de final de ano.

Interessante o quanto a morte de Jobs é carregada artificiosamente de uma áurea de repentinidade dramática. Parece que a causa de seu desaparecimento vem das mesmas que abateu por sobre outros personagens ilustres dos últimos anos. O seu definhamento físico, que era algo consumado em suas tradicionais aparições públicas desde dois anos atrás, parece não ter sido apreendido pelo conhecimento dos milhões de usuários dos aparelhinhos de telas coloridas, que são os que, me parecem, mais o consideram um gênio e mais choram a sua partida. Bauman definiu os rebeldes urbanos dos protestos atuais na Inglaterra, como sendo "consumidores fracassados", atrás unicamente de seus direitos de cidadãos pós-ideológicos de consumação dos fetiches oferecidos pelo mercado; já os órfãos de Jobs parecem ser o oposto disso: os consumidores perfeitamente potencializados pelo absoluto sucesso de consumirem o que quiserem, daí a rede de superficialização em não terem tido a necessidade de fazerem o nexo cognitivo de que o criador do i-phone fosse alguém passível de mortalidade. Em O Labirinto da Solidão, Octávio Paz traça a diferença da visão frente a morte entre mexicanos e norte-americanos: esses últimos, ao contrário das festas naturalistas cínicas mexicanas da celebração da morte, vivem numa não aceitação frenética da finitude, conduzem seus planos de vida numa aleatoriedade quanto aos limites temporais e adotam dietas que não pressupõe o AVC na linha frequente de cafés-da-manhã com bacon e ovos fritos. Paz analisou isso na dura metade do século passado, onde os exílios virtuais eram inexistentes e a realidade só possuia como reparos anestésicos a tv e o rádio; os descendentes dessa geração que viu a cabeça de Kennedy se esfacelar pelas imagens do televisor de válvula, e o coma definitivo de Elvis pela imaginação propugnada nos noticiários, estão inalcançados pela ausência de filtro de que as telas mágicas e os bilhões de dólares, por mais que assinalem magnanimamente o contrário, não descartam que aconteça com seu beneficiado a mesma verdade última que acomete os que não são abençoados pela grande estrela. Daí que a morte de alguém como Jobs vem investida de uma pressuposição fortemente subliminada de que só foi possível que morresse através de uma tragédia, um tiro, uma overdose, um acidente automobilístico, algo tão alheio e determinante quanto a sua condição de natureza eterna. Não será para menos que nos obituários futuros, quem quiser saber a sua causa mortis terá que procurar muito nos bancos de dados, pois vai ser generalizada a verdade de que cumpriu sua estadia gloriosa sem que precise questionar escamoteados detalhes desconcertantemente terrenos_ assim como é oficialmente inconcebível supor que a beleza celestial de Ingrid Bergman foi abatida por um desfigurante câncer de útero. Se essa geração que compõe a quase maioria absoluta de indivíduos atuais, em termos de estatísticas de consumo (que é o que importa), fosse um tanto menos ególatra, um tanto mais liberada a alcançar um patamar de percepção do que poderia ser a vida além da técnica institucionalizada pela grande mídia, poderia até a passar a crer que os atributos das telas coloridas trarão Jobs de volta, numa reencarnação digna da mágica transcendental que ele criou.

Lembro de ter lido que quando Chaplin lançou Tempos Modernos, em meados da década de 1930, a magnífica sátira ao fordismo que retrata a escravização moderna do homem pela indústria de forma a transformá-lo num autômato compulsivamente repetitivo, o forte apelo denunciador do filme demorou para ser percebido pelas platéias. Mesmo sendo a mesma platéia composta de homens oriundos do meio industrial, funcionários ou ex-funcionários submetidos à distração do cinema para que tanto si próprios quanto o Estado fossem suavizados da dura (e reativa) percepção da realidade da crise _ nessa consonância dual que tem o bom cinema de ser ao mesmo tempo, veículo revolucionário de esclarecimento e arma pacificadora_, a única coisa que era explícita para ela era a comédia pura. Esses homens tinham a incapacidade cultivada de não se identificarem na tela; o miserável que era engolido pelas gigantescas roldanas da máquina era o palhaço eventual de um mundo que nada tinha a ver com o deles. Não é para menos que quando da morte de Ford, o cortejo fúnebre e as festas de veneração tenham tido o esplendor e a imperiosidade que a morte não conseguia tomar do Ford icônico posto como crendice sagrada ao cidadão acabrestado pela realidade criada pelos poderes dominantes.

Jobs representa a nova dinâmica industrial escravocrata do mundo contemporâneo, numa eficiência e absoluta persuasão de santidade hedonista que não é possível enxergar aos que estão nos escalões abaixo, na linha mediana da comunidade cibernética. O fordismo, ainda que impere sempreterno na base da produção, foi suplantado na auto-percepção e no imaginário do homem moderno pelo jobismo. O jobismo trouxe para finalizar o empreendimento hiper-astucioso do capitalismo global o que os projetos do socialismo pragmatizado não conseguiram descobrir em sua obtusidade rígida: o misticismo consolador da técnica aparentemente ilimitada. É como se ao fordismo, que comanda os braços e a libido sincronizada do proletário, afim de garantir o surgimento de novas frentes de trabalhadores, se juntasse a força de coalizão que faltava, que comanda o que antes se julgava inalcançável e insubmisso: o interior do coração humano. Jobs, assim como seus parceiros edênicos da Microsoft, do Facebook, do Google...são responsáveis pela pedra de consolidação que faltava ao capitalismo global: descobrir que no coração humano não existe nada; nenhum melindre ou força propulsiva vulcanizada que não possa ser persuadida por um celular de ponta, por conexões ultra-rápidas da internet, por comunicação bluetooth, por ter suas fotos familiares compartilhadas pelo mundo todo, para que vejam o quanto você é um consumidor bem sucedido. O grande mérito de Jobs foi ter descoberto que as mulheres semi-nuas que aparecem no portal da bol logo de manhã é tudo o que mora no fundo da filosofia do homem urbano.

Zizek escreveu que o conceito de proletariado composto por Marx está defasado. Proletários somos todos nós, que nos submetemos ao sistema, alimentando-o com nossas horas diárias, retroalimentando-o doando tudo que nosso tempo conseguiu num consumo irrefreável; que vivemos em bolsões de exilio para não incomodar a corrente eterna dos que fazem a máquina girar, em nossas favelas, condomínios, bairros auto-vigiados, apartamentos, vilas. O capitalismo, segundo Zizek, adotou plenamente todas as táticas comunistas, apagando de vez qualquer mérito que pudesse ter o inimigo (desacreditando-o por completo), de modos que entramos numa fase evolutiva de biopolítica, em que tornamo-nos números manipulados. Nossa força espiritual, que Kant, em sua suprema inocência, tentou organizar em seu Paz Perpétua, se tornou estatistica pura e simples. Temos música de graça. Toda a cultura produzida pelo homem ao alcance de um download. O que Lênin, Stalin e Mao nunca conseguiram; aliás, o que eles mais temiam: o esclarecimento e a liberdade de opinião como um princípio elementar dado_ outorgado_ a nós pelo capitalismo cibernético. Jobs nos deu o que Adorno e Horkheimer intuiram estar na fase mais elevada do esclarecimento: o enfrentamento com o nada da saturação pela exposição ao conhecimento. Apenas que Jobs foi além do limitado alcance da filosofia: mostrou que a nós, os homo sacer, nós, os pós-políticos, poderíamos nos deleitar com a pacificação hedonista do nada. Jobs é um dos heróis da farsa do conhecimento através de um click, da exaustão excessiva através da impressão da aquisição, de outro avatar do capitalismo, o da relativização legal de direitos autorais de criação e da consecutiva extinção das patentes intelectuais que antes garantiam a produção de cultura e de ideias, em todos os campos humanos. Jobs, declarado gênio, foi genial apenas na visão estrita de tomar para si uma miríade de ideias surgidas de cabeças já não possuidoras de personalidades nomeáveis. Com o grupo de "criadores" de Jobs inaugura-se o socialismo da não propriedade intelectual em que o livre domínio só por milagre não decretará o fim da criatividade da mente humana, às custas dos bilhões ganhos pela corporação dos Zuckerberg, dos Gates, e dos Jobs, que lucrarão através do roubo instituído que será formalmente apresentado através das telas dos ipads, dos tablets, dos iphones. Com Jobs surge a espécie dos homo otarius denominada por Zizék. E esses heróis serão, à via de uma maior catarse, apresentados na derradeira versão poético-trágica cinematográfica em suas vidas solitárias de grandes visionários excêntricos. Não à toa há milhões que choram hoje a sua morte.