Alex Ross é bem mais que um jornalista que escreve de forma informal sobre música, como as resenhas da imprensa nacional querem passar, e como opinam os puristas sobre a possível superficialidade do autor ao tratar da música clássica. Desde O Resto É Ruído, vem-se dividindo a aceitação de Ross entre os que gostam e os que o tratam com esnobe indiferença, sendo a primeira categoria afetada pelos maneirismos de leitores de revistas de música que o acham bom por ele ter uma escrita leve a aprazível e não oferecer dificuldades em tempos de informações tão imediatas, e a segunda denuncia sua impostura ao ficar transparente que o desprezam para enaltecer suas próprias qualidades de entendidos. Em seu último livro lançado por aqui, Escuta Só, fica um pouco mais difícil sustentar sua medianidade. São 20 textos coletados das contribuições de Ross para a revista New Yorker que mostram que, além de sua capacidade de demonstrar um entendimento estético, histórico e técnico sobre todos os tipos de música, o cara escreve bem pra caralho! ; há uma desenvoltura inebriante em ensaios como o que Ross acompanha uma série de shows de Bob Dylan por festas folclóricas e estádios interioranos dos Estados Unidos, e sobre suas impressões sobre a turnê do Radiohead no lançamento de Kid A, que não ficam por dever em nada à sofisticação do jornalismo literário de gente como Gay Talese e Tom Wolfe. No ensaio sobre Kurt Cobain, em que ele não poupa sua admiração ao antológico álbum Nevermind, Ross reafirma seu talento de escritor. Escreve ele: "A raiva que sentimos diante dos suicídios talvez seja motivada por amor, mas é o amor que vem da posse, não da compaixão." Mas o melhor mesmo é perceber que o prazer de ler alguém que conhece de tudo da música e não cai no cansativo preciosismo de sobrepor um gênero musical sobre outro se revela na rapidez com que o tempo passa quando nos embrenhamos na leitura. O livro me foi entregue na sexta-feira, e já estou por chegar ao final de suas 400 páginas.
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Fui um dos primeiros conhecedores do trabalho do Radiohead aqui no Brasil. Tenho muito orgulho disso. Ninguém falava dos caras, eles não apareciam na mídia, sua música não passava nas rádios e nem na MTV. Um dia do ano de 1998, entrei numa loja de discos de um shopping center e perguntei ao vendedor se ele conhecia de quem era a música sublime que passava numa propaganda de televisão em que dois garotinhos brincavam num carrossel. Era uma propaganda tocante, um dos menininhos tinha síndrome de Down, e o sentido era que ele era tão normal quanto o outro. A música era arrebatadora, parava-se tudo que se estava fazendo para ouví-la, era inigualável por sua delicadeza melódica e pela voz sofrida mas infinitamente meiga que a cantava, e o mais forte era o contraste do que podia-se apreender depois da tradução da letra: falava sobre cirurgias obstetras e homens de borracha. O vendedor sorriu e foi direto à prateleira, como se essa consulta lhe fosse algo rotineiro, e retirou os três cd´s do Radiohead. A música, ele disse, é essa que está no segundo cd, e se chama Fake Plastic Trees. Foi algo engraçado, pois comprei apenas esse segundo cd, como um test-drive; era uma noite de chuva, e recordo que mal abria o shopping no outro dia, lá estava eu ansioso para adquirir os outros dois discos. Hoje eles são o que são, mas eu acompanhei já como fã a escalada deles ao topo de músicos mundialmente conceituados. Quando lançaram Kid A, fiz uma viagem de trezentos quilômetros até a loja mais próxima para comprar o álbum (compras pela net? Não existiam como hoje). No livro de Ross, Thom Yorke declara que sempre foi vítima de bullying na escola e universidade. Consideravam-no uma espécie de corcunda com seu copo mirrado e a paralisia de nascença de seu olho esquerdo. O ensaio de Ross mostra as brigas ferrenhas da banda contra o mercado fonográfico, o que acabou descambando na atitude inédita de disponibilizarem seus discos, a partir de In Rainbows, pela internet, para que se pague por eles o preço que fôr, ou nenhum preço; mostra também o quanto a banda é intelectualizada e culta, e o quanto promovem em seus shows os músicos sem lugar na mídia, como o Sigur Rós e o Autechre.
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Vejo num programa de televisão que só nos Estados Unidos, o mercado de livros digitais para tablets faturou no início desse ano 90 milhões de dólares, superando as vendas dos livros de bolso de papel. Espero para ver a matéria completa após os comerciais, meio que estarrecido com o advento estranho desse milagre, e eis que a voz monocórdia da repórter aparece fazendo fundo às imagens de livros infantis coloridos nas telinhas dos tablets. Uma mãozinha acaricia a tela e uma espécie de círculo de luz translúcido voa por cima das cabeças dos grilos, coelhinhos e o típico casal de crianças que são os personagens dessas histórias. Imagino como o sinergismo entre imagens em movimento e texto vai evoluir nos próximos modelos de tablets, Kindles e diabo-a-quatro dessa tecnologia, e como isso vai se adaptar à concentração necessária para a leitura. Está-se lendo, por exemplo, Moby Dick, e o leitor terá uma série de ferramentas para suavizar o peso da leitura, como anagramas ultra-sofisticados em que o capitão Ahab aparece com a cara de Jack Nicholson a caráter de marinheiro desleixado oitocentista vociferando na tela, e a baleia branca, terrível através dos óculos de 3D, saltando de encontro ao rosto do leitor, de maneira que haverão comunidades no Facebook para louvar o quanto se pode sentir verdadeiramente os respingos de água salgada na pele. Os poderes da imaginação estarão restringidos a um grupo de apreciadores persistentes e retrógrados, mas que garantirão a sobrevivência do livro impresso. Seremos, nós os verdadeiros leitores, tão pomposos e devotos como os tabaguistas e os enólogos.









