domingo, 14 de agosto de 2011

Alex Ross, Radiohead e ebooks

Alex Ross é bem mais que um jornalista que escreve de forma informal sobre música, como as resenhas da imprensa nacional querem passar, e como opinam os puristas sobre a possível superficialidade do autor ao tratar da música clássica. Desde O Resto É Ruído, vem-se dividindo a aceitação de Ross entre os que gostam e os que o tratam com esnobe indiferença, sendo a primeira categoria afetada pelos maneirismos de leitores de revistas de música que o acham bom por ele ter uma escrita leve a aprazível e não oferecer dificuldades em tempos de informações tão imediatas, e a segunda denuncia sua impostura ao ficar transparente que o desprezam para enaltecer suas próprias qualidades de entendidos. Em seu último livro lançado por aqui, Escuta , fica um pouco mais difícil sustentar sua medianidade. São 20 textos coletados das contribuições de Ross para a revista New Yorker que mostram que, além de sua capacidade de demonstrar um entendimento estético, histórico e técnico sobre todos os tipos de música, o cara escreve bem pra caralho! ; há uma desenvoltura inebriante em ensaios como o que Ross acompanha uma série de shows de Bob Dylan por festas folclóricas e estádios interioranos dos Estados Unidos, e sobre suas impressões sobre a turnê do Radiohead no lançamento de Kid A, que não ficam por dever em nada à sofisticação do jornalismo literário de gente como Gay Talese e Tom Wolfe. No ensaio sobre Kurt Cobain, em que ele não poupa sua admiração ao antológico álbum Nevermind, Ross reafirma seu talento de escritor. Escreve ele: "A raiva que sentimos diante dos suicídios talvez seja motivada por amor, mas é o amor que vem da posse, não da compaixão." Mas o melhor mesmo é perceber que o prazer de ler alguém que conhece de tudo da música e não cai no cansativo preciosismo de sobrepor um gênero musical sobre outro se revela na rapidez com que o tempo passa quando nos embrenhamos na leitura. O livro me foi entregue na sexta-feira, e já estou por chegar ao final de suas 400 páginas.

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Fui um dos primeiros conhecedores do trabalho do Radiohead aqui no Brasil. Tenho muito orgulho disso. Ninguém falava dos caras, eles não apareciam na mídia, sua música não passava nas rádios e nem na MTV. Um dia do ano de 1998, entrei numa loja de discos de um shopping center e perguntei ao vendedor se ele conhecia de quem era a música sublime que passava numa propaganda de televisão em que dois garotinhos brincavam num carrossel. Era uma propaganda tocante, um dos menininhos tinha síndrome de Down, e o sentido era que ele era tão normal quanto o outro. A música era arrebatadora, parava-se tudo que se estava fazendo para ouví-la, era inigualável por sua delicadeza melódica e pela voz sofrida mas infinitamente meiga que a cantava, e o mais forte era o contraste do que podia-se apreender depois da tradução da letra: falava sobre cirurgias obstetras e  homens de borracha. O vendedor sorriu e foi direto à prateleira, como se essa consulta lhe fosse algo rotineiro, e retirou os três cd´s do Radiohead. A música, ele disse, é essa que está no segundo cd, e se chama Fake Plastic Trees. Foi algo engraçado, pois comprei apenas esse segundo cd, como um test-drive; era uma noite de chuva, e recordo que mal abria o shopping no outro dia, lá estava eu ansioso para adquirir os outros dois discos. Hoje eles são o que são, mas eu acompanhei já como fã a escalada deles ao topo de músicos mundialmente conceituados. Quando lançaram Kid A, fiz uma viagem de trezentos quilômetros até a loja mais próxima para comprar o álbum (compras pela net? Não existiam como hoje). No livro de Ross, Thom Yorke declara que sempre foi vítima de bullying na escola e universidade. Consideravam-no uma espécie de corcunda com seu copo mirrado e a paralisia de nascença de seu olho esquerdo. O ensaio de Ross mostra as brigas ferrenhas da banda contra o mercado fonográfico, o que acabou descambando na atitude inédita de disponibilizarem seus discos, a partir de In Rainbows, pela internet, para que se pague por eles o preço que fôr, ou nenhum preço; mostra também o quanto a banda é intelectualizada e culta, e o quanto promovem em seus shows os músicos sem lugar na mídia, como o Sigur Rós e o Autechre.
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Vejo num programa de televisão que só nos Estados Unidos, o mercado de livros digitais para tablets faturou no início desse ano 90 milhões de dólares, superando as vendas dos livros de bolso de papel. Espero para ver a matéria completa após os comerciais, meio que estarrecido com o advento estranho desse milagre, e eis que a voz monocórdia da repórter aparece fazendo fundo às imagens de livros infantis coloridos nas telinhas dos tablets. Uma mãozinha acaricia a tela e uma espécie de círculo de luz translúcido voa por cima das cabeças dos grilos, coelhinhos e o típico casal de crianças que são os personagens dessas histórias. Imagino como o sinergismo entre imagens em movimento e texto vai evoluir nos próximos modelos de tablets, Kindles e diabo-a-quatro dessa tecnologia, e como isso vai se adaptar à concentração necessária para a leitura. Está-se lendo, por exemplo, Moby Dick, e o leitor terá uma série de ferramentas para suavizar o peso da leitura, como anagramas ultra-sofisticados em que o capitão Ahab aparece com a cara de Jack Nicholson a caráter de marinheiro desleixado oitocentista vociferando na tela, e a baleia branca, terrível através dos óculos de 3D, saltando de encontro ao rosto do leitor, de maneira que haverão comunidades no Facebook para louvar o quanto se pode sentir verdadeiramente os respingos de água salgada na pele. Os poderes da imaginação estarão restringidos a um grupo de apreciadores persistentes e retrógrados, mas que garantirão a sobrevivência do livro impresso. Seremos, nós os verdadeiros leitores, tão pomposos e devotos como os tabaguistas e os enólogos.

sábado, 13 de agosto de 2011

O Esquecimento Perfeito

Lembro-me que no final do mês enfrentei a fila de banco para retirar o minguado salário de professor substituto, e parti eufórico para a livraria no outro canto da cidade. Quando a moça do caixa contou o dinheiro que lhe entreguei para poder levar o livro que haviam me reservado, anunciou faltar o equivalente hoje a uns 5 reais. Voltei correndo ao banco antes que acabasse o expediente e confrontei o funcionário, que fechou o caixa e depois de uns dez minutos de balanço confirmou o erro e me passou o restante do dinheiro. Às seis horas as moças me esperavam ainda à porta da livraria e eu, suado, pude pegar de vez O Don Silencioso, de Mikhail Sholokov. Eu tinha uns 22 anos e esperava reaver toda a maravilha dos grandes russos com aquele volume de 500 páginas, e pelo mês de férias da faculdade e das desgastantes aulas de substituição, o devorei sendo atendido em todas as minhas expectativas. Era uma história que abarcava a saga de algumas famílias, desde os tempos feudais das extensas pradarias do Don até a formação do estado soviético. Era o Tolstoi do século XX, como dizia um crítico na contracapa, cheio de vigor, de juventude, de sabedoria. Depois achei um livrinho de contos do autor, e também me deixei maravilhar pelas aventuras de um bom garoto de aldeia que tem que atravessar milhares de milhas para anunciar ao povo a advento feliz de que Lênin chegava. Ao final da viagem, deitei a cabeça no travesseiro com o mesmo sentimento de orgulho pelo dever cumprido que o bom menino sentiu, ao retornar à simples casa dos pais camponeses.

Convido a digitarem o nome de Mikhail Sholokov no Google. Convido a teclarem depois a seleção de imagens. Viram? O mais perfeito esquecimento! Uma descoberta notável que pode ser útil nas conversas entre amigos letrados quando surgir o tópico "qual o escritor mais esquecido?". Se acharem uma foto de Sholokov no Google, por favor, me avisem, para que eu possa colocar nesse post. Na procura rápida que acabo de fazer, não achei nem o link da wikipédia, o que é assombroso. Pode-se encontrar de tudo no Google, do agricultor inglês medieval Jethro Tull à biografia completa do Bandido da Luz Vermelha, mas não se acha quase nada sobre Mikhail Sholokov. Só achei essa foto que condiz com o desaparecimento asséptico completo, por sua capa horrível e os sinais evidentes de uma última e distante edição. Não se publica mais Sholokov, apesar de ter ganho o Nobel e ter sido declarado pelo partido soviético como o maior e mais representativo romancista da Rússia de meados do século XX (ou, mais apropriadamente, por esses dois motivos). Não sei se é justo ou não. Não sei se, com o passar do tempo, quando se desgastar o peso por um dos maiores fracassos políticos da história, Sholokov irá voltar, purificado e justificado, como um grande escritor. Só sei que me rendeu o deleite verdadeiro da boa leitura, mas isso também foi há muito tempo, e, por mais que peleje, não me recordo muito além da história do garotinho mensageiro.

P.S.: Tá bom, o Google é infalível. Achei.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Philip Roth _ A Busca pelo Pertencimento

Philip Roth, por detrás de seus temas centrais de incompatibilidade intelectual aos padrões de conduta e poder da América, e por detrás dos seus combates anárquico-sexuais pós-freudianos ao puritanismo, é o mais improvável dos escritores estadunidenses. Graças a essa casca que Roth tem um caráter primal de afastar possíveis leitores fora dos EUA, por estes caírem de maneira fácil na crença de tratá-lo como o artista americano padrão do fim do século, que simula reacionarismo auto-crítico através de sofisticados jogos estéticos mas chafurda cheio de gratidão na vida imperial da nação privilegiada. Mas uma leitura mais apurada de Roth revela o que eu disse acima: ele não se encaixa em nenhuma das classes distinguidoras do Autor Americano, apesar de todos os símbolos editoriais e da imprensa reforçarem que ele, mais do que ninguém, representa o Grande Romance Americano. Mesmo autores de obras declaradamente disjuntivas dos temas fundamentais da literatura daquela nação, como Thomas Pynchon e Foster Wallace, apresentam na própria contradição o vínculo inerente formalizado na acepção de contracultura, de usuários do lixo cultural despejado pela televisão, pela internet e por outros veículos da midia corporativa como matéria prima de suas produções. Quem se aprofunda nos romances eróticos de Roth, como Complexo de Portnoy e O Teatro de Sabbath, percebe que ele não segue minimamente os requisitos impostos pelo costume dos estimuladores sensuais à lá Henry Miller de passarem a mensagem legítima entremeando-a aos apelos de falar ao "pedaço de chumbo com asas"; nenhum leitor de Roth fica sexualmente excitado com suas descrições sexuais; suas musas não são apetecíveis a figurarem nas descrições testosterônicas de Miller como as que vemos em Trópico de Câncer, pois são garotas gordas, ou mulheres de meia-idade flagradas pela imaginação dos maridos que não a suportam em pleno ato de uma masturbação desesperada. Os heróis para os quais estão destinados os esplendores esportivos das mais lúbricas proezas copuladoras são homens degradados em todos os graus da experiência: desempregados às margens da mendicância, professores universitários caídos em desgraça, neurastênicos estóicos que sobreviverão ao câncer na próstata, e o arquétipo do filho da mãe judia ultra-castradora. Não são, pois, o estreante a gênio exilado em Paris e esbanjando saúde por todos os poros, dos romances de Miller. À semelhança de Lolita, os romances eróticos de Roth não falam de sexo; o sexo é o canal filosófico de contato com profundas ondas de rejeição que transitam na educação familiar de pais de classe média derrotados, de alcoólatras que em nada se parecem com as promissoras fotos da juventude, e refugiados nas mais excêntricas posturas de aberração contra o formalismo social. O sexo em Portnoy ainda mantêm a frescura dispensada das fortes ondas de desencanto do Roth tardio, com sua aproximação farsesca com o universo freudiano só para debochar dele. A própria fixação de Portnoy ao sexo solitário, suas arrojadas elucubrações em praticar o onanismo em todos os locais e com os mais estranhos objetos (como masturbar-se numa viagem de ônibus, e usando-se um fígado de boi), mostra que a pureza contextual de um romance erótico não funciona muito quando a maior parte dele se centra nas práticas individualistas. É fácil então, à par de uma leitura mais dedicada, perceber que Roth não manteve nenhuma das promessas do Grande Romancista Americano o qual era esperado na linha de montagem de sucessão a Nabokov, Miller, e mesmo Bellow. 
Roth frustrou todos os critérios estabelecidos, menos aquele que remete ao mais intrínseco e inescapável deles e que assola escritores esotéricos como Ralph Ellison, Isaac Bashevis Singer e Saul Bellow: a busca pela noção mítica do pertencimento, pelo que Lacan definiu como "o grande Outro", mas que em Roth aparece com um grau de orfandade definitiva mais acentuado que nos seus colegas. Não à toa que Roth tenha empregado tanta influência da psicanálise em O Complexo de Portnoy, embora até nessa aplicação de uma modística literária freudiana ele tenha sido infiél e anarquista, visto que colocou a psicanálise num diálogo transloucado com o judaísmo tradicional (em sua forma transplantada nas famílias de classe média americanas), sendo a sua ácida ironia em não sobrepor a primeira um centímetro sequer de distinção científica acima da segunda. Roth demonstrou desde o princípio que usaria o humorismo sem freios e sem qualquer respeito às ortodoxias a que presumia-se preso (o psicanalismo da vida urbana; o judaísmo tribal das antigas colônias deportadas) como método fixador de seu eterno não convencimento, não coaptação, a sua eterna indagação e mofa por procurar o pertencimento e saber pela prática tortuosa de que ele é um fetiche, de que não existe. Portnoy é mais uma orgulhosa exibição do quanto seus dotes literários estavam em maturada plenitude, e vamos encontrar mais acirradamente a busca por pertencimento de Roth em romances já assumidamente mais sérios e ambiciosos, como em O Avesso da Vida, em que seus personagens confrontam de maneira quase contra-panfletária os dogmas do catolicismo e do judaísmo. É um romance em que o Roth tardio aparece pela primeira vez, o Roth de uma inteligência áspera que alguns anos mais tarde se embrenharia numa trilogia da história americana do século XX (a história espiritual americana, o que em si mesma é o mimetismo da narrativa da desfragmentação e da derrocada). Mas aqui vemos as armadilhas do excesso de confiança de Roth em sua simplória descrição interpretativa dos rituais judáicos, em que para cada gesto dos fiéis em frente ao Muro das Lamentações ele interpõe uma visão de superioridade jocosa, que transparece em sua gratuidade provocativa apenas a resposta às críticas das comunidades judáicas americanas que cobravam ao menos mais pudor por parte de um escritor judeu que se negava a se dobrar à tradição. Essa leviandade de Roth foi atacada de frente em uma carta que Mary McCarthy lhe dirigiu, e que o autor publicou e respondeu em Entre Nós.
Mas em O Avesso da Vida surgem também os outros temas que se tornariam recorrentes dali para frente nos romances de Roth: a doença como filtro inexorável para ver o niilismo por detrás do glamor americano, o fracasso da instituição do casamento, e o isolamento como necessidade básica para o escritor. Dali para a frente, quase a maioria absoluta de seus personagens principais manteria uma relação íntima com a doença, uma doença progressiva que estipula o acionamento do tique-taque para a detonação final no curto prazo de covalescênça em que seu portador teria tempo de se resignar a algum tipo feliz e idiossincrático de significado. Roth se torna profundamente dostoiévskiano na exploração das hipóteses pessoais da graça, sendo a sua graça destituída de cristianismo e penitência para, com isso, ser mais eficazmente moralista que a graça de Dostoiévski. A graça de Mickey Sabbath, por exemplo, é a iluminação auto-suficiente de suprema inteligência shakespereana que lhe serve para conseguir sobreviver num estágio de eletricidade mordaz mesmo ao mais terrível abandono. É a doença física que faz Sabbath abandonar sua profissão de titereiro, devido a artrite nos dedos das mãos, e é a doença espiritual que o faz perder seu cargo de professor e seu casamento, e é a degradação advinda com a doença que o faz se aproximar a um estágio de beatitude em não precisar de mais nada a não ser a aceitação prazerosa e plena de si mesmo, com todas as suas deformidades e todas as suas peculiaridades repulsivas. É o câncer de próstata que faz Nathan Zuckerman não participar mais da vida competitiva e se refugiar numa pequena casa no meio do mato, e, em decorrência, achar três grandes temas capitais nos três personagens insuspeitos com os quais convive na cidadezinha provinciana vizinha à sua casa. Três renegados que, assim como ele, abdicaram da sociedade, e lhe presenteiam com suas histórias pessoais que se entrechocam com o que há enterrado por debaixo do tapete da História da Grande América. 

Nenhum outro escritor americano, pois, se aproxima de Roth em sua obsessão por descobrir o que subjaz do mais interno verniz das aparências humanas. Nessa pesquisa, Roth foi mais longe que Bellow, e como paga, não conseguiu imunizar sua biografia do contato deletério de tais materiais radioativos. Assim como Zuckerman, Roth priva pelo isolamento, depois de passar pelo fracasso do casamento e pela extenuação da vida pública de intelectual gabaritado. Sua busca por pertencimento renegou a corrente do psicologismo, do cientificismo, do judaísmo; sua série de entrevistas e ensaios sobre escritores da Europa Oriental (o magnífico Entre Nós) mostra o quanto o significado real o preocupou na sua visão da América quando ele afirma que o sofrimento proporcionado pelas ditaduras, processos democráticos e revoluções políticas deu uma dignidade notável e legitimou a função da escrita para escritores como Milan Kundera e Ivan Klima. No vazio da vida americana Roth perseguiu e conquistou seu motivo temático legítimo.

Pequena Contribuição ao Ateísmo da Moda


Surpreso por ver uma ferradura pendurada na porta da casa de campo do físico Niels Bohr, um colega cientista que o visitava exclamou que não compartilhava com a crença supersticiosa de que as ferraduras afastavam os maus espíritos; Bohr retrucou: "Também não acredito. Deixo aí porque me disseram que funciona mesmo quando não acreditamos."

                                       Slavoj Zizek, Primeiro Como Tragédia, Depois como Farsa.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Dublinesca




Um dos álibis contra os sinais anunciados da tão aclamada morte do romance é que mesmo seu definhamento consegue servir de tema para toda a obra de um dos mais relevantes romancistas da atualidade. Praticamente todos os livros do espanhol Enrique Vila-Matas tratam da morte do romance, utilizando-se de uma série de personagens cuja reação ao avanço de uma era de iletralidade é a da abstinência criativa ou a recusa pura e simples de escrever. Vila-Matas tece um jogo curioso de referências aos mais importantes escritores, de forma a produzir no leitor a “doença da literatura” que incapacita espiritualmente seus heróis, mas tem o cuidado mercadológico de não incorrer em modelos muito herméticos, abrindo as janelas de suas narrativas para que o ar de dias ensolarados tenha livre acesso. Vila-Matas, pois, se presta ao que grandes escritores que se recusaram a ser objeto de fetiche de uma minoria de apreciadores especialistas fizeram para alcançar o grande público: administraram suas caixinhas de truques e surpresas de forma a serem bastante permeáveis às vendas exponenciais, e com isso, mais uma vez, reforça a duração do romance. Recheia seus enredos de sombras, chuvas, sonhos, personagens misteriosos, equivalências que supõem a mágica, viagens para aprazíveis cidades históricas européias, micro-ensaios bem estruturados sobre livros, fofocas atuais ou muito antigas sobre escritores; além de servir-se da internet para propagar os personagens cuja face impressa jura que existem mas que as consultas pelo Google revelam inventados. A astúcia desse procedimento é que o leitor, na consulta, cai na rede de fãs que o autor arrebanha pelo mundo, à semelhança dos que se descabelam na escavação de códigos nas páginas de Thomas Pynchon.

Mas engana-se quem achar que Vila-Matas é apenas um leitor cuja leitura de todos os livros não deixou outra opção que fazer-se ele mesmo um funcionário de sua memorialística literária. Como na comprovação da excelência das costureiras, pode-se perceber o grande calo profissional que Vila-Matas tem na mão em seu recente romance, Dublinesca. Trata-se das aventuras de Samuel Riba, um editor aposentado que vive para ruminar os dias gloriosos do romance, dos quais participou ativamente, mesmo sem nunca ter encontrado o jovem gênio das letras que sempre procurara, e que, como ato ritual ao que ele vê como “o fim da Galáxia de Gutenberg” e a consagração decisiva da era digital, encena com um grupo de amigos o enterro do romance indo para Dublin no Bloomsday. Desde a primeira página vemos que só sobra a Riba o encerramento tortuoso no qual sucumbem os pacientes terminais; a cada passagem de seus dias na Espanha, à espera que chegue a data prevista para a viagem, intrudam-se elementos de pesadelos tomados da literatura que não lhe possibilita saber onde prossegue a realidade e onde se irrompe o sonho. Mesmo as visitas habituais a seus velhos pais, todas as quartas-feiras, que no mais não passam de tediosas obrigações cumpridas à risca, são contaminadas pelo onírico que escapa dessas frestas do cotidiano.

Mesmo Riba sendo o que ele vê como uma versão mais velha e culta de um hikikomori, nome que se dá aos jovens japoneses que já se alienaram do mundo trancando-se nos quartos das casas dos pais e não saindo de frente do computador, pois ele mesmo sucumbe às horas pesadas de exposição ao Google, não lhe escapa a verdade de que a cada dia vai se tornando mais e mais obsoleto. Sua esposa se converte ao budismo, e, numa determinada cena em que Riba a observa dormindo, está mais jovem e possuída de uma beleza plena. Sua viagem a Dublin, a qual era a última chance de integrá-lo a algum significado de pertença_ mesmo que fosse de pertencer a um grupo que se enterrava sob um réquiem de resignação à modernidade_ se mostra, apesar da beleza da paisagem em que Riba se identifica como pertencendo ao mar da Irlanda, um completo fracasso na comunicação com os amigos.

A bela editoração da CosacNaify complementa a alusão de que Vila-Matas trata de temas profundos com uma leveza que não se corrompe por nenhuma das duas opções (deixar de ser leveza aniquilando-se na imanência das matérias tratadas, ou tornando-se superficialidade pura): a ilustração da capa, as letras grandes, a feição corporal de objeto perfeitamente comestível e um quê do requinte de ornamento de mesa de catálogos fotográficos. Mas Vila-Matas prescinde desses artifícios, ainda que eles complementem a sua arte. O livro vale por suas reflexões requintadas sobre a modernidade, sua ironia fina sobre a geração de cultores virtuais em que a maioria da humanidade está se tornando, sua prosa que não é permissiva e não faz concessões, seus resvalos gratificantes numa premonição de níveis mais profundos do discurso. Mesmo as partes que cairiam na ineficiência e no desgaste, Vila-Matas as convertem em agilidade perfeitamente convincente.

Gabriel Garcia Márquez _ O Velho Rei Cagando na Latrina


(Texto sem revisão)
Quem passou a ler Garcia Marquez nos anos 80 e era um adolescente, como eu, sabe do enorme assombro que tal descoberta envolvia. Me lembro bem que a leitura que nos chegava aqui nesse canto de mundo, a leitura requintada e importante que tínhamos que ter para nos tornarmos cultos, era a que estava construída dentro dos moldes tradicionais dos escritores europeus e norte-americanos. Nos anos 80 eram poucos os livros de autores contemporâneos que o restrito mercado editorial nacional oferecia_ afora os best-sellers fúteis que reafirmavam o quanto eram quentes as aventuras sexuais e de vinganças que transitavam no mundo financeiro lá de fora_ , e nosso atraso quanto às novas produções intelectuais era suavizado pela impressão de que a leitura da tradução da tradução de Dostoiévski era um instrumento efetivo para alargarmos nossos horizontes de compreensão. Jovens colegiais, como eu era na época, se embeveciam com Kafka, embora para nossas mentes incipientes A Metamorfose era apenas uma história de suspense tresloucada sem nenhuma sub-liminariedade. Um conto que fez furor entre a rapaziada de 17 anos, Erostrato, de Sartre, por exemplo, nos cativava pela figura cinematográfica do assassino serial que quase escapole da polícia. Assim, ler Cem Anos de Solidão era algo comparável a um desvirginamento, uma experiência real mais forte e substancial que as experiências de certa forma mastigadas que outras pessoas já mortas e que viveram a quilômetros haviam nos passado. Ler Cem Anos de Solidão foi, para minha geração, o primeiro contato sério e inescapável com o que poderíamos definir como nossa política, nossa história, nosso povo.

E o interessante é que, apesar de minha iniciação política ter vindo de García Márquez, eu já defendi acirradamente diante uma banca de acadêmicos a ideia de que o colombiano é o menos político dos autores hispano-americanos. Mas isso é uma outra história e não importa aqui. O que quero reafirmar agora é o quanto minha juventude foi assolada pelas possibilidades inéditas que fluiam do grande romance de GGM. Uma vez, conversando com um amigo também devorador de livros, invoquei o assunto de como cada um de nós chegara ao universo da leitura. Esse meu amigo lembrou que passou a consumir dois livros por semana graças às leituras iniciadas nos volumes sobre questão social e de movimentos de esquerda que editoras como a Expressão e Cultura publicavam. Da história dos movimentos campesinos, ele passara de Che para Jared Diamond, Bauman, Todorov, Saramago, etc. Eu, pelo meu lado, confessei que minha entrada foi feita por caminhos nada políticos. Como eu sempre fui apaixonado pelo frio, ou pela ambientação geográfica de povos tradicionais como os judeus poloneses, eu comecei a ler sobre o fog londrino, as tramas pitorescas que ocorriam entre prosaicos casais de vilas siberianas perdidas, ou sobre fantasmas que resolvem aparecer em pleno inverno. Iniciei-me lendo Conan Doyle, Checov, Stephen King, Sheridan Le Fanu, etc.

Eu procurava romances habitáveis, com mobiliários que permitissem um aconchego de frente à lareira. Digo tudo isso apenas para chegar ao ponto capital: GGM tornou consumível para meu gosto atmosférico as ruas empoeiradas batidas por um sol inclemente, e as casas modorrentas em que lá dentro os habitantes descansavam as sestas da tarde, com os corpos cobertos de suor. As vilas esquecidas do interior da Colômbia, que ele traduzia em seu universo pessoal centrado na mítica Macondo, passaram a ser tão convidativas quanto as vielas londrinas, e as paisagens de neve pelas quais passavam trenós carregados de nobres festivos das histórias de Tolstoi. Pode parecer pouca coisa, mas eu, assim como a maioria quase absoluta de jovens da minha idade, éramos infestados da cultura televisiva, por mais que ela nos soasse desde já deletéria, propagada pelos filmes hollywoodianos dos pacotes de atração anuais da Globo. Vivíamos nos resquicios disfuncionais de uma ditadura que, culturalmente, tornava o Brasil tão fechado para o mundo externo quanto eram quaisquer outros países latino-americanos. Assim, as primeiras palavras de Cem Anos foram como aprender a ler de novo; os Buendias e os Arcadios e tudo que infestava suas vidas de indios subdesenvolvidos formaram uma aquisição de lucidez violenta que atirava janela afora, sem delicadezas, todo o substrato de uma visão de mundo pequena, mesquinha e agrilhoada aos padrões de consumo ditadas pelas mídias corporativas de um Brasil muito feudal e estacionado no tempo. Cem Anos veio com a adstringência salvadora de mostrar que o olhar voltado para nós mesmos não precisava ter o pedantismo auto-condescendente e já imbuído de pedido de desculpas que havia em novelas televisivas como O Bem-Amado, e nos filmes em que o catolicismo aparecia flagrantemente nas frestas de um suposto reacionarismo político, como O Pagador de Promessas.

GGM foi o primeiro dos escritores latino-americanos que nos mostrou como realmente somos, sem a mínima maquiagem, sem o mínimo eufemismo. E sua revolução conceitual foi a de dizer que não precisávamos de maquiagem e nem eufemismos, que assim como éramos estávamos no mesmo patamar distintivo de qualquer europeu ou norte-americano, e nossos bêbados de esquina e nossos barbudos apedrejadores de prefeituras eram tão carregados de um misticismo nobre quanto o Rei Arthur e Thomas Pain. Por detrás dos escatologismos aparentemente idiotizados de seus personagens; por detrás das caras estupidificadas dos donos de botequins e das meretrizes de axilas rescendendo a cebolas, havia a entidade legitimamente representativa de nossa latinoamericanidade em que estuporavam a inteligência e a graça, algo que não podíamos nos envergonhar e que não abaixava a cabeça diante a velhice postural dos outros continentes. Na melhor novela curta de GGM, Ninguém Escreve ao Coronel, por exemplo, o velho coronel de guerra que passeia com seu galo pelas rinhas do povoado enquanto espera por um cheque de aposentadoria que nunca vem, inicia a história acocorado sobre um pinico, esforçando-se por botar seus excrementos para fora. E a força inigualável da escrita de GGM se encaixava nessas exposições isenta de regionalismos ou traços da escrita provinciana que até então serviam para atolar as literaturas nos limites das efemérides dos intelectuais de prefeituras. Como diz Hobsbawn sobre GGM e Cem Anos, em A Era dos Extremos, o maior acontecimento literário do período final do século passado não aconteceu nos centros acadêmicos de Paris ou veio de alguma região urbana dos EUA, mas nasceu de um pequeno país latino-americano cujas notícias são sempre relacionadas ao narcotráfico, e promovido por alguém que tentava, como GGM disse várias vezes, apenas reproduzir o tom que sua avó Tranquilina empregava nas histórias que lhe contava em criança.

Cem Anos de Solidão ainda perdurará por bons anos como a maior realização do romance latino-americano. Na certa temos escritores melhores que GGM, que conseguiram estender sua qualidade por mais que os três livros realmente imortais do colombiano, mas nenhum deles conseguiu realizar um romance cujas proezas são tão imediatamente identificáveis como a saga dos Buendía. Cem Anos de Solidão oferece um universo tão completo da história, das características étnicas e das mentalidades latino-americanas_ com todos os seus humores e tragédias_, que esse livro exemplar extrapola a terrenicidade do seu autor. Sou um dos que julgam que GGM morreu após escrever O Amor nos Tempos do Cólera, e também me soam fúteis e totalmente dispensáveis a obra de não ficção em que ele ensaia seus posicionamentos políticos_ de uma forma em que o comentário de Bolaño de que GGM se encanta demasiadamente com generais e papas transforma em interpretação diagnóstica seu obliterado retrato de um ditador, O Outono do Patriarca. Mas Cem Anos de Solidão superou seu autor e adquiriu uma vida própria que o isola como um expoente estético e ideológico que pouco tem a ver com a figura dissipada que o escreveu.

domingo, 7 de agosto de 2011

Saul Bellow


(Procurarei cumprir meu objetivo de fazer um texto sobre cada um de meus autores preferidos. Nesse intento, reposto um sobre Saul Bellow.)
A ambição de Bellow era usar em seus livros uma linguagem semelhante às músicas de Mozart: simultaneamente ágil e profunda. A construção de sua carreira literária, já partindo desse primeiro intento, exigia uma reavaliação das pesadas heranças que recebia, tanto da literatura de altíssima qualidade produzida nos Estados Unidos, na primeira metade do século XX, que tinha seu centro em Faulkner, tanto das tradições do judaísmo que mantinham ainda sólidos padrões de conduta  culturais e religiosas em sua  fortalecida repaginação  no capitalismo norte-americano . No conselho de Hemingway, Bellow tinha muita coisa para matar. Era um judeu canadense urbano erradicado em Chicago, perfeitamente assimilado pela vida social frenética dos E.U.A, apaixonado pela nova vertente imperial das revelações de alcova da insurgente indústria da fofoca sobre os homens e mulheres do poder, enebriado com o vício de consumo de ideias que a indústria cultural havia determinado seu  país de adoção como o porto de chegada para os mais importantes intelectuais do pós-guerra. Sua alta inteligência avaliativa tinha plena liberdade para materializar o novo escritor que a América precisava, que estivesse condicionado a defini-la em seus novos ciclos evolutivos, sabendo que o regionalismo mitológico de Faulkner já havia sido esgotado por Faulkner, e que a heróica távola de grandes escritores sociais formada por Steinbeck e Dos Passos já não produziria descendentes para os novos problemas que a América ultra-capitalista e ultra-urbana requisitava. Na verdade, Saul Bellow era o mais efetivamente acabado produto dessa América espiritual que se vendia ao oportunismo redentor de ser a nação dirigente do mais luminoso estágio da democracia neoliberal da História, e teria sido inexpressivamente consumido por ela, se não possuísse a voz autêntica de desbravar tudo que havia de deletério, efêmero e devastador subjazendo sobre o seu hedonismo babilônico.

O mais incrível de se observar no estilo de Bellow é que ele é altamente vendável. Na maioria das páginas de seus livros acontece tanta coisa, expressa-se tantas ideias, trafega-se por cenários cosmopolitas de tantas descrições de prédios, escadas de incêndio de subúrbios, tribunais rescendendo a decisões do poder sobre  a vida de cidadãos anônimos, carros e os aparatos luxuosos dos muito ricos, que essa euforia cativa o leitor, resgatando-o da literatura existencialista sombria e comparativamente inerte que se fazia até pouco tempo antes dele. Bellow se tornara ágil e profundo como as sinfonias e concertos de Mozart. Suas frases são curtas, seus personagens, apesar de super-cerebrais, são entidades que acreditam na realização do impossível que há por debaixo da trivialidade cotidiana, lançando-se em aventuras que sempre estão na contramão do manual de Wall Street sobre sucesso financeiro. São ingênuos intelectuais de Q.I. altíssimos que estão nas mãos de beldades femininas dominadoras e esquizofrênicas, de gângsters que usam os ternos mais caros e depredam Mercedes com tacos de beisebol, e que são tão jocosamente grotescos que os seguram pelos braços enquanto fazem suas necessidades em banheiros públicos. Bellow abraçou a heresia de não se deixar influenciar diretamente por nenhum dos grandes escritores canônicos, nem Thomas Mann, nem Kafka, nem Faulkner, nem Joyce. Apesar de seus dois primeiros romances serem expressões de suas leituras de O Processo e Metamorfose, quando finalmente alcança seu estilo independente, é a  vigorosa natureza espontânea  dos poetas beats, dos escritores marginais da contracultura, dos autores de policiais noir urbano, que se vê em seus livros. Como um empresário que domina com total controle desde a linha de produção, as cores da propaganda que agradam ao público, até a venda sedenta do produto acabado, Bellow entregava ao mercado editorial romances em que escrevia o que queria, contra o que queria, e eles vendiam milhões de exemplares. Herzog, uma de suas cinco ou seis obras-primas, por exemplo, renova o gênero do romance ensaio e fica por 54 semanas encabeçando a lista dos best-sellers do New York Times.

Quando da espera de que a Academia Sueca notificasse o prêmio de literatura de 1976, vários jornalistas se posicionaram diante a casa de Jorge Luis Borges, pois era fato consumado que aquele ano o Nobel seria dele. Saiu para o Bellow. Perguntado o que achava dessa decisão, se era algo injusto, Borges respondeu que não poderia avaliar, pois nunca tinha lido o laureado. Essa afirmação só conta como demérito para a vasta cultura livresca do grande argentino. Alguém que já havia traduzido boa parte da produção de Faulkner para o espanhol, e que por muitas vezes fizera resenhas que evidenciavam sua admiração por Faulkner, desconhecer o único sucessor à altura do autor de O Povoado, era uma brecha vazia em sua vida de leitor profissional.

Bellow, como escreveu Philip Roth, no indispensável Entre Nós, alternava seus romances entre os que mostravam sua veia extrovertida, expansiva e exuberante (desculpem a aliteração), e os que mostravam seu lado introspectivo e filosoficamente desencantado com o mundo. Na linha dos primeiros, temos As Aventuras de Augie March, O Legado de Humboldt, Trocando os Pés pelas Mãos, Henderson, o Rei da Chuva; enquanto entre os últimos, temos O Planeta do Sr. Slammer, Herzog (que tanto pode ficar entre os primeiros quanto entre os segundos), A Mágoa Mata Mais, e Dezembro Fatal.


Bellow certa vez escreveu que todos os grandes livros são esotéricos. Suas análises deslumbrantes sobre a América espiritualmente decadente e promíscua, que recheiam seus romances, mostram que era não só o maior escritor em língua inglesa da metade final do século passado, como o mais independente. Numa época em que dizer-se ateu ou agnóstico, apegado aos milagres da Ciência, é um dever dos intelectuais, Bellow falava que as certezas produzidas por nosso pensamento tão limitado a essa faixa da existência nunca o convenceram. O inesquecível sr. Sammler, em um de seus maiores livros, um judeu exilado na vida moderna de Nova York, sobrevivente de um campo de concentração, desiludido e cético quanto às crenças iluministas da superioridade humana, se compraz a ler, diariamente, na biblioteca municipal, o mesmo trecho do frade medieval Meister Eckhart, sobre os pobres de espíritos abençoados por Deus. "O Sr. Sammler não podia dizer que literalmente acreditava em tudo o que estava lendo. Podia, porém, dizer que não desejava nenhuma leitura a não ser aquela", Bellow escreve.


Cada livro de Bellow passa essa sensação, de se estar lendo algo muito moderno e assimilável, mas de que, na verdade, vem de uma mente para a qual a última palavra sobre as coisas ainda está longe de ser dita, de um senhor indignado com o rumo que a situação humana tomara e que só aparenta estoicismo, de uma alma antiga, em suma.

"E tudo isso deverá continuar. Simplesmente continuará. Haverá mais seis bilhões de anos de vida da humanidade. Chega a paralisar o coração o contemplar tamanhas cifras. Seis bilhões de anos antes que o Sol venha a explodir. Seis bilhões de anos. E o que será de nós? Das outras espécies e de nós? Como chegaremos àquele fim? E quando tivermos de abandonar a Terra para seguir em direção a outro sistema solar, que dia mais portentoso será esse! Mas, então, a espécie humana terá se tornado muito diferente, pois a evolução continua. Olaf Stapleton calculou que cada indivíduo do futuro viverá milhares de anos. A pessoa do futuro, de tamanho colossal, seria de um lindo colorido verde, com uma mão que terá evoluído, transformando-se numa espécie de caixa de instrumentos, ferramenta forte e sutil, o polegar e o dedo indicador capazes de exercer uma pressão de milhares de libras. Cada intelecto pertenceria a uma maravilhosa, analítica e coletiva mente, estudando e resolvendo seus problemas matemáticos e físicos, participando de um todo sublime. Seria uma raça de gigantes semi-imortais, esses nossos verdes descendentes, parentes e aparentados, levando, porém, em si, inevitavelmente, alguma forma das nossas amargas características, tanto como dos nossos poderes espirituais. A revolução científica estava apenas com trezentos anos. Como ficaria dentro de um milhão ou um bilhão de anos? E Deus? Continuaria escondido, mesmo entre irmãos poderosos no espírito, continuaria fora de alcance?"
                                ( O Planeta do Sr, Sammler, p. 186, tradução de Denise Vreuls, editora Abril)