segunda-feira, 13 de setembro de 2010

2666, de Roberto Bolaño

                                                                                                             Para Fernanda Guo


Considerando que o romance 2666 tenha essa grandeza representativa que alguns livros possuem para estabeler um painel psicológico da época e da geografia a que pertencem, essa caudalosa e sombria ficção produzida por Roberto Bolaño no fim de sua vida pode figurar como o enfeixe a três outros romances também não tão felizes sobre nossa realidade latinoamericana. Apesar dos tantos equívocos que estão sendo ditos sobre 2666 _ sobre o que tornou-se uma convenção dos que não o leram, dizer que padece de ilegibilidade, ou, curiosamente, o extremo oposto de compará-lo à literatura de Dan Brown _, a visão mais clara é que ele é um prosseguimento da narrativa da derrocada espiritual da América Latina numa espécie de modernidade imposta sobre ela de cima para baixo, fato antecipado pelos romances "O Senhor Presidente", de Miguel Angel Asturias, "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Marquez, e "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar. Nesse sentido, apesar de uma das facetas de autopromoção de Bolaño ter sido a de diminuir a importância dos escritores do boom, ele não faz outra coisa que dar sua substancial contribuição a esses predecessores, desencavando essa porção de terra da inércia da dominação e trazendo-a à luz de uma revelação sem eufemismos. No romance de Miguel Asturias vemos a ditadura patriarcalista em toda sua nudez ostensiva, os assassinatos promulgados em seu nome, o silêncio rigorosamente imposto sobre a população subjugada, a opressão crua contra a qual não havia ainda um nivel possivel de reação por parte dos não conformados. Já em "Cem Anos de Solidão", Garcia Márquez, apreendendo a primeira lição lançada pelo guatemalteco, vai além, criando uma mítica para que o latinoamericano possa reconhecer-se nela como um povo, com todas as suas idiossicrasias heróicas, os seus orgulhos, paixões e derrotas _ ainda mantendo o travo principal da dominação que o norte-americano ou o europeu impunha sobre nós, mas alargando o direito de fazermos dos atributos da discriminação as características de uma personalidade étnica própria. É em García Márquez que encontramos o elemento dissidente, não pela primeira vez, mas com a coragem de alçar-se à legitimidade literária de um Dom Quixote, sem culpa e sem a necessidade de rebaixar-se ao caricaturesco. Uma outra visão errada sobre 2666 é a de que ele rompe com o dogma regionalista dos escritores do boom, levando a narrativa para cenários urbanos estrangeiros e utilizando técnicas de escrita cinematográficas da moda, do noir americano ao relato da segunda guerra, o que me faz pensar que diabos de infelizes são esses teóricos literários por não poderem abdicar de uma profissão martirizante da qual não tem o mínimo talento, e passarem para ocupações mais condizentes de mecânica de automóveis ou ascensoristas de motel. Na literatura sofisticada dos representantes do boom, o possível regionalismo se encaixa com mérito ao universal tolstoiano, e Bolaño seria um desequilibrado se tentasse escapulir do fantasma da influência por essa brecha.

É outro mérito de Bolaño não parecer-se com nenhum desses escritores, ter uma musicalidade, um enfoque e uma subjetividade que não remetem à identificação com essas fontes diretas. O terceiro romance citado acima, "O Jogo da Amarelinha",  consolida essa distância. Cortázar, que poderia ser apontado _ inclusive por mim _ como um escritor de recursos muito superiores aos de Bolaño, sob a ótica de que seu papel de trabalhador contínuo de fazer o ultra-som da América Latina antecipa o prosseguimento lógico da obra do chileno, os tornam com a mesma equivalência canônica, o mesmo valor de criadores genuínos. No romance de Cortázar, "O Jogo da Amarelinha", um passo a mais é dado além do limite traçado por García Márquez. Cortázar nos dá o direito de sermos intelectuais, seleciona uma série de personagens deportados para encarnar a nossa progenitura do Pensamento, nos eleva à condição de homo pensandis. Podemos aceitar sem vergonha que nossos diálogos foram promovidos ao nível do debate político e da busca filosófica, sem termos o peso de consciência de que devemos desculpas por essa ousadia de índios que esquecem que seu destino social é apenas a buginganga e tudo relacionado a ela. E Cortázar, na suprema cara-de-pau de mostrar que não estava para brincadeira, corajosamente acrescenta um adendo ousado à nossa fórmula do pensar: o humor anárquico. Como se não bastasse o esnobismo de subdesenvolvidos com volumes de Adorno debaixo dos braços, esses índios pós-colombianos com os pés atolados no chorume da banana querem ser engraçados, não os piadistas que têem em Groucho Marx ou nos três patetas a memória do riso, mas querem ser engraçados de uma maneira excêntrica, imaginando como seria se Kant saltasse por sobre a mesa e dançasse um fandango, ou se Plank se lançasse a um longo desafio de trocas de achacalhamento com Cyrano de Bergerac. Por isso, na lucidez de ser um instrumento de continuação da confecção do grande mural da verdade latino-americana, Bolaño sabia que não poderia ser engraçado. Cortázar já havia esgotado essa opção.

2666 é o prosseguimento desses três grandes retratos cronológicos da América Latina, mantendo-se original e independente, e, ao mesmo tempo, coerente com o andamento do passado. Não é um romance policial, apesar da maior seção de suas cinco partes ser uma coletânea em ritmo jornalístico dos quase infinitos assassinatos de mulheres na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Não é um romance sobre estrangeiros que, em maior ou menor grau, se relacionam com a América espanhola, mesmo a maioria quase absoluta de personagens sendo de americanos e europeus. O enigma a que o romance se propõe a ser está mais embaixo. Não é um romance sobre loucura, como dá a acreditar a já antológica cena da segunda parte, do livro de matemática pendurado de páginas viradas para baixo no varal, soprado pela beleza aleatória do vento, obra emulada pelo professor Amalfitano de um dos rascunhos de DuChamp. Ou, que seja, simula ser cada uma dessas coisas apenas pelo artifício obrigatório de prender o leitor ao sabor de seus interesses mundanos, mas, nas camadas mais profundas, faz seu serviço de encher de luz o panorama atual da América Latina de García Márquez, Astúrias e Cortázar, para mostrar ao leitor a derrocada de volta a uma estaca zero.

 2666 é uma súmula nada elogiosa sobre o horror da América Latina. Levei muito tempo para descobrir isso: precisamente a leitura de todos os outros romances de Bolaño antes de chegar a esse. Em uma resenha que escrevi sobre "Estrela Distante", para o blog do Milton Ribeiro, meu mote principal foi condenar a total falta de fé de Bolaño, sua "rendição", sua secura, sua abstinência voluntária a todas as nuances da escrita. Abria mão da filosofia, da poética, do humor. Era ostensivamente vazio e objetivo, como as fotos de um tratado sobre sarcomas. Com 2666 eu compreendi que ele não poderia ser de outra maneira. Que talvez essa imposição a qual se submetera em nome da fidelidade à sua missão de dar sequência a um espólio, o tenha feito sofrer sob o peso da disciplina. Sua razão artística e sua legitimidade, o que o tornava justificável como escritor, era essa frieza. Como todo prosseguidor que tem algo de valor a dizer, assumia sua condição de antípoda em relação a seus antecessores. Tinha de destruir toda a mítologia de García Márquez, a poética joyceana de Astúrias, a inteligência, a cultura e o humor de Cortázar, para, em contrapartida, reafirmar todas essas características, asseverando que a América Latina de hoje não comporta mais tais molduras. A América Latina de Bolaño é uma espécie de Macong conradiano, uma terra sem lei, de extrema violência, uma terra que, no dizer de "Estrela Distante", nunca estaria pronta para a poesia. Daí o tema recorrente nos seus romances da procura por uma poeta ou por um escritor desaparecido, ou as figuras distorcidas nas quais se juntam como numa caricatura grotesca o paradoxo da escrita e do assassinato, do esclarecimento e do irracional: a busca por uma utopia romântica para a qual o desespero da não aceitação leva seus detetives selvagens para onde as miragens do sonho desaparecem sem vestígios, no deserto, ou contra os sólidos muros da cidade.

Borges, num de seus memoráveis prefácios, lembra o que disse um crítico sobre o romance "O Morro dos Ventos Uivantes": não se engane achando que o cenário do romance é a Inglaterra vitoriana; ele na verdade se passa no inferno. O mesmo se pode dizer de 2666. Todo ele se passa no inferno, mas no esteriótipo de um inferno onde as semelhanças com a América Latina são mais que coincidentes. Só um latinoamericano pode perceber plenamente isso. Por isso, 2666 é a grande denúncia sobre a prostração espiritual dessas américas. A denúncia do quanto o coronel Buendía, o Cara de Anjo, e os exilados mannianos superinteligentes de Cortázar fracassaram diante a bestialização do cotidiano político de uma região que nunca teve mais que simulações mal arranjadas de redenção. Nesse romance inacabado no qual Bolaño conseguiu dizer tudo que queria, o chileno se aproxima de outro importante escritor caribenho, o índo-britânico V.S.Naipaul, para quem a América Latina ainda está distante de se livrar de sua sina de colônia atrasada, vítima do embasbacamento conivente com as mesmas formas de poder que apenas trocam de roupagem para falsear uma mudança, sofrendo sob a violência e o assassinato. Uma América para a qual não só a poesia é inacessível, mas qualquer forma de esclarecimento iluminista.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Someone's knockin' at the door/ Somebody's ringin' the bell

Júlio Cortázar


Grafite


(traduzido por Ana Amelia )


A Antoni Tàpies




Tantas coisas que começam e talvez terminam como um jogo, suponho que te fazia graça encontrar o desenho ao lado do teu, atribuíste-o a uma casualidade ou a um capricho e só na segunda vez te deste conta de que era intencional e então olhaste-o com atenção, inclusive voltaste mais tarde para olhá-lo de novo, tomando as precauções de sempre: a rua em seu momento mais solitário, nenhuma viatura nas esquinas próximas, se aproximar com indiferença e nunca olhar o grafite de frente mas do outro lado da calçada ou em diagonal, fingindo interesse pela vitrine ao lado, indo-te logo em seguida.

Teu próprio jogo havia começado por tédio, não era realmente um protesto contra o estado de coisas na cidade, o toque de recolher, a proibição ameaçadora de colar cartazes ou escrever nas muros. Simplesmente te divertia fazer desenhos com giz de cores (não gostavas do termo grafite, muito de crítico de arte) e de quando em quando voltar para vê-los e até com um pouco de sorte assistir à chegada do caminhão municipal e aos insultos inúteis dos empregados enquanto apagavam os desenhos. Pouco importava que não fossem desenhos políticos, a proibição abrangia qualquer coisa, e se algum menino tivesse se atrevido a desenhar uma casa ou um cachorro, eles o teriam igualmente apagado entre palavrões e ameaças. Na cidade já não se sabia muito de que lado estava verdadeiramente o medo; talvez por isso te divertia dominar o teu e de tempos em tempos eleger o lugar e a hora propícios para fazer um desenho.

Nunca havias corrido perigo porque sabias escolher bem, e no tempo transcorrido até a chegada dos caminhões de limpeza se abria para ti algo como um espaço mais limpo onde quase cabia a esperança. Olhando de longe teu desenho podias ver a gente que dava uma olhada ao passar, sem dúvida ninguém se detia mas ninguém deixava de olhar o desenho, às vezes uma rápida composição abstrata em duas cores, um pefil de pássaro ou duas figuras enlaçadas. Uma só vez escreveste uma frase, com giz preto: A mim também me dói. Não durou duas horas, e desta vez a polícia em pessoa a fez desaparecer. Depois somente continuaste fazendo desenhos.

Quando o outro apareceu ao lado do teu quase tiveste medo, de chofre o perigo voltava em dobro, alguém se animava como tu a divertir-se à beira do cárcere ou algo pior, e esse alguém além de tudo era uma mulher. Tu mesmo não podias prová-lo, havia algo de diferente e melhor que as provas mais convincentes: um traço, uma predileção por tons quentes, uma aura. E como andavas sozinho imaginavas uma mulher por compensação; tu a admiravas, tiveste medo por ela, esperaste que fosse a única vez, quase te denunciaste quando ela voltou a desenhar ao lado de outro desenho teu, uma vontade de rir, de ficar ali parado como se os policias fossem cegos ou idiotas.

Começou um tempo diferente, mais sigiloso, mais belo e ao mesmo tempo ameaçante. Descuidando do teu trabalho saías a toda hora com a esperança de surpreendê-la, escolheste para teus desenhos essas ruas que podias percorrer rapidamente num único itinerário; voltaste à aurora, ao anoitecer, às três da manhã. Foi um tempo de contradição insuportável, a decepção de encontrar um novo desenho dela junto a algum dos teus e a rua vazia, e a de não encontrar nada e sentir a rua ainda mais vazia. Uma noite viste seu primeiro desenho sozinho; havia-o feito com gizes vermelhos e azuis numa porta de garagem, aproveitando a textura das madeiras carcomidas e as cabeças dos pregos. Era mais do que nunca ela, o traço, as cores, mas além disso sentiste que este desenho era como um pedido ou uma interrogação, uma maneira de te chamar. Voltaste à aurora, depois que as patrulhas rarearam no seu surdo escoamento, e no resto da porta desenhaste uma rápida paisagem com velas e quebra-mares; ao olhá-lo bem diria-se um jogo de linhas ao acaso, mas ela sabia olhá-lo. Esta noite escapaste por pouco de uma ronda da polícia, no seu apartamento bebeste gim e mais gim e falaste com ela, disseste tudo o que vinha à boca como outro desenho sonoro, outro porto com velas, imaginaste-a morena e silenciosa, escolheste para ela lábios e seios, quiseste-a um pouco.

Quase em seguida te ocorreu que ela buscaria uma resposta, que voltaria ao desenho dela como voltavas agora aos teus, e mesmo que o perigo era cada vez maior depois dos atentados no mercado atreveste a aproximar-te da garagem, a rondar pela manhã, a tomar intermináveis cervejas no café da esquina. Era absurdo porque certamente ela não pararia ao ver teu desenho, qualquer uma das mulheres que iam e vinham podiam ser ela. Ao amanhecer do segundo dia escolheste um paredão cinza e desenhaste um triângulo branco rodeado de manchas como folhas de carvalho; do mesmo café da esquina podias ver o paredão (já haviam limpado a porta da garagem e uma patrulha voltava e voltava raivosa), ao anoitecer te distanciaste um pouco mas escolhendo diferentes pontos de vista, deslocando-te de um lugar a outro, comprando qualquer coisa nas lojas para não chamar muito a atenção. Já era noite cerrada quando ouviste a sirene e os projetores te varreram os olhos. Havia um confuso amontoamento junto ao paredão, correste contra toda sensatez e só o acaso te ajudaste, um automóvel virando a esquina e freando ao ver a viatura te protegia e viste a luta, um cabelo preto puxado por mãos enluvadas, os pontapés e os alaridos, a visão entrecortada de uma calça azul antes que a jogassem no carro e a levassem.

Muito depois (era horrível tremer assim, era horrível pensar que isso acontecera por culpa do teu desenho no paredão cinza), te misturaste com as outras pessoas e pudeste ver um esboço em azul, os traços desse laranja que era como seu nome ou sua boca, ela toda nesse desenho truncado que os policiais haviam borrado antes de levá-la. Tinha ficado o bastante para compreender que ela havia desejado responder ao teu triângulo com uma outra figura, um círculo ou quem sabe uma espiral, uma forma cheia e formosa, algo como um sim um sempre ou um agora.

Sabias muito bem, te sobraria tempo para imaginar os detalhes do que estaria se passando na prisão central; na cidade tudo isso transpirava pouco a pouco, as pessoas estavam a par do destino dos prisioneiros, e se às vezes voltavam a ver alguns deles, preferiam não os ver como a maioria das pessoas se perdiam nesse silêncio que ninguém se atrevia quebrar. Já sabia e muito, essa noite o gim não te ajudaria mais que morder-te os punhos, a pisotear os gizes de cor antes de te perder na embriaguez e no pranto.

Sim, mas os dias passavam e já não sabias viver de outra maneira. Voltaste a abandonar o teu trabalho para dar voltas nas ruas, olhar furtivamente as paredes e as portas onde ela e tu haviam desenhado. Tudo limpo, tudo claro; nada, nem sequer uma flor desenhada pela inocência de um colegial que rouba um giz na classe e não resiste ao prazer de usá-lo. Tampouco pudeste resistir, e um mês depois te levantaste ao amanhecer e voltaste à rua da garagem. Não havia patrulhas, as paredes estavam perfeitamente limpas; um gato te olhou cauteloso em cima de um portão quando sacaste os gizes e no mesmo lugar, ali onde ela havia deixado seu desenho, encheste a madeira de um grito verde, uma labareda vermelha de reconhecimento e de amor, envolveste teu desenho com uma oval que era também tua boca e a dela e a esperança. Os passos na esquina te lançaram a uma corrida silenciosa, ao refúgio de uma pilha de caixotes vazios; um bêbado vacilante se aproximou titubeante, quis pisar no gato e caiu aos pés do teu desenho. Partiste lentamente, já seguro, e com o primeiro sol dormiste como não houveste dormido em muito tempo.

Essa mesma manhã olhaste de longe: ainda não o haviam apagado. Voltaste ao meio-dia: quase inconcebivelmente continuava ali. A agitação na periferia (havias escutado os noticiários) afastava as patrulhas urbanas de sua rotina; ao anoitecer voltaste a vê-lo como tanta gente o havia visto ao longo do dia. Esperaste até as três da manhã para regressar, a rua estava vazia e negra. De longe descobriste o outro desenho, somente tu poderia tê-lo distinguido tão pequeno no alto à esquerda do teu. Aproximaste com algo que era sede e horror ao mesmo tempo, viste a oval laranja e as manchas violeta de onde parecia saltar um rosto tumefato, um olho pendente, uma boca consumida por socos. Já sei, já sei, mas que outra coisa poderia te desenhar? Que mensagem teria sentido agora? De qualquer maneira teria que te dizer adeus e te pedir para continuar. Algo teria que te deixar antes de me voltar a meu refúgio onde não havia espelho algum, somente um espaço onde me esconder até o fim na mais completa obscurdidade, recordando tantas coisas e às vezes, assim como havia imaginado tua vida, imaginando que fazias outros desenhos, que saías à noite para fazer outros desenhos.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Música e Literatura

Aos eventuais visitantes deste blog, peço desculpas pela ausência desses últimos dias. É que acompanho minha esposa nos exames de rotina no obstetra, e presumo que isto ainda ocupará meu tempo por toda essa semana. Tentei desenvolver algumas ideias por escrito, ao correr da espontaneidade vigiada, como me é de praxe, mas estou exausto. O trânsito, os elevadores, os franelistas, o calor, os aviões passando, as novas alterações do sentido das ruas de uma velha capital por muito tempo não visitada, tudo isso me esgota ao final do dia como se na verdade eu fosse aquele estivador das putas do cais do porto, da canção. Mas para mostrar que não esmoreci, levanto a cara do colchão, e com os costumeiros dois dedos cheios do vício da digitação nunca aprendida, escrevo esse prólogo a mais um comentário postado por mim, no blog do Milton Ribeiro. Procês verem: não tive ânimo nem de folhear as duas maravilhas adquiridas hoje, do Júlio Cortázar (Último Round, e Volta ao Dia em Oitenta Mundos), que, contudo, me deixaram com a comichão de desenvolver um texto provando que o genial argentino foi, sem o saber, o primeiro blogueiro. Segue a reprodução do comentário.


Também acho que a música é a mais superiora das artes; mas, solitária, sem as outras que dependem dela, tornaria-se vazia e perigosa. Se a ânsia humana por indagação tivesse parado nas sonatas para flauta e cravo de Bach (que eu as amo apaixonadamente), esses exercícios de floreamento matemático ultra-rápido e densamente compressivo de insinuações espirituais teria se reduzido ao que um cantor sertanejo do naipe do Eduardo Costa a entenderia: uma dura provação de estranha música natalina funesta, desgraçadamente chata (que minha esposa, uma curtidora iconoclasta cujo passatempo preferido é tentar torrar minha inexpugnável paciência, diz ser tema para enterro do papai noel_ ela também adora gritar lá da cozinha, quando ponho pra tocar o solo de trumpete rasgado do Pat Mepheny na canção com o BB King, “Guess Who”: “Sooolta o gato!!!”) . Mas, quando adolescente ainda, tive contato pela primeira vez com uma dessas sonatas, de madrugada, após ter chegado de uma festa emocionalmente frustrante, ouvindo-a como uma premonição pela rádio universitária, como se um flautista realmente tivesse decidido cumprir a antiguissima imagem mais poética do mundo e subiu para o telhado para tocar para a cidade adormecida.

Daí percebi que não podia mais viver sem aquilo, que aquilo me definia, pela extrema angústia que senti, e pela extrema alegria de saber que zonas extraterrenas assim podiam ser alcançadas, e que tudo pairava abaixo daquele telhado na devida forma irretocável da passagereidade de todas as coisas_ todas as coisas que não fossem aquela intuição espiritual inadmissível e ainda assim (nesse lastro de oxímoros e contradições a absurdos plausíveis que a música consegue provocar) perfeitamente reconfortante. Pois quando ouço Bach, Beethoven, as conflagradoras e impossíveis partes finais de “Pictures at an Exhibition” e “Firebird” (que minha esposa, tocada, me encheu de amor um dia ao, em estado de trégua, ter dito que ambas pareciam a festa de celebração por uma cidade resgatada) tenho uma certeza divina (que é outro assunto e não quero atiçar tendências).

Há músicas que me fazem fechar os punhos e pensar, absolutamente surpreso e tomado da mais virulenta das vinganças: “Mas nada pode com nós, porra!”. Lembro de Alex Ross escrever que após as complicadas pautas de criação do que estava se tornando a música minimalista norte-americana, gente como Steve Reich e Arvo Part, saíam do academicismo extremado das universidades para aprender com os solos de meia hora de John Coltrane, no Note Blue e outros bares de jam. E meu disco preferido de Coltrane é um gremlin que eu me iludo só eu ter, por tê-lo encontrado no fundo de um sebo escuro, que tem uma versão exorcista ao vivo de 17 minutos de “My Favorite Things” que meu filho de quase um ano adora ouvir quando a coloco no último volume; e que para mim é um mantra que resume uma luta primordial, tanto da humanidade afundada em crônico desespero nas tentativas de se superar, quanto de Coltrane para angariar de deus a evaporação do grande tumor que lhe comia o fígado. (Uma versão que minha esposa disse_desta vez por eu ter-lhe perguntado o que parecia_ ser o lamento apaixonado de um jegue; que eu, veterinário, adorei!)

E daí que a literatura se coliga à música. Os maiores livros são distúrbios calibrados de música, apanhados organizados de música. Não diria isso que mencionas no post sobre Faulkner, que ele pode ser uma escala determinante de excelência na escrita. E tampouco acho que Bernhard tenha algo a ver com Kafka (se o tal austríaco a que você se refere trata-se do autor de Extinção). Ambos possuem uma qualidade raríssima entre escritores: criaram um universo particular, para poucos, o qual ascende-se bem acima da superfície mundana. São similares em esoterismo alienígena a Bach, porque compactuo de Bellow a crença de que os grandes livros são esotéricos.

Nas últimas páginas de “Origem”, Bernhard, após narrar todas as angustiosas tentativas de se curar da doença fatal dos pulmões que lhe acometia, recebe a informação de que nada pelo qual passou havia surtido efeito; que teria que trafegar novamente por todos os centros cirúrgicos para corrigir seu pneumotórax, e se internar em todos os asilos nos quais já havia se internado, por longos períodos. Daí ele sai pela porta do hospital em direção ao mundo, para sempre_ ele ressalta: para sempre! Não iria se importar mais…

No romance “Dezembro Fatal”, de Saul Bellow, o personagem principal, um deão de universidade isolado na Romênia, à espera de que as autoridades revolucionárias liberem o corpo de sua sogra, relembra o que certa vez ouvira num metrô de Londres: “Nada existe por nada ser realmente absurdo para existir”. Era um velho cavalheiro inglês que havia sido ateu a vida toda que o dissera, e que concluía: “Talvez, então, Deus exista!”

Grandes escritores, não grandes livros_ talvez! Faulkner disse que se vivessemos quatrocentos anos, Dostoiévski, Cervantes, já teria dito tudo que ele dissera, o tornando obsoleto. Tenho a íntima convicção de que os grandes músicos e escritores sejam perseguidores, que margeiam o limite impossível, sem nunca o adentrarem. A entrada só seria possível num outro grau de evolução, num outro coeficiente perceptivo, num outro merecimento espiritual.

sábado, 4 de setembro de 2010

Homo ridens

Por natureza e por pressão das circunstâncias sempre fui um cara muito bem humorado. Minha esposa diz que eu excedo, muitas vezes. Gosta de contar às amigas fatos isolados que dá um nó na cabeça das coitadas para imaginar alguma graça por detrás da minha aparência temível. Seu preferido foi um dia que fomos comemorar nossa data de casamento em um restaurante italiano, em que comprei um vinho do porto e entrei na frente dela, que levava a garrafa, e fui direto ao garçom perguntar: essa moça pode entrar com essa garrafa? Na juventude passava horas inventando piadas de gago para antecipar-me aos colegas. O humor como sobrevivência. Quando trabalhava num cartório me impus um dia do começo ao fim de estóico humor para aguentar o tédio, e na primeira hora, quando caminhava para o trabalho todo fornido sob a pressão de me manter leve, um bezerro que estava na gaiola de uma caminhoneta estacionada (que desde a esquina distante vinha me encarando em desafio) me taca uma bostada na cara assim que passo por ele. Havia um sem número de pessoas sentadas em frente à casa, e todos caíram na gargalhada. Eu, com o firme propósito na cabeça, fiz que nem foi comigo, a bosta verde lustrosa e de uma beleza surrealista escorrendo pelo meu pescoço até a camisa. Entrei no cartório, cumprimentei os colegas, me juntei ao grupinho do café dividindo as impressões do fim de semana, todos boquiabertos e se entreolhando espantados sem dizer nada, e eu rindo e sendo o mais cordial possível, com aquela excrescência secando na cara. O humor sempre me pareceu assim, uma região solitária, onde você assume a coragem de se revelar por inteiro sem medo: você não quer competir porque observa tudo de uma altura que dá a devida medida ridícula das coisas.
                   
 

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Someone's knockin' at the door/ Somebody's ringin' the bell

Walt Whitman 





Quando Analiso a Conquistada Fama
Quando analiso
a conquistada fama dos heróis
e as vitórias dos grandes generais,
não sinto inveja desses generais
nem do presidente na presidência
nem do rico na sua vistosa mansão;
mas quando eu ouço falar
do entendimento fraterno entre dois amantes,
de como tudo se passou com eles,
de como juntos passaram a vida
através do perigo, do ódio, sem mudança
por longo e longo tempo atravessando
a juventude e a meia-idade e a velhice
sem titubeios, de como leais
e afeiçoados se mantiveram
— aí então é que eu me ponho pensativo
e saio de perto à pressa
com a mais amarga inveja.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

No Estômago da Baleia

No meu último ano de curso de veterinária não sabia ainda a qual área iria me dedicar. Eu gostava de tudo, embora uma isca de lucidez me poupasse dos ares aristocráticos da eqüinocultura e do monastério vocacional do estudo dos animais silvestres. Para escolher onde passar os seis meses de estágio, caí na sedução do sobrenome russo de um professor recém chegado à universidade, um senhor corpulento, alto, de olhos azuis e grande barba catedrática que destoava do ambiente campesino, muito parecido com Turgueniév e que era a maior sumidade nacional em suinocultura. De malas prontas, desembarquei numa das maiores granjas de suíno do centro-oeste, acolhedoramente rústica e descomplicada, onde os funcionários já estavam acostumados a estagiários para não se incomodarem comigo. Passava a maior parte do tempo no assim chamado berçário da granja, olhando com o cenho franzido de científica seriedade os leitõezinhos quando o coordenador estava por perto, e me agachando ao lado das baias suspensas para que esses animaizinhos excessivamente curiosos me procurassem colocando as cabecinhas apoiadas na grade, quando não havia ninguém. O cheiro dos animais era forte, imponente, e não precisava de muito tempo para que me familiarizasse com ele e o achasse cheio de um reconfortante poder harmonizador. Se algo perfurasse aquele sólido bloqueio aromático, os suínos já não dormiam, ficavam afoitos e desconfiados. Recordo-me que um dos funcionários amigo meu, enquanto dois outros homens e eu auxiliávamos o cachaço a se sustentar sobre as patas traseiras por sobre a fêmea, todos nós segurando o seu desamparado pênis com a glande rosa exposta para pó-lo na vagina da fêmea, tirou uma foto Polaroid desse evento e a colocou no mural do refeitório, com os dizeres abaixo: “Isto não é uma suruba?”.

Nos últimos três meses passei do idílio do sistema de criação para o estágio final de trabalhar no matadouro contíguo à granja. Eu não era burro o suficiente para nunca ter feito a conexão óbvia do destino desses animais, mas mesmo assim, já no primeiro dia na sala de matança, tive que mudar a composição da monografia que vinha escrevendo. Tinha que abri-la da inércia cega do manejo e das descrições biológicas para acolher as estatísticas financeiras, a aferição da média de ganho de peso, a descrição das características das carcaças, a conversão da ração em centímetros de gordura. Nada nos prepara para o que acontece em um matadouro; nenhum filme, nenhuma memória pretensamente resgatada de nosso longínquo passado de caçadores_ e não há matadouro onde a violência genuína se desacoberte de forma tão crua e brutal de sua aparência de assepsia e eufemismo técnico do que um que mata suínos. Li em algum lugar que outra razão dos patriarcas judeus proibirem o consumo de carne de porco, além da erradicação das doenças provenientes da má conservação da carne branca, era que, à diferença das vacas e dos carneiros, o porco sabe que esta sendo conduzido para a morte. E não haveria como um rabino providenciar os rituais de um abate kosher de um porco de uma maneira que dignifique a carne como um oferecimento semivoluntário do animal. O suíno expressa com todo desespero que não quer morrer. Ele não fica em prontidão na fila do corredor diante o boxe de abate, esperando alheadamente a sua vez no sacrifício: ele tenta escapar, esperneia, revira o corpo, grita. Não há nenhum tipo de pudor na morte de um suíno. É a mais completa decepção do desejo humano de que o animal a ser abatido se abnege de sua vida com hombridade. O promotor que diante o tribunal do júri salienta que o assassino matou a vítima de forma humilhante e indefesa, tal qual a um porco, faz justiça à imagem.

O repúdio que eu sentia me deixava constantemente deprimido. Não era a questão tola de ter feito amizade com os suínos os quais eu era obrigado a acompanhar até a morte; a eficiência determinista que os condiciona a terem um curto período de vida anula qualquer afloramento de afeição. Mesmo com os simpáticos leitõezinhos era impossível dar a algum um nome e promove-lo a escolhido, pois a cada dia tudo mudava: a máquina, calibrada com precisão, tirava da natureza, numerava, dava uma insípida ração que o enchia e estufava por dentro, e o concluía no produto para consumo com a insuspeita e bem sucedida mudez de que ali havia uma vida, expurgada com incrível carga de sofrimento. Era um estágio novo da domesticação, um outro significado da palavra: não mais a domesticação cúmplice à vida do homem, caseira e terna, mas a ultramoderna despersonalização absoluta. Os animais de uma granja são absolutamente semelhantes entre si. De uma brancura angelical, com o mesmo peso. Não há uma mancha de nascença, um formato desigual de orelha que revele o traço distintivo. Entre dois cães labradores gêmeos há o detalhe idiossincrático da inteligência e vivacidade, entre os dez suínos paridos de uma mesma leitoa e monitorados até a sua conversão em produto, há apenas a tediosa igualdade do laboratório genético na qual já vem estampado o rótulo da morte. A propaganda é fazer crer que se incluíram em alguma espécie de botânica, cuja flor de pureza se abre para oferecer a imaculada carne vegetal. 

O repúdio vinha da mente à busca de esclarecimento. Num dos relatórios quinzenais que eu enviava ao dr. Turgueniév, relatei que não se fazia ali o procedimento de atordoamento dos animais, previsto nos códigos de abate, como o eletrochoque ou o uso permissivo da marreta. Isto é: matavam-se os suínos sem dar-lhes o lenitivo do desmaio, o que os pouparia da dor (também isso se explicando pela razão financeira de diminuir o stress e tornar a carne mais macia). Pendurava-se o animal de cabeça para baixo vivo, e o sangrava, não sendo raro que durante a morte lhe sobreviesse a agonia do engasgamento com o próprio sangue. O dr. Turgueniév não esperou para me responder por escrito; pelo telefone da granja eu tive que ouvir sua voz infantilizada me passar a maior bronca: como eu demonstrava tamanha ingratidão escrevendo aquelas barbaridades ofensivas, tendo sido tão bem recebido pela empresa? Enquanto passei a escrever desde então apenas cifras, avaliava as coisas que só interessavam ao meu frágil espírito de contradição, ao meu romantismo afeminado, à minha cegueira canhestra quanto ao nosso direito de extermínio por estarmos no topo da evolução. Enquanto confeccionava pelo computador os gráficos de rendimento de carcaça, de fertilidade da fêmea, enquanto repassava as taxas de fecundação conseguidas pelos machos, me vinha à mente um outro tipo de descoberta sobre os matadouros. Um ouvido levemente treinado na música do século XX sabe que ela deve muito à estética dos sons produzidos dentro das áreas do matadouro. Quando se escuta o som incrivelmente abrangente da caldeira aquecendo a água onde os suínos serão lançados para a retirada dos pelos, ouve-se ali o som que inspirou a música de vários compositores eruditos modernos.  Steve Reich, John Cage, Philip Glass. Os alçapões que se batem num clangor premonitório, quando o animal é lançado na grade do chão (uma das peças que esqueceram de empregar um termo suavizante_ chamam-na grade de vômito), o espectador que assistiu aos mais conceituados filmes de terror descobre a semelhança das trilhas sonoras com os guinchos e estribilhos.. Desde o Exterminador do Futuro, Carrie, O Iluminado, Psicose, até a sonoplastia do demônio deixando o corpo da menina, no Exorcista. O matadouro é uma experiência absorvente para os ouvidos quando se acostuma com a riqueza de suas proporções caóticas. Quando se esta ali no momento do trabalho a mais de uma hora, à mercê da narcotização daquelas pancadas eloqüentes, vem uma certeza difícil de explicar, que sempre tentei entender relacionando-a ao que Jonas deveria ter sentido na expansão claustrofóbica do estômago da baleia: a de uma fria inteligência conduzindo os sons, de uma mensagem orquestrada cheia de significados inapreensíveis e que os compositores e artistas mais argutos intuíram.
                                 

Do Meu Excedente de Irracionalidade

Quem visse o pobre do Blaise Pascal saindo daquela casinha modesta de uma das vielas de Paris, na noite em que foi forçado por sua irmã a participar de uma demonstração de cura milagrosa, nos idos de lá de 1659, não perceberia que se tratava do mesmo matemático e físico que estivera por trás das inovações científicas da Geometria Projetiva e da Teoria das Probabilidades, entre outros achados de sua mente poderosíssima. A diferença é que estava transfigurado, provavelmente (até onde chega a minha imaginação de como fora aquela noite), com um olhar no qual cada milímetro a mais de arregalamento demonstrava que o que acabara de presenciar  lhe custaria mais horas de raciocínio para compreender que as gastas na abstração do universo das fórmulas e calculos binomiais. O que acabara de ver, no quartinho apertado, foi o que havia condenado como superstição tola e ilusão farsesca a vida toda, mas que, contudo, realizara-se em completa plenitude diante seus olhos. A mulher que estava na cama, seca e envelhecida pela doença, à espera apenas que a misericórdia do acaso lhe viesse arrebatar de uma vez do sofrimento, à custa das orações dos fiéis impotentes que lhe rodeavam, restabeleceu-se a olhos vistos, a saúde lhe voltara como se dependesse apenas de um afluxo de ar soprado para o interior de seu corpo.

Muitos anos depois, um dos mais eminentes gênios multimídia da História, um senhor cujo talento infinito em revolucionar todas as ciências conhecidas e do porvir lhe havia concedido o cargo de consultor  oficial de  monarcas de diversos Estados europeus, passeava pelas ruas londrinas. Era o ano de 1744 e o sueco Emanuel Swedenborg já obtivera todas as glórias em seus 56 anos de vida: desenvolvera projetos de hidrostática, inventara sofisticadas máquinas de mineração, desenhara esquetes militares que possibilitaria o impactante uso do sol como arma, além de outros feitos importantes em anatomia, astronomia e geologia. Nessa noite, foi seguido por um homem desconhecido até sua casa provisória em Londres. Recebeu-o cordialmente, não de todo assustado senão até quando o estranho retira o chapéu e demonstra sem meios termos ser Jesus Cristo em pessoa. Jesus viera-lhe pedir que instaurasse uma nova igreja afim de propagar a real palavra da salvação, tão profanada e vilipendiada pelo abuso centenário de eclesiásticos egoístas de todas as vertentes religiosas. Pelos próximos anos de sua longa vida, Swedenborg abandona a ciência e se dedica a escrever uma série de livros inacreditavelmente ricos em detalhes precisos sobre os outros reinos que existem do lado de lá da comezinha realidade terrestre. Tem o salvo conduto de trafegar livremente pelo Céu e pelo Inferno, e como um jornalista acostumado com a fria cobertura das guerras de distantes lugares do globo, registra tudo que vê. Sua grande descoberta é revelar que para a salvação não bastam a piedade e as boas obras: é imprescindível a inteligência. Só através da inteligência e do esclarecimento que o homem poderá usufluir da presença de Deus e da percepção do propósito da criação. Em um de seus livros, relata que um homem abandonara a cidade, seus pertences e o contato com a humanidade, e fora se refugiar no deserto. Por décadas esse homem se dedicara piamente às orações a ao martírio. Quando morreu, dentro de sua caverna cavada na areia, os seres superiores que organizam os planos celestes não souberam o que fazer com a sua alma. Em sua ignorância do isolamento, não poderia participar dos diálogos elevados e dos debates sobre as análises da criação com  os quais os anjos preenchem seus  infinitos cotidianos. Resolvem então criar um ambiente semelhante ao deserto no qual o eremita viveu na Terra, para que ele possa passar todo o resto da eternidade.

Por que resolvi escrever essas coisas? Lembrar desses velhos loucos, esses cérebros que um dia sucumbem à contração de seus superatrofiamentos e deixam de ser coerentes e produtivos para serem apenas divertidamente esclerosados? É porque, eu vivo no limite da exaustão. Meus dias são dedicados a ouvir, ler, participar coniventemente, levar adiante, a flagorosa bandeira da razão e da opinião concreta, sempre preparado e esperando ansiosamente o momento em que eu possa tirar do bolso e dar uma carteirada com minha insígnia de conhecedor profícuo da percepção legalizada. Me cansam os livros na estante, apesar de não saber viver sem eles. Me cansa o enorme vácuo que me cerca ameaçadoramente sempre que eu pego um desses livros para confirmar uma velha verdade estabelecida. Me dá a Tristeza Maiúscula Não Negociável ao reler, como ontem, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" com todo aquele idioma impecável e fluido, toda aquela festa de frases assertivas e pensamento inesperado, e pensar: "para que isso tudo, se o homem desapareceu. Uns óculos postos sobre a mesa onde seus pulsos descansavam da labuta com os teclados, no futuro museu da lembrança de sua presença; e valeu alguma coisa? Um desconcertante fingimento de perenidade que nós fazemos por aqui, sua esposa e nós leitores, monumentos, bibliotecas, leituras coletivas, festas de homenagem em Paris e Parati, mas tudo uma merda de uma piedosa farsa para alimentar aquilo que os fatos desmentem de forma impiedosa, que tudo vai desaparecer sem controle, sem justificativa, sem álibe, e não serão novas edições luxuosamente encadernadas que mudará isso."

O fastio da voz imposta vinda da televisão onde está em seu horário muito bem pago o Doutor Phd com suas  respostas oráculares prontas. Ou a simples exaustão de me olhar no espelho e não ver nada, não intuir nada, além do que pode dar a superfície refletora. Aprender a continuar interpretando as coisas pelo filtro patenteado com as marcas registradas tradicionais, o cartel da Ciência e co., o monopólio da Igreja Ltda. Como disse o Cortázar (meu Deus, e vai-se embora a impressão de meu Cortázar, esse que sumiu sem deixar nada que desfragmentados vestígios orgânicos no solo argentino), a vida toda não passa de um sistema de acondicionamento em que tem-se que aprender a aceitar a eterna ponta da bota acertando todos os dias os nossos pobres cus, a ponta entrando cada vez mais para dentro dos nossos cus desprotegidos e arredios. E a ânsia que não desaparece _ se pelo menos tivessem nos dado uma desesperança verdadeira e definitiva _ de que um dia encontraremos o Reino, seja por qual caminho desarroado e impróprio, mas é a percepção do Reino que nos move a construir parábolas de justiça (Kafka), a nos compadecermos de Odete tão-sem-sorte-porque-lhe-abandonou-o-marido-e-as-filhas-morreram-de-varíola, a enviarmos uma carta anônima onde se destila com uma sinceridade terrível o desabafo de que por detrás do ódio fiel e irremovível a que dedicamos a nosso inimigo esconde-se um amor de impossível reconciliação, Ou conquistarmos o Reino à marra, através do assassinato, do alcoolismo (todo bêbado é um místico), do homossexualismo, das drogas, da ascepcia radical, do suicídio sincronizado pela liberade de um país, pelo futebol ou pela dança cutuchama dos índios Anhãnhãnhãs.

Entrar em cada igreja dos territórios conquistados e fazer uma oração para cada deus desconhecido, como fazia Alexandre. Passear pelas charnecas inglesas, encostar a bicicleta nos muros de pedras, e se enternecer com a sacralidade do silêncio dos velhos templos milenares, como fazia Bernard Shawn. Oferecer um galo a Asclépio em benefício de sua alma, como solicitou que lhe fizessem o Sócrates com a cicuta passeando em suas veias. Abraçar o cavalo alquebrado e trêmulo do cocheiro desalmado, e se identificar com a alma legitimadora do animal, como o fez Nietzsche. Olhar para seu corpo ferido atirado no chão, do alto dos obuzes e do campo em chamas, como o fez a flamante consciência de Hemingway. Levantar a cabeça do travesseiro para ver, numa noite tristíssima de solidão inconformada de 1999, a aparição do filho abortado que poderia ter sido mas não foi, o espaço sem face de um adeus que perdoava.

Swedenborg e Pascal talvez tenham contribuído para trazer a intuição de que, se somos destinados ao nada ou ao Reino, o caminho que seguimos até agora tem sido um atroz acúmulo de erros que não faz justiça nem à maravilha da própria fugacidade. Como disse Salvatore Quasimodo:

         Todo homem está só no coração da Terra, trespassado por um raio de luz; e de improviso, é noite.