sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O Século que Não Foi de Tolstói



Eu passei muito tempo amando Dostoiévski, só lendo Dostoiévski, tendo Dostoiévski como a unanimidade mais vantajosa tanto no aprendizado da escrita como dos ângulos mais certos para observar o raivoso e mesquinho diabo humano, de forma que me esqueci quase por completo de que ao lado dele há um outro desbravador de igual ou superior envergadura. Durante o século XX, Léon Tólstoi passou por um curioso processo de esquecimento que, à diferença dos tantos outros autores esquecidos, foi motivado não pela obsolescência e envelhecimento de sua obra, mas por sua imensa superioridade. Tolstói, trocando em miudos, foi relegado a um segundo plano na esfera dos grandes escritores justo por ser o maior de todos. O maior esteta, o compositor do maior painel ficcional de todos os tempos, o narrador por excelência, o dono de uma perfeição excessiva em cada um dos bastiões da escrita que frequentou, de forma que nomes sinonímicos das letras chegam a ficar pequenos perto dele. Era muito mais refinado na concisão lapidar do que Flaubert, nunca tendo sentido o terror que o francês sentia de ser escravo de sua própria técnica; sua memorialística faz com que os romances de formação produzidos pelos autores nos anos futuros percam o ar distintivo de legitimidade; suas fábulas infantis e moralistas são tão cheias de torpezas, degradações, e modelos etéreos de ascensão que dá a direção da literatura fantástica que se produziria no restante do século XX; suas descrições de pessoas  e paisagens são de uma beleza trágica e de uma reverberância para outras profundidades do discurso que é impossível ao leitor, mesmo a dez mil quilômetros de distância, não ter a certeza de que é íntimo das ruas de São Petersburgo e de Moscou, assim como não lhe sai da memória a lembrança detalhada da morte da princezinha e do rosto monumental do velho conde Bezukhov no leito de morte. Cada descrição de Tolstói tem as sombras de Rembrandt. Ser levado por ele através da enorme Rússia com seus mujiques e seus salões da aristocracia, é saber como os leitores do século XIX já sabiam o que era o cinemascope, ao mesmo tempo em que se entende porque Martin Amis disse que Tolstói foi o único escritor que conseguiu reproduzir por escrito a felicidade.

E mesmo assim, estabelece-se a incógnita do por que Tostói foi canonizado e preso a uma redoma de admiração empoeirada por cem anos, tornando-se um desses nomes citados como pontos de grandeza mas muito pouco lidos. No Brasil, por exemplo, até cinco anos atrás era algo de sobeja dificuldade achar alguma tradução de seus três romances principais, sobrando ao leitor persistente a procura por traduções antigas de Anna Karenina em sebos de livros usados, ou a espera de que o ciclo quinquenal de publicações de clássicos da literatura universal feito por revistas e jornais relançasse alguma tradução vertida do inglês. Ainda hoje, eu que procuro Guerra e Paz nas livrarias que visito, só encontro a informação no computador de buscas de que uma edição da obra em dois volumes pode ser importada de Portugal, ou então pode-se adquirir por um preço tirânico quatro volumes da LP&M que, apesar do respeito que tenho a essa editora, não me inspiram muita confiança.

É algo que penso ser motivo de um estudo mais abrangente por parte dos pensadores que se ocupam com os contrapontos ideológicos dos séculos, a razão de por que Dostoiévski foi eleito o respresentante do então moderno século XX, em detração de colocarem Tolstói como o homem estigmatizado por ter definido por inteiro o século XIX (a ponto de se enterrar na história junto com ele), e, uma nova questão que surge nesses cem anos da morte de Tolstói: a qual dos dois pertencerá agora o século XXI? Em um magnífico ensaio sobre esse assunto, escrito por Joseph Bródski e publicado pela Cia. das Letras no volume Menos que Um, Bródski diz que os autores modernos se identificaram com o conturbado e inconstante Dostoiévski. As vertentes mais importantes da intelectualidade do século XX tomaram Dostoiévski como pai  do homem urbano, exilado, perseguido por poderes institucionais inéditos que os transformariam em números, privando-os do direito à individualidade. Dostoiévski entregou dilapidado aos grandes analistas da alma da humanidade, confrontada pela primeira vez com sua bestialidade desencantada, um novo posicionamento profilático capaz de um certo esclarecimento ao ver para dentro do seu interior de caos e fúria. Em uma simples passagem de Crime e Castigo, em que Raskolnikov anda pelas ruas de Moscou tomado por uma febre cerebral, formulando no curso de seus pensamentos inconstantes a tese pessoal da grandeza que há por detrás do assassinato, há mais do que a gênese de vários procedimentos modernos da narrativa, do stream of consciousness, do relativismo moral, da quebra da linearidade da escrita, do romance coisa desprovido de personagens e ocupado no centro por impulsões do ego, o romance freudiano de Beckett.., há também o sintoma da falta de segurança total proporcionado pelas duas grandes guerras mundiais que lançou o homem na depressão desespiritualizada da modernidade.

Yasnaya Polyana
Bródski cita o imediatismo da escrita de Dostoiévski (já citado por Nabokov, que disse não haver uma página de Dostoiévski que possa fazer parte de uma compilação de textos representativos), sua falta de uma organização mais apurada da narrativa, seus aparentes excessos que descambam espontaneamente para o grotesco, seu desleixo pela limpidez e fluidez. Exceto na intensidade, Dostoiévski é o oposto de Tolstói, e um oposto que, num primeiro momento, parece diminuído diante aos atributos retilíneos de Tolstói. Tolstói era  não só melhor escritor como melhor homem que Dostoiévksi. Tolstói foi coerente com tudo que  acreditou, até mesmo quando escolheu por puro exercício de campo ser um aristocrata burgues devasso na juventude. Entendia com lucidez os ciclos ontológicos da evolução pessoal, e por isso renegou seus grandes livros, permitindo que eles circulassem livremente nos milhões de exemplares pelo mundo , sem que cobrasse um centavo dos milionários direitos autorais a que teria direito. Em seu cristianismo íntegro, em sua piedade guerreira pelos despossuídos que nada tinha de pedante, criticou duramente tanto a igreja católica por seu niilismo abjeto de culto castrador a um Cristo martirizado, quanto ao evangelismo reformador ganacioso e prostituído pela sede pelo dinheiro; partilhou sua fortuna com os empregados de sua grande propriedade rural, Yasnaya Polyana, distribuindo-lhes a posse da terra. Diante tais ações, foi excomungado pela igreja russa ortodoxa, e olhado com suspeita pelos camponeses, e, no fim da vida, quando parte em exílio voluntário para longe dos interesses surrupiadores de seus herdeiros, morre solitariamente na gare de Astapovo.

Dostoiévski, epiléptico, polemista inconstante que sentia prazer em rebaixar-se diante o inimigo ao pedir-lhe desculpas,  propenso a admirar homens nefastos do alto poder czarista, e cujo cristianismo desesperado revelava toda uma arraigada falta de fé, era, pois, o anti-Tostói. Isso fez a diferença real a seu favor. Em seu eslavismo em cantar a superioridade do povo russo sobre os demais povos da Terra, foi, por contradição, o porta-voz do homem ocidental. Tolstói era centrado demais, seus tormentos espirituais dotados de uma dor cabível em um desenho lógico previa a redenção pelo isolamento e pela fidelidade individual; Tolstói era muito oriental e completo para ser interessante ao mundo ocidental e desfragmentado do século XX. Enquanto Dostoiévski era, geneticamente, o formulador de Mersault, Antoine Roquentin, Thomas Sutpen, Stephen Dedalus, no que tinha de pesadelo, de dissonância, de intriga, de incompletude.


Escrevi esse texto motivado pela leitura de Ressurreição, o último dos três grandes romances de Tolstói que a editora CosacNaify lançou, em 2010, no Brasil. A CosacNaify está fazendo o excepcional trabalho de resgatar Tolstói ao leitor brasileiro, empreitada que tem no tradutor direto do russo, Rubens Figueiredo, sua peça chave. Já lançou a primeira tradução direto do russo de Anna Kariênina, que teve sua primeira edição esgotada, assim como a obra de Tolstói preferida de Harold Bloom, Khadji-Murát, (essa pela tradução também do ótimo Boris Schnaiderman). Os livros tem um acabamento luxuoso, capa dura, fita de seda para marcar a página, fotos, de forma que são belas peças que também servem para colocar em relevância, no tocante de quem as possui, ao menos a decoração da casa.


Lendo Ressurreição eu aventuro dizer que talvez esse novo século seja, até por saturação à toda herança bem esgotada que o modernismo recebeu de Dostoiévski, o século de Tolstói. Uma surpresa foi a descoberta de que um de meus autores preferidos, Thomas Bernhard, parece ter bebido muito da maneira de escrever de Tolstói, em sua limpidez, sua falta de pomposidades, seu discurso direto e destemido, sua repulsa a se integrar ao modernismo e às escolas da moda, sua forma minimalista de, em alguns preciosos parágrafos, usar da repetição para firmar uma ideia (a diferença fundamental que valorisa essas traduções diretas é notar esse detalhe substancial do método de escrita de Tolstói, completamente apagado nas traduções do francês e do inglês). Talvez esse novo século não suporte mais os modelos de realidade paralela, as fábulas kafkianas, as parábulas distópicas de Orwell, e, aos esclarecidos que ainda restam e aos inconformados, a crítica dura e sem artificação de Tolstói seja a nova arma para confrontar os poderes instituídos. Pois Ressurreição é uma viagem sem eufemismos e sem retoques artísticos aos porões do sistema judiciário russos (e, por derivação, brasileiros), e mais ainda, uma denúncia saturada da corrupção humana, da ignorância e, sobretudo, da crueldade gritante mas oficialmente aceita dos que se omitem.

(Sobre as novas traduções diretas dos grandes russos, esse ensaio imprescindível:
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao_47/artigo_1392/Nossos_tres_russos.aspx)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Uma Oração, por Jorge Luis Borges



 Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; possa dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.
        Quero morrer completamente; quero morrer com este meu companheiro, meu corpo.

(Obras Completas, volume II; Elogio da Sombra, p. 416; tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques; editora Globo)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A Love Supreme/John Coltrane, 46 Anos Hoje




Hoje é tão fácil, mas para ter meu primeiro A Love Supreme foram necessários uma lojinha cult de entendedores esnobes num bairro chic da capital, um vendedor belga avisado pelo recentíssimo mecanismo de e-mail, um espaço num container, a travessia de um cargueiro pelo Atlântico, rodovias e rodovias interestaduais, e meses de economia monástica. A espera foi de oito semanas, e lembro com a apreensão feliz de uma criança às vésperas do natal que o ar condicionado e os vários CD´s de dar inveja, ordenadamente expostos em prateleiras de mogno inglesas, foram o hino marcial para que me botassem nas mãos o pacote inacreditável onde estavam dois dos álbuns mais elogiados do jazz: In the Silent Way e A Love Supreme. Este último, uma edição comemorativa com capa tripla de cartão e um folheto de doze páginas contendo fotos inéditas e a oração a Deus manuscrita que Coltrane vocaliza, palavra por palavra, no sax tenor da parte 4. Desde então,  na época da queda da Bastilha do download, comprei-o mais duas vezes, por preços miúdos, em sebos.

Odiei-o ferrenhamente quando o ouvi. Nada me parecia mais tosco. Não era o Coltrane exuberantemente oriental de Kind of Blue, filho direto de Rimsky-Korsakov, Stravinski e o escravo negro escondido que descobriu em plenitude beatificada o sentido da vida antes de morrer no silêncio dos batedores do campo lá  de cima; não era o mesmo cara que, possuído por um anjo megatômico, espontaneamente contrabandia para a nossa limitada estratosfera o solo inclassificável de luz em Flamenco Sketches. O cara havia perdido a direção depois que separou de Miles Davis. Aquilo era grafite numa parede de cal, não tintas no acrílico. Pura enganação o  jazz que se rebelou na década de 1960, tudo que existira de bom e sublime ficou confinado no be-bop e no jazz modal. A Love Supreme confirmava a perda de tempo em dar ouvidos aos experts, esses entendedores de uma maçonaria do gosto que ditavam graus de ascensão estipulados em herméticas burocracias internas, que nada tinha a ver com o mundo aqui de fora. Gente que sabia por completo o nome da baronesa Rothschild,  os canais certos para se chegar ao hotel de onde Chet Baker saltara pela janela, o nome das cinco músicas e do auditorium onde Louis Armstrong inspirou o ensaio clássico de Cortázar, o maior baterista de todos os tempos, o maior clarinetista de todos os tempos, o maior tocador de glockenspiel de todos os tempos (e a estupidez de não saber a diferença óbvia entre o glockenspiel, o mero xilofone, a prosaica marimba e o demodé balafon).

Não tanto para manter minhas credenciais de iniciante ingênuo mas que pode ser trabalhado junto a essa turma, mas por pensar que havia gastado tanta grana numa coisa espúria, que insisti na audição de A Love Supreme. Por coincidência, assistira naqueles dias ao filme Adorável Professor, em que Richard Dreyfuss interpreta um professor aspirante a músico que, quando avisado da gravidez de sua mulher, entra numa crise de prostração. A esposa, sentindo-se rejeitada, chora num canto da cama. O jovem Dreyfuss, cujo martírio no filme é suportar estoicamente a um cotidiano insípido de professor colegial e homem casado que cada vez mais o separa de sua ambição de ser músico, senta-se ao lado da mulher e, num esforço de espiação, justifica que a primeira vez que escutara Coltrane achara aquilo um lixo; parecia um caos sem lógica e propósito, a enrolação de um soprador de tubo que não tinha talento nem para assoviar canções de marinheiro. A pior coisa que ouvira na vida, MAS...(daí vem a parte muito emocionante, a câmera se aproximando lentamente de um Dreyfuss invadido por intrusões inesperadas de beleza, entrando licitamente em sua região própria de espaço significativo), aos poucos foi compreendendo a sublime música de Coltrane, sua força inusitada, seu jorro de ira, sua conflagração ilimitada de ternura, sua insatisfação pelo absoluto, sua incrível inteligência despojada, seu misto de clamor visceral e ódio divino, sua imposição de dizer que existia e participava do jogo, sem requintes, sem retoques, com sua recém criada sofisticação e auto-atribuido pós-doutorado em uma nova refinadíssima estética. E como essa descoberta, continua Dreyfuss, o deixou maravilhadamente sem palavras, como essa percepção de algo transcendente desatrelado do senso comum e absolutamente puro, o reduziu ao silêncio da mais valiosa alegria. Por isso, conclui, quando você me avisou que está grávida, eu senti a mesma coisa de quando descobri Coltrane. A mulher lhe esfrega a cabeça no peito:" a coisa mais linda e verdadeira que já me disse".

Precisamente hoje, Coltrane entra no Van Gelder Recording Studio, em Englewood Cliffs, no estado de Nova Jersey, junto com o baterista Elvin Jones, o baixista Jimmy Garrison e o pianista McCoy Tyner, para a gravação de uma das mais belas músicas de todos os tempos, firmemente decidido,  na paráfrase a Walt Whitman, a falar em idiomas aromáticos. Poucas pretensões foram tão fielmente atendidas.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Robert Capa

"" E lá vão aqueles que um dia foram crianças calorosas"
                                                                                      (Doris Lessing)


"Capa morreu na Guerra da Indochina, em 25 de maio de 1954, ao pisar sobre uma mina terrestre. Seu corpo foi encontrado com as pernas dilaceradas. A câmera permanecia entre suas mãos."(Wikipédia)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Gagos na Gaiola



Éramos muito amigos, quando resolvemos estragar tudo iniciando um namoro. O namoro durou cinco ou seis meses, na imprecisão de poder contar a partir de quando realmente tudo começou, e dali por diante, como na maioria dos casos do gênero, já não conversávamos. Ela empinava discretamente o nariz quando me via, e atravessava para o outro lado da rua. Eu lamentava; por muitas noites senti a saudade atordoante de nossas conversas, de como ríamos fácil de tudo, de como um sinal antecipava o entendimento cujas palavras só testavam depois hipóteses disparatadas. A minima coisa _ como ela ter dito, certo dia, que amava a voz do Bono Vox por ela ter uns pedregulhos ao fundo _ me enchia de remorsos. O remorso de não ter controlado a libido de uma noite de bebedeira e ter alegremente confundido tudo.

Passaram-se três anos. Por esses acasos perigosos, participamos de um mesmo amigo secreto de fim de ano. Ela, já emaciada pelo esquecimento e por outros namoros sofridos, se aproximou de mim , devagarinho, para não ficar estranho na hora de ter de dar o disco do Radiohead, fazê-lo para alguém contra o qual alimentara  anos de mágoa. Voltamos a uma amizade fresca e felicíssima. Foi a única mulher com quem trocava massagens nas costas sem falsos pudores. Não iríamos mais falhar um com o outro. Daí, surge uma profusão de mensagens por celular de uma "pretendente secreta". Bem escritas e inteligentes para serem de qualquer uma, mas só fui saber que era dela quando, em sua casa, confessou irritada que não tinha superado o amor que sentia por mim. Eu via com clareza que ela não havia superado, na verdade, a época em que lhe diagnosticaram um câncer de útero, e o calhorda do namorado dela terminara tudo por telefone após ficar sabendo. Ela estava profundamente triste e se sentindo rejeitada. Seu pai, uma advogado amigo meu, fôra até em casa pedir a misericórdia de que eu não lhe oferecesse bebidas alcoólicas. Não respondi que ela que estava com o freezer cheio de cerveja, e bebia para retratar a repulsa que lhe despertava a inchação de seu corpo pelos medicamentos, e a vida amarga em geral.

E foi justo num bar, à noite, quando a sombra era evidente demais por detrás das suas  heróicas tentativas de simpatia, que, do nada, ativando a tecla "palhaço", eu começei a lhe contar de como havia lido em um livro sobre como os gagos sempre foram alvo de preconceito. Como um desvairado, não me importei de que ninguém mais dos outros cinco na mesa não conseguiam mais me acompanhar, enfadados, e só prestei atenção em seus súbitos olhos embevecidos e de suas abruptas gargalhadas das minhas histórias. Moisés era gago, como está  nas escrituras, Machado lia discursos longuíssimos tropeçando nas palavras, mas não estava nem aí. Na Idade Média, os gagos eram colocados em gaiolas e apresentados pendurados em praça pública, onde os populares os incitavam com varas a falar. Quando falavam, todos caíam na mais selvagem gargalhada.

Ela se curou. Um de meus melhores amigos, que sempre fôra apaixonado por ela, pediu que lhes apresentassem, e os dois se casaram. Minha esposa, quando éramos namorados, morria de ciúmes dela. Depois que se falaram, a Dani e ela, num jantar, a Dani nunca mais sentiu um pingo de ciúmes dela. "Não sei ao certo, é como se vocês dois fossem muito parecidos, muito iguais, e ela é idônea demais para que eu continue a sentir ciúmes." Após meses sem nos vêrmos, eles dois aparecem aqui em casa para conhecer a Júlia. Eu e meu amigo reativamos o ensejo antigo de abrirmos um bar temático, com boa música e bebida, ao lado de uma pracinha sossegada, cujo nome será "Dig a Pony". Ela, no final da noite, com os olhos claros da estabelecida felicidade, me enche de orgulho: "Sabe quando iniciou-se minha cura completa? Na noite em que você, como um bêbado descontrolado, pouco se importando em falar alto para as outras mesas ouvir, gaguejando sem parar, me matou de rir ao contar sobre os gagos na gaiola." Mais tarde, na cama, a Dani passa a mão sobre minha cabeça, e me beija ternamente as lágrimas, sabendo.


Sobre o Quadro do Cabeçalho deste blog

"Sou Fascista?"

(texto extraído do livro "A Era do Inconcebível", de Joshua Cooper Ramo, editado pela companhia das Letras; tradução de Donaldson M. Garschagen)

Entre seus primeiros quadros, esse é um dos mais grandiosos. De um lado a outro, mede 6,80 metros; de cima a baixo, três metros. A tela engole o observador postado diante dela. Mas o que se esperaria de cerca de vinte metros quadrados de tinta esculpida em camadas, uma pincelada sobreposta a outra, formando ondas que ainda parecem frescas? O título, Deutschlands Geisteshelden, estendendo-se ao alto, numa caligrafia que parece tensa, com letrasde trinta centímetros de altura. "Heróis Espirituais da Alemanha" _ assim se pode traduzir o título do quadro de Anselm Kiefer. A execução da tela durou dezoito meses. Kiefer trabalhou nela dos 27 aos 28 anos, entre 1972 e 1973, anos antes de ser aclamado um dos grandes pintores de nossa época, décadas antes de os críticos contemplarem essa obra em particular e dizerem: "É o tipo da coisa que olharão daqui a duzentos anos para compreender nosso momento na história".

A tela mostra um dos ambientes arquitetônicos alemães mais típicos, o salão de uma igreja luterana, todo feito de madeira. Na perspectiva do quadro, as linhas das tábuas do assoalho afastam-se do observador como os trilhos de uma ferrovia. Ao longo das paredes veem-se lâmpadas a óleo acesas, espaçadas com exatidão. Junto da base de cada uma, Kiefer escreveu o nome de um herói alemão homenageado. O que confere ao quadro uma tensão perturbadora é o que percebemos ser inevitável, o que sentimos à medida que nossos olhos avançam pelas paredes do imenso salão, passando da chama para a viga de madeira e de volta à chama: a estranha tolice de haver tanto fogo junto de tanta madeira. Aquele é um prédio à beira da combutão. (...)

Kiefer terminou o curso de arte em 1969 e seu projeto de formatura não foi o previsível quadro de campos de cores nem a escultura abstrata que se poderiam esperar de um estudante ambicioso. Em vez disso, ele apresentou uma série de fotografias em que aparecia fazendo a saudação nazista em diversos lugares da Europa. As imagens formavam um ersatz de um álbum de férias. Aqui estou saudando o Louvre. Aqui estou saudando o canal da Mancha. Se as fotografias enfureceram a banca de avaliação _ ele foi reprovado _, os professores ao menos ficaram tão perplexos que a única coisa que puderam fazer foi se esconder na pequena caverna da defesa artística. O trabalho de Kiefer, disseram, "carecia de distanciamento". Mas era exatamente isso o que ele queria. Como seria possível que alguém, quanto mais um alemão, tivesse algum distanciamento do passado recente do país, de seus hábitos culturais e históricos homicidas? O único membro da banca que votou a favor de Kiefer foi Rainer Küchenmeister, um homem sem distanciamento algum, em nenhum momento e durante o resto da vida, em relação ao que Kiefer tentava evocar. Ele compreendeu a mensagem daquelas fotos: não há meio de você se afastar da história ou de afixá-la atrás de um vidro como num diorama. A história vem à sua procura, como tinha feito com Küchenmeister e sua família.

Mais tarde, explicando suas fotos, Kiefer declarou que seria melhor vê-las de outro modo: ele se perguntava, como alemão, exatamente que tipo de DNA político ele tinha, queria sentir se alguma coisa nele mexia quando ele erguia o braço daquela maneira. Uma combinação correta de condições históricas traria à tona um instinto fascista latente, como uma doença fatal, hereditária, invisível? Ele se perguntava o que poderia fazer se um momento da história colidisse com sua vida. (...) "Pensa que esta tela está engolindo você?", pergunta Kiefer naquele quadro monumental. Bem, espere até ser engolido pela história.








 























segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon


(Acima: capa de Frank Miller, da edição comemorativa da editora Penguin)
Por Charlles Campos
Flaubert morreu sem realizar seu desejo de escrever um livro que não dissesse absolutamente nada. Olhando de nossa situação no tempo_ do meio do ano 2010_, um escritor que produzia seus romances e contos como quem deita delicadas gotas de estricnina em milimétricos quadrados de vidro, não fica difícil perceber que o célebre francês sonhava com uma composição estética à frente de seu tempo, desvinculada de enredo e de personagens, algo próprio para o século que se desanuviaria e que estaria cheio de descobertas cujo modelo para armar seria a falta de coerência que determinaria tudo: a teoria do caos. Homens como nós, pós-modernos_ ou seja qual novo conceito resume esse não-sei-que cosmopolita_, estamos acostumados à falta de sentido, à independência à linha reta, à conturbação e às reticências que só dão a aparência de que a resposta está de molho pronta para ser lançada sobre nós assim que completa sua maturação. Palavras da cartola da ciência foram postas ao olho vivo da platéia, e o pasmo da descoberta de que todos os presentes fazem parte da ilusão de luz e sombras cujo truque final fará que tudo desapareça, como a bela moça de biquíni escondida no caixote, entraram para o linguajar cotidiano. Entropia, Indeterminação, Relatividade, Dimensões Paralelas, Teoria das Cordas. Se Flaubert viajasse na máquina do tempo de Wells e parasse sem estágios aqui nesse olho do furacão onde moramos em sossego, sentiria a vertigem aterrorizante do herói de casaca amarrado no carrinho da montanha russa em franca aceleração em direção ao abismo à frente, onde os trilhos estão partidos: o som inapreensível da queda com o qual nossos ouvidos acostumados transvertem em música de comercial das Casas Bahia que já não nos incomoda.

Coube ao americano Thomas Pynchon, um século depois, chegar o mais próximo do sonho de Flaubert, esbanjando vivacidade e fôlego em um romance de 800 páginas que dá ao leitor o sério problema de não saber definir do que trata. “O Arco-Íris da Gravidade”, lançado nos Estados Unidos em 1973, em plena ressaca dos anos 60 e no estilhaço das guerras geográficas que transformou a possibilidade de uma nova guerra mundial em um premonitório fantasma convergido em um hipotético botão nuclear, parece não dizer nada, ser uma caixa caleidoscópica que simula um delírio de LSD, ou, mais apropriadamente, a concha marinha onde está registrado o último nó caótico de sons de uma humanidade que desapareceu para sempre. Uma mensagem final dirigida a ninguém, de seres sem rastro que foram incapazes de emitir qualquer significado conjunto para configurarem o mínimo propósito à sua existência. Na verdade, “O Arco-Íris da Gravidade” é um grande epitáfio a esse projeto mal fadado que é o homem, fazendo-o numa língua impossível cujo tom é dado pelas suas primeiras frases apoteóticas: “Um grito atravessa o céu. Já aconteceu antes, mas nada que se compara com esta vez.” E como todo epitáfio_ ou todo réquiem_ traz uma profunda ternura por trás de sua acusação da brutalidade da finitude; no paradoxo de desnudar o caos, quando tudo é sugado por sua força implacável, emite uma frágil bolha que flutua tranquila na borda do buraco negro para, no momento que cessa sua efemeridade, libertar uma última reação de importância_ como se houvesse algo de sagrado e duradouro na saudade.

Sobre isso que trata o romance, entenderam?

Não?

Bem, há um personagem principal, um misto de espião americano, experimento vivo ambulante e prodígio sexual, cujo nome é William Tyrone Slothrop. Ele ocupa uma parte avantajada dessas 800 páginas, em que erra peripateticamente por uma Europa pós-segunda guerra devastada, sendo alvo das mais absurdas aventuras, algumas das mais memoráveis delas a luta corporal com um polvo, a fuga cinematográfica de uma plataforma subterrânea de lançamento de foguetes nazista (em cima de uma ogiva e com uma série de alemães enfurecidos atrás), um mergulho para dentro de uma fétida privada de um banheiro masculino, enquanto um negão de exageradas proporções corporais tenta lhe mostrar da pior maneira possível por que erram os que julgam que sua superdotação é puramente cerebral. Esses e outros infortúnios são narrados numa velocidade estonteante, que desarma o leitor de seu assombro crescente assim que tem a revelação de que o verdadeiro personagem do romance_ como diz o autor das orelhas do livro, e do qual me impossibilita dizer algo diferente_ é a linguagem de Pynchon: seu inglês caudaloso, debochado, anárquico, irreverente, paranóico. Um anarquismo lingüístico que não perdoa nada, que muitas vezes arranca o leitor de sua impressão de atingir compreensão para atirá-lo em uma abrupta análise de um pormenor destoante. Um romance que ultrapassa a média em envolvimento e absorção, principalmente por ser composto por materiais nem um pouco convencionais.

Se a micro-história ou a História das Mentalidades retirou o foco dos estudos dos reis e dos heróis nacionais para se concentrar no homem comum, a prosa de Pynchon continuou uma revolução semelhante na seara do romance, utilizando o lixo, os caçoetes e toda a tralha multicolorida da sub-cultura norte-americana, compondo uma obra soberba que, como haveria de ser, gerou repúdio e muita polêmica. A comissão do prêmio Pulitzer lhe conferira o prêmio de melhor romance do ano de seu lançamento, mas na última hora a direção da comenda o rejeitou sob a acusação de ser um romance pornográfico. Talvez pela irreverência das descrições sexuais de um Slothrop que, sempre que transava com uma mulher, determinava por uma ligação misteriosa com o foguete (e o material com que ele era feito, o estranho Imipolex-G) que o local onde estava fosse destruído, logo depois, por uma explosão. E Pynchon se molda, intencionalmente ou não, ao escritor-mito, por sua completa negação a aparecer na mídia, a dar entrevista ou ser fotografado. Chegaram a sugerir que ele e Salinger fossem a mesma pessoa, ambos afeitos a uma reclusão monástica. Seu tradutor brasileiro_ o excepcional Paulo Henriques Britto_ que nos deu uma das melhores conversões já feita desse romance, retém sob severo juramento cartas do próprio Pynchon, escritas em espanhol, com longos esclarecimentos sobre as partes mais complexas da obra. Cartas que com certeza seriam disputadíssimas entre os milhares de fãs ardorosos que formaram um culto organizado em torno de Pynchon.

E  O Arco-Íris da Gravidade é inusitadamente engraçado, e não pensem que se trata do risinho renhido do sarcasmo saramaguiano, ou os risos sincronizados do único romance com claque da história da literatura, o Ardil-22_ o livro se mantém numa constante e irresistível eletricidade histriônica, um humor abrangente e sem reservas que é um dos seus poderes inigualáveis: o riso se torna um sério posicionamento filosófico, um costume contaminante que muda nosso confrontamento com o mundo, uma herança erudita transformada de Rabelais, Groucho Marx, Monty Python, Os Três Patetas e Buster Keaton.

E, quando chegamos ao final dessa extensa saga, Pynchon nos soluciona o enigma derradeiro: só assim, usando os despojos de nossa cultura, a falta de vergonha de nosso orgulho desarroado, os nossos preconceitos e nossos ódios infinitos, a nossa miséria e capacidade de nos enganarmos e nos iludirmos eternamente, nossa tecla defeituosa que nunca proporcionou aprendizado com o passado, nosso frenesi e arrogância científica que finge esclarecer, poderemos ter a presciência terrível de que toda piada traz o lamento enrustido de só conseguirmos rir até as lágrimas do outro que cai e arrebenta a cara no muro, e nunca compreendermos que afinal rimos de nós mesmos atirados no chão, todos atolados no caos e vítimas das gritantes trivialidades criadas, na única comunhão possível de esperar alegremente o aniquilamento, como nas palavras que finalizam o livro:

“E é bem neste ponto, este quadro escuro e mudo, que a ponta do Foguete, caindo a um quilômetro e meio por segundo, absoluta e eternamente sem som, alcança seu último imensurável intervalo acima do telhado deste velho cinema, o último delta-t.

Há tempo, se este conforto lhe parece necessário, de tocar a pessoa a seu lado, ou de pôr a mão entre suas próprias pernas frias…ou, se é preciso cantar, eis uma canção que Eles jamais ensinaram a ninguém, um hino de William Slothrop, há séculos esquecido e jamais reeditado, para ser cantado com a melodia simples e agradável de uma ária da época. Acompanhe a bolinha:

É a Mão que faz o tempo andar,
Ainda que em tua Ampulheta se esvaia a areia,
‘Té que a luz que abateu as Torres altas
Chegue à Alma Preterida derradeira…
‘Té que os Viandantes durmam à beira
De toda via desta Zona estropiada
Com um rosto em cada encosta de monte,
E uma Alma em cada pedra da estrada…

Agora todo mundo__”


Este seria Thomas Pynchon há muitos anos

Este, retirado de um site francês, vem até com credencial…

(Originalmente publicado [...adivinha onde? ], no blog do Milton Ribeiro)