sexta-feira, 8 de março de 2013

Algumas notas breves sobre leituras


Informo aos visitantes do blog que na semana que vem voltarei com novos textos. Não me sobra tempo por esses dias; demasiado envolvido com assuntos veterinários. Mas as leituras continuam nas horas livres, e minha luta é para garantir o máximo de tempo ocioso possível. O Matheus citara o História do Medo no Ocidente em uma das caixas de comentário; foi o suficiente para acionar o estopim para a leitura desse livro, que há alguns meses aguardava na estante. Terminei-o ontem. Leitura prazerosa, espantosa, e amplamente informativa. Uma das coisas que me impressionou_ eu que viro uma criança deslumbrada com o conhecimento a cada livro_, foi a descoberta do real sentido das lápides de cemitério e a razão do luto. O medo dos mortos era tão grande, que já no início da Idade Média as pessoas colocavam blocos de pedra por sobre as sepulturas, para que o morto não conseguisse se evadir de dentro das sepulturas. E o negro usado no luto, na verdade não traz em suas origens nenhum respeito, sendo sim uma atitude de antipatia contra o defunto, novamente para que ele desconsidere qualquer ideia torta de não aceitar sua condição de finado. Os capítulos sobre a peste na Alta Idade Média e no começo da Idade Moderna são esclarecedores sobre o egoísmo elementar do ser humano. Um tanto chocante ver que era comum pais se voltarem contra filhos, no desespero de se protegerem contra a doença.

Iniciei ontem O Professor do Desejo, do Philip Roth. Fiz uma anotação mental de jamais ficar tanto tempo sem ler Roth. Um show de inteligência e de qualidade de escrita; um deleite para os sentidos. Comentávamos o Luiz Ribeiro e eu que Bellow é superior a Roth, mas a leitura desse romance tem me mostrado que a caudalosidade de Roth, seus longos parágrafos, sua fixação por si mesmo e sua enorme vaidade e sua enorme paixão pela literatura, formam um contraponto com o autor de Herzog que ensina muito sobre a estatura de literatura norte-americana. Isso me faz lembrar uma frase não muito feliz do Sérgio Rodrigues, afirmando que a terceira pessoa equivale ao doutoramento do escritor. Roth escreveu cerca de 95% de sua obra na primeira pessoa _embora seu inigualável O Teatro de Sabbath tenha sido na terceira pessoa_, mas existem casos mais desmistificadores à máxima de Rodrigues: Javier Marías, que compôs todos seus romances na primeira pessoa, nunca teria saído dos bancos escolares, e o que dizer de Proust?

Por final, hoje após o almoço tive o prazer de ler o maravilhoso ensaio de Alejandro Chacoff, intitulado A Viúva e a Vanguarda, sobre Maria Kodama, o espólio de Borges, e querelas judiciais envolvendo a viúva do grande autor e um escritor experimentalista argentino bastante curioso. Um texto de encher os olhos, publicado na Piauí 78, de março, um dos melhores textos publicados pela história dessa revista.

sábado, 2 de março de 2013

Neste sábado desterrado do infinito


Abrindo um Porto e comemorando os 40 anos de Dark Side of the Moon, o magnífico álbum do Pink Floyd.

(Já fiz altas viagens com esse disco. Estou escutando o primeiro solo de Time neste exato momento. Não sei dizer agora o quanto essa obra representa para mim. Lembro de três fatos relacionados entre ela e minha vida, de certa forma banais mas muito representativos [tomei três cálices do Ferreira, por enquanto, então me aturem]: uma madrugada na capital em que ligo na rádio universitária e me deparo com eles deixando rolar todo o vinil, na íntegra, o que me passa a imagem de esquecimento_ como se eles tivessem se deleitado com a música e esquecido de a interromper; ou como se, às 3 da madrugada, soubessem que quem estivesse sintonizado na rádio, ficaria bastante feliz daquela permissividade; outra noite, no apartamento de décimo andar da minha mãe, eu com meus 25 anos infernizados, deitado no sofá da sala, absolutamente sozinho, e alguém lá nas quebradas das esquinas além da avenida atrás do prédio, em alguma casa entre os galpões e lojas de pneus, põe a rolar em máximo volume este álbum. O som parece tomar meia cidade; parece um evangelho whitmaniano; o cara por detrás disso, uma incógnita desde sempre, sempre me pareceu algum tipo de intelectual em exaustão, explodindo esse som como para educar a  vizinhança. O álbum foi tocado por inteiro, nenhuma viatura (passava das 22), só os solos maravilhosos do Gilmour. Essa cena ficou indevassável à minha audição do DSM. A terceira experiência é que puseram este disco na minha primeira de duas fumadas de maconha; um clichê de efeitos tão fajutas que só menciono o episódio como amadurecida contemplação de minhas besteiras.) 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Segunda lei de Newton



Na metade da década passada recebi via celular esta mensagem: "Atende. Minha mãe morreu". A autora do pedido era minha mãe e a mãe relacionada, lógico, era minha avó Mirtes, que deveria ter, à época, oitenta e nove anos. Quem lesse aquelas palavras e as interpretasse sem o devido envolvimento familiar, acharia que eu era o mais desalmado dos canalhas, para que a própria mãe tivesse que me pedir direito de atenção. Mas acontece que, de maneira incontornável e gerada por anos de atritos, choques e desmandos irracionais, eu havia firmado a decisão de não mais falar com a minha mãe. Não estabelecera um prazo para esse afastamento, mas estava com a paciência tão exacerbada que bem me parecia que o tempo ideal de um rompimento desse porte fosse para sempre. Passaram-se dois anos de belíssimo sossego, no final dos quais minha mãe havia demonstrado que enfim desistira, não me telefonando, não me mandando mensagens, não obrigando que algum de meus amigos_ ou mesmo alguém completamente desconhecido_ intercedesse para que eu quebrasse o que, para ela, era meu "coração de gelo". Todas as suas tentativas batiam contra minha mais sincera indiferença, mas ela havia insistido demasiadamente. Aproveitara de sua influência jurídica e mandara em caráter de urgência duas viaturas da vigilância sanitária até minha casa para acabar com focos de mosquito da dengue; passava horas no telefone com algum colega de serviço, chorando; mandava-me presentes através de entregadores a domicílio, que acompanhavam longos bilhetes misericordiosos que pareciam escritos por uma freira da idade média. Mas eu já estava além do vexame e dos mais refinados pudores: eu abria a casa para os agentes da vigilância para que investigassem a denúncia e servia-lhes misto-quente; interrompia o colega intercessor, dizendo, com a alma leve, que eu nada tinha a ver com o fato dele ter que dar atenção à minha mãe; e ficava com os presentes, jogando os bilhetes na cesta de lixo, pois devolvê-los era também uma forma de mostrar que me importava.

De maneiras que era óbvio que algum fato terrível me aguardava por detrás daquela bonança de liberdade em que, finalmente, eu fazia jus à realidade de ter mais que 30 anos e ser independente. A morte de minha avó me pegou em cheio. Aquelas frases concisas da mensagem insinuavam tantos estados de espírito, tantos arrependimentos e necessidade de consolo efetivo, que, no meio da perplexidade de ter que aceitar o encerramento da única entidade no meio das individualidades enfadonhas que compunham minha família, tinha que aceitar também a hipótese de que aquele tom calmo, superiormente digno que minha mãe impusera naquelas palavras mudavam minha concepção dela. Era como se, com a morte de minha avó, minha mãe enfim encontrara o seu remanso na existência, suavizara-se. Mas eu já estava longe de qualquer caminho de retorno, e por isso, desliguei o celular, não informei a ninguém o meu paradeiro, e procurei um refúgio. Um amigo que conhecera a minha avó ainda conseguiu me encontrar, antes que eu saísse, ao que informei-o da verdade: minha avó falecera.

Sempre tive imensa curiosidade por meus antepassados. O pai de meu pai era índio. Gostaria de saber de qual tribo, como ele se miscigenara, em que ele acreditava, como era a sua voz, como ele tratava as mulheres de sua vida, qual a verdadeira concepção que meu pai tinha dele. Conheço em excesso o que se pode conhecer da família por parte da minha mãe, mas nada, ou quase nada, das inúmeras derivações regressas de tios, avós, primos, que compôe as miríades de parentes do meu pai. A mãe de meu pai, que faleceu aos 95 anos, era descendente de espanhóis, tinha belos olhos azuis e traços tão finos e delicados que sempre me ajudavam a cogitar os fabulosos acidentes da sensibilidade que fizera com que, há 3 gerações, os conluios de casta aceitassem que um silvícula arrombasse suas rígidas crenças sociais pela porta da frente. Ela tinha o encantador nome de Dercídia, que nunca vi mais em nenhum lugar, e ele se chamava pura e simplesmente João. No funeral do meu avô, a lembrança de meus oito anos retêm a sala de sombras taciturnas no velho casebre em que sempre moraram, o caixão estendido numa mesa de centro, as velas tristes que eufemizavam a cena aludindo à certeza muito mais terrível de que nunca haveria um reencontro; um casal de pobres para quem a pobreza nunca assustara e nunca lhes representara nada. Entre tantos mistérios da ignorância que dominava os ocupantes daquelas esquecidas cidadezinhas do interior, o que mais me chama atenção é o do poder indefectível para que fizessem sempre as escolhas erradas, que acabariam, assim que dado o primeiro e inconspícuo passo em direção aos seus destinos encerrados, com o restante de suas vidas. Nunca existiram duas pessoas tão incomensuravelmente incompatíveis quanto meu pai e minha mãe. Eu sou fruto de uma coalizão errática e impossivel. Apenas às minhas custas prova-se o desastre de duas retas paralelas que nunca se encontrariam terem se tocado no infinito. A unica comunhão que aquela criança de oito anos tem com seu avô, por isso, foi a do medo, o banal e ridículo medo do morto, que minha mãe incutiu na minha cabeça à custa de me proteger da influência daquela pobreza acentuada que só ela via. Tantos recados e sinais perdidos, tantas fotos que meu olhar deixara de apreciar _ o casal jovem e belo pintado em tons de azul claro na moldura abaulada_ apenas porque era fresca a impressão da importância da experiência que eu representava entre dois universos avessos, e quanto antes trouxessem a mim para o lado certo, melhor seria.

Eu puxei em tudo a família do meu pai, o que serviu a dar ares de arte superior às condenações que minha mãe me infligiu por toda a vida pela minha preguiça, a minha falta de ambição, o meu descaso corporal, a minha propensão doentia à lentidão, ao meu olhar vagaroso, à minha índole do músico em substituição à selvageria ostensiva do comerciante. Mesmo me formar numa faculdade foi o resultado de muita determinação castradora por parte dela, porque o Velho Índio sem nome e desconhecido o qual o distante cadáver proibido representava me acenava a deixar tudo e me enfunar num desaparecimento filosófico em algum lugar suave e perigoso no caminho oposto daquilo tudo. 

E minha avó Mirtes, somente ela, oferecia o grau de semelhança que permitia que me identificasse como pertencente à família de minha mãe. Minha avó Mirtes era uma exilada, alguém que perdera tudo, fora reduzida à estaca zero, a um impossível recomeço. Ela era professora doutorada, naquele tempo em que as professoras eram respeitadíssimas, falava três idiomas, era o que se chamava uma mulher de casta, vinda de uma família patriarcalista composta de juízes, advogados e médicos. Depois de ter dado 5 filhos a meu avô, meu avô a trocara pela empregada doméstica da casa. Isso foi algo pior do que a morte para uma mulher carregada de princípios católicos, de preconceitos de classe. Qualquer outra mulher desmoronaria. Seu filho mais velho tinha 11 anos, os outros quatro mal a viam por estarem confinados nos célebres e europeizados internatos daquela época. Ela abandonou tudo, recusou-se à disputa judicial impossível, à menção de desforra violenta por parte de seu pai e seus irmãos, ao apego doentio baseado na lástima eterna a seus filhos. Chamara dois advogados da capital e, educadamente, sem alterar as feições, fizera meu avô assinar o divórcio. O divórcio, na década de 50! Deixou o cargo de professora/diretora que tinha na escola, e, com o pouco de  dinheiro que tinha, foi para os Estados Unidos. Escolheu esse país pelas razões óbvias de a América ser, naquela época, A América_ e por dominar o inglês. Passou fome durante um massacrante período, mas a vejo invergável em suas roupas distintas de professora, seus grandes óculos escuros, sua maquiagem impecável, seu arsenal de palavras bem pronunciadas, sua incapacidade para a lamentação. Enquanto penava por lá, a esposa substituta de seu ex-marido fazia a cabeça de seus 5 filhos a aceitarem a inversão de verem nela a madrasta má, que renegara e abandonara os filhos, a mulher sem sentimentos, a alienígena. Por todos os anos em que minha mãe a mencionara e eu apreendia a conversa alheia entre adultos com minha atenção curiosa, minha mãe a tratava como "a Mirtes", aquela mãe convertida em madrasta que era obrigação odiarem-na, um judas para a malhação. Das poucas vezes em que a Mirtes atravessara o continente com o único propósito de visitar aos 5 filhos, estes eram escondidos dela, a empregada usurpadora já tendo-lhes inflamado tanto ódio e terror que não sobrava nem a mais leve consideração humanista.

Eu fui, por muitos anos, seu primeiro e único neto, mas não a conhecia. Como seu nome era raramente falado, e o ódio fora suplantado pela indiferença, a impressão que eu tinha era que ela não era desse mundo, ela era uma espécie de fantasiazão exuberante para a qual esgotara-se todo tipo de piada e curiosidade. Ela era a Mirtes que fora para os Estados Unidos, alguém em franco estágio de esquecimento coletivo. Quando tinha dez anos, surpreendentemente, começaram a me chegar as cartas. Longas cartas em papel apergaminhado amarelo_ ou o amarelo se firmou para mim pelo efeito do tempo_, escritas em uma letra bonita e disciplinada, que mesmo naquela época já me parecia antiquada, e assinadas, ao final das caudalosas 5, 6 ou 10 páginas, com seu nome e sobrenome. Ela achara, finalmente, alguém a quem pudesse quebrar o silêncio, o seu neto miscigenado que, assim como ela, também partira de uma aventurosa estaca zero, também era um alienígena. Não sei por quais bases ela intuira a minha sensibilidade, mas vejo isso como uma prova cabal de sua inteligência superior. Ter sabido, sem um traço de dúvida (como via nas cartas), que eu representava um novo começo, o fim de todas as vagas de sofrimento e atraso do passado do qual ela fugira e o qual lhe era violentamento ofensivo, era de uma lucidez extrema, e tanto era mais certo isso porque ela me alertava que isso não era nenhum privilégio, eu sofreria horrores por ser incompatível tal como ela o era.

Essas cartas eram vistas como coisas inofensivas por minha mãe. Cartas singelas de uma avó ausente ao neto que nunca iria conhecer. Deveriam falar as trivialidades das cartas, os "oi como vai", "abraços com carinho". Mas eram cargas de desforra acentuadas para uma criança de minha idade. Talvez esses textos foram meu primeiro contato com a literatura séria, ou mais, com as verdades fundamentais do homem, as torpezas, as injustiças, a crueza das relações familiares, a farsa do amor constitucionalizado, os dogmas do povo antigo que só geravam ódio e hipocrisia. Eu reconhecia a grande confiança que minha avó depositava em mim ao me erigir o receptor daquelas confissões. A ausência, o tempo, a geografia, haviam me dado, em compensação ao amor da avózinha dos pães de queijo, o tesouro de uma avó maquiavélica, na mais genuína e vantajosa acepção do termo. Suas cartas, que eu ainda as conservei as principais, formam o único testamento genealógico que tenho da história da minha família_ mais, formam o único testamento da minha família inteira.

Ali estão os 5 benéficos anos em que ela trabalhou com Vladimir Horowitz, o "mais gentil dos homens", o tempo em que trabalhou para João Gilberto, o" mais desprezível dos homens", suas viagens pela Europa e Canadá, seus estudos de aperfeiçoamento universitário, o dia em que ganhou a cidadania norte-americana, nos mais de 35 anos que vivera nos EUA antes de retornar em definitivo para o Brasil, no começo dos anos 90, quando a conheci pessoalmente. Por isso o meu impacto diante a informação de sua morte, e minha decisão de que pouco representaria ir vê-la naquele momento. Duas semanas depois, o meu amigo ao qual mencionei a morte de minha avó me telefona, simulando ira. Por algum motivo de consulta jurídica ele telefonara para minha mãe, e, findo o diálogo, aproveitou para dirigir a ela os seus pêsames. "A morte de minha mãe?", minha mãe retrucara, surpresa, e logo lhe respondera: "mas a dona Mirtes não morreu, ela está viva. Quem lhe disse isso?". Eu fui dominado por uma onda de surrealismo e caí numa gargalhada convulsiva ao telefone. Meu amigo chorava de tanto rir. "Quer dizer então que você está este tempo todo acreditando que sua avó está morta! Puta que pariu!". O ùltimo estratagema da minha mãe.

Há duas semanas a Mirtes me ligou, aos 96 anos, perguntando se havia algum perigo de que uma das araras que lhe bicara o braço pudesse lhe transmitir raiva.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ápice


É hora de os cristãos deixarem de ter medo da história. (Jean Delumeau, da introdução de História do Medo no Ocidente.)

Emaconhado


Há uns três meses recebemos aqui em casa um casal de amigos que não víamos há muito tempo. Pelo telefone já havíamos, eu e e meu amigo, arrumado a celebração do reencontro com o compromisso de que cada um de nós dois levaria uma garrafa de vinho do Porto, nossa bebida de compadres preferida. Assim foi. Sentamos os quatro_ a esposa dele e a minha juntas_, num barzinho aprazível ao qual sempre íamos quando ele morava nessa cidade, um pub que já desmente o conceito por ser a céu aberto e tomar o espaço de uma magnífica praça de frente em que colocamos a mesa e ficamos ouvindo as copas das palmeiras antigas sendo assoladas pelo vento. Dali víamos o boteco que tem na outra esquina, e que tem um valor emocional fundamental pois seria ali que abriríamos um bar temático de boa música que se chamaria Dig A Pony, se esse meu amigo não tivesse se mudado para a capital. Abrimos os vinhos e fizemos os pedidos ao garçom. Das minhas bebedeiras, nunca perco o controle sobre mim mesmo e nunca tenho o desmemoriamento sobre minhas ações que é costume entre outros bêbados, mas o que seguiu nessa noite não me recordo em nada. Isso porque, após os cálices de educação que cada um dos quatro bebeu, apenas eu fui sorvendo o vinho enquanto conversava. O resultado é que deixaram, inconscientemente, que eu tomasse praticamente sozinho as duas garrafas dos Porto.

Apesar de eu ter provado maconha em duas ocasiões, e ela não ter feito nenhum efeito sobre mim que não uma diarreia nababesca, sempre assimilei o grau de beatitude que o Porto me causa como um psicotropismo canabiliano. Eu fui um inveterado tomador de vinhos do Porto antes de me casar, o que resultou em rituais que me levavam próximo a uma percepção xamânica. Com duas garrafas na cabeça, feito que nunca havia testado antes, esses meus amigos e minha esposa disseram que eu fiz discurso, contei piadas além da conta, olhei com atenção despropositada às mínimas observações sociais feitas pelos integrantes da mesa, como se eles estivessem dizendo uma verdade sobre a existência. E, o pior dos piores, os três que estavam ali deixaram que eu entrasse no carro e dirigisse de volta à casa, tendo antes feito um tour pela cidade. Eu escutei todas essas coisas com um espanto estático, tentando perceber logo o momento que eles revelariam que tudo era uma brincadeira da parte deles, mas me dei conta do diagnóstico assustador de que era uma mera reportagem de eventos fieis à realidade, pois eu não me lembrava em definitivo da noite anterior. Mas eles me acalmaram, quando viram a gravidade da minha amnésia, ao dizerem que eu fiquei extrovertido além da conta, mas não fiz nenhuma besteira. A esposa do meu amigo, uma mulher que dos três havia maior anterioridade de conhecimento comigo, e por isso é a amiga por direito que pode falar tudo sem direito a melindres e ofensas, titubeou um instante antes de abalizar tal sentença, como se, afinal, eu tivesse subido na mesa ou mijado em uma das palmeiras na frente de todos, cantando We´re not gonna take it. Mas não; ela disse: é, você estava um tanto intenso em  excesso, o tipo de coisa que só vemos ser anormal em retrospecto

Pois o vinho do Porto me causa um grau que me lembra uma serotonina demasiadamente açucarada sendo liberada na região de trás da minha cabeça, anestesiando a minha nuca. Eu fico emaconhado. Coisa parecida, entre todos os discos de jazz que mais amo, acontece só quando ouço Go, do Dexter Gordon. DG apita de um jeito por aquele saxofone que tem sobre mim o mesmo efeito bestializante de um antigo desenho da Disney, que não me recordo senão do enorme urso que se docilizava quando ouvia uma determinada sinfonia. Assim quando escuto a primeira frase de sax despreocupado de Cheese Cake, e seguindo adiante até a bateria de mesa de botequim de Love for Sale. Cioran escreveu, em um de seus aforismas: "para que reler Platão quando um saxofone pode nos fazer entrever igualmente outro mundo?". Ontem estava ouvindo, à noite, Go, mas tomando um cabernet e não um Porto. Nessas extremas alegrias que a leveza da existência, a falta de conhecimento mínimo sobre qualquer mistério, provoca nessas horas, fez com que eu seguisse o conselho que um dia vi num adesivo colado acima do lugar aonde fica o motorista do coletivo, com o aviso: SÓ FALE AO MOTORISTA O ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO; ao que um chargista fez um passageiro se virar para o motorista e dizer eu te amo. Mandei um e-mail para um amigo virtual com a pergunta acreditas em Deus?. Tal amigo havia me enviado um e-mail clamando do tédio que é a neve e a bonomia eterna de um país tão diferente do nosso. Dessas coisas que a falta de um companheiro de bebedeira causa mesmo nas incruentas noites de sexta-feira.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Já esgotou!


Solicito o que seriam "meus pedidos do mês" para a gatíssima funcionária do departamento de divulgação da Companhia das Letras, e recebo a informação auspiciosa de que O Professor do Desejo, de Philip Roth, um de meus pedidos, está esgotado na editora. Não deixo de ficar meio que tomado por uma pontinha de bobo orgulho ufanista: pô, em poucos meses de lançamento, e um livro de Roth teve toda a sua edição vendida no Brasil! Corro à Livraria Cultura e o encontro lá, ainda à venda, e compro-o imediatamente. Vai que ele se torna o novo Leilão do Lote 49, um objeto de disputa que tem-se que economizar uma pequena fortuna para adquiri-lo em sebos?

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Fantasmas de ocasião


Eram dois velhinhos muito velhos. Eram tão velhos que olhá-los desmerecia qualquer pensamento de continuidade, como se ficasse claro na mente do observador que o momento ocupado no tempo e no espaço por eles era tão indelével que já no outro dia eles não teriam o direito de estarem na memória imediata. E foi assim que desapareceram por completo da minha memória, após ter transcorridos uns dois meses da minha juventude em que os via descendo no elevador quase todos os dias, com suas surpreendentes caras estereotipadas de judeus sefarditas itinerantes, vestidos de  casacos cinzas e com absurdos sacos pesados nas costas. E voltei a pensar neles por algum remanejamento do olhar ontem no apartamento de minha mãe, quando observava pela janela o pátio de estacionamento dez andares abaixo, com seu falso ar de abandono que a chuva contínua outorgava ignorando os tantos carros em placidez imóvel estacionados por sobre os números das vagas. Lembra daqueles dois velhinhos judeus muito velhos que moravam, acho, no sétimo andar?, perguntei à minha irmã. Ela olhou pouco abaixo do teto, enquanto arrumava o zíper da bagagem a ser levada para um congresso em São Paulo, procurando pela lembrança, e só repetiu velhos muito velhos no lugar da negativa. Descrevi-os por alto, a excessiva educação quando me viam entrar no elevador, uma subserviência pungente de abaixarem as cabeças quando eu perguntava se me davam licença para entrar, que eu passei a sempre perguntar para apreciar novamente seus sotaques de deserto e suas inflexões gnômicas em dizerem em suas costuras de português, poir favor, entrre, esteje a vontáde. Eram tão educados que me passavam a impressão que queriam se livrar de mim o mais rápido possível, uma humildade de foragidos que ofereceriam o lombo para serem deixados em paz, com o cimentado contentamento dos sobreviventes que se adaptaram à invisibilidade. Quando eu entrava eles se calavam por completo e mantinham as cabeças baixas; dois irmãos cujas dessemelhanças se evidenciavam por debaixo da linha de uniformidade das roupas cinzas, da fragilidade cujos sacos pareciam ir quebrá-los em diversos fragmentos. O mais novo transmitia a pureza desnorteada dos idiotas da família, tinha olhos vesgos que exumavam um tipo de docilidade oriental que era o suprassumo da inocência. Como um comerciante sobrevivia com aquela aparência?, eu pensava, e um comerciante com o gene da astúcia judaica! Talvez fosse o poeta desmerecido, a ovelha negra. Por isso, por ter que chamá-lo às honras do sangue, que seu irmão_ um tipo enfezado com olhos aterrados no solo insofismável da realidade_ sempre lhe passava as mais cortantes reprimendas, que eu presenciava em esporádicas ocasiões em que os via nas ruas próximas ao prédio, eles estando certos de terem desaparecidos no ar e seguros dos olhares alheios. Não, definitivamente eu não me lembro deles, minha irmã disse.

Na janta, lembrei-me de tascar essa pergunta à minha mãe, completando a descrição do segundo irmão com rompantes sensíveis que sempre me odeio depois por ter agido inadvertidamente como um homem apartado demais para o mundo literário_ um homem que lê em excesso, vejo a crítica subjuntiva nos cantos de enfado dos olhos de minha mãe, enquanto ela sustem o garfo próximo à boca. Acentuo que o irmão mais velho tinha uns olhos crivados dos fanáticos, mas os fanáticos pela vida, por tudo que seja tocável, material, sistematizado, o sujeito dos números mas não do universo nupcial da matemática com as especulações metafisicas. Deveria tratar deus como um mero sintoma inquestionável da geometria sólida pela qual transitava beneficiado pela permanência aguerrida no mundo. Um homem de certa forma perfeito, em sua obliquidade a todos os julgamentos. Não, não me recordo desse senhor, sentencia minha mãe, retornando ao jantar e ansiosa por passar para outro assunto. Hoje, antes de retornar para casa, paro no casebre da viúva do zelador que mora no prédio desde os primórdios e puxo os assuntos triviais até que o clima esteja maleável para lhe encaixar a pergunta. Dois senhores?, a viúva repete olhando para o topo das plantas no jardim. Ela faz uma lista ligeira dos muitos velhos que habitaram ali uma vez ou outra, mas nenhum sendo esses dois profetas bíblicos dissidentes. Lembra de tantos outros os quais eu não me recordo. Me dá um sorriso de desistência, antes recordando que houve alguns meses que ela e seu marido saíram de licença prêmio, tendo passado períodos distantes do prédio. Entro no carro cogitando da teoria dos kardecistas de que os mundos do aquém e do além não dividem uma fronteira precisa, havendo quem de um e outro desses mundos penetre no que julgamos ser a fase de sonho que transcorre em cada um deles. Me vem as disparidades tardias que eu não havia cogitado antes, do porque verdadeiramente dos dois levarem aqueles sacos pesados nas costas, qual feira comportaria entidades tão desenraizadas da urbanidade citadina do final do século XX?; por que se vestiam com tecidos que pareciam rústicos sacos de batatas?

Na conversa pela webcam agora há pouco, entre minha esposa e minha mãe, eu torno a perguntar simulando brincadeira pelos velhos. Minha mãe me lembra as febres cerebrais que eu tinha na infância, o gigante que brincava de ciranda com crianças na esquina, a teimosa certeza de que eu voava até os postes de luz e me sentava nos fios elétricos até me dar na telha voltar. Rio sem  naturalidade mas solto a seguinte frase, que ela não ouvirá mas a deixará enfadada até o nível da irritabilidade: Tenha paciência comigo, mãe, que estou esquecido. Podes segurar abertos mais um pouquinho esses teus olhos tão pesados e tocar teu instrumento, nem que seja dois acordes?