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| Didatismo perdoável da foto diante a falta de tempo em procurar uma mais condizente |
O que um objeto de consumo não faz! O fato é que depois que trouxe a nossa televisão de quarenta polegadas LED da loja para casa (na verdade trouxeram-na, naqueles caminhões), e a coisa estava bem instalada em seu pedestal por sobre o raque da sala, como uma evidência da mais perfeita e sofisticada matemática alienígena, minha esposa suspira, olha para mim agradecida e diz: "e pensar que quando nos conhecemos você tinha uma televisão de quatorze polegadas, com disco rotatório para a mudança de canais, e queimada de um lado...". Eu olhei-a de volta um tanto desconfiado, ou mais precisamente um tanto tendente à decepção, pois tanto ela quanto eu e as crianças afinal pouco ligamos para ébanos formidáveis e as luzes coloridas, e era estranho ver que ela estava por começar um discurso bem consumista do tipo "como éramos antiquados e não sabíamos". Mas a Dani, mantendo as expectativas de caráter desses oito ou nove anos em que nos conhecemos, arrumou a conversa, ainda que meu espanto mudava de rumo para uma cômica lucidez em me mostrar o quanto eu era um personagem de Thomas Pynchon e não sabia. Rimos bastante; eu caí numa sucessão de gargalhadas compulsivas que me tirou lágrimas dos olhos e me fez doer o diafragma. A Dani: "geralmente, ou em quase absoluta percentagem dos casos, as mulheres são levadas a terem interesse pelos caras que tem carro, que demonstrem um certo poderio financeiro, uma certa expectativa futura; daí que você nunca poderia duvidar de meu amor, pois na época em que passamos a namorar você morava em uma casa que havia sido um puteiro, aonde cinco pessoas haviam sido assassinadas; nós andávamos por toda a cidade à pé; e quando nos deitávamos no colchão da sala, assistíamos a uma tv queimada de um lado."
Olhando a cena como um evento isolado não se pode culpar de dar-se ouvidos aos tantos diagnósticos analíticos de que tais revelações se façam diante um aparelho de televisão. Passei uma semana em progressivo arrependimento por ter comprado a tv e ter sido engolido por um surto de consumo: comprei, um dia depois, um aparelho de blue-ray, e assinei canais a cabo. Enquanto mantinha a satisfação semi-risonha da posse, cada vez mais eu percebia a nova tv como uma ameaça ao trabalho de três anos de educação que eu vinha promovendo com meus filhos. Imaginava-os definhando em seus interesses demasiadamente sinceros em virem para meu colo carregando um livro e pedindo para que eu lesse para eles. Pensava com amargura cada vez mais acentuada que eu acabara de decretar o fim de uma etapa festiva, e outra começava, em que a vulgaridade da tela tomaria conta dali para a frente. A Dani e eu ríamos, e na minha versão do que ela dizia, ela aparecia como uma mulher a qual a providência me enviara em uma época em que eu estava enojado do tipo de mulher em que os utensílios comezinhos da sedução financeira eram as peças indispensáveis para a atração. Há tantas coisas que eu não falo para ela, e que ela ficaria cheia de estranhismo se eu falasse. Não o falo pela minha predisposição inconsciente de não falar muito de mim (escrever sobre mim é outra coisa).
De forma que me peguei contando para ela sobre as últimas moças com quem tive um affair, antes de que nosso namoro começasse. Eu estava passando por uma espécie de crise dos trinta anos, me sentia envelhecendo rapidamente. Essas mudanças súbitas sempre ocorreram comigo; eu era um magricela chamariz de assaltantes quando andava pelo centro da capital, e em um mês de férias do segundo ano de faculdade, de repente, como o Capitão América, uma série de hormônios se ativou em mim e eu ganhei corpo; perguntavam se eu estava malhando e consumindo esteroides. Assim foi com meu profundo cansaço com as mulheres, em meus trinta anos. Não tinha mais um pingo de paciência em enfrentar as preliminares, as conversas sobre nada, os sorrisos cosméticos, as mentiras e danças avestrusinas de acasalamento. Uma dessas moças me chamou atenção pela beleza desprotegida, e por ter me dito, enquanto servia o café no bar de manhã, que seu plano de vida era estudar jornalismo. Senti um reascender de interesse ao descobrir que ela tinha Aurora no nome. Saímos um fim de semana e como foi difícil engolir aquele pedaço de peixe frito com goles de cerveja enquanto escutava ela falar sobre o concurso municipal de miss que havia ganho em seu povoado natal; faltava-me assunto, e eu me vi com todo o peso da idade que se me apresentava como uma verdade insofismável na frente daqueles campos de sol em que a juventude dela se mostrava despudoradamente. Meus recursos literários se apresentavam em overdose: para cada frescor da moça, me vinha a certeza de que eu gastara muito tempo da minha vida com os livros, e agora estava perdido em definitivo para aquele tipo de trivialidade. Lembrei do repúdio de V. S. Naipaul olhando a pele branca de uma mulher nua que acordava de seu lado, "como um pudim"; lembrei das memórias de Camus no Brasil, sentindo um tédio mortal diante uma mulher que se esfregava libidinosamente nele. Eu olhava para o rosto lindo, os olhos recém entrados no emprego da astúcia e do auto-conhecimento do poder que tinha com seu corpo, mas já mestre por intuição em todas essas artes, e só me vinha a imaginação calma de como era possível entender em primeiro plano um assassino serial a quem não interpunha nenhum sentimento de remorso em estrangular aquele pescocinho sobre o qual pairava uma cabecinha tão estúpida, tão corrompida desde cedo pela influência fácil das exigências da velha mídia. Dois dias depois ela bateu em minha casa com uma cara de choro, um biquinho da boca disposta a tudo, desde que eu pagasse um ensaio fotográfico para ela em um estúdio local, algo imprescindível para a sua carreira de modelo e que a livraria das labutas do emprego de garçonaria.
Minha esposa ouvia enlevada e em completo silêncio (uma reação assustadora vindo dela, e que só me motivava e falar mais, visto o perigo de tentar compreendê-la tão rapidamente). Passei para o segundo caso de campo, uma moça linda, alta (omiti a enfática sobre esses detalhes), com quem saí por uns dois meses em um relacionamento aberto e sem compromisso, mas que tive qualquer vestígio de vontade de encontrá-la novamente desaparecido quando ela me mostrou um álbum de retratos. Ela tinha uma fimbria mais enérgica e mais estoica diante a realidade do que a primeira, o que me fez suportá-la por mais tempo. Era um tanto louca e abusada, sem biquinhos; deixava a porta de casa aberta para mim e eu a encontrava de bruços no tapete em sono profundo, o short meio deslocado da cintura, a camiseta mostrando a lisa barriga morena, e a cara de absoluta entrega ao sono. Era muito natural e tinha indícios de deficiências saudáveis de higiene (nada inusual, mas correspondente àquilo que um escritor cubano da moda disse ser inerente e indissociável ao sexo). Mas aquele álbum de retratos... uma mãe e um pai de rostos tão desarmados, uma casa com móveis de fundo mostrando tanta disciplinada luta pela aquisição, um banho conjunto em um rio em que as pernas e seu corpo escultural acusavam um não sei o que em que ela não se esforçava muito em disfarçar, uma infância impossível de desaparecer mesmo aos 22 anos, uma linha vestigial nítida demais que a ligava àquelas antigas necessidades, tanto que para isso ela saíra de casa e para isso ela julgava que tinha que conduzir a sua vida, para a supressão necessária do idílico_ uma forte e quase doentia lucidez filosófica de que tudo era transitório e ela deveria se aprumar o quanto antes possível para não ser destruída pelas mudanças. Mas ela era tão suavemente despreparada para isso. Eu olhava para aqueles velhos rostos de seus pais nas fotos, que apostavam em uma capacidade de competência a nascer nela do nada, e sentia uma bruta de uma vontade de sair dali e não vê-la nunca mais. E foi o que fiz; só voltei a vê-la na fila que se formou na capela onde acontecia o velório de um rapaz, um dos filhinhos de papai da cidade morto a tiros em uma de suas desforras de poder, em que ela parou por um momento diante do cadáver posto no caixão, tocou com sua mão o ombro da mãe que chorava e olhava a todos com um descompasso de incredulidade, e de seu rosto mesmo corria tantas lágrimas que não pude evitar de pensar nos graus de catarse pública daquilo.
Nunca me contara essas coisas porquê?, a Dani perguntou, se achegando em meus braços, a grande televisão como o monólito kubrickiano observando tudo com uma sultanesca indiferença de frente a nós. Sei lá, às vezes os personagens reais de Thomas Pynchon precisam de motivadores do fino lixo mercadológico para se fazerem mais legítimos.