domingo, 24 de fevereiro de 2013

Nesse domingo desterrado do infinito (relendo "O Leilão do Lote 49")

PELO AMOR DE DEUS, COMPANHIA, REEDITEM ESSE LIVRO!


Esse é um dos livros mais pedidos para que seja reeditado no site da Companhia das Letras. E um dos livros esgotados mais caros disponíveis no site da Estante Virtual _ tirando, claro, as pequenas fortunas cobradas por coisas como a primeira edição de Mein Kampf e a primeira edição de Grande Sertão: Veredas. Como parece acontecer na editora, os funcionários responsáveis pelas indicações de relançamentos esperam até o último nível do martírio para saciar os leitores; fico imaginando-os sentados torcendo as mãos e dando grandes gargalhadas sádicas diante mais uma solicitação incauta de "pelo amor de Deus, reeditem esse livro". Eu mesmo, sempre que via o Teatro de Sabbath pelo preço de 120 reais em oferta nos sebos, tornava a enviar um pedido que, após uns segundos intermináveis de riso compulsivo, os referentes senhores literários da Companhia simulavam responder: "Essa porta foi criada única e exclusivamente para você e nunca será aberta. E agora que me perguntastes, vou embora". Dois casos que mostram incrível renitência: os muito cobrados Extinção e O Náufrago, de Thomas Bernhard, continuam fora do prelo, por mais que o potencial de vendas desse grande autor austríaco seja um fato inexorável. (Ano passado a editora, finalmente, relançou, ainda que em pockett, o Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt.)

Pois bem, O Leilão é uma maravilha. É o Pynchon brincando com as palavras em estado de plenitude. Suas duas primeiras páginas são tão perfeitas, brilhantes e iluminadas, que sempre me causam uma espécie de desobstrução mental quando as leio. É ler o assombro da personagem diante o que o destino consubstanciado na ortodoxia cartorial da realidade americana do final da década de 60 lhe apronta, e um descongestionamento ampliando pela nuca acontece em minha cabeça. Leio essas palavras sentindo a felicidade extrema que toma Pynchon ao escrevê-las. Ali ele já propõe, traça a trilha da intuição do roteiro, e executa com uma leveza mestre tudo o que aprendeu nos campos literários e na percepção do esoterismo da existência. Há uma profundidade bastante séria na leveza desse livro, que só se assemelha à exploração filosófica de Kafka e William Blake. E a grandeza de O Leilão está, paradoxalmente, na contra-mão da grandeza dos outros monumentos literários do autor: é um jogo de enigmas que não esconde ser uma narrativa pura. É o mais flaubertiano romance do mais sterneano dos romancistas. Eu faço constantemente o teste: abro em uma página a esmo e leio, e o quanto me surpreende ver que são as frases mais simples e diretas de Pynchon. 

A leitura de Pynchon sempre me causa uma alegria praiana, como se eu revivesse lembranças de uma reencarnação passada que me encontra no meio da simpatia conjunta dos hippies sessentistas e dos out-siders arthurianos que os gerou. E essa alegria é a mais depurada quando leio O Leilão. Harold Bloom, um dos propagandeadores de Pynchon, disse que esse romancinho está entre os maiores do século XX. Eu concordo em absoluto.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Memorial dos vagões escuros


Há uma diferença de visão quanto a assassinos seriais que revela o tipo de fixação iconográfica pela cultura de morte violenta tida nos Estados Unidos e em alguns países da América Latina. Os EUA, país por natureza onde esses assassinos ganharam uma personificação elegante que os aproxima de anjos sentenciadores atrás de catarses pessoais na escolha de suas vítimas, alimenta uma indústria em torno de seus matadores seriais que parte da vedetização de rostos estampados em camisetas até o leilão de objetos periciais de cena de crimes_ o que revela a prestimosidade e corrupção das instituições do estado na séria e organizada exploração desse nicho de mercado. Tudo é feito num nível de elevada sofisticação do fetiche, numa mestria em depurar todo sinal de tragédia e sofrimento de vítimas e sobreviventes, oferecendo a assepsiada plasticidade com a mesma inofensiva beleza da logomarca, de tal forma que essa vanguarda do gosto transfundido para o campo sem culpa muito além da moral é uma das revoluções de marketing que os EUA pode vangloriar ter criado. O assassino serial é vendido com a mesma catarse com ligações imediatas com a felicidade que uma Coca-Cola; mesmo consumidores que não adquirem a reprodução direta do rosto de Charles Manson em uma caneca usufrui do produto pelas inúmeras formas de compras derivadas de jornais, dos filmes, dos livros, música e dos canais a cabo, dedicados em primeira instância a repercutir o êxtase do assassino.

Uma das cenas clássicas no imaginário americano do angelicismo do assassino serial é um homem solitário andando a pé por uma das grandes rotas continentais que cortam o país, usando jeans e cabelos compridos, óculos redondos e barba, transmitindo o anacronismo perigoso mas irresistivelmente sedutor de alguma antiga ideia morta, o hippieismo, a dissolução sexual novidadeira, as aventuras do mar de um marujo caído em desgraça expulso da corporação, a abstinência voluntária ao capitalismo. Esse homem é um desagregado social e um justiceiro cuja falta de profundidade filosófica em  seu gosto para matar é parte de sua liberdade e sua ausência de peso (ele próprio é a lei e não a hermenêutica em torno da lei), e por isso é tão imprescindível parar o carro e deixá-lo se sentar no banco do passageiro. É tentador se submeter a ele, no isolamento do deserto idílico do país onde os sonhos são creditados à predisposição histórica da miscigenação racial e de uma geografia para a qual convergem os perseguidos e os desgarrados; o povo revolucionário sob a crença redentora da democracia e do protestantismo, a terras ilimitada por onde vagabundos inominados transitam por todos os cantos antes de se tornarem executivos dirigentes de mega-empresas. Aceitar que um assassino serial entre no carro é entrar em contato físico com os poderes da história, ter a oportunidade de uma conversa com Deus, como no episódio de Star Trek em que os tripulantes da Interprise atinge os limites do universo onde Deus mora; Deus com sua pureza de intenções cuja mente inapropriada de seus interlocutores não consegue perceber nada além de uma maldade apurada e ultra-exponencial.

Essa característica divinatória do assassino serial vem tanto da sensação de plenitude anestesiada da ideia de viver-se na Jerusalém do consumo americano, em que a aproximação desarmada ao assassino nos retira do torpor, quanto do desdobramento último a que chega a progressão dessa catarse na fulgurante revelação de que ele_ o assassino_ representa a acusação de nossa falsa posição, de nossa queda em um engodo que simula plenitude mas é apenas a simples corporificação da compra e venda rotineira. A astúcia do produto não consegue ir além do esgotamento de seu conteúdo teológico supérfluo; o saciamento nunca oferecido do arrebatamento que o assassino tem a oferecer nos alivia da supressão súbita da carga de serotonina, e o pico da depressão advinda por se defrontar com a pobreza insubstancial da imagem esgotada exige que um outro prosseguimento do fetiche seja oferecido imediatamente. De nossa poltrona e do refúgio caseiro, nos agarramos a um novo pacote de aquisição que traga a sensação de pertencimento das Távolas Redondas, dos desertos inóspitos lá fora e dos cavalheiros templários de um mundo ideal e legitimo. Precisamos de recapitulações urgentes do assassino, do vagão escuro e da lâmina em riste que Manson disse quase numa abusada lírica da catarse em uma de suas entrevistas mais conhecidas.

A segunda cena clássica é a do assassino urbano, menos poético e menos independente, cujo excesso de vínculos com o material exuberante da cidade o torna atrativo por outros meios, pelo que ele consegue mostrar de animal inteligente totalmente adaptado à vida moderna. Se o primeiro é um escape para a volta da primeira utopia, o assassino urbano, em seu furgão e sua janela aberta através da qual ele alveja a vítima com um disparo acionado pela mão esquerda, é o socorro da distopia. O primeiro é uma emersão, o segundo é uma imersão. O segundo não quer fugir de lugar nenhum e não é um anjo; ninguém mais que ele está instalado com absoluto domínio e conforto em seu habitat natural. Não é um assassino esotérico como o assassino caçador das estradas, mas um assassino que tem uma similaridade com os abutres e seres decompositores do reino fúngico, através de sua função social de fazer sumir um certo padrão de lixo humano. O assassino serial urbano é o herói errático das estatísticas, o desvio padrão que na mente do consumidor é responsável por parte das cifras numéricas correspondentes a um hipotético controle populacional que não vem do câncer, dos acidentes de trânsito e dos assassinatos domésticos. Seu louvor popular calmo vem de que ele é um deus ex-machina para a solução de enredos das depravações naturais das metrópoles, para fazer abduzir prostitutas, homossexuais e cidadãos na escala mais baixa do darwinismo que sucumbem pela distração e falta de sorte. Ele é o gladiador de certa forma muito cansado, que tem algo do servidor de expediente que bate o ponto e anseia pelo sofá de casa e pela aposentadoria, que faz a tarefa de saneamento que intimamente necessita o consumidor que observa a arena de suas casas fechadas das quais nunca saem após as 18 horas. Daí que perceber a preferencia nacional por um ou outro revela em que estágio está a sociedade. Nas décadas de 40, 50 e 60, por exemplo, o assassino caçador esotérico das estradas predominava, o assassino que fez a fortuna de Truman Capote, de Cormac McCarthy futuramente, os Doors e do comércio em torno dos assassinatos Tate-LaBianca. Quando o bucolismo beatnik ficou defasado e a América entrou em sua era Reagan e seu avanço modernizador para as grandes cidades, o assassino decompositor suplantou por completo o primeiro como objeto de culto, por seu eficientismo, por seu pragmatismo contra-romântico, fazendo a fortuna de Norman Mailer, Easton Ellis, das séries televisivas metalinguísticas como Dexter, e do cinema como nunca antes visto.

Há dois casos memoráveis de assassinos serias urbanos na literatura contemporânea. O assassino que dispara do carro em Submundo, de Don Dellilo, e o assassino por detrás das centenas de mortes de mulheres na fronteira entre os Estados Unidos e o México, em 2666, de Roberto Bolaño. O assassino de Dellilo nos é mostrado de maneira muito corriqueira, muito humana, bastante longe do naturalismo opressivo e soturnamente patológico dos assassinos de A Besta Humana, de Zola. Podemos conviver com ele e compartilhar seus conflitos, na comunidade de desabafos clínicos da psicopatologia cotidiana em que todo mundo tem uma anomalia mental compartilhável. Delillo nos confronta com nossa falta de suspense quando ele faz digno de que nos espelhemos em um matador absorvido pela luminosa solidariedade da tarde. Sua compulsão por matar é regredida em importância a um nível prosaico de desconserto de perspectiva em que está submetido a artista plástica que pinta sucatas de aviões no deserto e do empresário que trabalha com a reciclagem de toneladas de lixo internacional. É o assassinato depurado de fetiche que David Fincher quis passar em Zodíaco e Spielberg em desprezar o amuleto excitável da representação do assassinato de Lincoln. Poderíamos nos identificar com um serial killer, nesse estágio de ultra-humanização motivada por nossa posição como consumidores incontroláveis para quem especulações livrescas já não conta em nada?, é a pergunta perigosa que Dellilo nos faz no excepcional Submundo, ele que pensa seus livros trancado por seis meses em quartos escuros, como disse um crítico. Já Bolaño nos oferece o assassino serial das Américas subdesenvolvidas, como nos oferece Juan José Campanella no maravilhoso O Segredo dos Seus Olhos: uma aberração de nossas moléstias do passado de aceitação política, um fantasma do sub-consciente de nossa história que se encorpora e ganha força em cada vez que os ditirambos de nosso destino traça o ato cômico de mais uma subserviência coletiva.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Dickens de Bogotá



Devo confessar que a literatura produzida na juventude dos grandes escritores_aquela escrita fresca, ainda exultantemente desequilibrada e carregada de uma auto-indulgente pretensão_ não me atrai muito. A maior parte dos "primeiros romances" que desova nas livrarias em reedições festivas por algum advento literário em torno de um velho escritor recém premiado com o Nobel, ou o Booker Prize, ou o Pulitzer, não apela a nenhuma curiosidade de leitor em mim. Basta lembrar o quanto são tristes as primeiras investidas de um Faulkner nas letras, e já me ponho bem distante dessa linha de estudo antropológico de desencavar da terra bruta da adolescência os vestígios premonitórios de como o organismo dali derivado se aprumou e conseguiu se manter em sua envergadura adulta. Porém, tenho uma exceção sentimental: os textos do Gabriel Garcia Márquez de quando ele era um efebo de 19 anos, compilados no Brasil pela editora Record no volume 1 das obras jornalísticas do autor, intitulado Textos do Caribe. Leio-os desde que eu mesmo tinha 19 anos_ foi a primeira obra do colombiano que li após Cem Anos de Solidão_ e volta e meia retorno à minha edição antiga, publicada pela mesma editora, em dois volumes. São textos frescos, muitos de uma ingenuidade corajosa em que, inadvertidamente, se revela a falta de escopo interior disfarçada pelo desbravamento algo desesperado do autor pelos seus talentos literários. Alguns, ou muitos, são francamente ruins, mas existem pérolas que podem ser colocadas entre o que GGM escreveu de melhor em toda sua bibliografia, e mais um sem número de crônicas soltas e que não falam absolutamente de nada, mas que se lê com deslumbramento.

Essas crônicas foram apelidadas pelo jovem GGM de "jirafillas", pois eram publicadas em colunas pescoçudas do jornal colombiano "El Herald". O mais curioso e gratificante delas é a energia de Márquez, sua fé inabalável na escrita, o quanto a pressa de entregar um texto por dia oferece ao leitor conhecedor de sua futura grandeza uma generosa visão na oficina de rascunhos do romancista. Há mostras claras de que Márquez já trabalhava em Cem Anos de Solidão desde essa época, o que confirma suas declarações de que a escrita dessa obra lhe custou um ano e meio de exercício físico, mas trinta anos de maturação da ideia. Tais mostras são os vários rascunhos publicados no jornal, em que aparecem os personagens ainda sem nome, ou com reparos de nomes que deixam antever suas encarnações finais, ou com nomes trocados, mas que, por mais que sejam diáfanos na concepção de seu criador, apresentam as condições básicas da solidão e da loucura triste do selo garciamarqueano. Na época, GGM oferecia seus rascunhos como sendo de "uma novela em que estou trabalhando já faz anos" (aos 19 anos!), e que tinha o nome provisório de "A Casa". Afora essas maravilhas, assinadas com o nome verdadeiro do autor, há as tantas fantasias despirocadas em que ele, talvez para marcar o caráter experimental, assinava com o pseudônimo "Septimus".

Esses outros textos tem a frescura dos sketches by Boz do Charles Dickens adolescente. Vemos nas proezas verdes de Garcia Márquez o mesmo ilimitado tiro no escuro da investida no terreno da criação que vemos no inglês, de forma que a incompreensão e o rebuscamento de algumas partes de pura febre literária perdem em clareza mas ganham em ousadia e falta de pudor, em transgressão juvenil às normas. Daí que os retratos de personagens bogotanos são deliciosos, os redatores madrugadores dos jornais; as velhas matronas das casas desoladas de sol; os feiticeiros dos povoados assolados pela chuva eterna, perdidos na floresta tropical; a índia de pano colorido na  cabeça que viaja no trem, altiva e esnobe; os tantos intelectuais shawnianos que transitam temporariamente pela cidade colonial onde nasceram mas cujos destinos é deixarem o jovem cronista esbaldado na mais profunda nostalgia ao emigrarem em definitivo para Nova York ou Paris. Esses textos são cheios de chuva, de uma graça tocante e uma certeza da predestinação  inabalável (todas as promessas feitas pelo jovem GGM são cumpridas), carregados de móveis de madeira em hospedarias transitórias. Uma certa vez, antes da internet, planejei mas não realizei a proeza quixotesca de escrever ao velho Máquez para que ele voltasse a essa imperfeição e liberdade salvadora de sua juventude, e parasse de vez com as fúteis besteiras perfeccionistas e sem gosto que vinha produzindo após Nos Tempos do Cólera

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Bolaño no livro de Javier Cercas


O começo de Soldados de Salamina, o livro baluarte de Javier Cervas, me provocou desânimo. Avancei devagar pela primeira das três partes do romance, a leitura estacava, meus olhos percorriam as estantes atrás de algum outro livro que me retirasse da obrigação daquilo. Não havia nada de novo na empreitada do autor em desvendar um evento muito secundário da história de seu país, em desencavar um escritor mediano já esquecido das hordas do passado e investi-lo de interesse pela perfídia de ter sido um misto de traidor e alguém filosoficamente consciente da inutilidade em ter escapado da morte certa para ser um mero vivente cotidiano. A narrativa de Cercas é competente nessa primeira parte, seu diálogos são precisos, suas observações mostram aqui e ali mensagens de um grande arte escondida, de um talento que ameaça desdobrar-se da linguagem jornalística e transcender da reportagem requintada para uma obra genuína, e é justamente essa suspeita que me irritava, pois a via recrudescer sempre, sem cumprir a promessa. O que atrapalhava que eu gostasse de Cercas é a enorme sombra de seu conterrâneo e homônimo, Javier Marías, e a expectativa inercial de que eu fosse obter a mesma imersão profunda dos livros de Marías nesse livro de Cercas. Mas tudo bem: enfrentemos a narrativa despretensiosa e leve, fluida tal qual um rio dos bosques espanhóis pelos quais se refugiou o personagem Rafael Sánchez Mazas. Aceitemos a grande humildade de Cercas na escrita.

Ganha-se na perseverança. A segunda parte do livro, a que se centra de vez na vida de Sánchez Mazas, oferece um Cercas excessivamente seguro de si, um Cercas apaixonado pelo tema e pela escrita, a ponto da excelência encontrada aqui formar um descompasso com aquelas 75 páginas iniciais. A segunda parte, intitulada Soldados de Salamina, é soberba, de enorme beleza e sensibilidade. Acredito que seja uma das mais satisfatórias entregas que tive nesses últimos anos. Cercas simplesmente se apresenta exultante nessas páginas. O que se poderia dizer em desfavor dele aqui seria sua desmascarada entrega à voz de Garcia Márquez: há vários períodos que emulam com abuso os cacoetes epidêmicos da leitura desprotegida do autor de Cem Anos de Solidão, chegando Cercas a copiar parte da famigerada primeira frase deste romance em alguns pontos (além de arremedos borgeanos evidentes mas não deletérios, como essa frase, encontrada na página 117: "O fato, que pode parecer estranho, não é totalmente inverossímil.") Mas Cercas, talvez involuntariamente, traz essas características (que estão longe de serem limitações) para seu lado, provocando deslumbramento no leitor quando consegue mostrar sua própria voz naquelas que são as passagens mais belas do livro. A conclusão estoica e irredimida da vida de Mazas, por exemplo, é comovente (páginas 140-1), e em nada fica a dever às melhores coisas que Márquez e Borges escreveram.

A terceira parte do livro é um deleite para os amantes da literatura latino-americana, sobretudo os leitores de Roberto Bolaño. Uma das famas de Soldados de Salamina é o fato quase errático de Roberto Bolaño ser um de seus personagens, antes de Bolaño chegar a ser o portento das letras que é hoje e antes mesmo de chegar a ser conhecido fora de um círculo restrito de literatos. Tanto que Cercas apresenta Bolaño desta forma: "Um de meus primeiros entrevistados foi Roberto Bolaño. Bolaño, que é escritor e chileno, vivia já fazia muito tempo em Blanes, um povoado litorâneo situado na fronteira entre Barcelona e Gerona; tinha 47 anos, um bom número de livros nas costas e esse ar inconfundível de camelô hippie que aflige tantos latino-americanos de sua geração exilados na Europa." E os diálogos entre Cercas e Bolaño são impagáveis. É impossível não se emocionar com Bolaño aqui (Cercas diz que as falas do chileno aparecidas no livro foram gravadas, o que sugere que são apresentadas ipsis litteris). O que imediatamente chama a atenção são as diferenças entre esses dois autores: Cercas é um escritor indissociavelmente humilde, sem nenhum pudor em reconhecer sua medianidade, tanto que se assombra ao descobrir que Bolaño leu seus dois primeiros livros obliviados (eu leio até papel caído na rua, explica Bolaño). O Bolaño de Soldados de Salamina, quando recebe o diagnóstico médico de pancreatite, diz que sonhou estar um um ringue diante um imenso lutador de sumô, e sentiu uma tristeza infinita por ver que iria morrer antes de escrever tudo que tinha na cabeça, todas as pessoas que conheceu pelo mundo e foram mortas na tentativa de externarem suas vozes jovens contra a realidade, e que não poderiam ganhar através dele a página escrita porque ele seria morto por um oponente oriental implacável. As falas de Bolaño aqui, sendo literalmente dele ou não, são obras-primas por si mesmas. Lê-se isso com lágrimas nos olhos, um aperto no coração, uma certa saudade ilógica, e um quê de felicidade incompreensível. Ouso pensar que Bolaño deve muito de seu despertar a essa sua revificação promovida por Cercas. O chileno aqui se mostra um cara simpático, acolhedor, falando de tudo com "uma estranha paixão gelada, que no começo me fascinou e depois me incomodou" (Cercas)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Não me contou essas coisas por quê?

Didatismo perdoável da foto diante a falta de tempo em procurar uma mais condizente


O que um objeto de consumo não faz! O fato é que depois que trouxe a nossa televisão de quarenta polegadas LED da loja para casa (na verdade trouxeram-na, naqueles caminhões), e a coisa estava bem instalada em seu pedestal por sobre o raque da sala, como uma evidência da mais perfeita e sofisticada matemática alienígena, minha esposa suspira, olha para mim agradecida e diz: "e pensar que quando nos conhecemos você tinha uma televisão de quatorze polegadas, com disco rotatório para a mudança de canais, e queimada de um lado...". Eu olhei-a de volta um tanto desconfiado, ou mais precisamente um tanto tendente à decepção, pois tanto ela quanto eu e as crianças afinal pouco ligamos para ébanos formidáveis e as luzes coloridas, e era estranho ver que ela estava por começar um discurso bem consumista do tipo "como éramos antiquados e não sabíamos". Mas a Dani, mantendo as expectativas de caráter desses oito ou nove anos em que nos conhecemos, arrumou a conversa, ainda que meu espanto mudava de rumo para uma cômica lucidez em me mostrar o quanto eu era um personagem de Thomas Pynchon e não sabia. Rimos bastante; eu caí numa sucessão de gargalhadas compulsivas que me tirou lágrimas dos olhos e me fez doer o diafragma. A Dani: "geralmente, ou em quase absoluta percentagem dos casos, as mulheres são levadas a terem interesse pelos caras que tem carro, que demonstrem um certo poderio financeiro, uma certa expectativa futura; daí que você nunca poderia duvidar de meu amor, pois na época em que passamos a namorar você morava em uma casa que havia sido um puteiro, aonde cinco pessoas haviam sido assassinadas; nós andávamos por toda a cidade à pé; e quando nos deitávamos no colchão da sala, assistíamos a uma tv queimada de um lado."

Olhando a cena como um evento isolado não se pode culpar de dar-se ouvidos aos tantos diagnósticos analíticos de que tais revelações se façam diante um aparelho de televisão. Passei uma semana em progressivo arrependimento por ter comprado a tv e ter sido engolido por um surto de consumo: comprei, um dia depois, um aparelho de blue-ray, e assinei canais a cabo. Enquanto mantinha a satisfação semi-risonha da posse, cada vez mais eu percebia a nova tv como uma ameaça ao trabalho de três anos de educação que eu vinha promovendo com meus filhos. Imaginava-os definhando em seus interesses demasiadamente sinceros em virem para meu colo carregando um livro e pedindo para que eu lesse para eles. Pensava com amargura cada vez mais acentuada que eu acabara de decretar o fim de uma etapa festiva, e outra começava, em que a vulgaridade da tela tomaria conta dali para a frente. A Dani e eu ríamos, e na minha versão do que ela dizia, ela aparecia como uma mulher a qual a providência me enviara em uma época em que eu estava enojado do tipo de mulher em que os utensílios comezinhos da sedução financeira eram as peças indispensáveis para a atração. Há tantas coisas que eu não falo para ela, e que ela ficaria cheia de estranhismo se eu falasse. Não o falo pela minha predisposição inconsciente de não falar muito de mim (escrever sobre mim é outra coisa). 

De forma que me peguei contando para ela sobre  as últimas moças com quem tive um affair, antes de que nosso namoro começasse. Eu estava  passando por uma espécie de crise dos trinta anos, me sentia envelhecendo rapidamente. Essas mudanças súbitas sempre ocorreram comigo; eu era um magricela chamariz de assaltantes quando andava pelo centro da capital, e em um mês de férias do segundo ano de faculdade, de repente, como o Capitão América, uma série de hormônios se ativou em mim e eu ganhei corpo; perguntavam se eu estava malhando e consumindo esteroides. Assim foi com meu profundo cansaço com as mulheres, em meus trinta anos. Não tinha mais um pingo de paciência em enfrentar as preliminares, as conversas sobre nada, os sorrisos cosméticos, as mentiras e danças avestrusinas de acasalamento. Uma dessas moças me chamou atenção pela beleza desprotegida, e por ter me dito, enquanto servia o café no bar de manhã, que seu plano de vida era estudar jornalismo. Senti um reascender de interesse ao descobrir que ela tinha Aurora no nome. Saímos um fim de semana e como foi difícil engolir aquele pedaço de peixe frito com goles de cerveja enquanto escutava ela falar sobre o concurso municipal de miss que havia ganho em seu povoado natal; faltava-me assunto, e eu me vi com todo o peso da idade que se me apresentava como uma verdade insofismável na frente daqueles campos de sol em que a juventude dela se mostrava despudoradamente. Meus recursos literários se apresentavam em overdose: para cada frescor da moça, me vinha a certeza de que eu gastara muito tempo da minha vida com os livros,  e agora estava perdido em definitivo para aquele tipo de trivialidade. Lembrei do repúdio de V. S. Naipaul olhando a pele branca de uma mulher nua que acordava de seu lado, "como um pudim"; lembrei das memórias de Camus no Brasil, sentindo um tédio mortal diante uma mulher que se esfregava libidinosamente nele. Eu olhava para o rosto lindo, os olhos recém entrados no emprego da astúcia e do auto-conhecimento do poder que tinha com seu corpo, mas já mestre por intuição em todas essas artes, e só me vinha a imaginação calma de como era possível entender em primeiro plano um assassino serial a quem não interpunha nenhum sentimento de remorso em estrangular aquele pescocinho sobre o qual pairava uma cabecinha tão estúpida, tão corrompida desde cedo pela influência fácil das exigências da velha mídia. Dois dias depois ela bateu em minha casa com uma cara de choro, um biquinho da boca disposta a tudo, desde que eu pagasse um ensaio fotográfico para ela em um estúdio local, algo imprescindível para a sua carreira de modelo e que a livraria das labutas do emprego de garçonaria.

Minha esposa ouvia enlevada e em completo silêncio (uma reação assustadora vindo dela, e que só me motivava e falar mais, visto o perigo de tentar compreendê-la tão rapidamente). Passei para o segundo caso de campo, uma moça linda, alta (omiti a enfática sobre esses detalhes), com quem saí por uns dois meses em um relacionamento aberto e sem compromisso, mas que tive qualquer vestígio de vontade de encontrá-la novamente desaparecido quando ela me mostrou um álbum de retratos. Ela tinha uma fimbria mais enérgica e mais estoica diante a realidade do que a primeira, o que me fez suportá-la por mais tempo. Era um tanto louca e abusada, sem biquinhos; deixava a porta de casa aberta para mim e eu a encontrava de bruços no tapete em sono profundo, o short meio deslocado da cintura, a camiseta mostrando a lisa barriga morena, e a cara de absoluta entrega ao sono. Era muito natural e tinha indícios de deficiências saudáveis de higiene (nada inusual, mas correspondente àquilo que um escritor cubano da moda disse ser inerente e indissociável ao sexo). Mas aquele álbum de retratos... uma mãe e um pai de rostos tão desarmados, uma casa com móveis de fundo mostrando tanta disciplinada luta pela aquisição, um banho conjunto em um rio em que as pernas e seu corpo escultural acusavam um não sei o que em que ela não se esforçava muito em disfarçar, uma infância impossível de desaparecer mesmo aos 22 anos, uma linha vestigial nítida demais que a ligava àquelas antigas necessidades, tanto que para isso ela saíra de casa e para isso ela julgava que tinha que conduzir a sua vida, para a supressão necessária do idílico_ uma forte e quase doentia lucidez filosófica de que tudo era transitório e ela deveria se aprumar o quanto antes possível para não ser destruída pelas mudanças. Mas ela era tão suavemente despreparada para isso. Eu olhava para aqueles velhos rostos de seus pais nas fotos, que apostavam em uma capacidade de competência a nascer nela do nada, e sentia uma bruta de uma vontade de sair dali e não vê-la nunca mais. E foi o que fiz; só voltei a vê-la na fila que se formou na capela onde acontecia o velório de um rapaz, um dos filhinhos de papai da cidade morto a tiros em uma de suas desforras de poder, em que ela parou por um momento diante do cadáver posto no caixão, tocou com sua mão o ombro da mãe que chorava e olhava a todos com um descompasso de incredulidade, e de seu rosto mesmo corria tantas lágrimas que não pude evitar de pensar nos graus de catarse pública daquilo.

Nunca me contara essas coisas porquê?, a Dani perguntou, se achegando em meus braços, a grande televisão como o monólito kubrickiano observando tudo com uma sultanesca indiferença de frente a nós. Sei lá, às vezes os personagens reais de Thomas Pynchon precisam de motivadores do fino lixo mercadológico para se fazerem mais legítimos.