sábado, 1 de dezembro de 2012

Camisa de Força


No jornal Sul 21, vejo que uma escritora ganhou uma causa judicial contra uma escola maternal que fica do lado de sua casa, para que o volume de som que transcende desta escola não vá além do limite permitido por lei e não perturbe a ela e a outros vizinhos reclamantes. Escrevendo a coisa assim, como fiz nesta primeira frase, a tendência do leitor é colocar a escritora na fogueira das inimigas recalcadas da infância, o que não é bem o caso. Sou inteiramente a favor da escritora, nesse caso. Para maiores informações, o post do Milton Ribeiro, em que há uma réplica bastante convincente da escritora. Mas, a título de gracinha, escrevi esse aconselhamento à administração da escola e a seus alunos. Segue:

Proponho à administração e aos professores da escolinha que realizem performances diárias no pátio da instituição, para que uma furtiva (e progressivamente assustada) escritora assista pela janela de sua casa. Algumas ideias (lembrando que tudo deve ser ensaiado exaustivamente para que pareça o mais natural e não programado possível):
Segunda-feira: todas as crianças brincando, pulando, correndo pega-pega, as meninas com os uni-du-ni-tês, os meninos com os jogos de futebol, os professores sentados nos bancos conversando e rindo entre si alegre e despreocupadamente. Apenas um detalhe: tudo NO MAIS ABSOLUTO SILÊNCIO, na mais inexorável mudez. Assim o dia inteiro, até ouvirem um grito vindo da casa ao lado e a ambulância chegando para atender a escritora notada subitamente surda.
Terça-feira: Todas as crianças vestidas de negro, deitadas no pátio, simulando estarem mortas. No meio dos corpos, ter o cuidado de selecionar aquele entre os fedelhos que seja indiscutivelmente, por conhecimento geral, o que mais retirava a adesão das musas da inventiva cabecinha da escritora, o que mais gritava e tinha a vozinha de lâmina de vidro; pois este menino, ou menina_ esse diabo vestido de uniforme_ em determinada hora milimetricamente sincronizada com a hora que a reclamante judicial olhar pela janela mais uma vez, irá esticar o braço e apontar um dedo acusador para o vulto na janela, durante cinco minutos (ou até ouvirem mais uma vez o grito e as sirenes do manicômio dobrando a esquina).
Quarta-feira: Instalar-se-á um grande pano por sobre o muro que divide a casa da querelante e o prédio da creche, que será descortinado em horário próprio em que a escritora, temporariamente restituída de seus juízos cerebrais, estará de frente à janela, o que, então, esta poderá ver a fila de meninos e meninas vestidos de estigmatizados uniformes listrados seguindo em marcha para uma câmara improvisada no pátio, aonde todos desaparecerão no interior sombrio, enquanto uma fumaça sobe pelo ar e do outro lado cai no chão um dos livros da escritora, no qual as crianças, com todos seus silêncios e ausência de felicidades, se transformaram.
Quinta-feira: a escritora respira fundo, faz o nome do pai, se benze, toma um diazepan com suco concentrado de alface e maracujá, e, enfim, tem uma trêmula coragem de olhar pela janela…
…ao que encontra todo o pátio da creche transformado em fumódromo de crack, com todos aqueles zumbis semi-nus envolvidos com trapos que um dia foram os uniformes das crianças…
…EM ABSOLUTO, SAGRADO E IMPONENTE SILÊNCIO…

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Franz Kafka, Hannah Arendt e o Menino Medieval


Eu conheci Franz Kafka quando tinha 13 anos. Geralmente a porta de entrada para esse magnífico autor costuma ser sua novelinha mágica chamada A Metamorfose, que um colega de escola me definira ser sua descoberta de uma história maluca de um homem que acorda transformado em inseto, mas o meu ingresso foi através daquele protótipo de pesadelo opressivamente burocrático intitulado O Processo. Eu passava as férias de julho com meu pai em uma cidadezinha de Minas Gerais e nós dois, ele já um leitor inveterado e eu ansioso para honrar meus óculos de míope, encontramos uma bucólica biblioteca circular feita de tijolos e centrada entre um amplexo de árvores. Nela encontramos um monte de livros que nos fez descartar a pretensão de viagens mais longas pela paisagem mineira, e nos manteve enfunados na casa de dois andares situada em cima de um morro e com vista para os trilhos do trem onde nos hospedara o irmão de meu pai. À noite saíamos para as festas e os bares e as tantas casas de amigos de meu tio, e enquanto meu pai tocava violão, eu tentava sair de minha gritante timidez conversando com as garotas. Voltávamos radiantes para o sobrado, meu pai com a tez avermelhada pelo vermute e a felicidade ostensiva daqueles anos, e eu possuído pela febre da descoberta das possibilidades do universo feminino. Parte considerável desse êxtase atmosférico que sentíamos se devia aos livros que nos esperava, eu lendo O Processo e os contos de O Muro, e meu pai lendo O Exorcista e Manuel Scorza. Eu sabia intimamente que estava passando por um aprendizado e uma educação muito superior ao que tinha na escola. Não entendia Kafka como iria entender futuramente, nas minhas tantas releituras, mas prestava uma atenção descomunal e ao mesmo tempo relaxada, consciente de que estava tocando algo de uma verdade e lucidez extremas, algo que era real e intenso e que nada tinha a ver com as tantas dissimulações inúteis e pomposas da escola, algo que me transformava em um ser humano por abrir todas as sensibilidades e sofrimentos inerentes à condição humana. Não um técnico, como me queria a idiotização da escola.

Fiquei tão fascinado com O Processo que não consegui desvincular-me daquela frequência de como ver o mundo através de interstícios simbólicos. O mundo apresentado por Kafka era doloroso, soturno, irracional, claustrofóbico, mas, estranhamente, me deixava feliz, sem eu conseguir descobrir por quê. Passei a olhar cômodos pequenos e apertados com uma apreciação recolhida, com uma certa nostalgia espiritual. Não saberia explicar, mas Kafka me fazia lembrar, em última e infalível instância, a filologia de antigos clãs dinásticos, como se por detrás da solidão insuportável de Joseph K. houvesse a intuição de uma Avalon completamente destituída e apagada dos registros mas que, por uma distração do acaso, deixara vestígios quase invisíveis. Assim eu compreendia Kafka. Ler O Processo era uma proteção, era uma forma eficaz de entender aquilo que transcendia o positivismo das categorias sociais que cada vez mais me pareciam inadiáveis. Mais tarde, bem mais tarde, eu veria explicado, surpreendentemente, essa sensação de despropósito lisérgico em apreciar ambientes degradados em um livro de Slavoj Zizék, em que esse escritor analisa as cenas de silêncio e natureza atulhada dos filmes de Tarkóvski. Zizék explica o que eu sempre senti com enorme intensidade mas jamais imaginava que tal nível de apreensão sensorial pudesse ser verbalizada: descrevendo uma cena de Tarkóvski, em que carros fragmentados e peças de metal retorcidas aparecem em uma paisagem natural selvagem (a paisagem em ruína), às margens de um rio e na ausência ecoante de presença humana, o filósofo esloveno diz que tal sensação advêm pela pulsão capitalista em descanso. Alargando mais esse conceito específico, Kafka me mostrou a beleza da ruína por me revelar a pulsão do mundo que importa em descanso, a pulsão em descanso da história e das compulsões da vida prática, a pulsão em descanso do absurdo e da barbárie transvestidos de sociedade democrática progressista, da ciência e da tecnologia festivamente evolucionistas na melhora da espécie. O descanso da inexorável hipocrisia de ter a estimativa de vida de 70 anos e gastá-la na labuta sem razão do acordar diário para degladiar-se furiosamente pela obtenção de angústia e tristeza capitalizável. Eu, aos 13 anos, não entendia Kafka assim, mas esse meu desentendimento era muito educativo, pois as grandes obras não tem um manual de trilha perfeita a ser seguida.

Quando perguntado por seu amigo Max Brod se existiria esperança "fora desse mundo de aparência que conhecemos", Kafka ri e responde: "Há esperança suficiente, esperança infinita_ mas não para nós." Talvez por isso me vinha_ e me vem_ a intuição de que por detrás dos pesadelos de Kafka exista uma Avalon adormecida, onde, antes, muito antes, as coisas fizessem realmente sentido, as coisas realmente existissem. Como na frase ouvida pelo deão no metrô, de um homem que havia sido ateu a vida inteira, no romance de Saul Bellow (Dean`s December): "Nada é suficientemente absurdo para existir; talvez, então, deus exista!" E foi isso que Kafka sempre me disse, desde quando eu era jovem o suficiente para não entendê-lo (ou jovem o suficiente para entendê-lo, no paradoxo vaidoso de Wilde), que Joseph K., que Gregor Samsa, que K., eram seres vestigiais, órfãos de um universo supraciente de sentido pleno, de mérito absoluto, apartados nessa prisão demasiadamente empobrecida em que nada se comunica, em que as vozes são aparelhos de distúrbio e perturbação e não de aproximação; seres dotados de uma infinita liberdade, mas que na pressuração desse mundo não suportam o peso dessa liberdade e estão sempre atrás do aguilhão que lhes escravize para dar-lhes um sentido eufemista de pertencimento. K., personagem de O Castelo, é desbragadamente livre, absolutamente ilimitado, mas não suporta a aflitiva ausência de direção vinda da indiferença dos senhores do castelo, que se negam a inseri-lo na lógica da aldeia ao serem reticentes quanto se vão contratá-lo ou não como agrimensor. E Joseph K., nascido na plenitude de sua independência, não tolera sua leveza em não conhecer as cláusula do vazio que lhe imputam na forma de um processo passivo e inofensivo, mas que só cresce e se demonstra em resposta à sua reação a ele.

Estou relendo O Castelo, na tradução de Modesto Carone. Ao mesmo tempo leio Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt. Uma das minhas felicidades é Hannah Arendt, mas ainda não tinha lido por inteiro esse misto de reportagem e análise estupenda sobre a natureza do mal. São dois livros que pretendo que meus filhos leiam antes de chegarem a seus 15 anos. Só esses dois livros garantiriam uma larga margem de possibilidade de que eles se tornem pessoas distintas intelectualmente e humanistas inveterados, com empenho em não caírem em clichês das ideias nefastas e deterioradas do politicamente correto. Grande parte do livro de Arendt versa sobre os clichês aprisionadores da sociedade, que poupam as pessoas do pensamento real e as tornam indivíduos animalizados moldados para qualquer condução que lhes queira dar os poderes instituídos: até mesmo para o assassinato. Eichmann, o nazista raptado por agentes secretos israelitas em seu refugio na Argentina, no começo da década de 1960, e julgado em um tribunal em Israel por crimes de guerra, é o protótipo desse indivíduo correto, bom pai e vizinho perfeito,  pedante seguidor de regras e comandos de ordem. E Arendt, que assistiu e participou ativamente de todas as fases desse julgamento, é o cérebro que transcende as tantas formas que o clichê intelectual desse enredo apresentam para cimentar o pensamento de uma escritora, mulher, judia, e distanciada apenas 15 anos desses eventos cheios de passionalidade. Arendt, diga-se em primeiro lugar, foi um dos maiores escritores do século passado. Quanta sofisticação em sua escrita, quanta lucidez e força, quanta beleza e limpidez. Ela começa atacando os esquemas pérfidos de Israel em transformar o julgamento em uma causa pessoal, em esteriótipos de condução do ódio popular contra os alemães e a pena a favor dos judeus europeus. Foi uma das primeiras, senão a única, intelectual a fazer isso, naquela primeira década após o fim da segunda guerra: a se indispor com os atos de ofício laudatórios que o povo do qual formalmente pertencia poderia lhe oferecer, caso ela se predispusesse a ser um dos mitificadores da miseração judaica. Assim como faz em Origens do Totalitarismo, em que apresenta um quadro pouco festivo sobre o quanto os judeus ricos eram impiedosos e indiferentes ao destino dos judeus pobres, em Eichmann ela reporta o quanto a matança dos judeus poloneses pelos nazistas pouco foi considerada pelo establishment moral de Israel, e o quanto Israel se esforçou para enfocar o genocídio apenas nos judeus europeus, deportando o restante do mundo e reduzindo os crimes de crime contra a humanidade para crime contra o povo judeu.

Mas o melhor e mais impressionante desse indispensável livro de Arendt, é a sua desmistificação do monstro assassino e impiedoso que intentarem fazer de Eichmann, apresentando-o como um homem medíocre, simples, mesmo de bom coração, que, paradoxalmente, foi um dos poucos nazistas que fizeram algo efetivamente válido para salvar milhares de judeus antes dos massacres. Seu diagnóstico é tão fantástico que o livro ultrapassa as fronteiras mesmo da filosofia desconstrutivista para ser um dos retratos mais profundos da natureza humana formalizada pela sociedade. A ironia finíssima de Arendt é um deslumbramento: a Eichmann bastou ler dois livros, seus dois únicos livros lidos na vida inteira, para torná-lo um progressivo homem poderoso do führer; dois livros que versavam sobre o movimento sionista de deportação dos judeus e criação de um estado independente para eles; em determinada parte do volume, Arendt descreve a incrível vaidade de Eichmann pelo poder no sentimento de superioridade que ele tinha frente a seus subalternos, afinal, "em parte porque eram ignorantes, nunca haviam lido um ou dois 'livros básicos'". Outro momento revelador é quando um dos policiais da carceragem oferece a Eichmann, para livrá-lo do tédio, o Lolita para ler, ao que o alemão o devolve depois de um dia alegando ser um livro imoral e contra seus princípios. Para um Brasil de hoje, uma pensadora como Arendt seria impossível no que vemos nessa frase definitiva que comportaria grande parte da intelectualidade e a mídia nacional: "esse horrível dom de se consolar com clichês não o abandonou (Eichmann) nem na hora da morte".

Pediram-me por e-mail para que eu escrevesse um texto de auto-ajuda sobre meus tempos de gagueira extrema. Percebi que ainda não sou capaz de fazer isso da maneira séria como gostaria, por isso, por enquanto, escrevi apenas uma frase: o mundo pré-galilêico da criança gaga, em que ela está para cair de suas bordas planas em direção ao abismo a cada grande vergonha de sua incapacidade vocálica por que passa. 


terça-feira, 20 de novembro de 2012

1Q84, de Haruki Murakami


Murakami é uma raposa. 1Q84, seu mais recente romance e cujo primeiro volume da trilogia acaba de ser lançado no Brasil, é uma ardilosa peça de inteligência feita com a milimétrica precisão para cativar sua presa. Lendo-o nos três ou quatro dias que dura sua leitura_ pois isso é mais uma das estudadas táticas do autor: quem começa a ler o romance não consegue parar_, percebe-se que foi feito no mesmo forno em que são assadas as séries televisivas atuais norte-americanas. Ou seja: cada capítulo remete a uma intuição angustiante do que deve estar realmente por detrás da trama, quais as surpresas e o sentido verdadeiro que sustenta aquela estrutura suspeita em que tudo se revela apenas aparências enganadoras. 1Q84 é tão instigante e tem a importância súbita de um enigma a ser resolvido na então encolhida vida de seu leitor quanto Lost e Walking Dead. E, claro, para o leitor carimbado, isso nada tem de novo, já que Walking Dead e Lost tem como raiz conceitual os viciantes folhetins da literatura oitocentista, como O Conde de Monte Cristo e Oliver Twist. Ou seja, Murakami não está fazendo nada mais que a mais clássica e boa literatura de sempre, apesar dos tantos críticos e leitores especializados acentuarem no tom um desprezo por seu estilo enxuto e algum ou outro pedantismo moralista que o faz parecer um aluno bem comportado perto de devassos de estilos complexamente palimpsésticos como Don Delillo e Thomas Pynchon.

1Q84 é muito bem pensado e organizado, e a cada página sua trama vai ganhando novos adendos de riqueza. Como terminei o primeiro volume e os outros dois só estão prometidos para a metade e o final do ano que vem (estou a pensar em pedi-los de Portugal, que já os tem traduzidos e publicados), fica uma infinita suposição do que pode estar por detrás de tudo. A história... deixa eu tentar resumir a história: há dois personagens centrais, Aomame, a assassina profissional que também é professora de educação física, e Tengo, o jovem corpulento professor de matemática que escreve romances. No primeiro capítulo, Aomame se vê dentro de um táxi  que a leva para um encontro no qual se desenrolará mais um de seus trabalhos encomendados, mas que está parado num extenso congestionamento em uma rodovia. Ela repara que o sistema de som do táxi é um tanto sofisticado, no enlevo que lhe causa a sinfonietta de Janácek que uma rádio transmite enquanto está à espera do desenrolar do congestionamento (Murakami oferece várias pistas de que tal sinfonietta tem uma importância fundamental no enredo). O motorista lhe aconselha que, se quer chegar a tempo para seu compromisso, ela deverá sair do táxi e descer as escadas da via expressa, para assim pegar o metrô. E antes que ela saia do carro, o taxista lhe aconselha: Não se deixe enganar pelas aparências. A realidade é sempre única. (Assim mesmo, em negrito.) Daí por diante a realidade em que vive Aomame vai sofrendo sutis alterações, a começar pelo uniforme dos policiais japoneses, e dali para uma visão surrealista de um céu sobre Tóquio com duas luas. Aomame, profunda entendida em História e uma leitora contumaz de notícias, se percebe aos poucos que está numa espécie de universo paralelo, e. para não se enlouquecer e perder a lucidez, rotula-o com o nome de 1Q84, em referência ao romance de Orwell e ao ano em que vive, 1984. O Q que ela sobrepõe se refere a Question mark, "um 'quê' de dúvida, de interrogação". (Gostaria de entender o por quê certa resenha mencionou o Q como um vocábulo japonês equivalente sonoro a 9.)

Até aí, pode parecer que Murakami cria uma história fantástica apenas pelo pendor do público japonês pelo inusitado, e que tal universo paralelo seja uma forçação de barra difícil de digerir. Lendo-se as equivocadas e apressadas resenhas das revistas nacionais, por exemplo a da Veja, a impressão que fica é de uma gratuidade excêntrica por parte do autor, compensada pelo magnetismo de sua escrita: é exatamente isso que a Veja diz, reproduzindo um excerto de quando Aomame descobre as duas luas no céu, e concluindo que tais excessos são desobstruídos pelo sinergismo da prosa de Murakami. O apressado resenhista, que parece não ter lido o romance, mas ido atrás de fontes googlescas para escrever o artigo, empobrece o livro ao restringir toda a complexidade psicológica e simbólica que vai se insinuando ao longo das páginas a um simples mundo de Óz. Aomame não entra, literalmente, em outro mundo: seu cotidiano é o mesmo, os fatos brutais de violência contra mulher e contra crianças (magnificamente expostos na obra), que a motiva ao assassinato, são os mesmos que compõe as estatísticas de crimes no Japão; esse universo paralelo é um descalibramento de sua percepção, em que, possivelmente, esteja entrando toda a misteriosa experiência de seu passado e do cruzamento de sua vida com as de Tengo e as de uma seita religiosa que aos poucos vai surgindo e ganhando importância no enredo, (Essa parte das suposições é a que mais instiga o leitor.)

Tengo, o outro personagem principal, é incumbido por seu editor a reescrever e transformar em best-seller uma narrativa intitulada Crisálida de ar, escrita por uma adolescente de 17 anos disléxica chamada Fukaeri. É um tanto difícil resumir 1Q84, mas basta dizer que tanto a existência de Aomame quanto a de Tengo (que não se encontram nesta primeira parte, a não ser em um distante episódio do passado), e a de todos os personagens que vão surgindo no livro, tem direta relação com a história escrita pela menina Fukaeri. Nesse ponto, me fez recordar uma crítica que o poeta e ensaísta russo Joseph Bródski escreveu sobre o romance O Pavilhão dos Cancerosos , de Soljenítsin: Bródski diz que em determinada cena de O Pavilhão, Soljenítskin está por criar algo genial e completamente novo na literatura russa _ se não me falha a memória, a cena se refere às ocupações de uma médica com os objetos e remédios do laboratório do doentes_, mas, acovardado diante essa porta para a sublimidade, Soljenítsin desiste e transforma a possibilidade em um prosaísmo. Pois Murakami passa essa impressão, de que está por criar algo sublime por sob a estrutura à vista desse extenso romance: algo que, ao contrário da maioria dessas mesmas séries televisivas em que irmana na capacidade de viciar o público, parece ser intrinsecamente coerente e organizado, que não deixará nenhuma ponta solta no final. Apesar de alguma fragilidade, como alguns diálogos esquemáticos e com cunho didático (há um que versa sobre a obrigação do uso da camisinha), o uso indisfarçado de alguns clichês cinematográficos (como o da estufa de borboletas raras e plantas em que Aomame se encontra com uma velha senhora, que lembra Minority Report), 1Q84 é tão contundente e bem escrito quanto a maioria dos festejados e tidos como grandes romances contemporâneos. Murakami se aproxima da exatidão da escrita de Bolaño, no tocante a ser um narrador autêntico, mas seu nível de envolvimento não bebe da fonte de tristeza pós-filosófica e pós-histórica do chileno. Essas fragilidades ficariam bem resolvidas se ele tivesse uma prosa tão ricamente densa e humorada como a de Pynchon, mas cair nessas comparações seria algo despropositado. A um leitor de Pynchon como eu, que ia pensando, enquanto lia 1Q84, o quanto Pynchon daria uma rasteira em Murakami em diversas partes capengas da obra, o autor japonês cativa aos poucos e mostra a sua mestria por sua incrível simplicidade, sua linearidade e sua limpidez. Características que vão na contramão das exigências estéticas da literatura moderna, mas Murakami se afirma com sua presença difícil de ser ignorada, como costuma fazer os grandes escritores que não se enquadram facilmente a esteriótipos. 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, de David Foster Wallace


Há uma cena no ensaio que dá título ao livro em que a acompanhante de Wallace à visita a uma feira agrícola no interior de Illinois se submete a um dos brinquedos de "quase morte" do parque. É uma minuciosa descrição de tortura: a mulher é aprisionada em um cubículo gradeado de ferro, içada a uma altura exorbitante, e sacolejada por minutos que parecem infinitos. Em um determinado momento, Wallace concebe a ideia audaciosa de que a vida da mulher depende de sua intervenção junto aos dois rapazes que controlam as alavancas do brinquedo, visto que sua racionabilidade em não ver nenhum tipo de motivação saudável para alguém se submeter a tais extremos o mantêm seguramente em terra. Os dois rapazes começam a revelar níveis de sadismo ao manterem a mulher dependurada de cabeça para baixo só pelo intuito de verem suas saias caídas e a calcinha à mostra. Wallace, até então carregando o texto com análises filosóficas distanciadas  beirando um compêndio alienígena sobre uma espécie bestial, assinala um marco de terror no meio do tom secamente cômico ao avaliar-se covarde demais para enfrentar os dois caipiras bêbados, mesmo essa incapacidade feminilizante parecer custar a vida de sua colega. A cena termina com os maníacos voltando a cabine para o chão e a mulher, que Wallace imagina reduzida a um trapo, pulando para fora e festejando a maravilha daquilo com uma série de palavrões incitatórios aos rapazes. Wallace, abismado, conta à moça sobre a agressão pela qual ela acabara de passar, e sua nítida crueldade sexual, mas ela se mostra completamente avessa a entender, enxergando a coisa como algo trivial e ingênuo. Ao leitor ainda possível de se lembrar das obras de Stephen King que lera na adolescência,  é inevitável admirar o quanto Wallace esbarra na mais pura literatura de terror ao mostrar-se desabrigado e indefeso em um mundo em que a maldade se revela nas beiras de normalidade comezinha apenas para ele. Ninguém vê o diabolicismo por detrás das crianças gordas sendo doutrinadas pelos pais obesos a comerem as mais aberrantes guloseimas gorduras e gotejantes de óleo de fritura, nem o campeonato de vale-tudo entre garotos de dez anos que são induzidos a quebrarem um o nariz do outro por pais sedentos por violência, ou os tantos símbolos fálicos e palhaços bêbados e com não apenas imaginárias propensões ao crime, que são os personagens e as situações que povoam a feira.

A lucidez de Wallace, de tão pura, chega a converter-se por convecção e involuntariamente a essa maldade translúcida. Não há nenhum sinal de moralismo ou transcendência em suas palavras, mas apenas a sequidão científica do colecionador de insetos raros, que os vai afixando com agulhas em um quadro. Em determinado momento, sua incansável predisposição ao conceitualismo traça uma causa a essa brutalidade desinibida que o afronta pelos vários dias que dura sua estadia no parque: as pessoas dos insípidos povoados do centro dos Estados Unidos são indivíduos recolhidos, mutilados pelo tédio, enfurnados em um cotidiano previsível e insosso, e essas festas agropecuárias é a forma da catarse anual que os liberta por um momento da maldição da geografia. Só que eles não conseguem libertar-se de si mesmos, do que anos de prostração fizera a seus espíritos: daí que nesses períodos de oásis eles se lançam em uma espécie de hiper-realismo esquizofrênico, em que os antigos traços de seus humanismos são substituídos de vez por caricaturas do que neles existem de molestadores sexuais, assassinos potenciais, escravos da indústria de fast-foods e pais alienados. Nas mãos de um Bernhard ou de um Camus, esse retrato do inferno alimentaria-se de contundência e linguagem decantadamente combativa, e virulência e repúdio, mas nas mãos de Wallace essas características são preenchidas por uma forma de humor destituída de qualquer engrandecimento trágico, um humor que se revela nas palavras mais como um ato físico de estoicismo por estar no centro das labaredas do que por indicar-se superiormente capacitado a olhar tudo de um mundo hipotético melhor e mais seguro; um humor pós-riso e uma observação ativa e muscular que não abraça nenhuma escola filosófica: um exaurimento filosófico como se a América dos tempos atuais não comportasse mais nenhuma trégua e nem tão pouco alguma fagulhar e eventual redenção desse inexorável trivialismo. Wallace escreve como um jovem envelhecido precocemente por sua capacidade não vantajosa de ver além desse jogo faustiano de hedonismo e frivolidade que encoberta a realidade, após ler toda a filosofia, a ensaística e a ficção atrás de sucedâneos menos terríveis, e se conforma em não criar mais uma roupagem inédita de verdade, se comprazendo a abraçar apenas a originalidade de sua fidelidade à sua voz. E assim ele escreve todos os formidáveis seis ensaios compelidos neste livro.

Javier Marías, grande aficionado à literatura de terror, escreve que o relato do terror pelo terror enfraquece o texto, pois uma vez exposta, a atrocidade soa convincente, mas as repetidas vezes mais em que ela aparece, a "tensão se perde e o efeito se desvanece". Por isso, ele continua (no curto ensaio Contra la Truculencia, do livro Literatura y Fantasma): "a frase que maior horror me produziu na literatura não está em Lovecraft, mas em Flaubert: no final de Madame Bovary, com ela já morta e em seu ataúde, enquanto vários personagens lhe colocam por cima uma coroa, Flaubert diz: 'Teve-se que levantar-lhe um pouco a cabeça, e então uma onda de líquidos negros saiu, como um vômito, de sua boca'". Assim é o horror que se tem nessas páginas de Wallace, tanto neste longo relato da feira de Illinois, quanto do cruzeiro que faz pelo Caribe, quanto na descrição do sofrimento de uma lagosta no processo de ser cozinhada viva, quanto do seu famoso discurso sobre a paciência diante a inutilidade salvadora de todas as coisas e todos os gestos em Isto É Água. O horror sem sombras e sem sentenças conradianas, que a própria arquitetura em que tais ensaios foram feitos, a maioria para revistas de gastronomia e de turismo (não literárias), favorece uma liberdade coloquial em que a efemeridade é uma primeira máscara enganosa. Recomendei a um amigo que lesse o ensaio Pense na Lagosta, ao que ele me disse, após a leitura, que o texto começa desinteressante, sem que se dê nada por ele, descrevendo os eventos da feira da lagosta do estado americano do Maine, mas que logo entra em uma comovente e quase insuportável acusação da crueldade que jaz por detrás das tradições culinárias as quais entregam ao consumidor uma carcaça embalada em inofensivas embalagens coloridas que não deixam intuir a enorme dor e indizível sofrimento pelos quais passou o animal antes de se tornar alimento. A lucidez mais impactante desse grande escritor que é Wallace, a sua escrita soco no estômago que não se curva a formulações fáceis, pode ser resumida nesse diagnóstico da alienação reinante e opulenta do homem consumidor a que se reduziu antigas ilusões iluministas, em sua frase: "Elas (essas pessoas) não estão prejudicando ninguém".

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Um Anúncio


“Escrever é estar sempre errado. Todos os nossos rabiscos contam a história de nossos fracassos. Não tenho mais a energia da frustração, nem a força de me confrontar. Porque escrever é se frustrar: passamos todo nosso tempo escrevendo a palavra errada, a frase errada, a história errada. Nos enganamos sem parar, falhamos sem parar e, assim, precisamos viver em uma frustração perpétua. Passamos o tempo dizendo a nós mesmos: isso não está funcionando, preciso recomeçar. Agora estou numa fase diferente da minha vida: perdi toda forma de fanatismo. E não sinto nenhuma melancolia.” (Philip Roth, ao anunciar que não vai mais escrever)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Murakami e a Reverberação da Linguagem (Uma Previsão de Empatia)


Ontem o carteiro me entregou o Norwegian Wood, de Haruki Murakami, e a previsão é que hoje ele me entregue o 1Q84. Fiquei feliz e envaidecido que a tradução da Alfaguara seja direto do japonês e, segundo algumas fontes, mais confiável que as traduções apressadas feitas pelo mercado livreiro dos Estados Unidos ao perceber a emergência de aproveitar os milhões de exemplares vendidos no Japão na ocasião dos lançamentos do autor. Li por longas horas madrugadinas o romance tido como de mestre sobre o amor no final dos anos 60. Pareceu-me que Murakami é por demais convencional e sem muitos arroubos linguísticos, com forte acento da tradição japonesa (e chinesa) de relatar com esmero episódico e com uma poética com suas tipicidades trágicas um tanto anacrônicas para a velocidade da literatura ocidental. Uma narrativa sem experimentalismos de qualquer tipo, bastante convencional. Seu monocromismo me pareceu isento de eufonismo, mas pensei que afinal essa é uma das pretensões declaradas de Murakami, extinguir o beletrismo da ficção japonesa e torná-la eficiente, prática, voltada para algum fim doutrinário de descobrimento espiritual. Também ficou claro para mim a indisposição que vi entre admiradores de Pynchon quanto a Murakami, o desprezo que nutrem por ele: Murakami perto de Pynchon me soa um tanto japonês, um tanto certinho e engomado, como soa estranho o rock japonês e o cinema de ação japonês. Pynchon nasceu antes para a literatura, com uma enorme carga de perigo e inconveniências; já Murakami é um neófilo com um seguro ar de pedantismo oitocentista, suavizado em muito pela decantação da prosa pop. Talvez isso não tenha passado batido para Murakami e essa lentidão démodé tenha lhe incomodado, o que fez com que partisse para o canivete em punho de seu últimos livros fantasiosos e lisérgicos, onde se juntam universos paralelos e releituras de antigos mitos.

Mas, percebo, isso não desmereceu Murakami para mim, e sua leitura segue sendo bastante prazerosa e instrutiva. Com o tempo pode ser que eu veja nele a sua estatura iniludível de mestre, o seu direito certo de grandeza artística. Li apenas umas cem páginas, precipitação escrever essas palavras. O que achei mais libertador é o que me motivou a procurar por ele: a paixão da escrita como um dever e não como um artesanato radical de traços impecáveis. Para um oriental e nipônico isso deve ser um tanto mais difícil, com todas aquelas escolas caligráficas as quais são talvez as encarnações mais singelas do rigor da beleza da escrita. Penso em A Montanha da Alma, o livro de perfeição ofensiva do chinês Gao Xingjian que li há dez anos. Essa aproximação doutrinária da literatura japonesa e chinesa do gesto coreografado deve ter sido uma dura pena a ser superado por Murakami. Por isso é muito bom ver os descuidos tolstoianos de Murakami em usar profusamente os advérbios, a repetição enfática da mesma palavra em um mesmo parágrafo, do favorecimento da expressividade do sentimento sincero e não da disposição enganosa da poesia bombástica, as imagens e metáforas de gosto duvidoso mas sem solenidades e por isso surpreendentemente eficientes (algo como faz genialmente Günter Grass). Murakami na certa vai causar em mim o mesmo que causa os escritores puros, John Fante, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Cortázar com seus infinitos defeitos e obsolescências, o mais próximo e amador Marcos Nunes: a grandeza inerente à insuportabilidade que seria abnegar-se da escrita, o que os torna relevantes compulsoriamente. De forma que ler Murakami não deixa de ser uma incrível libertação.

Breno


Eu tinha 17 anos, estudava em um colégio da elite, e quase não possuía amigos. Os dois rapazes que podiam se enquadrar na categoria de amigos estavam tão envolvidos no fascínio da descoberta da idade que era uma aspereza emocional ficar na periferia de suas camaradagens distantes. Ao final do dia eu voltava para casa com a impressão de que era mantido próximo a eles só para ser testemunha da grandeza áurea de suas personalidades. Enquanto andavam de peito estufado observando por cima de todos, satisfeitos de seus destinos, a única qualidade inegável que eu tinha de ser um ouvinte perfeito me fazia parecer o escudeiro fiel no encalço dos dois, um patético Igor. Um deles se chamava Erasmus e era o que indicava que a qualquer momento nossa convivência se romperia nessas tantas amenas tragédias da juventude, e foi o que acabou acontecendo num dia em que por motivos irrisórios trocamos socos. O fato de mal termo-nos despenteados os cabelos com a briga, conferindo apenas um rubor que poderia bem ser confundido com uma carreira para não se chegar atrasado ao ônibus, e alguma poeira nas roupas, mas nada de arranhões e nem tão pouco sangue, pareceu-nos significativamente degradante. Ainda penso que foi essa inofensividade incômoda que fez com que não nos falássemos mais, depois da vergonha que ridicularizava muito de nossos planos pessoais secretos, de modo que o único recurso era esquecermo-nos para sempre um do outro. Tinha algo de alivio velado em romper com Erasmus; as visitas à sua casa eram de uma tristeza infinita, por muito tempo me perturbava a figura apática de sua mãe que se escondia no quarto e que, para meu terror, Erasmus criava pequenos e sádicos expedientes para trazê-la de volta à nossa frente como se fosse parte do exibicionismo da torpidez cotidiana que tinha que suportar para tornar-se um adulto estoico demasiadamente racional. Ela nunca nos servia lanches, como era das mais comum das praxes que as mães de colegas fizessem, e lhe faltava grotescamente a compostura de nem sequer tentar disfarçar o pânico que a presença de um amigo do filho lhe causava. O pai de Erasmus já era outra coisa: das duas vezes que o vi senti a carência conceitual que só me viria com o tempo, de maneiras que se sentar na sala junto a seu silêncio hermeticamente alheado de homem político, enquanto Erasmus tomava banho, me remeteria bem mais tarde à tensão contida de um criminoso sexual. Essas coisas juntas tornavam a insípida convivência com Erasmus em algo opressivo, que inconscientemente não via a hora de encerrar. Foram socos muito esperado, enfim. Já Breno era alguém do qual minha solidão não podia prescindir. 

Breno era uma espécie de eleito para os altos escalões sociais bem mais limitado. Era um técnico e não um filósofo. Não havia nenhuma malícia nele, fora a vaidade insular de que recebesse de mim todos os aplausos. Tinha mesmo uma cadência infantil na voz que a adolescência não conseguia esconder e que sempre recorria a ela para evidenciar seu direito à predestinação. Seu humor não resultava daquela sofisticada genialidade sarcástica da qual ele julgava vir, mas tinha uma ternura erraticamente analgésica de desenho animado. Era alguém que não nascera para as mínimas formas de sofrimento, e talvez minha segunda qualidade inegável fosse a de zelar ativamente para que essa ilusão fosse preservada. Eu ria de suas piadas como se elas fossem geniais, mostrava meu fascínio corroborador diante seu magnetismo com as meninas, e me calava em estuporado respeito diante a premência dos sinais que seu vitorioso futuro enviava. Magoá-lo seria como bater em uma criança. Alguém assim possuía por detrás pais completamente diferentes dos de Erasmus. Os pais de Breno eram um sonho de todo rebento recalcado pelos traumas de um lar desfeito. Eu que só possuía uma mãe cujo esgotamento a que tinha que se submeter para pagar as despesas de casa e o alto custo de meu colégio rendia um regimento doméstico severo cheio de espaços de laconismos, olhar os pais perfeitos de Breno era me submeter ao escapismo culposo de diálogos sorridentes e de uma adstringente lentidão. 

Não me passava pela cabeça a possibilidade de perder Breno nos três anos de colégio, mas o conhecimento de seus pais me fez temer que algum erro fechasse para mim a adesão àquele mecanismo irretocável de saúde nuclear. Depois que Breno me levou em sua casa pela primeira vez e eu fui apresentado ao homem sacerdotal de grossas sobrancelhas, bermuda bem lavada e camisa desabotoada até a terceira casa da gola para baixo, em explícita e descomplicada informalidade sentado à mesa do café, com uma calvície em que sobravam dos lados uma profusão de cabelos simpaticamente desalinhados, o seu pai, eu revi as possíveis brechas de nossa relação em que pudessem entrar os maus entendidos aos quais se atribuem as desavenças definitivas. No meio da descompressão que era ouvir a voz cheia de matizes quase insuportáveis de vagar do pai de Breno, dirigida sem derivações direta e atentamente para mim, eu senti crescendo o medo de ser posto para fora daquilo, da fragilidade que aquele arranjo inesperado poderia ter para mim. Percebi com nitidez porque Breno fora conservado numa permanente infantilização recuperativa, como aquele senhor tão cheio de brilho argumentativo, suavidade cênica, domínio do tempo e com a valorização absoluta dos primordiais poderes da palavra, havia propositadamente dado aquele recolhimento sagrado ao filho. Eu me sentia infantilizado na presença dele, o que não deixava de ser cruel ter que recolocar todo o fardo deixado na porta de volta às costas quando eu fosse embora. (...)