Lendo, inebriado, Vício Inerente, de Thomas Pynchon.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
O Fim do Meu Ecletismo
Vou pôr um ponto final em meu ecletismo de leitor de informações. Aliás, já há alguns meses minha abstinência por certas revistas, jornais e blogs já vem acontecendo de forma espontânea. Hoje só vou à lotérica da cidade, onde se vende revistas e livros, só para fazer uma encomenda ou outra de livros com a simpática proprietária, com a qual já tenho uma relação de cumplicidade (quando ela marca em sua agenda de pedidos um título em meu nome, me liga diligentemente para explicar atrasos ou me manter informado sobre a monitoração de onde está a carga, o que me faz lembrar, romanticamente, a livreira Sylvia Beach e sua livraria, Shakespeare and Company, que atendia em Paris Gertrude Stein, Ernest Hemingway e James Joyce _ não fazendo nem a mais distante comparação). Há muito que cancelei as duas assinaturas da Veja e da Carta Capital, e minha assinatura de 12 edições da revista Piauí encerrou-se neste mês. A editora Abril já entulhou minha caixa de correspondências de facilitações e descontos para a retomada do contrato, mas meu desfastio se completou de forma peremptória com esse representante chic da posição neutra "por cima do muro", com a reportagem de cinco páginas lançada no último número sobre Luan Santana. Cinco loguíssimas páginas que me obrigaram a ler achando que veria uma crítica sobre a mídia massificante e a boçalidade da adolescência, mas que não há nada ali, nenhuma caveira de burro enterrada, além do dia a dia de um milionário de menos de vinte anos e de uma jovem que largou os estudos para presidir honradamente um fã clube a ele destinado. De forma que para mim, foi a gota d`água.
E eis que, após meses _ ou quase um ano_ que não me ocupava com a leitura da Veja, me cai em mãos o exemplar abaixo. Só a capa já embrulha o estômago! A matéria em si sobre o casal de cordeiros, deveria ser alvo de um centro de pesquisas sobre comportamento humano e nível intelectual, pois quem conseguiu lê-la na íntegra, todas aquelas colunas de letras incomensuráveis, só pode sofrer de algum tipo de doença muito profunda, uma anomalia na alma. Nesse mesmo número _ que, sério, é fantasticamente desprovido de conteúdo_, há uma matéria do Diogo Mainard querendo desconstruir ninguém menos que Jared Diamond, o autor de um clássico de antropologia e gestão ecológica moderna intitulado Colapso. O Mainard sofre de oligofrenismo de estilo, um texto dele tem a mesma estrutura técnica de todos os seus outros textos. É como se ele tivesse um programa de computador em que joga sua pretensa ideia, e o software já imprime a coisa dentro de um molde rigoroso. Mainard tem uma espécie de gaguejar de maneirismos da escrita, uma redundância minimalista que só é irritante para os poucos que levam a sério a raiva que suas limitações provocam. Ele não é apenas um péssimo escritor, como lhe falta a mínima coerência e bom gosto artístico. Lembro uma entrevista dele ao Jô, em que comenta sobre o já eternamente esquecido filme por ele lançado no mercado cinematográfico nacional, em que, ele diz, ajuntou a cena gratuita de uma explosão automobilística só para ver se capturava audiência. Nesta decantação que faz ao Jared Diamond (autor que admiro muito, e do qual li Colapso, Armas, Germes e Aço, e Por Que o Sexo É Divertido?) , ele, que demontra não ter lido nenhum desses títulos principais, pega o lançamento nacional de um dos primeiros livros de Diamond, The Third Chimpanzee, e traça uma série de pre-julgamentos e conceitos sarcásticos (o desproteinado sarcasmo mainardiano) sobre agumas das teorias defendidas pelo autor. Mesmo que estivesse certo em sua crítica da possível obsolescência e enganos de Diamond (não li esse livro, para opinar sobre), seria como alguém afirmar que Roberto Bolaño não é um grande escritor, baseando-se apenas em Uma Pista de Gelo. Sem contar que o Millôr Fernandes, quando tinha uma coluna na Veja, fez um artigo sobre Diamond que consolida o lugar desse grande analista erudito dos negros caminhos que a humanidade depredatória segue. E a própria revista Veja, numa edição especial, publicou com exclusividade um extenso artigo assinado por Diamond. Aliás, esse texto de Mainard concorda ao menos com um outro absurdo texto em que ele NEGA o aquecimento global !!!! O que mostra que não só a Veja sofre de bipolarismo quanto à arregimentação de sua linha editorial, quanto seus leitores realmente fenecem na mais acomodada burrice.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
O Graveto Verde
Da apresentação do autor, por Rubens Figueiredo, em Ressurreição:
"Embora (Tolstói) tivesse boas relações com todos os seus quatro irmãos, foi Nikolai quem lhe marcou mais profundamente o temperamento. De um lado, era seu modelo de homem, belo, elegante, forte e corajoso. De outro, estimulava sua imaginação, afirmando possuir um segredo capaz de instaurar no mundo uma nova Idade do Ouro, sem doenças, miséria, ódio, e na qual toda a humanidade seria feliz. Nikolai alegava ter gravado esse segredo num graveto verde, o qual enterrara numa ravina da floresta de Zakaz. (...)
Curiosamente, dois anos antes de sua morte, Tolstói ditara as seguintes palavras, tendo em mente a redenção da espécie, tal qual imaginada pelo irmão Nicolai:
Embora seja um assunto desimportante, quero dizer algo que eu gostaria que fosse observado após a minha morte. Mesmo sendo a desimportância da desimportância: que nenhuma cerimônia seja realizada na hora em que meu corpo for enterrado. Um caixão de madeira, e quem quiser que o carregue, ou o remova, a Zakaz, em frente a uma ravina, no lugar do "graveto verde". Ao menos, há uma razão para escolher aquele e não qualquer outro lugar."
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Minha Bolhinha de Sabão, 4 Meses Felizes Hoje
"Da felicidade só a conhecem as borboletas e as bolhinhas de sabão, e aqueles que são tão leves que a eles se assemelham." (Friedrich Nietzsche)
Ela
ela vem menos guardada que nunca
e ainda assim mais guardada que nunca,
os grosseiros e sujos
entre os quais ela passa
não a tornam grosseira nem suja,
ela adivinha os pensamentos ao passar
e a ela nada se pode esconder
mas nem por isso é menos delicada
e atenciosa _ é a mais bem-amada
sem nenhuma exceção,
não tem motivos para temor e não teme,
maldições, brigas, canções de duplo sentido,
expressões chulas são para ela inócuas
quando ela passa, calada que vai,
bem segura de si,
coisas assim não chegam a ofendê-la,
ela as aceita assim como as aceitam
as leis da Natureza,
forte como ela é
_ também ela é uma lei da Natureza
e lei mais forte que ela não existe.
(Walt Whitman, tradução de Geir Campos)
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Semana Grandes Escritores: Quarta-Feira de Saul Bellow
A ambição de Bellow era usar uma linguagem semelhante às músicas de Mozart: simultaneamente ágil e profunda. A construção de sua carreira literária, já partindo desse primeiro intento, exigia uma reavaliação das pesadas heranças que recebia, tanto da literatura da primeira metade do século XX, que tinha seu centro em Faulkner, tanto das tradições do judaísmo que mantinham ainda sólidos padrões de conduta culturais e religiosas em sua fortalecida repaginação no capitalismo norte-americano . No conselho de Hemingway, Bellow tinha muita coisa para matar. Era um judeu canadense erradicado em Chicago, assimilado pela vida frenética dos E.U.A, apaixonado pela vertente imperial das revelações de alcova da insurgente indústria da fofoca sobre os homens e mulheres do poder, enebriado com o vício de consumo de ideias que a indústria cultural havia determinado seu país de adoção como o porto de chegada para os mais importantes intelectuais do pós-guerra. Sua alta inteligência tinha plena liberdade para materializar o novo escritor que a América precisava, que estivesse condicionado a defini-la em seus novos ciclos evolutivos, sabendo que o regionalismo mitológico de Faulkner já havia sido esgotado por Faulkner, e que a heróica távola de grandes escritores sociais formada por Steinbeck e Dos Passos já não produziria descendentes para os novos problemas que a América ultra-capitalista requisitava. Na verdade, Saul Bellow era o mais acabado produto dessa América espiritual que se vendia ao oportunismo de ser a nação dirigente do mais luminoso estágio da democracia neoliberal da História, e teria sido consumido por ela, se não possuísse a voz de desbravar tudo que havia de deletério, efêmero e devastador subjazendo sobre o seu hedonismo babilônico.
O mais incrível de se observar no estilo de Bellow é que ele é altamente vendável. Na maioria das páginas de seus livros acontece tanta coisa, expressa-se tantas ideias, trafega-se por cenários cosmopolitas de tantas descrições de prédios, escadas de incêndio de subúrbios, tribunais rescendendo a decisões do poder sobre a vida de cidadãos anônimos, carros e os aparatos luxuosos dos muito ricos, que essa euforia cativa o leitor, resgatando-o da literatura existencialista, sombria e comparativamente inerte, que se fazia até pouco tempo antes dele. Bellow se tornara ágil e profundo como as sinfonias e concertos de Mozart. Suas frases são curtas, seus personagens, apesar de super-cerebrais, são entidades que acreditam na realização do impossível que há por debaixo da trivialidade cotidiana, lançando-se em aventuras que sempre estão na contramão do manual de Wall Street sobre sucesso financeiro. São ingênuos intelectuais de Q.I. altíssimos que estão nas mãos de beldades femininas dominadoras e esquizofrênicas, de gângsters que usam os ternos mais caros e depredam Mercedes com tacos de beisebol, e que são tão jocosamente grotescos que os seguram pelos braços enquanto fazem suas necessidades em banheiros públicos. Bellow abraçou a heresia de não se deixar influenciar diretamente por nenhum dos grandes escritores canônicos, nem Thomas Mann, nem Kafka, nem Faulkner, nem Joyce. Apesar de seus dois primeiros romances serem expressões de suas leituras de O Processo e Metamorfose, quando finalmente alcança seu estilo independente, é a vigorosa natureza espontânea dos poetas beats, dos escritores marginais da contracultura, dos autores de policiais noir urbano, que se vê em seus livros. Como um empresário que domina com total controle desde a linha de produção, as cores da propaganda que agradam ao público, até a venda sedenta do produto acabado, Bellow entregava ao mercado editorial romances em que escrevia o que queria, contra o que queria, e eles vendiam milhões de exemplares. Herzog, uma de suas cinco ou seis obras-primas, por exemplo, renova o gênero do romance ensaio e fica por 54 semanas encabeçando a lista dos best-sellers do New York Times.
Quando da espera de que a Academia Sueca notificasse o prêmio de literatura de 1976, vários jornalistas se posicionaram diante a casa de Jorge Luis Borges, pois era fato consumado que aquele ano o Nobel seria dele. Saiu para o Bellow. Perguntado o que achava dessa decisão, se era algo injusto, Borges respondeu que não poderia avaliar, pois nunca tinha lido o laureado. Essa afirmação só conta como demérito para a vasta cultura livresca do grande argentino. Alguém que já havia traduzido boa parte da produção de Faulkner para o espanhol, e que por muitas vezes fizera resenhas que evidenciavam sua admiração por Faulkner, desconhecer o único sucessor à altura do autor de O Povoado, era uma brecha vazia em sua vida de leitor profissional.
Bellow, como escreveu Philip Roth, no indispensável Entre Nós, alternava seus romances entre os que mostravam sua veia extrovertida, expansiva e exuberante (desculpem a aliteração), e os que mostravam seu lado introspectivo e filosoficamente desencantado com o mundo. Na linha dos primeiros, temos As Aventuras de Augie March, O Legado de Humboldt, Trocando os Pés pelas Mãos, Henderson, o Rei da Chuva; enquanto entre os últimos, temos O Planeta do Sr. Slammer, Herzog (que tanto pode ficar entre os primeiros quanto entre os segundos), A Mágoa Mata Mais, e Dezembro Fatal.
Bellow certa vez escreveu que todos os grandes livros são esotéricos. Suas análises deslumbrantes sobre a América espiritualmente decadente e promíscua, que recheiam seus romances, mostram que era não só o maior escritor em língua inglesa da metade final do século passado, como o mais independente. Numa época em que dizer-se ateu ou agnóstico, apegado aos milagres da Ciência, é um dever dos intelectuais, Bellow falava que as certezas produzidas por nosso pensamento tão limitado a essa faixa da existência nunca o convenceram. O inesquecível sr. Sammler, em um de seus maiores livros, um judeu exilado na vida moderna de Nova York, sobrevivente de um campo de concentração, desiludido e cético quanto às crenças iluministas da superioridade humana, se compraz a ler, diariamente, na biblioteca municipal, o mesmo trecho do frade medieval Meister Eckhart, sobre os pobres de espíritos abençoados por Deus. "O Sr. Sammler não podia dizer que literalmente acreditava em tudo o que estava lendo. Podia, porém, dizer que não desejava nenhuma leitura a não ser aquela", Bellow escreve.
Cada livro de Bellow passa essa sensação, de se estar lendo algo muito moderno e assimilável, mas de que, na verdade, vem de uma mente para a qual a última palavra sobre as coisas ainda está longe de ser dita, de um senhor indignado com o rumo que a situação humana tomara e que só aparenta estoicismo, de uma alma antiga, em suma.
"E tudo isso deverá continuar. Simplesmente continuará. Haverá mais seis bilhões de anos de vida da humanidade. Chega a paralisar o coração o contemplar tamanhas cifras. Seis bilhões de anos antes que o Sol venha a explodir. Seis bilhões de anos. E o que será de nós? Das outras espécies e de nós? Como chegaremos àquele fim? E quando tivermos de abandonar a Terra para seguir em direção a outro sistema solar, que dia mais portentoso será esse! Mas, então, a espécie humana terá se tornado muito diferente, pois a evolução continua. Olaf Stapleton calculou que cada indivíduo do futuro viverá milhares de anos. A pessoa do futuro, de tamanho colossal, seria de um lindo colorido verde, com uma mão que terá evoluído, transformando-se numa espécie de caixa de instrumentos, ferramenta forte e sutil, o polegar e o dedo indicador capazes de exercer uma pressão de milhares de libras. Cada intelecto pertenceria a uma maravilhosa, analítica e coletiva mente, estudando e resolvendo seus problemas matemáticos e físicos, participando de um todo sublime. Seria uma raça de gigantes semi-imortais, esses nossos verdes descendentes, parentes e aparentados, levando, porém, em si, inevitavelmente, alguma forma das nossas amargas características, tanto como dos nossos poderes espirituais. A revolução científica estava apenas com trezentos anos. Como ficaria dentro de um milhão ou um bilhão de anos? E Deus? Continuaria escondido, mesmo entre irmãos poderosos no espírito, continuaria fora de alcance?"
( O Planeta do Sr, Sammler, p. 186, tradução de Denise Vreuls, editora Abril)
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Semana Grandes Escritores: Terça-Feira de Thomas Bernhard
Quando eu tinha 14 anos, um amigo metaleiro me apresentou a uma música chamada Paranoid, do grupo de hard rock britânico Black Sabbath. Foi uma catarse! Assim que a agulha tocou nas ranhuras do vinil e a guitarra propagou seus disparos sincopados pelas caixas de som, no último volume, meus pêlos da nuca arrepiaram-se e eu senti uma espécie de arrebatamento. De pronto, percebi que o jeito melhor de curtir a música era seguir o que meu amigo fazia, balançar a cabeça freneticamente de cima para baixo, e, com os braços simulando segurar uma metralhadora invisível, ficar como no centro de uma baliza girando o corpo e disparando bala em direção a todo os nossos desafetos _ desafetos mais ideológicos que reais, devido a nossa pouca idade. Toda vez que punha essa música para tocar lá em casa, me vinha a mesma encarnação de assassino serial desmedido, com sua felicidade sem culpa em exterminar o máximo de entidades que travavam a possibilidade de uma vida mais fácil no mundo real, professores, diretores, o FMI, a fome na África, Margareth Thatcher. Eram menos de três minutos em que Ozzy Osbourne gritava "can you help me? Occupy my brain ? Oh yeah!" e que eu tinha para promover um banho de sangue e a explosão de prédios federais. E o curioso era que a sensação compartilhada por todo pré-adolescente que ouvia Paranoid era a mesma, o que tornara essa música um hit mundial que atravessara as décadas de 1970 e chegara com a mesma força ao final dos anos 1980. Mais tarde, depois que esse estilo de música já não só me oferecia mais desabafo algum como não suportava mais seu encanto circense, (Nick Hornby dizendo o quanto a maturidade o fizera mais triste por não poder mais ouvir Rat Salad, do Sabbath, e Heartbreak, do Zep, sem peso de consciência), já tinha todas as leituras de Marcuse e Adorno para saber que o massacre real era a inteligência imperdoável da Indústria Cultural em conhecer essas fases da insatisfação humana e simular provê-la com bugigangas inúteis. Era o mesmo princípio tanto de controle social quanto de vendas exorbitantes que estava por detrás de adolescentes apascentados de serem violentos pela evocação fantasiosa da violência, e de crianças de um ano e meio como o meu filho o qual vídeos de homens vestidos de palhaço pulando numa felicidade eterna fazem o serviço doméstico de hipnotizá-los enquanto a mãe cozinha o almoço, e, não menos importante, inoculam já o princípio da saturação para que se compre o mais novo e melhor vídeo em que, dessa vez, os homens vestidos de palhaço prometem uma felicidade mais intensa, um controle social mais inescapável. Em suma, algo complicadíssimo!
Em seu livro Cultura de Massas no Século XX, Volume I, Neurose, Edgar Morin escreve que por mais que a Indústria Cultural emplastifica e padroniza na fria escala da produção em série uma ideia, extirpando-lhe o risco da genuinidade e tornando-a o produto seguro, sem ideologismos e transcendências, ainda assim _ diz Morin_, algo da intenção espiritual de seu autor subjaz, numa réstia de brilho autêntico. Ou seja, por detrás da inocente reverberação de Paranoid, ainda assim a fúria marginal do pobre testador de sinos que trabalhava no centro industrial londrino antes de se tornar o rock star Ozzy Osbourne, transparece por sob as poses demoníacas e os teatros de macumba que envolvem a indútria do hard rock.
Baseado nessas novas vacinas adquiridas contra a catarse oferecida pela indústria, em qualquer nível, que eu demorei mais de dez anos para ler Thomas Bernhard. Tinha a convicção, alimentada pelas loas e reverências da imprensa e dos meios acadêmicos após a sua morte, que ele não passava de mais um desses produtos dotados de brilho interno que a confecção da cultura viam por bem ter que preservar, mas que servia plenamente aos objetivos dessa indústria e dessa cultura de consumo sofisticada. Era francês demais, e nunca suportei os franceses, excluindo Stendhal. E seu mote era o pior possível, uma versão adulta do que Paranoid fazia ao nível da meninice, ou seja, botar ao chão todas as partes da sociedade que ele escolhia como deletérias e não deixar sobreviventes. Eu estava envolvido demais com a literatura legítima dos norte-americanos, hispano-americanos, e os alemães célebres da metade inicial do seculo XX, que falavam sobre personagens e situações verdadeiras, sentimentos e agonias relevantes, para perder tempo com um eleito monotemático, um queridinho de professores universitários. Bastava-me como esclarecimento geral ler algumas análises sobre seus livros principais saídos na imprensa miúda, o que não mudava minha decisão de que o austríaco genial, o maior autor alemão dos últimos tempos, não passava de um caluniador minimalista, rancoroso, ao estilo do pobre do Onfray atual. Decididamente o esqueci, até que o Milton Ribeiro ou um dos comentaristas de seu blog citou o enterrado Bernhard com uma entonação especial, que me fez procurar um de seus romances cultuados, O Náufrago.
O Náufrago, que adquiri por birra de não ficar para trás do público letrado do Milton, poderia ter sido o único livro de Bernhard que eu leria. Um romance competente, grandioso, forte, alucinado, o que já serviria para derrubar o preconceito, do alto de meus trinta e cinco anos, que se represara em mim contra o autor. Mas o Milton estabelecera que O Náufrago não era nem a metade de Extinção, o romanção escatológico que era a súmula das qualidades de Bernhard, o que atiçava mais ainda meu desejo o fato de Extinção ser um dos dez títulos mais procurados e difíceis de se encontar no mercado de livros usados nacionais. A Companhia das Letras lançou uma só edição, que se esgotou rapidamente. Foram meses de consultas diárias a sites de sebos sem que o achasse, o próprio Náufrago tendo sido uma sorte imensa tê-lo comprado num supetão, pois também não aparecia quem quisesse abrir mão de seu exemplar para a venda.
Comprei Extinção por um preço salgadíssimo, trêmulo de medo de que o vendedor me mandasse um pedido de desculpas pelo equívoco de não informar antes que o exemplar já havia sido vendido. Li em três dias e, como é óbvio na confecção não-gostava-passei-a-gostar desse post, a coisa atingiu fundo, me trouxe a sensação de que a crise da beira dos quarenta anos fora atenuada por ainda poder-se descobrir livros tão vivificantes e empolgantes quanto esse. Realmente não havia me enganado com minha ideia de que Bernhard tinha apenas um tema. Da primeira à última página (a começar antes, pela mensagem concisa do título), Bernhard não faz outra coisa que desconstruir e atacar a instituição hipócrita da família, a medianidade inculta da Áustria, o vazio vaidoso da cultura alemã, a conivência simpática da população aos nazistas, o catolicismo, a burguesia, o capitalismo, o comunismo, toda a vida humana em si com seus arquétipos falhos de normalidade e, sem que essa aversão unânime lhe fizesse cair a crítica de que a lucidez de ver a corrupção torna o denunciante o único que se salva, o personagem de Extinção fecha a fila com sua própria destruição. E o estilo de Bernhard, carregado de síncopes, de frases aliterativas, de uma compulsão constrita que faz lembrar o depoimento de um louco, de um doce de tão apurado ódio aos limites tacanhos da existência imposta, serve a endossar além do gesto do leitor em encerrar a última página, fechando o livro, a alta qualidade de sua ficção de que o próprio volume faz parte do contexto ficcional, por ser o diário de um homem ao extremo da saturação. Extinção é como ver o quadro por inteiro de um Pollock, ou de um Picasso (não importa a escola pictórica), e saber que todo ele é uma obra em concordância intrínseca desde os pequenos detalhes no centro até a moldura. Por isso, e pela absorção e pelo prazer que me proporciona (já o li mais duas vezes), considero-o um dos mais perfeitos romances.
Extinção, entre os livros de Bernhard _ por mais que O Náufrago, Árvores Abatidas, O Sobrinho de Wittgenstein sejam grandiosos _, só é alcançado pelas biografias de Bernhard, compiladas em Origem. Origem chega a ser superior a Extinção, (uma felicidade), principalmente por a biografia servir melhor à força da prosa de Bernhard do que a ficção. Há páginas em Origem que de imediato o leitor treinado identifica como entre as maiores produzidas em todo século XX, como a do bombardeio das frotas aéreas dos Aliados a Salzburgo, e dos percalços do jovem Bernhard pelos muitos hospitais em que tenta se curar de sua doença dos pulmões.
Origem mostra um Bernhard terno, profundamento compadecido da condição humana que atola o espírito do homem na mais insondável alienação e bestialidade. As várias partes que dedica a descrever seu avô são muito tocantes. A relação de Bernhard com o avô, a única pessoa que verdadeiramente o escritor amou sem reservas, atinge um patamar tão alto de sinceridade, que não poucas vezes me deixara emocionado. A descrição de sua pobreza absurda na infância, quando moravam sua mãe, seu pai, um ou dois outros filhos do avô, e o avô e a avó, numa casa minúscula, dão a conhecer o Bernhard não ficcional, o que não é o Franz-Josef Murau de Extinção, o Bernhard que se revela nos vários momentos em que escrevera as 5 partes dessa biografia como um homem cuja vida toda fora não deixar-se absorver, não deixar-se apanhar pelas circusntâncias sociais, pelas correntes forjadas do espírito, pelos cabrestos catedráticos e políticos, partidários e patrióticos. Assim como ninguém daquela casa paupérrima perturbava o avô de Bernhard em suas perseverantes tentativas de escrever um romance que lhes trouxesse a liberdade financeira, Bernhard também promovia a sua escrita isento das responsabilidades prementes do mundo, tendo absorvido a vontade do avô de que fosse um grande intelectual, alguém distinto da massa de idiotizados e levados em infinitas conversas que compôe a sociedade dos homens.
"De tempos em tempos, as doenças, reais ou não _ nas palavras dele_, eram necessárias para que as pessoas refletissem sobre coisas acerca das quais não pensariam se não tivessem adoecidos temporariamente. Se não éramos obrigados de forma natural, ou seja, por nossa própria natureza, a frequentar esferas propícias a tais pensamentos, como sem dúvida o eram hospitais como aquele e hospitais de modo geral, precisaríamos recorrer a artifícios para visitá-los, ainda que tivéssemos de descobrir, inventar ou mesmo produzir artificialmente em nós mesmos a doença que nos obrigasse a procurar os hospitais _ argumentou ele _, do contrário jamais teríamos aqueles pensamentos de importância vital, decisivos para a existência. Na verdade, nem precisavam ser hospitais, admitiu, cadeias também nos possibilitariam aquele tipo de reflexão, ou talvez monastérios. Mas cadeias e monastérios, prosseguiu, nada mais eram do que hospitais."
(Origem, p. 353, tradução de Sérgio Tellaroli, Companhia das Letras)
Amanhã: Saul Bellow
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