segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Semana Grandes Escritores: Segunda-Feira de William Faulkner



Os romances de Faulkner acontecem em quatro fases, cujas mudanças espontâneas e quase indistintas surgidas ao longo da narrativa são uma das excepcionais e superioras características do estranhismo de Faulkner.

A primeira fase é a da apresentação dos personagens e dos cenários, as primeiras tintas , respectivamente, de suas maldições históricas e da natureza indomesticável  avessa à presença do homem;

A segunda a inter-relação dos personagens entre si e destes com a natureza espacial mítica criada pelo autor;

A terceira, que tem a enganosa aparência de ser mais importante que as outras (tudo em Faulkner se complementa com o mesmo grau de relevância), é quando tudo se reviravolta e ganha rumos inesperados, quando as certezas estabelecidas com as quais o leitor tem a sensação de firmar o olhar seguro são desfeitas e o enredo passa a transitar por passagens surpreendentes, onde a complexidade geral surge por sob a suposta linearidade dos eventos;

A quarta e última fase é quando reinicia a repetição do ciclo, e o estranhismo _ traço essencial a um grande escritor _ se assenta, com seus ares de que está prestes a solucionar os enigmas propostos ,  mas que na verdade impõe o que uma arte que se iguala ou ultrapassa a casuística da vida tem a determinação de expressar: a de que não somos destinados a existir em um universo seguro, com regras pré-estabelecidas, e não nos será revelada a solução dos mistérios. 

Qualquer um com aptidão física para repetir essas prestigitações da escrita pode simular fazer a mesma coisa, mas Faulkner, como poucos criadores _ e estando em um patamar acima dos bem sucedidos entre eles _ , consegue jogar por sobre suas páginas o jorro luminoso da uma poderosa autenticidade; seus personagens são tão reais no que tem de erráteis, e sensíveis ao soco propulsor de seus primeiros contatos traumáticos com o mundo,   tão defensivos em repetir cegamente a violência que sofreram em cantos escuros da infância e propícios a serem vetores da infindabilidade do medo e do abandono, que suplantam os esquematismos técnicos da ficção genialmente urdida para ganharem ossos, carne e espírito.

Os piores entre os piores homens de Faulkner sempre tem um passado em cuja  indequabilidade a um mundo corrompido ativam seus recônditos potenciais de adaptação, eximindo-os de compreender, e os tornam proficientes a falar o mesmo idioma da rejeição sofrida. Em algum momento deixam de ser ternos, assustadiços e silenciosos, principalmente quando uma etapa da sucessiva violência a que são vítimas demonstra-se brutal demais para que possam prosseguir com a mesma integridade, e se tornam mesquinhos, inumanos e silenciosos. A maior parte dos homens-demônios de Faulkner tem essa constituição: ser quase por completo silenciosa. O silêncio torna-se um escudo físico que mesmo para Faulkner ( que era o primeiro a se assustar com suas aparições de erradiações sinistras, antes de moldá-los no discurso) era uma barreira indevassável que não conseguia tornar efetivamente translúcida, daí que, nessa fase de construção degradativa dos personagens, Faulkner passa a descrevê-los utilizando elementos instrumentais de um materialismo duro, férreo, industrial. Os olhos de Popeye, em Santuário,  parecem-se com maçanetas de porta, a mulher de Palmeiras Selvagens possui o rosto vítreo de insondáveis móveis domésticos, Joe Christmas, de Luz em Agosto, parece a encarnação pétrea da geografia do sul dos Estados Unidos, tanto no que ela tem de carvonesca, quanto do maquinário explorador do trabalho dos sub-assalariados exaustos e  da inamistosidade sem vida das indústrias e das oficinas paupérrimas dos povoados de beira de estrada.

São propostas às criaturas de Faulkner as duas únicas alternativas de um mundo imisericordioso: o suicídio, ou a participação ativa na promiscuidade reinante. Os que rejeitam a primeira opção tem o benefício excruciante de progredir até o máximo que a torpeza e a inumanidade lhes permitem, e se tornam senhores  escravocratas, donos do condado, beneficiários dos galardões de uma sociedade covarde e amesquinhada diante suas opressivas estaturas de poder, de forma que são os homens que se venderam para ter seus nomes nos jornais, contas nos bancos, e juízes marcados nos bolsos do paletó.

São inteligentes e carnais demais para desaparecerem da existência por suas próprias mãos. Do ponto de vista das engrenagens sociais, não há muito a se condenar neles: são os promotores do que confere graça à vida, os que conseguem iludir que acabrestaram a furia caótica da natureza  pondo sobre ela o sinal do falso domínio do homem, os que simulam preencher o Nada etéreo e desesperdor com o pesadelo reconfortante da forja de tradições e mitologias para as quais se oferecem como alimento para o povo que os investem dos temores devocionais das divindades.

Os indefesos, os puros, indomáveis e incorruptíveis (como Boon Hogganbeck e o velho urso Old Ben, de Desça, Moisés, Quentin Sutpen de Absalão, Absalão!, e o retardado de O Som e a Fúria ), optam pelo suicídio, ou, na melhor das hipóteses (o que não configura uma terceira opção, mas uma abrangência da primeira), suicidam-se ao tomarem para si o silêncio das mortalhas em vida que os isolam do mundo. Daí tantas tias solteironas trancadas para sempre em casarões desabitados, diante as janelas das quais os vizinhos depositam diariamente um prato de comida, ou como o odor de putrafação de santidade que se desprende do pastor caído Hightower, ou como o retardado que narra a primeira parte de O Som e a Fúria para quem o instante perpétuo é a única sobrevida que ilusoriamente tem antes que o mundo o trage e destrua. O povo constrói os seus deuses, como também seus santos.

Por detrás do mundo de cores ásperas de Faulkner, de suas chuvas desoladoras, de suas florestas altissonantes, herméticas e pré-históricas, de suas vilas onde o tédio de antigos vícios sedimentados alimenta o veneno de velhos ressentimentos, de todo condado de Yokanapatawpha que reflete o provincianismo e a conjunção irredutível a um conservadorismo ultra-violento dos primórdios do coronelismo e dos amores patrióticos à terra; por detrás desse mundo onde tudo ressende a desumanidade, paira o que distingue Faulkner de todos os outros grandes escritores antes e depois dele, e o que determina a sua herança: a força de sua linguagem apoteótica, única, devastadora,  de sua beleza poética e de seu alcance esotérico, seu estranhismo, para o qual não se achou outro termo melhor  que "moderno", mas que não se enquadra aos meros exercícios de originalidade dos novos desbravadores da lingua e não se coapta a academicismos e teorias facilitadoras; sua imponência bíblica, sua carga de maldição profética, sua solidão intocada de ter nascido no país que talvez não fosse o certo para comportar seu orientalismo moral e sua inconformidade messiânica se não tivesse em sua linha genealógica pregressa antepassados como William Blake, Melville e Emerson, e cujo único filho futuro merecedor de ombrea-lo numa nova versão urbana e dessacralizada sendo o também não catalogável Saul Bellow.

 Quem tenta conhecê-lo através do inapropriado romance que a crítica oficial elegeu como o seu melhor livro, O Som e a Fúria, tem enorme chance de odiá-lo. Mas quem tem a felicidade de se desatrelar das ideias pre-estabelecidas, e parte para o universo faulkneriano através do cartão de apresentação mais fácil de Santuário, Os Invictos, O Povoado, ou o soberbo Luz em Agosto (que fez com que Sartre dissesse que "Faulkner é Deus"), é muito passível de acontecer o que Borges decretou em um de seus prefácios: não se sai ileso de um livro de Faulkner. Eu mesmo fui mudado em definitivo após ler Absalão, Absalão!, seguramente um dos três maiores livros que já me passaram pelas mãos. Absalão, Absalão!, assim como Desça, Moisés, são os títulos que oferecem com plenitude o tão famoso estilo faulkneriano, num primeiro momento obscuro, difícil, intrincado, mas que, à custa de uma atenção absoluta e de uma persistência recompensadora, torna-se fluido, mágico, com sua abrangência que oferece um nível de informação e interação que dá inéditas capacidades à literatura ( muito copiada tanto por ficcionistas quanto por filósofos modernos, historiadores e cineastas).

É difícil identificar quais foram as influências de Faulkner. Parece que ele inventou um estilo do nada, sem dever nada a antepassados. Os únicos sinais perceptíveis são o da retórica do Velho Testamento. Sabe-se que Faulkner relia religiosamente a cada ano Dom Quixote, o que serve para atiçar mais a questão e não resolvê-la. Mas há muito de Shakespeare, algo de Henry James, Joseph Conrad, Dostoiévski e, de forma a complementar e não de tomar para si, muito de James Joyce. E não só esse estilo atlântico e sinfônico serviu a reconstruir toda uma potente literatura latino-americana surgida na última metade do século XX, caindo-lhe na necessidade de seus propósitos, como a temática social dos romances de Faulkner instruiu a voz denunciadora de escritores que aprenderam muito com ele, como Garcia Máquez, Vargas Llosa, Sábato, Ricardo Piglia, entre outros.

Para finalizar, confesso que nada foi mais impactante nesses meus longos anos de leitor profissional do que a súbita visão, no meio de uma narrativa caudalosa que não dá tréguas e retira o fôlego de tanta intensidade, da causa do por que o Coronel Henry Sutpen eximiu-se do que identifica um homem para um outro homem, e optou não tão livremente ao dedicado massacre de sua alma e da alma de seus semelhantes. Naquela clareira repentina  oferecida em uma das páginas do meio de Absalão, Absalão! , um jovem  Henry Sutpen, que progressivamente não tinha muitos motivos a apostar na bondade humana, decide, tenaz e disciplinadamente, a devolver em quádruplo dali para frente, a humilhação, a afronta e a dor inexorável que sofreu, quando ainda era tão imaculado e incorruptível.

O belo excerto abaixo eu o sei de cór desde quando o li pela primeira vez, há vinte anos. Trata de um hipotético encontro espiritual das almas cansadas do Coronel Henry Sutpen, após sua morte, com o seu assassino vingador, o velho e servil criado Wash, morto em seguida. Confesso que ainda me são tão belas essas palavras, que me vem lágrimas nos olhos. Está na página 170 e 171, da tradução de Sônia Régis para a Editora Nova Fronteira:


"Ele seguira o demônio doze horas depois, naquele mesmo domingo (e talvez tenham ido para o mesmo lugar; talvez lá onde estão agora ainda possam tomar um vinho de muscadínea, sem mais compulsão pelo sustento, ambição, fornicação ou vingança, e talvez até nem tenham de beber, apenas sintam falta do vinho de vez em quando, sem saber do que sentem falta, mas isso não é sempre; serenos, agradáveis, não-marcados pelo tempo ou pela temperatura do dia; apenas de vez em quando alguma coisa, um vento ou uma sombra, faça o demônio parar de falar  e Jones parar de gargalhar e eles se olhem, procurando às cegas, sérios, concentrados, enquanto o demônio diz: "O que foi que aconteceu, Wash? Alguma coisa aconteceu. O que foi?"; e o Jones, olhando para o demônio, atento também, também sóbrio, diz: "Eu num sei, Coroné. Que foi?"; e olha para ele. Depois, a sombra se apaga, o vento se extingue e Jones diz, sereno, sem nenhum triunfo: "Eles devem de ter matado nós, mas eles 'inda num pegaram nós, num é?)"


Amanhã: Thomas Bernhard

sábado, 8 de janeiro de 2011

Cronograma Para a Semana



Nessa semana que adentra, procurarei centrar a atenção desse blog exclusivamente a questões literárias. Será um desafio, pois escreverei os textos a cada dia, impondo-me uma certa disciplina que me afasta do drink noturno e me aproxima a uma média maior com a esposa, visto que estarei cordatamente escrevendo no notebook em vez de curtindo Charles Mingus aos goles desregrados de Johnny Walker ou Gato Negro. Por meu planejamento calculado, a organização será a seguinte:


Segunda-feira: William Faulkner
Terça-feira: Thomas Bernhard
Quarta-feira: Saul Bellow
Quinta-feira: V.S.Naipaul
Sexta-feira: Philip Roth

Serão textos apaixonados e os mais coerentes possíveis (sic), sobre autores os quais li toda a obra e domino plenamente a temática. E um exercício não tão apiedante quanto possa parecer: quando, há dez anos, deixei de fumar, não haviam tais recursos virtuais como auxílio.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Primeiro Coro de "A Rocha"



Paira a águia no alto do céu,
o caçador e a matilha completam seu círculo,
Oh, revolução incessante de configuradas estrelas!
Oh, perpétuo curso de estações determinadas!
Oh, mundo do estio e do outono, de morte e nascimento!
O infinito ciclo das ideias e dos atos,
infinita invenção, experimento infinito,
traz conhecimento da mobilidade, mas não da quietude;
conhecimento da fala, mas não do silêncio;
conhecimento das palavras e ignorância da Palavra.
Todo o nosso conhecimento aproxima-nos de nossa ignorância,
toda a nossa ignorância aproxima-nos da morte,
mas a aproximidade da morte não nos aproxima de Deus.
Onde está a vida que perdemos em viver?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde o conhecimento que perdemos em informação?
Os ciclos celestiais em vinte séculos
afastam-nos de Deus e aproximam-nos do pó.

(T. S. Eliot)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

On Grief and Reason


Vocês ficarão entediados com seu trabalho, seus cônjuges, seus amantes, com a vista de sua janela, a mobília ou o papel de parede de seu quarto, seus pensamentos, com vocês mesmos. Por conseguinte, tentarão imaginar maneiras de fugir. Além dos dispositivos de auto-satisfação mencionados anteriormente, vocês podem assumir novos empregos, residências, empresas, países, climas, podem assumir a promiscuidade, o álcool, viagens, aulas de culinária, drogas, psicanálise...Na verdade, podem juntar tudo isso, e por algum tempo vai parecer que está funcionando. Até o dia, é claro, em que você acorda em seu quarto em meio a uma nova família e outro papel de parede, num estado e num clima diferentes, com uma pilha de contas do agente de viagens e do psicanalista, mas com o mesmo sentimento de fastio em relação à luz do dia que se infiltra pela janela...

(Joseph Bródsky, citado por Zygmunt Bauman em Vida para Consumo, p. 144, Zahar editora, tradução de Carlos Alberto Medeiros) 

domingo, 2 de janeiro de 2011

Arcimboldo



O que aconteceu mesmo foi que o peru não foi sacrificado. De algum modo, nessas duas semanas em que fora colocado no terreiro da casa de frente à minha, ele conseguira, com seu charme consonantal e seu jeito de pensador reservado, reverter o propósito que o distinto senhor negro que o trouxera havia-lhe estipulado para a ceia de natal. E, no amanhecer do dia 26, quando abro a janela do quarto da minha filha para que a chuva fina que cai há tanto tempo refresque o ar interior, que surpresa vê-lo parado do lado de lá do portão, ainda vivo, com seu excesso de cristas subindo e descendo pelo pescoço suntuoso, olhando a rua deserta com a candura estóica de quem mesmo tendo caído nas graças do bom acaso de escapar do holocausto, não se desfaz de seu escudo de reserva em relação ao mundo. Respiro aliviado, reconhecendo que sua presença barulhenta (um barulho monocórdio de dois em dois minutos), e seus passos medidos de mordomo, haviam feito com que eu gostasse dele, o tornara um amigo, e digo baixinho:

_ Ah, danado! Então o senhor tá aí, firme e decidido.

Como não consta nem nos mais desatinados manuais de etiqueta gastronômica que essas aves dubiamente beneficiadas por sentenças de final de ano possam ser comidas em outras ceias que não a do natal, é certeza que ele sobreviverá por mais um ano inteiro. A primeira vez que nos vimos, ou eu o vi (tamanho o alvoroço que fez ao descer da caçamba da caminhoneta que só deve ter tido tempo de notar o homem de livro na mão sentado na cadeira de fio do outro lado da rua só quando identificou primeiro seu novo ambiente), quando o senhor Osvaldo, o negro sempre muito educado que é meu vizinho de frente, como que me o apresenta, "a patroa gosta de um peruzinho no natal".

E eis que o danado, com seu gluglu que espoca os sons habituais da cidade com uma indecifrável urgência que só a ele é séria, conquistou o senhor Osvaldo e a patroa do senhor Osvaldo, e, como a simpatia nesses casos tende a crescer ao longo do tempo, no natal que vem ele estará inconspícuo em seu lugar consagrado de animal doméstico, e minha filha já terá idade suficiente para também ter sido cativada por ele.

Arcimboldo, penso, é um bom nome.

_ Olhe lá Júlia, o quanto tá grande e bonito o Arcimboldo!

                                                    ___________________________________            

GLU-GLU-GLU
by Ramiro conceição


Estou muito desconfiado que o tal do Arcimboldo não é bobo,
porém um astuto Assimbardo culto a fazer “GLU-GLU-GLU”.
Ai dos futuros natais nessas plagas daí, do interior de Goiás! 
  
                                    (comentário do poeta Ramiro)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Meus Horrores

Miles Davis


Inteligência não é muito o que tem a ver com o caso, mas uma espécie de gosto confortável pela inanição.

Até pouco mais dos meus trinta anos eu abominava responsabilidades. Talvez o único cálculo consciente que  fiz para a vida foi o de arrumar as coisas de forma a que a qualquer hora eu pudesse dar um chute e mandar tudo pelos ares. Se num emprego existisse a possibilidade recorrente de alguma coisa ou alguém me incomodar, eu faria igual ao hipotético ganhador da loteria, daria um tapa na mesa e apontaria o dedo médio num acintoso gesto de fornicação com o ar na cara de todo mundo, e me mandaria. Não à toa que passei por vários empregos, de professor a agente de segurança, de funcionário de cartório a sanitarista. Minha riqueza era não ter uma alma que dependesse de mim. Ao invés do requinte vingativo do dinheiro, as imagens que me confortavam era que não me incomodariam o completo isolamento. Dou-me muito bem comigo mesmo. Minha companhia me agrada plenamente.

Uma vez, no estágio universitário, tomei conhecimento da existência de um mendigo que havia construído uma choupana de papelão e zinco abaixo das margens de uma rodovia, e lá se refugiava do mundo. Eu voltava da granja onde estagiava e aprumava as vistas para ver mais uma vez a sua silhueta esguia, as barbas negras compridas, os cabelos saarianos desgrenhados. Numa noite, um grupo de adolescentes parara o carro de frente à sua caverna, retiraram-lhe lá de dentro, e o surraram pra valer. Somente no fim de meu compromisso universitário, quando me preparava para sair dali, foi que o vi retornando. Mendigos sempre me fascinavam. Não havia posicionamento de maior inconformismo que despojar-se de tudo, até do suicídio, e viver na mais completa contramão.

Fui assim até me darem o Miles Davis. Jamais cogitara a hipótese de ter um cachorro ou qualquer animal doméstico. Achava-me irresponsável e inseguro para cuidar dos mínimos pormenores de asseio e alimentação. Mas o Miles foi me dado por uma amigo, de forma que, ao ter a pelota de pêlos de um filhote de Rotweiller nas mãos, só me passava pela cabeça a premência imediata de achar alguém que o quisesse assim que meu amigo me desse as costas. Eu era solteiro, porque o casamento também me abominava pelas mesmas razões instrumentais que me abominava ter um cãozinho. O Miles ainda não tinha um nome, e o deixei de fora da casa, num cantinho improvisado com uma parede de tijolos e pneus para que ele não passassse pela porta sem trinco dos fundos e entrasse pela cozinha. Não achava quem o quisesse. Telefonei para vários conhecidos, sempre recebendo um não cordial, até que resolvi apelar pela exposição física do bichinho na certeza de que não haveria ser humano imune a sua fofura negra.

Acho que a coisa aconteceu quando fui pegá-lo no quintal para colocá-lo no carro, a fim de despachá-lo de uma vez por todas. Chovia uma chuva fina e constante, e aquele que ainda não era o Miles estava sentado nas patinhas traseiras e olhando para a água caíndo, com uns olhos tão maravilhados (ele tinha três meses e nunca tinha visto a chuva), uns olhinhos de encantamento com o mundo, que me fez sentar ao lado dele para selar nossa despedida com aquela descoberta tão importante. Coloquei-o em meu colo, lambi-lhe em retribuição sua linguinha, fiz-lhe cosquinhas na barriga. Não tem como fugir dessa lúdica cena de filme em que os sentimentos entre um homem e um cão dão uma esperada reviravolta e eles se tornam amigos para sempre, por isso, a partir daquele dia, minha vida transplantou-se de uma cidadezinha interiorana de Goiás para uma existência hollywoodiana de passeios na praça e sono acompanhado na solitária cama de casal. Dormíamos juntos, comíamos juntos, escutávamos música juntos. Quando o Miles ergueu pela primeira vez a patinha para fazer xixi foi um acontecimento histórico, um misto de palmas e afagos. Suas primeiras exteriorizações de braveza eram muito engraçadas. Ele pulava com as patinhas dianteiras no portão, ficando em pé, para latir para as pessoas que passavam, e soltava de quebra uns punzinhos traiçoeiros que o faziam olhar assustado para mim.

E o mais assustador foi que, para meu caráter certa vez definido por uma namorada desesperançada como o de um "eterno estudante universitário de jornalismo", despojado e leviano, eu me tornei o mais zeloso criador de cachorro. Comprava-lhe as mais caras rações, levava-lhe a passear duas vezes por dia. Quando minha mãe ficou sabendo que eu vivia com um cachorro, ela disse "Jesus amado, o pobre do animal não merece!", (referindo-se ao Miles, esteja explicado), e nunca mais teve coragem de tocar no assunto, até ver com os próprios olhos que em vez de levar um processo nas costas por maus tratos a animais, eu criava o mais bonito, limpo, domesticado e amado cão num raio de 15 mil quilômetros. A Dani, que na época era minha namorada, ficava entre tocada pela descoberta daqueles ensejos de ternura sobrenaturais e enciumada pelo excesso de espaço que o Miles tinha na casa, e foi a testemunha, uma certa vez, de minha falta de costume descomunal diante a situação inédita de ver o Miles doente. Ela me pegara chorando, desesperado, balbuciando pelo telefone feito uma criança que o Miles não queria comer fazia 3 dias e estava com febre. "Mas você não é veterinário, homem de deus!!", ela me lembrou, o que me fez aprumar de puro constrangimento e aplicar a cura no Miles com antiinflamatório e antibiótico.

Assim também foi com o casamento e, sobretudo, com os filhos. Só fiquei sabendo o quanto é fundamental e maravilhoso, quanto está tão à frente do senso comum e das preocupações comezinhas comigo mesmo, quando tive o Eric nas mãos, no dia do seu nascimento. Durante os fogos da passagem de ano de ontem, para que a Júlia não se assustasse e não despertasse do sono tão trabalhado por quinze minutos de acalanto nos braços, eu coloquei a Sétima Sinfonia de Beethoven para tocar num volume acima do normal, para que sobrepujasse o barulho da rua e a envolvesse num muro acústico de proteção. Os fogos começaram e se prolongaram por bons outros 15 minutos, e a Júlia não se incomodou. O mundo inteiro explodindo de regozijo forçado, e a Júlia com os olhos fechados, a mão espalmada contra meu peito. Ela não dá tregua para a Dani, e a Dani é absolutamente feliz com isso. Ela é tão suarenta quanto eu, mas adora ficar agarrada em meus braços enquanto eu a levo de canto a canto pela casa por muito tempo, até que nós dois estejamos encharcados um com o suor do outro. Se eu me encontrasse no tempo com a pessoa que fui há 5 anos e me informasse sobre isso, não acreditaria.

Numa dessas conversas sobre os males do mundo que tenho com um amigo, diante ao desfile de coisas que antes me deixavam depressivo e pesaroso, descobri que há alguns anos não tenho mais o luxo de ser depressivo. A filosofia só pode contar numa postura ativa quando se é pai, ou se tem um cão a que se ama da mesma forma que se ama um filho. Ainda me solidarizo com o distante mendigo dos tempos de estágio, mas, como Nick Adams certa vez respondeu à pergunta de para onde estava indo, lhe feita por uma turma de renegados, eu também vou por um caminho oposto ao dele.

Júlia (3 meses hoje)