Ter a impressão, um tanto singela mas não menos verdadeira e incômoda, que se gastou tempo demais amando os escritores errados; que a identidade procurada se revelou a farsa já há muito prevista de que não surgiria abruptamente, como uma iluminação, como uma compensação mística irretocável por tantos anos dedicados com afinco em querer possuí-la. A identidade, real e substanciosa, que se começa a ter, vem, antes, da destruição dessas superstições: jamais seria um escritor como os que amou pela vida toda. Jamais poderia, como sempre desejou fanaticamente, prescindir de seu contexto geográfico. Aliás, a geografia é o que lhe cobra mais rearranjos inteligentes: a opção de que se a transverta em símbolos concretos de um paralelismo imaginário, com a contradição tornada lógica de ainda assim manter o firme pé na realidade. Sente a sarcástica posição de que agora é que está lendo os autores certos. Lembra de seus incansáveis exercícios para ter a fluência veloz e elegante de Saul Bellow; recorda uma tarde, há 15 anos, sentado nas escadas de um prédio de escritórios, em que escreveu uma página inteira no caderno que era como uma psicografia, e que a releu mil vezes e mil vezes pensou que aquilo era seu amuleto. Então é assim (de certa forma é um ponto para ele ter tido sempre a presciência de que só poderia se tornar um escritor quando essa verdade libertária desmoronasse sobre ele). Uma vez escreveu para um amigo a tola declaração de que se algum dia se tornasse um escritor, seria um escritor médio-europeu. Quando escreveu isso percebeu imediatamente a tolice, mas aí é que estava a legitimidade da coisa. Alguém que tivesse algo para dizer não sobre si mesmo, não sobre suas tristes e desinteressantes vaidades mobiliárias do fetiche do ato da escrita. Lê Kertész, já famoso, especular se "perdera a profundidade". Nada lhe parece mais ridículo, ridículo a um ponto de lhe provocar náuseas, quando vê a pessoa se arvorar com o termo "escritor". Há inúmeros provocadores de náuseas no Facebook. Função: escritor. Escreveu o quê, e, mais importante: para quem? Um dia acessou o link disponível do romance de um desses escritores, leu a pequena obra toda num espanto de estoicismo, e ficou sentindo o velho terror de se ele próprio estaria tão patologicamente incapacitado para enxergar a si mesmo quanto aquela figura. Havia diálogos sobre religião tão simplórios, havia um auto-deslumbramento masturbatório na pretensa "surpresa" do final, que ele pensou: nenhum conselho é mais valioso do que aquele do Hemingway de que se você não conseguir se tornar um escritor, o que lhe resta é dar um tiro na cabeça. Um tiro metafórico na cabeça retiraria da visão aquele tom de importância arrogante do sujeito que não se enxerga. Ele jamais incorreria nessa falha de caráter; não aos 40 anos e o que lhe tem de vida pela frente. Acompanha com aquela falta de compromisso e total ausência de espiritualidade a alguns textos pelo Facebook. Mil compartilhamentos, mil comentários de "como tu és um gênio", para textos que só se tivesse uma lesão cerebral iria interessá-lo. Um dia vê o tema de doutorado de uma dessas sumidades_ uma mulher_, e é sobre não sei o que da sociologia relacionado à série de televisão The Wire. No mundo inteiro, achar alguém que ainda não perdeu a profundidade. Uma vez, há muitos anos, pediu a deus que se tornasse um escritor. Desde seus 14 ou 15 anos aprendeu por si mesmo, pela taxa de sofrimentos recolhidos que lhe cabia em sua então acentuada lucidez, a não pedir nada a deus para si mesmo. Mas nesse dia, talvez andando pela cidade, talvez sob a chuva, talvez suportando a dor então superalimentada de algum rompimento amoroso, pediu unicamente isso a deus. Comportou-se como se deus houvesse lhe respondido positivamente. Um dia chegaria. Abdicou das opções naturais de sua família para a acensão social. O que ele sempre soube é que a literalidade desse seu pedido era: Senhor, me faça possível ser um escritor médio-europeu. Sabia o que pedira. Não pedira a iconografia do escritor: a silhueta romântica da janela acesa na madrugada mergulhada em trabalho. Não pedira sequer reconhecimento. Não era modéstia, falsos pudores cuja capa invertida revela a situação do gênio não compreendido. Pedira na verdade a concentração, a seriedade, a chama. Era isso: pedira a Chama. Pedira a independência do artesão potente de ser deixado em paz pelo mundo, pela Alameda da Mentira. Pedira, como diz um personagem de A peste, "o possível para recusar a ficar do lado da praga". Pedira, em um entendimento profundamente pessoal, o sofrimento eufórico de ver tudo sob o prisma da perenidade sublocada resistente à mesmice, ao pensamento feito, ao rolo compressor das importâncias e certezas dos atos do cotidiano. Pedira um pouco de deus a deus. Pai, me faça partícipe, um associado para o qual não se lhe dê clemência, para o qual se lhe dê a visão suficientemente ponderada não mais que o limite para que sua mente insuficiente possa se abrir um pouquinho mais no sentido do terror e da alegria divina. Para ele não haveria prêmio maior. Volta a pensar nos escritores errados que leu a vida toda, os grandes, os canônicos. Claro que os julga errados agora por ter, de cada um, retirado o máximo que pôde. Agora se lhe cai nas mãos os escritores esquecidos, feitos para serem esquecidos, os grandes desbravadores de mais um dos infinitos campos de percepção da existência. Pai, me dê a sinceridade e me invista da ebuliência sanguínea necessária. Escrever apenas pela impostura e pela pose nunca lhe passou pela cabeça. Tem uma completa indiferença a isso. Poderia ter já publicado ao menos 3 livrinhos talvez substanciosos para certos nichos de visibilidade, mas o que seria isso? Historinhas de certo charme. Lembra certa vez, na infância, em que um escritor visitou sua sala de aula. Um escritor legítimo, do qual acabara de ler seu livro. Ficou muito empolgado, ouviu ao senhor ali em frente com um silêncio religioso. Hoje não se recorda do nome do homem, mas o título do romance era Duas lutas. Falava sobre rinhas de galo e o fato que lhe deleitou além da própria qualidade da obra foi ela ter dois finais. O leitor que escolhesse o que melhor lhe convinha. Sabe que esse tipo de livro não é para ele, que ele não conseguiria escrever uma história tão idônea, retilínea, honesta, vigorosa. Talvez depois, se algum dia se tornar um escritor, no crepúsculo da carreira. Não se julga melhor que esses escritores_ aliás, só ele sabe que não se julga melhor que ninguém. Apenas sabe que o que teria para dizer vem de outra fonte. A motivação do que tem para dizer vem de uma zona mais intimista de exploração. Sempre esperou pela grande ideia, a grande inspiração. Todos os escritores afirmam que ela não existe, mas nunca acreditou neles. De maneiras que, agora que acredita neles, em um contraste desconcertante, ela parece estar à sua frente, e é o mesmo livro que vem escrevendo desde adolescente. Só que o x da questão é que, agora, parece saber como abordá-la, de forma que ela mudou radicalmente, tornou-se uma ideia furiosamente nova. Kertész começa seu melhor romance, O fiasco, descrevendo maniacamente o quarto do escritor herói do livro. Aquela estante é assim e assim, aquela cadeira assim, a cama é dessa maneira, o tapete é de tal forma. Durante as estupendas 130 páginas do primeiro capítulo, a descrição do quarto volta recorrentemente entre as tantas reflexões e ações de cena: o armário e estante são assim e assim, a madeira é dessa qualidade. O escritor para poder pensar e escrever, se isola do insuportável barulho em torno colocando massas moldáveis importadas na posição profunda dos canais auditivos. É preciso essa repetição para firmar a constatação de que o escritor tem apenas aquele apartamento minúsculo para trabalhar. Todo o mundo lhe é inóspito e violento, e por isso cada detalhe inapreensível de seu reduto remete indelevelmente aos redutos de sua alma. O quarto é sua casca de tartaruga. O escritor de Kertész, que é o próprio Kertész, encontra-se sem ideias, desempregado às custas do emprego de sua esposa como atendente de lanchonete. O mercado editorial da Hungria despótica em que vive rejeita seu primeiro livro por o julgar pouco comercial; estariam dispostos a publicá-lo se ele aceitasse concessões, mas ele, como diz, não consome e não é consumível. Parado no corredor do prédio, ele tem uma iluminação (cuja cena é descrita em vários outros momentos da bibliografia de Kertész): a de que ele só tem essa vida, e de que essa vida é única e exclusivamente dele, e de que ele pode fazer o que quiser com ela. Que o que tem de escrever é sobre o que ele vem guardando intimamente de toda sua interação com a existência, e não pode ser outra coisa. Ser lido, ser publicado, passa a ser o menor de seus interesses. E por isso sua escrita é tão bombástica e sobrenatural, tão profunda e sinfônica. Quanto mais o escritor de Kertész se fazia esquecido e escondido, quanto mais ele se tornava invisível, no universo de seu quarto, não precisando de nada mais do que a folha e a caneta, mais ele cumpria o que lhe tornava humildemente acessível à inapreensível visão de deus.
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sexta-feira, 13 de maio de 2016
O quarto
Ter a impressão, um tanto singela mas não menos verdadeira e incômoda, que se gastou tempo demais amando os escritores errados; que a identidade procurada se revelou a farsa já há muito prevista de que não surgiria abruptamente, como uma iluminação, como uma compensação mística irretocável por tantos anos dedicados com afinco em querer possuí-la. A identidade, real e substanciosa, que se começa a ter, vem, antes, da destruição dessas superstições: jamais seria um escritor como os que amou pela vida toda. Jamais poderia, como sempre desejou fanaticamente, prescindir de seu contexto geográfico. Aliás, a geografia é o que lhe cobra mais rearranjos inteligentes: a opção de que se a transverta em símbolos concretos de um paralelismo imaginário, com a contradição tornada lógica de ainda assim manter o firme pé na realidade. Sente a sarcástica posição de que agora é que está lendo os autores certos. Lembra de seus incansáveis exercícios para ter a fluência veloz e elegante de Saul Bellow; recorda uma tarde, há 15 anos, sentado nas escadas de um prédio de escritórios, em que escreveu uma página inteira no caderno que era como uma psicografia, e que a releu mil vezes e mil vezes pensou que aquilo era seu amuleto. Então é assim (de certa forma é um ponto para ele ter tido sempre a presciência de que só poderia se tornar um escritor quando essa verdade libertária desmoronasse sobre ele). Uma vez escreveu para um amigo a tola declaração de que se algum dia se tornasse um escritor, seria um escritor médio-europeu. Quando escreveu isso percebeu imediatamente a tolice, mas aí é que estava a legitimidade da coisa. Alguém que tivesse algo para dizer não sobre si mesmo, não sobre suas tristes e desinteressantes vaidades mobiliárias do fetiche do ato da escrita. Lê Kertész, já famoso, especular se "perdera a profundidade". Nada lhe parece mais ridículo, ridículo a um ponto de lhe provocar náuseas, quando vê a pessoa se arvorar com o termo "escritor". Há inúmeros provocadores de náuseas no Facebook. Função: escritor. Escreveu o quê, e, mais importante: para quem? Um dia acessou o link disponível do romance de um desses escritores, leu a pequena obra toda num espanto de estoicismo, e ficou sentindo o velho terror de se ele próprio estaria tão patologicamente incapacitado para enxergar a si mesmo quanto aquela figura. Havia diálogos sobre religião tão simplórios, havia um auto-deslumbramento masturbatório na pretensa "surpresa" do final, que ele pensou: nenhum conselho é mais valioso do que aquele do Hemingway de que se você não conseguir se tornar um escritor, o que lhe resta é dar um tiro na cabeça. Um tiro metafórico na cabeça retiraria da visão aquele tom de importância arrogante do sujeito que não se enxerga. Ele jamais incorreria nessa falha de caráter; não aos 40 anos e o que lhe tem de vida pela frente. Acompanha com aquela falta de compromisso e total ausência de espiritualidade a alguns textos pelo Facebook. Mil compartilhamentos, mil comentários de "como tu és um gênio", para textos que só se tivesse uma lesão cerebral iria interessá-lo. Um dia vê o tema de doutorado de uma dessas sumidades_ uma mulher_, e é sobre não sei o que da sociologia relacionado à série de televisão The Wire. No mundo inteiro, achar alguém que ainda não perdeu a profundidade. Uma vez, há muitos anos, pediu a deus que se tornasse um escritor. Desde seus 14 ou 15 anos aprendeu por si mesmo, pela taxa de sofrimentos recolhidos que lhe cabia em sua então acentuada lucidez, a não pedir nada a deus para si mesmo. Mas nesse dia, talvez andando pela cidade, talvez sob a chuva, talvez suportando a dor então superalimentada de algum rompimento amoroso, pediu unicamente isso a deus. Comportou-se como se deus houvesse lhe respondido positivamente. Um dia chegaria. Abdicou das opções naturais de sua família para a acensão social. O que ele sempre soube é que a literalidade desse seu pedido era: Senhor, me faça possível ser um escritor médio-europeu. Sabia o que pedira. Não pedira a iconografia do escritor: a silhueta romântica da janela acesa na madrugada mergulhada em trabalho. Não pedira sequer reconhecimento. Não era modéstia, falsos pudores cuja capa invertida revela a situação do gênio não compreendido. Pedira na verdade a concentração, a seriedade, a chama. Era isso: pedira a Chama. Pedira a independência do artesão potente de ser deixado em paz pelo mundo, pela Alameda da Mentira. Pedira, como diz um personagem de A peste, "o possível para recusar a ficar do lado da praga". Pedira, em um entendimento profundamente pessoal, o sofrimento eufórico de ver tudo sob o prisma da perenidade sublocada resistente à mesmice, ao pensamento feito, ao rolo compressor das importâncias e certezas dos atos do cotidiano. Pedira um pouco de deus a deus. Pai, me faça partícipe, um associado para o qual não se lhe dê clemência, para o qual se lhe dê a visão suficientemente ponderada não mais que o limite para que sua mente insuficiente possa se abrir um pouquinho mais no sentido do terror e da alegria divina. Para ele não haveria prêmio maior. Volta a pensar nos escritores errados que leu a vida toda, os grandes, os canônicos. Claro que os julga errados agora por ter, de cada um, retirado o máximo que pôde. Agora se lhe cai nas mãos os escritores esquecidos, feitos para serem esquecidos, os grandes desbravadores de mais um dos infinitos campos de percepção da existência. Pai, me dê a sinceridade e me invista da ebuliência sanguínea necessária. Escrever apenas pela impostura e pela pose nunca lhe passou pela cabeça. Tem uma completa indiferença a isso. Poderia ter já publicado ao menos 3 livrinhos talvez substanciosos para certos nichos de visibilidade, mas o que seria isso? Historinhas de certo charme. Lembra certa vez, na infância, em que um escritor visitou sua sala de aula. Um escritor legítimo, do qual acabara de ler seu livro. Ficou muito empolgado, ouviu ao senhor ali em frente com um silêncio religioso. Hoje não se recorda do nome do homem, mas o título do romance era Duas lutas. Falava sobre rinhas de galo e o fato que lhe deleitou além da própria qualidade da obra foi ela ter dois finais. O leitor que escolhesse o que melhor lhe convinha. Sabe que esse tipo de livro não é para ele, que ele não conseguiria escrever uma história tão idônea, retilínea, honesta, vigorosa. Talvez depois, se algum dia se tornar um escritor, no crepúsculo da carreira. Não se julga melhor que esses escritores_ aliás, só ele sabe que não se julga melhor que ninguém. Apenas sabe que o que teria para dizer vem de outra fonte. A motivação do que tem para dizer vem de uma zona mais intimista de exploração. Sempre esperou pela grande ideia, a grande inspiração. Todos os escritores afirmam que ela não existe, mas nunca acreditou neles. De maneiras que, agora que acredita neles, em um contraste desconcertante, ela parece estar à sua frente, e é o mesmo livro que vem escrevendo desde adolescente. Só que o x da questão é que, agora, parece saber como abordá-la, de forma que ela mudou radicalmente, tornou-se uma ideia furiosamente nova. Kertész começa seu melhor romance, O fiasco, descrevendo maniacamente o quarto do escritor herói do livro. Aquela estante é assim e assim, aquela cadeira assim, a cama é dessa maneira, o tapete é de tal forma. Durante as estupendas 130 páginas do primeiro capítulo, a descrição do quarto volta recorrentemente entre as tantas reflexões e ações de cena: o armário e estante são assim e assim, a madeira é dessa qualidade. O escritor para poder pensar e escrever, se isola do insuportável barulho em torno colocando massas moldáveis importadas na posição profunda dos canais auditivos. É preciso essa repetição para firmar a constatação de que o escritor tem apenas aquele apartamento minúsculo para trabalhar. Todo o mundo lhe é inóspito e violento, e por isso cada detalhe inapreensível de seu reduto remete indelevelmente aos redutos de sua alma. O quarto é sua casca de tartaruga. O escritor de Kertész, que é o próprio Kertész, encontra-se sem ideias, desempregado às custas do emprego de sua esposa como atendente de lanchonete. O mercado editorial da Hungria despótica em que vive rejeita seu primeiro livro por o julgar pouco comercial; estariam dispostos a publicá-lo se ele aceitasse concessões, mas ele, como diz, não consome e não é consumível. Parado no corredor do prédio, ele tem uma iluminação (cuja cena é descrita em vários outros momentos da bibliografia de Kertész): a de que ele só tem essa vida, e de que essa vida é única e exclusivamente dele, e de que ele pode fazer o que quiser com ela. Que o que tem de escrever é sobre o que ele vem guardando intimamente de toda sua interação com a existência, e não pode ser outra coisa. Ser lido, ser publicado, passa a ser o menor de seus interesses. E por isso sua escrita é tão bombástica e sobrenatural, tão profunda e sinfônica. Quanto mais o escritor de Kertész se fazia esquecido e escondido, quanto mais ele se tornava invisível, no universo de seu quarto, não precisando de nada mais do que a folha e a caneta, mais ele cumpria o que lhe tornava humildemente acessível à inapreensível visão de deus.
quinta-feira, 12 de maio de 2016
O inferno
Borges em seu ensaio sobre Swedenborg: "O inferno é um pantanal onde se pode encontrar cidades que parecem destruídas pelo fogo, porém os condenados se sentem à vontade ali. São felizes a sua maneira, ou seja, estão cheios de ódio, e esse império não tem soberano, seus habitantes estão continuamente conspirando uns contra os outros. Esse é o mundo dos complôs, da política sórdida. Isso é o inferno."
domingo, 8 de maio de 2016
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Ontem
Ontem fiquei profundamente triste. Ainda estou. Nada a ver com partidarismos, mas reconheço que muita gente que estava apoiada em piadinhas e em críticas ao PT somente viu naquele momento a grande besteira que fez. Acho que bateu um gigantesco arrependimento em pessoas como o Idelber e etc. Nesses últimos meses, nunca foi hora para exercícios de metalinguagem: que o PT mereceu o que teve, que a negligência e a conivência de Lula causou isso tudo, etc, etc, todos nós sabemos à farta*. Faltou a astúcia de lutar por causas a longo prazo para essa boa gente que se diz cerebral; faltou o maquiavelismo a nosso favor. Digo “nosso” me enquadrando entre os tantos e tantos milhões de brasileiros que serão profundamente prejudicados com esse retrocesso: profissionais liberais, professores, funcionários públicos, pequenos e médios empresários, e uma gama outra de pessoas. Ontem ouvi fogos de artifícios tímidos em minha cidade, e um silêncio que logo constrangeu. E então percebi que a ficha caiu para muita gente. É verdade que a natureza humana está condicionada a só ver certas obviedades somente quando toda a terrível suspeita se concretiza. Não vejo com nenhum sentimento de revanche, mas com a piedade comunitária de quem está no mesmo balaio. O que foi feito ontem? Que espetáculo de bizarrice! Nossa versão empobrecida e horrível de Hieronymus Bosch. Quanta podridão e hipocrisia! De novo me veio a lucidez atordoante do pensamento: “nós brasileiros estamos absolutamente sozinhos”. Nós todos, de todos os lados e posições, vociferantes e hidrofóbicos, desamparadamente sozinhos. Não tem como evitar saber que muita coisa se acabou ontem. Agora vem nossa expiação.
*O PT cavou a sua própria cova, como se diz. Do ponto de vista de imoralidade e falha de planejamento, o PT merece tudo que vem sofrendo. Mas agora que a coisa acabou _só os muito sofredores ainda tem uma esperança_, sei que vem em mim e em muita gente a sensação de que, apesar de tudo, saímos infinitamente mais pobres e prejudicados ontem. Rever o naipe dos políticos desse país, naquele show de horrores de bandidos da sessão de ontem, é ter a certeza de que estamos sozinhos. Essa corja assassina, inescrupulosa, mafiosa, ególatra e criminosa em último e vasto grau, age por si só e só obedecendo a interesses pessoais. Eu não aguentava ver aquelas caras espúrias que ficavam rondando o microfone, com os olhos grudados na tela gigante acima para verem o quanto estavam aparecendo bem em rede nacional, com seus sorrisos de machos no botequim contando piadas estúpidas e denegridoras, suas plásticas e implantes capilares, seus sarcásticos de tão flagrantemente fingidos semblantes de que estavam levando a sério, fazendo história, reivindicando o retorno da moral. Não há figura de linguagem apropriada para tangenciar esse atraso na alma nacional ver essas ratazanas, declarando seus atos à família, a seus estados, às suas cidades, e votando "sim" olhando de frente para um dos maiores achacadores e criminosos desse país. Fiquei no mesmo nível de compreensão dos fanáticos que atendem à comoção de medidas heterodoxas. Os políticos brasileiros são um muro indevassável, sãos as portas da lei para sempre fechadas do conto do Kafka.
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Duas anotações para serem perdoadas
Não me parece ser apenas sintomas da incompatibilidade com a contemporaneidade que advêm com a idade. É algo mais, e talvez seja preocupante: há uma enorme carência por autenticidade no mundo. Penso assim ao terminar de assistir ao novo Star Wars. Assisto-o com a minha filha de 5 anos; ela adora o robozinho, mas tudo o mais, assim como a mim, lhe distrai para outras coisas. Ela encara enfrentar o filme por uma segunda vez, na cópia bem definida, dublada e legendada, que um amigo baixou pela internet. E, de novo, o mesmo desinteresse. Star Wars é um produto astucioso construído para ficar nobremente acima de qualquer crítica. A isenção típica das mediocridades instituídas. Seu sucesso em ser imaculado é tanto que criticá-lo passa a ser ridículo. "Você levou tanto a sério a ponto de anunciar que não gostou?". É tão absurdo como criticar uma bebedeira de sábado à noite com os amigos. Aliás, o filme não é horrível, o que, em certa visão desconstrutivista, seria ótimo: Star Wars é apenas totalmente indispensável. Para mim foi difícil assisti-lo até o fim. Acabou que a Julia e eu conversamos sobre diversos assuntos enquanto a banalidade com uma das maiores bilheterias da história seguia seu curso. Há atmosferas histriônicas, criadas para o enaltecimento da plateia, que minha sempre reascendida em vão fé no bom gosto do homem comum supõe que a ardilosidade fora detectada, mas não; logo imagino que o simples reaparecimento do velho Harrison Ford em seu papel de Han Solo, de maneira absolutamente preguiçosa no filme, deva ter provocado um grito de comoção nas salas de cinema. Ou que o simples R2D2 esquecido em um canto da tela tenha gerado uma ola entre os expectadores. O roteiro é capenga, paupérrimo, abalizado pela certeza de que a força do produto já atingirá os píncaros financeiros. Poupemos a fadiga. São tantos clichês e aparecimentos propositadamente súbitos do velho elenco para despertar aplausos (meu Deus! é a princesa Leia!!!), que tudo é de uma comicidade involuntária constrangedora. E é aí a chave do problema: pouquíssimas pessoas percebem o humor involuntário. Dois bilhões em ingressos vendidos! Para algo deselegantemente raso, pois os produtores, roteiristas e diretores, não se preocuparam nem um pouco em fazer algo que tivesse a mínima profundidade e envolvimento. É como assistir, por duas horas e meia (a megalomania de estender uma sensaboria corriqueira e banal além do prazo fisiologicamente suportável, pela paradoxal imposição sádica de inventar que essa concentração devotada é mais uma reivindicação para o ingresso ao culto da coisa), a expressão áudio-visual do sabor da Coca-Cola, ou do Big-Mac.
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Uma refutação à teoria da conspiração de que o golpe em andamento no Brasil está sendo patrocinado pelos EUA. Um economista da revista Superinteressante escreveu em seu Facebook. Centenas de pessoas compartilhando. Os EUA não tem interesse no Pre-sal, ralé inculta! Segundo o economista, colaborador de décadas dessa revista, diz que os carros elétricos da Tesla já são campeões de vendas na Europa, o que atesta que o petróleo está em franca decadência. Economista da Superinteressante. Fiz uma pausa de desânimo após a sequência dessas duas últimas frases. Tudo bem! Tudo bem! Vivemos em um país que tem duas paixões nunca racionalizadas e transferidas com um poder assegurado de uma geração a outra: a paixão pelos altos diplomados acadêmicos, e pelo militarismo. As duas, aliás, difundidas em menor ou maior grau pelas corporações da mídia. Décadas de história em que a universidade era um avatar invejado e inalcançável pela grande maioria da população, todo "doutor" que aparecia na homilia de domingo à noite no Fantástico falando seja o que fosse, era comentado religiosamente por toda a semana. Se o doutor dizia, era algo incontestável. O militarismo, por sua vez, mostra o estigma na alma brasileira nas invocações do retorno dos quartéis e na vanglória estúpida da eficiência dos colégios militares. Daí ser fácil ver que alguém que professa a mais distorcida das profissões bastardas da filosofia, e que escreve para uma revista destinada ao protótipo do adolescente obtuso, consegue certo grau de notoriedade instantânea ao dizer que os carros elétricos estão suplantando de forma determinista os que consumem derivados do petróleo. Não, ninguém está nem aí para a maior reserva de combustível fóssil encontrada no mundo bem abaixo de nosso narizes. Não, nunca houve derrubada de governos e implantação de comoção social por um pouco que fosse de gás natural em outros países. Não há nenhuma prova exaustivamente documentada sobre o domínio dos EUA no governo dos países da América Latina, ao longo do século XX. Nunca existiu uma companhia vilipendiadora, assassina e cruel, chamada Fruit & Company, a Companhia Bananeira que aparece em metade dos livros de Garcia Marques e de outros escritores latinos. E mesmo assim, os zumbis da internet aplaudem o economista, julgando talvez que se forem à concessionária mais próxima podem de forma imediata retirarem seus carros elétricos a preços módicos para juntarem-se à revolução utopista.
quarta-feira, 13 de abril de 2016
quinta-feira, 24 de março de 2016
Há sempre um lugar
Estou no período da minha vida em que, posso finalmente dizer, adquiri uma compulsão pela escrita. Desisti de vez de algumas coisas que julgava indispensáveis, como o teclado e a internet. Comprei cadernos escolares básicos, de capa vermelha lisa, e canetas de pontas flexíveis de cor preta, e fico horas de intenso deleite escrevendo e escrevendo. A internet, por enquanto, como se pode constatar, ainda não me é completamente descartável. A idiotice assumiu uma onisciência plena na internet, o que me deixa bastante desmotivado. Não vou falar mais sobre isso. Voltemos à escrita. É espantoso como a escrita nessa fase da minha vida é profundamente perturbadora, me deixando nu e na condição de não saber nada. Estou mais cuidadoso e exigente, mas, ao mesmo tempo, livre e feliz ao escrever. O fato de usar a caneta remete à total absorção de quando eu escrevia na minha juventude. É, literalmente, assim como disse Walter Benjamin, a maior de todas as drogas. Atingi o estágio em que nada me é mais prazeroso que a escrita. Por anos e anos achava que jamais atingiria esse estágio, suspeitava que ele não existisse, ou, pior, que eu não era digno o bastante para ele. E agora, poxa!, eu me tranco em minha biblioteca, pego o caderno, elevo-me a uma concentração rigorosa, e escrevo. Stendhal tem muito a ver com isso. Não é possível que só ele poderia escrever um romance como o Cartuxa em 53 dias. Não pretendo escrever meu romance em 53 dias, mas em 3 anos. O importante de tal exemplo é para me exorcizar do medo, o medo feroz e prostrante de escrever. E eu perco esse medo cada vez mais. É a descoberta de que a palavra gênio e a palavra talento são muito peculiares. O gênio pode estar na imersão absoluta, feito por um homem comum, e não na determinação meritocrática dos genes. Eu não me julgo um gênio, nunca tive essa dose de espetacularismo virtuoso; mas me julgo um cara extremamente capaz de escrever o que eu pretendo escrever. A preguiça e, principalmente, o cansaço ditado pela realidade cultural nacional, sempre me fizeram crer, contudo, que a escrita não era para mim. Estou a escrever o mesmo livro que me pus a escrever 20 anos atrás. E agora, com essa entrega, esse direcionamento disciplinado e um tanto anárquico para a escrita séria, muitas descobertas me chegam durante o exercício. Uma nova voz domina minha mente, uma voz que tenta se firmar mas, por enquanto, está quebrada e tosca. Eu releio as 5 ou 10 páginas que escrevi durante o dia, em uma atenção que me abduz do mundo, e já não tenho aquele incognoscível nojo que eu sentia pelo que escrevia. Eu vejo todos os defeitos, as palavras repetidas, os momentos em que de imediato devem ser reescritos de outra forma, e sei que a coisa final não será assim, mas..., me sinto muitíssimo orgulhoso. Para mim, de forma verdadeira, nada melhor e mais importante está sendo escrito na língua portuguesa do que esse livro que eu estou escrevendo. Só essa atitude é passível de estar no espírito de um escritor que se preze. Eu não sou escritor de livros que preenchem catálogos e a vaidade unitária do autor; ou vai ser tudo ou nada. E o mais: minha alegria é tanta, e a escrita é suficiente como saúde para a existência, que eu não me preocupo uma fagulha em publicar. Nunca pensei na fama, isso é absolutamente irrelevante. Tenho muito de Robert Walser e Kafka, que escreviam com um egoísmo divino, com uma independência que seguia adiante sem se importar por todos os atos sociais de reconhecimento. Eu quero atingir aquele núcleo selvagem da minha juventude de quando eu escrevia minhas redações no quarto, em abandono nirvânico. Retornar infância adentro, como disse o Schulz. E isso, para meu enorme agradecimento, está acontecendo. Há parágrafos e parágrafos desencontrados, em que o excesso de palavras erradas imitam uma forma e suplantam a cor da vida necessária, mas aí, pimba, aparece aquela cena, aquela interação entre a certeza de se estar escrevendo algo digno e humano com a percepção de que aquilo é a minha verdade, e que justifica o ofício. Minha mão não dói ao usar a caneta, tenho a hipertrofia dos músculos necessários para esse exercício, enquanto a digitação me exaure e me dá câimbras. E como eu acho meus garranchos bonitos, como eles se parecem com um trabalho árduo, como os sacos de cimento bem postos no caminhão carregado. Eu, há alguns anos, trabalhava em uma cooperativa veterinária, um trabalho pesado, que me deixava imensamente feliz. Eu devia perder uns dois quilos por dia com esse trabalho, e voltava sujo de lama, bosta e sangue para casa, e tomava uma dose de pinga para abrir já o nababesco apetite e em seguida jantava dois pratos vultosos. Essa escrita me deixa com a mesma sensação. Pela segunda vez na vida, a primeira sendo esse ano na cooperativa, eu sinto que estou trabalhando. Eu me sento com minha esposa e meus filhos e tenho um ar agraciado, uma sensação de plenitude e segurança. É isso! Finalmente consegui! Finalmente eu tenho a literatura como algo particular, inviolável, espiritual e despojado, e para a qual eu me sinto progressivamente apto. Compreendo o que é deixar grandes empregos e a vida confortável pelo trabalho espiritual que lhe salva, que justifica a vida. Essa noite mesmo, com insônia, eu continuei a escrever, e me veio a vontade estranha de extrair manualmente o cansaço e a necessidade de repouso para poder escrever mais. Não estou nem aí se isso não vai dar em nada; acredito que vai, sim. Nunca me lamuriei por achar que a literatura deveria me receber em algum lugar digno de sua casa. Isso é mitologia e não existe. O que você escreve com a alma sempre vai ser lido; há sempre um lugar.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Tudo muito bonito
A rainha da Jordânia fez uma charge de resposta à Charlie, em que o menino Aylan aparece como médico em um futuro ficcional e em um mundo ilusório em que os países que estão, a contragosto e providenciando uma reação, recebendo os refugiados seriam promotores de sua inclusão social e suas oportunidades de crescimento profissional. Um mundo em que esses países não tem um pingo de preconceito étnico e terror diante os arquétipos imaginados da ameaça que o menino Aylan produziria. Seria fácil uma réplica à rainha da Jordânia: "Majestade, basta ver que nem vivo Aylan chegou".
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Chacrinização
O Brasil tem algo de Coréia do Norte. É tão fechado, e para nós que aqui moramos sem possibilidade a curto prazo de sairmos para além de suas fronteiras, parece que vive um outro tipo de realidade toda própria. A cada dia me vem a certeza de que a verdade brasileira é insondável, permanente, indevassável e aprisionante, e que nos submetemos com tal inclemência a ela que estamos em descompasso em compreender o que se passa no restante do mundo. Eu vejo, com temor profundo, que a brasilidade me distorceu a tal ponto que comprometeu minhas faculdades de entendimento. Eu só consigo entender sob a ótica acondicionante de viver no Brasil. Por exemplo, esse filósofo, escritor, ou o que quer que seja (o sinal do meu comprometimento neuromotor é não estar à altura de definir o que tal sujeito é), esse Ovalo de Caspalho... ele...o cara é tão..., mas tão ignóbil e espúrio e sem substância, que eu fico pensando com toda sinceridade: alguém como ele é possível de existir em outro país, em outra pressão atmosférica que não seja a do Brasil? Fico horas olhando o Facebook dele e fico em consequência frio de medo. O que nos tornamos? Isso foi progressivo; algum dia fomos melhores e nos degradamos nisso, ou sempre fomos assim tão insípidos, irrisórios? Porque, vamos falar a verdade, não se trata de complexo de vira-latas, quisera deus que fosse algo tão simples e contornável com o exercício sedicioso de um amor-próprio alimentado com disciplinada sofreguidão: o fato é que assim como estamos, assim como nos apresentamos, somos mesmos um povo menor, vergonhosamente menor. Eu sou daqui e não fico nem um pouco feliz em dizer isso. Me parte o coração e me enche de bile ver o desprezo despejado com tanta falta de cerimônia para cima de nós. O assunto é seriíssimo!! Esse Ovalo, filósofo, redundância encarnada... todo o Facebook dele é de uma bestialidade medonha, uma azucrinação e pornografia mental, promiscuidade sem tamanho. Leem seus textos e os dos seus absurdos seguidores e façam o exercício de como aquilo parece aos olhos de um leitor estrangeiro. Dá uma vergonha prostrante. Há um mapa da América Latina em que o Brasil aparece com a foto sobreposta de um ânus. Como alguém dá atenção a um cara desses? Toda frase do cara tem um xingamento, as palavras mais chulas. Daí, ele entremeia com pequenos textos de um lirismo tão raso, que nos comentários aparecem os celerados elogiando a beleza daquilo, a profunda poesia. Percebam a preguiça com que escrevo isso aqui; não tenho o mínimo ensejo em escrever sobre Ovalo. Um ególatra puro. A foto que estampa seu Face faz referência à serenidade ostensiva de sua cabeça ao beijar a criança (neto?), algo que lhe deve soar helênico, a estante abarrotada de livros atrás. Uma foto feita não para mostrar a criança, mas o velho. E não há o mínimo conteúdo nas coisas que ele escreve, mas mesmo assim... um caudal de seguidores! Não é para menos. Visito outros endereços virtuais e vejo, por exemplo, alguém dizendo sobre Dostoiévski, e assim, como um movimento condicionado inevitável, os comentários que se seguem são de "entendedores de Dostoiévski" que não leram nada além da wikipédia, ou conservam uma onisciência de papo de boteco. E esses, notem, são pessoas letradas, altos profissionais e gente descolada, gente de bom gosto. É por isso, será? Assim como o brasileiro adora ostentar supremacia social através de qual carro ele compra, é indispensável para o brasileiro descolado apenas arvorar cultura e esclarecimento? Pouco lhe importa ser, mas parecer? Assim explicaria muita coisa: Ovalo cai quase como uma luva, e soma-se a isso o fato de ser um filósofo com recursos high tech, o que agracia a vaidade de todo mundo que quer ser visto por todo mundo. A serotonina do ódio direcionado no espaço virtual, e do elogiar em conjunto. O único tema do sujeito é ele mesmo. Essa inelutável convergência para se ser o Chacrinha em cada área de atuação do brasileiro deveria ser fonte de estudos sérios para nos tentar salvar.
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Seria uma evolução inalcançável se tivéssemos um veículo torpe, enojante, visceral, bruto, violento, descerebrado e desentorpecente como a Charlie Hebdo. Eu já disse aqui, em outra dessas ocasiões de minhas análises sobre o país, que eu compraria uma revista masculina em que viesse um hipotético ensaio fotográfico de uma mulher que, naquela data, estava sendo investigada no incipiente processo contra a corrupção na Petrobrás, mulher cuja estética corporal notoriamente expressiva do crime que cometera a tornava incondizente com a nudez expositiva. O que eu estava a dizer é que, a afronta a que alcança o equilíbrio entre criminosos no poder e o povo que os alimenta é tão irrespirável, que eu tenho a urgente necessidade de me haver com uma outra forma de expressão. E, já que a intocabilidade desses corruptos é tão insofismável, a burrice exorbitante do povo tão encalacrada, o absurdo de ver um nu desses abriria inéditas e insuspeitas maneiras de percepção. Precisamos aqui recorrermos a novos e mirabolantes exercícios de desentorpecimento, e a Charlie Hebdo cumpre bem esse papel em seu país de origem. Isso porque ela não pretende a genialidade, não busca o amor de seus leitores, não busca, sequer, leitores; prescinde corajosamente até do humor. O que ela faz é, restringindo à definição de uma única palavra: repulsivo. E é aí que, mais uma vez, está o x da questão. A Charlie tem apenas uma ambição: ser o ponto cego. Antes dos atentados que massacraram parte substancial de seus editorialistas e chargistas, as suas vendas eram mínimas, o interesse pelo que diziam só atingia os noticiários baseado no termômetro do calor de reação que uns desocupados tinham contra o que para estes era ultrajante e ofensivo. A Charlie seguia incólume em sua personalidade imutável de ser o que era: o ponto cego. Uma vez arvorada, sem pretender ou fazer nada para isso, à condição de ícone, bandeira da liberdade e símbolo cult nacional da França, ela prova a fidelidade à sua identidade ao não se envaidecer com esse amor a ponto de traí-lo, de jogá-lo na sarjeta. Os milhões que se dedicaram a comprar seus exemplares e torná-la um frenesi de vendas agora, em parcelas representativas, se dedicam a desbancá-la do posto de bem-amada graças a uma charge recente em que ela parece a eles ter ultrapassado os limites. Como se ultrapassar limites fosse algo programático para a revista, como se uma revista que sempre foi o que é, repulsiva e burra (na acepção do termo correlacionada a uma total despretensão de ter conteúdo), tivesse ainda algo a dever à cordialidade do mundo externo a seu escritório. Com a última charge, a polêmica e racista, como está sendo vista por muitos, charge em que o menino sírio afogado é imaginado em uma hipotética sobrevivência adulta apalpando a bunda de alemãs, a Charlie Hebdo ameaça perder o título de baluarte moderno da liberdade de expressão para voltar a ser apenas a Charlie Hebdo. O mundo prova um pouco da burrice que vemos na Coreia do Norte brasileira ao espelhar em franca armadilha o que a charge da Charlie tenciona: a hipócrita vociferação recheada de ódio, típica de fundamentalistas, mas partindo da Europa altamente civilizada. Os comentários daqueles que se sentiram enganados ao vestirem camisas com a frase Je suis Charlie, e agora viram o racismo e intolerância da recente charge, enchem os editores da revista de prazer por verem a missão cumprida: a burrice em estado puro, selvagem e ingênua, é genialmente confrontadora. A charge, como bem acusou alguns, faz parte de um tríptico, em que a conclusão revela a alfinetada na predisposição confortável de se chorar com a foto da criança morta na praia, desde que não se tenha que dispender um mínimo esforço para uma auto-análise de como esses piedosos espectadores no aquecimento de suas casas veem com demérito e preconceito os refugiados sírios. Como esses para os quais o choro é uma catarse estética linda do corpinho do menino afogado querem que tais refugiados se mantenham o mais distante de suas fronteiras. Não, a Charlie não tem bom gosto, é idiota e desprezível, mas está no final de uma escala de evolução dialética (para a qual mesmo o europeu para quem é escrita parece mostrar descompasso na recepção da mensagem) em que nós coreanos rastejamos ainda com nossa adoração a Ovalos. A Charlie faz da chacota o objeto de elucidação impactante; já aqui, a mensagem levada ao estado de culto de alguém como Ovalo mostra que a chacota somos nós.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
Feliz Natal
Há uma série de coisas ternas que a gente vê pela internet que renova a combalida aposta de fé na humanidade. A última carta de natal da Rosa Luxemburgo, por exemplo; mas, mais afirmativamente, os comentários que seguem no Facebook do Ladeira Livros, que me dão aquela confortável impressão de que existem, enfim, pessoas ponderadas e com uma inefável alegria inteligente pela vida. Meu Feliz Natal nessa última meia hora do dia 25 de dezembro, repassado por essa sensação de não isolamento que tais pessoas me passam.
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
Os livros que eu gostaria de ler se tivesse doze anos
Este é um dos textos pelo qual mais recebo elogios por e-mail. Escrevi-o em um ambiente de hostilidade, e longe de casa. Sentia-me então tão pra baixo, que liguei o computador e pus-me a escrever sem planejamento e intenção nenhuma. Senti que se tratava de um dos momentos pessoais raros em que a escrita vinha para me aliviar. Poucas vezes aconteceu tal coisa. Como frequentemente acontece, quando o releio, não o meço pelas qualidades literárias, as quais não vejo muitas, mas pelo grau de honestidade. Os textos honestos, inclusive com coragem para evidenciar suas fragilidades, são os mais poderosos.
Ontem o Rui veio aqui em casa. Foi embora hoje. Saímos só nós dois, demos volta na praça, fomos a uma espécie de mirante de onde se vê toda a cidade. Não houve muito diálogo. Mas houve harmonia. Eu via no olhar dele a confiança. E as coisas estavam bem mais felizes, no íntimo. Era como se ele tivesse lido meu texto. Eu jamais lhe mostraria meu texto. Não por vergonha ou coisas afins, mas que é parte da filosofia minha que meu textos pertencem a uma dimensão pessoal irrevogável. Eu cheguei a esfregar-lhe os cabelos quando entramos no carro para a volta pra casa. Ele se deslumbrou com as três estantes da minha biblioteca. Hoje, quando ele entraria no carro para ir embora, eu o levei lá e lhe entreguei três livros. Três livros longamente pensados, os livros que eu gostaria de ler na idade dele, aos 12 anos. Dei-lhe o melhor volume de contos de Chécov que tenho, e A metamorfose, e Ratos e homens. Chécov, Kafka e Steinbeck. O primeiro lhe pega pela ternura seca, o segundo lhe desperta o esoterismo através da visão brutal dos muros do presídio, e o terceiro é a aventura humana profunda que lhe atiçará a vontade de partir para os outros tantos grandes autores que terá pela frente. Depois (juro!) que percebi que os dois primeiros foram realmente minhas leituras aos 12 anos. Só Steinbeck que li depois dos 20.
Ele não fala nada de si mesmo. Sua avó é que nos conta que ele lê muito, que ele recebeu pelo segundo ano consecutivo o diploma de melhor aluno da turma, que ele lhe confessa o desejo de ser médico e escrever um livro sobre sua vida. Eu pergunto que livros ele tem em casa, e percebo que a falta de jeito dos familiares lhe dá a velha ração de livros indigeríveis da antiga literatura nacional. Eu entrego esses livros e ele os olha, e percebo o fascínio. É como se ele mexesse um saco de misteriosos brinquedos artesanais mágicos, que é a sensação que eu sempre tenho diante livros e sempre terei aos 80 anos. Uma felicidade boba, engrandecida, ingênua. Sempre será ingênua. É a ingenuidade que não morre nunca. Eu lhe dou um abraço, nada de procurar aproximações com o abraço que ele me deu aos 3 anos, e ele me envolve molemente as costas. Tímido incorrigível.
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
Dr. Lao
Noel Gallagher foi fotografado no metrô, em Londres, nessa semana, indo para uma participação no show do U2. Para nós brasileiros isso sempre vai soar como se em vez de um simples ser humano usando da eficiente infra-estrutura de seu país, houvessem fotografado um unicórnio no centro da cidade. Para os brasileiros que vivem nas metrópoles desse país, é inconcebível que alguém com sã consciência e liberdade de escolha desloque pela cidade em outra coisa que não seja seu carro, de preferência fabricado no máximo nos últimos dois anos, com seguro em dias e com todos os opcionais de conforto. O brasileiro morre por seu carro, isso é fato (basta usar um pouco da memória televisiva, dos tantos programas policiais que mostram o morto no banco do motorista no registro de resistência ao assalto). O brasileiro correlaciona diretamente o uso do transporte público nacional com a sina de um fracasso vergonhoso e inexorável. Em nossa mente, por mais que tenhamos que eufemizar, quem usa o ônibus e o metrô por aqui é um derrotado. Pensei em intitular esse post com "Complexo Vira-lata", assim mesmo sem a preposição "de". Penso que não é à toa que reclamamos tanto do Brasil; não é um chiste involuntário, um TOC auto-tourette; estão errados os que tentam cunhar o clichê de inadmissibilidade que dizem não suportar quem fala mal do país, dos que usam frases como "se fosse no Brasil...". O brasileiro fala mal do Brasil porque o conhece profundamente, conhece da maneira mais ineludível, através da prática diuturna inescapável. Engana-se quem julga o brasileiro um alienado apolítico. Meu sonho de toda a vida era ser alienado apolítico. Lembro perfeitamente de, aos 13 anos, ler Stephen King, e ser admoestado por um amigo de colégio que lia Dias na Birmânia a ler coisas importantes. Por aqui, o sujeito é obrigado a saber a taxa do dólar, os nomes dos presidentes das duas casas no Congresso, a saber pelo menos 5 siglas de impostos federais, a saber as tipificações de pelo menos 3 crimes do funcionalismo público, e a ter ideias complexas sobre técnicas de equilíbrio diplomático entre líderes políticos arrestados em investigações policiais para a mínima gestão das aparências. Como eu disse alhures, o Brasil é o país que não te deixa em paz. O brasileiro, seja de que classe econômica ele for, é um ser complexo, profundo, que usa da dissimulação sem a falsa moral dos calouros, e que sabe que lhe pesa a maldição de não poder dizer que leva a vida que lhe dê na telha, que zela com independência de sua família, pois o que acontece na política é a mão direita da qual depende para por a comida na mesa. Um amigo meu, semana passada, me recordou que há dez anos haviam apenas dois carros estacionados na praça pública da cidade interiorana onde moro. Ninguém naquela época tinha carro. Hoje, na referida praça, há mais de cinquenta carros. Todos os dias de madrugada eu passo, a caminho do trabalho, pelo maior colégio público da cidade, e nas ruas de frente é onde estão os melhores carros: os professores concursados são os que compram os melhores carros. Os servidores públicos que mais ganham mal, são os melhores clientes das concessionárias, das linhas de crédito consignado, e das financiadoras. É um erro deles, os que deveriam alertar os alunos sobre consumismos e economia, sobre danos ecológicos, sobre gastar a grana em coisas intelectualmente mais produtivas? Creio que não. Há dez anos esses velhos homens e mulheres atravessavam os morros à pé; seus correligionários de profissão das grandes cidades purgavam idas e vindas imprensados nas latas perigosas dos ônibus do transporte público. Talvez seja mesmo a maior lição deles mostrarem para seus alunos a pragmática apreensão do oportunismo comprando aqueles pomposos e brilhantes carros negros de quatro portas, o movimento mais astuto que eles poderiam ter na contra-dança com o país que a qualquer momento fará o passo de lançar-lhes ao ar sem a devida segurança, os farão se estrebuchar de barriga no chão. Keanu Reeves, Michael Douglas, Charlie Sheen, Al Pacino, e os grandes executivos que aparecem nos filmes em pé segurando confortavelmente as barras dos metrôs: em nossa mente inflamada de estoicismo, isso sempre parecerá absurdo.
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Claro que esses últimos 15 dias foram de total felicidade. Meu filho Eric nasceu, e tudo deu certo. A pressão sanguínea da Dani disparou na noite de sábado, dia 10, e o médico achou melhor antecipar o parto para a manhã de domingo. Cheguei à capital e ele estava deitado no bercinho, todo envolvido por mantas, à mostra no berçário através da vitrine. Só naquela manhã nasceram 10 bebês. O plano de saúde cobriu tudo, a cesariana, a laqueadura (a Dani não pode ter outra gravidez, o que conformamos), o apartamento de luxo por 4 dias (na verdade cobria um apartamento simples, mas não havia mais nenhum disponível, o que tiveram que nos dar o de luxo). Quando ela teve alta, saímos pela porta com as costas murchas, esperando alguém nos chamar para acertarmos alguma conta pendente. É que já estamos acostumados. O parto em que a Dani teve a Júlia, paguei 8 mil reais. Era um parto de alto risco, e a obstetra foi de um mercenarismo grotesco, contando cédula por cédula na minha frente, um dia antes da cirurgia. E coube a ela me legar uma cena constrangedora, pois a obstetra aparentemente esqueceu de repassar a parte da grana que lhe ficou incumbida para a pediatra, e a pediatra cobrou rudemente a Dani o dinheiro horas após o parto, no quarto em que a Dani estava instalada. Eu não estava perto, por sorte, pois nem sei o que eu teria feito. O plano cobriu a cirurgia cardíaca da Dani, dois anos depois, e, após a cirurgia, o cardiologista me liga cobrando 3 mil reais por materiais extras que foram necessários no procedimento. Ele foi tão gentil na extorsão, e eu estava tão aliviado que tudo tenha dado certo, que não titubeei em pagar. Assim é. Eu tenho aversão a dinheiro, devo dizer. Gosto de dinheiro e não sou nenhum asceta, não é isso que quero dizer. A Dani é que fica com os cartões bancários, e ela que gerencia a casa. Eu fico meses sem tocar em dinheiro, o que me faz muito feliz. Lembro a época em que me formei e comecei a trabalhar, em que tirava do banco apenas o aluguel de um quarto em que se incluía almoço e janta. No final do ano, tirei o extrato da conta e havia lá o que considerei uma fortuna. Comprei um carro à vista, por pura necessidade. Me assombra que médicos, que são os profissionais milionários por natureza, se mostrem tão gananciosos. Para onde vai tanta grana? Eles usam para quê? E sempre me pareceu de uma rasteirice paradoxal que eles usem os momentos de maior felicidade de seus pacientes para exercerem essa ganância desmedida. No momento pleno em que eles conferem a vida, eles se investem contra a plenitude que eles foram veículo para se rebaixarem à necessidade mais mesquinha da extorsão; e sem a mínima precisão. Talvez seja apenas o vício que o exagero de remuneração lhes acomete. Talvez o jogo de angariarem dos parentes aliviados um pouquinho mais de grana seja o modo adrenérgico compensador para sentirem com exatidão a mágica científica que fizeram. Talvez eles não compreendam o quanto fizeram felizes os que no fundo no fundo pensavam na morte, e a materialização do dinheiro seja a forma para eles empurrarem um pouco para o lado a insensibilidade da rotina.
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Houve apenas um contratempo nessa felicidade. Um dia depois do parto, minha irmã voltava às oito da noite da academia onde trabalha, na companhia da minha filha, e ao estacionar na frente do prédio da minha mãe, dois motoqueiros lhe apontaram armas e lhe levaram o carro. Deram tempo para que ela retirasse minha filha com a cadeirinha do banco de trás. Eu estava aqui na minha cidade. Por uma infeliz prova de que eu estava certo em minha recomendações, aquela noite foi a primeira vez que ela desrespeitou minha ordem de que a Júlia não poderia sair após as 18 horas. Uma semana antes, eu proibi que levassem a Júlia a uma festa de criança, por essa estar marcada para as nove da noite. A Dani me ligou chorando, e elas devem ter falado horrores do meu pérfido coração em não me amolecer diante a decepção da Júlia em não poder ir ao evento. Fui taxativo e disse pelo telefone que elas estavam na cidade que figurava entre as 32 cidades mais violentas do mundo, e seria uma isca sem igual um carro com três mulheres e uma criança vagando pelas ruas à noite. Se elas estivessem em Sheberghan, no Afeganistão, poderiam ir, mas estavam em Goiânia, Brasil, a trigésima segunda cidade mais perigosa do mundo. Foi a pior oportunidade que tive para dizer "eu te disse, eu te disse". Dois dias depois, a delegacia de furtos e roubos liga para minha irmã, a busca em casa e a coloca no meio de dez homens fardados de preto dentro de um camburão e saem cortando sinal à toda velocidade, até um bairro de periferia onde está seu HB20 largado no lado do calçamento. O porta-malas cheio de produtos roubados, além de cheques e documentos pessoais. Minha irmã acha um tanto anti-profissional que a polícia tenha escolhido esse método espalhafatoso para mostrar eficiência. 14 dias depois_ ontem_ tentam roubar o carro da minha mãe, quando ela e minha esposa estavam diante a clínica obstétrica. Elas chegaram na hora de ver os criminosos quebrando o retrovisor e levando o espelho com eles.
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Não troco por nada minha vida no interior. Não há bares sofisticados e nem eventos culturais aqui; mas eu chego em casa em dez minutos de carro. Quando fico um dia na capital, eu sinto a doença da capital querendo entrar em meu sangue. É uma vida bestial, suicida, infernal, mecanicista e estúpida. Goiânia é um dos escalões do inferno. Aquilo não foi feito para seres humanos. São Paulo, um tanto pior e mais bestial, é o objetivo a ser alcançado por Goiânia, em pouco tempo. Daí não sabem porque o Brasil está como está. Não há tempo para pensar em longo prazo, quando se trabalha 8 horas por dias e se gasta 4 horas no trânsito (caso de São Paulo), ou 2 (caso de Goiânia). O indivíduo não se integra mais nos problemas da sociedade, porque a exaustão o torna apenas um burro da carga. E isso não é apenas os baixos funcionários, mas executivos, os médicos loucos por grana, os juízes, etc, etc. Todo mundo. Não sobra tempo para os filhos, que são criados apenas sob a influência dos órgãos oficiais de contenção, sem carinho e sem ternura, sem atenção. Daí sobrar tempo para pensar em Cunha, em CPMF, ou o que seja? Animais cumpridores de movimentos pavlovianos. Não me espanta que estejam cada vez menos espiritualizados. Os espiritualizados numa rotina dessa se matam. Nenhum espírito aguenta essa pressão. Não largo, por nada, a vida boçal com excesso de tempo e excesso de espaço que tenho aqui. Aqui é único paraíso possível, idiotas!
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Há uma cena que nunca me saiu da cabeça no magnífico filme As sete faces do dr. Lao. Uma mulher entra na cabana do vidente cego do circo do dr. Lao e lhe pede que leia o futuro nas linhas da mão. O vidente, entediado, se recusa. Ela, uma senhora requintada, vestida com pomposidade elegante, com seu ar inamovível de superioridade loura, ameaça com ira o velho cego, perguntando-lhe quem ele acha que é ao recusar um pedido de uma dama digna como ela. O velho então prende a mão da mulher à sua e perfila toda a vida futura que a dama terá pela frente, anunciando que nunca lhe aparecerá o cavalheiro que ela espera para lhe pedir em casamento, que ela jamais será a pessoa socialmente influente que almeja ser, que ela envelhecerá na solidão sem ter cumprido nenhum de seus sonhos de grandeza e glória, que ela morrerá esquecida por todos em sua casa solitária, que ninguém ao longo dos anos que lhe restam a amará ou se importará com ela, e que sua lembrança se apagará assim que ela for enterrada. A mulher consegue soltar sua mão e sai aos prantos desesperados da cabana, causando um alvoroço entre os frequentadores. Ela se esconde ao lado de uma tenda, chorando ainda mais, e uma outra mulher a encontra e lhe pergunta o que se passa. A dama segura o choro, limpa a cara, e diz que se sente muito feliz porque esteve com o vidente cego e este lhe assegurou que todos seus propósitos de felicidade se cumprirão imediatamente. Não por menos sinto a atração de chamar a internet, com seus blogs, twitters e Facebooks, de dr. Lao.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
A semana
Essa semana foi toda para acompanhar a Dani na capital em seus exames antes do parto. Pegamos o carro de manhã e fizemos uma agradabilíssima viagem nós três por três horas, indo no máximo a 100 km por hora e ouvindo uma seleção de álbuns nos pen drives. Choveu no caminho. Paramos em um restaurante de beira de estrada. A Dani e a Júlia pediram suas músicas preferidas do Phish e vieram cantando The line e Devotion to a dream em voz alta, a Júlia com seus improvisos de inglês infantil de cinco anos. Durante o Radiohead a Júlia começou a tombar a cabeça de sono em sua cadeirinha, mas na Björk ela reanimou novamente. A disposição de humor estava tão elevada que ao entrarmos na cidade nem mesmo o trânsito a abalou, mantido do lado de fora das janelas solidamente fechadas com o ar condicionado ligado. Chegamos à casa da minha mãe e a mesma harmonia de humor estava lá. Passamos a semana indo ao cardiologista e ao obstetra, fazendo ultrassonografia e outros exames que não sei o nome. Disseram que a Dani está ótima, que o parto será marcado provavelmente para antes do dia 15. À noite fui à Fnarc e fiquei lá por boas 3 horas. Comprei uma batelada de livros que não esperava comprar. Dormi num colchão na sala do apartamento da minha mãe, onde estão as plantas e uma peça artesanal de cerâmica que simula uma cachoeira por onde a água cai em 4 níveis. Ficava lendo até as três da manhã, ouvindo o som morfínico da água. Durante as tardes, em que nada havia para fazer, passava horas lendo. Meu respeito pelo meu leitor interno é tão grande que sempre me deixo levar por suas escolhas inusitadas e espontâneas. E como caiu bem a leitura dos livros que ele escolheu na Fnarc. Li Mo Yan com deleite, depois, em um dia e uma noite, li Uma rua de roma, do Patrick Modiano. E agora estou embrenhado na leitura múltipla dos outros livros comprados: Amor e exílio, de Isaac Bashevis Singer, e o novo do Ian McEwan. Também comprei uma edição de bolso de Heart of darkness que tem sido minha companhia nas salas de espera dos consultórios médicos. Mas o que tem feito meus olhos brilharem mesmo são os livros do Mo Yan e Modiano. Os dois tem duas coisas em comum no imediato mundo real: os dois ganharam o Nobel e os dois se declararam (no caso do Modiano) ou foram declarados (no caso do Mo Yan) como escolhas menores para o prêmio. Gostaria de simplificar as coisas dizendo que o que gosto neles é o fato de serem autores medianos, descomplicados, puros. Mas isso é cair em rótulos simplistas. Mas vou me deixar, assim mesmo, cair nesse conceito limitante. O que eu adorei nesses livros é justamente eles serem medianos. Não há arroubos metafísicos neles, não existem sentenças grandiosas, nenhuma erudição excessiva, nenhuma digressão ensaística. Os dois são despretensiosos de uma maneira desconcertante. O Modiano, por exemplo, que declarou sem a mínima comiseração ter ficado espantado com a escolha da academia sueca, começa seu livro sem subterfúgios algum, direto, com muitos diálogos e poucas descrições. Estou verdadeiramente apaixonado pelo Uma rua de roma. Ele tem 220 páginas mas eu as li em alta velocidade, fiquei tão absorvido pela história e pela delicadeza da linguagem que quando cheguei ao final foi que me liguei que o livro físico estava realmente acabando. Pretendo voltar na Fnarc e comprar mais uns três Modianos para preencher meus dias até a chegada do Eric. Fiquei fã mesmo do cara. Há muitas cenas ali de tirar o fôlego de tanta beleza. E Modiano as compõe aparentemente sem apego a virtuosismos, apenas faz seu papel em sua sala à meia luz em algum apartamento de Paris. Modiano é tão fluído que me fez pensar que alguém como Hemingway gastava muito suor para se descomplicar, enquanto Modiano é descomplicado por natureza. O livro trata da procura do narrador por sua identidade, perdida há oito anos por algum evento desconhecido que lhe provocou uma amnésia. Os diálogos entre o narrador e as várias pessoas indicadas por suas pistas são primorosos, e a avareza de descrições evoca no leitor cenários tão vívidos e misteriosos que lembram algo de Kafka ao mesmo tempo que algo de Agatha Christie e George Simenon. Que delícia nesse instante da vida ser regalado com esses escritores medianos. A literatura em sua função cartorial, regida por expedientes protocolares; homens que escrevem com a mesma necessidade de qualquer outro ostensivo escritor de se oporem contra a morte, mas que o fazem em um estágio mais silencioso, que parece humildade mas que é apenas a consciência imolestada de cumprirem seus papéis consigo mesmos. À noite de ontem reencontrei um antigo amigo dos tempos do colégio no bar Woodstock, e o sincronicismo foi tanto que quando nos vimos passava a Smoke on the water, que tanto adoramos. É com o espírito leve das leituras de Modiano e Mo Yan que agradeci pela singeleza dessas coisas.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
Tamanho presente tão belo
Não se sabe seu nome. Foi reportado em algum lugar, no frenetismo das notícias que acompanharam a grande foto do dia de seu corpo deitado na praia, a foto que junto com o café da manhã da cracolândia ocidental serviu para lubrificar e preparar as emoções para as tocantes conversas que renderiam mais tarde com os colegas de serviço. Não é um problema; sua falta de identidade condiz com a resolução amplamente aceita de que o tratem de agora para frente como "o menino sírio". É um título em premente promessa para futuros produtos os quais se emite desde já o agradecimento por ter ofertado tamanho presente tão belo. Não é todo dia que se tem uma foto assim. Neste mundo carente de ineditismos, saturado de tudo que já foi visto e imaginado, a foto de um bebê branco morto na praia é recebida com inexorável gratidão diante o imediato reconhecimento de uma obra-prima. Esse é o Evento, a marca do Grande outro, o instante capital lúdico, a distribuição enfim generosa da rotinização do carisma, ou que queiram mais os vazios termos ortodoxos. Espera-se na superfície consciente de todo receptor que seja dado um prêmio para o fotógrafo. Que momento exultante: a hora recíproca em que se vê uma foto histórica, estampada na página digital entre as vadias informações monótonas da corrupção corriqueira. A menina nua do napalm, o menino africano antes de se tornar alimento para o abutre expectante, o homem segundos antes de receber o tiro na cabeça por seu executor_ a procissão é longa_, e agora, o menino sírio estendido de bruços na praia. Que detalhe deliciosamente recolhedor seus sapatinhos tornados absurdos pela gratuidade de ainda estarem fincados nos pés, as canelinhas albas ainda rescendentes. Parece com o fogo na lareira no final da noite. Sente-se a comichão e anota-se na agenda: ouvir Bach acompanhado com uma garrafa de vinho à noite. Lá pelas altas horas recitar Eliot e Whitman. Que dia especial foi ontem_ ou isso aconteceu antes de ontem?, ou foi na segunda? Acenderam os cigarrinhos e verteram as xícaras, as pausas ocupadas pela menção de sua herança, a herança de alguém que nunca passará dos três anos de existência e que nunca terá nome, mas já é imortal. A cadência global dos olhos, quase sincronizada nas webcams, uma genuflexão ligeira antes de se digitar a próxima doce frase de compaixão nos smartphones: porra, uma criança não! Mesmo assim vou agora procurar seu nome. Procuro abaixo da manchete Maioria dos bilionários é paulista, acima do vaticínio de O mundo é dos fazedores. Aylan Kurdi, é esse seu nome. O mundo não iria parar pela morte de Aylan Kurdi. Aylan Kurdi ao menos não será popular no Whatsapp, que só propaga interesses específicos menos clamorosos. Aylan Kurdi reforça com seus meros três anos de vida que todo livro de história é um pesadelo, sendo que todo livro de história hoje, para um ocidente de viciados dirigidos por teclas de ódio, choro, indignação e risos convulsivos, é de uma total inutilidade. Aylan Kurdi não interromperá o fluxo da história e o interesse sem perdas de tempo para compaixões da minuciosa política econômica. O homem sentimental instantâneo, dicotômico, instável e infantilmente passional não deixará de comprar tênis e gasolina, se alguma vez for revelado que a causa da morte de Aylan Kurdi foi a venda disseminada em péssimas condições humanas de tênis e gasolina; embora a causa mortis seja um tanto complexa na rede de derivações sem fim para que tênis e gasolina ainda possam ocupar seus lugares no banco dos réus. É por ser tão complicado que Aylan Kurdi não pode ter um nome: toda nossa intuitiva culpa conjunta e toda nossa alienação de drogados que só vivem o instante se anula no sentimentalismo catártico de devido e saudável tamanho do anonimato do menino sírio.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Primeiro deus
Demorei além do prazo para aprender a me firmar em minhas duas pernas. Enquanto os outros meninos e meninas da minha idade já iniciavam suas demonstrações de virtuoses admiráveis do bipidismo, causando o deslumbramento bobo em seus pais pela que para eles era a simples coleção de passinhos trôpegos pelo parque, eu me mantinha com ávida fidelidade à minha condição contemplativa de ficar apoiado unicamente em minhas nádegas. Em um mundo tão cheio de mesquinhas competições como esse da maternidade, não era para menos que minha mãe ficasse profundamente incomodada com minha descansada abstinência. Seus orgulhos naturais derivados de seu estado materno até então haviam se restringido aos pequenos alcances em particular que seu pequeno Halperin lhe dava em casa: o primeiro dentinho despontado faceiro e torto pela gengiva, as primeiras palavras guturais que simulavam o termo “mamãe”, os sinais inteligentes que mostravam as primeiras inteirações de seu bebê com o mundo; coisas enfim para as quais ela não se via em franca competição aberta com ninguém, podendo dispor de sua felicidade tranquilamente sem colocar essas conquistas em um cronômetro temporário conjunto. Mas agora, com as quatro paredes da casa substituídas pelo horizonte sem limites em que levava seu Halperin para apresenta-lo ao Grande Baal da cidade, a inapetência de Halperin para fazer-se honrado diante os olhos de todos a deixava envergonhada. Ela dizia: “Vamos, Hal, se levanta nessas perninhas”, e Hal, como um buda precoce satisfeito em seu confortável enchimento de dobrinhas gordurosas corporais, apenas a olhava com uma suntuosa indiferença, plenamente convicto de seu direito em permanecer imóvel. “Vamos, Hal, vem até aqui andando”, ela dizia, colocando seu pequeno Hal em pé agarrado com um crescente pavor a um banco, e se afastando um metro com as mãos espichadas, delimitando assim o percurso em que Halperin deveria atravessar sustentando-se em suas perninhas para que ela tivesse seu aliviador orgulho diante o círculo lupino de mães no parque. Mas Halperin bambeava nas pernocas gorduchas, segurava enfiando as unhinhas dos dedos no cimento áspero do banco, e escancarava a boca em um berreiro desesperado, tomado pelo terror de ter sido retirado de seu estado harmônico com a inexorável força da gravidade e posto violentamente na obrigação de tentar vencê-la por tentativas inócuas de reação. Halperin nunca teve dons cerebrais fora do normal, nenhum de seus futuros mestres percebeu nele nada de muito especial em termos de propensão a um entendimento científico glorificável, mas aos dois anos já sabia o suficiente sobre a mais intransigente das leis físicas para se render com uma complacência bovina sacerdotal à gravidade, seu único e indiferente deus. Halperin pregava sua bundinha rechonchuda e as coxinhas de suas pernas cobertas de curvas e reentrâncias no chão, seja onde estivesse, e ficava em uma paz tão narcótica e sedentária inócua à mínima culpa, que não era para menos que na cabeça celerada das outras mães e pais passasse a suspeita de que ele tivesse algum tipo de aleijamento corporal. E isso, enquanto não causava nada em Halperin além de uma sensação agradável de permanência, para sua mãe era um inferno. Enquanto não andar era um atestado de ter sido aceito pela ordem da natureza, uma ordem que Halperin havia conquistado sem trauma algum apenas por sua humilde subserviência em reconhecer o Imutável e para sempre Imutável, e que Halperin mais tarde saberia que ser abrigado por tal ordem era a tarefa terrivelmente sofredora a que todos os esforços humanos se destinavam, para minha mãe era a fonte de todas as suas vergonhas. Ela me tomava no colo, me retirando de minha posição náufraga em que me colocara em pé no banco, e simulava balançar-me nos braços para acalentar meu choro, mas na verdade nessas ocasiões ficava tão enfurecida que não falava comigo até que chegássemos em casa.
Olhando agora eu dou razão que ela ficasse tão possessa comigo, e que tomasse minha decisão em não me aprimorar para entrar no mundo dos passantes como uma rebelião deliberada contra os poderes de sua maternidade. Uma foto em que nós dois aparecemos, ela em pé com seu vestido manchado de nódoas de ovo, e eu sentado em um dos parapeitos de divisão dos blocos de prédios, é uma prova da árdua conflagração que acontecia entre nós; ela simulando um sorriso para o fotógrafo indeterminado, seus dentes infantis demonstrando a quão pouca distância estava dos anos em que não existia Halperin algum para ela cuidar, e o olhar que o Halperin lançava para a lente com uma determinação um tanto vingativa em dar irrecusável certificação de sua materialidade. Eu tento inutilmente recordar dessa ocasião, enganado pelo pensamento de que tamanho ódio em olhos semi-cerrados, convictos em não cederem à sua capitulação total com a gravidade, deveria ter cinzelado um fragmento de lembrança mesmo em uma cabecinha de dois anos. Dessa foto propriamente não me lembro_ talvez certa tendência a escapismos atmosféricos a que me remetem céus da tarde cobertos de nuvem tal qual o que aparece nela, uma certa nostalgia do aquecido deleite de ser um prosseguimento carregável que se atinha obsessivamente aos braços dela_, mas recordo de que meu tempo de reverência à imobilidade durou bem menos do que eu planejara. Tendo testado todos os recursos possíveis de seu manual intuitivo de mãe para fazer com que Halperin usasse suas pernas, e tendo fracassado em todos eles, ela decidiu entregar Halperin de vez a seu primeiro deus e virou-lhe as costas. Essa astuciosa estratégia certamente foi tomada depois de quando tiraram-lhes a foto, pois caso contrário Halperin não estaria sustentando um ar tão tsaresco sentado naquele muro. Um tanto do terror que passara a sentir pela vitória de sua vontade contra a vontade da mãe teria matizado de borrantes cores de insegurança aquela pose nababesca por sobre o muro. A mãe o deixara instalado sem rédeas em toda sua independência das exigências orgulhosas dela: se Halperin não queria dar-lhe a satisfação de ser vista como uma mãe exemplar, prenhe do direito de ter uma criança competitiva aos moldes do que exigiam a dissimulada e ávida fauna da maternidade dos parques; se Halperin não movia um milímetro que fosse de seus pezinhos apoiados em mimada tensão ao solo quando ela convocava que ele atravessasse por si mesmo aqueles dois metros de distância, em direção aos seus braços estendidos; se Halperin não tinha um pingo de diplomacia para arredar-se de sua posição budista e se pôr em pé invocando seu direito biológico a uma posição futura de bípede voraz brigando por seu espaço no mundo, então ela deixaria Halperin em paz e não o incomodaria mais com tais questões. E foi isso que fez. Halperin estava obsedado por seu momento perpétuo, jogando para fora os filetes de baba produzidos pelo frenetismo libidinoso de sua infância, inteiramente seguro de sua vitória, quando percebeu o ardil. Era tarde. Lembro-me estar debaixo da mesa da cozinha em uma manhã em que os ruídos pareciam mais infinitos e intrincados, vindos de um exterior que me interessavam apenas como incidências de um portal o qual eu jamais iria me aproximar, e estar deitado por sobre os pés da avó pentecostal, quando meu estômago começou a dar os indicativos gorgulhares de que deveria ser preenchido imediatamente.
Os pés da avó pentecostal eram um dos refúgios preferidos de Halperin, pés os quais serão descritos com maior rigor detalhista em outra parte dessa história. O que se precisa saber agora é que tais pés, com seus preenchimentos de redes ferroviárias de veias negras de diversos graus de espessura e sinais topográficos de melanina derramada captados pelos satélites dos olhos de Halperin, eram tão aprazíveis de se deitar e narcotizantes para o sono que Halperin só admitia sair deles ou quando uma das necessidades da natureza reivindicasse, ou quando a avó pentecostal tivesse que emergir de seu próprio torpor por algum motivo, ou porque a mãe de Halperin viesse erguer seu corpinho carregável para o por em outro lugar. Dois desses motivos estavam descartados naquele dia, pois Halperin ouvia que do alto das pernas passando pelo escoro da cadeira e subindo acima da mesa a avó pentecostal emitia sua mistura de sons de cochilo, muxoxos de ladainhas e uma e outra admoestação de costume que lançava contra as filhas, mesmo essas estando no quarto a vinte passos dali distraídas com suas ocupações pessoais, e por isso, se contasse apenas com essa possibilidade de interrupção, permaneceriam ele e a avó naquela troca de carinho estático até próximo à hora do almoço. Restava as outras duas hipóteses, a da fome que começava a fazer com que Halperin ficasse em incômodo estado de alerta, não mais fechando os olhos e deixando a cabeça bambear malemolentemente por sobre um morro de carne inchada do seu travesseiro podal, mas atento quanto aos estranhos sinais que sua barriguinha ronronante lhe enviava, e a que era a reação causal imediata que sua mente associava à essa: o fato de que sua mãe era uma espécie de barômetro que se antecipava a todas as suas cobranças. Halperin deu-se pelo esquecimento de sua mãe quanto à mamadeira da manhã. Simplesmente notara naquele momento que desde quando acordara, descera da cama e engatinhara até os pés da avó pentecostal, nem sequer a sombra de uma mamadeira aparecera por seu caminho. Ele
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
terça-feira, 30 de junho de 2015
Eloquência
Só há umas duas semanas que me ocorreu a pergunta do por que eu não dei o sobrenome de meu pai à minha filha. Meu pai morreu em 2008, e minha filha nasceu em 2010. Nada seria mais natural que um respeito elegíaco, o mero mas substancial instinto de perpetuação familiar, me fizesse dar o sobrenome Campos à Júlia. Me ocorreu só há duas semanas que o fato de minha filha não se chamar por completo Júlia Campos é o pior dos meus pecados. Foi uma descoberta tão repentina, que minha primeira reação em tentar fazer com que o arrependimento não me abatesse foi a de jogar a justificativa nos sintomas advindos com a inesperabilidade da culpa. Se só agora eu atentava para a vultosa culpa surgida com isso, após passados cinco anos, é porque havia um segredo, uma razão incógnita legítima, que deveria ter passado pela mente amargurada daquela pessoa que eu era. Há duas semanas, eu parei o carro, sentei em uma praça, cruzei as pernas, e fiquei olhando as palmeiras em frente à sorveteria, notando pelo canto do olho a sombra do rabo da culpa abanando em sua investida macia de uma outra dimensão para a dimensão em que eu estava. Meu Deus, eu disse, seriamente embasbacado, por que, POR QUE, eu não dei o sobrenome de meu pai à minha filha? Fiz um esforço feroz para lembrar de todas as circunstâncias psicológicas em que eu me atirei a partir do instante em que recebi o telefonema de meu pai, naqueles dias em que se iniciou nossa tíbia caravana rumo ao holocausto inescapável dele, após 15 anos de total afastamento um do outro, para desvendar o dilema. Eu tinha só uma certeza: era algo muito sério, pois desde que eu soube que seria pai, a paternidade tomou todos os meus horizontes e todas as minhas referências, de forma que se eu não herdei o sobrenome dele à minha filha, é por causa de algum rancor muito profundo, era alguma forma de diálogo que eu mantinha com ele mesmo depois de sua morte, alguma vingança, birra, alguma tentativa auto-desmobilizante e desprotegidamente desesperada de matá-lo uma segunda vez.
Não é preciso Freud para eu saber que eu sempre conservei uma vontade de matar meu pai. A morte asséptica do simbolismo encarnado, a figuração da extinção retórica e da extirpação mental daquele que me gerou e para quem minha incapacidade de comunicar-me com ele era inexoravelmente gritante. Eu queria matá-lo porque eu jamais teria a estatura exigida para que pudesse dividir com ele um diálogo descansado com conteúdo verdadeiro. Tudo o que nós falávamos entre nós se resumia a meu choro e a resposta ortodoxa que ele procurava adivinhar ter para cada ocasião. Nossas conversas eram testes tensos a que eram submetidas duas criaturas em um laboratório. Eu me achegava a ele como um parasita, para me grudar com tenacidade a seu couro, e ele fazia a pose de subserviência correta para que o processo de espoliação se concluísse o mais plenamente dentro das tabelas de mensuração. Mesmo quando estávamos cada um em seu sofá na casa deserta, durante minhas férias de julho, lendo cada um seu livro, a artéria brilhante que se podia ver com um pouco de percepção certa por entre a atmosfera metafórica conjugal estava lá, partindo dele para mim. Eu sempre tive a lucidez de saber disso: a única forma possível de interação entre meu pai e eu era a lacônica dança desgraciosa em que ele simulava grotescamente ser meu pai, e eu simulava grotescamente ser seu filho, e tanto ele como eu sabíamos que os modelos utilizados por cada um em nosso imenso desconhecimento dos papéis eram os piores existentes. Sempre fizemos as escolhas erradas um com o outro, e isso não podia ser apenas uma má sorte, uma vexaminosa inocência. No paradoxo de conservarmos uma única visão concordante de justificativa futura para todas as nossas faltas de acerto, acreditávamos que algo além de nós iria nos harmonizar. Meu pai deveria saber muito bem, deitado no sofá, que a postumidade dele era que equilibraria e daria conteúdo a tudo aquilo. Nosso diálogo pleno, atravessado de felicidade febril, nossas conversas por toda a noite, possuídos pelo entusiasmo, só viriam em um momento distante, muito provavelmente em que ele não mais estaria aqui. E ele estava cumprindo essa promessa da providência quando, 15 anos depois da última vez que nos falamos_ de novo uma fala mutilada e sem alma_, ele me telefonou. Eu recordo como se fosse agora. Era uma tarde, eu estava sozinho em casa, na bagunça de minha casa de solteiro, preparava para sair para cumprir não sei o quê, quando o celular toca. Eu atendo e ouço uma voz cinzenta. Ele pergunta se sou o Charlles, e depois fala que é ele, meu pai. Que precisa me ver, que está na capital. Eu rio, sem acreditar, e admoesto um amigo que tento adivinhar como autor da pegadinha. Ele diz, de forma contundente, que é ele. Daí eu compreendo instantaneamente, e lhe pergunto: "O que foi? Você está doente?" Ele nega com veemência, mas eu vejo que está, eu vejo que a coisa é séria. Eu vejo que se trata de um processo de despedida. Lembro que fico muito incomodado, não pela sua doença, mas pelos requisitos de sacralidade inescapáveis daquele rito de passagem que me era atirado em cima sem ter me dado tempo para me preparar.
Eu tenho um tio. Tio Jedson. Ele é cinco anos mais velho do que eu. Minhas lembranças mais angustiantes da juventude eram as conversas que meu pai tinha com esse tio. Passavam a tarde toda em um diálogo cheio de cumplicidade tranquila. Eu circunavegava meu pai, tentando promover com meus olhos acima da minha língua incapaz o arremedo mágico que trouxesse tanta facilidade. Eram momentos em que eu desejava fortemente matar meu pai.
Recordo que eu mesmo estava doente naquele ano de 2008. Descobri um caroço em meu testículo esquerdo. Um vizinho distante havia morrido de câncer de testículo, e eu passei a acreditar que eu tinha a mesma coisa. As pesquisas que eu fiz na solidão apontavam que a cirurgia de remoção dos testículos era o procedimento inevitável. Daí o médico implantava um enchimento de silicone por questões de estética, uma estética histriônica que já não interessariam a mais ninguém. Fui encontrar meu pai com esse pensamento em mente: que eu estava doente, e que se houvesse cura, eu jamais poderia ser um pai biológico. Intimamente, eu compreendia que a harmonia tardia e póstuma entre meu pai e eu se beneficiava com a repaginação adulta do acréscimo peculiar do sarcasmo. Ele estava em uma casa de repouso destinado a viajantes vindos de outros estados, instituição municipal que eu não sabia que existia. Eu fui com meu amigo Galeb, entrei no quarto indicado pela funcionária, e meu pai me perguntou: "Pois não? Quem é o senhor?" Eu disse: "O Charlles." Ele se levantou e me deu um abraço. Chovia exponencialmente. Ele estava com as canelas tão finas que achei um prodígio ele poder caminhar com tamanha desenvoltura. Conservava o topete. Sua esposa, que eu a conhecera há quinze anos, estava de seu lado. Sentamo-nos no alpendre, e eu percebi pelas minha antenas incorrigíveis que passara pela cabeça dele alguma fugaz maledicência sobre o real vínculo entre eu e o Galeb. O mesmo tipo de dúvida consumada que eu senti certa vez ao ver que ele depilava a virilha, e a vez em que ele julgou que eu era um drogado me avaliando diante sua cadeira em uma mesa de bar. O nosso eterno e inamovível descompasso continuava fiel. Agora eu era bem grande (foi essa estupidez apiedante que me passou pela mente), era bem maior do que ele, e eu tinha meu próprio dinheiro, então eu estava seguro. Quando a chuva passou, ele pediu para ver meu carro. Ele jurava que um modelo tão antigo não tivesse injeção eletrônica. Abriu o capô e viu a injeção eletrônica. Fez-me a proposta de ficar com meu carro e eu receber um carro zero quilômetro muito mais caro em troca, tendo que buscá-lo em sua fazenda há mil quilômetros. Ele estava muito magro, e me fez tal proposta no balcão de uma lanchonete em que lamentou não poder comer o bolo de fubá porque o câncer terminal de estômago que tinha não o permitiria. Bebeu um leite com café morno e esperou minha resposta. Me perguntou se eu, com todos os conhecimentos científicos que julgava que eu tinha, achava possível que o médico fizesse uma espécie de túnel reconstituído dentro de seu corpo, de maneiras que o estômago fosse feito artesanalmente com partes do intestino. Eu não soube qual resposta dar primeiro. Eu não queria trocar meu carro, estava bastante feliz com ele, respondi. Eu já ouvira falar de procedimentos do tipo que ele falava. Ele voltou animado e disse para sua esposa que eu achava que era possível, e inclusive sabia de pessoas que passara por algo igual, sobre a reconfiguração do intestino.
É uma balela ingênua achar que se descobre o momento indefectível em que acontecerá a conversa plena, cheia de significados. Ficamos ali sentados, falando sobre carros, ou antes eu o ouvindo falar vagamente sobre carros. É uma estupidez criada pelo romantismo requerer o direito da se estar vivendo um instante capital da existência, e uma estupidez maior ainda julgar que ele trará um jorro de riqueza espiritual encalacrada por décadas em uma suntuosidade de expressão sincera. Eu senti que estávamos mais boçais ainda do que na época em que ficávamos cada qual em seu sofá. Depois, eu ficava imaginando se foi uma simples falta de coragem, se eu abdicara de dizer a frase mais ajustável que acionaria a tão esperada relevância. "Bom pai, eu descobri que tenho um tumor no testículo, o que me obrigará à esterilidade na melhor das hipóteses". Eu poderia ter falado de seu topete, ter usado o tom amigável bonachão que eu desenvolvera tão bem em minha vida social, a ponto de ser visto como o comediante da turma, e ter exigido dele que me contasse sobre seus anos de galo ciscador. Como ele pegara minha mãe. Como ele subira naquele telhado do internato, cena de tantos relatos, e fizera com que uma moça tímida e com o coração endurecido se casasse com um boêmio que tocava viola.
Uma vez, eu o esperava em uma praça. Eu tinha doze anos. Eram nossos encontros semi-secretos em praças, ou na porta de igrejas, nas brechas do contrato judicial dos direitos dele em ver o filho. Um homem se aproximou de mim, se sentou de meu lado. Puxou conversa. Meu pai, que estava atrasado, chega no mesmo instante e rechaça violentamente o homem, violenta de uma maneira que eu nunca vira que ele seria capaz antes, sem mudar uma expressão do rosto, sem mover uma mão, apenas com o tom de voz. O sujeito sai às pressas. Meu pai se desculpa pelo atraso, e ambos começamos a caminhar em direção a uma prédio de dois andares de frente à praça. Subimos umas escadas circulares e entramos em um quarto grande, bem iluminado de sol, cuja porta estava semi-aberta, provavelmente quem estava lá dentro esperando avisado de antemão da nossa visita. Há um velho de barriga grande sentado à cama. Deveria ter oitenta anos, na minha concepção relativa de meus doze anos, o que me faz crer que tinha sessenta. Está só de camisa branca e com uma bermuda azul muito gasta, mas transmite, apesar da solidão do quarto e do ar geral de desistência, um ar de assepsia. Meu pai se senta ao lado dele, parece que vai tomar o rosto dele pelas mãos e puxá-lo delicadamente para junto do seu, mas não faz isso. Falam alguma coisa, durante uns vinte minutos. Meu pai fala mais do que o velho, mas o velho responde e corrobora com o assunto com uma concentrada prestimosidade. Eu fico sentado em um banco, olhando o quarto despovoado senão pela cama de casal, um armário, uma penteadeira e o banco onde eu estava. Meu pai me chama para irmos embora. Na sorveteria, último ponto de nosso itinerário corriqueiro, ele me diz sem que eu pergunte, com uma voz cheia de ressonância, uma voz que deixa adivinhar uma rica história por detrás, a voz que era, para mim, seu maior tesouro: "Aquele senhor trabalhou como palhaço de circo por muitos anos. Ele foi um grande palhaço de circo." Meu pai me olhou como pouquíssimas vezes era capaz de me olhar, me cobrindo por inteiro com os olhos, por distração aferida pela intensidade passional do que estava me dizendo me convidando sem delicadezas para a nossa tão esperada e desacreditada conversa. Eu me calei e baixei os olhos para o sorvete. Lembro disso com tamanha perfeição, como uma mancha na retina.
E contudo, eu não dei o nome dele à minha filha Júlia. Ele teria adorado minha filha Júlia. Ele tem mais duas filhas e um filho. As duas filhas disseram que ele era um pai maravilhoso, extremamente carinhoso. Eu sei que ele era. Eu não fui ao enterro. Um amigo do meu pai me telefonou: "Se quiser ver seu pai pela última vez, é bom se apressar, porque ele não passa dessa noite". Depois, no outro dia, um tio me ligou e com a voz correspondendo a todo ato social da más notícias, me disse: "É Charlles, você sabe... sinto dizer..." Alguns amigos passaram a ligar, e eu desliguei o telefone e me tranquei em casa. Ah se tivesse um cronograma de como se portar, de o que se pensar, de como chorar ou como deixar de chorar, de como se sentar e olhar do jeito certo o mato crescendo no jardim. O mato crescia com a velha selvageria desconjuntada e silenciosa. Eu quis jogar tudo para fora com o choro que me entupia a alma, mas a estridência denunciava a falta de similitude entre o sentir e o expressar.
Há muito mais formas de dizer do que com as palavras. As palavras, aliás, são uma mutação pouco efetiva do não-dizer. Se eu deveria ter trocado de carro? Na minha recusa havia todas as minhas respostas diante as tentativas dele por me dominar, ainda que eu soubesse que era apenas o velho medo de ambas as partes. O telefone toca novamente uma tarde, e a viúva dele me diz que ele deixou um montante em dinheiro e a pick-up da qual ele queria fazer a troca. Ela me liga várias e várias vezes insistindo para que eu pegue. Eu contrato um advogado e mando para ela o documento em que me abdico da herança, em nome dela e do outro filho e filhas do meu pai. Surge um período em que eu entro em depressão da qual nunca passara, com profunda descrença sobre o significado de deus. Eu havia lido uma biografia de Darwin, e aquilo acentuara mais minha sensação de total nulidade.
Faço um exame e o médico diz que eu não tenho nada mais que uma inofensiva anomalia de nascença no testículo. Minha namorada Daniele fica grávida, perde o bebê, fica grávida novamente, e nos casamos três meses antes que nasça a Júlia. Eu sei, eu sei com absoluta segurança, que eu sou um ótimo pai, ou pelo menos o melhor que eu concebo ser com todos os meus esforços. Todas as mínimas falas da minha filha eu respondo como se eu estivesse respondendo a uma adulto, mas com respostas honestas compatíveis a uma criança. A Júlia sabe que uma aranha tem oitos olhos, diz isso para a tia e a avó, que se surpreendem com a informação. Eu e a Júlia ficamos longas horas conversando. Muitas vezes eu tenho que calar meu receio de se ela vai interagir com todas as coisas que eu digo para ela, e ela nunca me decepcionou. Eu demorei me acostumar com a sinceridade desarmante da forma como ela fala comigo.
Nosso médico tinha dito que o ultrassom indicava que a Dani estava grávida de outra menina. Lara. Todos a chamavam de Lara. A Júlia dizia, todas as noites antes de dormir: "Boa noite mamãe, boa noite papai, boa noite Lara". Há duas semanas, na outra ultrassom, o médico diz que o bebê tem todas as medidas certas, e logo diz: "E vocês estão vendo ali o sexo, não?" A assistente, que ficou ostensivamente me observando esperando que eu chorasse como da outra vez, me diz, apostando que agora seria tiro e queda: "É menino!" Eu não choro. Na praça, quando praticamente dançamos por entre as flores ali plantadas, a Dani pergunta sobre meu mutismo. Claro que estou feliz, Dani, só estou compreendendo. É menino. Em casa eu chego com delicadeza à barriga e o congratulo, imaginando seu olhar atento e desfocado e toda sua capacidade extra-sensorial, toda sua inteligência pulsando ali dentro. Já sabe o nome?, a Dani me pergunta, brincando. Desde muito tempo, desde décadas. Eric Campos. Eric Campos.
quinta-feira, 4 de junho de 2015
O horror à normalidade
Andei pensando nessa reação boçal e anacrônica dos que “zelam pela família”, suscitada pelo recente comercial de O Boticário veiculado na tv. Daí pensei na minha família. Meu avô fez com que ficasse incutido na genética da família a urgência pelos estudos. Todos da minha família, desde os loucos, os fracassados, as ovelhas negras, os desviados, os santos e os criminosos (uma das minhas maiores dificuldades é a inconstância em que ora e outra me situo entre tais categorias), são pra lá de estudados. Mesmo os ignorantes e os que só tem força intelectual para assinar o nome, são estudados. E todos, em maior ou menor grau, são, graças a isso, independentes financeiramente. Cumprem à risca a prediga religiosa de meu avô de botarem e retirarem seus chapéus simbólicos onde bem entenderem. Minhas primas, as quais admiro muito, são, a maioria, mães solteiras. MÃES SOLTEIRAS_ em caixa alta para os distraídos. Uma filigrana de desequilíbrio da providência, e seriam consideradas putas. Mas ali está meu avô, as olhando severamente de algum improvável avatar ultra-dimensional, para receber o agradecimento de ter ministrado a sarna do esclarecimento no gene da família, e com isso ter dado sua herança máxima, a de se poder fazer o que se bem entender com suas vidas pessoais, mandando a opinião alheia para o único lugar devido em que ela deve estar: a merda.
Por que eu entrei nesse assunto genealógico todo? Para dizer que esses hipócritas que condenam tal propaganda o fazem porque não suportam serem confrontados com um desvio mínimo de seus acondicionamentos do “como pensar” e “como agir”. São a tal ralé criticada pela Hannah Arendt dos comandados que só olham o mundo através de clichês. Eles aceitam a bicha engraçada, bufa, afetada, estridente, com a alminha previsível dos palhaços deformados que não oferecem ameaça a ninguém; os Felix e demais bichas das novelas globais, criadas por roteiristas e vendidas por essa emissora estúpida com bula e atestado de “liberdade sexual para todos os gêneros” em adventos falsos do primeiro beijo gay e sei lá mais o quê. Isso aí eles podem suportar: a caricatura, o farsesco.
Mas mostrem a liberdade de escolha sexual com requinte, com tranquilidade e equilíbrio, como foi feito pela propaganda do Boticário, aí essa ralé vai pular alto, como está pulando. Eu fico rindo lendo os comentários desses sacripantas obtusos, e rio mais ainda pelo que eu vejo de seus inerentes desesperos. O Boticário, pelo que eu saiba, está longe de ser uma empresa sem perspectivas estudadas a fundo sobre seu público consumidor. Ela não se lançaria em uma campanha assim se não soubesse da grande faixa de consumidores GLS que seguramente existe para seus produtos. De gente que pouco está se importando com o que pensa e esbraveja a massa alheia. O que há de novo (um novo tardio que deveria ter sido mostrado na mídia há muito tempo) nessa propaganda, é mostrar que a diferença sexual EXISTE, calmamente, com pessoas que lutam tranquilamente por suas felicidades, pessoas no todo sem nenhuma diferença conceitual uma das outras. O escandaloso nisso é a sua silenciosa normalidade. Um país como o nosso está preparado para admitir que um beijo truncado de uma bicha neurótica bufa apresentado em uma novela estúpida seja revolucionário, mas não para aceitar essa normalidade insuportável do tido como diferente.
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