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segunda-feira, 19 de março de 2018

Um desabafo

Minha esposa teve duas paradas cardíacas quando estava grávida de nossa primeira filha, a Júlia. A Dani sempre foi muito saudável, mas desenvolveu uma doença grave na válvula mitral, que só se manifesta na gravidez, e os médicos disseram que as chances dela e de nossa filha chegarem vivas no final eram poucas. Fomos em vários médicos e todos nos falaram isso. A junta médica para conseguir minha dispensa de acompanhamento_ que eu achava que me trataria com extrema burocracia e me concederia uma semana apenas_, ficou tão espantada com a situação que me deu 3 meses, o que me pareceu um prognóstico ainda mais soturno.

Recordo como se fosse agora_ e isso faz quase oito anos_, minha irmã e eu comprando o primeiro vestidinho, uma peça linda, azul, para a Júlia vestir_ lembro do sorriso compungido e do silêncio de nós dois. Recordo dos movimentos na barriga; nós passávamos Mozart para ela ouvir. Uma vez a Júlia deu um chute tão grande durante um exame, que o cardiologista deu um pulo com a mão na barriga da Dani. Eu nunca fui um homem de fé. Sempre fui de um pessimismo prostrante. Minha primeira reação a tudo é o escape. Mas eu nunca, nem sequer por um segundo_ e isso é a coisa mais verdadeira da minha vida_, eu tive nem a sombra de dúvida que a Júlia ia nascer e de que a Dani estaria lá para recebê-la nos braços.

A Dani passou por tanta coisa, tomou uma batelada de remédios devastadores, que havia a chance bastante real de que a Júlia nascesse com algum problema. A Dani ficou magérrima durante a gravidez, com as maçãs do rosto salientes, por causa de um diurético que ela tomava todos os dias para suavizar o coração (um amigo me confessou depois que, ao vê-la, perdera toda a esperança). A Júlia podia ter nascido na forma de um rabanete que eu a amaria acima de todas as coisas. Podia ter nascido com o problema que fosse, mental, teratogênico, que eu a amaria com toda minha alma. E eu sequer pensava nisso, sequer dediquei uma pestana em me preocupar com isso. Pelo tanto de anos que me resta viver, essa temporada de angústia foi o mais próximo de um sentimento religioso profundo que eu tive, o mais próximo a uma descansada e paradoxal fé que eu tive de que um deus agiria em meu favor. Qualquer coisa que ele nos entregasse seria maravilhoso e eu estaria profundamente agradecido.

No dia do parto eu só não aguentei esperar no hospital. Eu pedi licença a toda família e saí, fui passear em um parque vizinho majestoso. Eu iria desmaiar se ficasse ali, o que seria ainda pior para todos. Fiquei sentado em um banco diante um riacho, calmamente olhando à distância uma moça lendo um livro, em uma sexta-feira em que o mundo continuava girando em absoluta indiferença. Ouvi uma buzina, me virei e vi a obstetra me gritando do carro: "O papai fujão não vai lá pegar a filha no colo não? Deu tudo certo". Eu saí correndo, chorando muito, até o hospital, e vi pela primeira  vez a Júlia. Ela era minúscula, quase cabia na palma da minha mão, era sequinha, frágil a ponto que parecia ir se desmanchar, de tal modo que eu tive muito receio de machucá-la ao pegá-la no colo. A sensação que eu tive ao vê-la envolta em uma manta, deitada de lado no berço do berçário, com um filete de vômito escorrendo pela boca, foi_e eu jamais vou deixar de parecer piegas ao tentar verbalizar essa impossibilidade_ como se eu estivesse tocando o sol: eu estava diante um mistério extraordinário do cosmos, um vulcão em erupção, um buraco negro, um tufão. Uma criaturinha cujo tornozelo tinha a espessura de meu mindinho, e era um milagre cromossômico devastador.

A Dani passou por duas cirurgias, abriram-lhe o tórax, e ela está curada. Tanto que nos permitiram ter um segundo filho. Eu brinco dizendo à Dani que a Júlia é minha alma gêmea. A Júlia cresceu, dá sinais de que vai ser uma moça bastante alta. Ela tem uma inteligência apurada, um gosto estético recolhido, uma curiosidade e uma paixão pela vida que me deixa continuamente deslumbrado. Mas foi o bebê mais magro e minúsculo que eu já vi, e esteve ali no prisma das deficiências e dos resultados da falta de oxigenação cerebral suficientes para que fosse uma criança excepcional_ o que teria transformado o meu amor e o da Dani em um amor também excepcional, nem maior e nem menor do que nosso amor de hoje, mas um amor especial (muito provavelmente ainda mais intenso).

E por que escrevi todo esse relato? Porque assisti ao Fantástico a matéria sobre a morte da Marielle e do seu motorista, Anderson. Porque li as opiniões que a desembargadora Marília Castro Neves veio repetindo insistentemente sobre sua cruel e insípida visão de mundo. A desembargadora, além de todos os absurdos que disse sobre a morte da Marielle, escreveu desmerecendo uma professora com Síndrome de Down. E aí eu vejo, na matéria que o Fantástico fez sobre o Anderson, que o filho dele nasceu com problemas, com algum tipo de má formação (isso foi anunciado na reportagem). Eu estava sozinho na sala e fui acometido por uma crise de choro, que foi o estopim de desabafo a tudo isso que vem acontecendo no país, ao ver a foto do Anderson ao lado de seu filho, um bebezinho minúsculo (assim como a Júlia ao nascer). E a desembargadora, em cima de sua vida de privilégios que no final são vantagens medíocres, em cima de sua paupérrima e lamentável impressão de superioridade, com sua cara plasticiada que depende de exercícios de auto-aceitação que só ela deve saber o quanto são inglórios, botoxiada nas tentativas falhas de esconder o galope avançado e inevitável da idade, vem despejar insistentemente sua deformação interior. Por isso tudo, minha explosão de choro e meu desabafo diante a foto do Anderson e seu filho: o amor na cara do pai, a alegria inocente e plena na cara do bebê_ o sol ali, o buraco negro, o tufão, a imensa, irrefreável e invencível manifestação da Lei.

sábado, 3 de março de 2018

Justificativas



A vizinha, mãe de dois meninos, abandonados pelo pai, que se mudou semana passada para a casa ao lado, gritando com os filhos: "Não mexe em lixo do quintal não, suas pestes! Já não basta que todo mundo nos ache um lixo, que todo mundo nos trata como lixo, e vocês ainda ficam brincando com lixo!"

Um senhor alto, muito velho, em pé sozinho no fundo do elevador, olhos aguados, alguns instantes depois em que responde meu cumprimento quando me adentro: "Meu maxilar se partiu e fechou o canal dos meus ouvidos. Se o senhor falou alguma coisa para mim e eu não respondi, peço que me perdoe, não estou ouvindo."

O catador de ferro-velho, de idade indefinida, cabelos e bigode tingidos de preto, que me grita um cumprimento onde nos vemos como se já tivéssemos trocado alguma palavra antes, e que eu surpreendentemente vejo andando em volta da represa empurrando em uma cadeira de rodas um menino loiro de um ano e meio. O "boa tarde" radiante que ele lança para mim, para minha esposa e meus filhos.

E o sorriso do menino loiro.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Canadá



A violência sensorial do Brasil anda tão grande que a gente perdeu a capacidade de saber o que está acontecendo. Tudo virou clichê e tudo virou meme. Pelo que eu consigo compreender, Bolsonaro será o próximo presidente. Por onde eu vou eu escuto pessoas aprovando Bolsonaro. Não apenas o aprovando, mas o tendo como um ser altamente redentor. Ontem um amigo me chamou para uma roda de conversa (por pura sacanagem), enquanto eu pegava meu notebook no carro, e lá estavam todos falando que "enquanto Bolsonaro não for presidente deste país, a situação ficará assim". O tom é aquele tom rançoso do imbecil, corrupto, patriarcal, machista e misógino, que se acha o baluarte da moral, puro e cristão. Nessa roda de conversa falava-se as mesmas coisas de sempre: o que liderava o assunto se mostrava preocupado com o futuro do filho porque, não sendo ele casado com a mãe da criança, temia que a mãe, solteira, levasse o menino para o mau caminho. Era tanto clichê que me vinha a impressão de uma cena montada, de que eu vivia em um sketch televisivo de péssima qualidade. Horas mais tarde, me deparo com mais pessoas endeusando Bolsonaro. Leio manchetes que apontam uma aproximação do mercado com Bolsonaro; percebo a arregimentação estratégica em torno dele para fazê-lo representante dos interesses oligárquicos. De modos que eu não tenho dúvida: Bolsonaro vencerá as eleições do ano que vem. O Brasil é o país que não nos deixa em paz: é impossível você comprar um pãozinho, levar o cachorro para passear, beijar sua esposa e afagar seu filho sem que a portentosa sombra do país esteja ali, mostrando-se presente, não te fazendo esquecer que você vive nele, respira ele, come ele. o sustenta com onerosíssima sofreguidão. Por isso eu não tenho como negar que meu estado espiritual contínuo seja o do desespero. Volto para casa hoje de madrugada, após cumprir um plantão, ouvindo no carro a sinfonia Júpiter que finalmente consigo baixar, após uma luta de uma semana, no site do PQP Bach, e vejo o cidadão do carro em frente ao meu jogar uma latinha de Coca-Cola pela janela, assim, com incrível leveza, com a naturalidade de uma bailarina em seu passo de balé tornado exímia perfeição de tanto executá-lo. Lembro do conhecido vídeo da moça carioca racista gravado nos anos 80, em que ela esbraveja contra pobre, dizendo que as praias do Rio deveriam ser fechadas e frequentadas apenas pela elite, que pobre é sub-raça, e penso: será que estou me tornando assim? Será que eu entrei na loucura de pensar que eu não sou pobre? Será que, ao desprezar com solene resignação o ato do meu conterrâneo no carro à frente, eu me tornei um racista, um estúpido elitista, um obtuso idiota? Será que eu estou criticando demais o brasileiro, como se eu estivesse me colocando do lado de fora da brasilidade? Alerto-me diante os sinais de que a loucura nacional chegou a um nível tamanho que me faz duvidar se eu estou certo, se afinal os que vociferam Bolsonaro não estão certos. Lembro do filme "A fita branca", e o terror que mora perenemente em meu peito dá um salto, pulsa com maior presença. No povoado alemão do filme, o massacre vai se consumando sem que as singelas e dignas pessoas que ali vivem suspeitem que estão sendo enredadas, coaptadas, transformadas em assassinas. Não há o que fazer aqui. Eu penso em meus filhos e um fagulha da única esperança ressurge, a de que eu possa, na idade certa deles, retirá-los do país, levá-los para um país digno, exilá-los para sempre longe daqui.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Para um amigo


Um dos meus grandes amigos trabalhou na zona rural toda sua infância e juventude e com muita luta conseguiu se formar na universidade. Fizemos o curso de História juntos. Quando ele foi diagnosticado com intoxicação por um pesticida de lavoura e o médico o proibiu de voltar a trabalhar no campo, seu pai aspergia o pesticida em seu quarto e dizia que filho nenhum dele ficaria sem trabalhar. Ele foi, de longe, o melhor aluno do curso. É o cara que mais entende de América Latina e Brasil que eu conheço. Leu todos os clássicos sobre esses tópicos. Constantemente nos falamos pelo telefone, e eu o consulto sempre, embora em sua humildade ele fale que eu que sou o cara culto entre nós dois. Ontem mesmo, enquanto eu caminhava em volta da represa, perguntei a ele pelo celular qual a melhor biografia do Fidel. Ele e todos seus dois irmãos são vitoriosos, passaram em concursos públicos e são combativos ideólogos contra a miséria e o vilipêndio do país. Durante nosso curso, alguns colegas de sala o achavam louco e excêntrico: a turma dos parvos que não deram em nada, as mulheres que se limitaram a esposas e mães e os homens com suas difíceis vidas impregnadas de ignorância e lugar comum. Ele era muito jovem na época e em seu direito ficou apaixonado por uma das colegas, que o desprezava, o que foi um benefício para ele e um malefício para ela, que se aventurou num casamento que teve tudo para não dar certo e realmente não deu, com terríveis consequências. Ele passou em vários concursos, inclusive alguns em que elementos do corpo docente da faculdade foram reprovados. Por recalque, esses doutores titulados negaram que ele entrasse como professor na universidade, relegando o cargo para os medíocres das familiocracias de sempre. Eu procuro retribuir às informações que me passa, lhe indicando os grandes livros da literatura, nos quais ele se lança com o mesmo afinco de sempre. Ele trabalha no Tocantins, como historiador, organizando expedientes das bibliotecas e de eventos culturais. Quando chegar aqui, em um dos tantos retornos para essa terra, esse presente vai estar esperando por ele.

domingo, 29 de outubro de 2017

Uma confissão, de Liev Tolstói


É ousado dizer isso, pelos parâmetros do que eu acredito, mas eu sou cristão. Jesus Cristo, tendo existido ou não, foi o ser humano mais revolucionário da história. Toda a ortodoxia criada em torno dele usou de arquétipos das mais variadas religiões e crenças, mas não conseguiu tocar a originalidade inigualável de sua mensagem, expressa em sua maior parte no sermão da montanha. Coisas como "oferecer a outra face" e "perdoar seus inimigos" nunca tinham sido ditas antes: a primeira como a mais efetiva arma contra o mal, ou seja, uma reação que nada tem da passividade que sua leitura superficial atribui (mesmo Hannah Arendt cai nesse erro, em uma passagem belíssima sobre a bondade em "A condição humana"), e a segunda como o remédio espiritual mais pragmático. O Cristo em que acredito nada tem a ver com a monstruosidade que atende à egolatria de seus defensores, como o cristo dos macedos e dos olavos e dos barbudos propagadores do ódio da internet. O Cristo em que acredito prescinde da necessidade de ter existido. Eu acredito que um mendigo louco realmente apareceu e fez misérias na Galileia de 2000 anos atrás, mas isso é irrelevante. O que importa é sua palavra, é a busca que ele propõe. A busca entre os combalidos e os incompletos e mutilados. Eu acredito que, além dos evangelhos, e de maneira ainda muito mais profunda, sua palavra deixou outros evangelhos ao longo do tempo: o de Kazantzákis, o de Bulgákhov, por exemplo (como o Cristo de O mestre e Margarida é lindo, em toda sua singela e frágil loucura!, e como ele me fala de modo muito profundo e verdadeiro!), o de Dostoiévski. Passei anos sofrendo de depressão diante o que meu cérebro afirmava ser a passagereidade fútil de todas as coisas; e foi grande a luta para que eu aprendesse que essa descrença e esse desespero fazem parte da mensagem do Cristo. Assolava-me a brutalidade pascalina do silêncio desses espaços infinitos, até que eu compreendi_ ou, antes, senti sem compreender_ que a dúvida é tão inerente à mensagem que o ponto atingível é não se importar mais com a dúvida. Nós vivemos no inferno e, provavelmente, nós somos condenados pagando a pena em um matadouro a céu aberto, mas isso não descarta a maravilha de que somos também parte do cosmos e temos o mesmo direito à relevância que os buracos negros, as tempestades solares e a partenogênese. Por isso, esse livro de Tolstói é-me enormemente importante. Li-o em uma forma muito condensada no volume "Os últimos dias", da Companhia das letras, e depois o li em sua versão integral, traduzida do russo pelo Rubens Figueiredo e lançado pela editora MC. Eu senti tudo que Tolstói sentiu: o pensamento de suicídio perene, o olhar para as coisas e só ver um profundo vazio; a opressão comendo o peito e a certeza de que a alegria e a felicidade eram impossíveis. Lembro, perfeitamente, certa vez, quando eu tinha 17 anos, que me sentei em uma praça e, por longos 5 minutos_ mais do que isso seria fisiologicamente impossível suportar_, fui assolado por uma luz em negativo de que tudo era uma imensa gratuidade, de que tudo o que eu via já estava morto e extinto e tudo não passava de uma ilusão sem qualquer propósito. É uma comunhão adstringente saber que Tolstói pensou assim, e expressou de uma maneira crua e profunda nesse livro. Assim como o grande russo, eu achei o caminho da alegria da vida, ao descobrir_ ao sentir mais do que descobrir_ que o fato de estarmos vivos já é o mistério que nos foi dado. Isso nada tem a ver com agradecimento religioso, mas uma constatação cósmica salvadora.

Che, de Jon Lee Anderson


Não acredito em heróis. Nunca acreditei, nem quando tinha idade em que o culto a eles era perdoável. Enquanto alguns amigos da adolescência usavam camisetas com estampas de figuras iconizadas da política e da música, eu era rigorosamente sistemático em usar camisetas lisas, sem estampas (coisa que eu conservo até hoje). Eu tenho escritores e músicos que amo_ como William Faulkner, Hannah Arendt e Miles Davis_, pelo que eles produziram, mas não os cultuo pelas pessoas que foram. Ontem fui à fazenda de um amigo meu, um sujeito com o intelecto bastante desenvolvido e de muita cultura, e na despedida, quando ele me levou até o carro e viu o volume sobre o Che no banco do passageiro, perguntou como eu perdia tempo lendo um calhamaço de quase mil páginas sobre um assassino contumaz. Era provocação da parte dele, por isso eu ri e respondi com alguma piadinha ligeira. Admiração nada tem a ver com concordância: eu admiro o Che em alguns aspectos, mas não gostaria de tê-lo conhecido, e nem me simpatizo com ele. Quero entender o máximo sobre a América Latina e a leitura desse livro faz parte do propósito. Tenho outra biografia dele já faz uns 5 anos, a do Jorge Castañeda, mas o tom rançosamente poético me desmotivou da leitura. Jon Lee Anderson é um dos maiores jornalistas do mundo, sua análise é mais profunda e realista. Estou prestes a chegar à página 200_ ler usando um lápis para conduzir o foco dos olhos é imensamente proveitoso, atravesso páginas numa velocidade muito maior que a normal. Ainda estou no Che das viagens com La Poderosa, a motocicleta com a qual, na companhia de seu amigo Alberto Granado, atravessa parte da América Latina; o Che reflexo do direito de explorar as mucamas, empregadas semi-escravas, índias, negras e vindas de outras extrações mais baixas da sociedade, que trabalhavam nas casas da elite e eram estupradas pelos patriarcas e os filhos dos patriarcas. Em uma cena, reportada no livro baseado no testemunho de um dos amigos do Che, Guevara transa com uma mucama por cima da mesa, à frente da testemunha e pelas costas de sua tia, e depois retorna ao jantar como se nada tivesse acontecido. É repugnante. Alguns anos mais tarde, o biografado escreve um conto e entrega para seu pai, onde aparece a frase de Ibsen: "Educação é a capacidade de confrontar as situações criadas pela vida."

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sobre nada


um antro já por si loteado por tudo que havia de criminosos defensores do direito de perpetrarem todo tipo de abominações autorizadas pelo costume. Aqueles que acreditam em sensibilidades do espírito não sabem a força que tem esses ambientes para tornarem fortes os estômagos; foi preciso duas visitas apenas a uma casa modelo do comportamento da região para que minhas ideias humanistas da universidade começassem a ser apagadas. Da primeira delas ainda permanece nítido em minha memória o olhar da menina rejeitada dirigido a mim do canto da distante porta da cozinha, enquanto seu pai, cujo conhecimento geral das barbaridades que impunha a ela me chegaria no trajeto de volta por meu assistente, falava com educação puritana o quanto vacinava seus bezerros e organizava primorosamente seus documentos oficiais com o estado. Era de uma assepsia de maneiras exemplar, os movimentos ponderados das mãos, encostadas gentilmente uma sobre a outra, remetendo a algum indeterminado manual de etiqueta do justo patriarcado czarista, hipótese que se dissolvia quando a sequência lógica do olhar do visitante procurava algum nobiliárquico brasão de família e só encontrava as paredes do casarão calcinadas pelo tédio das existências muradas pela bestialidade e concupiscência.
         Daí em diante, como por uma espécie de concessão à dureza paulatina a que somos promovidos, a providência vai nos ensinando sobre todo tipo de excrescências por fora da casca rompida, e se desfaz rapidamente nossa capacidade de asco. A segunda vez eu nem estava a serviço, atendendo ao pedido distraído de um oficial meu conhecido com o qual alimentava o ocioso hábito de discutir questões religiosas vernaculares como a carnalidade de Cristo ou a virgindade de Maria, e lá fui eu assistir a uma ocorrência de suicídio. O corpo estava convictamente pendurado em uma trave de madeira, as pernas estendidas até o chão com uma prontidão que em vida não tiveram diante as mazelas do trabalho escravo na fazenda, como se a morte exigisse aquela disciplina marcial em agradecimento por tamanho alívio alcançado. A rósea luz do sol poente espraiava-se por entre as calmas folhagens das árvores em torno, e o pequeno telhado da cisterna resguardava o corpo de toda comoção alheia abraçando-o com uma indiferença que conferia à cena algo de uma serenidade enlouquecida. O oficial me narrava sobre os efeitos fisiológicos do enforcamento, apontando do alto de sua estatura rapina o azul dos músculos do pescoço tentando enodar a corda; observava o rosto pendido em um surrealístico ângulo de 45 graus com uma deliciada curiosidade infantil que lembrava um desenho antigo do Sherlock Holmes, e falava com uma mansidão que estava a um passo do canto, técnica que adivinhei ter sido desenvolvida para exercer suas pretensões de pastor de uma igreja assembleiana.
                 Essas coisas na verdade não chegavam a me tocar, senão eram uma espécie de nova alegria da minha estendida experiência cuja insinuação de desmazelo moral não era suficiente para me levar a analisa-las com seriedade. O que tinha eu a ver com incestos e com impossibilidades tais de suportar o sofrimento a ponto da opção se voltar voluntariamente para a não existência como única redenção requerida? Eu não era insensível, era antes o oposto disso. O olhar da menina atocaiada na cozinha me despertava nostalgias de justiça que me levava a ceder a um dos prazeres contra os quais eu me mantinha afastado, que era a tentativa de esquecimento pelo álcool, embora eu bebesse sozinho em minha casa e caindo muitas vezes no batismo renovado toda madrugada na poça do meu próprio vômito

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Hope

Ainda existe muita bondade humana. Não é época para a depressão e perda da esperança. Vejo bondade de pessoas que não conheço dirigidas a mim cotidianamente, as mais sutis e menos perceptíveis, que revelam algo profundamente bom. Esses dias eu ando esmorecido com tanta barbárie que está acontecendo; e hoje, na rua, um homem negro, cego de um olho, maltrapilho, alto, à sua maneira belo, me chega e pede dinheiro. Ele tem um sotaque ou uma deficiência na rapidez da fala que me faz pensar ser um refugiado, o que é estranho na pequena cidade onde eu moro (e que é também estranho eu nunca tê-lo visto). Eu demoro a entender que ele me pede dinheiro, e quando o faço algo no meu inconsciente associa idiossincraticamente a sua erradia nobreza com a disparate de estar precisando de dinheiro. Dou-lhe o que tenho, que acabo de guardar na carteira, muito pouco, mas para ele, não sei mesmo por quê, parece ser um milagre. Ele me aperta a mão e diz muitas coisas, muitas bênçãos, me acompanha pela metade até meu carro, e sai cantando feliz da vida pela calçada. Absurdamente belo. Sinto uma vontade enorme de ir com ele e fazer-lhe todo tipo de pergunta. Não, o sujeito bom aqui não sou eu, não estou de maneira alguma dizendo isso. O sujeito bom é ele. Sua leveza e sua nobreza me contagiaram e me alegraram o dia. Me fez pensar na máxima do Dostoiévski, de que "a beleza salvará o mundo". Um carro de som pelas ruas do Espírito Santo tocando "Imagine", uma música tola e que pouco tem a ver com a situação, mas como é comovente, libertador e um farol de esperança ver a cena. Como é arrasadoramente belo. Como é inevitável que eu pense que esse negro cego é Cristo. Mesmo que tudo em mim, até minhas mais recônditas sinapses, saiba que não é; e que um de meus múltiplos eus insilenciáveis cogita que pode ser um criminoso, um ser mal dissimulado. Mas a beleza é absurda, o ser humano é absurdo, e sempre quando estou no melhor e mais lúcido de mim eu tenho certeza de que o absurdo é que salvará o mundo. Por isso, tenho a mais clara certeza de ter me encontrado com Cristo hoje.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O que importa



Eu sempre meio que repudiava fotos de famílias. Achava-as egoístas, porque pretendiam mostrar uma felicidade nuclear reservada, que necessariamente para manter seu poder excluía o que estivesse de fora. Mesmo depois de ser pai e compreender, ainda se conserva em mim um resquício de policiamento. Mas como eu disse, eu compreendi: o tipo de compreensão que está tão incutida em mim que se tornou um puxão de orelha quando eu penso fora dela, quando eu simulo que eu ainda não sei. Não tem nada disso: o frescor dos meus filhos e o meu sorriso e a proximidade deles e da Dani em vez de me isolar me lança mais para fora; em vez de me fazer achar que eu tenho algum privilégio exclusivo, me deixa agraciado por essa felicidade ser tão natural, tão constitutiva de meu ser e de minha espécie, tão simples e fácil. É isso que essas pessoas que aportaram generosamente em minha vida me deram: a simplicidade e a facilidade. É uma antídoto revigorante e maravilhoso!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sobre vacas pichadas e o hino nacional



Nunca fui um leitor diletante. Não via no fato de gostar de ler nem o mais leve sinal de que deveria propagar o gosto pelos livros nas outras pessoas. Eu sempre soube que a leitura deixa a inteligência turbinada e proporciona novos ângulos de visão, e a fazia em meu canto, recolhidamente. Pelo contrário do que algumas pessoas achavam, eu sentia era uma espécie de vergonha quando me viam com livros (e me veem toda hora com livros); quase comprei um leitor digital para que pudesse, assim, ler em filas de bancos e em praças públicas sem despertar a impressão de que eu era um alienígena ou um esnobe. Certa vez, no campus da universidade, eu estava deitado num banco no bosque, durante o horário de almoço, e fui flagrado lendo "Visível escuridão", do William Golding. Meu colega pegou o livro e o revirou nas mãos, caçando o segredo da funcionalidade daquilo, e me devolveu com um ar de pânico_ depois disso seu comportamento comigo mudou em definitivo; ele me evitava, falava comigo como se eu fosse um idiota ou uma criança. Meus ambientes na vida nunca foram literários ou intelectuais: esse colega, um japonês, era o primeiro da classe de veterinária, e refletia milimetricamente a impermeabilidade a toda coisa que não fosse a doutrina da produção e aquisição de dinheiro e status social. No curso de veterinária eu via o martírio inglório que era para um velho espanhol ter sido incumbido de dar aulas de filosofia e deontologia; era como ensinar sutilezas para feras cujos hormônios da discórdia, do tédio e do deboche estivessem no auge. Ele fingia que não via os ares gerais de que aquilo era papo de afrescalhados e levava a obrigação com astúcia, deixando que colassem deliberadamente nas provas e evitando o máximo de profundidades possíveis. Eu mantenho até hoje a convicção sem fundamento de que aquele professor era uma espécie de párea na universidade, cujo pagamento por algum obscuro crime administrativo impôs que ele enfrentasse aquele inferno. Pode parecer que gente como eu, afrescalhada e meditativa, tenha sofrido no curso, mas não. Desde muito cedo eu me decidi que não iria seguir a carreira acadêmica e nem o humanismo ortodoxo: a leitura para mim é indissociável ao prazer, e como eu sou um leitor inveterado que leva o vício aos extremos do sagrado, seria uma tortura ter que me ocupar de títulos de autores que não me diziam nada, mas que aos quais teria que entregar a vida para ter êxito profissional. Sendo assim, eu me mantinha bem em meu núcleo de observação segregado. Quando aguentava, eu ria com eles e os acompanhava em festas, quando não, apenas observava. Uma vez picharam com mata-bicheiras uma vaca doente, escreveram palavrões, apelidos, no corpo dela. O professor, um sujeito caricaturalmente doutoral que ensinava cirurgia em grandes animais, que pegava alunas e venerava como a um bezerro de ouro os alunos que chegavam em grandes caminhonetas, ria com aquilo, em silêncio. Era o fruto do deboche com a deontologia. Eu ficava pensando onde esses colegas estariam dali alguns anos; se seus sonhos fanatizados acalentados em uma instável segurança fervida no banho-maria do desespero seriam concretizados. Uma vez vimos o professor de equinocultura chegar à faculdade em um fusca, e um dos que estavam do meu lado se arrepiou em uma comoção mística; seus olhos se arregalaram de tal maneira como se um ponto dimensional tivesse se aberto diante deles, e ele proferiu em tom de reza devota: eu não estou estudando para isso. Muitos anos depois, quando precisei ir ao prédio da faculdade pegar um xerox de um histórico colegial para que pudesse me matricular no curso de história, encontrei um dos machos alfa da turma, parado com sua camisa xadrez e seus jeans da cultura sertaneja diante a porta de entrada. Ele me deu um cutucão e me estendeu a mão, mas eu demorei reconhecê-lo. Estava com uma calvície esplêndida que se ajuntava à transformação física total em identificá-lo com o fenótipo de um grande fazendeiro: sua materialidade transbordava pelos botões da camisa, sua pele tinha a lisura juvenil inchada do uísque; mas ele estava bem mais doce do que o portento sexual que subira em um dos bancos em certa tarde e declamara para uma garota uma poesia improvisada da qual me lembrava por ele tê-la comparado à "sétima sinfonia". Eu apertei-lhe a mão embasbacado, pensava que a natureza não deveria ter feito isso, que era um insulto tal deformação em um cara que era muito bonito, uma espécie de Rick Martin viril e Dennis Quaid infalível, sem pompas e brutalmente elegante. Seus olhos mostravam a rendição, o quanto se tornara bovinamente maduro. Não estava em uma caminhonete, mas em um carro popular. Era vendedor de produtos agropecuários e rodava o estado todo. Ficamos conversando um tempo; quando lhe disse que meu propósito ali era pegar documentos para cursar história, ele concordou com a cabeça e me disse sinceramente que era uma excelente coisa. Voltei a ver alguns colegas pessoalmente, e pelo Facebook. Nada aconteceu com eles que sugerisse o extraordinário. O japonês se casou com uma colega nossa de sala, e posta fotos com cãezinhos em algum lugar do sul, onde trabalham em uma empresa de nutrição animal.

Tergiverso. Pouco encontro leitores na vida real. Uma vez vi uma moça lendo Doze contos peregrinos no ônibus. Fiquei olhando-lhe os cabelos. Já vi um cara cruzar por mim com um Beckett na mão; voltei para vê-lo pelas costas. Uma vez eu fui surpreendido: desci do ônibus e fui seguido por uma moça sorumbática, loura e linda, que me abordou dizendo que sempre me observava porque eu era a cópia física de um ídolo dela. Perguntei quem? e ela me respondeu Robert Smith, do Cure. Eu ri e disse que lamentava por não ser o Dostoiévski, num ato de esnobismo ridículo e totalmente involuntário, do qual meu subconsciente em alerta decretou que eu havia destruído por completo qualquer possibilidade com ela. Na primeira conversa tu lhe tasca um Dostoiévski. ó ser deplorável. Daí, para minha extrema surpresa, ela começa e discorrer que eu teria que ter bem menos cabelos, uma barba rala, e um olhar destruído pela epilepsia para atingir meu objetivo. Foi um dia de sonho, frio, insípido e atonal, dos que são meus ambientes espirituais perfeitos, e eu estava andando com uma moça linda de olhos azuis que, pelo que tudo indicava, estava me cantando. Se ela lesse Dostoiévski, tudo estava perdido, eu não iria suportar. Eu nunca me dei bem com as mulheres, sempre me policiei pela tendência à ignobilidade e à síndrome do capacho. Perguntei, fremente, se ela lia Dostoiévski, e ela me respondeu sobre qual livro dele eu gostaria de falar. Eu deveria ter juntado as coisas: Robert Smith, Desintegration, existencialismo... Dostoiévski. Falamos durante o percurso sobre Crime e castigo, eu sentindo que ela maneirava a coisa para não me humilhar. Ela fazia música, piano. Sobrenaturalmente, morava a uma quadra de mim, mas eu nunca tinha visto ela. Cheguei em casa destruído, ciente que estava em um grau instantâneo de paixão irrecuperável. Ouvi o Desintegration, que na época era um dos meus álbuns preferidos, comprado o vinil nas Americanas, e fique horas no espelho notando que, porra, eu era mesmo a cara do Robert Smith e nunca tinha me dado conta disso. Pintei meus olhos com lápis preto, espetei os fartos e longos e desgrenhados cabelos que tinha na época e, porra, me parecia pra caralho. Ganhei a menina. Li avidamente o que eu tinha do Dostoiévski e no outro dia, assim como pelos outros dias, ficava a procurando no ônibus. Estava desconsolado e já desmotivado, quando, indo para o ponto, ela se aproxima pelas minhas costas e me dá um tapinha com um oi. Eu abro o maior sorriso infantil do mundo, destruindo as horas de treino em ser smithianamente taciturno, e lhe gaguejo uma série de frases sobre onde ela andava, que eu a tinha procurado, etc_ enfim, nada que Robert Smith diria. Falamos até quase chegarmos ao ponto, e ela abre uma pasta e me entrega uma partitura, dizendo que quando a tocava no piano lembrava sempre de mim. Pegamos ônibus diferentes, porque eu tinha que ir a uma aula na praça, e quando me sento vejo que a partitura é do hino brasileiro. De imediato me cai uma certeza terrível, que me revela o quanto nesse mundo diante a felicidade se ergue uma sequência atroz de barreiras: ela é louca. Analiso a evasão do seu olhar, sua incapacidade de sair da introspecção inteligente; a maneira como fala e não me ouve; um pulsante desespero submergido pela química que não a deixa ser natural. A encontro nos outros dias, e vejo claramente a confirmação de minhas suspeitas. Uma vez passo pela casa dela e uma moça muito parecida com ela mas cujas feições são dotadas de linhas bem menos sublimes, mais comezinhas e pragmáticas, me acompanha e me conta que sua irmã sofre de distúrbios mentais sérios, que ela está em tratamento, que ela realmente cursa música e é extremamente talentosa. Fala essas coisas com uma naturalidade de alguém acostumada com a realidade burlesca; também nisso deve ser um rascunho inverso da irmã, sem nenhum talento para a música e a leitura, alguém cujas contas de luz e a formação profissional suplanta qualquer perda de tempo com Dostoiévski. E ela não fala com a preocupação de que eu possa fazer algum mal à irmã, que eu seja sequioso e aproveitador, ou me alertando para que com pessoas como a irmã eu não deva me envolver emocionalmente. Vou com ela_ seu nome, a da moça linda e música que pensava em mim em momentos em que deveria se plantar em pé com a mão patrioticamente no peito, era, é, não sei, Inamar_, uma vez a uma reunião em que ela pleiteava uma bolsa para completar os estudos na Rússia. Depois desse dia, nunca mais a vi. Na verdade, eu evitava vê-la; me sentia muito sozinho ao lado dela; me sentia tão depressivo quanto ela deveria se sentir, quando fechava a tampa do piano à noite e era conduzida para o momento das pílulas pela mão prestimosa, severa e acolhedoramente terrena da irmã, e depois era colocada nocauteada na cama. Imaginava o quanto sua beleza deveria ficar destruída nesses momentos, o quanto a pele rósea deveria ter algo de paquiderme, de bicho atocaiado pelo medo; os murmúrios sem charme, a posição assináptica do corpo.

Na verdade não sei por que escrevi esse texto hoje. Perdi o sono às 3 da manhã. Tem temporadas que sofro de desespero noturno e perco o sono. De noite tudo me parece sem esperanças e sem propósitos, e vejo até as pessoas que não gosto com profunda piedade. Semana passada acordei de um sonho recorrente, o de que sou só. Suportei a solidão por muitos e muitos anos, e acho que perdi o jeito completo da coisa, não suportaria mais ser só. Acordo disposto a chorar como um garotinho desamparado desses sonhos, e a tristeza que sinto é horrível. Mas, o propósito desse texto, se é que ele tem algum, foi motivado pela alegria de ver leitores reais pelo universo cibernético. Hoje uma amiga me disse que ficou totalmente tocada pelo Origem, do Thomas Bernhard, livro que eu lhe indiquei. Ela chorou, riu, e se emocionou profundamente com esse livro único. Assim vamos, fragilidade; a arte está aí para mostrar o quanto somos frágeis e inadequados para a solidão. O quanto somos um coletivo, ainda que só nos encontremos com a identificação em efêmeros momentos aleatórios, dispersos pelo tempo e pelo espaço, e o quanto estamos de alguma forma seguros mesmo nessa sucessão deplorável de esperanças infundadas e desconexão espiritual. Me lembro agora do velho Nietzsche, quando disse que nossas naus, após tempestades e desencontros e infernos múltiplos, estão destinadas a se encontrarem, sempre e inexoravelmente estão destinadas e se encontrarem, em algum lugar em um futuro cósmico. Se até o mais ferrenho niilista apostava nisso, quem sou eu para discordar. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Inteligência

O maior benfeitor humanista da minha cidade não é o presidente da OAB, nem o padre ou o pastor, nem o pessoal do sindicato ou os dois artistas plásticos, nem os dois acadêmicos com títulos de doutorado. O maior humanista que vem contribuindo, solitariamente, para a melhora das condições sociais é o dono de um pequeno armazém que, apesar de pequeno, vive lotado de consumidores. Esse senhor trabalha da seguinte forma: sua margem de lucro é mínima, devido aos preços dos produtos serem bastante reduzidos; ele não explora seus trabalhadores, abrindo pontualmente às 8 horas da manhã e fechando pontualmente às seis e meia da tarde (ele fecha os portões corrediços para avisar os clientes que é hora de ir embora). Em seu armazém tem de tudo, mas de tudo mesmo, o que não tem nos outros mais sofisticados: tem desde macarrão furadinho do pacote azul de 5 quilos, até o vinho do Porto e chocolates alemães. Seus preços são absurdamente mais baratos que nos concorrentes, de forma que os outros admitem que não são concorrentes, não tem como se firmarem nessa categoria. Os produtos são cerca de 20 a 30% mais baratos. Achei meu vinho do Porto lá, uma vez, 25% mais barato, e desde então o dono vem encomendando mais Porto. Por incrível que pareça, ontem o Porto estava ainda mais barato. Parece absurdo, impraticável, financeiramente um suicídio, mas ele já está rico com isso. Não há uma hora em que eu vá lá que o espaço não esteja abarrotado de gente com os carrinhos cheios. Em contrapartida, o maior supermercado da cidade está já com o decreto de falência assinado: recebeu uma multa trabalhista de 700 mil reais por exploração de seus trabalhadores e não lhes pagar as brutais horas extras, e seus preços exorbitantes o torna ainda mais fadado ao fracasso. A realidade desse supermercado é a realidade corrente em minha cidade, com funcionários ganhando abaixo do salário mínimo e trabalhando 12 horas por dia_ no horário de verão fica pior, porque eles abrem ainda mais cedo e saem ainda mais tarde. É isso: não é necessário bondade e altruísmo para o brasileiro, mas inteligência. Com inteligência se fica rico, é uma mera questão matemática e, como adendo, as consequências para a dignidade humana e a diminuição da desigualdade social sempre vem.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Leniência



Eu estava comendo um damasco seco quando meu dente incisivo, naqueles silêncios de pesadelo que mostram um terror irreparável, se partiu ao meio. A língua e a gengiva emitiram o sinal de alarme de que alguma coisa estava seriamente errada no preciso processo da mastigação, e a língua, em uma mecânica automática, se me estica boca afora e entrega o objeto estranho em minhas mãos. O olho com o reconhecimento paulatino da miséria que é a condição humana, em seu realismo mais restrito, e sinto uma infelicidade por todo meu ser: uma desproteção antropológica que há muito tempo não sentia. Fico com o pedaço amarelecido na mão, e nada é mais feio que um dente partido, mais denegridor, mais excludente. Percebo que em toda minha vida eu fui massacrado por terrores na solidão da noite em me ver sem dentes, em sonhar que meus dentes se deslocavam, caíam, esfarinhavam como um giz que aparecia de súbito ser impossível se manter em minha boca. Lembro de todas as peripécias de minha mãe em me levar, naquela época de severas privações financeiras, a inúmeros enchumbadores de dentes. Cada um se conserva em minha memória como uma entidade única: o homem com cara de criminoso, de jaleco sujo, de barba por fazer e com um azedume lacônico contra o mundo que me apavorava. Seja qual aspecto espúrio essa entidade possuía, era ela que erigia aquelas lápides cinzas da amálgama por sobre o túmulo em que sepultavam a dor em minhas gengivas, e me trazia alívio. Daí me recordo qual foi a última vez em que senti esse desolamento profundo: foi justamente quando esse mesmo dente se partira há quase 25 anos. Eu era um jovem magricela, meio sem rumo na vida, fazendo faculdade mas completamente desmotivado com tudo. E em uma bela manhã, no pátio da universidade, o dente se parte e minha língua faz sua primeira entrega policialesca daquele fragmento rejeitado para minha mão. Eu tinha 18 anos, ou 19, e aquele dente da frente quebrado, no auge da minha vaidade, me fez sentir ainda mais minha condição de segregado. Eu sabia que minha mãe não teria dinheiro para um dentista. Eu sabia que não estava preparado para viver com aquele novo sinal de pobreza em mim, tão violentamente evidente. Eu saí do pátio, peguei um ônibus e desci perto de casa. Não abria a boca, mas não conseguia parar de raspar a lâmina que sobrara do dente com a língua. Só para ver quanto ficaria uma reparação, entrei em um consultório que só então descobrira próximo de casa. Sabia que seria um preço impossível para minha mãe pagar, porque era um consultório de verdade, com um dentista de verdade, e não um enchumbador clandestino. A dentista, uma mulher jovial de cabelos negros _ que me causava ainda mais vergonha pela deformação na boca_, examina o problema, me encaminha para sua secretária para que esta faça o orçamento, e antes que a secretária complete os números das possíveis parcelas e sobre o desconto no caso de um pagamento à vista, eu me despeço dizendo que não daria, estava sem dinheiro. Quando estava para atravessar a rua, a própria dentista me chama: "Vem cá, vamos ver o que podemos fazer". Talvez foi a primeira vez em minha vida que uma concessão assim estava prestes a acontecer; talvez ela orquestrava um desconto; talvez ela ofereceria um trabalho panorâmico de restauração de outras pequenas falhas que havia visto em meus outros dentes; talvez iria dar de brinde um tratamento de flúor: eu me sentei de novo na cadeira inclinável e me encolhi de vergonha diante ao que parecia ter que dizer mais uma vez, após toda a exposição, de que não haveria meios para isso. Para meu assombro ela começa a mexer em meu incisivo. Leva uma meia hora ou mais, e conclui dizendo: "Ficou tão perfeito que eu poderia assinar aqui embaixo". (Lembro-me claramente dessa frase, e um quarto de século depois as surpresas da memória evocam o timbre maroto de sua voz, uma certa estridência que o rapaz que eu era então associava a algo da classe abastada, de filhas criadas em paz com uma efetiva margem de carinho paterno, de cultura, de uma bondade perigosa diante a qual eu sempre me sentia perigoso, com a qual uma brutalidade indisfarçável da minha parte iria trair-se revelando para o choque de um coração tão bem moldado que eu não estava apto a suportar tamanha leniência.) Eu já sabia, mas tinha que perguntar, e a pergunta me tornava ainda mais tremulamente miserável: "quanto foi?". Ela sorriu com todo cuidado, de modo a que passava longe de qualquer possibilidade de me ofender, e me disse que não era nada, era de graça. Fez isso sem ostentação. Eu agradeci, sem efusividade, e ela me disse: "olha, só vai durar 10 anos, depois você terá que refazer". E há duas semanas, com a lasca que ela tão bem colocara em meu dente que nem eu mesmo me lembrava que era uma restauração, grudada em um pedaço de damasco, finalmente vencera o prazo de duração. Fiz a restauração em um dentista daqui da minha cidade, caro, pra lá de caro_ imagino quanto seria naquele tempo em que a odontologia era ainda mais exclusiva. Indigno-me comigo por ter passado todos esses 25 anos sem me lembrar disso, sem pensar na dentista, sem sequer me lembrar do nome dela. Há muitas questões aí: o fato de que eu me sinto cada vez mais combalido e reservado com toda impressão de completude pessoal, cada vez em que envelheço mais. O medo que eu sentia naquele labirinto da juventude. Mas não foi ingratidão. É forte a tentação de tecer a frase "em um mundo cheio de ira e egoísmo..."; mas não é assim. O mundo é cheio de medo e incomunicabilidade, de tal forma que a bondade aparece no esforço de se afirmar-se a cabeça para fora do invólucro como uma leniência, uma tentativa sempre mal ajambrada, sempre suspeita, sempre titubeante. Assim me parecera aos 18 anos, mas não mais agora. Agora apenas me parece que até a validade que ela colocou em seu ato totalmente despojado e sem motivos práticos a não ser o de tornar mais fácil a vida de um jovem que ela via em todas suas fragilidades, estava investida de modéstia. Durou quase 25 anos, doutora.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Um salutar esclarecimento



Estou em estado de choque. Eu sempre vejo na linguagem das pessoas pela internet o uso de sinais gráficos dos mais simples aos mais complicados. Não entendo quase nenhum deles. Tirando o solzinho que ri, tudo o mais para mim é um mistério matemático. Tenho um traço de inveja mal digerida quando vejo a rapidez da galera em se comunicar com esses caracteres. Já que eu não entendo, fico igual um estrangeiro em uma terra estranha tentando descobrir os significados pelo contexto do gestuário. Desse modo, um dos mais enigmáticos símbolos desse descolado idioma jovial, que sempre me deixa embasbacado, é esse :3. Passei toda a minha vida desde que criaram essa belezura dando uma compreensão muitíssimo particular para isso. Quando alguém finalizava uma frase com :3, eu dava um sorriso torto diante o que me parecia o grau de liberdade que a geração moderna possui. Como essa gente é despojada, fazendo esse sinal :3, eu pensava; como eles são descomplicados em velhas questões pudicas defasadas. Uma vez vi alguém falando para uma moça que ela era muito gostosa, e tasca um :3. E a moça sorri de volta. Então não é um insulto, eu pensava, fascinado. O rapaz elogia a moça e destrói tudo numa ironia grotesca de dizer que ela era tão bonita quanto :3, e está tudo bem, um mundo de simpatia. Se esse símbolo fosse mais ancestral e fosse usado em minha época, daria morte, eu penso. Morreu porque encerrou uma frase para o outro dizendo que ele lhe soava tão divertido quanto um :3. Daria um desses contos de duelo pela honra nos pampas escritos pelo Borges. E aí hoje eu estou conversando com uma amiga e surge o ensejo de falarmos sobre esses caracteres. Eu digo que demorei a me acostumar com o :3, que as primeiras vezes eu até pensava em bloquear e tomar satisfação e essas coisas, mas depois vi o quanto de leveza havia nisso, de mandar o outro :3, como era cool e moderno. Depois de um silêncio do outro lado, essa amiga, depois do que parece estar contendo um ataque de pleurisia, consegue me dizer que o :3 nada tinha a ver com o que eu vinha pensando. Não era nem de longe mandar um beijo no cu.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Escola de princesas



Escola de princesas: mais um modismo vazio do Facebook, esse de estereotipar o que é certo e o que é errado na educação cultural de uma criança.
                                                                                           
 Minto: sendo direto, essa nova moda é um policiamento estúpido e machista que recaí sobre a educação específica das meninas. Trata-se da condenação do que passou-se a chamar de "escola de princesas". Menina inteligente é aquela que repudia a premissa e a estética da clássica figura da princesa. Menina inteligente é aquela que mostra o quanto pode se antecipar em seus posicionamentos assumindo uma maturidade precoce ao se submeter ao desejo dos pais de arvorar uma consciência política.

Daí então as consequências mais bizarras: fotos de meninas"amalucadas", "adultizadas". Em uma dessas fotos uma menina vestida de cachorro-quente no que parece ser um evento escolar onde suas outras amiguinhas estão todas com longos vestidos de princesas. Compro 3 livrinhos para a Júlia de uma tal coleção anti-princesas, para ver como é que é.

São sobre a Clarice Lispector, a Frida Kahlo e a Violeta Parra. Ontem lemos todos esses três e ela adorou, como sempre. Gostou especialmente da Violeta Parra, quando lhe identifiquei que era a compositora de um monte de música que ela adora: ela quem canta como el musguito en la piedra, papai? E me pediu para definir o que quer dizer "anti-princesas", e eu disse: são as mulheres que se tornam doutoras, professoras, cantoras, escritoras, pintoras, ou qualquer outra dessas coisas, e são independentes para fazerem o que bem quiser. A aí eu pergunto, fazendo teatro circense com minhas duas mãos levantadas como se segurasse em cada qual uma opção: o que você quer ser, princesa ou anti-princesa?, e ela me responde: anti-princesa. Mas daí ela faz uma de suas caras enfezadas e me dá uma bronca: mas não quero que você deixe de gostar das princesas, ela me diz, e prossegue: eu adoro as princesas, a Cinderela, a Rapunzel e a princesa Sofia. E eu respondo: mas também as adoro, e quero que você continue as adorando, não há nada absolutamente errado com isso.

Pois bem: há uma série paralela de livrinhos de anti-heróis, com apenas dois títulos: Cortázar e Galeano. Imagino porque tem apenas dois títulos: porque não vende. Não vejo posts na internet de pais preocupados em substituir o Homem-aranha, o Homem-de-ferro e o Capitão América, na leitura de seus filhos homens, pelo Cortázar e pelo Galeano. Suponho até que exista uma inerente preocupação nunca confessada desses pais de que submeter seus filhos homens a tal privação da cultura do herói possa afeminá-los ou torná-los pouco competitivos.

Para o menino pode o esteriótipo do herói, macho provedor, guerreiro de fronteiras, halterofilista socorrista com armas e violência, uniformes de facções de guerra e coalizões de fardados em prol da destruição de inimigos identificados. Para as meninas, a exposição à Branca de Neve parece-lhes letal, algo que futuramente pode tornar suas filhas páreas sociais, pode lhes incutir algum transtorno sexual mal visto pela comunidade. Um amigo pediu para comprar com meu cartão de crédito esses livros das anti-princesas para sua filha, e a ironia é que ele coleciona gibis de heróis da Marvel.

Eu comprei para a Júlia esses livrinhos depois, e... que bom que ela gostou, mas eles são um pé-no-saco. O Leandro Karnal disse uma coisa que, de primeiro, eu achei um absurdo, mas fui pensando e vi que ele está absolutamente certo: nenhuma criança e adolescente é susceptível à ideologia. Como não? Não é justo nessas fases que se formam os gostos, e não são essas fases os alvos das campanhas publicitárias mais massivas? Daí eu me reavaliei em meu período em que eu fui criança e jovem, e descobri que eu nunca senti o mais leve impacto das ideologias professadas pelos professores. Eu me deslumbrava com certos matizes ideológicos, mas nunca vestia a camisa de nenhum time. Baseado nisso, vejo o quanto é estúpido esse temor paterno e materno em fazer seus filhos seres-humanos esclarecidos e competidores perfeitos (porque a razão desse repúdio das "anti-princesas" é apenas esse: a de que as filhas possam prescindir de maridos e entrarem no mercado de trabalho por conta própria).

A criança tem que ser criança, e só. Tem que ter escapismo, sonhos, castelos medievais, raios laser, etc. Criança tem que ter liberdade de imaginação irrestrita, porque é isso que as tornarão independentes no futuro. Isso é que dá a emancipação.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A Júlia e o blog vão fazer 6 anos



A Júlia com 1 ano, e a Júlia e o Eric


Eu sempre falo que comigo todos os clichês da redenção pela paternidade aconteceram. Eu só descobri o que é mesmo o amor depois de ter filhos; eu só descobri o que é a felicidade plena depois de ter filhos; eu só descobri o quanto devemos respeitar milimetricamente cada pessoa e todo mundo depois de ter filhos (porque todo mundo é filho de alguém); eu só entendi de forma profunda o quanto meus pais me amaram, e o quanto eu lhes dei motivos para preocupações, depois de ter filhos. A Júlia me mostrou que eu não poderia amar duplamente um ser como eu a amo, e aí veio o Eric e me provou que eu posso, porque amo os dois da mesma maneira e na mesma intensidade. Fico os olhando por horas, enternecido, carregado de orgulho e mágica por eu ter contribuído por tamanhas perfeições. Um dia um colega meu criticava para mim a "coragem" de um amigo dele em expor seu filho recém nascido no Facebook, porque o menino havia nascido com o lábio leporino, e eu, antes mesmo de me conter, respondi a ele me admirando o quanto ele era estúpido em falar algo assim, porque um filho meu poderia ser de qualquer jeito que eu sentiria absoluto orgulho dele. A primeira gravidez da minha esposa, a Dani, foi de altíssimo risco, e o médico nos dissera com sinceridade que o bebê poderia nascer com alguma deficiência. Eu amaria a Júlia mesmo se ela tivesse nascido um rabanete, e ela nasceu minúscula, murchinha, cabia quase na minha mão; nasceu com uma imensa fragilidade de forma que eu tinha receio em pegá-la e machucá-la sem ver. O dia que eu as trouxe_ a Dani e ela_ para casa, enfrentamos uma chuva intensa na estrada, e viemos ouvindo no carro todo tipo de música abençoada, Pink Floyd abençoado, Led Zeppelin abençoado, Van Morrison abençoado, porque eu dirigia em estado de graça vendo as duas lá atrás pelo retrovisor, o ratinho rosa que era a Júlia em volta em mantas dormindo no bebê conforto, e o olhar da Dani repetindo o meu com o brilho do êxtase, a descansada e vaidosa plenitude da maternidade e da paternidade. Nós sabíamos que nada de ruim poderia acontecer com a gente. Chegamos à casa antiga em que eu morava, minha casa de solteiro caindo aos pedaços, com a auto-suficiência aristocrática dos permanentemente saudáveis e felizes, e colocamos a Júlia no berço junto à nossa cama e ficamos babando em cima dela, a menininha que, aos 3 meses de gestação, a Dani recebera o prognóstico de que ela tinha uma margem pequena de chance de nascer. E agora ela estava ali, o milagre do qual nunca duvidamos (o milagre do qual eu tinha tanta certeza que nem cheguei a pedir a Deus). Cinco anos depois, o médico da Dani autorizou que tivéssemos mais um filho; em uma semana engravidamos e sentimos o mesmo deslumbramento da gravidez. E aí nasceu o Eric, uma bola grande e gorda que era fisicamente o oposto da irmã. Hoje ele já está esbelto e dando seus primeiros passinhos pela casa. Amanhã será a festa de aniversário de 6 anos dela. As avós estão em casa e mais uma turma de amigos e parentes. E a vida, a resiliência e a ausência de medo, o amor e a luz, são sempre maravilhosos.

sábado, 17 de setembro de 2016

Leitura, a falta que você me faz



Já nas primeiras páginas o Gaspari fala do quanto o militarismo era corrupto, com fraudes na construção de hidrelétrica e dos planos de construção da bomba nuclear brasileira que custou, na época, o desvio de vultosos 30 milhões de dólares dos cofres públicos_ projetos que nunca chegaram a ser finalizados porque, além de corruptos, os militares eram muito ineficientes (a única coisa que sobrou do projeto da bomba atômica, diz o autor, foi um buraco de trezentos metros de fundura em que os sábios cientistas da ditadura intentariam explodir as bombas experimentais, valha-me santa Sucupira!). Gaspari_ que deve muito de seu estilo a Garcia Marquez_, brinda o leitor com uma impagável descrição carregada de ironia da "bravura" e "pragmatismo" dos generais e coronéis, apontando como eram bons em acumular papéis em seus escritórios e ficarem com suas caras de sono suportando o expediente até o fim. Aí vem essa gentinha miúda e iletrada, que infelizmente grassa em grande quantidade por toda a geografia, querendo a volta da ditadura, elogiando a austera "pobreza" dos presidentes e altos caciques militares após o fim do regime. Como a falta de leitura e o completo desinteresse pelo conhecimento é de extrema letalidade.

domingo, 4 de setembro de 2016

The night of



Sim, o Faulkner estava certo: existem sempre os mesmos temas capitais para a arte, que falam sobre a coragem, a dignidade, o sofrimento, a luta contra a opressão, a fragilidade, o erguer-se na derrota, a perseverança, o sacrifício, o amor e a resiliência. Toda a grande literatura e a ficção, não importa de qual época e vertente, falam sempre dessas coisas. É com esse pensamento que eu acabei de ver o oitavo e último capítulo agora de The Nigth of, após tê-lo colocado para gravar faltando sua imprescindível meia hora final e tendo conseguido só hoje baixar o episódio inteiro. É tão genial e soberbo quanto a primeira temporada de True Detectives. Confesso que após o primeiro inesquecível episódio, cheio de silêncios e suspense, pensei que a série iria se implodir em um arremedo das velhas tensões e lugares comuns da televisão, disfarçado com a sofisticação da lentidão de uma ótima fotografia, e questionei o gosto de colocar o personagem de John Turturro (um ator sempre excepcional!) com uma característica repulsiva como a grotesca alergia desfigurativa. Mas a partir do quinto episódio, a obra assume status de obra-prima: é tudo soberbo, atuações, enredo, diálogos. E a última cena da temporada, a última cena, é belíssima e comovente. A grande série americana traz também uma marca registrada: consegue limpar a alma. Estou agora assepsiado pelo contato da grande arte.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Topografia ( tipos brasileiros comuns)



Um colega de trabalho me mostra, orgulhoso, um vídeo pelo celular em que ele filma seu filho de dez anos com uma jiboia enrolada no braço. Estavam indo para a fazenda, se depararam com a cobra, ele parou e obrigou seu filho a pegá-la. É nítido a cara de terror do menino, enquanto fala "chega, pai", e o pai admoesta: "deixa de moleza home". Mais tarde fico sabendo de um amigo que ele faz esse tipo de disciplina radical porque teme que a voz fina do filho não seja apenas um traço da idade.

Ontem esse colega estava defendendo o Bolsonaro. Eu lhe digo sobre o posicionamento dessa figura quanto à educação dos filhos, que eles devem levar uns bons tabefes para engrossarem a voz, e esse colega me responde: "Mas não é assim que tem que ser? Você não tem um filho homem?" Eu lhe digo que é um tanto estranho ele, um homem negro, defender um racista, e ele me responde, literalmente: "Alguns negros merecem o racismo".

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Hoje minha esposa me relata o episódio que aconteceu na escola militar de nosso sobrinho, o Rui. O ônibus escolar chegou dez minutos mais cedo ao colégio, e os alunos foram barrados na entrada: não podiam entrar tão adiantados. Uma chuva os pega e ficam Rui e seus amigos enfrentando-a diante os portões rigidamente fechados da instituição. A farda encharcada, fora dos padrões da impecabilidade marcial militar, faz com que eles não possam entrar no colégio em definitivo nesse dia. Alguns telefonam para os pais, mas o Rui não tem pai e as únicas pessoas que o podem buscar são a avó, que não pode porque está acamada com labirintite, e a mãe, que não pode sair do trabalho. O Rui, que já foi assaltado e levaram-no o relógio, que é uma criança ressabiada e algo assustadiça, fica rondando pela cidade por cinco horas até dar o horário de entrar no ônibus de volta. Sua mãe paga 150 reais de mensalidade para isso que é tido como colégio público e gratuito, gasta 750 reais por ano com a farda, e mais 500 reais por mês do transporte vendido pelos próprios administradores do colégio. Eu sempre falo para a Dani que não consigo imaginar o Rui nesse tipo de instituição, e ela me diz que sua irmã prefere isso à escola pública convencional, com o tráfico de drogas, o bullying, a violência e a ingerência e a péssima qualidade do ensino.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O quadro em branco na parede

Anselm Kiefer, Heroic Symbols, 1969


Chego ao escritório hoje e tenho que ouvir os mesmos clichês, as mesmas ladainhas, as mesmas ideias fixas e o mesmo ódio que pretende ser debochado. Me resta concordar com tudo, rir e levar na esportiva; não dói nada ser falso, tamanha a minha consciência de que contestar esse muro é não só inútil quanto demasiadamente desgastante. Eu não estou certo, não me ponho nessa situação em momento algum, apenas optei por descartar o máximo de relativismo que me seja possível. Já expliquei isso antes para alguns colegas, mas ou parece que eu é que estou num estágio de fundamentalismo, ou eles é que são incapazes de enxergar algo que não seja o desesperado utopismo. Querem um futuro que não cabe em nossa medida como povo, uma redenção vinda de não se sabe de onde. A vingança que estão tendo nestes dois últimos dias não lhes parece mais doce; eles esperavam uma catarse completa, uma expiação que proporcionasse a simplicidade inquestionável da dicotomia bem/mal, e não tiveram. Estão em um desbaratino tão delicado que não podem se por como logrados, porque isso destruiria de uma vez as suas já frágeis certezas. Me recordo então do Herzog, um dos personagens do grande Saul Bellow que moram comigo eternamente, ele andando por Chicago se questionando se realmente lera os livros certos e se ao lê-los não fora um tanto preguiçoso, se a verdade lhe escapara. Cogito se eu não estou errado; diante essa malta de pessoas que se regala com o conforto da certeza comunitária, se eu não deveria fazer o mesmo, a história não se avultará para provar que a voz de deus é a voz do povo e eu não passo de um esnobe tolo. Afirmar isso seria jogar no lixo todos os livros de história e toda a impactante literatura política que me passou pelas mãos, eu os entendendo ou não. Capitular seria mentir para toda a minha vida em que me preparei, mesmo não tendo a consciência disso na maior parte do tempo, para a ocasião inevitável em que eu estaria absolutamente sozinho. A busca do esclarecimento não passa disso: se preparar para o momento inevitável em que a solidão o segregará do poderoso senso comum; tornar-se mestre do silêncio. Muitos indícios de que o momento está chegando, e agora eu tenho filhos, uma esposa, agora tanta gente que eu amo que falar não me parece uma boa coisa. Lembro do jovem Elias Canetti na Kristallnacht, quando o terror de estar no meio de uma massa enfurecida ditou todo seu tema de como evadir-se do pecado do coletivismo_ escreveu Massa e poder, uma bíblia e uma vacina não devidamente lida. Lembro do conto A bandeira inglesa, em que um Kertész demasiadamente lúcido descreve a euforia de meros segundos que foi a sarcástica revolução de um carro metralhado com a bandeira inglesa da libertação abortada. Aqui eles estão falando de Bolsonaro, de militarismo; um colega negro chega a falar que certa expressão do racismo é mesmo legítima. E me sobra o orgulho de conhecer uma nova força em mim, a da dissipação, a da não importância, pois espero dar a hora propícia para ligar para minha esposa para perguntar se o plano que fizemos ontem para facilitar o sono de nosso filho de 10 meses, Eric, funcionou: o de colocar um aparelho de som no quarto tocando as músicas que o fazem desmaiar durante a noite: uma partida noturna efetiva às custas de Bach e Mozart, de Mogwai e Explosions in the sky. Não sei até que ponto esse meu desinteresse corrobora com alguma coisa, se isso também não é seguir as massas. Talvez eu esteja me achando ingenuamente astucioso demais.