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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Nu para as chamas de Deus



O velho polemista Alexander Cockburn, provocando o ateísmo às vezes beirando o fundamentalismo de seu amigo Chistopher Hitchens, disse: "um contestador hoje em dia seria alguém que argumentasse pela existência do Ser Supremo". As épocas são cíclicas, como observam muitos, e a concentração de uma força que pretende ser dissuasória à tendência ideológica da maioria acaba por se tornar uma estagnação também mantida pela inércia. O ateísmo culto e superior que é vendido das academias se transformou há muito em uma forma solidificada de filtrar a compreensão através de um só óculo de visão, que é a renitente, combativa, militarizada negação quase a nível de rancores pessoais contra Deus. Me faz recordar uma antiga anedota, bastante sem graça, de um clube de poderosos mnemônicos que por si mesmos não perdiam tempo em decorar piadas e recitá-las para a turma, apenas as diziam em seu números correspondentes: bastava um deles olhar para o outro e dizer 437, e logo se caía na gargalhada ao se recordar a piada rotulada pelo número. O ateu carteirizado chega a um nível de certezas indiscutíveis e proficiência da memória dogmática que pouquíssimas vezes mesmo os melhores deles estão em condições para o debate: apenas reafirmam, em maior ou melhor retórica, que a posição de lucidez em que estão é a única digna de um certo primor cerebral, que para eles, por mais que disfarcem conforme exige a ética interna, é o primor dos seres superiores, dos que estão distintos em altíssima elevação da ralé cega e bestialidade dos crentes. Basta a eles citarem os números correspondentes às suas já em franco processo de enferrujamento ideias feitas sobre seus heróis canônicos, Dawkins, Darwin, o Macaco Antropológico, o Cientista Estoico À Procura da Melhora da Vida Terrena. Assim, o que eles deveriam combater em uma dialética brutal contra as diversas formas de realidades deletérias provindas do uso de Deus por aqui, se transforma em uma infantil e sem sentido luta contra um fantasma, tão cômica que sempre escapa a eles o tanto que, subliminarmente, parece que são eles os crentes, eles os abalizadores da existência de um deus-pai cujos filhos mimados se revoltaram contra. Eles se anulam no que teriam de poder de mudança em uma sociedade globalizada cada vez mais sem uma voz sincronizada contra a bandidagem do igrejismo, ao nunca verem que o que se combate aqui são os homens por debaixo de deus, as organizações ultracapitalistas pactualizadas com dirigentes corruptos de estados sem representações críticas sociais, que se beneficiam obscenamente com os lucros cósmicos dos utensílios deísticos vendidos para a prosperidade econômica do homem médio sem educação, os tetzéis aproveitando da extrema ignorância reinante para vender suas indulgências, suas madeiras da cruz. Os ateus, que na verdade é a mais inofensiva classe intelectual desde há muitas décadas, são raquíticos demais para irem contra as tantas igrejas vilipendiadoras, as leis que isentam essas empresas do medo de impostos e assim promulgam suas legitimidades, os cartéis mafiosos de líderes do pastoreio que a mídia televisiva deixa quieto também por medo ou para a manutenção da homeostase de chantagens e crimes recíprocos entre os poderosos donos de jornais e redes de tv, estes mesmos vinculados intimamente à extorsão gigantesca das igrejas. O que os ateus fazem é colocar cartazes nos ônibus vermelhos de Londres convidando idioticamente para um carpe diem anacrônico, já que deus não existe, um retorno às modas existencialistas e aos anos hippies que em escala mais avançada fecham com bebedeiras eternas em bares e desistência de tomar banho, sexo em praça pública e apreciação da beleza que o acaso engendrou e as atribulações cotidianas vazias nos impedem de ver, isso enquanto o mundo passa por uma de suas maiores crises financeiras e morais, e cujo silêncio em torno deixa intactas as novas igrejas que surgirão para comportar os novos estelionatos aos homens desesperados.


E isso se trata apenas dos erros da única coisa que o ateu consegue ver. Os erros maiores são sobre o que eles não veem. O contestador de Cockburn é um homem culto que sabe, com sua parte inconsciente, que a concepção deísta está por detrás de bem mais coisas que estão por aí e compõe a identidade humana que um rápido olhar discriminatório não conseguiria ver. A simples menção a essas nuances já coloca em febre o ateu rosa-cruz de armas em punho, como se estivesse diante a mais uma enunciação da virgem Maria ou das chagas de Cristo. Nada mais triste que a regra da conduta das pessoas sofisticadas e esclarecidas seja a de descartar tudo que se refere a deus como uma bobagem obsoleta. Essa tendência, que não foi criada pelos ateus mas eles a utilizam como raiz comportamental, é a única voltagem carregada de perigo que o ateu possui, a sua única contribuição de peso, ainda que passiva, para a mudança do mundo. Mas acontece que essa mudança já está em curso, dirigindo-se mesmo para sua conclusão peremptória, e não é nada vantajosa. É sobre a não-conformação à essa mudança planificadora que o Cockburn interpôs o seu contestador que cogita o Ser Supremo. O mundo está cada vez mais acabrestado à moral funcional que sobrou da devastação da procura primordial pela transcendência, a moral do dinheiro e do entretenimento eletrônico que regimenta apascentando toda pulsão contrária de desforra ao moderno sistema escravagista. Com a ausência insensibilizada de deus numa sociedade devotada ao embrutecimento das nuances e à falta de tempo, o que sobra são seres atinados apenas às emergências ganglionares, à evasão da atenção para setores de escapismo que as alimentam sobre os planos imediatos de forma tal que seja menor o sofrimento das horas de engarrafamento para se chegar ao escritório ou à fábrica. É fácil ver que os ateus já são os vitoriosos há tempos, não há motivo para que eles se preocupem com o revide do fantasma. Nada mais determinante para a descrença em sinergismos sagrados do que a incapacidade de comportar qualquer intuição do esotérico em gares de metrô, em grandes avenidas de pistas quádruplas atulhadas da disputa dos modelos automobilísticos do ano, em ninhos de edifício com as letras de aço pressurizado por sobre o exército de homens de terno. A uma mente paranoica seria tentador supor que tudo foi maquiavelicamente pensado para retirar deus da jogada numa violenta assepsia programada, como aquelas histórias da conspiração satânica em que no alto dos edifícios de Wall Street estarem escondidos o número da besta do apocalipse. Mas como disse um escritor americano, há muito que seres espirituais superiores como Lúcifer ou os arcanjos não se preocupam mais com seres tão irrisórios como nós. Nesta solidão de desinteresse redencionista, estamos relegados ao desamparo de nós mesmos. Fomos nós mesmos que empobrecemos as estruturas de todo tipo que nos cercam até um limite intransigente de realidade, até um nível de cinismo em que tudo que esteja além dos reflexos da caverna seja ridículo e infantilóide. Nossa forma mais alta de religiosidade é ditada pela consumação do aproveitamento do tempo em prol de satisfações hormonais puras, desde a hora para se respirar um pouco do cafezinho à busca dos filhos na creche para acompanhá-los na comunhão silenciosa noturna do programa de televisão antes do sono intersticial para um outro dia repetitivo até à medula. Em recente artigo da Le Monde Diplomatique se analisa as consequências das pretendidas novas reformas na semana de trabalho francesa diminuída para 30 horas, se seria realmente positivo para indivíduos embrutecidos pelo relógio ter mais tempo livre, se isso não aumentaria a criminalidade e as taxas de suicídio. Viver para quê?

Entre os contestadores cockburnianos está o filósofo esloveno Slavoj Zizék, que em várias partes proveitosas de seus longos livros sobre a crise utópica da modernidade rendida à unidimensionalidade do capitalismo, faz uma apologia embasada da necessidade do grande Outro. Zizék cita fartamente o grande escritor católico Chesterton, em especial seu livro clássico Ortodoxia. Não é um simples artifício retórico em defesa da alienação consoladora ao sagrado como método social de dominação popular.  Zizék vai fundo na análise do nonsense e da estupidez  contra a inerente disposição biológica humana pelo abstrato que são as correntes de ateísmo organizado. Ou Zizék só é lido por jovens nostálgicos dos movimentos revolucionários da memória de seus avós e pais, ou é lido insuficientemente pelas academias, pois nunca se menciona o caráter dele para o debate ateu, sendo um disparate colocá-lo no mesmo nível que Dawkins e Hitchens, em posição contrária. Certa vez me disseram que Zizék não era a pessoa certa para falar sobre a procura por Deus, como se houvessem universidades milenares que detêm o conhecimento secreto do Nada aproveitada apenas para credenciados. Me vejo pensando na questão epistemológica de que tudo que se produz ideologicamente pelo homem, na arte e nas ciências e em qualquer outro campos, é o resultado da procura por Deus. Me confrontei com isso quando lia ontem o maravilhoso e indispensável livro de George Steiner intitulado Tolstói ou Dostoiévski. Abaixo, um excerto do livro de Steiner.

"O nó da questão é, como em qualquer questionamento maduro do enigma da linguagem e do significado, teológico. A desconstrução reconhece plenamente essa verdade quando postula que os marcadores semânticos só poderiam aspirar ao sentido estável, à intencionalidade, se fossem subscritos por alguma origem ou autoridade final, transcendente. Não pode haver, para o desconstrutivismo, pós-estruturalismo, pós-modernismo, tal garantia. Em Presenças Reais (1989) argumentei que uma aposta pascalina na transcendência é o fundamento essencial para a compreensão da linguagem, para a atribuição de significado ao significado. Essa aposta, além do mais, caracteriza implícita ou explicitamente a grande arte e literatura desde Homero e Ésquilo quase até o presente; ela por si só nos permite "fazer sentido" da música. Os clássicos, as obras de literatura dominantes na modernidade, são "religiosos" em sentido específico. Eles vinculam a questão da existência ou não-existência de Deus. Apesar dose exemplos serem bastante raros (Leopardo, Mallarmé), um ateísmo consequente pode produzir imponentes alturas de visão. A alta poesia e arte podem ser construídas construídas a partir da "morte" ou ausência do transcendente. Como pode, e espantosamente tem sido, das diversas ordens de confronto com a possibilidade da "presença real" de Deus. O que me parece condenar a imaginação questionadora, o poder da forma significante, à trivialidade, é o abandono da questão da existência ou não existência de Deus ao absurdo semântico, a algum jogo de linguagem infantil que não é mais relevante ao homem.  

Somente quando terminei Presenças Reais me dei conta de como esse argumento já havia sido inevitavelmente colocado trinta anos atrás. Tolstói ou Dostoiévski procura mostrar que a estatura desses dois romancistas é inseparável do seu engajamento teológico. Se Anna Kariênina é, como Henry James percebeu, algo "tão maior" do que até mesmo Madame Bovary, se Os Irmãos Karamazov excede de maneira tão formidável Balzac e Dickens, a razão é a centralidade para Tolstói e Dostoiévski da questão-Deus. Por sua vez, o que torna legítima a afinidade de Tolstói com Homero e Dostoiévski com Shakespeare é uma intimação compartilhada das realidades, individual e coletiva, física e histórica, além do alcance do empírico. Para ambos os mestres russos, assim como para Pasternak e Solzhenitsyn depois deles, a assunção de D. H. Lawrence de que, para ser um grande artista ou escritor era preciso se ficar "nu para as chamas de Deus" (ou do não-ser de Deus), era auto-evidente. O constante recurso de Tolstói ao mysterium da ressurreição, as figurações de Dostoiévski de um niilismo apocalíptico, são simultaneamente atos incomparáveis de concepção narrativa e dramática e de filosofia religiosa. Esse livro evoca as afinidades profundas entre a realização russa e o cenário teológico em Hawthorne ou Melville."

Texto com comentários aqui.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Nota sobre A história do pé, de J.M.G. Le Clézio



No filme Nostalghia, de Tarkóvski, um homem amargurado pelo exílio tenta repetir a ação obsessiva de um professor louco: atravessar uma extensa piscina vazia equilibrando uma vela acesa nas mãos, sem deixar que a chama se apague. A cena demora bem uns dez minutos, em completo silêncio, enquanto o homem retorna e refaz seu propósito um sem número de vezes, toda vez que um vento vem apagar a chama no meio do caminho. O espectador que acompanhou o filme até aqui sabe que a pensão italiana onde o homem deambula está em decadência, sem hóspedes e à espera de um sinal de desistência para que nela se instale todo o peso devastador do tempo, sabe que o professor morreu ateando-se fogo em um flagelo público e que na verdade o homem repete seu gesto em uma versão muito mais simples, visto que o professor atravessava com a vela acesa uma piscina cheia de água e de turistas beberrões e escandalosamente histriônicos. O núcleo dessa belíssima metáfora tarkovskiana é a representação da fagulha não adulterada da persistência humana em um mundo onde todos os caminhos levam à corrupção, à loucura e à dor, todas essas entidades organizadas em apagar o que resta de lucidez em um espírito absurdamente desacreditado. Toda obra de Jean-Marie Gustave Le Clézio, esse inigualável escritor franco-mauriciano, tem como eixo a incompatível mas incrível força real e desprovida de eufemismos poéticos que vem da fragilidade, se aproximando daquele outro memorável discurso de Stalker que diz "a dureza e a força são atributos da morte; flexibilidade e fraqueza são a frescura do ser". 

Os livros de Le Clézio, assim como os filmes de Tarkóvski, sempre me fazem restituir uma espécie de muito antiga consciência sobre a abrangência da arte, o que me faz deitar por um momento o livro no peito_ ou dar pause no filme_, para buscar mais fundo a origem desse pressentimento e firmá-lo melhor em seus contornos metafísicos. Lendo, por exemplo, o conto História do pé, de Le Clézio, semana passada, me veio uma quente sensação do que, já em minha infância como leitor, eu intuía ser a religião comunitária onde se juntam os retratos mais puros do homem, em toda sua nudez e crueza, e que essa arte, ou esse reservatório de informações seculares, é algo tão visceralmente verdadeiro e superior, que são poucos os escritores atuais, afogados em um urbanismo cibernético sobre-humano, que conseguem perceber e usar isso. Aliás, no afã de uma originalidade que lhes deem maior aceitação nesse mundo sintético, muitos escritores e artistas fazem é fugir o mais distante possível disso. Por isso que quando eu leio um autor tão antigo, tão sintonizado com o sagrado da solidão humana, como Le Clézio, o estranhismo quase inóspito de sua escrita me faz ter essa sensação de aproximação de algo esquecido, através do pressentimento, o que talvez seja um paradoxo pois pressinto algo que já conheço mas que a obtusidade cotidiana me apaga da memória mas não da alma. Le Clézio me informa retardatariamente que eu tenho uma alma, nessa altura do campeonato que saber disso parece não trazer nenhum benefício. História do pé é um recado sobre o que continua quando as máquinas travam, os índices econômicos despencam nas reviradas fatais dos começos de século, a imunidade passa a não ter mais nenhum escudo científico contra as doenças reformuladas pela engenharia do acaso, as saudades e as paixões são queimadas esquecidas nos álbuns de retratos; e tudo contado na mais simplória história de uma moça que engravida e insiste em ter o filho apesar da miséria, do abandono e de toda a incompatibilidade.

Dói ver o quanto é intenso em sua absoluta leveza esse conto, dói ter que ver de um autor que já ganhou o Nobel e poderia muito bem estar escrevendo o trivial elegante um texto tão reafirmador, tão desarmadoramente humano, tão ele mesmo crente em sua unicidade solitária de ter um alvo comburente do outro lado da página, na presença do leitor que se emociona, que se transforma. E Le Clézio já fez isso antes, muitas outras vezes, no romance da quarentena que é de um nível de beleza sobrenatural_ e note: Le Clézio não é um poeta, não tem o ranço da poesia vernissagem_, naquele começo da história sobre sua mãe em que dos vaticínios médicos protecionistas do homem saciado moderno ele fala do quanto a fome fazia com que se desejasse encher a boca com os cristais acinzentados do sal, e dava sede de gordura e vontade de beber o óleo das latas de sardinha. O que mais assusta em Le Clézio é que seus personagens jamais brincam de existir, jamais acalentam o prêmio da vida por esse desgaste suntuoso do enorme benefício passageiro oferecido; jamais são suicidas, por mais que sofram e são confrontados pela história e pela natureza, por mais que sejam diminuídos a um nível de ruído ruinoso pelo furacão que devasta do lado de fora de suas peles (e todos não possuem nada mais de patrimônio do que suas próprias peles). Eles existem, não brincam de existir. A verdade incontornável de poderem tocar esse mundo com os sentidos os posicionam acima das teorizações tanto do desespero quanto das espiritualidades vendedoras de esperança: eles próprios em sua carnalidade são o Espírito, ancestral, indeterminável e não conceitualizável, vagante em sua pobreza cheia de inesgotável mérito; não precisam de instituições lhes dizendo como é que se vive: eles vivem. E digo eles por uma armadilha de encadeamentos sentenciosos da língua portuguesa, porque a maior parte é de mulheres, Le Clézio povoa sua obra de mulheres_ os contos de História do pé tratam cada qual de uma mulher em determinado momento e geografia do globo. Leio não me recordo onde que o homem moderno vive simulacros de situações verdadeiras: o pai, por mais que ame seu filho, finge ser pai, talvez mesmo pela adaptação à sobrevivência das condições da paternidade a um cotidiano de trabalho que o priva da presença do filho: assim, na omissão involuntária, ele finge através das creches, dos solilóquios à mesa de jantar, dos parques do domingo, que se investe de uma paternidade imaginária que a soma rejeitada de suas negligências desmente.

Ujine, a mulher do conto de Le Clézio, é um axioma de permanência que repete aquela frase de Rosa de que um menino nasceu_ o mundo tornou a começar. É um estudo sobre a fragilidade confrontadora e o equilíbrio feminil: o professor de Nostalghia conservava sua chama humana intocável diante a sevícia, mas se deixou queimar pelo excesso de lucidez. Ujine, levando ao término a sua gravidez, dá o nome à filha de Eulália, o nome do feio mato chinês invasor tido por todos como praga que ela via nos campos de Londres e que a restituía à verdade de que não sabia nada, mas que o poder da sua onisciência bastava.

domingo, 12 de julho de 2015

O dia mundial da resignação



                                                             Texto com comentários, originalmente publicado aqui.

Vai parecer esperança, mas não passa da velha resignação. Hoje acordei com vontade de dar um basta em todas as reservas. Acordei de um sono completo, com quarto envolvido nesses escuros absolutos que me dão anseios de procurar algum indício de luz de que não esteja cego, com um lençol macio, com o travesseiro usual entre as pernas e o outro caído manhosamente de lado, sem uso. Foi um sono reparador, sem sonhos, e por isso não teria motivos que de súbito, agora pela manhã, diante o computador, eu fosse assolado por esse gigantesco tédio. Faulkner está errado, pensei, Faulkner é um fingido; como acreditar que o homem sobreviverá?, como acreditar que o homem é bom? Vai ver é porque meu trabalho de ficção não me esteja parecendo nada promissor; palavras de mais, adjetivos que não se desgrudam de mim, advérbios que escondem a obstrução de uma coisa genuína. Leio o que escrevo e parece que sofri uma involução, voltei a escrever com aquela paixão adolescente sem consequências do colegial, que só cativava por procuração professoras piedosas, que queriam elas mesmas brincar que acreditavam que algum de seus alunos levavam a promessa. Um analfabetismo no final das contas. Vontade de desistir; a felicidade está mesmo na música perecível; vontade de ser um cantor sertanejo, vontade de me assumir da forma mais franca possível que não tenho nada, ser canalha de cara limpa e acolher os dividendos da onomatopeia. Criar uma musiquinha para celular, se isso ainda é viável. Vontade de ganhar um prêmio acumulado na loteria federal, e gastar ostensivamente o resto de vida jogando para todos os desafetos a arte da corrupção na prática, e não tentar fazer isso através do placebo pobre da escrita. Ser um Edmund Dantés que inventa a sua própria vingança, vai criando-a no momento em que faz dobrar diante de si os joelhos dessa criaturinha levianamente vendível que é o homem, esse homem que o bêbado Faulkner, mal se aguentando em pé no palanque do Nobel, mentiu acreditar.

A minha vontade hoje é ser desbragadamente ingênuo, não me proteger contra nada. A eterna proteção exaure. Dá vontade de, de uma vez por todas, me resignar diante esse otário cibernético, máquina, presidiário ou quem quer que seja, que todos os dias, infalivelmente, deposita em minha caixa de e-mails inúmeras tentativas das mais idiotas extorsões. Aumentar meu pênis, receber uma bolada de um milhão de dólares, enviar auxílio para algum senhor de cômico nome mutante entre indiano e angolês, encontrar aquela garota ninfomaníaca que me descobriu e me envia notificações lúbricas de imediata intimidade, requerer meu prêmio (mais uma vez, que sujeito sortudo eu sou!) na loteria inglesa (!), comprar um imóvel promocional em Recife, ir a uma festa literária para a qual me convidaram com honras (até isso!). Vou abrir esses e-mails e vou seguir diligentemente cada passo exigido por eles; chega. Hoje é meu dia da resignação. Vou assistir a esses programas de adivinhas que passam de madrugada na tevê aberta, e ligar para o número embaixo, mesmo sabendo que o programa é gravado, para exigir meus 150 reais, e quando me atrasarem de propósito com musiquinhas de Kenny G., ou gritarem em meu ouvido que tem novos enigmas que podem aumentar o dinheiro, vou esperar com paciência, até que a tarifa do "serviço" telefônico ascenda aos 4 dígitos e eles me façam perder, "ahhhh, lamentamos que você não tenha visto quantos dentes tem o desenho do bode; da próxima você leva". O que pode acontecer comigo? Perdas econômicas? A vida não é isso, além de todo retumbar dos bumbos da filosofia de boteco? Que eles me roubem. Quem sabe a verdade esteja na profunda desproteção; quem sabe Faulkner tenha visto com sinceridade e seu texto adocicado do Nobel seja canalha por osmose da falta de consolo cotidiano. Se essa entidade se esforça tanto para me enganar, se esforça religiosamente para isso, se em sua distância ela só pense no serzinho passível de vilipendiação que eu sou, há nisso uma forma evoluída de amor. Dizer assim provoca até arrepios na nuca, mas, no fundo no fundo, qual o argumento contrário? Vou agora mesmo responder à Samantha, que tremula com os seios voluptuosos quase para fora do top de ginástica na tarja ao lado da caixa de e-mails. Oi, estou vendo que você mora em Goiânia, a mesma cidade que eu, e, quem sabe, poderíamos nos encontrar para um drinque. Mas não sei se vou conseguir me conter com você! Me digam, por que não acreditar nela? Mesmo que eu tenha a absoluta certeza de que é um computador que me joga essas frases pré-formuladas e que um nível de tesão tão engajado às oito da manhã de uma terça-feira é algo que nem os anjos de Jó seriam capazes, mas... considerem o altruísmo que fundamenta a coisa, a fé de quem planejou, as horas de trabalho que nada devem à concentração e o abandono de um cientista diante sua pesquisa, ou o compositor diante sua partitura. Oi Samantha, como vai? Não moro em Goiânia, mas posso chegar aí em uma hora e meia, é só me dizer que horas que é o encontro. Obrigado por ser tão atenciosa, mas acho que exagera em seus elogios; não sou essa tentação física que você acredita ver; tudo não passa da generosidade de seu olhar. Mas devo avisar que eu é que fico um tanto assanhadinho depois de alguns drinques, ainda mais diante uma loira monumental como você. Minha conta bancária? Lá vai... 

Me recordo de não sei qual estoico, se na literatura ou na vida real, certa vez disse que era um encanto que às vezes um beija-flor viesse lhe atazanar as orelhas ou ficasse com o bico próximo a seu ombro; "não é enternecedor que um animalzinho destes te elogie ao confundir você com uma flor?" Claro que não sofro de uma estrondosa carência desse porte, mas hoje estou disposto a considerar que a ternura sofre uma brutal evolução. Não é enternecedor que um programa estelionatário na corrida louca da vida moderna escolha aleatoriamente você como remetente de todas as horas de zelo de quem o criou? Quando eu for me encontrar com a Samantha na capital hoje, vou sentir mais uma vez isso, como sinto a cada vez que tenho que enfrentar uma cidade grande. A vontade de assassinato que existe por trás de cada buzinada. Uma vez fui de carona com um amigo; ele parou diante a garagem de um prédio o tempo suficiente para retirar as malas do bagageiro para que sua esposa descesse, e um senhor esperou dentro de um carro do outro lado da rua, com elegante parcimônia, para poder entrar na garagem, até que esse amigo entrou no carro e deu a partida; então, o senhor começou a xingá-lo, filho da puta, caipira, vai tomar no cu seu bastardo, seu corno. O senhor fez isso com um ódio tão puro que o que antes era sua completa inofensividade invisível da qual eu nem reparara, agora eu o via como um guerreiro tribal psicopata que iria de uma hora para outra retirar uma pistola do porta-luvas e nos transformar a todos em estatística. A fuga da estatística no mundo moderno é nossa atual forma de ternura, me diz a voz de meu bêbado interno especialista em filosofia de caneca. E como fazer isso senão através da única coisa que sobrou de um depauperado aprendizado de amor ao próximo? Através da catarse do trânsito, ou da carranca no elevador, ou da virada de rosto em negação no shopping, ou da desconfiança esquizofrênica nas filas do banco da qual temos que nos comunicar em silêncio eloquente o quanto somos unidos no respeito sagrado em não tentarmos furá-la. Um dia, quando minha esposa passava por uma convalescênça logo após uma cirurgia cardíaca, eu resolvi aliviar a tensão inútil da espera indo à livraria de um shopping próximo, e na fila do caixa, onde eu via que havia apenas eu, um sujeito cortou vindo de não sei de onde por mim me dizendo que não iria aceitar que eu passasse na sua frente, ah, isso não!, eu pensei que se eu fosse um cidadão daquele mundo, seria lógico meu agradecimento por ele me oferecer daquela forma um calor humano de consolo, por mais estranho que tenha sido tal contato. Se não nos matamos após a buzinada e o xingamento, é porque nosso amor era legítimo, pois fugimos à estatística. Não seria impossível que o senhor e meu amigo se sentassem no final do dia para uma cerveja, e começassem uma forte amizade. Um dos personagens de meu romance despirocado é um conceituado especialista em Marx que deixa, de hora para outra, sua cátedra em uma universidade alemã e parte para um povoado esquecido do Caribe, e que mais tarde se descobre que seu desaparecimento aponta para a coincidência do surgimento das mais populares canções valenatas do rádio. Há um longo discurso com sotaque carregado de como tudo o que ele ambicionara no campo da escrita erudita se cumprira na composição das músicas banais de refrão fácil e que só falam do único sentimento que ainda traz um pouco de perseverança: o amor. Ele era um importante mantenedor da perseverança biológica da espécie, ele se julgava orgulhosamente um promulgador do equilíbrio social. Mesmo que houvessem facadas de bêbados nos bares dos povoados, sob o som de suas músicas, mas isso era a natural exacerbação que vem com derivativos da homeostase. A estatística não conta, a estatística é a mentira séria de uma derrota que nunca virá, que só existe no papel. Blá-blá-blá.

Por isso hoje minha vontade de cair em todos os engôdos, sem me sentir humilhado. Acessar os links sobre as ditas "celebridades", e confiar que elas são mesmo divinatórias. Fazer um mapa cabalístico das trivialidades delas e ver nisso um plano profundo da providência.

domingo, 3 de maio de 2015

Em outro lugar



A verdade para Tarkóvski nunca é um fim alcançável, uma possibilidade de satisfação consciente que permita uma harmonia mediadora entre o tempo em que vivem os personagens e o tempo do mundo que os cercam. A verdade para Tarkóvski é sempre um sopro incognoscível, presciente, cuja grandeza alienígena não se presta sequer à intuição da loucura; está além e em volta de tudo mas a uma distância contraditória que é ao mesmo tempo friamente indiferente e gestativamente vigilante; sua efemeridade insuportável faz com que os heróis tarkovskianos que existem para a tentativa obsessiva de alcançá-la procurem ficar de frente para onde sentem que sua força emana, o que, em decorrência, faz com que eles não sejam mais deste mundo, abdiquem de compartilhar a velocidade do dia. Por isso, diante o inominável inexequível, os personagens de Tarkóvski são apresentados como paisagens internas, são largos panoramas desérticos, imensos silêncios, uma fremente e budística imobilidade, e assim sabemos quais os materiais de uma angústia cósmica compõem seus puros mobiliários espirituais, podemos viver em eterna lembrança retardatária em suas companhias dissipadas por não conseguirmos mais retirarmos de nós aquelas arquiteturas descomunalmente vazias e absurdamente belas. 

Assim, em Nostalgia, o herói exilado na Itália é uma pradaria russa em que vivem em eterna e inapreensível felicidade a família que deixou para sempre, e uma catedral inacabada com colunas magníficas que sobrepõe ao primeiro ambiente; o professor louco, que mantinha em cárcere privado a esposa e os filhos para protegê-los da fúria do mundo, é uma casa escura e em ruínas, com infinitas goteiras, úmida com água represada por toda parte, com uma porta inútil que abre para o mesmo lugar no meio da sala, e também uma praça na cidade onde ele prega a revolução do alto de um andaime para uma multidão congelada e sem vida. Mesmo os personagens secundários são vestígios de uma partida, a importância que suas simploriedades limitadas revelam em estarem apenas na materialidade do presente é carregada de uma falibilidade fóssil, pois os vemos no continuum temporal em que existiram e desapareceram para sempre, são fímbrias da lembrança, às vezes fagulhas de luz veranica constrangedoramente felizes; é o caso da belíssima mulher que acompanha o herói de Nostalgia, para a qual suas investidas se batem contra a total abstração e desinteresse deste, sua total indiferença às jogatinas sexuais dessa rasa faixa da realidade. Vemos a beleza saudável, plena, exsudante dessa mulher de Botticelli, sua juventude clamorosa, e por um momento pensamos no peso da perda de possibilidades lenitivas que poderia recair sobre o herói; mas então a mulher de Botticelli aparece longamente, o foco em seu rosto angelical cuja tristeza da rejeição é mais um acréscimo à armadilha, e vemos a deterioração acontecendo em sua lentidão irreversível; vemos uma papada incipiente e a ressequidão da pele, as marcas feitas pelo efeito colateral da corrente de tantos pequenos e acumuláveis sofrimentos de se optar em viver no pragmatismo degradante dessa terra; vemos os hormônios e a química intranscedente agindo em seu poder inexorável que corrói sem piedade a lâmina fina da efemeridade encantatória. Tanto que essa mulher, quando desiste com furiosa zombaria do herói, retorna à sua paisagem interna, mostrada em um escritório de alguma repartição pueril, em que um gordo homem de terno sentado a uma mesa passa para um outro burocrata emaciado pela corrupção um maço de dinheiro.

Os ambientes dos filmes de Tarkóvski tem sempre paredes calcinadas, um ar sépia devastador que ressalta a solidão, como se isso tudo fosse um dos efeitos desse sopro salino, radioativo, da verdade. E o impacto é que essa verdade inaudita consegue ser passada para o espectador, no modo como Tarkóvski divide a impossibilidade efetiva de sequer podermos ver os contornos das sombras que ela provoca.

Postagem original aqui.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Três monstros



Não se pode condenar o tom apologético de Melville em Moby Dick. O evangelismo primitivo desse livro não é mero ornamento inevitável vindo das crenças pessoais do autor, mas sua própria base de sustentação. Dizer "evangelismo" em referência a uma obra composta na mais alta esfera esotérica é incorrer no risco de cair no esteriótipo de estupidez massificada que tal termo com toda razão possui nos dias de hoje. Moby Dick tem a mesma visceralidade sensual que os grandes pastores de almas tinham no tempo em que foi escrito; tem essa mesma ingenuidade poderosa que expressa uma lucidez ilimitada que Borges disse ser o mote dos fundadores de religiões, tais como Whitman e Emerson, Blake e Swedenborg se aproximam de serem fundadores de religiões. Há tanta exultação adâmica em Moby Dick que é impossível ao bom leitor que este ainda fique atolado com os pés na realidade cínica e ultra-material corrente; é impossível que ele não seja abduzido pelo supremo convencimento dos símbolos e da loucura do livro. D. H. Laurence, no ensaio que acompanha minha edição de MD, condena o Melville humano com seus pecadilhos de afetação e sua seriedade pedante que hora e outra submerge o artista pleno, e diz que quando essa parte humana desaparece e ressurge com toda força o artista magnífico ninguém é páreo para Melville. O artista magnífico já nos arrebata na primeira página, seguindo adiante nas tantas anedotas e retratos de homens que vivem em uma dimensão peripatética contrária a toda sociologia; o artista Melville se mostra de forma solitariamente precoce sua localização em um tempo muito à frente dos outros grandes escritores do período, em sua decisão chocante de tratar do tema fundamental utilizando um quase infantil enfoque em um monstro marinho. Pode-se mesmo ouvir as consciências críticas que menosprezaram por completo MD durante quase meio século se justificando pela desfaçatez de Melville em tentar arrombar o tema fundamental não pelas portas usuais e mais prementes, não pelas revoluções ou guerras, ou pelos vícios urbanos, ou pelos assassinatos, pelos adultérios e a decadência de grandes famílias, mas, inusitada e autisticamente, através da figura colossal da baleia branca e de seu universo náutico específico. Melville antecipa os célebres escritores autistas ao colocar na boca de seu narrador o desejo de que fosse aceito no navio baleeiro apenas para ficar em seu canto pensando em nada, divagando sobre os significados filosóficos da vida, imolado da escala produtiva e tolerado com saudável indiferença. Melville viu tão mais peculiarmente longe que seus compatriotas das terras espirituais da escrita que foi o fundador de uma forma de dissipação preguiçosa que teria sua importância política impactante na imagem da nulidade humana do século XX na opção pela não-coaptação. Em sua época, ficou para trás do caos urgente e das incendiárias insurgências na literatura das transformações políticas que se viam em Stendhal e Dostoiévski, apenas para sair de sua hibernação anos depois para ser um tipo de criador moderno que sobrepôs-se a todos os outros com seu ineditismo em criar a baleia e, de forma mais revolucionária, esse personagem de profundidade inaudita que é o escriturário Bartleby. D. H. Laurence está enganado, pois quem criou uma figura como Bartleby jamais poderia falar do púlpito a não ser no idioma elevado de Emerson e Whitman.

Por isso Moby Dick tem um evangelismo transbordante de felicidade, a felicidade do louco de deus que abandona as convenções de uma sociedade em franca atrofia para confrontar o terror divino. Surpreendi-me por nunca ter lido esse termo antes, terror divino, que contudo parece tão óbvio. A baleia é a forma como esse terror divino, que por centenas de páginas vinha sendo abordado pela tangência, se corporifica na nudez da linguagem, e, para exorcizar o perigo do cinismo, daí a preparação toda de Melville em utilizar de um tom talmúdico grandiloquente. Sua grandiloquência não tem cinismo, mas tampouco tem a moral da visão evangélica de Tolstói. Laurence aceita a generosidade de que Moby Dick atinja todos os símbolos profundos de representação; aceita que a baleia seja Jesus, sem contudo abalizar com uma mera observação os riscos simplistas de apanhar a coisa somente por aí. Pois a presciência do criador de Bartleby nos dá também na imagem da baleia os símbolos inevitáveis do frenesi dos que pertenciam à grande nação americana quando ela arrebanhava em êxtase as características mais melífluas do império futuro, oferecendo a inspiração de perceber a queda. A baleia, vinda da mesma mente capaz de escrever sobre Bartleby (esse superior personagem que paira diretamente sobre Kafka, Musil, Joyce, Faulkner e Walser), traz a insinuação aráutica do monstro que está no final da estrada de todos os sonhos, da deformidade imperceptível mas frutificante que serve de sustento para todas as telas da liberdade. Talvez por isso o monstro seja durante todo o romance uma prefiguração, uma música indistinta escutada sempre ao longe, nunca palpável, nunca manifesta em suas linhas reais terrenas, nunca abarcável. Por isso o tom místico e sonhador, que vem por detrás de todas as tendências doutrinárias da voz de pastor de Ishmael, seja o personagem verdadeiro de Moby Dick. Por isso a tolice da leitura lânguida dos que acham que os diversos capítulos preparatórios sejam chatos e vagantes, infelizes surdos à retumbante poesia de Melville, à sua canção angustiada de tanta necessidade pura de enlevação. O monstro de Melville é o terror divino em estado puro, devastador em sua infinita indiferença que perdura por sobre todas as pequenas intenções humanas, mesmo as transvestidas com os contornos trágicos seculares da vingança, e sendo essa indiferença a raiz do motivo de todo o romance ser contaminado com essa alegria de um suicídio sagrado, de uma emancipação através de uma forma do Nada jamais passível de definição.

O monstro de Melville é tanto Cristo, quanto a América, quanto a Revolução, quanto a alma humana em seu esplendor de busca altruística mais nobre. É espantoso que não haja nenhum texto de Borges sobre esse romance, Borges que era tão sensível a esse tipo de percepção alienígena senciente. Moby Dick ainda é e continuará sendo por muito tempo o grande romance subestimado, aceito no cânone por sua estatura inequívoca mas nunca realmente percebido sem que seja dependente de seus penduricalhos geográficos de ser o grande romance americano. Como se esse que é o maior dos romances esotéricos pudesse ser mutilado com interpretações ufanistas.

Ele deve ser lido em escala contrapontística causal aos outros dois grandes monstros que derivaram do Cristo-baleia e da América edênica-baleia de Melville: o Old-Ben, o urso exilado e cansado de glória assassina de Faulkner, e Calígula, a águia caçadora de iguanas de Augie March, de Bellow. Old-Ben, o único ser verdadeiramente incorruptível fora do reino dos homens escassamente povoado de homens incorruptíveis, já escoou há tempos seu terror divinatório, sua fúria deística ilimitada, sua indiferença selvagemente elegante por tudo que não fosse força e assassinato; tornou-se, hereticamente, um animal velho carregado de medo, cujas últimas ações é a dança desesperada para incutir terror aos filhos e netos de seus antigos inimigos abatidos por ele quando ele era jovem e cheio de uma saúde monástica, a dança para ser deixado em paz. Old-Ben, contudo, ainda é temido por seu passado de glória, por sua exuberância violenta, mesmo todos sabendo que não passa de um pobre ancião querendo arrego; e por isso, seus caçadores incansáveis, herdeiros dos antigos caçadores fracassados cuja moral fora abatida pelo urso, arranjam todos os estratagemas possíveis para destruir o que resta do antigo Monstro, de seu potencial religioso residual. E os novos inimigos de Old-Ben apresentam todos os evidentes sinais de que os novos tempos em que o monstro purga o final inglório de seus dias é destituído por completo de qualquer distinção da antiga nobreza: o cão gigante é uma simples fera bestial, sem inteligência, sem dignidade, sem porte, tanto que sobrevive entre a corrente de seu ódio irracional trancado em uma cela escura, sem vistas para o exterior. Todo o mundo externo a Old-Ben sucumbe à evanescência absoluta de sacralidade: acaba-se o terror divino e acaba-se também, com um suspiro elliotiano, tudo o que antes revestia a simplicidade objetiva de milagre e religiosidade. A última vingança, então, ainda é de Old-Ben, a derradeira vitória ainda parte dele, pois de sua juventude vinha o caráter dinástico das grandes famílias americanas que então levavam o selo de poderem andar pelos campos do Senhor como beneficiários legítimos da criação, americanos genuínos com céu e terra ilimitados, sem apreensões de posse e sem serem vítimas da inclemência das labutas para a povoação do Éden lhes outorgado. A novela de Faulkner é impregnada de notas de compra de armazéns e títulos imobiliários que serviram a povoar a aldeia americana, numa arqueologia que só é pueril na ardilosidade genial de Faulkner que consegue fazer dessa páginas um epitáfio da força redencionista abortada pelo sucumbimento do homem à tentação de nomear as coisas, de dar seu nome à terra, de promover cercas e decretar-se proprietário. Old-Ben é o empobrecimento da baleia quando os heróis possíveis para um novo mundo se restringem a não irem para o mar, quando os heróis se instalam na terra segura e deixam para lá os grandes poderes da dissipação e do ócio. Old-Ben é o Cristo institucionalizado e sublevado de sua aspereza de absoluta liberdade, corrompido pelas igrejas formalizadas pela sustentação do lucro, da política cartorial que cria castas de escravos a serviço da propriedade, e da economia eunucoide que transforma filósofos caçadores em obesos fuxiqueiros sentados nas escadas dos armazéns ao final da tarde. Old-Ben é a nova américa sem nada de novo, em letras minúsculas, o cumprimento do previsível.

Bellow fecha a tríade. Se Old-Ben ainda era capaz de oferecer certa distinção com sua decadência, certa lembrança dos antigos sonhos de dignidade, a águia bellowiana esvazia Moby Dick com a mera transformação na paródia. Não há mais Cristo aqui. Nem monstro a águia consegue ser, empoleirada na caixa de descarga de um pequeno banheiro de uma vila perdida mexicana. Quando ela é levada a testar seu terror divino, a magnificência e larga nobreza de suas asas, na caça da iguana, ela simplesmente despenca no chão sobre o rastro do réptil em fuga vitoriosa, tal qual um comediante em um filme pastelão. E fica piedosamente murcha em seu canto, ciente de que não tem nada.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Fantasmas de ocasião



Eram dois velhinhos muito velhos. Eram tão velhos que olhá-los desmerecia qualquer pensamento de continuidade, como se ficasse claro na mente do observador que o momento ocupado no tempo e no espaço por eles era tão indelével que já no outro dia eles não teriam o direito de estarem na memória imediata. E foi assim que desapareceram por completo da minha memória, após ter transcorridos uns dois meses da minha juventude em que os via descendo no elevador quase todos os dias, com suas surpreendentes caras estereotipadas de judeus sefarditas itinerantes, vestidos de  casacos cinzas e com absurdos sacos pesados nas costas. E voltei a pensar neles por algum remanejamento do olhar ontem no apartamento de minha mãe, quando observava pela janela o pátio de estacionamento dez andares abaixo, com seu falso ar de abandono que a chuva contínua outorgava ignorando os tantos carros em placidez imóvel estacionados por sobre os números das vagas. Lembra daqueles dois velhinhos judeus muito velhos que moravam, acho, no sétimo andar?, perguntei à minha irmã. Ela olhou pouco abaixo do teto, enquanto arrumava o zíper da bagagem a ser levada para um congresso em São Paulo, procurando pela lembrança, e só repetiu velhos muito velhos no lugar da negativa. Descrevi-os por alto, a excessiva educação quando me viam entrar no elevador, uma subserviência pungente de abaixarem as cabeças quando eu perguntava se me davam licença para entrar, que eu passei a sempre perguntar para apreciar novamente seus sotaques de deserto e suas inflexões gnômicas em dizerem em suas costuras de português, poir favor, entrre, esteje a vontáde. Eram tão educados que me passavam a impressão que queriam se livrar de mim o mais rápido possível, uma humildade de foragidos que ofereceriam o lombo para serem deixados em paz, com o cimentado contentamento dos sobreviventes que se adaptaram à invisibilidade. Quando eu entrava eles se calavam por completo e mantinham as cabeças baixas; dois irmãos cujas dessemelhanças se evidenciavam por debaixo da linha de uniformidade das roupas cinzas, da fragilidade cujos sacos pareciam ir quebrá-los em diversos fragmentos. O mais novo transmitia a pureza desnorteada dos idiotas da família, tinha olhos vesgos que exumavam um tipo de docilidade oriental que era o suprassumo da inocência. Como um comerciante sobrevivia com aquela aparência?, eu pensava, e um comerciante com o gene da astúcia judaica! Talvez fosse o poeta desmerecido, a ovelha negra. Por isso, por ter que chamá-lo às honras do sangue, que seu irmão_ um tipo enfezado com olhos aterrados no solo insofismável da realidade_ sempre lhe passava as mais cortantes reprimendas, que eu presenciava em esporádicas ocasiões em que os via nas ruas próximas ao prédio, eles estando certos de terem desaparecidos no ar e seguros dos olhares alheios. Não, definitivamente eu não me lembro deles, minha irmã disse.

Na janta, lembrei-me de tascar essa pergunta à minha mãe, completando a descrição do segundo irmão com rompantes sensíveis que sempre me odeio depois por ter agido inadvertidamente como um homem apartado demais para o mundo literário_ um homem que lê em excesso, vejo a crítica subjuntiva nos cantos de enfado dos olhos de minha mãe, enquanto ela sustem o garfo próximo à boca. Acentuo que o irmão mais velho tinha uns olhos crivados dos fanáticos, mas os fanáticos pela vida, por tudo que seja tocável, material, sistematizado, o sujeito dos números mas não do universo nupcial da matemática com as especulações metafisicas. Deveria tratar deus como um mero sintoma inquestionável da geometria sólida pela qual transitava beneficiado pela permanência aguerrida no mundo. Um homem de certa forma perfeito, em sua obliquidade a todos os julgamentos. Não, não me recordo desse senhor, sentencia minha mãe, retornando ao jantar e ansiosa por passar para outro assunto. Hoje, antes de retornar para casa, paro no casebre da viúva do zelador que mora no prédio desde os primórdios e puxo os assuntos triviais até que o clima esteja maleável para lhe encaixar a pergunta. Dois senhores?, a viúva repete olhando para o topo das plantas no jardim. Ela faz uma lista ligeira dos muitos velhos que habitaram ali uma vez ou outra, mas nenhum sendo esses dois profetas bíblicos dissidentes. Lembra de tantos outros os quais eu não me recordo. Me dá um sorriso de desistência, antes recordando que houve alguns meses que ele e seu marido saíram de licença prêmio, tendo passado períodos distantes do prédio. Entro no carro cogitando da teoria dos kardecistas de que os mundos do aquém e do além não dividem uma fronteira precisa, havendo quem de um e outro desses mundos penetre no que julgamos ser a fase de sonho que transcorre em cada um deles. Me vem as disparidades tardias que eu não havia cogitado antes, do porque verdadeiramente dos dois levarem aqueles sacos pesados nas costas, qual feira comportaria entidades tão desenraizadas da urbanidade citadina do final do século XX?; por que se vestiam com tecidos que pareciam rústicos sacos de batatas?

Na conversa pela webcam agora a pouco, entre minha esposa e minha mãe, eu torno a perguntar simulando brincadeira pelos velhos. Minha mãe me lembra as febres cerebrais que eu tinha na infância, o gigante que brincava de ciranda com crianças na esquina, a teimosa certeza de que eu voava até os postes de luz e me sentava nos fios elétricos até me dar na telha voltar. Rio sem  naturalidade mas solto a seguinte frase, que ela não ouvirá mas a deixará enfadada até o nível da irritabilidade: Tenha paciência comigo, mãe, que estou esquecido. Podes segurar abertos mais um pouquinho esses teus olhos tão pesados e tocar teu instrumento, nem que seja dois acordes?

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Guebrídguma



Recebo uma chamada em uma tarde quente de agosto em idos de 8 a 9 anos atrás, a voz de mulher do outro lado da linha tornada indistinguível pela mecânica que tinha que passar toda a sua firmeza e protocolo pelos furinhos da caixa de som do celular. Alô, é o professor Charlles?, pergunta; sim, sou eu, respondo. Professor Charlles, aqui é a Luiza, a coordenadora do Colégio Rudyard Kipling. Teria como você vir aqui ao colégio às 15 horas de hoje? Penso um pouco, o suficiente para identificar na minha lista de personas non gratas a tal Luiza, invoco o instantâneo de possíveis erros que cometi em minha disciplina de biologia para a turma do terceiro ano, não me vindo nada de condenável, o que torna a sensação de temor um tanto mais acentuada. A senhora poderia me dizer sobre o que se trata?, pergunto. É um assunto de certa urgência, você vindo aqui na hora proposta discutiremos._ Está bom, respondo e desligo. 

Atravesso a longa avenida em supino ao sol severo da tarde, com meus diários em mãos. O que diabos a coordenadora queria comigo, era a pergunta martelando na cabeça, ao mesmo ritmo que uma artéria ia motorizando em minha têmpora enquanto as mangas da camisa ficavam molhadas de suor. Luiza, uma mulher de uns 40 anos, semblante rígido, voz determinada das pessoas acostumadas com o comando, alguém temido pelos alunos e evitado pelos professores, ou ao menos por mim, que sempre mantinha uma soviética distância dela, restringindo-me a assuntos meramente protocolares. E houvera um incidente meio desagradável que aumentara ainda mais minha indisposição com ela: na época, eu me lançara numa loucura involuntariamente neoliberalista de manter três empregos, o que podara todo meu tempo livre; eu era, além de funcionário público, veterinário de campo e professor de biologia em colégio particular. Até então essa mazela tresloucada parecia molestar apenas a mim, que era solteiro e desimpedido em tudo, mas a tal Luiza, um dia, invocou a psicóloga do colégio para que me chamasse em particular e me colocasse a par de que esse transtorno de comportamento também privava os alunos da harmonia sanitária ideal das salas de aula. Trocando em miúdos, uma aluna flagrou em certa aula um filete de sangue em meu braço, enquanto eu expunha, com esse braço em riste em frente ao quadro negro, uma daquelas fatídicas cadeias de interações genéticas, e essa aluna me delatou junto à coordenadoria. O fato é que eu saía do frigorífico e corria para o colégio, sempre muito preocupado em não chegar atrasado, e nesse dia em particular mal tive tempo de tomar um banho, o que deu origem ao delito. A verdade mesmo é que nessa correria, grande parte das vezes eu só dispunha de tempo para uma higiene satisfatória quando chegava em casa, lá pelas 11:30 da manhã, até essa hora eu devia mesmo exalar um singelo odor de sangue coagulado, fezes, vômito, e gás do sistema de ar condicionado, que são componentes infusos no ambiente de um frigorífico que abate mil animais por dia, e no qual eu ficava submetido desde as quatro horas da madrugada.

A psicóloga me chama, ficamos um de frente ao outro, percebo o desassossego e constrangimento dela ao, enfim, ter coragem de me dizer que eu, um rapaz tão bonito, deveria ter alguém para zelar de mim, contratar uma empregada doméstica, ou, melhor, quem sabe, arranjar uma esposa, e assim vai. Meia hora de conselhos e nada de me dizer que a razão da piedade excessiva era que um filete de sangue fora visto em seu traçado nauseabundo percorrendo todo meu antebraço, como a muralha da China pelos olhos lunares do falecido Neil Armstrong. Saí da sala da psicóloga crente de que ela me usara, em seu longo expediente morto, para preencher uma das suas fichas burocráticas de atendimento mensal, que justificava seu salário, mas duas semanas depois a própria Luiza me encara, em seu gabinete, me dizendo, curto e grosso, que certos alunos haviam reclamado de detalhes perfunctórios em minha indumentária pessoal. Alguém aqui que tenha caído de gaiato nesse blog é veterinário? Não? Pois entendam, leigos, que cheiros, sabores, máculas em tecidos, filetes de sangue em braço, estão longe de poderem constranger um veterinário. Fiz estágios por longos meses em granjas de suínos, e ainda hoje, quando sinto aquela acidez característica, misto de ureia, enxofre, dejetos biológicos de todo tipo, sou tomado por uma lírica nostalgia, da mesma intensidade que quando minhas narinas são surpreendidas por um certo perfume colossal que minha primeira namorada da adolescência usava, que me para com o que eu estiver fazendo e me descentraliza, ou o rescender da relva apreendido na volta para casa pelas janelas semi-abertas do carro me devasta de saudades de uma antiga casa de campo da infância. Aprendemos sobre uma certa poesia dos cheiros na faculdade de veterinária, o que não é nem um pouco assustador para os profissionais das áreas médicas de qualquer tipo_ semana passada mesmo, meu dentista retirava as agulhas coloridas que inseria no canal do meu dente e as passavam pela averiguação de seu nariz de degustação apurada e deleitosa, tal qual um sommelier. (Aperfeiçoa-se nessa filosofia aromática as pessoas que tem filhos ou são donos devotos de animais domésticos, para quem toda escatologia envolvida são íntimos estudos e caminhos revisitados à farta ao conhecimento recolhido do alvo de seus amores.)

Pois bem, a tal Luiza estava longe de poder tirar de mim rubores de qualquer tipo, daí que eu respondi, na mais cordial das distâncias, que o problema seria resolvido se ela atendesse minha antiga recomendação de que passasse minhas aulas para mais tarde, que não fossem as primeiras, das sete da manhã, mas lá pelas nove, ou quem sabe à tarde, tendo tempo então para voltar para minha casa e me dignificar a esfregar meu couro com a mais bruta das esponjas naturais até que meu sangue minasse de saúde asséptica pelos poros. Ela assim o fez; eu, que melhorei muito da minha doce estupidez retaliativa, continuei do mesmo jeito, atento apenas para manchas visíveis, mas só tomando banho depois que voltava do colégio, no intuito de provar que aquelas sensibilidades ou eram psicossomáticas de quem não se dava bem nas notas de minha disciplina, ou eram de fontes erráticas (um adolescente padrão emana odores francamente desagradáveis, os quais eu mesmo não tolero), ou eram simplesmente birras com as quais meu nível de apreensão dos mistérios administrativos colegiais pouco se interessava. Talvez fosse isso, pensei ao dobrar a esquina em direção ao colégio: o reascender dessas antigas questiúnculas, que a tal Luiza queria mais uma vez me jogar na cara, inadmissível foi para ela que eu não me importasse ou não me vexasse. Entro pelos portões do colégio pronto para dizer sem meias palavras que eu iria abrir mão daquilo e me demitir, avanço para a porta da administração, não me faltando a percepção de que era um tanto estranho que não houvesse viva alma ali, nem o porteiro, nem as faxineiras, nem os professores ou monitores das aulas vespertinas de reforço. E eis que, nesse deserto todo, me aparece a tal Luiza, que surge da sala de administração com uma leveza ectoplásmica e se encaixa ali no umbral da porta com algo de fada ou ninfa do vale, cabelos molhados ineditamente soltos, mostrando o quanto eram longos e negros; os lábios, tão rotineiramente adeptos de um fordianismo de discursos produtivos, estavam moldados com um batom vermelho cordial e não-aberrante (lembro que meu senso de observador apurado teve tempo, naquele micro-minuto de tensão, de reconhecer esse mérito feminino nela: era um batom equilibrado, que se condicionava com precisão elegante ao seu espectro de emanação mulheril, mostrava um auto-conhecimento orgulhoso, seguro e de extrema perícia, não são todas as mulheres que tem isso, isso é uma arte invejável_ de modos que naquela fagulha de racionalização que precede a catástrofe me passou cristalinamente pela cabeça: se eu cair hoje, se eu não aguentar e ceder, se eu me trair e me mostrar fraco e cediço, será por causa desse batom). Ela usava um vestido cuja barra ia até os joelhos, mostrando pernas bonitas, lisas, bem torneadas, pernas de uma mulher que envelhecia com uma lascívia concentrada e não de todo secreta (lembrei que haviam os comentários entre colegas professores que evidenciavam uma curiosidade sobre sua vida de divorciada reservada). Não era a mesma mulher, eram o que as faculdades do senso comum diante o inesperado queriam que eu pensasse naquela hora, mas o que eu tinha firme ao me estacar diante aquela visão era a convicção de que era a mesma mulher; talvez a outra, a intrusa e metade debilitada, fosse a que tinha que se confrontar com a psicopatologia do cotidiano de um colégio como aquele, a Luiza das calças jeans e do rosto sem maquiagem e despersonalizadamente assexuado das reuniões de fechamento de diário que a cada dois meses tínhamos que nos submeter; e a  Luiza legítima fosse aquela revelação noturna que se mostrava para mim em pleno dia, como um convite a uma iniciação a uma ciência privilegiada. Ela me disse_ a voz doce, calibradamente trêmula (meu deus, ela era profissional, pensei, daí que sempre me pareceu altiva a sua indiferença ao atravessar aqueles corredores com beldades ingênuas e assustadas de mocinhas de 16 anos): Charlles, eu te vejo sempre sozinho, sem companhia. Pensei se nós, nós dois, não poderíamos, sei lá, um dia, sairmos juntos para jantar, tomarmos um vinho.

Recordo que Bernard Shaw dizia que nada engrandece mais a experiência de uma pessoa do que os momentos de intenso constrangimento pelos quais ela passa. As gafes de Shaw são antológicas, as vaias e ovações que recebeu ao longo de seus 90 anos de vida: lembro que certa vez, ao entrar por uma sala até um bastidor de onde iria discursar para um grande público, tropeçou e rolou pelo chão, sendo que imediatamente se levantou e continuou caminhando como se absolutamente nada tivesse acontecido. Em certa medida, meu comportamento sempre foi inspirado em Shaw, ainda mais pela atitude desabrida que o irlandês possuía em não se importar em não usar as palavras aprazíveis exigidas pelos atos sociais. E meu histórico de momentos ruins inesquecíveis é arrepiantemente extenso; mas estar de frente à escritorial coordenadora Luiza e ter que suportar friamente que ela estivesse me passando uma cantada, às 3 horas da tarde desses verões inglórios do aquecimento global, tendo urdido uma espetacular e na certa dificultosa evasão de todo mundo para que o colégio servisse inteiramente ao seu intento (apenas ela e eu, eu e ela ali), era algo que exorbitava em muito meu estômago de avestruz para digerir impavidamente o constrangimento. Eu desconversei da melhor maneira que pude, mas tudo foi um grande desastre. Disse a ela que eu já tinha uma namorada, que me sentia envaidecido pelo seu convite, mas eu tinha que recusar. Foi uma auto-violência extrema, ainda hoje, ao pensar nisso, faço uma careta e digo comigo "Cacilda!". Analisei ali que nada há de pior do que uma mulher rejeitada, é o mais cruel dos inimigos que se pretenda ter. Era meu ultimato para abandonar o colégio.

E olha só as coincidências: relatei o fato a um amigo apenas, numa noite de bebedeira que ambos tivemos em um bar da cidade. Esse amigo, um tipo aragonês baixinho, barrigudo, careca e com uma falha num dos incisivos, dado a um riso de alegria suprema que lhe é um acometimento natural desde que acorda até o horário em que vai dormir (alguém que nunca, nem na circunstância do falecimento de seu pai, vi de mau-humor), me disse, após cinco minutos de prefácio monologal hilário recheado de frases como "não acredito", "não pode ser", que fazia um ano que ele e a Luiza eram amantes. Olhei-o embasbacado: "sério?". Tive uma dessas decepções egoístas que prescinde de controle mental, em que vi a altiva Luiza pega por aquele amigo descarado e mandrião; ela merecia algo melhor, pensei e disse a ele. Ele concordou, bebendo mais um copo de cerveja e fazendo sua voz em soprano de quem finge se importar para que outros não lhe ouvissem e preservasse a honra de sua vítima: ela é insaciável, precisa de ver! Pôs-se a contar detalhes picantes que fizeram a noite se estender por mais duas horas além do previsto. Era tão simpático em sua canastrice, tão detentor de uma auto-depreciação adstringente, que no final achei que havia algo de dignamente romântico nas farras pantagruélicas que os dois realizavam juntos, fazia mais que um ano, em segredo tão bem guardado que nem as duas filhas que moravam com ela sabiam. Ainda faltavam dois meses para fechar o ano, e eu havia informado ao colégio que só cumpriria a agenda e sairia dali. Via a Luiza em seu jeans e camisas formais, séria, constrita, e imaginava-a dizendo o que meu amigo afirmava que ela dizia, e se posicionando nos malabarismos que ele descrevia prontamente que fazia.

E eis que, para concluir, encontro um tesouro no último volume de Seu Rosto Amanhã, de Javier Marías. Na página 139, do terceiro volume, da edição da Companhia das Letras, encontro a supracitada definição, que é sobre o quase delével grau de parentesco que surge entre homens que se deitaram com a mesma mulher. Marías não trata do assunto de forma grotesca nem masculinista, como pode parecer a uma primeira impressão, mas o faz com sua elegância costumeira e sua erudição. Diz que_ na verdade é seu personagem narrador quem diz, Jacobo Deza_, segundo leu em um livro de um seu compatriota espanhol, o termo achado para definir o parentesco da "co-foda" (sinônimo "grosseiro e contemporâneo", ele admite), ou do "co-jazer", era uma derivação do vocábulo anglo-saxão medieval ge-bryd-guma, que se declina a ser escrito como "guebrídguma". Se eu tivesse me deitado com Luiza, eu teria passado a ser guebrídguma de meu amigo aragonês. É o tipo de coisa que eu não irei falar para ele_ não compartilharei esse tesouro encravado. Ele jura de pés junto, como se diz, que eu me encontrei depois com a Luiza, e nós jazemos juntos. Para ele, nós já temos esse parentesco primal de sermos posse memorialística do conjunto de recordações sexuais de uma mesma mulher. Sempre que nos encontramos, os mesmos usuais achaques são repetidos, de que cada um não voltou a aguar mais aquela horta depois que soube que o outro passara por ali, que a mulher estava estragada para sempre e seria uma vergonha que o outro tivesse coragem de aparecer com a mixaria que deus lhe havia dado,etc.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Do meu excedente de irracionalidade



Quem visse o pobre do Blaise Pascal saindo daquela casinha modesta de uma das vielas de Paris, na noite em que foi forçado por sua irmã a participar de uma demonstração de cura milagrosa, nos idos de lá de 1659, não perceberia que se tratava do mesmo matemático e físico que estivera por trás das inovações científicas da Geometria Projetiva e da Teoria das Probabilidades, entre outros achados de sua mente poderosíssima. A diferença é que estava transfigurado, provavelmente (até onde chega a minha imaginação de como fora aquela noite), com um olhar no qual cada milímetro a mais de arregalamento demonstrava que o que acabara de presenciar  lhe custaria mais horas de raciocínio para compreender que as gastas na abstração do universo das fórmulas e calculos binomiais. O que acabara de ver, no quartinho apertado, foi o que havia condenado como superstição tola e ilusão farsesca a vida toda, mas que, contudo, realizara-se em completa plenitude diante seus olhos. A mulher que estava na cama, seca e envelhecida pela doença, à espera apenas que a misericórdia do acaso lhe viesse arrebatar de uma vez do sofrimento, à custa das orações dos fiéis impotentes que lhe rodeavam, restabeleceu-se a olhos vistos, a saúde lhe voltara como se dependesse apenas de um afluxo de ar soprado para o interior de seu corpo.

Muitos anos depois, um dos mais eminentes gênios multimídia da História, um senhor cujo talento infinito em revolucionar todas as ciências conhecidas e do porvir lhe havia concedido o cargo de consultor  oficial de  monarcas de diversos Estados europeus, passeava pelas ruas londrinas. Era o ano de 1744 e o sueco Emanuel Swedenborg já obtivera todas as glórias em seus 56 anos de vida: desenvolvera projetos de hidrostática, inventara sofisticadas máquinas de mineração, desenhara esquetes militares que possibilitaria o impactante uso do sol como arma, além de outros feitos importantes em anatomia, astronomia e geologia. Nessa noite, foi seguido por um homem desconhecido até sua casa provisória em Londres. Recebeu-o cordialmente, não de todo assustado senão até quando o estranho retira o chapéu e demonstra sem meios termos ser Jesus Cristo em pessoa. Jesus viera-lhe pedir que instaurasse uma nova igreja afim de propagar a real palavra da salvação, tão profanada e vilipendiada pelo abuso centenário de eclesiásticos egoístas de todas as vertentes religiosas. Pelos próximos anos de sua longa vida, Swedenborg abandona a ciência e se dedica a escrever uma série de livros inacreditavelmente ricos em detalhes precisos sobre os outros reinos que existem do lado de lá da comezinha realidade terrestre. Tem o salvo conduto de trafegar livremente pelo Céu e pelo Inferno, e como um jornalista acostumado com a fria cobertura das guerras de distantes lugares do globo, registra tudo que vê. Sua grande descoberta é revelar que para a salvação não bastam a piedade e as boas obras: é imprescindível a inteligência. Só através da inteligência e do esclarecimento que o homem poderá usufluir da presença de Deus e da percepção do propósito da criação. Em um de seus livros, relata que um homem abandonara a cidade, seus pertences e o contato com a humanidade, e fora se refugiar no deserto. Por décadas esse homem se dedicara piamente às orações a ao martírio. Quando morreu, dentro de sua caverna cavada na areia, os seres superiores que organizam os planos celestes não souberam o que fazer com a sua alma. Em sua ignorância do isolamento, não poderia participar dos diálogos elevados e dos debates sobre as análises da criação com  os quais os anjos preenchem seus  infinitos cotidianos. Resolvem então criar um ambiente semelhante ao deserto no qual o eremita viveu na Terra, para que ele possa passar todo o resto da eternidade.

Por que resolvi escrever essas coisas? Lembrar desses velhos loucos, esses cérebros que um dia sucumbem à contração de seus superatrofiamentos e deixam de ser coerentes e produtivos para serem apenas divertidamente esclerosados? É porque, eu vivo no limite da exaustão. Meus dias são dedicados a ouvir, ler, participar coniventemente, levar adiante, a flagorosa bandeira da razão e da opinião concreta, sempre preparado e esperando ansiosamente o momento em que eu possa tirar do bolso e dar uma carteirada com minha insígnia de conhecedor profícuo da percepção legalizada. Me cansam os livros na estante, apesar de não saber viver sem eles. Me cansa o enorme vácuo que me cerca ameaçadoramente sempre que eu pego um desses livros para confirmar uma velha verdade estabelecida. Me dá a Tristeza Maiúscula Não Negociável ao reler, como ontem, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" com todo aquele idioma impecável e fluido, toda aquela festa de frases assertivas e pensamento inesperado, e pensar: "para que isso tudo, se o homem desapareceu. Uns óculos postos sobre a mesa onde seus pulsos descansavam da labuta com os teclados, no futuro museu da lembrança de sua presença; e valeu alguma coisa? Um desconcertante fingimento de perenidade que nós fazemos por aqui, sua esposa e nós leitores, monumentos, bibliotecas, leituras coletivas, festas de homenagem em Paris e Parati, mas tudo uma merda de uma piedosa farsa para alimentar aquilo que os fatos desmentem de forma impiedosa, que tudo vai desaparecer sem controle, sem justificativa, sem álibe, e não serão novas edições luxuosamente encadernadas que mudará isso."

O fastio da voz imposta vinda da televisão onde está em seu horário muito bem pago o Doutor Phd com suas  respostas oráculares prontas. Ou a simples exaustão de me olhar no espelho e não ver nada, não intuir nada, além do que pode dar a superfície refletora. Aprender a continuar interpretando as coisas pelo filtro patenteado com as marcas registradas tradicionais, o cartel da Ciência e co., o monopólio da Igreja Ltda. Como disse o Cortázar (meu Deus, e vai-se embora a impressão de meu Cortázar, esse que sumiu sem deixar nada que desfragmentados vestígios orgânicos no solo argentino), a vida toda não passa de um sistema de acondicionamento em que tem-se que aprender a aceitar a eterna ponta da bota acertando todos os dias os nossos pobres cus, a ponta entrando cada vez mais para dentro dos nossos cus desprotegidos e arredios. E a ânsia que não desaparece _ se pelo menos tivessem nos dado uma desesperança verdadeira e definitiva _ de que um dia encontraremos o Reino, seja por qual caminho desarroado e impróprio, mas é a percepção do Reino que nos move a construir parábolas de justiça (Kafka), a nos compadecermos de Odete tão-sem-sorte-porque-lhe-abandonou-o-marido-e-as-filhas-morreram-de-varíola, a enviarmos uma carta anônima onde se destila com uma sinceridade terrível o desabafo de que por detrás do ódio fiel e irremovível a que dedicamos a nosso inimigo esconde-se um amor de impossível reconciliação, Ou conquistarmos o Reino à marra, através do assassinato, do alcoolismo (todo bêbado é um místico), do homossexualismo, das drogas, da ascepcia radical, do suicídio sincronizado pela liberade de um país, pelo futebol ou pela dança cutuchama dos índios Anhãnhãnhãs.

Entrar em cada igreja dos territórios conquistados e fazer uma oração para cada deus desconhecido, como fazia Alexandre. Passear pelas charnecas inglesas, encostar a bicicleta nos muros de pedras, e se enternecer com a sacralidade do silêncio dos velhos templos milenares, como fazia Bernard Shawn. Oferecer um galo a Asclépio em benefício de sua alma, como solicitou que lhe fizessem o Sócrates com a cicuta passeando em suas veias. Abraçar o cavalo alquebrado e trêmulo do cocheiro desalmado, e se identificar com a alma legitimadora do animal, como o fez Nietzsche. Olhar para seu corpo ferido atirado no chão, do alto dos obuzes e do campo em chamas, como o fez a flamante consciência de Hemingway. Levantar a cabeça do travesseiro para ver, numa noite tristíssima de solidão inconformada de 1999, a aparição do filho abortado que poderia ter sido mas não foi, o espaço sem face de um adeus que perdoava.

Swedenborg e Pascal talvez tenham contribuído para trazer a intuição de que, se somos destinados ao nada ou ao Reino, o caminho que seguimos até agora tem sido um atroz acúmulo de erros que não faz justiça nem à maravilha da própria fugacidade. Como disse Salvatore Quasimodo:

         Todo homem está só no coração da Terra, trespassado por um raio de luz; e de improviso, é noite.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Homo ridens



Por natureza e por pressão das circunstâncias sempre fui um cara muito bem humorado. Minha esposa diz que eu excedo, muitas vezes. Gosta de contar às amigas fatos isolados que dá um nó na cabeça das coitadas para imaginar alguma graça por detrás da minha aparência temível. Seu preferido foi um dia que fomos comemorar nossa data de casamento em um restaurante italiano, em que comprei um vinho do porto e entrei na frente dela, que levava a garrafa, e fui direto ao garçom perguntar: essa moça pode entrar com essa garrafa? Na juventude passava horas inventando piadas de gago para antecipar-me aos colegas. O humor como sobrevivência. Quando trabalhava num cartório me impus um dia do começo ao fim de estóico humor para aguentar o tédio, e na primeira hora, quando caminhava para o trabalho todo fornido sob a pressão de me manter leve, um bezerro que estava na gaiola de uma caminhoneta estacionada (que desde a esquina distante vinha me encarando em desafio) me taca uma bostada na cara assim que passo por ele. Havia um sem número de pessoas sentadas em frente à casa, e todos caíram na gargalhada. Eu, com o firme propósito na cabeça, fiz que nem foi comigo, a bosta verde lustrosa e de uma beleza surrealista escorrendo pelo meu pescoço até a camisa. Entrei no cartório, cumprimentei os colegas, me juntei ao grupinho do café dividindo as impressões do fim de semana, todos boquiabertos e se entreolhando espantados sem dizer nada, e eu rindo e sendo o mais cordial possível, com aquela excrescência secando na cara. O humor sempre me pareceu assim, uma região solitária, onde você assume a coragem de se revelar por inteiro sem medo: você não quer competir porque observa tudo de uma altura que dá a devida medida ridícula das coisas.
                  

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Bestas honoráveis



Se naqueles quatro meses que durou a fase mais terrível de seu sofrimento, o tio Márcio de 35 anos tivesse se apegado à decisão de que não havia mais motivos para continuar vivo após o pedido de separação litigiosa de sua esposa, teria evitado que o tio Márcio de 13 anos depois se tornasse um dos advogados mais ricos do país. Olhando do alto de sua condição estabelecida de sobrevivente muito bem sucedido, hoje deve lhe parecer uma das coisas enigmáticas daqueles anos já  por natureza  estranhos ter confiado a um trio composto por duas de suas irmãs e um pirralho de quinze anos a chance de lhe dissuadir de que  não haveria outras hipóteses que a de um conformado e alentador suicídio. E o pirralho dessa história era eu. Não sei qual dos atributos da minha distração caiu na má interpretação de minha mãe e de minha tia Tânia para que me escolhessem como espécie de guarda-costas do tio Márcio, vigia sentenciador e "cagueta" dos seus menores movimentos. Se o tio Márcio, no restaurante aonde íamos os dois jantar (eu comendo pela primeira vez língua de boi ao molho madeira, ele com o prato intocado), mostrava-se uma fração a mais além da introspecção dos que imaginam outras funções para as facas por sobre a mesa, era motivo para reportar minuciosamente o fato às duas irmãs: como estava seu olhar, se voltado totalmente para dentro ou se houvera alguma margem de interesse para os objetos e circunstâncias do ambiente, se ele falara alguma coisa, quantas vezes suspirara. Como ele executava os passos na caminhada ao largo da represa perto do apartamento, onde os corredores do cooper cortavam em sentido contrário ao nosso como lampejos coloridos que reafirmavam sobre nossa dupla taciturnidade a prevalência da saúde urbana; ele com o paletó amulambado, eu com o uniforme de colégio suado _ me tornaram tão comprometido  que me passava inadvertidamente a desatenção à higiene dos que pouco faziam caso com a existência. Minha mãe e minha tia de certa forma lamentavam que o agente mediador entre o tio Márcio e a morte padecesse da limitada experiência dos 15 anos, não tivesse bagagem suficiente para enxergar por debaixo do mosaico de homem traído os sinais significativos, as emissões de dor que partiam de sua alma arruinada. Elas tinham que acrescentar por conta própria o que vazava pelo filtro da minha infância e ficava faltando na compositura do retrato completo.


Uma das minhas suspeitas do por que o tio Márcio só tolerava (ou fingia tolerar, para manter o pouco de atenção às exigências familiares que ainda tinha que ter) a minha presença nesse dias, era a de que as vidas pessoais de suas irmãs evidenciavam que elas estariam defendendo o lado errado da contenda. Por minha mãe ser uma divorciada com dois filhos, e a outra irmã uma mártir do casamento suportando o marido alcoólatra, pela fidelidade compulsória ao Sagrado Sofrimento Feminino, as duas no fundo dividiam a alegria libertária por sua esposa ter-lhe pregado um par de chifres. Mesmo em meus 15 anos, a insurgência da verdade de gênero do Eterno Macho Dominador que falava em meu sangue me permitia interpretar as vezes em que meu tio firmava o olhar nas duas e um tremor de medo passava por seu rosto. Elas tinham com ele apenas o compromisso formal de impedir que o sofrimento fosse insuportável a ponto de lhe levar ao suicídio, mas o que havia abaixo desse limite mensurável em flagelo didático deveria ser bebido por ele até a última gota. Elas se referiam à sua esposa com toda a sinonímia à disposição do consolo _ o que não se importavam que eu ouvisse _ : aquela vadia, aquela puta devassa, a biscate desavergonhada, a mulher que havia colocado a buceta à frente da família. Era um teatro que, à maneira de Sherazade em ludibriar com as artes de contar uma história por noite o sultão de tirar-lhe a vida, elas encenavam para meu tio o que só era suficiente para mantê-lo vivo. (Isso é tanto verdade que hoje, as duas são fervorosas amigas da minha tia Valéria, a ex-esposa do tio Márcio.) Por isso então eu, com minha cara de alienação, meus modos reservados e meu coração cheio de amores platônicos, era o único elemento daquele ensaio de psicopatologia cotidiana que meu tio via como o que carregava menos conotações de justiça feminina e culpa.

Nesse fim de ano que eu recordo como um dos mais chuvosos e cinzentos, minha mãe, minha irmã e eu estávamos instalados no apartamento de minha avó que morava nos EUA, devido ao incidente com o Césio que fizera com que interditassem nossa residência original, e meu tio Márcio se mudara para lá depois que a tia Valéria lhe anunciara querer o divórcio por estar apaixonada por um médico carioca cinquentão que conhecera num congresso. O apartamento de minha avó _ ironicamente, também ela havia deixado o país  trinta anos antes por ter descoberto que o marido estava tendo um caso com uma das empregadas do casarão colonial onde viviam em Minas Gerais_ estava se tornando o refúgio oficial de parte da família; de tempos em tempos alguém batia na porta da minha mãe solicitando as chaves por duas semanas, uma tia que tinha que fazer hemodiálise, um outro que precisava vender uma casa, outro cujo caráter ubiquamente conhecido requeria a sensatez de não se perguntar o por que precisava se esconder por algumas semanas. Entre esses exilados, alguns dos quais compartilhei  a presença naqueles meses em que o prosaísmo sinistro de um acidente nuclear havia acontecido sob nossos narizes, o tio Márcio era o mais triste, o mais deslocado, o que transparecia o que nos outros era a verdade disfarçada com desmascarável laconismo: estava ali pela lucidez insuportável de se ver como um pai ausente e um marido sem a capacidade de carinho, um homo laborians comprometido animalescamente com a sobrevivência social, mas cujas portas adentro de sua casa revelavam sem eufemismos o que não escapava nem a suas irmãs, o direito outorgado a um estranho a vir substituí-lo no que fracassara de maneira tão inexorável.

                                                                      * * *

Treze anos depois ele se tornara obscenamente rico. Ganhara um ação histórica contra a Petrobrás, e os donos de postos e refinarias de petróleo que o contrataram abarrotaram sua conta com quarenta milhões de reais de honorários. Escrevera uma matéria de duas páginas inteiras para a Folha de São Paulo explicando em linguagem despermeabilizada de juridisquêz todo percurso burocrático da aventura. Até seus detratores e os ascetas ao dinheiro estudavam suas palavras na busca dos sinais da predestinação. Quando me chamara para conversar, dividi na minúscula saleta de espera de seu escritório, num edifício destoante que ganhara a mítica justificativa de ser uma camuflagem, o espaço joelho a joelho com senhores de terno e pastas de couro, alguns com o desespero indisfarçável do empresário falido atrás de um empréstimo, outros com as insígnias vocabulares dos desembargadores. Fiquei uma semana em sua companhia, dormia no condomínio fechado onde ficavam em perfeita plenipotência fotográfica a sua nova esposa e seus outros dois filhos, aguardava nas salas ao lado da sua até que o expediente findasse, me entupindo de café na máquina de expresso. De tardezinha íamos a um clube fechado onde na mesa ampla senhores de bermuda esporte e os rostos vermelhos saturavam-se de whiskey. Cada um tinha uma moça de seus dezessete anos do lado, que definitivamente não eram suas filhas. Uma das moças estava acompanhada pela mãe, uma senhora que havia vestido sua melhor roupa e não se continha de felicidade por sua filha ser a escolhida, nenhuma delas se importando que o homem às vezes falasse com a esposa pelo celular. Meu tio era uma espécime diferente de besta honorável, não era imune ao universo de macho alfa para o qual sensibilidades eram atrasos na obtenção de todo hedonismo que o dinheiro tinha para oferecer nas horas de folga do cotidiano acirrado em que tinha-se que obtê-lo, mas ainda via em seu infinito traquejo e sua genialidade em angariar simpatia o menino provinciano, o cara simples que em caminhos paralelos teria conseguido ser feliz com bem menos que isso. Ao mesmo tempo que interrompia a conversa séria com um desembargador, num corredor do Centro Administrativo, para apresentar-me como seu sobrinho veterinário, eu o ouvi instruindo taxativamente sua filha, que lhe insistia por telefone que precisava levar o bicicleteiro que havia atropelado para um hospital particular de ortopedia, a deixar que o SAMU cuidasse do caso, "quando ele descobrir de quem você é filha, vai pedir uma senhora de uma indenização". Em sua cadeira rotativa ele me deu um conselho que deve estar talhado em madeira na porta de entrada de seu santuário íntimo: "a gente passa a vida toda que nos resta tentando consertar as besteiras que fizemos na juventude". Anda hoje penso o que teria me salvado da proposta que me fez, em meus trinta anos, de estudar o curso de direito totalmente bancado por ele, e ser um de seus estagiários. Se não tivesse sido a aprovação no serviço público, qual  outro fator inviolável teria feito com que eu virasse as costas para a porta de seu escritório e seguisse a minha própria vida ?

(Publicação original, com comentários aqui.)

Saruê



Neste feriado ele recebeu em casa a mãe, a irmã e uma tia. Vieram na quinta, de ônibus, e foram embora na tarde de domingo (elas tem muito medo de dirigir em rodovias). O clima da casa ficou totalmente feminino, com sacolas de presentes, risos parenteseando fofocas, receitas de tortas holandesas sendo postas na prática na cozinha, coxas de frango assando dentro de pacotes plásticos de tempero pré-fabricado, conversas prolongadas noite adentro, com todas deitadas na cama de casal (todas mais o Eric, seu filho, que diplomaticamente tinha que deixar o pai sozinho na biblioteca dos fundos e interagir com a algaravia da parte da família que vem de dois em dois meses). Ele fica muito deslocado nestas visitas, e a grande bênção é que todas não dão a mínima para ele, o que lhe permite uma adstringente invisibilidade. A Júlia se esquece tanto do pai nestes momentos que por vezes tropeça nos seus pés e se levanta rapidamente, tomando o rumo da balbúrdia com algum pano de mesa ou camisa suja que retirou de algum lugar e revestiu com eles a cabeça. Nesses paradoxos do caos, nesse feriado ele teve muito tempo livre para ficar consigo mesmo e botar as leituras em dia. Teve tempo de sobra para compensar certo distanciamento que vinha tendo com o Miles, e que o deixava preocupado por notar nele um recuo meio depressivo devido à sua omissão involuntária. Fez bastante carinho no Miles, saíram para passear de carro e à pé, e retornaram às brincadeiras de rasgar sacolinhas e atirar objetos para o cão ir buscar. Levou uma bronca tremenda da Dani por ter deixado o Miles rasgar uma revista velha que ela ainda não tinha lido, e por lançar uma bandeja de plástico que achou ter sido escorada na pia para ser jogada fora, e que o Miles destruiu em prodigiosos vinte segundos de alegria furiosa.

Na sexta-feira ele comprou um Gato Negro e foi bebê-lo à noite numa pracinha desolada em frente a um templo desativado da Universal. Sentou-se no banco com a garrafa aberta e com um copo plástico, e bebericava o vinho enquanto via, enlevado, o vento frio revoar as árvores e as pequenas peças de lixo da calçada. Estava absolutamente sozinho e afastado dos sons de festa de quatro quadras mais para baixo, na praça central. Estava decidido a abrir aos poucos a sua sensibilidade alterante à bebida, coisa que imaginava ter voltado à estaca zero devido aos tantos meses de abstinência_ as últimas garrafas esvaziadas o pegavam no final mais sóbrio do que antes, atestando que ou ele avançava para novos estágios de subjeção alcoólica ou continuava a beber apenas pelo sabor das uvas fermentadas_, pois queria apreender sem pressa o que aquela noite e aquele deserto tinham para lhe dizer. Os altos vidros do templo permaneciam soberbamente imóveis ao vento, conservando um sobrancelhamento indiferente ao musgo que crescia a olhos vistos nas bases das paredes e das teias cinzas proliferadas abaixo da cornija da frente.

O fato desses vidros estarem intactos numa praça conhecida como Praça da Maconha deveria ter motivado o pastor desistente a reavaliar com mais fé a persistência em angariar um rebanho financeiramente viável. O próprio banco no qual estava sentado atestava que a turba invisível que agia de madrugada não costumava ter tanto respeito por objetos não vigiados: faltava-lhe duas traves de madeira abaixo de onde estava sentado, de modo que seus glúteos estavam suavemente afundados para baixo. No meio desse devaneamento vê um vulto caminhando de frente ao templo. Arregaça os olhos e percebe ser um homem que poderia ter qualquer idade acima dos 60 anos. Andava furtivamente e com a clara consciência de que havia alguém ali que logo iria vê-lo, e quando entrou sem direito a dúvidas dentro do ângulo da sua visão, adotou uma atitude misto de criança e um bicho silvestre qualquer interessado em aproximação. Usava uma camisa de mangas compridas que ia até os pulsos, e uma calça de flanela desgastada, mais umas botinas bege que lhe davam ainda mais uma áurea de animal híbrido, fruto de algum cruzamento improvável que determinava que aquela hora era a única ideal para que desse as caras no mundo. Quando completou seus passos estudados em linha reta, fez uma curva rápida para a rua e veio cordatamente se sentar no banco ao lado dele. Tudo sem o olhar; revirava a cabeça observando como se pela primeira vez as árvores da praça e ele notava o brilho prontificado na periferia da pupila onde ele estava instalado. Tinha um rosto desmaiadamente servil, que atiçou nele fundamente a curiosidade. Ele não estava querendo companhia, mas algo no rosto dele, que não conseguiu firmar quando dava seus passos inseguros e bambeantes, o instigava. Parecia para dentro, em um primeiro momento, com alguma deformidade inapreensível. Na faculdade havia visto cães com os rostos mutilados a tal ponto que os zigomáticos e as cavidades nasais ficavam expostas, e o velho gnomo passava essa suspeita. Mas ao mesmo tempo sabia que sua inofensividade era tanta que não comportava nenhum grau de tragédia mais acima de uma solidão destinada aos bobos. Lembrou de um marsupial típico do cerrado, um ratinho descabelado e maltrapilho que poderia viver cem anos devido a sua total fealdade estragar-lhe para sempre como presa, e lhe veio a certeza de que um saruê havia se metamorfoseado em humano naquela noite onde o frio de desolação escondia enfim uma melifluidade que lhe escapava. Vai ver o pastor fez mesmo bem em sumir dali, pensou, pois no momento nenhuma inspiração erraticamente eclesiástica o despertara para o fato de que talvez se cumpria alguma maldição divina por estar quebrando a promessa feita com seu rosto nas mãos piedosas de sua esposa de que não voltaria a beber.

Mas teve a oportunidade de olhar o rosto do velho e constatar que o estranhismo era que seus ângulos magros faziam associar a algo da prontificada lealdade de um cão. Percebeu que ele era bem mais velho, 70 anos, talvez 90 anos bem vividos de total humildade saruênica. Foi tomado de um mau-humor irrequieto, pensando que ele deveria fazer o favor de não perturbar senhores incautos que se aventuram em praças da maconha, nas quais nem a interseção de duvidosas forças de deus havia surtido efeito, para ficar só, inteiramente só. Ele sentia o vinho enlanguescer os caminhos arteriais até o cérebro, e se ateve a seu direito de incomunicabilidade. Cinco mulheres e um guri barulhento não haviam conseguido tirar-lhe de seu silêncio em sua própria casa, não seria um protótipo caboclo de Smigol que faria isso. Em outros momentos adoraria falar com ele, mas não aquela hora. O velho, que também o fizera crer que se falasse notaria sua voz um tanto anasalada (um fanho e um gago numa noite solitária), contrariando as suas expectativas, não lhe dirigiu uma palavra sequer. Ficou em absoluto silêncio, de braços cruzados olhando à frente a rede oceânica de sombras e ventos.

Voltou dali uma hora para casa. Quando se levantou e entrou no carro, olhou pelo rabo de olho que ele o ignorava combativamente, mas conservava uma calda de sorriso no canto da boca para quaisquer recaída diplomática de sua parte. Na manhã de sábado sua esposa o acorda no colchão de solteiro na biblioteca e diz que o pai dela estava na esquina mais longe aqui de casa, esperando que ele levasse as crianças para ele as ver. Mas que diabo, resmungou, por que o Seu Gercino não vem aqui e entra para ver as crianças? A Dani responde que é que seu pai estava com o Seu Juvenil, e esse se negava a entrar na casa desde que viu o movimento e constatou que haviam visitas. Seu sogro, o seu Gercino, foi diagnosticado há mais de dois anos (seis meses antes do nascimento da Júlia), com um câncer terminal, que se criara em um dos rins e se proliferara para fígado, estômago e intestinos. Os médicos lhe haviam sido francos e dito que a quimioterapia só iria apressar o processo, que ele voltasse para casa, comesse e fizesse de tudo, para aproveitar os poucos meses que lhe restavam. Ele ficara em profunda depressão nas primeiras semanas, chorando pelos cantos. Aceitou participar das sessões de acompanhamento psicológico do hospital, no qual conheceu o Seu Juvenil, um mulato de mesma idade que ele, que havia tido seis tumores no maxilar, devido ao tabagismo de toda a vida, e cuja excisão cirúrgica lhe levara o queixo. Tornaram-se amigos inseparáveis, ocupados em longas viagens para pescarias. Seu Juvenil era um homem curiosamente assimétrico, que afrontava a perspectiva mesmo para os mais preparados de ante-mão para a confrontação com o seu problema. A falta do queixo tornara difícil entender suas vocalizações, que eram muito abafadas e despendiam o odor de nicotina de décadas que transvertia os ares do ambiente. Meses depois da remoção dos tumores, uma nova massa compacta brotou na pequena parte que lhe restava do queixo, onde antes ficavam os dentes sisos, e crescera tanto que dera uma aparência tão mais distorcida a seu rosto que era como se tivesse saído de uma tela cubista. Isso lhe servia ao propósito de não mais parar de fumar, já que a coisa não tinha mais jeito.

Seu Juvenil e seu sogro haviam alcançado um altaneiro e despreocupado grau de adaptação à doença. Seu sogro sorria, estoico, ao relatar em sua última visita como se pode conviver bem com a doença. Ele não tomava mais água ou líquido algum há quase três anos, para não sobrecarregar seus rins deteriorados. O seu Juvenil só se alimentava de leite e bolachas dissolvidas no leite, como ensinou a Dani a fazer em sua última visita_ sendo traduzido por uma das irmãs da Dani que tem o dom quase esotérico de entendê-lo cristalinamente. Ele ligou para seu Gercino e disse que era um descabimento eles se recusarem a entrar na casa só porque haviam outras visitas. Seu sogro transmitia a decisão peremptória do amigo de que não iria entrar. Ele levou as crianças para que o avô as visse, e lá pelos tantos minutos de conversa os convenceu, finalmente, a entrarem na casa. Seu Juvenil cumprimentou da varanda às pessoas de dentro, e só se levantou de seu canto em que olhava pacífica e sobriamente o tempo_ sem a mínima importância para o que transcorria em torno_ para se aproximar dele e balbuciar uma pergunta que o lançou no mais profundo constrangimento. Ele não conseguia entender o que o homem estava dizendo, além de uma única e improvável frase. Ele a repetia e ele só balançava a cabeça, até que seu Gercino surgiu à porta para o salvar. "Ele pergunta se aqui tem algum banheiro externo que ele possa usar". Seu Gercino respondeu que não e o acompanhou até um dos banheiros de dentro da casa. Ele estava extenuado de esforço em entender o que o Seu Juvenil dizia. Para ele a frase enevoada de cigarro mausolêico e de ausência tecidual teimava em ser: "O senhor tem veneno?"

(Publicação original, com comentários, aqui.)