segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides


Há coisa de um ano eu conversava com uma amiga por e-mail. Era um assunto do qual não me recordo, mas presumo que fosse sobre literatura ou, talvez, algumas das infinitas picuinhas inúteis mas interessantes que existem pela net. Na minha segunda resposta a essa amiga, eu lhe pedi desculpas pela demora do meu retorno, justificando que era por ter sabido que uma menina desaparecida numa cidade próxima de onde eu moro fora encontrada morta. A menina era vizinha da tia da minha esposa, de forma que já há quatro dias estávamos inteirados pelo facebook da notícia de seu desaparecimento, e que espanto e tristeza ao, naquela hora, a Dani me informar que o corpo fora encontrado abandonado em um canavial. Disse isso tudo a essa amiga, e a resposta dela foi "sinto muito", e continuou, no mesmo e-mail, a conversa trivial que estávamos tendo. E a reação instintiva que tive a essa recusa dela em participar de um sofrimento distante, que nada tinha a ver com ela, foi a de constrangimento por tê-la incomodado. Meu primeiro pensamento foi "o quanto fui provinciano e infeliz estragando nossa alegria inocente com algo tão descompassado e brutal". Ela tinha todo o direito a se negar a envolver-se nisso, mesmo o mais periférico possível: não era assunto dela, ela tinha lá seus enormes problemas de violência para digerir, os quais ela sempre havia sido educada o suficiente em não me incomodar com eles. Como consumidora, em um mundo onde o que se mais precisa é o respeito às leis que ditam o que é oferecido honestamente a ser consumido (sem nenhum adendo desconfortável e nenhuma letrinha miúda de enganação no pé da página), ela tinha o direito a ter o que a plataforma que estávamos consumindo em nossa conversa virtual prometia: trivialidade inofensiva e um passageiro e descompromissado afeto. Não seria ali que nos tornaríamos cúmplices de uma vivência tão pesada como o assassinato de uma criança. Ela me ofereceu uma lição elegante: a de que veículos previstos para o formato de anedotas simpáticas são assepsiadamente desprovidos da mínima profundidade, ali não se deve entrar indícios do real; eu, lhe havia antecipado uma notícia que na noite daquele dia estaria em todos os telejornais do país. A lucidez dessa amiga quanto a utilidade formal das comunicações pela internet foi tão certeira que, hoje, já não somos mais amigos.

Existem mais dois casos que me vieram à cabeça que se relacionam à minha leitura de Virgens Suicidas. O primeiro é que nesse exato momento em que escrevo, ouço o barulho de uma serra elétrica em frente aqui de casa, do outro lado da rua. Meu vizinho está, ao que tudo indica, construindo um bunker. Desde um ano que o movimento de pedreiros, eletricistas, e toda espécie de funcionários de construção, é intenso e ininterrupto ali onde esse vizinho determinou que se erguesse seu escritório de advocacia e, mais atrás, a sua residência. Esse vizinho é dono de uma rede de dez lotéricas, distribuídas por várias partes do estado, e, aos 50 anos, se formou em direito. Praticamente não se vê nenhum movimento em seu escritório, mas ele o abre e cumpre suas oito horas de expediente todos os dias, enquanto sua esposa toma conta da verdadeira fonte de renda, que são as casas lotéricas. A Dani espia pela janela e me pergunta o que ele está construindo, e eu lhe digo, seriamente (apesar dela achar que é brincadeira), que ou nosso vizinho é um adepto de alguma seita que crê que em uma data próxima para o fim do mundo, e está juntando toneladas de cimento na construção de um bunker de sobrevivente, ou ele faz parte de alguma facção terrorista e a qualquer momento esse aparato todo vai se abrir com um grande estardalhaço e uma bomba de urânio vai se projetar da terra na ponta de uma cauda de fogo. A Dani diz que ele não tem onde gastar dinheiro, como os faraós, e ergue e re-ergue infinitamente uma espécie de pirâmide sepultural em honra a seu nome. A única pessoa que sei que entrou no escritório me disse que lá existe uma ampla estante forrada de livros, e que, o ilustre lotérico diplomado, perguntado se leu algum deles, disse que não tem tempo para essas besteiras.

Tudo bem, vou chegar lá, peço paciência. O último caso é um processo judicial já citado por aqui, em que o prefeito da cidade onde moro ganha o direito de retratação por parte de um rapaz que o havia caluniado pelo twitter. A retratação foi publicada no twitter do rapaz da seguinte maneira: "O sr..., foi condenado a pagar 1.500 reais, em dez parcelas, por danos morais, ao prefeito..., por ter dado publicidade via twitter a improbidades administrativas do referido prefeito". Essas mesmas palavras foram publicadas em um jornal impresso local, que foi onde as li; mostrei aquilo para vários amigos e conhecidos, pedindo o favor de que eles interpretassem o que estava escrito ali; digamos que de dez pessoas a quem inquiri (pessoas com curso superior e certa proeminência intelectual na cidade), apenas duas notaram que havia algo de errado na retratação, pois a nota reafirmava o que o tuiteiro havia escrito na mensagem caluniosa sobre a qual caíra a condenação da justiçao prefeito.... cometera improbidades administrativas. Achei aquilo de uma astúcia genial por parte do tuiteiro, e não descansei enquanto não o achei pelas ruas para dar-lhe os parabéns. E que espanto o dele ao ouvir essas minhas palavras; ele não reconhecia nenhum mérito na coisa, não havia percebido nada da ironia que eu atribuía àquelas palavras; me olhava com a tristeza consumada de quem jamais iria entrar novamente naquelas refregas caras contra o poder, que havia lhe custado tanto dinheiro; e me comunicara que recebera a retratação pronta, feita de próprio punho pelo prefeito.

Agora podemos chegar ao livro do senhor Eugenides. Li-o duas vezes_ olhem só que perda de tempo exorbitante_, e digo, para minha total derrota, que foi uma das cinco obras que me causou um nostálgico recolhimento espiritual em épocas mortas da minha juventude, a me chegarem às mãos nesses últimos dois anos. Li-o na tradução da Rocco, e, depois, nessa tradução que se mostra na ilustração ao post, da Cia das Letras (como sempre me ocorre, me agarro mais ao primordialismo da experiência, e por isso gostei mais da primeira_ mas ambas são ótimas). Recordei do meu peripatetismo pela metrópole, meu casaco flutuador que minha esposa apelidou de "tô em todas" (por sempre aparecer nas fotos minhas do período, as fotos assustadoras em que um rapaz raquítico com triste ar de presa distraída me olha sem se importar a mínima com o futuro), meus cabelos grandes, e mais: minhas andanças autistas pelas bibliotecas, as estantes empoeiradas, as velhas funcionárias iletradas, donas de casa com uma tristeza equinodérmica cujos maridos dariam glória a Deus diante a disparatada imaginação de verem-nas com um amante, que tinham a obrigação de só colocar os nomes dos livros nas fichas de empréstimo, sem que precisassem olhar aqueles objetos com o mínimo amor ou a mínima previdência defensiva. Foi ali, na biblioteca da praça principal, enquanto o som da cidade não parava, que eu me dedicava ao propósito morto de ler o que me caía às mãos, e sempre me caía às mãos obras assopradas por anjos da inutilidade, objetos de esquemas de uma ocasionalidade que não beneficiava a segurança pragmática de uma vida utilitária. Ali eu li meus Hemingways; li uma belíssima coletânea de contos de Cholokov, com capa esfacelada e cheiro de pó de leprechau, que me enterneceu diante a fantasia de que Lênin era o grande pai que o garotinho perdido da família procurava; li poetas locais que nunca mais apareceram e que na certa me devem esse momento de mediunidade por tê-los resgatado do indevassável limbo, e que me ficaram dois poeminhas singelos que os tenho como os mais belos da minha vida: "Hoje vi soldados cantando por estradas de sangue'", e esse outro: "Cresci trocando sonhos por realidade, e senti calafrios". Li meu primeiro Faulkner, que achei ser o último. Li Kazantzakis, uma peça de Ibsen que julguei ter me fulminado inconsolavelmente; li um livrinho de Richard Ford, esse escritor vivo norte-americano já esquecido, que é o que de melhor se tem em novelas naquele país, Vida Selvagem.

Pois bem. Não quis fazer comparação entre eu, o cara certo e coerente, e eles, as pessoas auto-enganadas. Só tenho claro em mente, de maneira muito triste, a certeza de que obras como Virgens Suicidas são inúteis hoje em dia_ ou assim me parece. É um romance que trata com tanta arte, com tanta sutileza e elegância sobre a incondicionabilidade da mulher na sociedade, que me assusta.  Muitos tem-na comparado a Nabokov, o que julgo preciso pela linguagem elevada e o alto nível da inteligência geral empregada, mas, de certo ponto de vista, supera Nabokov. Se Lolita, essa geometria perfeita das letras, é puro prazer estético, Virgens Suicidas é uma antítese à gratuidade inerente às perfeições extremas (ou as quase perfeições, já que nas letras não se encontra perfeições mozartianas e rubensianas), pois oferece, num grau de astúcia inatingível para o padrão de leitura comum, esse objeto anacrônico e aberrante chamado moralVirgens Suicidas dialoga com Lolita, e ambas as obras são tão fortes que se tornam independentes de seus autores. Mas Lolita confirma o que diz Bellow em seu ensaio Escritores, intelectuais, políticos: sobretudo reminiscências, de que escritores raras as vezes são intelectuais. Em Lolita nós vemos um exercício literário, uma virtuose das qualidades do talento de seu autor, um uso de tal forma pleno da inteligência artística que causa no leitor essa supressão do julgamento que as grandes obras de arte causam. Só alguém muito equivocado veria em Lolita uma apologia à pedofilia, mas, por mais paradoxal que seja, não excluo a legitimidade do equívoco de que leem dessa forma a esse romance. Em um belo artigo sobre Proust, Marcelo Backes salienta que o grande romance de Proust é muito, mas muito mais que os clichês de salão das madeleines molhadas no chá, que o grande romance de Proust é uma riqueza que transcende sua forma física, é um ganho espiritual único sobre o mundo, a existência, o homem, e todos os assuntos pertinentes a esses sujeitos. Proust não é apenas literatura, mas um alargamento poderoso da consciência. Proust é, então, uma enorme responsabilidade, pois o que poderemos fazer depois para a manutenção desse espólio nos oferecido? Lolita é todo um belo caso clínico, não angaria nenhuma responsabilidade em quem o lê: vemos a derrocada mental de Humbert Humbert como quem vê a cena da formação do magma do vulcão em documentários extraordinários sobre as leis da natureza, como Planeta Terra, algo que deveria acontecer assim para fechar um ciclo lógico que serve a determinado fim inevitável, a formação de novas paisagens geográficas, no primeiro caso, ou a relojoaria estética da decadência significativa no romance, no segundo. Lolita não nos cobra pelo lado moral, é um romance amoral (não imoral, como querem uns poucos); nós, os adeptos à sua relevância palatável, o defendemos ardorosamente no que tem em sua íntegra e imprescindível gratuidade, contra a adjetivação pornográfica e pedófila do grande império das más intenções e más interpretações que se formou em torno dele. Nabokov não é um intelectual, é, tão e somente, um escritor. Ele não tem a mínima responsabilidade sobre o que escreve, pois não exige nada mais de ninguém a não ser o deleite sobre o que escreveu.

Virgens Suicidas vai num caminho oposto. Posso afirmar que Eugenides pretende ser mais que um escritor aqui. Eugenides almeja ser um intelectual moralista. Não há nada de condenável nisso, já que os maiores escritores da historia são moralistas. O que soa anacrônico é para quem Eugenides escreve, em uma realidade moderna em que o romance está na berlinda e apenas uma pequena classe de adeptos se importa com ele, e uma pequeneza menor ainda entre adeptos pretende que o romance atual comporte grandes revelações totênicas proustianas. Mas, na contramão dos prognósticos negativos, os escritores atuais ainda continuam, fervorosamente até, compondo romances.  Há os que falam sobre a banalidade do mal durante o nazismo (As Benevolentes), sobre a banalidade do atraso político revertido na banalidade do assassinato em série (2666), os que falam sobre a dessensibilização colorida e cosmética das relações humanas (Os Enamoramentos), os que falam de abraços entre renegados pela exaustão da vida, como paliativo contra a História (Soldados de Salamina), os que falam da dança e da amizade, como paliativo contra a História (Dia de Finados), os que falam sobre reinos metafísicos instalados na mais profunda esperança do mais profundo coração estoico (Contra o Dia). Pois a nenhum desses grandes romancistas por detrás desses livros mencionados escapa que suas mensagens devam ser enviadas por entre montantes de arte irônica, figurativa, sarcástica, metastaticamente imagética, prolixamente neônica, sexualmente instigante. A mensagem subliminar deva vir como um código por entre miasmas de satisfação imediata. Mas eles o fazem apenas até o limite a que vai a motivação moral que os levaram a optar pela escrita em um mundo em que as ciências humanas estão se apagando (me lembro agora que nesse ano sobrou um número recorde de vagas na Federal de Goiânia, para os cursos de humanas). 



Há uma parte em Virgens Suicidas em que um médico pergunta para uma das cinco irmãs por que ela tentara o suicídio, ao que a menina responde: "O senhor não sabe o que é ser uma garota de 13 anos". Na inesquecível cena final, é com uma artimanha sexual que as garotas conseguem realizar seu propósito, graças à eterna objetificação que os meninos da rua fazem delas. É graças à teatralização do sexo, que os meninos esperam ter, que as meninas conseguem atingir seu objetivo. O romance é narrado em primeira pessoa do plural, pelos adultos em que se tornaram esses meninos. As irmãs Lisbon, as virgens suicidas, são lembradas no que tem de fetiche consumível, seus cheiros estomacais, suas olheiras, seus cabelos louros desgrenhados, suas calcinhas usadas ajuntadas no inquérito policial e vistas após anos dos eventos. Por mais que os narradores tentem entender o motivo das mortes, é só com a extenuação das tantas hipóteses levantadas que eles conseguem vislumbrar uma razão, já no final do livro: "No final, as torturas que haviam dilacerado as Lisbon apontavam para uma recusa simples e lógica de aceitar o mundo como lhes era oferecido, tão cheio de falhas." Há na contracapa da edição da Rocco essa avaliação sobre o romance, como um lenitivo mercadológico: "ao contrário do que possa parecer, este livro é tudo menos triste". Se trata de uma enorme mentira, que o autor diagnostica no meio da narrativa, ao escrever "o que minha tia nunca conseguiu entender na América é por que todo mundo finge ser feliz o tempo todo". O livro é tristíssimo, e de um beleza inigualável. Mas para quem Eugenides fala, em um mundo onde a percepção da ironia se atrofia à velocidade assustadora, em que as sutilezas do discurso se perdem pela exposição massiva a reality shows grotescos, em que mesmo as pessoas que tiveram a melhor educação ortodoxa (ou, em razão disso), são treinadas a não se importarem mais com o próximo, a não ser através de redes sociais em que podem simular o amor de maneira efêmera e confortavelmente anestesiadas, sem compromisso? Talvez a lógica desse exercício contínuo da escrita não esteja de todo no controle consciente do autor, e ele é movido por um moto universal que esteve por detrás das estatuas da idade média cujos feitores as colocavam no alto das catedrais justamente para não serem vistas_ a mensagem sendo algo invisível e intocável, mas ainda assim não perdida, sentida por um cambiamento palimpséstico de alguma forma pertencente à espécie inteligente. 

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