quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Professor Paliki




Timos vestiu uma velha calça de brim azul escura, com bolsos fundos para levar as chaves, e se enfiou em um casaco de moletom cujas excessivas lavadas criara uma epiderme de bolinhas de lã visíveis a uma certa distância. Não escovou os dentes (como uma impressão inapropriadamente agarrada às normas de condutas sociais lhe dizia que seria de bom tom para estar em frente à secretária da Previdência), ajeitou de frente o espelho as mechas de cabelos que já estavam avançadas em tamanho tomando-lhe a testa, se sentindo um tanto envelhecido por aquilo que antes era para ele um sinal de juventude que sua mente nunca sentira a precisão de criticar e agora, sob a luz baça quebrada entre as imóveis sombras do banheiro, assumiam sem nenhum direito de argumentação uma idade interna que revelava uma degradação que ia além do simples passar dos anos. Um envelhecimento lhe confrontando na superfície refletora tão determinante que não lhe dava o direito sequer de ter vontade de se lamentar, algo que não trazia profundidade espiritual, mas obsolescência, gratuidade. Atravessou os poucos metros entre o banheiro e a porta da frente do apartamento, parou com aquela certeza na cabeça e olhou para a sala querendo, talvez, quem sabe, que naquele gesto tão desalentado em que se flagrava em sua sonora solidão algo se produzisse, uma fagulha de dramaticidade, alguma concessão do eterno que lhe aliviasse com uma visão extracorpórea que por um brevíssimo momento negasse aquela sua indubitável lucidez fisiológica. Nem que fosse o prenúncio revelado de uma doença fatal que estivesse lhe crescendo sem sinais, uma intuição de algo genuinamente mal que se importasse com ele o suficiente para dedicar um pouco de seu tempo cósmico em destruí-lo. Que falta nos faz o diabo!, pensou. Como a existência de grandes entidades milenarmente evanescentes resolveria as coisas, daria uma real autoridade ao silêncio. Como não há indícios novos de que existam, o silêncio então era algo inconcebível em sua malícia primordial, em sua insofismável tolice terrena. Olhou o colchonete em que dormia muitas vezes varando dias e noites sem se ater a que horas fazia no mundo lá fora, a bagunça que exalaria para narizes não acostumados (todos os narizes que não fossem o seu) um cheiro de fronteira animal estabelecida, de violência selvagem contra tudo que atentasse invadir aquele reduto separado do tempo. Estava saindo de lá para ajudar um amigo, era algo relevante. Por ele, voltaria ao esfriado lençol de duas semanas e renovaria com alguns minutos o calor que aos poucos, frágil mas efetivamente, se faria inviolável. O oco da árvore da criança órfã foragida.
          Trancou a porta com o molho de chaves_ havia um número absurdo de chaves junto com ele, do apartamento de sua mãe (que ela enfiou ali sem que ele visse), da clínica geriátrica, da caixa postal do prédio, uma cópia do banheiro do térreo (só ele que tinha, devido a uma necessidade antiga, que talvez nem mesmo o zelador se lembraria de tê-la emprestado e jamais tê-la pedido de volta), do cadeado da bicicleta. Havia outras cujo formato exótico, subversivamente arabescas para serem desse canto do mundo, o fazia se esforçar a saber-lhe a procedência, mas ele desistia em seguida, ficando a questão em aberto de como conseguira um fragmento de enigma tão exótico. O corredor do prédio exalava o frio silêncio contínuo riscado pelo zumbido dos exaustores. As outras três portas dos apartamentos daquele andar em silêncio sepulcral, parecendo que escondiam mundos misteriosos inimagináveis, gente sem traços étnicos reconhecíveis que tinham como único indício de familiaridade humana estarem ruminando em sono suspensivo seus pequenos dramas particulares. Timos sentia-se narcotizado pelas noites sucessivas de sono intermitente mas sua mente abriu algumas pastas de forma imediata, apontando o casal de idosos que estaria deitado na velha cama descansando suas íntimas e rumorosas conspirações, um casal polonês cuja filha farmacêutica trabalhava em outro estado, às vezes surpreendendo Timos se fazendo presente na porta entreaberta, com um saco de quitutes da mãe nas mãos que devia ter comida demais a ponto de parte perder a validade, mas que a filha, uma mulher de 50 anos que talvez passara por alguns casamentos mas agora, pelo que Timos via, era solteira, ou viúva, ou quem sabe beata, mas que havia sido filha desde sempre e reconhecia que uma das poucas sabedorias que se alcança nessa vida é respeitar as piedosas compulsões maternas de jamais imaginar que seu rebento possa passar um minuto sequer de fome. Inconscientemente, ao pensar assim, Timos esfregou um dos dedos da mão, ainda no bolso segurando o molho de chaves, na chave reserva que sua mãe emendara no anel prateado caso ele necessitasse ter que fazer a poética fuga de volta para casa, se ele algum dia se cansasse daqueles disfarces mal realizados de se bastar a si mesmo em sua maturidade errática, e cedesse a retornar para o antigo apartamento na rua das Flores.
             Nas outras portas, pelo que se lembrava, morava um homem um pouco mais velho do que ele, de óculos redondos de graus excessivos, magro e combalido, talvez alcoólatra, um professor de alguma disciplina decadente, empoeirada por alguma nota de nobreza de um mundo que não mais existia. Os cabelos colados em dois feixes por cima da careca oleosa, os olhos tendentes a se fixarem com interesse antropológico em Timos quando eles, por acidente, se viam na rápida consumação de usarem o corredor para logo em seguida sumirem um da realidade do outro no interior de seus universos solipsistas, concentrados de cheiros pessoais, no recolhimento de suas infâncias restauradas com a certeza de que ninguém os viam. Timos lhe dera um nome: professor Paliki. Era uma vergonha para suas pretensões humanistas que não soubesse o nome real desse sujeito, nunca se importara em averiguar na caixa postal, nos envelopes de correspondência, nunca perguntara a alguém _haveria de ter alguém que transitasse pelos perímetros daquele exílio que poderia lhe responder, assim como responder ao professor que o homem de olhar conspirador e insistente juvenilidade colegial chamava-se Timos, alguém cuja astúcia comezinha da urbanidade tivesse a funcionalidade tácita de equilibrar a insociabilidade dos indiferentes tornando-os toleráveis. Mas seria mais que liricamente justo que o avatar atribuído para si da existência do vizinho fosse a de um professor húngaro, com amplo conhecimento, ampla e triste sabedoria; pensando nisso ao descer as escadas, olhando a minúscula janela quadriculada molhada de chuva, ele descobre que fazer aquele homem um expatriado servia para o consolar, elogiar sua própria solidão. Não se recordava agora quem morava nas outras duas portas restantes_ enquanto chegava ao antepenúltimo lance de escadas fez um pequeno esforço em lembrar, mas desistiu_, mas do professor Paliki seu cérebro se ocupava com uma cuidadosa parcimônia, de uma maneira mágica chegava a vê-lo com nitidez em seu roupão de cachemira vermelho com as pontas do laço da cintura caídos com uma libidinosa displicência à frente; como se pudesse observar uma figura física, notou só agora seu olhar ludibriado pelas regradas delícias da introspecção, um olhar que tinha algo da desistência provocativa do suicida, um diálogo mantido constantemente entre os entes que habitam os porões secretos ameaçando-os com uma manha viciada em talvez algum dia reiterar aquela decisão postergada de pôr um fim naquele seu reino particular.
               Pisou o mundo lá fora. Chovia. Não como havia chovido a noite toda, com uma ira maníaca, obstinada, mas agora os lances de água vinham em um véu descontínuo, como se fossem o bufar dos estertores finais de um grande pulmão abatido. Não dava para ver o céu ainda, os dois postes de luz da rua só dando visibilidade ao ciclo de gotas prateadas volteando em um campo magnético de aleatoriedade um nível abaixo das lâmpadas, mas as grandes nuvens negras podiam ser pressentidas estendendo-se em quilômetros continentais além da cumeeira dos telhados. Fechou a porta do prédio deixando-a bater suavemente, julgando ter apreendido em um registro incorpóreo um resfolegar de sono vindo desconfortavelmente próximo de si; olhou a rua no sentido da direita subindo até uma zona de escuridão ventosa onde estava a praça na direção que tinha que tomar, e puxou a gola do casaco para de encontro o pescoço. Mais uma vez um instinto muito profundo o questionou do por que não estava em seu quarto, tentando resolver sua questão fisiológica com o sono. Não era um começo de dia convidativo. Era um daqueles dias que uma verdade fundamental sobre a força incontestável da indolência colocava por terra as eternas preocupações sobre o fim do mundo pelo avanço ilimitado do capitalismo. Noites como aquelas, que prosseguiam em dias inamistosos para a ação, tornavam claro que era mera questão de se alcançar o arranjo certo que coincidisse com a temperatura ideal para que todos cumprissem a ideia de plena felicidade humana de não se sair mais de casa. Não se perturbar mais uns aos outros. E pensar que minha mente narcotizada acaba de ver o sistema de Schopenhauer posto em prática nessa rua sombria, pensou. Avançou pelo calçamento.

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