terça-feira, 2 de maio de 2017

Matheus



Eu me forço a acreditar que a internet dá voz ao estúpido que existe dentro de cada um. Os comentários à matéria no portal de notícias da Globo sobre a recuperação do jovem Matheus da Silva, que sofreu uma tentativa de assassinato por parte de um policial militar nas manifestações do último dia 28, em Goiânia, são assustadores_ mais, são desmotivadores. Leva-se a pensar que o Brasil merece mesmo Bolsonaro. Há uma legião de pobres coitados esbravejando violência e rancor contra Matheus e defendendo o policial. O nível de humor dessas pessoas é a de dizer que a PM deveria reforçar o cassetete para que nas próximas vezes ele não se parta. São seres mais ainda do que simplesmente destituídos de senso crítico, humanismo e o mínimo de independência mental para conseguirem pensar por si mesmos, mas com sérias doenças espirituais. Eles mesmos são as vítimas do que vociferam, e não sabem disso. O Matheus é um desses indivíduos com coragem, o que o coloca em um patamar de segurança mais elevado do que dessas pessoas; já elas, atrás da inanição de seus Facebooks, atolados em suas condições de cidadãos beirando a miséria em sub-empregos e morando em cidades terríveis, em um país que está por agravar ainda mais a pobreza de suas vidas, são repetidores de clichês, na acepção perfeita do retrato que Hannah Arendt fez de Adolf Eichmann: cidadãos "de bem", sem cérebros e sem corações, sem almas e sem voz. Apenas comandados. Eles são bem mais indefesos do que o jovem que está em coma induzido, com parte do crânio passando por uma série de cirurgias reconstrutoras. Mas aqui uma lembrança: 4 anos atrás um primo meu caiu da ponte de um viaduto, na mesma cidade onde Matheus sofreu sua tentativa de assassinato. Por questões de superfaturamento, a paliçada da ponte, recentemente construída, cedeu quando ele se escorou nela, e ele despencou 10 metros até a via onde os carros passavam. Um carro parou, entre tantos que desviaram do corpo. Desse carro, saiu um casal de jovens, e o que eles fizeram foi maravilhoso. A moça fez respiração boca-a-boca em meu primo, sugando e cuspindo o sangue que obstruía a faringe dele, e o rapaz fez os outros procedimentos para imobilizá-lo em uma posição que fosse a minima lesiva possível para não agravar ainda mais o quadro de tantos ossos partidos em que estava meu primo. (Nenhum deles é médico; meu primo é negro: isso faz uma diferença ainda maior no caso.) A ambulância chegou e eles acompanharam meu primo até o hospital público. Uma médica que estava saindo do plantão e que ia pegar um avião para participar do aniversário da filha no dia seguinte no Chile, adiou a viagem e, por ser a melhor cirurgiã da equipe, realizou a cirurgia de 6 horas para tentar fazer com que o Gustavo, meu primo, sobrevivesse. Ele sobreviveu, após 87 (87!!!) cirurgias, inclusive a de reconstrução do crânio (o que me lembra Matheus). É para essa lembrança que eu vou quando eu vejo bestialidades como essa do Portal: para essas pessoas iluminadas, pessoas comuns e iluminadas. Matheus é um rapaz lindo, culto, esclarecido, o que me faz pensar que esses detalhes aticem ainda mais o rancor desses homens e mulheres de palha, "com o elmo cheio de nada". Matheus já não corre risco de morte. Eu não sinto pena de sua mãe_ sinto o enorme pesar porque, eu sendo pai, sei que é a pior dor indizível e inimaginável. Sentiria pena da mãe do policial que fez isso a Matheus. Eu sempre tive a certeza de que é melhor, muito melhor, estar na extremidade que faz o cassetete quebrar, do que na outra ponta que o segura. Matheus é um orgulho; os jovens que socorreram meu primo são meus orgulhos; a médica adiou tudo para salvá-lo é meu orgulho. Nesses seres humanos é que eu me firmo.

3 comentários:

  1. Não conheço o caso do post, embora tenha ouvido nos noticiários portugueses a falar de violências em manifestações em cidades brasileiras, mas de facto a bestialidade que existe em tanta indivíduo amplia-se frequentemente em ações de massa. Já não sei onde li, mas mostrava a estupidez humana em canalizar a raiva do protesto em muitos dos seus conflitos ao dizer "quando o povo com fome vem para a rua protestar a primeira coisa que tende a destruir são as padarias e os mercados de alimentos".
    Curiosamente mesmos nas manifestações ideológicas contra decisões bélicas penso que no tempo de Tony Blair, os vândalos destruíram supermercados, padarias, lojas de marcas mas nem olhavam para as livrarias... estas saíram incólumes aos vandalismo, livros eram mesmo algo de estranho a essas mentalidades que desviam o seu descontentamento vitimizando terceiros que sobrevivem do seu trabalho.

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    1. Carlos, o Brasil está passando pelo pior período de sua história moderna. Há uma ruína moral, social e política por aqui sem precedentes. Estamos bem próximos de uma guerra civil. Toda a base da nação está seriamente comprometida, e o país se sustenta por um fio. Infelizmente, as reações apresentadas mostram a recíproca exata da violência com que os criminosos em todos os poderes tem tratado a população. Ninguém é a favor da depredação de Bancos e instituições e locais públicos, assim como ninguém é a favor de ter que acionar uma pistola contra uma pessoa por legítima defesa. Mas os políticos daqui não se constrangem; manifestações pacíficas já se provaram inúteis e contra-producentes (acabam dando mais autoridade aos facínoras). Vivemos uma época nefasta, aqui, na Espanha, na França, em muitos lugares do mundo. Muitas das pessoas que estão por detrás e dentro dessas manifestações são má intencionadas, fazem parte de máfias de muitas vertentes; mas há uma boa parcela de pessoas combativas que estão lutando sinceramente por melhoras gerais . Matheus é uma delas.

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  2. Dá para perceber daqui a sensação de falta de uma solução para o Brasil, houve um tempo em que se tinha a ideia que havia uns corruptos que tomaram o poder e outros que lutavam de fora, sem nunca o terem dominado, que estavam limpos. Agora parece que o país só tem líderes de mãos sujas de corrupção nas várias alternativas, deve ser mesmo frustrante olhar para a política e os políticos e perceber que a sujeira é transversal e universal a todos.

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