terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O deus abandona o sr. Flibas (pequeno excerto)






Não havia um dia nesses últimos anos em que o sr. Omeno Flibas não acordava antes de que o relógio despertador soasse as seis horas da manhã, e se punha a ficar em um imóvel e aparente estado de pânico debaixo dos lençóis, atirado nos mais desalentadores pensamentos. Aguentava o passar das horas a ponto de a surpreender em pleno estado de lucidez: suportar o tédio parecia ser seu atributo mais corriqueiro, senão o único, de maneiras que se achava preparado para fechar o ciclo de sua existência de sete décadas e meia com esse resumo sucinto de vida.Também tinha outra coisa: como um clichê a ser repetido daquele filósofo grego vacinado da astúcia que no final assumiu não saber nada, contraditória e tolamente tendo morrido em nome de um conhecimento em que não acreditava, da mesma forma o sr. Flibas sentia o peso de uma nunca alcançável verdade pairando sobre si, montado sobre seus ombros e dali não saído mais. Não tinha mais os tantos livros que costumava levar tão zelosamente para todas as residências em que tentara estabelecer o preâmbulo do seu lar permanente; havia aberto mão da grande maioria deles, muitas vezes com um pouco caso forçado que anos antes lhe teria partido o coração, dado alguns para pessoas cuja incorreção era flagrante não por seus fracos vínculos de amizade mas porque as chances seriam bem poucas que algum dia fossem lê-los; ou esquecera alguns propositalmente em taxis, em hotéis, em praças; uma vez deixara em um sobressaltado sossego por sobre a lápide de sua esposa um volume do que para si justificava o abandono ser a filosofia teutônica oitocentista que já lhe perdera o sabor e a relevância, não sabia se aquela sumidade pomposa que teria suas estruturas caóticas disfarçadas de ordem geométrica molhadas pela chuva sido da escola dos românticos ou dos ultra-realistas. Certa vez, sem a graça de possuir a exultação do milionário abnegado que deixara sua herança em vida para desconhecidos, simplesmente jogou uma de suas edições mais preciosas numa cesta de lixo quando voltava por uma rua vicinal até sua casa. O que lhe parecia estranho era que ninguém dera por falta de seus livros; nenhuma das pessoas que faziam parte de suas rotinas a ponto de algum dia terem se detido mesmo que distraidamente na constatação de que era um senhor que vivera em função deles_ seu filho e sua filha, alguns ocasionais colegas de trabalho que visitaram sua antiga casa_, dera pela falta das filas de lombadas irregulares, couros de tantos animais sacrificados servidos para manufaturar aquelas crepusculares vestimentas de proteção, que não desvirtuava a elevada sensação de uma opressiva cercania espiritual que não poderia ser ignorada. Ou eles sabiam que após ter que abandonar sua casa, a casa onde ele e sua esposa viveram em retrospectiva e re-avaliativa harmonia por tantos anos, a dor da readaptação da viuvez em ambientes constrangedoramente menores e com o adendo de novas companhias, sem os livros, seria tamanha que o silêncio sobre a questão era a melhor e mais compadecida das escolhas. Ou eles simplesmente eram como a maioria reinante sobre o planeta: achavam que aqueles tomos eram tão falhos na aquisição da verdade que a massa que formavam de ignorantes de divinatórias onisciências, condutoras reais e sem firulas da força da história, os desprezavam a ponto de não lhes darem nem a mínima catalográfica importância. Havia se livrado deles, que bom.

Nenhum comentário:

Postar um comentário