quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A pior tradução brasileira





A decepção foi enorme. Comprei uma série de livros na Fnac esse mês, entre Brecht, Kafka, Agatha Christie..., e juntei uma edição nacional de Oliver Twist no monte. Eu havia lido O adolescente e, como é de praxe nos inícios de ano, estava sedento por ler os autores do século XIX, que, nesse período do ano (e em vários outros também), me assola a certeza de que foram os melhores da literatura. Estava tão empolgado que meu senso crítico ficou suspenso, pois li que a tradução era de Machado de Assis, que em certa altura havia desistido dela, e completada pelo Ricardo Lísias. Outro erro terrível foi me deixar levar pela capa: o livro é lindo, em formato de bolso e com capa que faz honras ao universo de Dickens, com uma foto antiga de Londres, lançado aqui pela editora Hedra (uma editora digna, por sinal, que tem em seu catálogo coisas como o Diário de escritor de Dostoiévski). Foram erros porque me esqueci de fazer a pergunta capital: grandes escritores são bons tradutores? Se tivesse feito essa pergunta que todo leitor treinado tem obrigação de fazer quando detêm um volume desses em mãos, não teria caído no engodo. Alguém fala sobre as traduções que Borges fez de Faulkner (a maioria dos leitores de Borges sequer sabe disso)? Saul Bellow é conhecido pelas traduções do iídiche para o inglês que fez de Isaac Bashevis Singer? Dostoiévski é lembrado pelas traduções de clássicos juvenis franceses? A resposta é um fatídico e encerrado não, o que teria resolvido a questão sem traumas e teria me economizado uma bela grana.

Tendo-o comprado, de imediato meu subconsciente soou um alarme fraquinho mas contundente, e desde quando saí da livraria eu sabia que tinha feito besteira. Estava viajando sozinho e na lanchonete onde comi os pães de queijo, a 100 quilômetros para chegar em casa, me enganava prevendo as horas acolhedoras em que breve estaria com esse Dickens nas mãos, e no fundo aquela certeza tranquila de que seria algo inviável. Eu me ria calmamente de mim mesmo. Chegando em casa li o prefácio do Ricardo Lísias. Fui tomado por uma ira que me faltou jogar o livro bem longe, o que não fiz apenas porque isso daria uma importância desmedida ao objeto e porque o eu que se ria de mim mesmo balançou a cabeça me desobrigando de tal dramalhão, já que na verdade eu sabia desde o início o que fiz. Acho que foi 55 reais, foi isso. 55 reais jogados fora. Pensei em dar o livro para algum amigo, mas aí seria insultante e pouco ético. O que fazer com aquilo? Ao menos servia para consolidar duas certezas: ali estava o livro em minha biblioteca que eu poderia afirmar peremptoriamente que jamais leria; e de que ali estava, enfim, a pior tradução brasileira. Não se precisaria queimar a pestana, para ficarmos com uma expressão corriqueira da época saudosista na qual eu queria me afundar, com a questão de qual tradução feita no Brasil: era esta, a de Oliver Twist, feita pelo Machado de Assis e pelo Ricardo Lísias. (Restava agora ler Ricardo Lísias, para ver se ele entrou mesmo que erraticamente para o grupo dos grandes escritores com aquele rito da tradição em ter feito uma tradução que deveria ter sido definitivamente esquecida.) (E um adendo: a intenção da Hedra, pelo visto abortada, se firmava em uma nobreza ingênua e deletéria, que era justamente uma coleção de traduções feita por escritores relevantes!!!)

Vou explicar: Lísias diz, timtim por timtim, o que Machado cometeu. Machado usou uma versão francesa da obra; Machado cortou parágrafos e páginas inteiras do original; Machado resumiu parágrafos inteiros em toscas 3 frases; Machado incluiu de próprio punho frases explicativas no texto; Machado excluiu a ironia e o sarcasmo dickensianos, substituindo-os por composições retilíneas para, no que parecia sua intenção, tornar a coisa assimilável para o leitor brasileiro. E o pior disso tudo? O pior?? (Puta merda, me dá uma vontade de rasgar a desgraça do livrinho agora). O pior meus amigos... é que Lísias conta isso tudo como se esses crimes fossem primores da genialidade de Machado de Assis, o grande escritor brasileiro! Lísias faz um texto bonito, sério e bem acabadinho, em que firmemente diz que tais estupros machadianos são feitos que devem causar êxtase no leitor, por este estar de frente a uma peça histórica de evidência incontestável da genialidade do autor brasileiro. Lísias parece desconhecer, em um nonsense que beira Monty Python e uma versão inversa de Pierre Menard, que Oliver Twist foi escrito por um inglês chamado Charles John Huffam Dickens, e não pelo totêmico autor de Memórias póstumas de Brás Cubas. Todo o texto de Lísias é uma obra-prima do indutor do ódio no leitor que comprou o livro pela razão óbvia de querer ler Dickens, pois trata absurda e unicamente de Machado de Assis, com notas comparativas de que também Machado escreveu um romance de folhetim, e que Machado tal e tal coisa, e que Machado aquilo outro. Que lapso cerebral grave Lísias sofreu para achar que alguém iria comprar Dickens querendo ler Machado? E, para coroar a coisa, Lísias diz algo no estilo de que foi uma grande responsabilidade completar a tradução de Machado, mas que abriu oportunidade para também ele ser criativo na tradução (!!!!!). Minha ira era tanta que eu queria dizer essas verdades para o Lísias, e daí me veio a revelação que eu não estava mais na década de 1980 e podia fazer isso, que eu tinha um Facebook e inclusive tinha amigos ali que eram seguidores dele. Liguei a máquina e teci um texto longo, podado o máximo possível de paixões e equilibrado o máximo que minha etiqueta social permitia, e enviei para Lísias. Ele, horas depois, "aceitou minha solicitação de amizade". Que diabos era isso? Eu mandei uma mensagem para ele e em resposta ele aceita minha amizade? Devo ter feito algo de errado e a mensagem não chegou, porque eu sou muito burro em questão de Facebook e porque, acima de tudo, não havia as tais linhas quebradas no final do meu texto que indicavam que o receptor as recebera.

Machado de Assis mutilou o livro de Dickens porque achava que o brasileiro não compreenderia as sutilezas e ironias. O que se pode dizer sobre isso? O livro mais popular da época, traduzido em todo o mundo?

Uma obsessão da minha família, creio já ter dito isso antes, é a instrução. Minha mãe me colocou cedo no CCAA, assim como minha filha Júlia, de 6 anos, já está no terceiro semestre de inglês. Fiz oito anos de inglês; fiz um ano de francês e saí porque não suportava a língua. Aprendi espanhol lendo os autores espanhóis e hispano-americanos não traduzidos aqui. Li os principais romances de Bellow no original, após lê-los em tradução nacional. Li Conrad, e li The Pickwick Papers, e 3 dos meus livros preferidos de Faulkner, no original. Lia mais em inglês antes de me mudar para o interior e perder bastante a ginga para o idioma. Mas eu não gosto de ler em outra língua que não seja o português. Não é a mesma coisa. A coisa não flui, meu lado escritor não aprende se não for em português. Descobri que não existe tradução decente de Oliver Twist para o português. O texto mais acessado deste blog é o que trata das prostituições feitas nas traduções de Dostoiévski, mas vejo que Dickens foi bem mais mal tratado por aqui do que o russo. Isso de achar o leitor brasileiro inapto à compreensão parece ser um mal entre alguns tradutores. Recentemente li em uma tradução de um badalado romance norte-americano a letra de uma canção do Legião Urbana no diálogo entre dois personagens. Isso, para mim, é sinal de adulteração grave, de subestimação da inteligência do leitor. Uma das minhas constatações mais valiosas é de que no Brasil existe uma grande quantidade de ótimos leitores. O brasileiro padrão não lê, mas o brasileiro que lê é um engajado e lê bastante (se não fosse assim, não haveria explicação do por que o mercado editorial brasileiro é um dos mais ricos e atuantes do mundo). Não é o caso de cobrar respeito, porque temos ótimos tradutores, mas, talvez, o caso de cobrar humildade, e nenhum ufanismo.

10 comentários:

  1. Comentário que fiz neste blog em 17/11/14:

    Estou lendo Os Miseráveis, que é enorme, então de vez em quando leio outros livros para dar um descanso, ainda mais porque no meio da narração tem uns ensaios longuíssimos sobre coisas diversas, como gírias, esgotos, a miséria, ou Waterloo. Peguei Os Bandoleiros, de Schiller, em edição da L&PM, cuja capa, curiosamente, é um recorte da mesma pintura de Delacroix, e que depois vi mencionado no Hugo.

    Os Miseráveis tem umas 1200 páginas (páginas grandes, vale dizer), prosa densa, muito name-droping, e umas 800 notas, a maioria sobre referências históricas obscuras da França, Grécia e Roma. Um despropósito justificável.

    Os Bandoleiros é uma peça, um pequeno livro de de bolso dumas 200 páginas. Com tradução (ótima, por sinal) e notas de Marcelo Backes. Mas é de lascar que sejam elas 180 (sim, 180 notas!!!) Algumas me subestimam, como as notas sobre Alexandre e Júlio César que me fazem pensar: "Schiller não é o primeiro escritor da vida de ninguém. Se alguém percorre qualquer caminho até ele, essa pessoa simplesmente SABE quem foram César e Alexandre". Mas o que me mata mesmo é a legião de notas explicando ou ressaltando o que estamos lendo, do tipo: "Note-se a mudança do tratamento, da segunda pessoa do plural para a segunda do singular, por isso e aquilo e etc.". Pô, deixa o cara ler a peça! Junta essas notas e faz um ensaio no final! E o pior é que eu lia os diabos das notas involuntariamente, eu tenho essa mania. Um despropósito injustificável.

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  2. E aqui o pedaço de meu e-mail pra Charlles:

    Olha a ironia, meu TCC foi exatamente sobre essa tradução. Li Oliver Twist em inglês, comparei com Gerardin, Machado, etc. Olha um trecho em que falo disso aí que você reclama:

    [Encontra-se certa estranheza também na tradução da sentença seguinte:

    And in this workhouse was born; on a day and date which I need not trouble myself to repeat, inasmuch as it can be of no possible consequence to the reader, in this stage of the business at all events; the item of mortality whose name is prefixed to the head of this chapter. (DICKENS, 1994, p.02).

    A tradução de Machado é tão resumida que nem se precisa fazer recuo de parágrafo para citá-la: “Lá em certo dia, cuja data não é necessário indicar, tanto mais que nenhuma importância tem, nasceu o pequeno mortal que dá nome a este livro” (IDEM, 2002, p.23). É interessante que ele não utiliza na tradução exatamente a evocação ao leitor, como se encontra em abundância em seus romances (o que Gerardin, por sua vez, faz).]

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    1. É cômico que procurei outras referências sobre essa tradução e li textos em pdf, e em todos há um respeito sagrado pelo Machado. Não vejo isso como saudável não. Uma pitada de Nabokov é importante nessas horas, rs.

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  3. Pode ter sido um desperdício de dinheiro para si, mas para mim valeu a pena dessa compra ter resultado este post com um texto tão expressivo.
    A indignação por vezes alimenta a criação e este post expõe um protesto de uma forma que não só ensina aos outros a não caírem no engodo, como ainda é uma maravilha de texto.
    Pois Machado nessa altura deveria estar sob o signo de O alienista. :-)

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  4. Obrigado por ter voltado a escrever neste espaco. Obrigado por nos livrar dos dissabores das traduções capengas. Amém!

    Ricardo Thomas Kober

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    1. Defendo que comentemos por aqui. Além de fugir da dispersão do face, fica no Google para a posteridade.

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    2. Valeu, Ricardo!

      Concordo com o Paulo, como quase sempre.

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  5. Caralho, eu odiei O Adolescente...

    O Lísias é legal, o Machado é legal, mas pessoas são idiossincráticas, você sabe, além de idiotas.

    Dá pra ser genial sendo idiota. Todas as pessoas geniais que conheço são assim.

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    1. Se fosse caso de idiotia eu nem teria me ligado; o problema é que se trata de preguiça no caso do Machado, e de babação de ovo no caso do Lísias. A idiotice seria um tanto mais nobre.

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