terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Inteligência

O maior benfeitor humanista da minha cidade não é o presidente da OAB, nem o padre ou o pastor, nem o pessoal do sindicato ou os dois artistas plásticos, nem os dois acadêmicos com títulos de doutorado. O maior humanista que vem contribuindo, solitariamente, para a melhora das condições sociais é o dono de um pequeno armazém que, apesar de pequeno, vive lotado de consumidores. Esse senhor trabalha da seguinte forma: sua margem de lucro é mínima, devido aos preços dos produtos serem bastante reduzidos; ele não explora seus trabalhadores, abrindo pontualmente às 8 horas da manhã e fechando pontualmente às seis e meia da tarde (ele fecha os portões corrediços para avisar os clientes que é hora de ir embora). Em seu armazém tem de tudo, mas de tudo mesmo, o que não tem nos outros mais sofisticados: tem desde macarrão furadinho do pacote azul de 5 quilos, até o vinho do Porto e chocolates alemães. Seus preços são absurdamente mais baratos que nos concorrentes, de forma que os outros admitem que não são concorrentes, não tem como se firmarem nessa categoria. Os produtos são cerca de 20 a 30% mais baratos. Achei meu vinho do Porto lá, uma vez, 25% mais barato, e desde então o dono vem encomendando mais Porto. Por incrível que pareça, ontem o Porto estava ainda mais barato. Parece absurdo, impraticável, financeiramente um suicídio, mas ele já está rico com isso. Não há uma hora em que eu vá lá que o espaço não esteja abarrotado de gente com os carrinhos cheios. Em contrapartida, o maior supermercado da cidade está já com o decreto de falência assinado: recebeu uma multa trabalhista de 700 mil reais por exploração de seus trabalhadores e não lhes pagar as brutais horas extras, e seus preços exorbitantes o torna ainda mais fadado ao fracasso. A realidade desse supermercado é a realidade corrente em minha cidade, com funcionários ganhando abaixo do salário mínimo e trabalhando 12 horas por dia_ no horário de verão fica pior, porque eles abrem ainda mais cedo e saem ainda mais tarde. É isso: não é necessário bondade e altruísmo para o brasileiro, mas inteligência. Com inteligência se fica rico, é uma mera questão matemática e, como adendo, as consequências para a dignidade humana e a diminuição da desigualdade social sempre vem.

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