sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Um salutar esclarecimento



Estou em estado de choque. Eu sempre vejo na linguagem das pessoas pela internet o uso de sinais gráficos dos mais simples aos mais complicados. Não entendo quase nenhum deles. Tirando o solzinho que ri, tudo o mais para mim é um mistério matemático. Tenho um traço de inveja mal digerida quando vejo a rapidez da galera em se comunicar com esses caracteres. Já que eu não entendo, fico igual um estrangeiro em uma terra estranha tentando descobrir os significados pelo contexto do gestuário. Desse modo, um dos mais enigmáticos símbolos desse descolado idioma jovial, que sempre me deixa embasbacado, é esse :3. Passei toda a minha vida desde que criaram essa belezura dando uma compreensão muitíssimo particular para isso. Quando alguém finalizava uma frase com :3, eu dava um sorriso torto diante o que me parecia o grau de liberdade que a geração moderna possui. Como essa gente é despojada, fazendo esse sinal :3, eu pensava; como eles são descomplicados em velhas questões pudicas defasadas. Uma vez vi alguém falando para uma moça que ela era muito gostosa, e tasca um :3. E a moça sorri de volta. Então não é um insulto, eu pensava, fascinado. O rapaz elogia a moça e destrói tudo numa ironia grotesca de dizer que ela era tão bonita quanto :3, e está tudo bem, um mundo de simpatia. Se esse símbolo fosse mais ancestral e fosse usado em minha época, daria morte, eu penso. Morreu porque encerrou uma frase para o outro dizendo que ele lhe soava tão divertido quanto um :3. Daria um desses contos de duelo pela honra nos pampas escritos pelo Borges. E aí hoje eu estou conversando com uma amiga e surge o ensejo de falarmos sobre esses caracteres. Eu digo que demorei a me acostumar com o :3, que as primeiras vezes eu até pensava em bloquear e tomar satisfação e essas coisas, mas depois vi o quanto de leveza havia nisso, de mandar o outro :3, como era cool e moderno. Depois de um silêncio do outro lado, essa amiga, depois do que parece estar contendo um ataque de pleurisia, consegue me dizer que o :3 nada tinha a ver com o que eu vinha pensando. Não era nem de longe mandar um beijo no cu.

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