sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Escrita



Tente ler as letras do Dylan sem as melodias e se saberá o que é poesia literária e o que é letra de música. Essa comparação entre Dylan e os poetas orais, como Homero, é uma falácia. Homero vem de um tempo em que a literatura impressa não existia ou estava longe ainda de se firmar em sua tradição ortodoxa. Hoje a literatura é uma manifestação espiritual humana consolidada, e com isso tem seus dogmas e suas regras. Escolher Dylan para o Nobel é um tanto mais grotesco e ofensivo quando se pensa nas outras opções vindas do próprio país do cantor: dois dos maiores escritores dos últimos 50 anos são norte-americanos, Philip Roth e Thomas Pynchon. Não é questão de conservadorismo, é questão de respeito e saber sobre o lugar de cada coisa. Eu não preciso aqui dizer que sou ardoroso fã de Dylan (o que de fato eu sou há mais de 25 anos) para ter autoridade em refutar essa escolha da academia sueca. Basta conhecer um pouquinho só sobre as maravilhas da literatura contemporânea e sua importância para a melhoria humana e combate à alienação tecnológica para se ter o bom senso de perceber que esse prêmio de 2016 é muito mais que uma simples leviandade: é no mínimo uma propaganda às forças da dissipação mental e do conformismo. Quem escolhe Dylan para o mais importante prêmio literário em vez de Roth (para ficarmos apenas nesse exemplo, entre 30), é porque nunca leu Roth para saber do gritante descompasso de uma coisa dessas.

4 comentários:

  1. Charlles, pelo menos as chances do Paulo Coelho aumentaram, já que como letrista ele é infinitamente superior ao romancista hueheueheuehue.

    ResponderExcluir
  2. Tapa nas fuças americanas e velhas de Roth, Pynchon e McCarthy.

    Sim, Murakami um dia ganhará - e Marias não.

    Foda-se essa merda, suecos filhos da puta. (E o Nobel da Paz que foi para Juan Manuel Santos? Demência.)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. "This feels like the lamest Nobel win since they gave it to Obama for not being Bush" - algum poeta do Twitter (se aplica tanto ao Dylan quanto ao Santos).

      Excluir