quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Escola de princesas



Escola de princesas: mais um modismo vazio do Facebook, esse de estereotipar o que é certo e o que é errado na educação cultural de uma criança.
                                                                                           
 Minto: sendo direto, essa nova moda é um policiamento estúpido e machista que recaí sobre a educação específica das meninas. Trata-se da condenação do que passou-se a chamar de "escola de princesas". Menina inteligente é aquela que repudia a premissa e a estética da clássica figura da princesa. Menina inteligente é aquela que mostra o quanto pode se antecipar em seus posicionamentos assumindo uma maturidade precoce ao se submeter ao desejo dos pais de arvorar uma consciência política.

Daí então as consequências mais bizarras: fotos de meninas"amalucadas", "adultizadas". Em uma dessas fotos uma menina vestida de cachorro-quente no que parece ser um evento escolar onde suas outras amiguinhas estão todas com longos vestidos de princesas. Compro 3 livrinhos para a Júlia de uma tal coleção anti-princesas, para ver como é que é.

São sobre a Clarice Lispector, a Frida Kahlo e a Violeta Parra. Ontem lemos todos esses três e ela adorou, como sempre. Gostou especialmente da Violeta Parra, quando lhe identifiquei que era a compositora de um monte de música que ela adora: ela quem canta como el musguito en la piedra, papai? E me pediu para definir o que quer dizer "anti-princesas", e eu disse: são as mulheres que se tornam doutoras, professoras, cantoras, escritoras, pintoras, ou qualquer outra dessas coisas, e são independentes para fazerem o que bem quiser. A aí eu pergunto, fazendo teatro circense com minhas duas mãos levantadas como se segurasse em cada qual uma opção: o que você quer ser, princesa ou anti-princesa?, e ela me responde: anti-princesa. Mas daí ela faz uma de suas caras enfezadas e me dá uma bronca: mas não quero que você deixe de gostar das princesas, ela me diz, e prossegue: eu adoro as princesas, a Cinderela, a Rapunzel e a princesa Sofia. E eu respondo: mas também as adoro, e quero que você continue as adorando, não há nada absolutamente errado com isso.

Pois bem: há uma série paralela de livrinhos de anti-heróis, com apenas dois títulos: Cortázar e Galeano. Imagino porque tem apenas dois títulos: porque não vende. Não vejo posts na internet de pais preocupados em substituir o Homem-aranha, o Homem-de-ferro e o Capitão América, na leitura de seus filhos homens, pelo Cortázar e pelo Galeano. Suponho até que exista uma inerente preocupação nunca confessada desses pais de que submeter seus filhos homens a tal privação da cultura do herói possa afeminá-los ou torná-los pouco competitivos.

Para o menino pode o esteriótipo do herói, macho provedor, guerreiro de fronteiras, halterofilista socorrista com armas e violência, uniformes de facções de guerra e coalizões de fardados em prol da destruição de inimigos identificados. Para as meninas, a exposição à Branca de Neve parece-lhes letal, algo que futuramente pode tornar suas filhas páreas sociais, pode lhes incutir algum transtorno sexual mal visto pela comunidade. Um amigo pediu para comprar com meu cartão de crédito esses livros das anti-princesas para sua filha, e a ironia é que ele coleciona gibis de heróis da Marvel.

Eu comprei para a Júlia esses livrinhos depois, e... que bom que ela gostou, mas eles são um pé-no-saco. O Leandro Karnal disse uma coisa que, de primeiro, eu achei um absurdo, mas fui pensando e vi que ele está absolutamente certo: nenhuma criança e adolescente é susceptível à ideologia. Como não? Não é justo nessas fases que se formam os gostos, e não são essas fases os alvos das campanhas publicitárias mais massivas? Daí eu me reavaliei em meu período em que eu fui criança e jovem, e descobri que eu nunca senti o mais leve impacto das ideologias professadas pelos professores. Eu me deslumbrava com certos matizes ideológicos, mas nunca vestia a camisa de nenhum time. Baseado nisso, vejo o quanto é estúpido esse temor paterno e materno em fazer seus filhos seres-humanos esclarecidos e competidores perfeitos (porque a razão desse repúdio das "anti-princesas" é apenas esse: a de que as filhas possam prescindir de maridos e entrarem no mercado de trabalho por conta própria).

A criança tem que ser criança, e só. Tem que ter escapismo, sonhos, castelos medievais, raios laser, etc. Criança tem que ter liberdade de imaginação irrestrita, porque é isso que as tornarão independentes no futuro. Isso é que dá a emancipação.

Um comentário:

  1. Acho que tem a ver:

    http://omundocomoelee.blogspot.com.br/2010/04/as-dez-denuncias-do-psicanalista-adam.html

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