terça-feira, 6 de setembro de 2016

O silencioso constrangimento do Clube do Idelber depois que seus exercícios de relativismo perderam a validade (comentários meus de seis meses atrás)



Eu acompanho meio a meio os textos do Idelber pelo Facebook. Alguns são razoáveis, mesmo exemplares de um certo “estilo revoltado e lúcido”. Mas essa nova posição política de ser do contra que ele já vem assumindo há alguns anos, não deixa de ser despropositada. Quem não lembra dele em seu extinto blog dizendo com todas as letras que em seu site e nas redes sociais fazia franca propaganda eleitoral da Dilma? Era algo tão descarado que chegava a ser histriônico. E agora, agora o que acontece? Ele simplesmente “virou a casaca”, como se diz, agora ele só lança pedras e bombas. Como se toda a culpa, a gigantesca culpa da desilusão ideológica e do desgaste político fosse tão somente do PT. Ele e os outros asseclas louvadores de outrora, que faziam o marketing heroico de um Lula iconográfico do porte de um Guevara, e de uma Dilma redencionista com pose de busto de mármore olhando fixamente para o futuro, simplesmente se eximiram da responsabilidade e abandonaram o barco. A única deliciosa herança que sobrou da catástrofe foi a inspiração para escrever textos pelo Facebook, usando a tão relativizável erudição acadêmica. Retórica sinfônica, com final catártico bombástico, e o primeiro propalar de “gênio” deixa o rastro pavloviano do que segue na caixa de comentários. Simples assim, né? Toda a dialética que eles deveriam ter usado na fase de instrução política do partido, no papel clássico de intelectuais de esquerda no momento supremo em que a esquerda toma o poder, agora eles a esbanjam no rancor e no recalque. Antes o aplauso absoluto, com o mergulho numa epidemia asquerosa de um politicamente correto (em que gerou textos constrangedores como comparar Cortázar a ÉoTchan e o jazz e a música erudita e a MPB com o funk ostentação, igualando tudo), agora a vaia escancarada.

E o Brasil que se exploda, contanto que essa lucidez diária fragmentária e de baixa comburência continue a exaltar o público desproteinado da internet. Zizék escreveu com profundidade sobre a necessidade de auto-crítica ferrenha da esquerda, mas o que fez o Clube do Idelber com o Zizék? Passou a chamá-lo de estúpido e todos os demais qualificativos de praxe dos vaidosos haters do Facebook. Depois de todos os arquétipos desgastados, sobrou por último esse: o de agora ser o porta-voz do rancor pelo sonho esfacelado, o que exige um contraditório abraço às teorias de Zizék, para que possa repetir o bordão zizequiano de “com essa esquerda, quem precisa da direita”.

Mais uma vez, quando o país precisa como nunca precisou antes de seus intelectuais combatentes, na iminência de que a democracia, a ordem social e tantas outras coisas estão por ser lançadas no buraco, esses caras se aprazem a ser meramente palavrosos, sentados em seus enigmas e suas adivinhas charmosas. Vejam o texto da hora do Idelber Avelar, que revela como nunca a situação e a catástrofe.

Primeiro Comentário Facebookiano: Genial, professor! O que eu estava querendo dizer mas não tinha palavras para tanto. Posso compartilhar?

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30 de março de 2016

Um importante amigo intelectual me disse que o maior espanto dessa história atual política brasileira foi me ver defendendo o Lula. “O Charlles defendendo o Lula, eu jamais imaginava!”. Eu respondi que eu não defendo o Lula e nem político algum, mas que a situação chegou a um limite tão extremo que não se pode mais usar de firulas de linguagem. Eu também produzi uns bons textos catárticos, execrando, em minha poltrona confortável e nas teclas macias e luminescentes de meu notebook, a política brasileira atual. Agora não há mais espaço e nem tempo para isso. A coisa toda já vergou, e o caos já é presente. Então, eu respondi a meu amigo que eu defendo a mim mesmo. Egoisticamente, a mim e aos meus.

Há uma analise ótima do conto policial feita pelo Borges, em que ele elogia o enigma do conto de Poe “A carta roubada”. A pista principal, que resolve o mistério, está durante toda a narrativa à vista de todos, em cima de uma mesa em um escritório onde transcorre a cena. Foi deixada lá propositalmente, por a mente arguta do criminoso saber que não há lugar melhor para se esconder algo do que na mais explícita visibilidade. Também em outra história clássica do gênero, “E não sobrou nenhum”, o leitor lamenta a sua própria estupidez em não ter sacado o óbvio assassino. Dito isso, voltando velozmente para o tema político, é claro, claríssimo que está havendo um golpe. A tática é a mesma da carta por sobre a mesa: todos sabem, todos veem, é insofismável, mas de tanto se tapá-lo pelo discurso do trivialesco, de que isso é conspiração ou argumento inadequado, ninguém vê. A retórica de quem está patrocinado o golpe é a de tornar ridícula a ideia. Golpe…? Puf, pelo amor de deus.

É tudo tão límpido e caricaturesco, que é impossível de acreditar.

Vejam quem apoia o golpe. Acessem o Facebook de uma preciosidade chamada Enio Mainardi. Pesquisem sobre ele, assistam o magnífico programa Provocações em que esse tal senhor é entrevistado. Assistam à sua presença no Programa do Jô. Os textos dele são bestiais, a sua fúria é porcina, vociferada, assassina. É triste de se ver. Ganhou milhões às custas de um estado nas décadas de 80 e 90 que lhe pagava o dobro do que ele cobrava para o empresariado, daí a coisa reverteu e ele execra o “governo dos analfabetos”. Há uma semana ele postava de Abadiânia, cidade próxima de onde eu moro, o que me leva a pensar que o único interesse dele estar lá deva ser para se tratar com o conhecido médium daquela cidade insípida, o tal de João de Deus ou sei lá o nome. Quando se tratava de um câncer, em 2012, ele quis ser humanista e falou ao Jô que ele era um ser agraciado, que cada sessão de sua químio custava 30 mil reais. “Agora imagine”, ele disse, “uma dessas mulheres, uma qualquer, no SUS. Tem que esperar no mínimo 160 dias”.

É assim que enxerga um agraciado. Tudo fora de sua órbita é “uma qualquer”. Os caras que ele defende em seu Facebook? Caiado e Bolsonaro. Meu caro Idelber, vocês, beletristas atrás de um avatar da linguagem suprema da relativização, serão também culpados pelo Caiado e pelo Bolsonaro, que é o caminho óbvio que o país vai seguir após o golpe. Suas parcimônias no momento em que deveriam urrar de indignação construtiva, serão seladas pelo pecado dessa broxada no veludo nesse momento em que seus heróis, construídos por vocês, se mostraram homens comuns.

Esse mesmo amigo, um historiador de mão cheia, me ligou ontem para contar sobre os efeitos que O Vermelho e o Negro, presente que lhe dei, está lhe causando. A gente só percebe com a classe dominante odeia a ascensão social, abomina e remove céus e terras contra o direito dos pobres, através da literatura, ele me disse. Só Stendhal me mostra com um tapa na cara aquilo que os melhores livros de história tentam me mostrar.

Semana passada fiquei feliz por um texto meu sobre Doutor Fausto ser compartilhado no Facebook da Companhia das Letras. Os acessos pularam na casa do milhar. Fiquei empolgado porque, me parecia, era uma evidência de que no Brasil há grandes leitores, leitores de ninguém menos que Mann. Ontem, porém, vi a caixa de comentários de um post no Face da Cia com uma entrevista de Gregorio Duvivier. Xingavam a pediam a morte de Duvivier. No Facebook de uma das maiores editoras do continente. Fiquei muito envergonhado. Desfez-se minha ingênua euforia pelo interesse em Mann. Duvivier defende ideias de esquerda, por isso as dezenas e dezenas de iradas mensagens de morte.

Esse é o mais execrável período político do país, e estamos seguindo para o caos, sem a mínima reação.

Em seu deslumbrante texto de hoje no Facebook (quando é que essa frase vai deixar de ser pejorativa para mim, meu Deus?), o Idelber vaticina a suprema importância do intelectual e acadêmico se ater nas regras rígidas da ortodoxia dos fatos, da bibliografia, das notas de rodapé, aspectos que os tornam tão distintos da ralé no caminho da verdade, e parem de ficar difundindo hoax de que “a Dilma foi grampeada” e de que está acontecendo um “golpe”. Aí ele, com sua conhecida voz pomposa de citar autores e autores para provar o que diz, começa o joguinho de adequar a realidade dobrando-a para que caiba nos moldes de sua instantânea argumentação. Ele passa a assumir que todos que caem nesses hoax estão a falar de “golpe de estado”; e ninguém fala de golpe “de estado”. Eu, pelo menos, que dedico umas duas horas diárias a ler os jornais, blogs e redes sociais para me manter antenado, nunca li alguém falando de golpe “de estado”. O termo “golpe” utilizado é muito mais complexo e profundo do que essa redução politico-jurídica. O golpe que se denuncia é a lenta canalhice da mídia e demais representantes das classes dominantes. O golpe é a carta roubada de Poe.

Impressiona-me muito o quanto a visão de Idelber do dever do intelectual é limitada, como se o intelectual fosse um autômato positivista de uma espécie de ciências exatas da história.

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