sábado, 27 de agosto de 2016

Um dia mais e me expulsarás, talvez, com zanga



Antes, como todo mundo, eu andava atrás de meus antigos e desaparecidos amigos pela net. Por ter obtido sucesso na procura eu parei com isso. Tenho uns 5 amigos que me eram fundamentais, provado isso pelos sonhos estranhos que eu passava a ter ansiando abraçá-los. Amigos que éramos tão gêmeos no humor, nos gostos, nas angústias, nas promessas, que minha alma sofria muito diante a nostalgia da juventude extraordinária que eles me proporcionaram. Com eles eu tive uma banda de rock, as mais pynchonianas aventuras de viagens e bebedeiras (e passa por aí minha paixão por Pynchon), os amores platônicos em que o bom era quebrarmos as caras para suportá-los mais intensos, as longas e madrugadinas conversas, os projetos mirabolantes, o deslumbre com a literatura. Tive uma juventude plenamente feliz com esses caras; eu tenho a sorte de ter uma estrela imantada que atrai esse tipo de gente. Um deles, desses meus amigos imortais, eu conheci quando pegava o ônibus para o colégio Objetivo; todo dia eu encontrava com seu sorriso ultra-simpático que me causava nojo e sua aproximação para conversarmos, e eu sempre fugia dele até que ele me conquistou. Esse aí é o Marlon, que, há dois anos, achei seu telefone e liguei para ele, com meu coração saindo pela boca, e quando ele atendeu eu fui tão irreverente, tentado recriar nosso ambiente, xingando-o de filho da puta por que sumiu de mim, e ele do outro lado em uma frieza monumental, quase me tratando por senhor. Despedi com um fiapo de voz e considerei que nossa amizade acabara, ou eu continuaria me referindo a ela no passado. Ele mora em uma cidade próxima daqui, algumas vezes pensei em ir lá de surpresa, mas eu tive tantos assombros diante o que o tempo e a vida comezinha fizera com esses meus antes radiantes amigos que desisti. Desses 5 amigos, apenas um conserva uma reserva suficiente do que era antes para que nós ainda possamos nos falar, o Fernando, que veio aqui em casa jantar conosco ontem. Os outros vou falar: encontrei com um no shopping há uns oito anos, e o cara tinha o olhar cheio de um espantoso rancor, o que percebi que ele tinha uma medo pavoroso de descobrir que eu me dera bem na vida, estava melhor que ele; quando nos despedimos no estacionamento, eu vi que ele desmoronava e me odiava para sempre ao ver o carro em que eu estava, e só não falei para ele não se preocupar porque era o carro da minha mãe porque eu estava em estado de choque. Eu fui embora remoendo o pensamento de se eu também me tornara tão babaca e previsível, se em mim todo o frescor e a poesia e a infantilidade de outrora havia sido exterminada e, diante os olhos dele, eu era um ser de uma boçalidade pesada.

Os outros: um virara um comerciante que o riso superficial que ele achara para suplantar o escândalo glótico que era antes sua demonstração diante o espetáculo incerto da vida me deixara em depressão por um bom tempo, reforçado pelo tapinha nas costas e pelo "vamos nos falar hein?, não vamos nos distanciar mais não, meu caro", que me deixou numa imensa broxada (e esse, porra, esse era o que eu mais amava). O outro, o outro apenas virou um pai de família, apenas murchou em seu nicho, com conforto se esvaziou de tudo, esvaziou-se tão hereticamente de toda e qualquer loucura, que me oferecia em sua sempre sinceridade descansada as opções progressivas de conversar sobre comida e o que se poderia fazer a níveis médicos para reduzir essa comida do calibre das veias. (Há dois outros: o Safatle, que me chamou para jantarmos juntos, e que um dia eu irei, e a Inamar, uma amiga minha com o qual eu dividia natais nos quais eu não tinha lugar para ir e passava em sua casa acolhedora, e que eu contava sobre meus planos de virar missionário na África, e ela me contava sobre seu sonho absurdo e meio ridículo, mas que eu a amava demais para nunca ser honesto com ela sobre isso, de ser apresentadora de um programa infantil televisivo. Depois de uns cinco anos a reencontro, quando eu passava minhas tardes de desempregado nos trites cinemas do centro da cidade, e ela me chega pelas costas falando ortodoxamente (como se ela na época já soubesse de antemão o que o tempo destrói nas pessoas, e agisse com delicadeza comigo): oi, sou a Inamar, se lembra?; nós fomos sem graça tomar um açaí, nós que éramos os seres mais desbocados do mundo, e depois subimos uns quarteirões até sua casa nova, e ela me apresentou para sua irmã, o que foi uma apresentação estranha porque eu conhecia sua irmã mas sua irmã e eu, talvez fingindo, encenamos que não nos conhecíamos (você precisava ver o Charlles quando era novo, era o menino mais lindo que eu já vira, a Inamar disse, atirando tudo na minha cara barbada e meu cansaço de peregrino que me destruía; aí eu me acendeu que isso poderia ser uma vingança, porque lembrei com um renovado constrangimento a vez em que ela me beijara inesperadamente na floresta do campus universitário e eu tive o descabimento de lhe dizer que foi como beijar minha irmã). E aí ela me pergunta se eu fui para a África e eu respondo que não, e ela se levanta, demora uns 3 minutos procurando uma caixa no raque da televisão, ergue a caixa com sofreguidão e leva para o sofá, e de dentro dela retira umas fitas VHS que ela põe para tocar no vídeo-cassete e eu vejo a coisa mais terna e assombrosa que me reabilita da tristeza, vejo ela vestida com roupas de homem, camisa beje e calças de brim largas, com um microfone na mão aparecendo na tela do televisor, apresentando um programa de televisão em que aparece cercada de crianças, um programa de extrema pobreza visual e orçamentária, e eu olho para ela com os olhos arregalados e já com a boca escancarada para morrer de rir e cair nos braços dela e ela me devolve um olhar de mãe diante seu filho mais querido, seu filho enjeitado com lábio leporino que ela mostra com orgulho e distribui fotos dele por toda a sala para que todos vejam, e daí aparece nas imagens a sua irmã, a irmã que eu conheço mas nós simulamos que não nos conhecíamos, vestida como o Xuxa, loura e desengonçada, que é a estrela da coisa, e nós rimos desbragadamente, na verdade isso me enche de uma adstringência que eu não consigo explicar, as gincanas, as músicas que elas mesmas compuseram e gravaram. Foram dez programas, ela me disse, com direito no último deles à despedida com choro. Ficamos até tarde da noite assistindo a todos eles.

E ontem o Fernando, o médico pediatra, com sua esposa, veio jantar conosco. Encontramo-nos há cerca de cinco anos, em um supermercado, ele que me gritou na fila, veio até mim e me deu um puta abraço, ele de branco e eu de jaleco todo cagado de bosta de vaca e sangue porque acabara de fazer uma cesariana numa vaca (escrevi sobre isso no texto intitulado "Fimose"). Passamos meses só nos falando por telefone, querendo saber onde o outro morava, e nos encontrando esporadicamente em padarias e no hospital onde ele trabalha; como ele era novo na cidade, ele não sabia dizer com precisão seu endereço e, passado um tempo, por ironia, a Dani descobre que ele era nosso vizinho de esquina. Ele desistira da vida na capital, que estava acabando com sua saúde, e fizera o concurso público para médico da prefeitura da minha cidade, candidato único. Desistira de uma vida ensandecida que lhe dava 50 mil por mês, para passar com os 9 mil e quinhentos de seu cargo concursado mais uns atendimentos que ele faz em outra cidade vizinha. Era um leitor voraz e um poeta artesanal rigoroso na nossa juventude, e disso sobrou pouca coisa. Mas nossa conversa sempre é recheada de nonsense e desenvoltura. Ele, assim como todos os outro 4, eram convidados todos os anos, por minha mãe, para meu aniversário, como um ritual. Era sempre surpresa, mas todos nós já estávamos fartos de saber sobre a festa. Minha mãe encomendava o bolo, as comidas, os enfeites, no intuito explícito de me constranger, o cavalão de espinhas na cara e pêlos na mão com chapeuzinho de aniversário, o filhinho da mamãe. E todos davam corda para minha mãe curtindo ainda mais com a minha cara, exigindo que se cantasse a musiquinha e que eu soprasse a porra da vela do bolo, e minha mãe coroava a sangria me dando um beijo na frente de todos e me chamando pelo apelido de infância que ela nunca usava a não ser nessas ocasiões, Naninho isso, Naninho aquilo, e fazia parte da sagração todos se calarem para que ela recontasse os eventos mais diabólicos que o Naninho teve o descomedimento de cometer, a vez em que Naninho entrou no caminhão do pai, o acionou e o grande Mercedes Benz varou a cerca da casa lá embaixo da baixada, tendo-se a sorte de não ter matado e nem ferido ninguém, inclusive o próprio demônio porque Naninha havia pulado assim que percebera a miséria que estava fazendo, e todos caindo na gargalhada olhando para mim; a vez em que Naninho sumira da avó na catedral e fora descoberto na sacristia com o saco de hóstias na mão mandando um a um do corpo de Crista para a boca; a vez em que Naninho subira no sofá, retirara a sua porcaria para fora das calças e mijara na boca de seu tio Pedrinho que estava desmaiado deitado no sofá, e como a sua tia Tânia o protegera da sova da sua vida ao escondê-lo atrás dela para que o tio Pedrinho não o pegasse pela moleira. E assim ia, todas essas coisas relembradas pelo Fernando ontem, para uma Dani deliciada mas para a qual minha própria mãe já havia contado essas e outras histórias.

Daí que depois da janta o Fernando me fala da nova séria de Globo, Justiça, que ele e sua esposa vinham acompanhando, e eu me entusiasmo, visto conhecer o gosto do Fernando para as coisas, mas misso é tema para um próximo post.

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