quarta-feira, 8 de junho de 2016

Meu textão genial sobre a problemática político-sociológica em que está o Brasil, analisada sob a conjuntura circunstancial paradigmática de como devemos como povo com possível índole de associação nacional subvertermos o evento a nosso favor e sob a judice do atento olhar do grande Outro

Preparados?


Lá vai:

Se não fôssemos esse povinho de merda que somos, já teríamos tomado aos milhões as ruas exigindo novas eleições imediatamente.

Fim.


3 comentários:

  1. Há um artigo de um número antigo da revista Piauí, intitulado "Coceira", que fala sobre o assustador caso clínico de uma mulher que passou a sentir uma forte coceira no couro cabeludo, sem razão e explicação nenhuma. A coceira foi se aprofundando até a mulher a senti-la em todo o cérebro, sem descanso. Ela raspou a cabeça, fez escaras sanguinolentas que logo se transformaram em feridas purulentas pela cabeça, mas nada nem de longe se apresentava como o mínimo alívio a seu inferno. Depois de vários tratamentos médicos e psicológicos que não tiveram qualquer resultado, um experimento inusitado apontou um caminho para essa pobre criatura: algum especialista em ciências excêntricas desenvolveu uns óculos com lentes que tinham a estranha propriedade de fazer com que seu usuário visse tudo de cabeça para baixo. Assim que a mulher punha os óculos, a coceira cessava em definitivo. Imaginem o alívio, a felicidade, o choro, diante esse melindroso milagre.

    Lembrei-me desse artigo quando fui defrontado com mais um aprimoramento melífluo de nossa Coceira hoje pela manhã, com a comédia ultra-realista e ultra-insultuosa do tal japonês da federal sendo preso. A coceira levantou seu corpo sifilítico de puta velha e inchada, se endireitou novamente em sua posição lasciva por sobre a poltrona, e eu ri automaticamente, com aquele sorriso que pede para alguém disparar uma arma em minha cabeça para me libertar do inferno. O Brasil é isso, é essa coceira, esse pesadelo obsceno. Já há muito eu tenho a absoluta certeza que a imposição de que se nasça nesse país atende à paga de um carma, de uma sentença prisional.

    Eu já não vejo a mais pequena graça. Memes são carvões miúdos lançados no fogo que esquenta o caldeirão. Rio com esse esgar repulsivo do desespero.

    http://piaui.folha.uol.com.br/materia/a-coceira/

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  2. Respostas
    1. Valeu, Fabricio.

      Ano passado eu fiquei estarrecido com um pão de queijo de oito reais, em um aeroporto de Minas Gerais. Estávamos de viagem para a praia, com uma provisão de grana bastante satisfatória, economizada para passarmos bem o passeio, mas tanto eu quanto a Dani nos recusamos a sermos espoliados por esse insulto de preço. Havia uma fila enorme de pessoas para comprar na loja do pão de queijo. Um pão de queijo de tamanho normal, que todas as manhãs eu compro aqui por 70 centavos_ e vendido assim na terra do pão de queijo, por absurdos 8 reais. Gente encasacada, um homem com um olhar sonso de pensamentos com suas ocupações profissionais (julguei ser um advogado), e mulheres de óculos de escuros e ar esnobe, diligentemente esperando a vez como se fosse a coisa mais normal do mundo. Comprando uma cesta de pães de queijo onde cada um era 8 reais.

      Vejo nos facebooks dos intelectuais produtores de textões a regra sagrada de se fingir que se mora em um país europeu, ou um prosseguimento descansado economicamente dos EUA. Mete-se o pau com sofisticação, fala-se da crise, da violência, da política, mas todos, TODOS, respeitam a regra de jamais falarem sobre as condições personalíssimas da precariedade da qualidade de vida nesse país. Todos simulam cultura, vida mansa, sair na cidade com segurança, um país de preços condizentes com os salários. Mas na verdade é que todos estão na miséria, uma miséria bem regrada, bem apertada para não estrebuchar o excesso de gordura e fazê-los passar vergonha. O importante é evitar a todo custo o escândalo.

      Meu salário é bom. Creio estar numa privilegiada zona B. Mas minha qualidade de vida despencaria se eu vivesse em uma capital. De dois em dois meses passo um fim de semana em Goiânia, e... valha-me Deus, que vida impossível. Se eu morasse ali estaria fodido. Eu sou um homem melindroso, cheio de manias consumistas particulares. Agora mesmo está no forno uma pizza de calabresa com pimentões amarelos e vermelhos. A última vez em que estive em Goiânia, assim num átimo, vi incinerados 180 reais de meu bolso com duas pizzas grandes da Pizza Hut. 180 reais, Jesus! Por um fast-food? Por aquela que é cosmicamente aceita insofismavelmente como a comida plástica mais barata do mundo. Da vez passada, comemos no Burger King, cada pedido 22 reais. 22 reais se compra um quilo do melhor filé mignon aqui na minha cidade. Minha mãe quando vem para cá pede para que eu encomende peças de carnes nobres para ela. Uma vez ela tirou uma foto de uma peça de picanha no walmart e me mandou: etiqueta com o preço de 190 reais.

      Como é que se quer que um povo assim respire, seja pretenso à independência de pensar criticamente sobre si mesmo? Um povo que paga, como um colega meu de trabalho, 2.800 reais de imposto anual do carro, o mesmo carro que, aliás, no Chile custa 32 mil reais, mas que ele comprou na concessionária por 60 mil? E não há uma estrada que não seja de ruim a péssima em quase todo e estado de Goiás, tirando as pistas duplas construídas pelo atual governo e que estão para serem privatizadas?

      Como se quer que um povo assim se respeite e seja respeitado? Os caras e as moças do face deveriam parar de fingir infantilmente que vivem em Amsterdã, que são adidos culturais ou embaixadores itinerantes cumprindo a missão benevolente de escreverem com classe sobre uma miséria alheia, que não os tocam. Parar de fingir que no Brasil neva e tem trens subterrâneos que transitam por campos onde pastam verdejantes singelas vaquinhas de leite. Ter uma sky, uma internet popular de 1 mega, ouvir seja qual for o herdeiro atual de Chet Baker e ler os romances descolados da Jennifer Egan, não nos faz imunes de nosso carma espiritual de sermos um povo explorado pela própria burrice.

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