quarta-feira, 15 de junho de 2016

A boneca de palha de milho (um poema para Tulla Pokriefke)



É assim: não olhar a infância senão através dos olhos fiéis da velhice. As coisas foram se conformando; o caos foi se revertendo, perdendo toda a sua estridente reverberância; aquilo que a definia em outros tempos em uma falta de lar e uma falta de paz agora se transformou em uma plácida dignidade. Mesmo a morte se sedimentou e pôde ser esquecida. No final, aquela antiga dor, aquele incomensurável abandono, se edulcorou, se arrefeceu. Por tantos anos enrijecida na mais explícita fraqueza, foi como se o interesse do Acaso perdesse o interesse em você. Daí você estava livre para assumir o que sempre assumem as demais pessoas cuja bravata contra a desdita as tornam perdulárias de tempo, angariar a flacidez adiposa dos sobreviventes. Sentada em seu apartamento popular, em uma Alemanha tornada liberta como uma abrupta ofensa, acertada na cara o tapa para o qual não existem mais antigas regras morais para um duelo, agora você respira, olha as plantas da varanda e o horizonte de névoa fria que lhe parece de um mundo que a tolera por hostil esquecimento. Como uma boneca de palha de milho que alguma criança construiu na singela desfaçatez do refúgio, somente sua materialidade devastada, suas ferpas eriçadas, sua coluna de brinquedo partida, perduram, a criança desapareceu, foi estuprada, amassaram-lhe os pés na fúria cega da cósmica violência, usaram-na com a legitimidade de uma milenar indiferença de animais com o direito inquestionável do sacio. Boneca e menina incorporadas, cingidas uma à outra. Como se no desencarne, enquanto raspam do fundo do tacho de sua alma seu último grito em fiapo, buscasse refúgio entre a cordoalha pobre do milho, um milho manufaturado na arte sem envergadura de uma menina que tudo, desde que fora retirada em repulsa do útero, aponta para seu fracasso. Acho que é isso: você foi sempre a boneca que sobreviveu à menina. Quem se interessa por um pedaço brega de palha de milho? Passaram por você, pés vorazes com muita ocupação, gritos de selvageria da conquista, gente fanatizada pelo excesso de razão, mensageiros a quem foram confiados o futuro. A boneca na estrada, na beira da corrente de água, entre os escombros de tijolos, tão minúscula, ou talvez tão visível que mesmo as crianças herdeiras do que viria para frente (os novos e sofisticados horrores), as meninas nos úteros das quais os lugares estavam reservados pela história para fazerem brotar os novos homens das prometedoras novas sociedades, sequer deram atenção, a pegaram por um momento e a soltaram, limpando as mãos com nojo. O derradeiro sonho, a derradeira fortaleza, quem iria imaginar, como a vida apesar de tudo é insustentavelmente rica: a caverna fortificada de uma boneca de palha de milho, a fantasia enlouquecedoramente defendida em uma profundidade santificada em restos de doces lembranças de um começo limítrofe da infância antes do estupro. É isso que te aconteceu, por isso você sempre foi imune ao vexame, riam de você até que viram que você estava além do escárnio. Como se pode ferir os brios de uma boneca de palha?, como se pode desprezá-la e azucriná-la, seja quantos dentes as bocas escancaradas tiverem à mostra. Intocada pelo julgamento alheio. Uma vez crescida, o corpinho magro de protuberantes joelhos esculpidos pela fome, o gingado biscate da puta previsível pelo oráculo mais míope, vestida com sua malha de lycra rosa colada para mostrar a vagina fendida, ainda cheia de promessas para novas sedes, visceralmente bela na estética dos depravados para os quais tudo é fisiologia, os lábios verticais grossos de manuseios brutalmente apressados, sem tempo para a alma, nunca houve tempo para a alma (mesmo agora em seu apartamento, a alma acena mais uma vez em provocação mansa, e recebe a complacente recusa, sem titubeio), sua forma de preencher a cordoalha do milho com fibra muscular, avançar para a materialidade cárnea. Insensível ao medo. Do que deveria ter medo quem já esteve no fundo de todas as perdas, de todas as usurpações, a ponto de atingir aquele conhecimento infinitamente longínquo, que só alcança os que não tem mais nada a perder, de saber que o agressor se amansa pela impossibilidade de ter o que espoliar mais? Se tudo isso não lhe houvesse conferido essa imolada perfeição, essa potente capacidade para a vida nesse mundo, se você tivesse um pouco sequer de amolecimento, iria ver que é uma forma de perdão: ter seus molestadores controlados, apaziguados, na titubes de suas pernas; tê-los todos vencidos por seu zero absoluto de promessas. Ficam tão desprotegidos, suas fúrias ficam tão saquiadas de energia, diante o que veem não ter mais nada para tomarem para si, que por muito pouco suas obstinadas compulsões pela posse não inventam de se apaixonarem por você. Alguns até o fazem, caem nessa luxúria astuciosa; seu primo lhe escreveu cartas apiedantes do front_ esse novo e eterno front que sua vida, Tulla, irá viver em incontinentes repaginações. Chupa paus na pedra do mar, pênis mapeados de veias de grossos calibres; encontra com marinheiros em casebres do porto pagos pelo rolar cronometrado do relógio da saleta de entrada; se encurva em posições surrealistas bêbadas, incendiadas pelo riso conjunto com quem tem tais explosões histriônicas pela última vez, para soldados que amanhã pegam o trem para os campos em que tombarão, talvez levando na última lembrança a alegria sintética generosamente dada pelo seu corpo raquítico. Nunca houve uma santa tão incapaz para a santidade como você, Tulla. Sem ódio, e por isso, sem perdão. A vida faz a sua curva e, enfim, após tantas sensações mal entendidas, se encontra com seu outro extremo, esvaziada, talvez retorcendo-a em uma necessidade afinal de contas incompreensível por justificativa, ofereça só essa emudecida lição de que nunca houve nada. Uma vida em que a medida padrão foi sempre a boneca de palha, tudo o mais apenas o que se passou por sobre ela a poupando involuntariamente devido sua pequenez. O único trunfo sendo sua capacidade de não presença, de negação, de invisibilidade. Quanta coisa passou, arregimentado em sua fermentação estúpida sempre e sempre elevadora de ganâncias e novas usurpações, e a boneca ficou ali, defendida em toda sua sólida auto-suficiência.

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