terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Hey! Teachers! Leave them kids alone!

Hum! Pale Fire! Quais as chances dessa foto ter sido tirada no Brasil?


Assisti hoje a um programa de entrevista da Globo News com o escritor Martim Vasques da Cunha. Ele recém lançou o livro de crítica da literatura brasileira, A poeira da glória. No programa, não me pareceu que ele foi além do que todo mundo que tem certo conhecimento de literatura diz sobre literatura brasileira, e incorreu em uma série de contradições e desacertos. Uma das que me lembro_ eu estava almoçando enquanto minha filha se preparava para que eu a levasse à escola_ foi que o escritor brasileiro deveria escrever para o cidadão comum, aquele que "pega ônibus todos os dias e pega o metrô" (frase que o Vasques usou com pouca economia durante toda a entrevista, como se o homem de letras fosse imune ao transporte público). Penso o oposto dele. Depois, ele disse que o escritor brasileiro deveria se desprender da política, escrever uma literatura saudavelmente despolitizada. Penso o oposto dele. Aí ele incorreu naquelas concepções rocambolescas, bastante insípidas para se tentar argumentar em meia hora diante as câmeras, de que o escritor faz parte de uma elite espiritual e deveria escrever usando seu mundo interno (ou algo assim). Já que eu não entendi, não sei se penso o oposto dele.

Certa vez um colega de trabalho, funcionário público esclarecido e detentor de um ponto de vista multifacetado sobre qualquer coisa, me pediu para que eu escolhesse um romance muito divertido, dos mais divertidos que eu tivesse em minha biblioteca, e lhe emprestasse. Peguei aquele livro que eu achava o mais divertido possível, de leitura de altíssima qualidade e bastante instigadora, e lhe entreguei. Tratava-se de Nosso homem em Havana, uma entre duas dezenas de maravilhas escritas por Graham Greene. Foi a última vez que emprestei livros para alguém. Afora meu amigo Emerson, que é um leitor honrado, não empresto livros nem se nosso Salvador um dia me solicitar. Esse colega, passados três meses, me diz que não conseguira passar da página 10 do livro, por tê-lo achado uma leitura difícil e não ter entendido nada, e o livro não tê-lo agradado em nada. Para concluir: eu tive que passar em sua casa, umas duas semanas depois, para reaver o volume. Outra ocasião, antes desse evento, emprestei para outro colega, sob o mesmo apelo de requerimento de diversão o Todos os belos cavalos, livro sensacional de Cormac McCarthy. Esse colega, também de avançado grau de instrução técnica para os parâmetros nacionais, repudiou a leitura, chegando a declarar que se tratava do livro mais abominavelmente chato que ele teve o desplante de ter em mãos. 

Ou seja: não, o Vasques se equivoca. O escritor sério, comprometido com seu talento, que tem algo substancial a dizer, não deve nem um pouco se preocupar com aquele que "pega ônibus todos os dias e pega o metrô". Não deve, sob hipótese alguma, escrever para ser o máximo permeável e compreendido possível. É algo tão evidente que me espanta que alguém como o Vasques, que escreveu um livro que me parece conter um número avultante de páginas sobre literatura, proclame uma coisa dessas.

Há duas semanas vi na mesa de trabalho de um desses meus colegas acima, um romance desses edulcorados, com capa colorida, que ora e outra entra na lista de mais vendidos da veja.

Sobre a política na literatura nacional. Quais livros Vasques está lendo? Eu não sou nem um pouco chegado em literatura pátria, mas me mantenho circunstanciadamente inteirado no que se produz nessa seara. E..., afora futebol, sonhos de dissipação adolescente, e imitações de romances psicológicos e lisérgicos da língua inglesa, não vejo onde se trata de política na literatura brasileira. Não sei mesmo quais livros Vasques anda lendo, e nem tão pouco saberei, se para isso depender que eu leia seu calhamaço. Eu penso o oposto_ ou, talvez não. Eu considero que no nível que anda a literatura nacional, a abordagem política seria catastrófica. A literatura brasileira não está nem um pouco preparada para escrever sobre política. O que é lamentável e a raiz primeva da miséria dessa literatura. Vasques pronunciou esse vaticínio como se ele mesmo não conseguisse se desprender do dualismo bestial e burro do partidarismo que assola todos os cantos do discurso no país. Tirando um livro do Paulo Scott, que menciona o Partido dos Trabalhadores já na primeira página, não tenho conhecimento sobre essas inserções infelizes nas letras desse país.

A grande literatura, salvo raras exceções, é indissociável da política. Digo que 8 entre 10 grandes livros tratam de política, em maior ou menor grau. Há autores cuja obra completa se imiscui plenamente com a política, como é o caso de Günter Grass, de um lado, e Philip Roth, de outro _ aliás, os autores norte-americanos são inerentemente políticos: Saul Bellow, Don DeLillo, Thomas Pynchon, Steinbeck (o único completamente apolítico foi Hemingway, que se amargurava de sua superficialidade nesse campo, tanto que intentou escrever um romance político e produziu um de seus mais fracos romances: Ter ou não ter). Política é um dos temas superiores da literatura, não isso que convenciona-se chamar de política que acontece no Brasil e que não passa de estancamento histórico. Há romances políticos tão vigorosos que alcança uma transcendência espiritual totalizadora, como Doutor Fausto, Cem anos de solidão, O homem sem qualidades, O vermelho e o negro, O Castelo.

A literatura brasileira precisa, desesperadamente, produzir sobre o tema da alta política. É uma catástrofe que um país como o Brasil, em que a política está em todos os lugares e exigindo atenção, se mantenha cego da importância dessa lucidez abortada para se manter sob os velhos cabrestos da alienação da politicagem. É criminosamente leviano um homem das letras querer que a política seja deslocada para um plano menor ou inexistente na expressão escrita desse país.

Claro que Vasques diz muito mais coisas em seu livro do que falou em meia hora de televisão, mas não vejo qual o propósito dele ter escrito tal livro. Nenhum escritor se interessa por esse tipo de livros; nenhum leitor desses hipotéticos que "pega ônibus todos os dias e o metrô" também; o leitor esclarecido, aprofundado e exigente, que por ventura tenha interesse na minguada literatura nacional, olhará o livro com uma distante curiosidade, e contabilizará as horas perdidas com ele em que se poderia ler algo realmente substancial, e o evitará. Sobra, pois, os leitores acadêmicos, como únicos alvos para quem Vasques se dirige: os teoristas e ortodoxos dos gráficos das escolas literárias. Ou seja, o mesmo pessoal que torna, há tempos, a literatura brasileira tão insossa, anestesiada, atrasada e absolutamente irrelevante. Vasques escreve, paradoxalmente, para o mesmo clã restrito que fará com que qualquer possível comburência modificadora de sua obra se apague na complacência institucional das letras brasileiras. Talvez o que me parece ser o erro de Vasques é que tudo o que ele falou sobre os poderes do esclarecimento e hierarquias do espírito favorecidos pelos livros, é apto a definir a literatura como um todo, mas não funciona em seu projeto de se circunscrever apenas à literatura brasileira. Claro que ele agiu assim com interesses específicos de angariar atenção acadêmica, já que se ampliasse o panorama seria engolido pelos tantos críticos famosos globais. Só que seu fôlego é muito maior do que seu tema. O mais certo a se fazer com a literatura brasileira, reitero, é aboli-la.

O plano ideal seria construir alguma coisa nova em seu lugar. A começar por tocar bem alto aquele refrão do The wall: Hey! Teachers! Leave them kids alone! Deixe de perturbá-los com os livros pé no saco da literatura brasileira e passe a eles Kafka, Dostoiévski, Mark Twain, e tudo o mais de bom que proto-leitores de países mais engajados culturalmente leem. Assim se salvará a literatura desse país e surgirão novos escritores que tem como dizer e o que dizer, que ouçam outra música eterna e poderosa, que nada tem a ver com o mesmo hino de fanfarra do ufanismo estúpido que azucrina a cabeça das crianças. O escritor relevante é produzido na infância, assim como os grandes instrumentistas musicais. Simples assim, não? O Vasques gastou centenas de páginas com uma lorota que só serve para a auto-promoção, e a solução é apenas essa: criem grandes leitores, que o surgimento dos grandes escritores aparece naturalmente.

24 comentários:

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    1. Uma literatura povoada de Borges, é o que o Vasques parece querer, o único grande escritor que me vem agora na cabeça totalmente apolítico em sua obra. Seria maravilhoso, mas absurdamente impossível.

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    2. Charlles, você acha mesmo que "Tlon, Uqbar, Orbis Tertius" não tem nada de político?

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    3. Farinatti, cada um tem sua leitura, claro. Rememorei aqui esse soberbo conto e não me parece haver nele nada de político. A não ser que se abranja muito o panorama para comportar, em uma visão metafísica, uma crítica à primitividade da política terrena com a comparação da espiritualidade do mundo de Uqbar. Nisso, poderíamos colocar O Aleph no mesmo campo, na remissão da mediocridade dos nossos sentidos sempre tendentes a uma interpretação das coisas através da contemplação do infinito em só ponto.

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    4. Charlles. Penso no final do conto. A parte que se passa "no futuro", no final da década de 1940 (o primeiro livro de "Ficciones" é datado de 1941). Ali, o narrador diz, referindo-se ao passado narrado "Há dez anos, bastava qualquer simetria com aparência de ordem - o materialismo dialético, o anti-semitismo, o nazismo - para encantar os homens." Me parece que essa indicada boa disposição conjuntural para as ideologias da ordem foi um dos fatores que ajudaram Tlön a ganhar espaço na realidade. Borges chega a dizer que, na verdade, as únicas leis que existem são divinas "traduzo: leis desumanas", ele escreve. Ou seja, Borges parece considerar esse excesso de simetria e seu desejo de existir como monstruosos. Percebo que esse conto foi escrito por volta de 1940 ou pouco antes, com o comunismo ganhando força, com a ascensão violenta do nazismo. E então me parece haver ali um elemento tremendamente político. Uma crítica às ideologias da ordem perfeita neste mundo (que Borges assimila e aí nem sei se concordo com materialismo histórico, nazismo e anti-semitismo). Foi por causa dessa impressão que fiz a pergunta. De resto, que belo debate neste post. Nem sempre consigo aparecer por aqui, aí quando venho leio vários posts de uma vez só. E então aparecem estes meus comentários anacrônicos. Um abraço!

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    5. Por essa ótica sim. Muito interessante esse seu comentário. Vai ver é porque nunca vi Borges como um escritor político. Ou um ficcionista político. Mas Borges, poucos atentam a isso, apesar de ter sido um escritor a-político (sua genialidade o permitia), foi um dos poucos ficcionistas que conseguiu também ser um grande ensaísta. Os ensaios dele são magistrais. Talvez uma aproximação à política possa ser procurado, com mais acerto, em ensaios como Kafka e seus precursores, e o espetacular ensaio que ele escreveu sobre Swedenborg.

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  2. Não entendo os que veem o MVC como "o salvador da crítica cultural" ou o "grande crítico atual"; nem mesmo entendo o alarde, o hype, criado nas redes sociais acerca deste livro. Talvez isso se dê, e tenho quase certeza disso, por conta do tema político atual; vide a apresentação do livro feita pelo Bruno Garschagen e a sua auto-promoção gratuita; vide a maré de publicações da Record que envolve "a nova direita". Nada contra, claro. O que parece é que os leitores fiéis de alguns escritores (Olavo de Carvalho, João Pereira Coutinho, Bruno Garschagen, Flavio Morgenstern, Leandro Narloch) precisam de um outro representante, e o Martim é a bola da vez. Nada contra, novamente.

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    1. Como reafirmo, minhas observações sobre MVC partem não da leitura de seu livro, mas dessa entrevista e do texto que o Paulo Raviere escreveu sobre o tal livro. O Paulo me deixou entrever (ou ver com seguridade, não sei_ talvez fiz uma leitura apressada do ensaio do Paulo), citações no livro do Olavo de Carvalho. É como se em algum livro do Edmundo Wilson e do George Steiner (que são os únicos críticos por natureza que eu leio, e com profundo deleite), aparecesse uma referência a Madame Blavatsky ou um excerto tido por esclarecedor do Walter Mercado.

      Eu tenho sérios diagnósticos, todos de viés da mais estranha patologia, sobre o quadro mental do Brasil atual (que merece bem essa aliteração). Mas não tenho ânimo para expor. MVC, Olavo, e todos esses outros (desconhecidos para mim). É um circo de auto-promoção dentro de um cenário cujo único mérito às suas lucidezes é que eles sabem ser paupérrimo; daí eles se adequam a exigências de um público também paupérrimo, que não tem a mínima noção do que quer. Bastante parecido com o que um pastor religioso oferece a seu rebanho. Tal público é esse que com recorrência aponto aqui: o que se arvora de conhecedor, o que se supõe esclarecido por passes mágicos de lugar comum e clichês. Daí o histrionismo de ver as opiniões sobre livros (Dostoiévski, Moby Dick, Tolstói, etc, etc) dessa gente totalmente equivocada, o que demonstra que não leem. Na minha época de metaleiro tínhamos uma definição para tais pessoas: posers.

      Ontem, assistindo ao Manhattan Connection, um produto que cai como uma luva para essa rapaziada, um dos apresentadores (nunca detenho o nome deles, mas é o que fala de São Paulo, que tem uma dentição independente que se movimenta em desconforme sincrônico com seus lábios quando ele fala) passou vários minutos falando sobre determinada pintura de Picasso, que tal pintura foi vendida pela filha do Picasso, e que tal quadro não foi entregue para seu comprador, porque a filha do Picasso se recusou a entregar um desenho tão importante. Depois dessa longa peroração, o outro interlocutor, em Nova York, corrige o articulista: "não se trata de uma pintura, mas de uma escultura, uma da série de Picasso sculpture". Esse é o panorama do mundo mental, cultural e intelectual nacional: firmado no equívoco e na falta de aprimoramento, no improviso mais rasteiro e fraco, o que o Manhattan Connection é um retrato.

      Outra coisa por fora que o MVC falou: que o recalque enfraquece a literatura brasileira, cita o Raduan e o Ubaldo. Tá, tá, sabe-se lá qual ponto de vista adotado, mas o recalque é uma das forças motrizes da literatura: vide Céline, Bernhard, a Carta ao pai.

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    2. Essa definição (posers) ainda está em vigor, Charlles. Embora concorra com outra cunhada recentemente: os modinhas. Enfim, o fato é que MVC foi aluno do famigerado seminário de filosofia que tem como professor o próprio Olavo - não que isso seja um demérito -, logo não é de causar espanto qualquer influência.

      E é, de fato, um enorme círculo de auto-promoção - já que grande parte destes citados, a maioria, mantém uma certa relação. Mas o que ocorre é que existe um público altivo, ávido por certos ideais que são partilhados por estes formadores de opinião; um público cada vez mais desinformado (que não sabe o que quer, como você disse) que acaba “refém” de uma parcela midiática paupérrima que possui um discurso bonzinho e bonito (o pernicioso está sempre no subterrâneo).

      O que se vê é a legitimação e o fortalecimento de ideias piores: um pessoal que compartilha ideias de uma pessoa x somente porque essa pessoa desqualifica pessoa y. E o que resta é a construção de um discurso – político - como campo de batalha, com uma definição clara de “inimigo” que fortalece a bipolaridade e dá mais forças a certos conjuntos de burrice – vide também Marcia Tiburi e afins.

      Um aspecto importante sobre os leitores de metrô: a classe intelectual (seja qual for a sua ideologia) não cansa de convocar um povo imaginário – que pouco conhece e nunca representou – em defesa do próprio projeto de interesse. Os dois lados - esquerda e direita, gestão e oposição - vivem para legitimar e discutir as opiniões de um povo que não tem quórum nas reuniões e não se expressa.
      Enquanto as pessoas procuram soluções reais pros seus problemas, os críticos procuram assegurar sua carreira de grandes pensadores da modernidade.

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    3. Eu segui a carreira de veterinário, mesmo tendo a vida na literatura, por causa disso. Não suporto essa cartelização, que é tão corrupta e prenhe de incompetentes e inúteis como o congresso nacional.

      Quem gosta mesmo de literatura ri dessas coisas todas. Não dou a mínima para essa turma.

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  3. Depois dessa, fiquei com uma vontade terrível de ler Graham Greene (Charlles é do mal, hehehe).

    Talvez na entrevista tenha soado diferente, mas a meu ver, MVC fala exatamente de algo que comentávamos semana passada (sobre a impossibilidade de se colocar um presidente imaginário numa ficção brasileira), que é mania de insistir em passar um filtro ideológico político sobre qualquer coisa. Esse futebolismo esquerda/direita é muito nocivo para qualquer discussão. Paulo Nogueira e Rodrigo Constantino, por exemplo, me são igualmente deploráveis, mas os vejo sendo compartilhados só porque defendem um ou outro lado, independentemente de estarem dizendo asneiras.

    Sobre o leitor do metrô - no fundo não estão ambos falando que gostariam que o brasileiro comum apreciasse boa literatura?

    No meu texto lá eu falo desses posers, que estão sempre nas discussões tirando a maior onda, fazendo exatamente o que criticam nos outros (assim como um Cunha a protestar contra a corrupção). Mas quem já leu um texto sequer de MVC, concorde ou discorde, sabe que ele investiga a fundo um autor antes de falar sobre. As menções a Olavo (alguns artigos bons, twitter podre) têm pouquíssima importância no livro como um todo.

    Apesar de gostar bastante de Otto Lara, Grande Sertão: Veredas, Viva o Povo Brasileiro, Brás Cubas e Lavoura Arcaica são meus livros brasileiros favoritos.

    Ah, a apresentação de Garschagen de fato parece que está lá só pra espantar o leitor.

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    1. Se você nunca leu Greene, então há de tirar um ou dois meses para tal projeto. Sério, ele é desses que se pode contar, quem o leu, uns 15 títulos que são obras-primas absolutas, que não ficam a dever a nenhum Faulkner ou Bellow. Talvez a evolução futura corrija isso, que eu não entendo, que eu ame Faulkner mas poucas vezes falo sobre Greene. Greene é um gênio grandioso, intocável. Não, não se trata dos maneirismos muito específicos de um Simenon; Greene tem o estilo, o poder e a periculosidade completa de gente igual a Flaubert e Bellow, sem exigir concessões de ninguém. A propósito, em um desses textozinhos da Bensimon, ela certa vez se referiu com demérito a Greene, querendo fazer graça do tipo "vou agora ler algo cafona e católico como Greene"...

      Paulo, isso de cidadão comum não existe. Por que essa aberração ainda existe nas letras? Ninguém entre os apreciadores de música exige que o cidadão comum aprecie Mahler ou Beethoven. Na verdade, estão sempre pouco se lixando se o populacho é insolúvel à grande música. Você não vê nenhum crítico sério de cinema ruminando em dor o fato do espectador comum nunca ter ouvido falar de Tarkóvski. Então, nós apreciadores de livros devemos mandar à puta que pariu quem não gosta de ler. E eles querem ser deixados em paz. O problema do MVC ou MCV, não vou ver agora lá em cima a sequência certa, é não entender isso, é se ater a uma pedagogia sem lógica e propósitos: deixe os que não querem ler em paz. O primeiro mandamento do Grande Leitor é: DEIXE O FILHO DA PUTA DOS QUE NÃO QUEREM LER EM PAZ.

      Uma premissa tem que ter uníssono entre os críticos e escritores: se preocupem com os da sua turma, os leitores legítimos.

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    2. o que ler do Greene, charlles?

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    3. Saramago sempre se preocupou APENAS com os leitores que tinham capacidade de ler seus livros. Direto vejo nas redes sociais pessoas falando que não conseguem ler Saramago por que ele é chato. E Saramago sempre se importou bulhufas com esses caras. E Saramago sempre teve milhares de leitores, seus livros no Brasil transcendem as 30 reedições. O cara comprou uma ilha com os direitos autorais.

      Mandem às favas quem não gostam de ler. Essa é a regra básica para se falar sobre literatura. Caso contrário, olha só a entrevista do MVC: gasta-se metade do tempo em se lamentar não haver leitores no Brasil; e com o fato de um país com 200 milhões de habitantes ter tiragens de livros de 3000 exemplares. Essa é uma questão sociológica antológica, não seremos nós que a resolveremos. Então, foda-se.

      Não me lembro qual escritor que disse que escrevia apenas para Edmund Wilson. O dever do escritor brasileiro que se preza é escrever para o fantasma de Edmund Wilson.

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    4. Minha nossa, Greene é mesmo tão bom? Ele não está em nenhuma de suas listas... Dia desses li um texto de Casares, se não me engano, que fazia um monte de piadas (elogiosas) sobre ele. Tenho O Americano Tranquilo há exatamente uma década, e nunca o abri. Comprei só porque estava a R$2. Um de meus primos leu e adorou. Há anos cogito comprar Havana ou O X da Questão, algo assim. Ah, espera, acho que minha irmã trouxe outro, O Fator Humano. Iniciarei com Havana, quando porventura o adquirir. Li um único Simenon, O Burgomestre de Furnes, de tanto ouvir você, Milton e Ssó falarem dele, e não achei isso tudo. Gostei mais, muito mais, de Patricia Highsmith.

      Sobre se preocupar com quem não lê, concordo absolutamente. Sequer meus pais e minha irmã, que são leitores, visitam meu blog, pra você ver. Mas o que eu disse foi que, pra mim, no fundo MVC e você acabam por dizer coisas semelhantes (você, especialmente na proposta do último parágrafo, que notei ter sido adicionado depois).

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    5. Eu começaria com Os farsantes, e depois Nosso homem em Havana. Depois destes, o interesse em ler tudo que tiver de Greene será natural.

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  4. Vossa Senhoria não aprecia sequer Machado?

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    1. Não curto muito não. Como disse, eu não mantenho qualquer fidelidade patriótica a ninguém. Se eu tivesse que gostar de Machado só porque o cara escreveu em português e nasceu no mesmo país que eu, eu deixaria de ler.

      Nenhum escritor da pátria representa algo profundo para mim. Nenhum deles nunca me disse algo relevante. Acho que até aí, eu represento o símbolo do brasileiro que abomina a leitura. Se os escritores universais não tivessem sido me apresentados, eu não seria um leitor hoje.

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  5. A imagem mostrada no texto, me fez lembrar de uma que circula pelo facebook, em que mostra uma senhora, aparentando ter mais de 60 anos, lendo um livro, e dois policiais sentados nas cadeiras que são disponibilizadas as pessoas idosas ou com deficiência, conversando serenamente, e infelizmente é aqui no Brasil, aí lendo seu texto, eu fiz o paralelo com essa imagem que eu descrevi, e me veio uma espécie de fim do leitor que lê bons livros, talvez seja exagero da minha parte.
    Charlles, sobre a tema que o MVC, cita como política na literatura brasileira, não seria por alguma acaso os livros que tratam ou tem como pano de fundo a ditadura militar? Pois se por acaso o forem, é possível citar inúmeros: "Relato de uma busca", "Qarup", "dois irmãos" e outros mais, o que talvez por terem um viés de esquerda, tanto no tema ou por ideologia dos autores mesmo, talvez o incomode, mas eu não sou especialista em política e muito menos em literatura, então eu devo estar falando muitas asneiras.

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    1. Não sei se ele se refere a tais romances, Tiago. Mas muito bom você ter lembrado deles _ eu os conheço, mas não os li.

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  6. Não cita, eu só usei como exemplo mesmo.

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  7. Não tem mesmo porque dedicar tanto ímpeto investigativo, tanta eloquência e argumentação filosófica, tanta medula mental, sendo que a razão é uma só e simplíssima: o sistema educacional mutilador brasileiro. É muito papo elevado para uma coisa que se justifica com a falta de charme do pragmatismo mais tolo: a literatura brasileira é o que é porque os leitores nesse país ainda são formados pelas exigências marciais da antiga Educação Moral e Cívica. Lembro que os livros que tive de ler para o vestibular foram Um sargento de milícias, um tal de Heleno de Godóy, e uma série de outros romances e poesias nacionais que eram de doer. Ainda incha um trauma recôndito a lembrança das horas de tortura que me foram, olhando desconsolado a chuva nas vidraças de uma biblioteca pública, a leitura de Heleno de Godóy. Uma leitura que traz tanta tristeza nunca vai sedimentar o gosto pela leitura, e nem tão pouco o da escrita. Vejam as aulas de Nabokov, recém lançadas: sobre Kafka, Dickens, Austen, Joyce, Proust, Stevenson. Os leitores brasileiros tem que ler José de Alencar e Lima Barreto, o que não seria ruim se fosse uma leitura terciária, não exigente de fantasias de grandeza telúrica e sonhos de dinastias espirituais ilusórias da pátria, mas esses e vários outros são impostos como se fossem Shakespeare e Tolstói, só que o guri não é bobo e sabe que não são Tolstóis e Shakespeare, que não há uma enorme injustiça no mundo por só nós brasileiros e lerem e ninguém mais sequer conhecê-los. Essa questão é a mais cruel que me parece das mazelas do sistema educacional. Isso é uma das coisas que nunca mudará no país, e não se trata apenas da escola pública. Dei anos de aula em escolas pública e particulares, e essa praga do ufanismo embrutecedor e emburrecedor é reinante em todas elas.

    Quem consegue fugir desse martírio passa a vida indignado pelo crime que vê os que não conseguiram escapar nele se manterem. Eu concordo que a literatura é extremamente importante, é um dos fundamentos da grandeza de uma nação e do desenvolvimento e liberdade individual (nada me parece mais real que aquela frase de que só o sujeito culto é livre), e por isso eu falo em começarmos do zero, em não subestimar-se o brasileiro. Quantos livros da literatura nacional tem mais que 200 páginas? Toda a literatura nacional representativa pela ortodoxia acadêmica cabe em uma prateleira da estante: toda a bibliografia do Machado, por exemplo, cabe um simples canto dela. Uma nação de cronistas e preguiçosos, porque nunca foram incentivados com a felicidade e o fôlego dos grandes livros.

    Um amigo professor decidiu usar seu face para tentar propagar alguma propaganda positiva de leitura. É de morrer de rir os comentários que seus amigos professores e alunos colocam em suas postagens de propagandas e pequenas resenhas de livros. Parece provocação irônica, mas são comentários sinceros. Há um que diz: "isso mesmo, professor, leia por mim porque faz muitos anos que eu não leio um livro, kkkkkkk"; outro assim: "Tá animado em enfrentar um livro desses, em teacher? kkkkkkk".

    A solução seria muito simples, mas impossível de ser realizada.

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  8. Quero ainda escrever um texto sobre livros infantis, e sobre o exame de qualidade que se deve ter sobre o que são lançados no mercado nacional. Há muitos_ a maioria_ que são não apenas tétricos, mas um perigo para as crianças. A Júlia é uma das poucas que tem um cartão na biblioteca municipal daqui, e lá não tem nenhum livro infantil que preste. Ela sempre tem que levar dois, por mania, mas nunca os lê, porque são rasos e sem graça. A maioria deles com patrocínio público, o que torna o problema assinalado no meu comentário acima mais sério: a manutenção da péssima qualidade da leitura e da tradição estúpida da lista de escritores agraciados por interesses de certos privilegiados, grana, grana e grana. Temos um livro chatíssimo infantil do Chico Buarque, "O chapeuzinho amarelo", que ganhamos do Itaú leitura (hummmm!), de um didatismo repugnante. Realmente é péssimo_ e, pensando esses dias, é o único livro de tal autor que eu li. Agora, eu comprei a coleção infantil "Os mais belos contos", da Cosac, e que regalo.... Que maravilha!!!!! A Júlia os lê e os devora todos os dias. Eles exerceram uma feliz influência na imaginação dela, em amplos sentidos. Há um que é uma adaptação de um conto de Tchécov, outro a adaptação de nada mais nada menos que "O nariz", de Gógol. Para crianças de 5 anos!!! E que belíssimas e inusitadas gravuras, que desconforto e estarrecimento alegre que elas provocam! Eles, mais um globo terrestre, foram os presentes de natal que dei para a Júlia. Lemos o Kachtanka, e corremos em acendermos o globo na tomada e pesquisarmos onde fica a Rússia de Tchecóv, onde tem-se nomes deliciosamente incomuns.

    Não sei se a Júlia será uma grande leitora. Ela tem tudo para ser, o meio e o carinho e o respeito ideal.

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