terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A Cosac Naify fecha as portas



Estou muito triste com isso. A Cosac era uma das poucas coisas que evidenciavam um paradoxo na auto-imagem do Brasil e do brasileiro, pois contrariava todos os índices de desinteresse cultural e precariedade educacional que nos derruba nas pesquisas. A Cosac sempre foi a materialização da ideologia e do profundo amor aos livros, um amor que eu sempre tive e encontrei acolhedoramente nessa editora. Sinto muitíssimo. Daqui a dez anos, cada livro da Cosac valerá uma fortuna. A Cosac será uma espécie de monastério refinado da leitura, será uma lenda. Os últimos livros que adquiri dela foram os contos completos do Tolstói, que, em definitivo, são os volumes mais belos que existem, e, semana passada em Brasília, comprei O mundo codificado, de Vilém Flusser, um autor genial que a empresa tentou resgatar do ostracismo. Fico triste, mas com aquela exultação de fundo, por algo tão milagroso e utópico como a Cosac, em um país como o nosso, ter resistido por duas décadas.

24 comentários:

  1. É uma pena, mas uma hora a brincadeira perderia a graça. Muito dinheiro gasto em tranqueiras, poderia ter sido ainda mais.lendária... Obrigado pelos Faulkner e Tolstói, seu Cosac e mr. Naify.

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  2. Tristíssima noticia. Quando li no Estadão não queria acreditar... mas vc falou tudo Charlles, é de se espantar dela ter durado 20 anos num país como o nosso.

    Pelo jeito vou ter que fazer um malabarismo financeiro pra garantir pelo menos os Tolstói.

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  3. Uma pena mesmo. Uma instituição da cultura, o livro como fetish máximo do saber, do tato e do olhar.
    Se souberem de saldões ou queimões de estoque avisem aqui, por favor.
    Uma das minhas edicões diletas? Sonho de Heróis e os Contos Fantásticos de Bioy Casares. Um tesão de edição.

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  4. Triste demais. Uma coisa dessas não acontece com a Martin Claret.

    Pra mim o Huizinga é insuperável.

    Matheus, postei meu texto sobre o MVC.

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    1. Paulo, tu não devias ter lembrado que esse livro existe, eu já tinha esquecido da existência dele, e eu estava contente com isso, pois ele é muito caro, e eu quero.

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    2. É tão caro que comprei com 50% de desconto e foi uma fortuna. É meu livro mais bonito e mais valioso (sem contar o Arco-Íris da Gravidade e O Sobrinho de Wittgenstein, de enorme valor especulativo).

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    3. Esse livro do Huizinga, com certeza vai se tornar uma raridade.

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    4. Cacete, O Outono da Idade Média é da Cosac! Essa jóia comprada por 68 reais numa promocao da FNAC, quando custava quase duzentos. De fato, o mais belo e valioso livro, incomparável com as edicoes anteriores.

      Bela resenha, Paulo.

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  5. Desolado, esse mês eu vou começar a comprar os cinco volumes do Faulkner, e quem sabe com um pouco de sorte compro os contos completos do Tolstói e os contos reunidos do João Antonio, mas parece que o que de fato pesou foram mesmo os livros de arte que custavam muito caro, e que não vendiam muito bem, mesmo o preços sendo muito abaixo do preço normal de mercado, pelo o que eu ouvi falar, mas como eu sou um completo ignorante no mercado de artes plásticas, não sei se é verdade.

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    1. Me falta o Palmeiras Selvagens. Também queria comprar o Poesia Crítica do Drummond, mas é uma fortuna. No mais, a Amazon duplicou o preço de todos os livros da cosac...

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    2. Os do Faulkner na Amazon não estão com preços duplicados não, pelo contrário, estão em promoção...

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  6. Acho que não expliquei direito. A Amazon vendia os livros da cosac nas ultimas semanas ( e não somente) por um preço bem baixo; ressureição, por exemplo, estava saindo por 35 reais. No dia seguinte ao anuncio do fechamento da cosac o mesmo já custava 72...

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  7. Hahaha leiam isso https://medium.com/@thiagocapanema/cosac-naify-e-%C3%A9-realiza%C3%A7%C3%B5es-editoras-que-n%C3%A3o-conhecem-lucro-e069a184865c#.mqevtbk8u

    Editoras que só vendem MESMO quando fazem promocoes = Estao fazendo isso errado. Cacete, a É tem um acervo bem bom, mas é tudo tao caro...

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  8. ahsushuahsuash http://www.valor.com.br/cultura/2491934/um-personagem-procura-de-seus-autores que demaaaais, que personagem.

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    1. Que personalidade espetacular esse Charles Cosac! O fechamento da editora foi, por mais leviano que isso possa parecer, a minha primeira constatação séria da crise nacional, ainda que algo incorreto visto a constante renitência por sobreviver da empresa no vermelho.

      Tenho muitos livros da Cosac, e acredito que demorarei comprar mais. Há títulos que eu namoro há tempos, como O companheiro de viagem, O vermelho e o negro, Pais e filhos, mas a situação insegura que estamos por viver me cortou o tesão de gastar com livros. Já os tenho demais, um tanto de coisa para ler acumulada. Uma informação achei interessante em um dos textos desses links, que o Brasil é um país em que presidiários leem mais que universitários. Essas diagnoses sempre me fazem me achar um anacronismo.

      Tenho uma perturbadora impressão que o livro que se tornará uma relíquia séria é A árvore dos desejos, do Faulkner. Nunca mais na vida esse título será reeditado aqui, ou mesmo em qualquer outro idioma. E, poxa, não o tenho. Será algo que terei de me conformar.

      O texto do Paulo realmente é ótimo:

      https://raviere.wordpress.com/2015/12/01/soterrados-pela-poeira-da-gloria/

      O tema do livro por ele resenhado, trocando em miúdos, é o que eu digo por aqui: para termos uma existência literária genuinamente relevante, a "literatura brasileira" deverá ser extinta imediatamente.

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    2. Ah, uma única e solitária vez a Cosac me ofereceu um livro de brinde, para a divulgação em meu blog. Havia me esquecido disso. Foi "Esperando Godot".

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    3. Vivo uma nostalgia maciça antecipada: a de que daqui décadas estarei andando por uma biblioteca alheia que me deliciará de inveja e angústia diante os volumes que tive que abdicar no presente: Bartleby (a edição da Cosac é um fascínio, é mágica pura!), Oblomov, os volumes de contos de Tchécov.

      A propósito, quem estiver online liguem na Globonews, que acaba de anunciar que Charles Cosac vai aparecer para explicar suas razões para o fechamento da editora.

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  9. Charles Cosac respondendo agora à pergunta de seu legado, com a voz embargada: "Meu legado... meu legado é meu amor pelo Brasil". Emocionante fim do jornal globonews da noite, recheado de alto a baixo de violência e a mesma rasteira e imbecil manipulação política.

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    1. Desculpa, brother, mas nao acredito que ele tenha dito isso. Nao. É um exercício literário teu, estilo Monterroso e o dinossauro. "Meu legado... meu legado é meu amor pelo Brasil". Que mini-conto! Só acredito vendo. Ninguém pode ser tao TAPADO dessa forma. Vou atrás do vídeo.

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    2. Quase me emocionei, com a paradinha no "meu legado". Quase. Quando o cara é milionário, é excêntrico. Pode parecer ressentimento um tanto marxista meu, mas não é. Muito nonsense por duas décadas. Tá certo, cansou de perdeu dinheiro da herança. Mas poderia ter feito muito mais. Pedisse ajuda para os Schwarcz, ora. São lefties no ideal, mas como essa gente sabe fazer dinheiro e obter retorno nos investimentos... Estou desapontado, porém irritado. Agora é abraçar as editoras de crowdfunding.

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  10. Eu pesquei esse comentário do Nelson Ascher, que por sinal foi o coordenador da coleção leste: "Nos comentários de outro amigo ontem aproveitei pra fazer essas observações dissidentes: Digamos que durante a maior parte do tempo a editora não foi das firmas mais bem administradas. Mesmo se era pra queimar grana a fundo perdido, esse dinheiro poderia ter ido mais longe e feito mais. Saíram sem dúvida coisas boas, mas seguramente custaram pros financiadores bem mais do que teriam custado em mãos competentes. Qualquer editor mediano, com essa nota, teria conseguido pôr de pé nosso equivalente ou da Oxford World's Classics ou da Pléiade. Em vez disso, muito da grana que não foi pro Tolstói (a coisa mais durável deles e que poderia muito bem ter se pagado com lucro) foi parar num trem da alegria de mediocridades. Houve um bom diretor lá, competente e inteligente, mas durou pouco. Os demais usaram cédulas de R$ 100 pra acender o charuto e coisas assim. A culpa não é do Brasil nem do mercado nem dos leitores, mas dos pseudoprofissionais e de sua Entourage de parasitas, que queimaram dinheiro e uma pluta oportunidade. Ou de outros tantos que usaram grana alheia pra promover amigos, a turma e a si mesmos, pra se tornarem mais poderosos na nossa cultura corrupta. Don't cry for me Venezuela."

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  11. Fica difícil traduzir em palavras tudo o que eu senti desde a divulgação do fim das atividades da Cosac Naify até a reportagem veiculada pela Globo News. É desolador constatar que um projeto ousado e de qualidade, que rendeu muitos frutos e que contribuiu sobremaneira com a atividade editorial e a cultura no Brasil se encerre depois destes quase vinte anos. Pior do que isso é redigir este desabafo, este desalento, ao som de um sertanejo universitário tocando no último volume, em um automóvel qualquer, adentrando pela janela e invadindo toda a sala da forma mais agressiva e perniciosa. Encerro por aqui.

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  12. Carta de despedida do Charlles Cosac. http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=18607

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