sábado, 4 de julho de 2015

Neste sábado desterrado do infinito



Essa noite fiquei horas em estado de torpor entre sono e vigília, ouvindo a inigualavelmente bela música de Toumani Diabaté. Ainda preciso recorrer à consulta para saber direito o nome desse músico africano que, para meu espanto e culpa, não conhecia_ tenho um problema renitente com a memorização de nomes, sejam os mais prosaicos ou os mais incomuns, como o Diabaté. Foi uma noite de insônia, envolvido com meus projetos, em que baixei os dois álbuns disponibilizados pelo PQPBach, e, para não incomodar os que dormiam em casa, lá pelas 3 da manhã, ouvi os álbuns pelo fone do celular. De imediato me assaltou o pensamento: "Essa música é Proust!" E assim ficou: coloquei a música no aparelho, em volume confortável mas incisivo, para que minha esposa e minha filha ouvissem no sono das oito horas da manhã, e me deitei no sofá já profundamente enternecido por ouvir Proust. Pensei, diante meu assombro por este músico existir: "Quanta beleza existe no mundo! O quanto a beleza é generosamente infinita!" E o Milton Ribeiro comenta na postagem do PQPBach a única e expressiva palavra: "Felicidade". E não poderia ser mais eloquente: Diabaté é pura felicidade, uma felicidade quente (como dizia o Belchior), uma felicidade profunda, sagrada, esotérica, enternecedora, recolhida, modesta em sua vasta insinuação. A música conduzia minha mente a tantas imagens, assim que eu fechava enebriado os olhos, à infância, à percepção de detalhes antes fugidios, a uma espécie de overdose de impressões resgatadas de um subconsciente (para usar, preguiçosamente, um termo bem inadequado) que não era só meu. Por isso a rápida identificação com Proust. Esses dias, assistindo um documentário sobre o álbum Parallel Lines, do Blondie, (um álbum que aliás nunca ouvi), a cena final é ocupada pelas palavras de um muito velho executivo do ramo fonográfico, notoriamente judeu, que disse: "Nem só de pão vive o homem. Essas palavras falam sobre a indispensabilidade da arte para o ser humano". Dessas coisas. Hoje, ao som de Diabaté, li o conto Conversas com personagens, do Pirandello, e sob a forte conjunção estética, me pareceu um dos mais emocionantes e belos contos que já li. A música de Diabaté repete o consolo da eterna simplicidade que perpassa todas as coisas e que revela a única disposição possível diante a verdade: devemos estar sempre alegres.

21 comentários:

  1. Sempre achei que não somente a beleza sozinha salvará o mundo, mas também a gentileza terá papel protagonista nesta tarefa cada vez mais árdua. Generosidade como essa do pessoal do PQPBach em disponibilizar essas coisas para a gente, e do Charlles ao reforçar a indicação e fazê-la acompanhada dessas belas palavras. Ainda hoje conhecerei esse músico africano!

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  2. Charlles,
    Sei que o post aqui é para Diabaté (aliás, vou procurá-lo agora no Youtube).
    Mas permita-me outra variação da felicidade se já não o conhece.
    O pianista Africano virtuoso Bheki Mseleku. Sobre ele, Joe Henderson disse que se esse tivesse nascido no Harlem dos idos de 40, teria sido um dos grandes ao lado de Bird et al.
    https://www.youtube.com/watch?v=1Ys8i8BjslE&list=LL06NZdYdSGINMJ6bVMRQuog&index=4

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  3. A música é de fato um encanto absoluto. Achei outras coisas dele para download pela internet, que não estão disponíveis lá no PQPBach. Se alguém quiser, dou um jeito de distribuir.

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    1. Não falei?

      Oh! Ficaria muito feliz, Fabricio!

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    4. Charlles, confere aí na sua caixa de e-mails, vê se você consegue pegar o arquivo que compartilhei com você via Google Drive. Se mais alguém quiser, é só me passar o e-mail. São sete discos do Toumani Diabaté (alguns com parcerias).

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    5. aí, Fabricio. fiquei curioso com o som. arbomenna arouba gmail com

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    6. Tem mais um ótimo, aqui:

      http://pqpbach.sul21.com.br/2015/07/05/toumani-diabate-ali-farka-toure-in-the-heart-of-the-moon-mais-biscoito-fino-do-mali/

      Já o Ali Farka Touré achei a discografia pelo torrent, fácil.

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  4. É que eu sou um pouco avesso a música em formato digital. Uma bobagem, je sais...
    Dá uma olhada no Mseleku se tiver tempo. O cara é realmente incrível.

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    1. Não conhecia o Mseleku. Me pareceu sensacional!

      Há uma impressão forte de que a música produzida atualmente carece de criatividade e valor. Minha experiência com o que tem disponível no mercado musical de hoje não me permite contradizer esse fato. O rock, por exemplo, agoniza; o pop nunca esteve tão idiotizado. Já o jazz, apesar de incapaz de fazer a indispensável revolução renovadora, ainda oferece um sem número de grande conteúdos. Li, não me lembro onde, alguém conceituado dizendo que essa revolução do jazz virá (na verdade está acontecendo, timidamente) através da dita world music. Diabaté, penso, é world music sem limites visíveis com o jazz. Me lembra muito Keith Jarrett. E a força dessa nova música vem, justamente, de sua independência ao mercado fonográfico. Diabaté me parece um músico com a gravação colhida em seu momento religioso sincero (pesquise sobre a vida dele; toda sua família vem da tradição mística de tocar a kora, essa harpa sobrenatural e absolutamente fantástica que parece ser tão primitiva, mas que oferece uma expressão tão rica_ que nos remete, um tanto preconceituosamente por nossa ignorância etnocêntrica, ao uso do termo "europeia").

      Há um post eu estava defendendo mais uma vez o livro, em oposição ao "livro digital". Certa vez até perguntei para você o melhor modelo de um leitor digital (é esse o nome?), mas acabei desistindo de comprar um. Agora, contraditoriamente, não posso dizer o mesmo da música digital, infelizmente. Pesquisei algum cd do Diabaté, e só achei na Cultura um dos que o PQP disponibiliza, por 68 reais, e mais 19 reais de frete, a com a espera de 3 a 4 meses, já que é um produto importado. E com o risco de, no final da espera, a Cultura comunicar com pesar não tê-lo encontrado em seus fornecedores. Compro todos os meus álbuns fundamentais, ou procuro fazê-lo, mas tem uma enorme ausência na coleção, o Milestone, que não consegui comprar, após esperar uns 4 meses que a Cultura o enviasse e ela respondeu cancelando o pedido.

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    2. P.S.: devo ser sincero com a Cultura e com a impressão que os frequentadores do blog fazem da minha inteligência: na verdade os produtos importados que compro da Cultura (90% livros, 10% cds) demoram em média 3 meses para serem entregues, e não 3 a 4 meses, e só dessa vez, com o Milestones, que a Cultura disse não ter encontrado o produto.

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  5. Testaço do Zizek sobre o Não Grego de ontem. Do caralho mesmo.
    http://www.newstatesman.com/politics/2015/07/Slavoj-Zizek-greece-chance-europe-awaken
    Charlles, depois respondo com mais tempo a sua dedicada réplica.

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    1. Preocupa com minha prolixidade ociosa não, Luiz.

      Vou ler o texto do Zizék.

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    2. Do caralho mesmo o texto do esloveno!

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  6. baita música: refrigera minha alma carcomida!

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