segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O efêmero privilégio de morrer por último



O local que ficou conhecido como Ilha de Páscoa, em sua história antiga sem registros voluntários além das apavorantes descobertas fósseis feitas no século passado, teve 12 tribos. Dois aspectos cruciais são os detalhes comuns entre elas: o fato de que alimentavam uma rivalidade entre si que foi se acentuando progressivamente, e a obsessão que cada uma possuía de construir menires de pedra cada vez mais gigantescos. A estatura desses inúteis blocos de pedra definia a supremacia que uma tribo tinha por sobre as outras. Quem conseguia construir os menires mais fabulosos, ganhava o instantâneo direito de ser visto como o ápice em poderio econômico, político e espiritual, até que outra tribo retirava o ganhador de seu patamar e se assentava com todo seu orgulho no topo social, tendo por sua vez confeccionado o novo menir mais alto. E assim se consumou toda a centenária história que a Ilha de Páscoa tem para contar, em seus restos mortais de ossos e pedras. Uma pequena ilha, que no começo de sua civilização era um paraíso verde, com rios, árvores, pesca e caça abundantes, teve seus recursos naturais destruídos na loucura estúpida de seus líderes e seu povo em erigir tristes figuras hoje incompreensíveis ao deus próprio de sua ambição. Cortaram uma a uma suas árvores, para que com elas rolassem por cima as vigas de pedra; mataram um a um de exaustão seus animais de pastoreios, que tinham de puxar as pedras; retiraram do chão todo o minério necessário para contribuir com a desertificação da paisagem; dizimaram-se como povos na repaginação em menor escala do escravismo e da usura de suas classes dominadoras. As páginas mais terríveis do relato de suas fugazes passagens pelo tempo, inseridas no fundamental livro Colapso, de Jared Diamond, são as que falam do momento final de seu povo. Terminadas todas as fontes de sobrevivência, dilapidadas toda a riqueza natural da ilha, as doze tribos começam a se devorar literalmente umas às outras, em um canibalismo desesperado que tenta dar um lenitivo à miséria. Os achados arqueológicos da Ilha de Páscoa calam em nós a premonição que não queremos ver, em uma sociedade atual em que, da China, vem um pedido de socorro em um pacote comprado pela internet, em que sua compradora brasileira, reportada em alguns jornais, revela o choro que a tomou ao ler o bilhete inserido na encomenda pelo indeterminado funcionário: "I slave. Help me". Da realidade de agora, a estultície de construir blocos de pedra se revela com o mesmo grau de cegueira com a obsessão que temos por celulares, carros, horas vazias de tarefas diárias preenchidas para abater o pensamento, e uma série de regras de consumo feroz da qual não conseguimos sequer racionalizar, quanto mais escaparmos dela. Nossos menires são pagos com tudo que em um passado assombrosamente recente tínhamos ainda em relativa abundância, mas que agora desaparece com uma rapidez punitiva: a água, as outras espécies animais, a frágil segurança dos estoques de alimentos. Estamos em franco e letárgico suicídio, e a inteligência nos abandonou de vez. Perdemo-nos em discussões sem foco. Os homens, mulheres e crianças das 12 tribos da Ilha de Páscoa se comeram uns aos outros, num espetáculo que os privou do mínimo resquício de humanidade, em cenas que as tantas ossadas descobertas fazem-se brutais demais para que nossos pudores suportem imaginar.

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Mensagem postada por minha esposa Dani, em uma rede social:

"A natureza sabe ser sarcástica: manda a chuva por um dia, encobrindo os céus de nuvens, e ficamos deliciados com o frescor e a alegria do tempo, mas depois nos devolve o sol em toda sua fúria. Como se a dizer que os tempos de chuva contínua já ficaram no passado, não retornarão. Não podemos lamentar que a chuva tenha ido embora, pois ela nem chegou realmente a vir. (O que fica é o barulho da moto-serra do vizinho da rua abaixo da capela da igreja católica, que funcionou a tarde inteira ontem, cortando uma árvore.)

P.S.: esse domingo foi Dia de Finados. Não me lembro de nenhuma desta data que não tenha chovido. Pela primeira vez, não choveu."





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