terça-feira, 7 de outubro de 2014

Onde o nosso sucesso fracassa _ a caçada em "A confissão da leoa"



por João Antonio Guerra

Bestas atacando a aldeia de Kulumani, matando as mulheres de Kulumani―e, para o humano matador de matadores, tanto faz a morte de vinte ou duzentas mulheres: tem um só caminho problema adentro: os leões estão lá, a arma está aqui, os leões não estão mais lá. Deram a esse caminho o nome de caça, e o caçador bem sucedido se tornou aquele capaz de responder a morte com mais morte.
            Mas o Arcanjo Baleiro de Mia Couto diz assim ao administrador do distrito, Florindo Makwala: Sou um caçador. Eu não mato, eu caço. A resposta do administrador é previsível, nascida do comum-corrente, e poderia ser a de qualquer pessoa: ele pergunta E não é a mesma coisa?
Não, não somente―e esse não Arcanjo Baleiro carrega no nome, como se percebe: que espécie de bala atiraria um arcanjo, se balas são instrumentos para perfurar e estraçalhar a carne e arcanjos são criaturas que preexistem à carne? Sabemos então que Florindo Makwala nem imagina com quem está falando quando, mais tarde, responde que tanto faz matar ou caçar, o que importa é que as pessoas possam voltar às suas atividades diárias―aliás, não sabe nem de quê estava falando, pois foi justamente o modo como a vida se dava em Kulumani que chamou as bestas, a chegada das bestas por sua vez chamando aquele mesmíssimo Arcanjo Baleiro, isso tudo se arranjando de tal forma que é inadimissível o retorno da Kulumani-normal, a de tantos e tantos anos mesmíssima.
Mesmíssima como? Como Kulumani se fez aldeia no tempo? É necessário primeiro entender a palavra maldição.
Tema amado por William Faulkner―inventor de Yoknapatawpha, um condado do sul dos Estados Unidos que tem sua estória inteira escrita em sangue―William Faulkner e mais uns tantos; temos em A Confissão da Leoa um lugar não tão distante do condado criado por Faulkner para ser o verdadeiro personagem principal de Absalom, Absalom! ou The Sound and the Fury, por que tanto as terras de um Supten quanto as terras de um Mpepe são amaldiçoadas. Recortando do mundo uns poucos metros quadrados, já temos um número incontável de gerações humanas que ali foram injuriadas. Imaginemos agora as pragas, as rezas nascidas do ódio, mesmo os últimos suspiros reservados para clamar por ajuda ou vingança, ou simplesmente para gemer fora a dor; imaginemos cada um desses desesperos se soldando ao outro, lentamente tomando a forma de uma bocarra gigantesca―em Autran Dourado, outro muito bom com maldições, a própria terra tem o poder de engolir os cidadãos de Duas Pontes e mesmo construções inteiras: são as voçorocas, que se abrem revelando a carne vermelha do chão―e isso tudo sem a necessidade de uma organização divina, o próprio Nada recebendo cada apelo e fazendo nascer a vingança inevitável, que cairá sobre os herdeiros dos assassinos e estupradores que, mesmo incrédulos, dizendo-se inocentes, vão sofrer. Poder é a capacidade de fazer vítimas; os maiores atacam os menores com a certeza de que não haverá levante, mas através da maldição dos vencidos vai se formando um poder que se agiganta a alturas muito superiores às dos demais―e por causa de seu tamanho, cessa o assunto: raramente se ouve estórias de quem se vinga de vinganças.
E então abrimos A Confissão da Leoa, estamos diante de Kulumani―a Kulumani que é dos machos―e suas gerações e gerações de mulheres aprisionadas, do estupro, do masculino invadindo e infestando corpos femininos: estamos diretamente sobre os dentes da maldição. As mulheres, há tanto tempo dilaceradas pelo poder macho―poder que, como vimos, é pouco comparado com o que está lentamente se revelando―, dilaceradas agora pelos felinos estão livres como nunca antes estiveram. A personagem Tandi atrevessou o mvera, limite proibido às mulheres, e foi estuprada por todos os que estavam do outro lado em retaliação; depois de morta pelas bestas, seu fêmur que uma hiena deu de carregar na boca não tem mais sobre si os mesmos limites. Inquirida pelo escritor Gustavo Regalo sobre a ocasião da morte de sua filha Silência, Hanifa Assulua responde que o leão estava dentro, mas dentro da casa?, pergunta o escritor, e a resposta de Hanifa é repetir a palavra: Dentro.
Se Arcanjo Baleiro quisesse abandonar seu caçar e ser um matador como todos os demais, teria que ter uma bala para cada mulher da aldeia―e mais uma para sua própria mãe: ela, que sofria o kusungabanga, isto é,  tinha a vagina costurada pelo marido toda vez que ele se ausentava, e acabou morrendo infeccionada em decorrência da repetição. Arcanjo Baleiro é baleiro por herança do pai, Henrique, e Arcanjo por vaticínio da mãe, que previu que ele não seria caçador. Tensionado entre pai e mãe, Arcanjo se situou no meio―não mera metade de uma linha progressiva entre dois pontos, mas um caminho inteiramente diferente dos dois: caçador sim, mas um caçador que caça, e não mata. Não dá um tiro sequer contra as bestas, e elas também se recusam a atacá-lo.
Não foi à Kulumani matar leões, mas, lhe é revelado pela feiticeira Apia Nwapa, matar uma pessoa―que acabam sendo duas, é possível dizer sem medo de muito erro. O problema com os felinos aparentemente acaba com a dupla morte de Genito Mpepe, pai de Mariamar, que estuprou como estuprou todas as suas demais filhas, e da última leoa; os dois morrem abraçados um no outro de uma maneira que os homens presentes penaram para separar. É ao mesmo tempo que Arcanjo descobre o segredo da morte de sua mãe, a razão de seu irmão Rolando ter assassinado o pai com seu próprio rifle de caça. A presa da caça de Arcanjo Baleiro é o poder masculino e sua herança―é o Pai, maiúsculo e másculo, portanto tanto Genito quanto Henrique.

Os homens que de fato caçaram para matar eram todos estupradores, começando com os rapazes iniciados que abusaram de Tandi; a leoa morreu nas mãos de Genito, o leão nas mãos do polícia Maliqueto Próprio. Todos extremamente bem sucedidos―sóis destruidores de estrelas, tiranos da Noite―e portanto uns fracassos. Inclusive faltou uma fera, que ninguém teve a inteligência ou a coragem de contar―somente Hanifa Assulua. Arcanjo Baleiro, por outro lado, não errou tiro algum: é um rifle deixado de lado.

2 comentários:

  1. achei bem bonito o escrito, sobre um tema duro; ou seja, em sintonia com a verve de Mia Couto.
    durante a leitura não pude deixar de pensar na peça q vi recentemente, Incêndios, montagem brasileira, obra original de Wajdi Mouawad... já devem ter visto pelo menos o filme (eu não vi, mas fiquei sabendo q é relativamente famoso - e, atenção, tem spoiler mais abaixo). A peça trata disso, a África e o Oriente Médio são estes terrenos, mas também são os nossos.
    "Poder é a capacidade de fazer vítimas". Tudo isso me remeteu ao tema do ressentimento, num nível universal, como se estivéssemos todos aqui num esquema perpetuado por estas culpas pré-históricas, a fraqueza travestida de poder, vitimizando pra deixar de ser a vítima da vez. É triste. A peça, se não viram, vejam, funciona no campo do mito - e o Mia sempre flerta com essa linguagem, me parece. Filhos estuprando mães é uma síntese dura e... poderosa.
    Não li este da leoa, mas A varanda do Frangipani já tinha isso da maldição. Os fantasmas que estão conosco, que deveriam nos dizer alguma coisa - que deveríamos escutá-los, no mínimo, na verdade. O rifle deixado de lado - ainda só é possível narrar este ato na "pele" de um arcanjo, não é mesmo?

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    1. João Antonio Guerra13 de outubro de 2014 13:45

      Opa, com bastante atraso, mas respondendo!

      Fico feliz que tenha gostado, Arbo. E conheço esse Incêndios não, mas vou dar uma procurada no filme.

      Muitas vezes o Mia projeta nas suas estórias, entre outros horrores (como esses dos patriarcas estupradores aí na Confissão), a sombra da guerra civil moçambicana. Às vezes ele nem nomeia, como é o caso do penúltimo livro dele, Jesusalém (aqui no Brasil a Companhia mudou o título, virou Antes de nascer o Mundo, e nunca soube o porquê da mudança): simplesmente mete os personagens entre ruínas e a gente já advinha a guerra. Tem uma pequena introdução lá em Contos do Nascer da Terra (meu livro favorito dele), que é pra mim uma das coisas mais geniais que o Mia já escreveu, e que é ele como que admitindo que vai falar sempre de um assunto só e sem precisar ter medo dele se esgotar. A Companhia acabou de reeditar esse livro, aliás. Recomendo com força.

      O Disgrace do Coetzee é outra obra sobre maldições -- e depois que eu li o Ressurreição, do Tolstói, percebi que o esqueleto do Disgrace é o mesmo que o do Ressurreição, Coetzee como que apenas "retirou" Deus da composição, com parte desse esforço se evidenciando logo no título; e o Naipaul tem esse tema também, só que tratado através de narradores muitissimamente mais interessantes (pra mim) do que o Coetzee ou o próprio Mia.

      E tem o Faulkner, é claro. Ninguém bate aquele desgraçado :)

      Eu na verdade não tinha gostado muito do Confissão da Leoa quando li pela primeira vez, por causa de umas previsibilidades do livro -- entre outras faltas da apuro, tem um plot twist lá pro final que é tão clichê que o próprio Mia como que decidiu jogar ele rápido no texto e passar logo pro próximo capítulo, de modo que não dá nem pra culpar quem não o percebe. O que me convenceu a escrever foi o Arcanjo Baleiro abdicando do rifle, a coisa mais sensacional do livro e uma das melhores do Mia, e também as ligações que esse trabalho revelou ter com o meu outro, sobre Faulkner.

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