segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Longe de Yoknapatawpha, a água ainda flui lenta pela planície


por João Antonio Guerra 

Memória como um enorme armazém, aumentado de instante a instante num movimento irmão ao da diástole, e com o abandono dentro crescendo igualmente, as pilhas cada vez mais altas e mais e mais corredores se tornando trincheiras esquecidas e mais e mais e mais a presença da escuridão invencível rivalizando com a do conteúdo fragilíssimo de cada metro quadrado―aí está dito o entendimento corrente do que chamamos memória, e é corrente tanto por ser comum quanto por ser carcerário; já em Faulkner: memory believes before knowing remembers, believes longer than recollects, longer than knowing even wonders: de volta à memória o seu título de sempripresença, que não necessariamente prescinde do esforço humano de ativação, mas ao menos preexiste a ele.  O Passado é portanto algo ainda mais agigantado do que o colosso que simplesmente lança sua sombra sobre nós no Presente: o Passado é aqui-agora.
            Só assim surge a Yoknapatawpha das estórias de William Faulkner, pois o condado sulista inspirado em Lafayette tem o Passado intrometido em cada milímetro: é totalmente povoado por herdeiros de uma maldição, isto é, por homens e mulheres que serão inevitavelmente dilacerados pelo poder de uma criatura surgida da aglomeração de todas as rezas e pragas e suspiros e gemidos e gritos finais, enfim, o desespero dos expulsos e torturados e estuprados e mortos―o mesmíssimo desespero que no momento mesmo em que primeiramente se apresentou foi dito desespero-inútil, para depois gerações e gerações fazerem questão de esquecê-lo―dá a vida a uma Caribde, mas uma Caribde talvez mais monstruosa que a grega, porque prescinde tanto do mar quanto do estardalhaço e não se limita a criar turbilhões mahlerianos apenas três vezes ao dia. O destino é um só: ser engolido pela maldição; os desfechos dos personagens faulknerianos das estórias de Yoknapatawpha, portanto, já podem ser deduzidos: imergir na total inércia, seja a inércia do túmulo (como um Quentin Compson) ou do esquecimento (como um Benjy Compson), ou então se lançar na tentativa de uma última resistência estúpida e má e que será inevitavelmente ceifada mais tarde (como um Jason Compson); em Absalom, Absalom!, toda a trama é contada logo na segunda página, porque a potência da maldição de Yoknapatawpha é tamanha que faz a própria contação acreditar nela assim que começa seu trabalho. E aquela Caribde enterrada abrirá a bocarra e cumprirá seu dever, e enquanto isso water flow slow through flat land: o significado da junção das palavras da língua chickasaw que é Yoknapatawpha, a indiferença constante da terra perante os horrores da vingança da História―os Chickasaw foram os habitantes expulsos da terra e os primeiros a colaborar para o nascimento da maldição.
            Agora: If I forget thee, Jerusalem―que por muito tempo teve seu tema (a memória) soterrado sob a escolha de outro título sem sentido, apenas o nome da primeira das duas estórias do livro―é uma obra que não se passa no mundo mítico de Yoknapatawpha: é composta por duas estórias irmãs, Wild Palms e Old Man, cinco capítulos cada estória e com uma contação entrelaçada (primeiramente o primeiro capítulo de Wild Palms, depois o primeiro de Old Man, depois o segundo da anterior e assim por diante), mas sem contar com a presença de nomes conhecidos de Yoknapatawpha como os Sartoris ou os Snopes, porque foi escolhido que a dupla de estórias se passaria em territórios mapeados, como a Chicago para qual o casal de amantes de Wild Palms primeiramente foge, ou a Louisiana da beira do rio Mississipi povoada por cajuns como o ribeirinho com quem o Prisioneiro Alto de Old Man acaba esbarrando. As criaturas de If I forget thee, Jerusalem não estão então fadadas aos fins que a leitura usual de Faulkner apresenta―escolha, a palavra chave para o entendimento da distância entre um Henry Wilbourne e (por exemplo) um Darl Bundren é escolha, coisa que este não teve e o primeiro fará.
            Na casa da escultora Charlotte Rittenmeyer, enquanto suas duas crianças dormem e os muitos convidados do marido estão sentados no chão e uns nos colos dos outros e bêbados, há uma palmeira solitária pendendo sobre o muro carcomido do quintal, tremendo contra o vento invisível; Henry Wilbourne mais tarde sairá da casa de praia e entrará na total escuridão à procura de alguém para salvar aquela Charlotte, sua amante agora agonizando em virtude de um aborto que ele mesmo conduziu e que ele mesmo sabia―aquelas sabedorias inexplicáveis dos personagens de Faulkner, como se fossem todos escafandristas mergulhando no mesmo lodo coletivo, e portanto acessando o inacessível de outros-uns e outros-quandos―que ele mesmo sabia, desde o surgimento da necessidade de abortar, que daria na morte da mulher, e na praia o mar invisível dentro do breu manda o vento invisível chacoalhar violentamente as folhas invisíveis das muitas palmeiras invisíveis que cantam enquanto Charlotte grita; mais tarde ainda, Henry Wilbourne preso, o suicídio dançando nas ideias: além da janela, uma última palmeira, uma última manifestação corpórea da insatisfação, da raiva inesplicável que pode enlouquecer a criatura humana e a arrastar para a fuga e a fuga e a fuga.
            E Old Man, considerado por Faulkner “mero” contraposto humorístico à outra história: o Velho, o Mississipi inundando, os diques rompendo, as grandes ondas arrasando a terra em fúria, e os presos da Fazenda Penal do Mississipi sendo postos em barcos para participarem no esforço de resgate; o Prisioneiro Alto recebendo a ordem de salvar uma grávida, e começando aí o dever que o obcecará por toda a estória; os dois juntos e o barco são arrastados rio abaixo até territórios desconhecidos, passam pela provação do parto e―eles que, dois ignorantes, simplissímos, encontram por puro acaso o lugar que a Charlotte Rittenmeyer escultora e o Henry Wilbourne médico arruinaram as suas vidas para encontrar e fracassaram, e o Prisioneiro Alto e a mulher abandonam a chance, os dois simplórios demais, o homem um menino de dezenove anos em cuja cabeça incrustaram um dever que a imaturidade entende como algo inescapável.
            O Prisioneiro Alto tinha que se livrar da mulher e do barco, devolvê-los, era o que tinha na mente e foi o que fez e então se entregou, para a máquina carcerária cuspir um problema estúpido e dobrar sua pena; logo após a injúria,  a escolha: preso novamente, tem a possibilidade de denunciar aos colegas o mal que a máquinha lhe fez, mas não o faz. Tambem encarcerado, Henry Wilbourne tem numa das mãos o suicídio em forma de cápsula, e o esmigalha num canto da cela: quando ela deixou de ser então metade da memória deixou de ser e se eu deixar de ser, então toda lembrança deixará de existir (...), entre a dor e o nada, escolherei a dor. Permanecerem vivos e sós em nome da memória―embora a implacabilidade de um mundo que como um rio percorre seus caminhos indiferente aos nossos próprios meandros esteja nas celas do Prisioneiro Alto e de Henry Wilbourne, essa escolha que fizeram é algo impossível para os habitantes de Yoknapatawpha.

            A escolha de ser contra a lápide―contra a pedra posta sobre o Passado menos para honrá-lo do que para impedir que retorne―e de assumir o compromisso com a memória.

19 comentários:

  1. Fora alguns contos e Santuário, não li nada de Faulkner. Dá pra ler o texto mesmo assim (sem o risco de ficar sabendo demais ou de não entender nada)?

    Pesquei essa frase: water flow slow through flat land. O verbo é sem conjugar mesmo? A frase é de onde? Tenho que ler Faulkner urgentemente.

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    1. João Antonio Guerra15 de outubro de 2014 11:30

      Ih, é mesmo: eu conto boa parte do que acontece em If I forget thee, Jerusalem (Palmeiras Selvagens), o que pode ser muito ruim pra quem não leu ainda -- aliás, piora: meu trabalho é sobre como a escolha de escrever uma estória fora dos domínios de Yoknapatawpha serviu para se afastar das condições impostas por aquele lugar, o que acabou fazendo uma diferença enorme especialmente nos destinos finais dos personagens; basicamente, isso quer dizer que eu estou sutilmente dando "spoiler" pra tudo que o Faulkner situou em Yoknapatawpha.

      Mas bem, são spoilers que não spoil nada: não estragam nada, porque a força do Faulkner tá em outra parte, longe do enredo. Tem um momento no meu trabalho que eu dou este exemplo: na segunda página de Absalom, Absalom!, a narração comprime a estória toda em algumas linhas só, dá o spoiler de si mesma, e é claro que não se estraga com isso.

      Essa frase é o significado do nome Yoknapatawpha, que é uma palavra composta dos Chickasaw, os nativos que foram expulsos daquela terra. Tá faltando um S aí sim!, ainda que não faça diferença na pronúncia por causa do seguinte. Nas transcrições das palestras que o Faulkner deu na Universidade da Virginia, dá pra encontrar tanto water flows quanto water runs; preferi flows porque assim, traduzindo, conseguiria manter ao menos os Ls e Fs da frase original.

      Sobre ficar sem entender nada: eu não chego a falar diretamente de Santuário no texto, mas, se você se lembrar dos destinos dos personagens de lá (na minha cabeça, lembro especialmente do Popeye), talvez dê pra você pescar o que eu tentei dizer ali sobre os destinos dos personagens de Yoknapatawpha. Dá pra pescar, eu acho, o problema mesmo são os spoilers do If I forget thee.

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    2. Hum, vou esperar então.

      Me lembro de vários personagens de Santuário, e de seus destinos, mas só me lembro do nome de Popeye também (acho que por causa da imagem que me ficou de alguém de alguma forma parecida com o marinheiro dos cartoons). Esse ano li na Revista Serrote umas cartas de Faulkner, de Paris, em que ele fala da alegria que foi escrever algumas páginas perfeitas, sobre os Jardins de Luxembourg - o final de Santuário.

      Vou ler o quanto antes As I Lay Dying, que já tenho aqui. Qual livro você me recomenda em seguida?

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    3. Desculpa a intromissão, mas depois de Enquanto Agonizo - comecei por este - recomendo Luz em Agosto, que li após Santuário. Acredito que João e Charlles recomendariam o mesmo.

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    4. João Antonio Guerra17 de outubro de 2014 14:20

      A maioria das pessoas que conheço prefere começar Faulkner com uma espécie de "fase introdutória", lendo um Enquanto Agonizo ou um Luz em Agosto (os mais disponíveis, enfim) como se eles compusessem um "curso preparatório para Benjy Compson" -- digo Benjy Compson porque o passo seguinte é a leitura de O Som e A Fúria, que tem aquela fama de mal, de cruelmente difícil, e também de ser o melhor de todos os faulkners, o obrigatório. Tem dois problemas: primeiro que o livro não e tão difícil assim, a maior parte da fama é só o susto que as noventa páginas iniciais causam, aquelas narradas por Benjy; segundo que, seguindo essa lógica de que todos os caminhos levam ao Som e a Fúria, coisas maravilhosas como Go Down, Moses ou a trilogia Snopes acabam virando a parte "pra-depois" da bibliografia do Faulkner, o que é muito cruel porque as pessoas demoram a chegar até lá, se chegam.

      Daí a minha melhor recomendação é só esta: não tenha medo de O Som e a Fúria.

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    5. Portanto vou ler Enquanto Agonizo e mais tarde Luz em Agosto. Depois tento ver o que sai de O Som e a Fúria.

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    1. João Antonio Guerra15 de outubro de 2014 11:31

      Fico feliz que tenha gostado, Ramiro! :)

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  3. Olá Charlles!

    Visito seu blog com frequência embora raramente comente. Mas hoje me sinto no dever de escrever algumas palavras em forma de agradecimento.
    Visitando seu blog não é difícil notar seu apreço pelo Faulkner, mas foi só dia 28 quando você escreveu sobre Lance Mortal (Um conto perfeito) que me toquei: "Meu Deus.. eu preciso ler Faulkner." Então quarta-feira passada fui na biblioteca (Mário de Andrade - A maior aqui de Sampa) com esse objetivo. Dentre as opções escolhi "Luz em Agosto"...
    Vertiginoso!... ainda estou na metade do livro mas completamente tomado por ele. (Basta algumas paginas pra saber que ele é phoda) É como você falou, da vontade de parar as pessoas na rua pra dizer: "Vocês têm que ler isso..." "Não!!! Esquece essas besteiras, lê isso aqui oh..."

    Enfim, um tipo de prazer desses que só a literatura oferece. Mas não, não qualquer literatura... só a vinda de mentes "sobrehumanas" como o dele.

    Um abraço e obrigado por isso.

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    1. Mais um ganho para a causa :-))

      Valeu, Diego!

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    2. João Antonio Guerra15 de outubro de 2014 11:36

      Escolheu Luz em Agosto! Aquele livro é perfeito. No texto aí em cima, o trecho memory-believes-before-knowing-remembers é tirado do Luz em Agosto, aquele capítulo em que a estória se volta para a infância de Joe Christmas. É uma das minhas passagens mais amadas de todo o Faulkner.

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  4. Bom texto, João. Os Iniciados nos Altos Mistérios Faulknerianos certamente o aproveitam melhor, como o Charlles (ninguém me tira da cabeça que a região de Itapuranga pode ser uma Yoknapatawpha 'nossa' nas mãos do nosso amigo). Se algumas passagens pareceram-me confusas e estranhas, e simultaneamente próximas e familiares, não foi por causa de texto mal feito, mas, penso, graças à duas coisas: ao universo interligado do velho e ao relapso na leitura do resto de suas obras.

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    1. João Antonio Guerra17 de outubro de 2014 14:28

      Fico feliz, Matheus!

      Essa da Itapurangapatawpha é sensacional.

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  5. Charlles ou amigos que comentaram, para quem nunca se aventurou em Faulkner qual a obra para ser iniciado a ele?
    A trilogia dele é uma boa pedida?

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    1. Tenho por mim ser impossível o leitor não virar um fã ardoroso de Faulkner após ler Luz em agosto.

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    2. Completando: os romances mais permeáveis de Faulkner_ que também estão entre o que ele de melhor já escreveu_, são: Luz em agosto e O povoado. Conquistam na primeira.

      Para os iniciados, recomendo que a leitura siga para o que considero ser o que Faulkner melhor escreveu: Absalão, Absalão! e Desça, Moisés.

      Mas não aconselharia que se comece nem por O som e a fúria (o que o João, no entanto, pensa diferente), nem pelo Santuário, nem pelo Uma fábula.

      Mas tudo do Faulkner é excepcional, afinal de contas.

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  6. É um jurado do Nobel quem o diz: os cursos e as bolsas estão a destruir os escritores
    Horace Enghdal, membro do júri da Academia sueca para o prémio Nobel da Literatura, afirma que a "profissionalização do ofício, as bolsas e apoios financeiros" estão a destruir a literatura ocidental. "Antigamente, os escritores trabalhavam como taxistas, funcionários, secretários ou empregados de balcão."

    Ler mais: http://expresso.sapo.pt/e-um-jurado-do-nobel-quem-o-diz-os-cursos-e-as-bolsas-estao-a-destruir-os-escritores=f892667

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    1. João Antonio Guerra21 de outubro de 2014 15:28

      A padronização destrói tudo, e ela pode vir da profissionalização do ofício (à maneira dos MFAs americanos -- aliás esse comentário do Enghdal é obviamente uma alfinetada nos USA, como a própria escolha do Modiano para o Nobel deste ano) como também das próprias premiações, o Nobel em especial -- mas o Engdahl, é claro, não vai mencionar isso, não vai admitir o eurocentrismo da academia igualzinho como os americanos não admitem o seu próprio egocentrismo, não vai nunca falar de algum arrependimento por João Cabral, Borges, Lezama Lima, Rosa, Onetti e mais uma porrada de gente ter sido esnobada pelo Nobel simplesmente porque nasceram cá pra baixo.

      O asco de Thomas Bernhard quanto às premiações (um cara que só não ganhou o Nobel porque declarou de antemão que não aceitaria) faz cada vez mais sentido pra mim.

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    2. João Antonio Guerra21 de outubro de 2014 15:38

      Ah, e Charlles:

      Fui contagiado: lerei Os Irmãos Karamázov pela primeira vez. Só vou terminar 1982, Janine, que é mais um romance do Alasdair Gray, aquele escocês louco de nome pynchoniano. Começo lá pelo sábado. Obrigado.

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