quarta-feira, 23 de julho de 2014

O blues da estrada aberta



Ele não era o tipo que conta mais que uma vez uma história, e sendo isso uma demonstração de veracidade, ao mesmo tempo as circunstâncias do relato estarem tão definidas em minha mente me parece que nós dois dividimos uma lembrança por simbiose. Eu a fui reconstruindo e a re-inventando, a cada ano em que eu cumpria minhas tantas horas de divagação em pensar seriamente nela; e ele a apagou dos frágeis registros orais de nossa família quando morreu há seis anos. Agora ela apenas a mim pertence, em meus esforços por transcender o tempo e conseguir me colocar no lugar dele no momento em que a viveu, quase como se roubasse dele também essa experiência, quase como se com isso eu estivesse tentando de vez apagá-lo para sempre, que dele não restasse mais nenhum vestígio externo de que alguma vez existiu_ afora os tantos cacoetes e tantas poses de distração que ele tinha e começam a aparecer em mim após meus quarenta anos (não como se o corpo prestasse uma inesperada elegia; mais como se, por alguma justiça final, eu pudesse prever que eu também cumprirei a sentença de ser esquecido). Não acredito que seus outros três filhos tenham ouvido essa história; não me parece possível que ele tenha se sentado com eles na ampla varanda de sua casa de madeira no meio da floresta em franca degradação (degradação que ele mesmo ajudara a promover quando chegara lá, mas que a maturidade não mais que os novos arranjos de sua situação econômica proporcionaram a abdicação e a resistência em seus anos tardios); talvez seja mera vaidade minha, mas intuo que esses meus meios irmãos tenham outras qualidades que mereceram dele outras formas de intimidade, mas a imaginação apenas eu herdei dele; e só a imaginação conjunta, esse aquecimento intenso no qual ele construiu um mundo de fadas próprio para me situar nele quando eu era muito pequeno, quando ele me levava no bolso da camisa, me permitia voar por sobre os fios elétricos dos postes de luz, me contava sobre o povo dos homens formigas e sobre o Tarzan, poderia nos condicionar a que ele contasse a história para mim e eu a re-inventasse, a re-incorporasse, a possuísse. Os anos se passaram e nós dois perdemos muito facilmente essa intimidade da invenção; nos últimos anos, e mesmo antes, quando passávamos férias juntos, o silêncio se impôs de forma lamentável entre nós, como se aquilo tudo houvesse se tornado constrangedor para o que a distância frequente entre pai e filho separados criara para nos imprimir o desconforto.

Mas a história é assim. Aconteceu alguns anos após o divórcio entre ele e a minha mãe. Ele era jovem, então. Quando os dois se separaram, morávamos em um apartamento na capital. Ele e minha mãe tentaram de todas as maneiras se adaptarem, fizeram todos os recursos para salvar um casamento que só a cordoalha das tradições católicas e do senso social que imprimia uma severa carga de preconceito contra o divórcio simulava ver que era possível dar certo. Ele era um artista. Uma das minhas crenças mais profundas é que, se naqueles tempos difíceis lhe fosse oferecido atenuantes para os estudos e para a cultura, ele teria se tornado um grande músico, ao menos para os valiosos fins de enriquecimento pessoal. Mas sua vida sempre resvalara na grosseria mais insofismável, o que ele, como motivo para sobrevivência espiritual, demonstrara incrível talento para se desviar e permanecer tranquilo em seu oásis particular, em seu autodidatismo, em sua persistência na exorbitação das misérias da realidade. Faltava-lhe malícia, isso é o certo. O que eu mais amava nele era sua nobreza, sua abnegação_ estou atrasando o assunto, mas essas coisas devem ser ditas. Eu nunca o vi altear a voz, ou ser violento, ou perder a paciência; ele era sempre elegante em seu despojamento, em suas calças despreocupadamente rasgadas, em sua leveza diante as tantas vezes em que nem lhe passava pela cabeça afirmar diante esnobes o quanto havia lido, o quanto conhecia com profundidade sobre temas complexos, e o quanto era prenhe de experiências. (Após sua morte, o cordel das verdades que fui adquirindo sobre os interstícios de sua personalidade sempre me comoveu e assustou: dos trinta anos em diante teve lepra, cinco vezes malária, uma infinidade de vezes dengue; enriquecera sobejamente por três vezes e por três vezes perdera tudo; matara dois homens em legítima defesa em uma tocaia que lhe fizeram por questões de posse de terra; e de repente, uns anos atrás, me aparece na memória uma lembrança fresca de quando, em meus cinco anos, fui visitar-lo na prisão.)

Depois que as premonições se cumpriram, os dois se separaram. Eu tinha oito anos, e tanto minha mãe quanto meu pai tinham 27. Eram jovens demais. É difícil imaginá-los como adultos, difícil não perdoá-los. A vida naquela época era bem mais dura. Havia um infantilismo diferente do de hoje que deveriam combater para simular serem aptos para o mundo. Quando ele percebeu que deveria começar outra coisa, em um lugar bem longe dali, imagino o quanto lhe foi difícil virar as costas, o quanto lhe parecera que tudo se fechava de um modo insuportável. Ele partira para a Amazônia, sem um puto no bolso. Isso talvez fosse sua reação à depressão, esse elemento alienígena desconhecido que até então nunca se lhe havia apresentado. Ele era muito apegado a mim, e eu a ele. Um pai que inventa um universo particular para seu filho e atualiza suas mobílias zelosamente a cada dia demonstra em reverso o quanto se assemelha à morte a separação. Não é querer ser melodramático, mas aconteceu aqui algo catastrófico, algo que não se faz com duas pessoas que estão ligadas tão indissoluvelmente: mesmo para qualquer padrão racional que eu tenha aprendido em meu futuro de cidadão sarcástico, isso me parece tão desonesto por parte do acaso ou da potestade quanto a obstrução súbita do direito da inocência: um acidente de avião, uma mutilação deformadora causada por uma colisão de veículos, uma violência sexual, queimaduras corporais de terceiro grau, despatriados de guerra. Ele na certa imaginava sem saber o quanto eu sofri, e eu, em minha idade, por mais que intuísse, era incapaz de julgar o ato senão como uma suprema traição.  De novo as palavras tem uma leveza acachapante para que eu diga que instintivamente tivemos que matar um ao outro para podermos seguir adiante. E matar alguém com esse peso, sabendo que para todas as outras coisas, principalmente para a injustiça do benefício de alteridades sem a mesma intimidade, esse alguém continuará vivo, faz parte da ironia brutal da coisa.

Pois agora eu conto. Essa é a história, na linha reta mais possível a que eu posso me ater. Ele viajava rumo à floresta, porque alguém, um de seus amigos de juventude, lhe dissera que lá é que era o local certo para um homem sem mais nada além do chapéu recomeçar. Isso era nos anos 80 do século passado; uma época que mesmo eu usufruindo do pouco de cor que persistia dos poderes da infância ainda recordo como em preto-e-branco, ou naqueles tingimentos evanescentes em que ficam as pessoas nas fotos como prenúncios de seus próprios arrependimentos tardios por terem levianamente se submetidos à contraprova cabal de que desperdiçaram suas únicas vidas. Os anos em que o país era um projeto sempre atrasado pela falta de catarse histórica dos pulos contínuos que dava entre um coronelato cheio de injustiças a outro. Imagino o país como uma grande estrada cortando as variações de relevo geográfico, com ele emprumado na poeira do início sem uma coragem genuína além da que vinha da certeza de que nada poderia piorar mais, hora e outra surgindo pelos lados casas e praças que apesar de compor as alterações de cada cidade e povo no caminho até seu destino, eram cobertas por aquela aura comunal da inércia do fechamento político de cinquenta anos de ditaduras. Ele deve ter subido pelo país de carona, olhando o cenário pelas janelas ou pela carroceria das caminhonetas e caminhões. Eu empreendi essa viagem uma década depois, e somente parte do caminho podia ser transitado de ônibus. Ele para em um povoado no Mato Grosso. É chuva que não acaba mais. Ele começa a se assustar com a chuva, a chuva diferente da norma que conhecia, uma chuva que era como uma entidade viva, como uma presença primordial, uma cortina orgânica mesozoica com a qual só se adaptaria na floresta quando aprendesse de vez que se podia aturá-la nos interstícios de suas tragédias e doenças, respeitando os limites das privações que sua divina indiferença impunha sobre os tantos que moravam nela. Quando eu o vi, ele disse que essa chuva contínua era como o interior da barriga da baleia de Jonas. Nesse povoado havia um circo mambembe, desses bem pobres: palhaços alcoólatras, trapezistas sem nenhuma audácia, um chimpanzé que parecia ter evoluído ao ponto suficiente de dividir o mormaço de humor de aposentadoria e a feiura que havia nas caras de todo mundo. Ele passa a dormir sob uma das lonas, ao troco de ajudar a limpar a bosta do cavalo, ou limpar o lavabo conjunto, ou afastar com a pá o excesso de água para não atrapalhar as famílias que iam ver o espetáculo nem um pouco por pena mas por essa consciência de consumidores que para tudo o mais não funciona mas que quando surge a oportunidade de por à prova do ridículo esses pobres palhaços forasteiros se torna depreciativamente rigorosa.

E é no último dia que a coisa acontece. Quando estão desinstalando o circo para irem embora, ele vê o violeiro-mor da tradição surgir não sabe ele de onde e se postar debaixo da lona principal, como se estivesse se preparando com seu violão para dar um show privado para os funcionários itinerantes. Era como ver Robert Johnson, como um americano conhecedor de música se deparar com o maior bluseiro da história. Entre os violeiros existe a mesma tradição da alcunha, assim como entre o jazz temos o Duke e o Count, e entre o blues temos o Blind Joe Reynolds e o Big Bill Broonzy. Os apelidos entre os violeiros são da mesma lavra de ambiguidade depurada de preconceitos e pejorativismo, ainda que sejam inventados justamente para facilitar apontar a pobreza, o defeito, a cor da pele ou fazer troça da ambição nunca alcançada dos músicos. Assim, temos o Pardinho, o Xavantinho, o Caçulinha, o Cascatinha, o Chico Rey, o Milionário, o Leo Canhoto, o Sulino, o Caçador, o Caboclinho. E ele via ali, à sua frente, o Carreiro, o maior deles, uma lenda viva, um motivo de reverência entre todos os seus amigos de música, um notório tocador de guapas e milongas e arrasta-pés, um prodígio que conseguia solar com o instrumento como se estivesse colocando montaria em um cavalo bravo por ele amestrado, daí seu nome, Carreiro, porque também, por não haver um mercado fonográfico seguro para os tantos discos que gravou, ele fora caminhoneiro, tropeiro, e o diabo. Ele se aproxima, trêmulo, sabendo que as forças lhe faltavam mas que ele jamais poderia deixar passar esse milagre, ou essa alucinação. A história se desenvolve com os dois cantando juntos, alguém tendo emprestado um violão para ele. A lona protegendo-os e à minguada plateia. Bebendo pinga e comendo os petiscos servidos pelos assistentes animados. Da única vez que me contou isso, em meu deslumbre, vi com absoluta nitidez quando Carreiro lhe deu a honra de uma alcunha, dizendo que ele tocava e cantava tão bem que dali em diante seria chamado de Milton Viola. Parte disso tudo talvez não tenha sido assim, mas é assim que sempre me pareceu, um dos dias mais importantes da nova vida de meu pai, de seu renascimento. Mas isso aconteceu, sem a mínima sombra de dúvida. Quando eu cheguei na cidadezinha onde ele se instalara, dez ou doze anos depois, após olhar com atenção para cada cidadezinha de passagem pelo lado se não havia um circo com palhaços feios, eu anunciei que procurava pelo Milton Viola. Ninguém soube me dizer nada. Me sentei desconsolado na mureta de um bar, pensando que atravessara 3 mil quilômetros por nada. Daí me veio uma iluminação; talvez a história não fosse somente minha; talvez ele resolvera seculariza-la; perguntei se eles conheciam onde morava Tião Carreiro. Eles me apontaram, com sorrisos de admiração e familiaridade, a rua há tantas quadras onde ele morava.

14 comentários:

  1. João Antonio Guerra24 de julho de 2014 21:29

    Essa evocação das estórias, o sentar-se para a contação é uma das minhas fascinações em literatura. Charles Marlowe, o Reverendo Wicks Cherrycoke, Riobaldo, os miúdos inventados por Manoel de Barros, e os tantos narradores sem plateia de Faulkner.

    Recordo uma frase fundamental: Miss Rosa Coldfield, trazendo a estória para Quentin Compson de maneira quase xamânica: "Her voice would not cease, it would just vanish." Não cessar, apenas desaparecer: a voz deixando de ser voz como entendemos voz, ou seja, ignorando toda a nossa sabedoria sobre emissores e mensagens e receptores, ignorando até mesmo a ideia frouxa do ponto-de-vista, preferindo a magia -- por essa exata manobra um filho sabe da morte da mãe mesmo com quilômetros de distância entre eles, ou a própria matriarca morta, exatamente porque está morta, adquire o poder de narrar sua estória, ou um homem que executará um crime hediondo, varrendo da face da terra todas as possibilidades de sua própria permanência, carrega no nome seu destino, Wash Jones.

    Isso que você está escrevendo é belíssimo, Charlles. Pelo amor de Deus, não pare.

    (E como eu ri quando vi o nome do Carreiro!)

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  2. Adivinho que esse trecho faz parte de um dos romances que você vem escrevendo. Acho que você já encontrou a sua voz narrativa. Ou pelo menos uma das suas vozes narrativas. É nessa voz que eu vejo mais verdade na sua escrita.
    Verdade não porque a narrativa se ampara numa primeira pessoa biográfica apenas. Mas porque é nesse universo criado por você, essa criação sua de um Goiás-Última-Fronteira, ou nesse caso particular, de uma Floresta Amazônica meio Fenimore Cooper, meio Hart of Darkness do Conrad, uma Last Fronteer brasileira sem trejeitos regionalistas (sem aquele regionalismo tão prenhe na nossa literatura que você tanto abjeta, e com razão), que é pelo contrário universal, é aqui, repito, que a sua voz narrativa é mais confortável. O que torna única a sua escrita, amigo Charlles, é que a sua "última fronteira," por vezes povoada de seres maravilhosamente simplórios (às vezes tão simplórios como os sertanejos de Rosa), ombreiam espaço com certas criaturas saídas como que daquela imaginação do Gaúcho Borgeano. Lá você tem pistoleiros transmutados por estórias de sagas nórdicas, rancheiros que repetem a narrativa da paixão de Cristo ao ouvirem o Evangelho de Marcos pela primeira vez, estórias de emboscadas contadas pelo viés de um narrador que lê tais acontecimentos como se esses fossem tão humanos, ou tão universais se preferir, como o mujique de Dostoievski é uma senha para o Homem. O seu universo tem violeiros de pagode que são como que o nosso folclore do blues man que perde a sua alma para o diabo na encruzilhada da vida (assim Tião Carreiro vira na sua mão Charlie Parker, e aqui não pude deixar de me recordar do conto El Perseguidor do Cortázar), garimpeiros autodidatas, uma versão mais cabocla do sábio do oriente cuja memória pródiga ostenta tantas estórias quantas as de Mil e Uma Noites.
    Meu conselho. Não tema que a sua rejeição das nossas várias escolas regionalistas (indigenistas, folcloristas, sertaneja, etc) venha ser o seu calcanhar de Áquiles. Porque essa sua vontade, sua vocação de narrar a sua própria estória, que é também de forma indireta a nossa história (me concedo falar aqui em termos mais ufanistas, "nossa história como brasileiros"), como se ela fosse universal, é um risco que vale a pena ser tomado.
    O João está certo. Isso aqui é soberbo.

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    1. João, isso que você tão belamente definiu no segundo parágrafo é o que sempre me fascina em Faulkner. Essa força intimista, independente, carregada de um enternecimento brutal, essa sabedoria que vê as coisas de fora mas com infinito comprometimento. Essa poesia viril e sempre necessária que vem dos autores inalcançáveis na linha de Faulkner, Proust e Kafka. Escritores que são escritores sem pensar em qualquer outro benefício que a religiosidade da escrita. Me deu vontade de reler tudo de uma vez de Faulkner mais uma vez.

      Luiz, este texto não faz parte de nenhum romance em andamento. É uma espécie de estudo para tal. Planejo um tom mais coloquial, não tão recolhido, com uma intensidade trabalhada em um fôlego mais longo. Essa sua visão sobre a possibilidade deste trabalho me ajuda muito; apesar de saber que pode ser assim, nunca tinha expresso isso para mim mesmo, e é justamente igual ao que você diz. Esses sertanejos sábios e carregados de histórias das mil e uma noites são absurdos porque existem; eu os conheci. E o Goiás última fronteira é o que almejo fazer, sem um nome real.

      Sobre Carreiro, uma das minhas convicções é o que já falei aqui: a música caipira e o universo exilado e discriminado de seus autores é o equivalente mais poderosos que temos de algo como o blues: em sua pobreza, em sua limitação, e a beleza que vem em contraste disso_ a sua mitificação. Felicidade será se eu alcançar o esoterismo que Ralph Ellison criticou Bellow por não ter citado no ensaio deste a "Homem Invisível". O negro pintado como um ser bestial por séculos de ignorância, e como combatente filosófico que consegue lapidar as mais belas palavras sobre o sofrimento. Se eu aproximar-me ao máximo do que di Meola conseguiu fazer em "Fantasia Suite", em partes do romance as quais intentei certa vez dar o nome de "Violeiros", já me sentiria no caminho certo.

      Agradeço muitíssimo pelas colaborações preciosas de vocês dois.

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  3. Charlles, o parágrafo que começa com “Pois agora eu conto.” lembrou-me de Proust…

    PS.: fiquei comovido, Charlles… Pesquisei na rede, e encontrei uma coletânea do Carreiro. Não o conhecia… Sem dúvida, é o efetivo canto sertanejo. Com foi possível, por questões de mercado e concomitantemente com a prática do jabá, a destruição de tal patrimônio cultural?

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    1. Ramiro, há músicas lindíssimas, profundamente tocantes, do universo caipira brasileiro. Posso incorrer em redundância mais uma vez, mas se em nosso pais houvesse um mídia multitudinária, que conseguisse enxergar ganhar dinheiro com planos mais ricos além do alvo monocórdio da estupidez adolescente de sexo e grugunzeios, assim como é nos EUA, por exemplo, esses músicos seriam cultuados efetivamente por todo tipo de apreciadores, inclusive a classe erudita. Seria como o blues. E haveria uma decorrência rica disso, como um rock nacional que realmente digerisse uma raiz firme: assim como os grupos de folk ingleses e as tantas bandas dos 70 que partiam do blues (Stones, Led, Tull, etc).

      Tenho um conhecimento acidental até bastante rico dessa música, pois eu acompanhava meu pai nas diversas vezes que ele cantava, como pretendo escrever aqui sobre mais tarde. Te convido a ouvir uma antiga música chamada "Só mais uma vez". Como até a net é pobre em informações confiáveis sobre o estilo, não pude saber ainda quem a compôs. Mas é uma das músicas mais lindas que já ouvi na minha vida. Ela casa perfeitamente bem com um solo de saxofone. Seu refrão é tão canônico quanto "Star Eyes", uma das canções populares preferidas de Charlie Parker. Eu fantasio ouvir Parker tocando "Só mais uma vez", e isso é uma viagem na alternatividade sem igual. Veja o refrão dela, que belo:

      "Você foi o caminho a luz
      O inferno o veneno a cruz
      O amor que perdi sem querer
      Me deixando só saudade
      No meu peito ainda invade
      A vontade de ter você só mais uma vez."

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    2. Charlles,
      Confesso não levar tão a sério essa comparação do pagode caipira e o blues Americano, Tião Carreiro e Robert Johnson. Do ponto de vista técnico, do virtuosismo, da extensão técnica da viola caipira, acho um pouco disparatado a comparação com o blues.
      Mas como disse ali em cima. Como topos literário essa comparacão é bem foda e duvido que alguém já a tenha feito. Gostei principalmente do seu wit de ver um paralelo entre os apelidos raciais pejorativos dos músicos caipiras e das lendas do blues.

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    3. Eu ressaltei que ambos esses gêneros são pobres e limitados, e conseguem tirar disso uma riqueza sem igual. Estamos acostumados com a supremacia do blues, como bons adeptos do jazz que eu e você somos. Talvez isso torne um tanto mais difícil ver em um alcoólatra de beira de estrada como Carreiro o espírito que vemos, à distância e na perpetuação alcançada pelo fetiche cultural bem aplicado, em Johnson. Escute gente como Pena Branca e Xavantinho solar na viola, ou Boldrin, e diversos esquecidos da época, e essa visão se atenuará um tanto. Mas reconheço modestamente que nunca ouvi ninguém ousar tal comparação.

      (Conversando com um conhecido_ mais conhecido que amigo, diga-se_, sobre música sertaneja, eu cito parte de um repertório das antigas e ele fica verdadeiramente chocado por descobrir que eu sei essas coisas. Respondo ao espanto dizendo sobre meu pai e ele, como se o conhecimento de dez anos que temos um do outro se revelasse uma fraude, me diz: por que nunca me contou sobre essas coisas?)

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  4. De fato, os versos em sinergia são lindíssimos… O curioso é que, em separado, cada um deles não se sustenta, todavia, quando juntos, sim. Esse é um típico exemplo da obra de arte que, dentro do possível, deve estar na interface entre o ridículo e o esplendoroso. Esse é o verdadeiro desafio de todo o artista: do burlesco extrair a identidade multifacetada do ser humano.

    Se pensarmos e sentirmos inocentemente o Gênesis… O que fez fundamentalmente o Criador? Da LAMA, A ALMA (Ah, que felicidade ser a língua portuguesa minha mãe, pois pela simples permutação de duas letras é possível expressar o milagre do Impossível…).

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    1. Funcionam como música popular, claro.

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    2. É isso, Charlles… Essa é a magia da música de Elomar: elevar o popular a um nível tal que se torna quase impossível o separar do erudito!
      *
      Nessas insônias da vida, certa vez, vi, em um desses canais estatais (TV BRASIL ou REDE CULTURA), um músico extraordinário (infelizmente não anotei seu nome) que dedicou a sua erudição em descobrir os recursos potenciais da viola caipira. Charlles, foi assombroso!...
      *
      A viola caipira admite várias afinações e cada uma delas abre uma porta ao desconhecido do coração-cantador… Infelizmente, no Brasil, a viola ficou associada ao lamento e suas nuances. Mas a viola caipira é muito mais que isso. Muito mais.
      *
      Se durante duas gerações, a viola caipira fosse efetivamente parte do conteúdo de nossas escolas de música, não tenho dúvida que teríamos uma nova estética musical que poderia ser comparada àquela da música negra da América. Tal proposta pode parecer elitista (da academia às ruas…), mas não é. Na verdade, seria um movimento cultural à preservação de um instrumento que corre um sério risco de extinção cultural.
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      Ah, esse Brasil… Esse Brasil… Esse Brasil…

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    3. TROCADILHO
      by ramiro conceição
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      Se possível, porventura,
      que eu não vire um maluco,
      mas… um caduco… meigo;
      então, quando vier a senhora sombria
      que não tolera zombaria, que perdure,
      ainda que breve, o meu artista
      que cuidou da chama… desse trocadilho
      entre alma e lama, pois o belo não é ilha:
      não se compra, não se vende, se partilha.

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  5. Charlles, eu acho que o Paulo Freire ( o filho do pedagogo que tem o mesmo nome do pai e é um grande violeiro) já citou algo similar, principalmente no tocante ao pacto com o diabo e ao improviso musical de ambos os estilos, creio que foi no antigo programa "mundo da literatura' que passava na sesctv e era apresentado pelo jornalista Ricardo Soares.

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  6. Aqui um vídeo dele "representando" o pacto. https://www.youtube.com/watch?v=_7pnQNoySio

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    1. Muito bom saber disso. Obrigado pela informação, Tiago.

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