sábado, 12 de julho de 2014

Isso há de não ser nada



O vexame da seleção brasileira_ como se convenciona chamar um fracasso há muito tempo anunciado_ serve de pedra de toque para analisar variada gama da identidade do Brasil; o que mais me motiva a escrever essas poucas e cansadíssimas linhas é o que essa levada no cu da prepotência nacional revela na nossa literatura. A literatura brasileira atual é um símile perfeito de toda acintosidade canalha, de toda falcatrua pega-bobo, de toda hipocrisia e cinismo midiáticos que vemos no universo do futebol pátrio. A começar pela insistência dos ditos "jovens grandes autores do momento" em focar os temas de suas relevantes obras no futebol. Coméqueé? Sérgio Rodrigues e não sei mais quem escrevendo seus intragáveis romances sobre futebol. Daniel Galera escrevendo um longo e raso ensaio sobre o Felipão em uma revista Piauí, e olha só os dez gols selados nesse sábado para confirmar que um escritor de porte tem que ter uma perspicácia premonitória para não passar como o bobo da vez quando todos os seus lances cerebrais caem no vazio da bruta realidade. A sorte do Galera é que ninguém aqui neste país liga para literatura. Ninguém provavelmente leu seu retrato de garoto tiete da bola do técnico da seleção. Eu mesmo não li_ não leio nada sobre futebol, quanto mais pretensa literatura sobre.

Não chega a ser astúcia da história o eloquente rebate que o ufanismo nacional teve com esses dez gols tomados pela goela. Mas fica a impressão de que há por detrás disso uma compensação cosmológica, um imenso ensinamento místico. Mesmo que realmente o universo esteja, de uma hora para outra, se importando com nós, brasileiros, nos falta, lamentavelmente, tutano filosófico para aprendermos com essa dor. Logo logo estará tudo no mais imolestável equilíbrio. O que até o Galvão Bueno, o mais famoso arauto de nosso dínamo superlativo de "País do Futebol", teve que reconhecer hoje que na verdade dura e incontornável, "a torcida estava mesmo vaiando a seleção", em poucos meses esse descontentamento traumático já estará assepsiado, toda a severa auto-crítica jogada em nossa cara já terá sido apaziguada pela doçura dos futuros planos de redenção e pelos cânticos de glória soltados pelas poderosíssimas mídias de informação do país. Eles haverão de achar uma desculpa, um lenitivo, uma resposta convincente, um emplasto que cubra os sinais por demais transfiguradores da ferida. E estaremos então, refeitos e impávidos, de volta. Nós, os Brasileiros, os Reis do Futebol, o Povo Mais Cordial do Mundo, os Sempre-Sorrisos. As propagandas de cerveja e do banco Itaú há de nos oferecer a resiliência. Não nos desesperemos: haveremos de continuar colocando toda a torcida argentina dentro de um banheiro público, e em seguida alçando essa prisão simpática com idióticos hermanos para um navio, que em seguida será lançado em um foguete e explodirá no espaço. Voltaremos ao nosso velho e confortável infantiloidismo tosco, regido pela fé criada do nada de que o futebol é nossa libertação, o nosso avatar, a nossa política mais pia e comunitária. Afinal, vivemos no país que nos ensinou a chorar de emoção diante as crianças no balanço e os pais arianos, mesmo que pretos, dos comerciais de bancos. Para um país sem temas de importância, sem traumas, sem mentes acima da média regrada, é natural que tudo que se pretenda escrever aqui verse sobre a bola.

Isso há de não ser nada.

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As primeiras providências de minha mãe ao ver seu salário de defensora pública dobrado foi comprar presentes para todo mundo. Para mim, o mais inusitado: um telefone celular Galaxy S4_ se não me engano. O pacote chegou por um entregador que faz viagens diárias entre a minha cidade e a dela. Ninguém entendeu o porquê ela inventou de me dar um presente assim. Eu, que notoriamente, se posso cogitar que os vizinhos e os que se assombram comigo na família saibam alguma coisa, sou visto como uma espécie de neandertal semi-controlado e semi-amistoso. Pois bem: é um presente, afinal das contas. Já não uso as técnicas de argumentação hegelianas sobre as ações da minha mãe. Aceito e pronto: me mostro feliz, telefono de volta para dizer que adorei o mimo. Desfiz de meu celular de há dez anos, um Motorola branco que todos curtiam comigo dizendo ser um estojo de maquiagem. Trata-se, esse Galaxy S4, de uma grande merda (desculpe, mamãe!). Tentei me empolgar com a coisa, mas o que a coisa é além de uma telinha de cores e uma visualização terrivelmente insatisfatória da internet? Agradeço à dona Telma, minha progenitora, por ter provado por esses caminhos que fiz uma ótima escolha primordial em gastar grande parte de meus fetiches de consumidor com os livros. A humanidade caminha à toda para a suprema idiotice se acha mesmo que uma bosta como um aparelhinho destes mereça o preço que tem e o potencial de ganância que desperta. Uma vez, quando era um rapazola raquítico, fui assaltado e o ladrão levou meu relógio. Eu sempre odiei relógios e aquele foi o único que tive_ presente, por sinal, da minha mãe. O ladrão puxou a caixa do relógio e ia a levando sem a pulseira, quando eu gritei para que ele parasse e a entreguei. O cara ficou desconcertado e me agradeceu. Foi um alívio. Não digo que ficaria feliz que esse celular fosse roubado, na idade defensiva em que estou, mas... cogito.

Mas uma coisa foi boa: o aparelho fica nas mãos da minha filha, que também se cansa desses baluaques, mas hoje ela mexia nas músicas que eu gravei nele. Eu gravei essas músicas para conseguir suportar os sessenta minutos de musculação que faço, usando o celular para escutar música pelo fone de ouvidos. E ela ligou a música que eu coloquei como toque de chamada, a Pinturas em Exibição, do Mussorgski. E a Júlia, minha filha de três anos, correndo pela casa com a caixinha tocando a maravilhosa sinfonia de Mussorgski, pára na minha frente e diz, analiticamente: "Essa é uma música maldosa, papai". E mete uma frase truncada em que eu apenas entendo que ela fala do livro sobre bruxas e gnomos que costumo ler para ela. É isso aí, nada contêm os poderes da imaginação. Nós, humanidade, sobreviveremos.

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Li por recomendação A pesquisa, de Juan José Saer. Sou obrigado agora a ler tudo de Juan José Saer. Que livro! Que escritor soberbo. Hei de escrever uma resenha sobre esse romance nessa semana.

10 comentários:

  1. Habemus Carolus.

    Hum. Creio que o problema não seja exatamente falar sobre um esporte específico como o futebol, não? O Rothão mesmo adora meter baseball no meio das histórias e acho que foi ele quem fez um livro inteiro envolvendo a liga americana. Dá para escrever um monte de coisas relacionando com futebol - covardia e honradez, cagões e líderes, mau caráter e joãozinho do passo certo, ateus e religiosos etc - mas não acredito que uns carinhas que torçam para fluminense ou gremio possam escrever algo bom sobre (oi arbo) (Tá vendo que praga é o futebol?). Penso que contos futebolísticos seriam mais legíveis e aprazíveis.

    E se esse é o país do futebol - dica: não é - nada melhor para alimentar as esperanças de independência econômica de escritores que vendem pouco e que quase não são lidos por outros que não sejam também escritores ou aspirantes, que tentar abocanhar 3 reais de cada livro vendido para algum típico não leitor hétero que entrou apressado na Saraiva charmosa do shopping para comprar um dvd novo de alguma banda tr88 rock & roll para si e o A Culpa é das Estrelas para a namorada de quase 30 anos que curte filme de garotinha.

    Brasileiro só gosta de ganhar. Por isso que quando havia Piquet (que ganhava para si) e Senna (que ganhava pelo BRASIL-SIL-SIL) o povo gostava e assistia F1. Hoje? Audiência baixa. Somos medíocres e invejosos.

    "Perdemos" em casa na única coisa que "fazíamos" bem quase regularmente: jogar futebol. Felizes os alemães que podem, num patriotismo, ou mais condizente em seu caso, num nacionalismo norteador, subir nos ombros de grandes nomes da literatura, música, filosofia, física, religião E futebol.

    O maior jogador de futebol de todos os tempos, brasileiro, brasileiríssimo, o ápice do esporte bretão, é alvo de piadas cretinas diariamente, ridicularizado por quase nada. Periquito perdedor de sapatilhas coloridas é endeusado, sub-humanos espancadores atrofiados são exemplos. Nem respeito ao grande nome brasileiro do século XX damos importância. (Cite qualquer outro nome, de escritor, artista ou sei lá o que: nenhum é reconhecido como O nº 1 de sua área como o Pelé. Rosa, Graciliano, o cacete. Porra, estão esculhambando até com a obra do mulatinho do Morro do Livramento, Joaquim Maria Machado de Assis!!).

    E olha que eu já estava gargalhando no segundo gol levado contra a Alemanha. Nem estou puto.

    "Afinal, vivemos no país que nos ensinou a chorar de emoção diante as crianças no balanço e os pais arianos, mesmo que pretos, dos comerciais de bancos."

    Gostei.
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    Dá-me esse S4 aí, neandertal! (Devemos pedir com modos civilizados a um neandertal? Creio que não, vai que essa merda evolua. Perigo.) Meu celular quebrou e não sei se tenho garantia ou onde tenho que ir, se na loja ou no inferno, preguiça etc.

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    1. Sério, se minha mãe não fosse fiscalizar para o resto da vida o destino do presente, eu te mandava ele (apesar do frete para a Alemanha ser quase o valor dele).

      Muito bom seu comentário, mas devo corrigir: Roth nunca escreveu sobre esportes, pelo que lembro (posso estar enganado). Em Pastoral Americana, o personagem principal é um ex-campeão da liga que se torna empresário no ramo de objetos de couro, mas não há nada além disso sobre esportes. Não conheço nenhum romance sobre qualquer tipo de esporte, e nem tão pouco um grande romance. Os mais próximos são "O sol também se levanta", tauromaquia, e "Submundo" (que tem todo o primeiro capítulo um soberbo documentário sobre uma partida de beisebol histórica).

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    2. Great American Novel, do Roth. (Nunca li, dos que tenho falta ler A marca humana e Casei com um comunista.) E ainda não estou na Alemanha. Mais seis meses...

      Boa lembrança, Cysne. Nelson Reacionário Rodrigues!

      Espantado estou por ainda não haver um romance cerebral engajado de um jovem escritor míope de quase quarenta anos acerca das injustiças sociais sofridas por um menino negro homossexual retirante, criado por lésbicas veganas ex-carmelitas oprimidas pela Igreja patriarcal, que após se recusar a jogar uma partida de futebol - uma sociabilidade masculina anti-homossexual - com seus falsos amiguinhos sem consciência de classe e gênero num colégio público e de qualidade, vê-se no meio de uma invasão zumbi onde a polícia fascista reprime violentamente esse grupo discriminado, e tendo que fazer uma escolha crucial para a sua vida: entrar para os black blocs e lutar contra o sistema ou ser um otário membro da Atea, enquanto busca realizar sua Vocação: o de ser mestre desempregado profissional (também conhecido como Mestre de Capoeira, ponto alto da cultura afro, verdadeira cultura do Brasil explorado pela Europa imperialista).

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    3. Desconheço esse Roth.

      Cara, vem uma quantidade razoável de acessos da Alemanha. Pensei que fosse você.

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    4. Desde março que retornei, como dizes, à esta parte d'África.

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  2. Me senti olhando num espelho lendo esse seu texto, eu também não uso relógio e tenho ojeriza por telefones de um modo geral, e é incrível como esses troços vendem, agora sobre o futebol; eu até acho que tem alguns textos bons o Nelson Rodriguês e o Galeano escreveram boas crônicas a respeito, mas é um tema ainda mal explorado.

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    1. Claro, tem o Nelson Rodrigues, um dos maiores cronistas do mundo. Há tempos fiquei toda uma tarde em uma livraria lendo aquele volume famoso da Cia das Letras em que ele só fala de futebol, e a coisa me convenceu tanto que me programei para comprá-lo. Trocando em miúdos, o Brasil tem mais temas ignorados muito mais importantes.

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  3. A máscara do gigante
    O mito da seleção Canarinho nos fazia sonhar formosos sonhos. Mas no futebol, assim como na política, é mau viver sonhando e sempre preferível se ater à verdade, por mais dolorosa que seja

    "uma manifestação no âmbito esportivo de um fenômeno que, já há algum tempo, representa todo o Brasil: viver uma ficção que é brutalmente desmentida por uma realidade profunda."

    Mario Vargas Llosa

    http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/11/opinion/1405089994_921237.html

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