terça-feira, 24 de junho de 2014

A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Jöel Dicker



Estou sempre disposto a cair em um fetichismo literário, mesmo os mais efêmeros e exagerados possíveis. Quarta-feira passada encontrei na livraria da minha pequena cidade uma edição com um preço promocional bem convidativo de A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Jöel Dicker. Lembrei-me de imediato que a última Piauí dedicou duas páginas a uma explícita propaganda deste livro, e deixei-me escorregar sem freios para dentro de uma dessas malditas compras não programadas de cartão de crédito, em que entrou acompanhando esse best-seller do momento uma série de livros infantis e duas palavras cruzadas. Todo mundo serotonizado pelo consumismo, voltamos para casa pisando nas nuvens sendo que apenas eu, a solitária parte ativa em que aportariam todas as insinuações do pesadelo das contas extrapoladas, sentia atrás da orelha a pressão incômoda da tentação proibida realizada. Pois mandei tudo às favas e fui me sentar na varanda com aquela bomba de falta de sutileza que é um best-seller cuja relojoaria determinara o seu esquecimento em curto prazo na mesma medida em que os elogios do que parecia ser todos os grandes jornais do mundo afirmavam nas páginas iniciais que se tratava do maior romance do século. O Le Monde dizia que era um marco; o Corriere della Sella dizia que tudo que fosse escrito dali pela frente teria que se pautar naquelas páginas que eu tinha em mãos. O que aconteceu com esses grandes jornais? Por que esse descaramento hiperbólico?

O que sei é que, apesar da mentira estridente, tais hipérboles casavam com perfeição com minha onda renovada de consumo de fresco prazer pela leitura rápida. Não havia nenhum peso de consciência em deixar em suspensão o romance distinto que eu estava lendo para me distrair por alguns dias com essa piranha do entretenimento descompromissado. Eu sabia que jamais me apaixonaria por ela, que seria um caso passageiro, uma loucura sem sequelas. Javier Marías, Philip Roth, Henry James, não ficariam conspurcados por aquela pulada de cerca. Apenas esperariam um pouquinho só enquanto eu cometia aquela infidelidade com os olhos esbugalhados, os dedos revirados, a respiração ofegante. Tá! Li o livro em três dias. Quase 600 páginas. Sério: não conseguia me desprender dele. Parei tudo que estava fazendo para atravessar logo as páginas e me livrar daquilo. Fiz tudo em uma velocidade colossal, com misto de deleite e desprezo como acontece com esse tipo de traição aventureira.

Lá pelas páginas 500 eu decidi de uma vez dar meu veredicto de que se tratava de um romance idiota, não porque era best-seller ou o que fosse, mas porque era tudo muito idiota: as reviravoltas forçadas do enredo; a rasura dos personagens; a metalinguagem paupérrima que só convencia bobos que o narrador fazia sobre a arte de escrever romance; a condoível pretensão do autor em afirmar através da ficção que estava escrevendo um grande romance.

Contudo, por mais que fosse idiota, eu não conseguia largar da coisa. E a coisa atingiu um estágio involuntariamente cômico em que se transformou em um balaio de gato em que se misturavam Lolita, Psicose, Cyrano de Bergerac, O fantasma da ópera, A última sessão de cinema e Fargo. Desafio a qualquer visitante desse blog que se interesse em ler esse best-seller se ele não verá esse Caso como uma mutação de todas essas evidentes influências.

Na verdade, seu autor, o suiço Jöel Dicker, usa muitas e muitas outras referências facilmente perceptíveis na história. Todo o livro transparece que foi escrito por alguém de menos de trinta anos, de pouca vivência real, mas um consumidor voraz de entretenimento cultural de massa. E nisso jaz o mérito do livro: foi escrito com a seriedade de uma criança que brinca incansável e solitariamente com seus brinquedos por uma tarde inteira. A própria materialidade da obra é uma conjunção de farsas absurdas: foi escrita em francês; seu cenário é uma cidadezinha norte-americana típica dos principais filmes hollywoodianos; seus personagens não passam do esteriótipo unidimensional do que os que nunca foram aos Estados Unidos imaginam serem os americanos; e trata da mais sagrada das tramas do cinema, o assassinato brutal sem compreensão e com um suspeito certo.

Não sei nada sobre Dicker mais que isso, mas tudo leva a crer que ele escreveu fervorosamente esse seu romance de dentro de um bunker caseiro, processando a alimentação carregada de conservantes químicos de toda uma vida juvenil dedicada à leitura e a filmes americanos comerciais. Ele não demonstra ter ido além desse horizonte confortável: não se percebe nenhuma menção literária de alto nível; mesmo a nítida emulação de Lolita vem de alguém que assistiu ao filme mas não leu o livro, ou só o leu a primeira página, já que copia o procedimento silábico de Humbert Humbert ao colocar na boca de seu herói as letras N-O-L-A, o nome da menina de 15 anos que foi alvo de sua trágica paixão.

O livro é implausível e escrito com aquela eficiência insípida de redação do aluno exemplar da turma, mas isso não é nenhuma novidade em se tratando de best-seller. É um produto, ou seja, em sua versatilidade é isento de necessidade de ser brilhante; tem apenas que preencher algumas horas na vida de seu leitor. Portanto, não cabe aqui maiores argumentações sobre ele. Não me arrependo de tê-lo lido. Gostei muito dessa leitura. Embora eu tenha sido um leitor que deixaria decepcionado seu autor quando ele escreve que o propósito era fazer com que eu fechasse o volume após a leitura, olhasse a capa e suspirasse de saudade dos personagens. O que eu fiz foi, ao ler a página final de agradecimentos, ter soltado uma altíssima gargalhada e, logo após, ter dito: esse Dicker é um filho da puta. Quem ler o livro saberá porque e provavelmente vai soltar a mesma gargalhada. Cumprimos mais uma vez nossas funções: eu, o leitor, tendo aceito me livrar de minha carga de crítica por um instante; o autor, ao preencher a vaga inevitável do processo empresarial; e os jornais em entrarem naquela brincadeira inocente com aquele arsenal de palavras que a ninguém tem o poder de convencer. E não doeu nada.

6 comentários:

  1. Cara, caí nessa tentação, também... mas abandonei-o no

    VOLTE PARA CASA, GOLDMAN.

    Isso foi demais pra mim...

    Muito juvenil...

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    1. Hahahaha. Sério, Ricardo? Talvez eu o tenha lido por birra. Há cenas ali francamente constrangedoras. O livro é extremamente juvenil mesmo.

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    2. Talvez chegou a hora do meu retorno a um psicólogo. Coisas triviais que eu me pego fazendo as quais não entendo o motivo. Nessa seara dos best-sellers, por exemplo, uma semana antes da compra desse livro eu comprei o Dança da morte, do Stephen King. 1500 páginas. Li umas 50, notando a nostalgia de quando era um ardoroso fã de King. É um dilema se vou ter ensejo para ler um tijolo desses, não pelo volume em si, mas por aquela premissa de que devemos aproveitar nossa vida de leitor com coisas que realmente interessam.

      Tenho uma leve suspeita de que fiquei fortemente influenciado pelo Fabricio Boppré, tanto por uma conversa nossa aqui sobre King quanto pela afirmativa dele de que jamais abandona um livro começado. Fiz isso com Dicker.

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  2. os bons, os bons de verdade eu não abandono, porque eles não me abandonam hehehehehe...mas a literatura pop de plástico abandono com uma facilidade, nesses casos sou tão leviano como esses autores...falar nisso, voltei correndo pra Faulkner...

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  3. Excelente entrevista do Gary Oldman.

    http://www.playboy.com/playground/view/gary-oldman-playboy-interview

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  4. Esse texto me fez lembrar de quando eu li "a coisa" do Stephen King e foi uma verdadeira tortura terminar aquele livro, e eu sempre na expectativa de que iria melhorar, já que eu havia visto os filmes baseados em suas obras e de alguns eu até gostei muitos, outros achei razoáveis, no fim de tudo acho que o King é um bom roteirista, por causa dele nunca mais me arrisquei a ler algo que tivesse o aplauso de muitos, talvez seja um erro de minha parte, mas tem tanta coisa que já foi publicada que de fato vale a pena ler e reler que faço isso de olvidar o novo sem muita culpa.

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