quarta-feira, 7 de maio de 2014

Morticínio



Antes de mais nada: eu não tenho o mínimo conhecimento de quais sãos os intelectuais da literatura e da cultura nacionais. Não me interessa saber quem são, ler seus textos, ou usar o que pensam como régua para orientação de qualidade no que passa nas letras e nas artes. Deixei isso evidente várias vezes e mais uma vez o digo com alívio e soberba: eu não dependo e nunca dependi das letras para viver. Abdiquei voluntariamente de seguir carreira acadêmica em qualquer coisa relacionada a cultura. Resolvi, feliz, voltar para a vida simples do interior, e nunca tive motivos de arrependimento por isso. Meu negócio é a sujeira de fezes de vaca, as madrugadas sem prédios algum à vista com apenas árvores e campos à minha frente, o que equivale ao meu escritório de trabalho. Sou imensamente feliz com isso. Mas amo a literatura, amo as artes de todo tipo, música, dança, pintura, o escambau. E não mantenho um amor passivo: gasto parte considerável de meu orçamento com livros e com aquilo que é tido como produtos culturais. Leio com fervor e adoro ler; nada me afigura mais próximo à plenitude do que a leitura, e a exerço descansadamente todo santo dia. Já participei em discussões virtuais sobre livros e percebo que estou longe de sair perdendo delas: mas sempre aparece alguém querendo medir meus atributos acadêmicos para tentar dar o nocaute definitivo. E é com contentamento que, nessas discussões, eu reafirmo que estou ali esbravejando e botando espuma de saliva pela boca não por defesa do meu pão de cada dia, mas pura e simplesmente, por paixão. Não dependo em nada da leitura para colocar arroz na panela para as crianças, reafirmo. Isso desconcerta meus opositores eventuais; muitos deles desistem de continuar nesse xadrez comigo e me desconsideram como um "não apto", um "amador". É por isso que, ora e outra, retorno ao ilustríssimo Idelber Avelar_ pra falar a verdade, é o único intelectual de literatura que conheço no Brasil, e por isso essa minha perseguição esporádica por ele. Esse texto dele posto aí embaixo foi retirado de seu Facebook. Fiquei escandalizado quando o li (mentira: essas coisas só me fazem esbravejar rapidamente no ar do escritório silencioso algum palavrão homicida). Não há como fugir da santimônia da correlação de que isso é mais uma das evidências da imobilidade naufragante do país em que vivo. Professores que, como Idelber diz no texto, lidam com literatura o dia todo, a vida toda, escrever um raquitismo desses. Me pego sempre assistindo a um programa chamado "Trato feito" na tv paga_ History Channel, se não me engano_, e hoje vi que um cliente levou aos donos da loja de penhores onde ocorre o seriado um chifre de um animal desconhecido. O dono da loja comprou o objeto por 500 dólares, desavisadamente, e, quando chamou um especialista, tal sujeito lhe disse que o osso era da presa gigante de uma morsa, e que valia três vezes mais que o valor pago por ele. Sou fascinado por esse programa: onde, no Brasil, alguém se interessaria por um pedaço de osso a ponto de torná-lo lucrativo tão quanto um livro raro, ou uma joia. Nesse programa, vejo o fetichismo da sociedade americana, seu potencial de tornar tudo inserido em um quadro de investidura espiritual, um esquema de continuidade muito particular, que foi criado pela sociedade americana e só diz respeito a ela, em que sujeitos obesos e com caras de mafiosos como os donos da loja formam uma ligadura com grandes personagens da história e da cultura do país. Mesmo eles, que demonstram o desinteresse vicário do americano atual por qualquer coisa que não seja sua situação temporal de presente contínuo, ficam deslumbrado por tudo que traga o selo da nação e que lhe é ofertado na loja. Um anel de um time de beisebol é vendido por 15 mil dólares; uma máquina antiga de Coca-Cola é vendida por 5 mil dólares; uma carta doméstica de um republicana histórica é vendida por 10 mil, e assim vai. Isso remói o estômago dos anti-americanos, essa sacralização infantil, esse imaginismo umbiguista. A mim, isso fascina. Uma primeira edição de Drácula, com a assinatura do irlandês Bram Stocker, vale uma carrada de dinheiro. E os iletrados da loja, os simpáticos truculentos que tem o mesmo escopo do imediatismo comercial de nossos varejistas, passam a mão pela capa do livro com reverência, o olham com êxtase. Uma loja dessas, um programa desses, jamais seria possível no Brasil. Por mais que isso desperte nossa invejas e nos levem à procura da catarse menosprezando esse idiotismo consumista americano, esse modo de ser americano é uma tradição valiosa que nos falta lamentavelmente; isso é o que Marx fala na primeira frase de O capital, o caráter religioso que toda mercadoria tem. Eu comprei pela Estante Virtual a primeira edição de Augie March, que o livreiro me mandou sem ter a mínima intuição de que aquilo valia 2 mil e 500 dólares, cobrando 5 reais pelo livro e oito reais de frete_ e, se algum dia eu quiser vendê-lo, terá que ser em sites americanos de livros raros, pois no Brasil não vale mais que isso, o preço de um pacote de papel higiênico de média qualidade. Aí retorno ao Idelber, com essa atividade contínua de desconstrução, de perversão de valores, de alguém que mora nos EUA e fala do Brasil com o destemor de quem não precisa suportar morar aqui. Nesse texto ele fala, a título de defender uma professora que foi noticiada na Veja por conseguir a empreitada com dinheiro público de lançar 600 mil cópias das obras reescritas por ela de Machado de Assis, que a literatura não transforma e não melhora ninguém; que, em vez de defender a literatura, deveria-se lutar pela greve dos professores, etc, etc. Leiam abaixo. Seria uma aberração se não fosse previsível. Ele encerra no mesmo marasmo de dizer que o funk é melhor que a literatura, e tudo se cumpre com os tantos comentários que o chamam de gênio (eu reli um comentário várias vezes para me desimpregnar da certeza de que tratavam o Idelber com ironia), com exceção de um comentário adstringente de uma jornalista da Globo News que o rebate cordialmente (para encerrar tudo com um "beijinho no ombro" com o qual tive muito que lutar para não compreender em um grau a mais de descaso elegante). Aí está: o que fazer de nosso país, onde os intelectuais defendem a ignorância e o relativismo. Ler, meus caros, não engrandece ninguém, não melhora ninguém. Idelber chega a reafirmar dizendo que Pound e Céline são exemplos disso, homens cultos que descambaram para o nazismo. Então vai ver que o Idelber nunca leu meu amado Céline para dizer uma besteira dessas, para desconsiderar a grande liberdade que existe nas nuances do reacionarismo arquétipo de homens falíveis que escrevem como o diabo. Vai entender para onde essa merda do Brasil está seguindo...

"Para além da polêmica sobre simplificações, adaptações, resumos etc. -- que não é o que me interessa aqui no momento --, uma coisa que não cessa de me impressionar nas redes sociais é a mistificação e a sacralização da literatura como algo necessário, indispensável, moralmente positivo e formador de caráter. Pra quem mexe com literatura o dia todo, acreditem, é bastante bizarro. 

Esse abaixo-assinado que está circulando contra a "alteração das palavras originais" da obra de Machado é um monumento de vergonha alheia (atenção: isso não significa que eu esteja defendendo o trabalho da adaptadora tal como está feito, aliás, eu li o que ela fez; você, que surtou no Facebook, leu?). O abaixo-assinado repete, por exemplo, a bobagem de que "observa-se, contemporaneamente, um empobrecimento da linguagem", premissa jamais demonstrada por nenhum estudo sério de linguística histórica ou sociolinguística. Você, que tem a minha idade e tem filhos, pense aí: seu moleque de 17 anos tem um vocabulário maior ou menor do que aquele que você possuía na idade dele? É óbvio que houve um "empobrecimento" da linguagem de você para ele? É simples decidir isso? Baseado em que critérios? Quantitativos? Tenho certeza de que, se o critério for esse, o Alexandre tem um vocabulário maior do que o meu em 1985. Qualitativos, com base na proximidade ao que seria a norma culta usada pelos clássicos? Esta última é unívoca, uniforme em todos os autores chamados clássicos? Não é verdade que vários deles utilizaram, em seu momento, registros que não eram da norma culta e que só passaram a sê-lo depois, quando suas obras foram paulatinamente canonizadas? 

Pra resumir a ópera: parem de defender a literatura. A defesa da literatura como algo insubstituível, moralmente formador, indispensável, do qual os jovens desesperadamente precisam, é uma falácia na que só costuma acreditar gente que não lê muita literatura. Frase inesquecível do grande escritor argentino Ricardo Piglia: "Perguntam-me como estimular a leitura como se as pessoas tivessem a obrigação de ler". 

Há uma coisa que caracteriza todas as "campanhas de estímulo à leitura": elas são feitas por gente que não lê muito. Quem lê mesmo jamais participa de campanhas de estímulo à leitura. Querem "estimular a leitura" entre os jovens em idade escolar? PAGUEM BEM AOS PROFESSORES. APOIEM AS GREVES DOS PROFESSORES. Exijam investimento em bibliotecas. O resto, a literatura faz sozinha. 

E ela não o fará para todos, mas só para alguns. Para outros, será o cinema. Para outros, o rock'n'roll. Para outros, o funk. E estes últimos não podem, não devem, ser tratados como mais "preguiçosos" ou menos cidadãos do que aqueles. Especialmente por gente que lê pouca literatura, mas se vê na obrigação de mistificá-la como formadora de caráter ou de cidadania." (Idelber Avelar)

17 comentários:

  1. O que me dói é que para um filho da puta demagogo que defenda o relativismo na educação um comentário como esse que se segue não representa nada. Comentário no Facebook da minha cidade, de uma menina de 17 anos que é aluna do colégio estadual local:

    "alguem sabe de uma casa pra alugar mim avise? "

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  2. "Querem "estimular a leitura" entre os jovens em idade escolar? PAGUEM BEM AOS PROFESSORES. APOIEM AS GREVES DOS PROFESSORES. "

    ?????????????????????

    Que tal parar de fazer grave e comparecer nas escolas de vez em quando? Que tal serem professorem melhores? Que tal parar de tratar o aluno como um coitadinho cheio de direitos e a escola como um local libertário progressista, e começar a tratá-lo com vigor, como nas melhores escolas militares? Não se pode deixar o aluno (o jovem, principalmente) solto, aprendendo só o que quer. Às vezes tem de ser forçado mesmo. Obrigar a uma leitura constante de grandes obras, criando uma imaginação simbólica nessas cabecinhas frescas e quase ocas, capazes de imaginar outras realidades e tempos. Não sei se sentiste isso, Charlles, a dificuldade de fazer os piás imaginarem, sei lá, a Idade Média (que nome merda) por exemplo. Mas até aí, tem muitos universitários que imaginam uma Rev Industrial, Brasil Império e o escambau de modos bizarros, caricatos, moldados por uma ideologia pronta ("foi assim!") ao invés de tentar criar em sua mente, através de várias imagens de fontes diferentes, uma imagem mais colorida.

    Que soninho me vem com essas discussões...

    Idelber me lembra um Safatle (mas este último é muito, mas muito mais picareta).

    Ano 2014, ano de eleição, ano de postar novamente no blog. Que coincidência! Mas parece que ainda não começou o proselitismo petista descarado, só o velado.

    Presente: https://www.youtube.com/watch?v=pEQruB_eGcE#t=210 Muitos colegas apoiando essa atitude libertadora ante a sociedade machista patriarcal. Cultura.

    Vai pra Escócia, Charlles. VAI.

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    1. Não por mero acaso, em 2014, o Idelber REATIVOU SEU BLOG, o Biscoito fino. Estranhíssima coincidência, não, meu caro? Eu estava relendo os últimos posts do Biscoito fino, totalmente eleitoreiros à Dilma em 2010, declaradamente eleitoreiros em 2010. O caro Idelber chegou a barrar meus comentários lá no BF, porque eu acusava, como uma mãe Diná menos farsesca, o que iria acontecer naquele piquete eleitoral assim que a Dilma fosse eleita: desativação e hibernação. Sério, cara, vá lá no Face e veja quantos lambe-saco "curtem" e comentam esse texto do cara. E tudo na pauta de que a literatura é chata e tal. Há mesmo um lá, cuja foto é de um cara descolado aparentemente olhando a paisagem de algum lugar de Macchu Pichu (incentivado pela novela da Globo), que escreve um longo comentário em concordância dizendo que a literatura é mesmo muito chata, tem páginas demais em livros, e por aí vai. Esses são os mestrandos das honoráveis faculdades nacionais (que não frequentam há tempos as listas das 100 melhores do mundo). Esse é o retrato da intelectualidade brasileira. Por isso que eu digo, Matheus, nesse país está cada um por si. Meus filhos são criados de uma maneira reacionária totalmente diferente dessa.

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  3. Quando eu li me causou asco também. Aquele mesmo que acha diz que o funk é importante e chama o Cortázar de escritor para adolescentes, no sentido pejorativo do termo.

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    1. Idelber é um intelectual do Facebook. Não aguentou as críticas crescentes contra as abobrinhas que escrevia em seu blog, e deportou-se para o Face, cujos comentários só são permitidos dentro de uma seleta de bajuladores. Palavras coloquiais como "moleque", que ele usa para parecer jovial e descolado, dão o tom da aerada "leveza" de seus textos, como a dizer: isso aqui é o face, gente, é conversa fiada. E defender a adulteração dos livros do maior autor brasileiro, alegando uma argumentação absolutamente nada a ver de que a norma culta dos livros não prejudica a linguagem dos adolescentes atuais, é de um filistinismo inconsequente sem tamanho. Uma coisa são as adaptações de clássicos para jovens, que existem no mundo todo inclusive quanto a Machado aqui no Brasil, outra coisa é a reescrita de um clássico em palavras que "a juventude entenda". Isso não existe, a reescrita, por exemplo, de Os irmãos Karamazov em uma linguagem descolada. Como se a substituição de "ser ou não ser, eis a questão" por "tô aqui ou num tô, essa é a parada" fosse desculpável. Os comentaristas do Idelber mostram com perfeição o retrato do acadêmico nacional: o cara que não lê, que só lê xerox, e arvora uma cultura genérica que é uma fórmula segura para palpitar sobre tudo.

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  4. Vamos por partes…
    1. "… uma coisa que não cessa de me impressionar nas redes sociais é a mistificação e a sacralização da literatura como algo necessário, indispensável, moralmente positivo e formador de caráter. Pra quem mexe com literatura o dia todo, acreditem, é bastante bizarro.
    a) Bem, a mistificação e a sacralização DE QUALQUER COISA, em minha opinião, é um processo cultural bizarro (aqui no sentido mais amplo de “cultural”). Por exemplo, um sadio punheteiro que descasca uma, ou mais, durante a semana, em plena consciência da sua necessidade de extravasar uma carência que, efetivamente, não pode ser apaziguada nesse nosso mundinho do entretenimento da fodinha fácil… Sem dúvida, tal maestro é mil vezes mais lúcido do que aquele mistificador-sacralizador-emérito-trepador-insaciável - tão aceito socialmente… Vou mais longe: o tal descascador, certamente, está mais apto ao encontro de um novo amor… Vai encontrá-lo? Talvez… Mas lembrando de Rilke: “Na solidão se erra menos…”.
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    b) Como é possível a um professor de literatura, que lida consequente e cotidianamente com alunos próximos a ela – é o mínimo que se espera! - chegar à conclusão que a mesma é dispensável? Após décadas de trabalho, ninguém vingou como professor, escritor, poeta, ou crítico de literatura? Se a resposta for negativa, então há uma pergunta tenebrosa: que raio de curso é esse? Digo isso por que da PRIMEIRA turma, de 12 alunos, de engenharia metalúrgica, para qual lecionei no Ifes, dois alunos se tornaram meus colegas de profissão, sendo que um já apresentou o seu mestrado e seu TCC, em que fui orientador, está em processo de aprovação na principal revista mundial associada à metalurgia extrativa. Outros dois encontram-se na fase final à defesa de seus respectivos mestrados. Outros dois estão empregados em grandes siderúrgicas brasileiras. Os outros 6, infelizmente, não tenho notícias… Sim, efetivamente, era uma turma de alunos especiais…
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    (Continuo amanhã, provavelmente à noite… Agora estou muito cansado…).

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    1. (continuando…)
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      2. “Esse abaixo-assinado que está circulando contra a "alteração das palavras originais" da obra de Machado é um monumento de vergonha alheia (atenção: isso não significa que eu esteja defendendo o trabalho da adaptadora tal como está feito, aliás, eu li o que ela fez; você, que surtou no Facebook, leu?). O abaixo-assinado repete, por exemplo, a bobagem de que "observa-se, contemporaneamente, um empobrecimento da linguagem", premissa jamais demonstrada por nenhum estudo sério de linguística histórica ou sociolinguística.”
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      a) De fato, pareceu-me sem consequências práticas o abaixo-assinado mencionado. Todavia, também, de fato, pareceu-me sem consequências práticas o ocorrido recentemente nas redes sociais quando internautas começaram a assinar seus comentários, ou textos, acrescentando ao próprio nome a designação étnica “Guarani Kaiowa”. Talvez, quem saiba, eu seja um pessimista…
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      b) Não li a obra mencionada, mas, a priori, pareceu-me ser um exercício de narcisismo e onipotência. Espero a seguir me explicar melhor. i) Por que narcisismo? Vou admitir que efetivamente a autora possui um talento fora da média (quem se propõe a tal tarefa deve ter clareza de seu potencial). Ora, a obra reescrita jamais atingirá a altura do original (estamos a tratar de Machado de Assis, não de Paulo Coelho). Portanto, por mais competente que seja a escritora, o produto final não passará de uma caricatura, ainda que talentosa. Então os meus botões ficam a perguntar: o que moveu tal escritora? A única resposta que encontro, até o momento, seria uma disputa inconsciente com o próprio Machado e, consequentemente, tal disputa possui forte caráter narcísico; pois até aonde consigo chegar, em minha reflexão associada ao atual momento histórico da cultura brasileira, a exegese e/ou a hermenêutica à obra machadiana não necessita de ninguém a reescrever a obra do bruxo com substrato contemporâneo. ii) Por que onipotência? Ora, por maior que seja o sucesso da empreitada relativamente ao aspecto formal, nunca será possível trazer ao presente o contexto histórico onde a obra original foi criada; a não ser que se acredite na possibilidade de alterar o passado…: aí está o viés da onipotência! Acreditar em tal façanha é começar a crer que o Bruxo utilizou a escritora como “cavalo” num sessão espírita… iii) Não seria mais producente a escritora ter utilizado seu conhecimento sobre a obra machadiana e escrever, aí sim, uma nova obra contemporânea de sua lavra? Creio que essa seja a pergunta fundamental…
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      c) Seria mesmo necessário um estudo sério de linguística histórica ou sociolinguística para comprovar que, de fato, houve um empobrecimento da linguagem na sociedade brasileira? Não seria isso uma mistificação e/ou sacralização da academia? Minha argumentação é a seguinte: i) Vá até o blog do Milton Ribeiro onde se encontra um recente post “No tempo em que o popular era muito, mas muito bom (29/04/2014)”. Bem, depois pesquise no Google as letras das 5 músicas finalistas. Depois compare, se você tiver saco, com tudo que foi lançado no mercado brasileiro de música popular após o final da ditadura, até 2014; atenção especial deve ser dada aos “movimentos”: sertanejo, axé, pagode, sertanejo universitário, punk, funk et caterva. Estou a admitir aqui a seguinte hipótese: a música dita popular é um reflexo das relações de linguagem entre indivíduos de um dado período histórico.
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      (Vai continuar…)


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    2. Concordo com maior veemência com o item c desse seu comentário, Ramiro. Como se algo tão pragmático fosse necessário estudos acadêmicos para confirmar. Mas na cabeça do Idelber parece que nada é verdadeiro, a não ser que seja mensurável e colocado em cifras doutorais. E o sujeito não consegue ver a gritante contradição disso: pode-se reescrever o cânone da cultura de um país, que isso não é sagrado, mas para que o cidadão tenha legitimidade ao dizer que o Brasil está na rabeira do atraso mundial, há que se ser ultra-especialista para decretar isso.

      O Idelber e seus seguidores acéfalos meteram o pau na campanha de "somos todos macacos"; para eles, repetidores do que o mestre diz, deveria ser "somos todos papagaios".

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    3. (continuando...)
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      3. “Querem "estimular a leitura" entre os jovens em idade escolar? PAGUEM BEM AOS PROFESSORES. APOIEM AS GREVES DOS PROFESSORES. Exijam investimento em bibliotecas. O resto, a literatura faz sozinha.”
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      a) Aqui em tese, praticamente, concordo com o Idelber… Porém gostaria de fazer um adendo associado às greves brasileiras: estas, costumeiramente, são fomentadas por sindicatos; todavia, há uma coisa que os caracteriza: normalmente seus dirigentes são péssimos leitores, péssimos professores, péssimos pesquisadores e, efetivamente, estão mais preocupados com a manutenção e continuidade da mamata de seus cargos…

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    4. Saiu agora no The Economist: na lista de avaliação da educação em 40 países, o Brasil ocupa o 38º lugar. Beijinho no ombro, Idelber.

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    5. Charlles, não sou alinhado com o conservadorismo do Reinaldo Azevedo, mas, hoje, ele postou em seu blog um vídeo do grupo anarcopunk “Putinhas Aborteiras” que, sem qualquer dúvida, é a prova da decadência total da linguagem no Brasil. Confesso que cheguei às gargalhadas, às lágrimas, perdi a respiração de tanto rir… O inacreditável é que tais gênias da raça se apresentaram na TVE do Rio Grande do Sul… Acredite se puder…
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      http://www.youtube.com/watch?v=pEQruB_eGcE

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    6. Hahahaha. É de dar dó, Ramiro. Totalmente engraçado em seu ridículo.

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    7. Challes, encontrei na rede uma paródia das “putinhas abortadeiras”

      ( http://www.youtube.com/watch?v=WnGjeHtaryw )

      É um caso típico em que a cópia ULTRAPASSA anos luz o original, que não passa de uma colossal boçalidade.

      Fico a me perguntar: i) quem elaborou tal embuste? ii) quem permitiu tal aberração em uma televisão educativa? iii) o Tarso Genro tomou conhecimento do fato? iv) será que tomou alguma atitude?

      Chego à conclusão que a maior oposição ao PT é o próprio PT. E, claro, afirmo isso decepcionado…

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    8. Essa paródia é torpe do mesmo jeito. Eu re-assisti ao Laranja mecânica esse final de semana, e vi no filme um símile do que acontece no Brasil de hoje: sexo ruim e de péssimo gosto por todos os lados, uma mídia onipotente que priva de qualquer independência mental à população, e uma esquerda partidária assassina que trai e transforma mesmo seus mais azumbizados adeptos em vítimas para o massacre. Pensei até em fazer um post sobre isso, mas... não gosto do que para mim parece ser a assombrosidade do óbvio. Mas veja lá: kubrick já previa a nossa ruína. Um modo usurpador de entender Kubrick do ponto de vista nacional, mas bastante válido.

      Mas alegria, Ramiro, somos os antepenúltimos na educação mundial. Beijinho no ombro, e um afago no saco.

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    9. Beijinho no saco, Charlles... Olha o respeito!...

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  5. João Antonio Guerra8 de maio de 2014 19:55

    Varias vezes, anunciei aqui o meu asco pela Letras da Ufrj, pela vaidade violenta da maioria dos meus professores. Passei pelo vestibular, que para eles não foi mera provinha idiota, mas um milagre do acaso, feijões mágicos para o castelo dos gigantes, com suas galinhas que cagam ouro. Quando um aluno -- ou mesmo um dos poucos professores que não foi vitimado e infectado pela maldade da profissão acadêmica -- vira e fala, "Professor, você tem um metro e setenta igual a mim, não é gigante, só fez salto alto dos seus diplomas", eles pisam em cima da criatura com os tais saltos: "FE! FI! FO! FODA-SE!"

    Lendo o Idelber, tenho a impressão de que ele fala de temas importantíssimos menos pela importância deles do que pela capacidade de arrebanhar gente branca e endinheirada na internet. Poxa, foi um nojo quando ele escreveu aquelas declarações extremamente elitistas sobre Cortázar, logo depois (ou antes, não recordo) de ter se autodeclarado joyceano e dito que todo joyceano abraçaria Paulo Coelho, porque Paulo Coelho é o popular e Joyce abraçava o popular.

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    1. Joyce gostava do popular com qualidade. Paulo Coelho é ruim. Idelber e cia acham que os que acham Paulo Coelho ruim são elitistas. Borges também adorava o popular, adorava Ellery Queen, etc. Joyce talvez gostasse de Andre Vianco; do precursor de Coelho, o Carlos Castañeda, etc.

      Idelber é lamentável. Não há como levar um cara assim a sério. O resto é resto.

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