sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Medo, reverência, terror_ de Carlo Ginzburg



Há um interessante ponto em comum entre intelectuais de outro modo pouco semelhantes como Carlo Ginzburg, Eric Hobsbawm, Tony Judt e Edward Said_ para ficarmos apenas nesses para preenchermos o exemplo_: o de que em suas obras tardias eles saem do patamar regrado dos temas de suas bibliografias e aventurem a tecer um vaticínio negro sobre o futuro da humanidade. Poderia citar grande parte dos autores vivos, ou que faleceram na entrada desse século, que fazem parte das minhas leituras contínuas, entre ensaístas, ficcionistas, ou de qualquer vertente de ofício acadêmico, que incorreram nessa à primeira vista surpreendente quebra de seus formalismos estéticos para descerem ao chão da vida corrente e salientarem que a espécie a qual pertencemos corre a galope para um clamoroso final biológico. Talvez o próprio fato rude de que o final seja biológico, físico, insofismável, sem meios termos ou cedendo espaço para eufemizações derivantes, os autorizem a esse pegar pesado contra o estilo e a elegância da sutileza, a dizerem de uma vez o que se tem para dizer. A última página de Era dos extremos, para quem se recorda, vê as negras nuvens aportando no horizonte; é difícil citar um só momento no ciclo de obras de um pessimismo desalentador que Judt escreveu de seu leito de morte, assim com essas mesmas sombras negras formam o solo contínuo de violoncelo que não prenuncia qualquer tipo de redenção na auto-biografia de Said.

Assim sendo, o mais lacônico e impessoal dos historiadores da grande geração de historiadores da metade final do século passado, Carlo Ginzburg, me surpreendeu ainda mais nesse campo ao abrir ele também uma concessão em seu eufonismo nunca direto e sempre insinuante e lançar à mesa a sua preocupação quanto ao fim do mundo do homem (pois a lucidez desses escritores os fazem saber muito bem que o mundo continuará a despeito de nossa extinção, e bem provavelmente de uma maneira quiçá mais leve). Ginzburg, cujo primeiro texto que li dele foi há 15 anos, na biblioteca da faculdade de história, em uma compilação organizada por ele e cujo ensaio de sua contribuição era uma peça lapidada e arejada sobre o grande blecaute de Nova York ocorrido no final da década de 1970. Tal texto, que nunca mais o encontrei novamente, me deixou perplexo por mostrar que Ginzburg era justo o oposto dos cultuados historiadores cujas obras em alemão ou em um outro idioma não pertencente à tríade de idiomas seculares mais falados do mundo eram fisicamente inacessíveis para o estudante médio, e por isso mesmo eram esses historiadores herméticos e maçônicos os mais propalados pelos professores e seus alunos zumbis. Ginzburg escrevia coisas que podiam ser lidas em questão de minutos; escrevia em blocos encabeçados por números sequenciais, como fichas de resumos; e, pela ótica de um aficionado em literatura como sempre fui, seu texto trazia perigosas sutilezas borgeanas, um descompromisso falso com o que exorbitava de nuances em torno das questões centrais do texto que revelava um efeito retardatário em que após se fechar o livro vinha à mente do leitor o que realmente o autor estava dizendo: não era só uma requintada comparação entre as trevas da megalópole mais importante do mundo, no quarto final do século das mais bombásticas revoluções tecnológicas da história humana, com as trevas da Idade Média, mas uma crítica subjacente genialmente astuciosa sobre o quanto essa tecnologia escondia de reais atrasos espirituais. Fiquei literalmente embasbacado com tal texto e dali em diante li grande parte do que foi publicado no Brasil desse diferenciado autor, até chegar, no meio dessa semana, a seu último livro, Medo, reverência e terror, em que encontro a referida exceção profética mencionada acima:

"Suponhamos que a degradação do ambiente aumente até alcançar níveis hoje impensáveis. A poluição do ar, da água e da terra acabaria por ameaçar a sobrevivência de muitas espécies animais, inclusive aquela denominada Homo sapiens sapiens. A essa altura, um controle global, minucioso, sobre o mundo e seus habitantes se tornaria inevitável. A sobrevivência do gênero humano imporia um pacto semelhante àquele postulado por Hobbes: os indivíduos renunciariam às próprias liberdades em favor de um super Estado opressor, de um Leviatã infinitamente mais potente que os passados. O grilhão social estreitaria os mortais num só férreo, já não contra a 'ímpia natureza', como escrevia Leopardi em La Ginestra, mas em socorro a uma natureza frágil, deteriorada, precária."

O excerto é do ensaio que dá título ao livro, uma releitura de Thomas Hobbes sob a ótica atual, lançado em diversos periódicos e no circuito acadêmico em 2009. É a única parte de todo o volume em que Ginzburg parece pegar de seu megafone e falar taxativamente por ele sobre a vulgaridade em que todos estamos metidos, quase comprometendo a fineza da composição erudita do todo. É como se aqui ele se dignasse a descer do alto nível em que escreve e apontar para o barbarismo e a bestialidade incessante que inevitavelmente está à porta de todos os gabinetes, mesmo o seu que tem uma aparência tão segura. Ler isso, esse clamor sem subterfúgios que revela um concentrado desespero (ou falta de esperança), vindo de um senhor que hoje tem 74 anos, é um tanto desmotivador. Faz pensar numa inversão da célebre frase de Adeus às armas, a que em nossa realidade os últimos bons estão morrendo tarde, e não aparece ninguém de forma urgente para substituí-los. Uma vez ouvi um senhor repetindo em suas palavras mais prosaicas a mesma sentença, e não pude deixar de notar que por detrás de sua nostalgia se escondia um alívio feliz de quem logo não precisaria mais viver nesse mundo, passar por essas privações à espera. E a generosidade de Ginzburg retorna e se mantêm pelos quatro magníficos ensaios do livro, usando como instrumento ideológico uma esquecida teoria do começo do século XX, a Pathosformeln ("fórmulas de emoções"), em que ele traça uma espécie de radioscopia das emoções básicas e mais poderosas da humanidade, que são a raiz da nossa alienação inexaurível, de nossos vínculos simbólicos de interpretar a realidade através do filtro da religião, de nossa quieta submissão à invocações e doutrinas descerebradas, e também, do que afinal poderia nos salvar algum dia, o que determina a troca ou a reversão de tudo isso por nossa harmonia social e política. Por isso esses ensaios se aproximam muito de outro manual sutil e poderoso sobre as estruturas mentais e espirituais do ser humano, Massa e poder, de Elias Canetti.

Além do ensaio sobre Hobbes, em que Ginzburg analisa sucintamente a etimologia da palavra inglesa awe ("sujeição") e sua importância formativa para a grande obra de Hobbes, Leviatã, o livro tem um ensaio sobre o quadro Marat em seu último suspiro, de Jacques-Louis David, cujas origens pictóricas cristãs são muito mais que meramente inconscientes ("Não estamos diante de um simples quadro político, mas de um ato político, executado por um pintor que tinha responsabilidades políticas de primeira importância"); um ensaio sobre o poder insurgente da propaganda convocatória de guerra britânica, usando a técnica do escorço da figura de dedo apontado de Lord Kitchener, que deu seguimento aos cartazes do Tio Sam e à obsediante e ubíqua estamparia stalinista; e se encerra com um ensaio sobre Guernica em que é nos mostrado que o incidente de Picasso produzir o quadro político mais apolítico da história da arte é mais que um simplório paradoxo, uma identidade comunitária "de seres humanos e animais ligados pela tragédia e pela morte".

Resta saber se tal riqueza e sutileza poderia ser permeável a ao menos despertar as mentes para um sono menos profundo, sem que se use megafones.

13 comentários:

  1. Charlles, lendo esse texto (ótimo como sempre), acabei de perceber que, apesar de ostentar um Kiefer no cabeçalho, seu blog tem raros ou nenhum post sobre pintura ou artes visuais em geral. É de propósito?

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    1. Nunca tinha me dado conta disso. Já pensei em fazer como Cortazar, pegar alguns quadros representativos e fazer textos pequenos de interpretações subjetivas. Gosto muito do Rembrandt, do Vermeer, do Hieronymus Bosch, do Giorgio de Chirico. Aliás, um dos momentos mais engraçados da literatura, pouco conhecido porque se trata de um livro bastante periférico, é a descrição de uma pintura à lá Bosch que o dono de um boteco faz ao personagem de Hemingway em "As ilhas da corrente".

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  2. Sim, um dos momentos mais belos, pra mim, é aquele com a Vista de Delft, acho que no A Prisioneira (evito entregar detalhes).

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    1. Não por acaso tem uma edição da Piauí com essa passagem de "A prisioneira".

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  3. Sério? E eu todo receoso de fazer spoiler...

    Ei, coincidência mas não tanto, hoje um amigo formado em História despejou aqui 10GB de livros no meu HD (provavelmente não vou ler nenhum, mas há umas coisas díficeis, e sempre tenho pena de deletar). Pois bem, dando uma olhadinha, achei do nada "Das trevas medievais ao black-out de Nova Iorque". Faz parte de um volume chamado A micro-história e outros ensaios. Se você quiser, posso tentar enviar.

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  4. Argh, cara! Ginzburg lacônico?
    Seus livros-coletâneas de ensaios são como que fichamentos escolares?
    Não sou, nem nunca fui de glorificar a coisa da leitura hemorrágica, da morte do autor e tal. Então que posso dizer que às vezes me parece que a gente lê autores completamente distintos.
    Que Ginzburg é um historiador que não tem interesse no megafone, estou de acordo. Não vejo nisso o menor dos defeitos. Talvez a você seja um handicap. Você que gosta de historiadores que quase só escrevem com o megafone. Judt, o feioso do Eric, etc.
    Nem tudo é uma história do presente, meu caro. Nem tudo subterfúgio para lançar expediente a menções sifradas de qualquer sentimento de involução do Ocidente em voga. Aquele mote bobo que todo bacharel de história no Brasil repete, de que a história é o gigante sob o qual nós subimos nas costas para enxergar adiante é no mínimo uma apiedante definição da razão de ser da história.
    Hiistória é narrativa. Desde Heródoto até Gibbon. E ela se justifica pelo mesmo caminho que se justifica a literatura. Sem qualquer necessidade de usar mão de recursos divinatórios.

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    1. Não sei onde você viu demérito em eu dizer que Ginzburg é lacônico. Pois para mim a característica mais indiscutível de seus textos é eles serem concisos, lapidados ao extremo, podados de pessoalidade, enxutos. Nisso ele se distingue muito dos outros historiadores, e basta ver que ora e outra seus contemporâneos de profissão escrevem sobre os problemas da modernidade, cometem análises sobre os temas julgados indispensáveis (Israel, 11 de setembro, comunismo/capitalismo, degradação do meio ambiente), enquanto Ginzburg se centra audaciosamente em seus temas de sempre para inserir o mundo exterior em elegantes metáforas. Seu livro mais "político" e "participativo das questões modernas" é Olhos de madeira, que faz par com seu gêmeo Os fios e os rastros; nestes, que não deixam de abraçar profundamente os assuntos de sempre da renascença italiana e do medievalismo, Ginzburg exerce com maestria seu laconismo de dizer através de sub-textos e referências sobre a condição humana e o mundo do final do século XX. Quer algo mais brilhante do que "Para matar um mandarim chinês" (não é ipsis litteris esse o título, mas algo muito próximo, pois procurei na bagunça das estantes aqui e não achei esses dois livros), que versa sobre a questão da perda da individualidade no mundo globalizado, e como isso envolve questões morais bastante incômodas na proposição de que um ocidental de um grande centro urbano tenha em mãos a chance de ganhar um milhão de dólares se decretar a morte de alguém que ele nunca viu, nunca saberá o nome, e jamais lhe será incutida qualquer culpa, pois mora no outro lado do mundo. E sua crítica sutil sobre os arcaísmos do dogma do catolicismo no ensaio Um erro de Carol Wojtyla? Nisso eu digo que Ginzburg é bem borgeano.

      Mas todos, todos os textos de Ginzburg são divididos, por assim dizer, em fichas numeradas. Isso, meu caro, queira você ou não ir contra a realidade material, é um fichamento (nem sei onde eu falei isso no texto, me dá uma preguiça descomunal reler essas coisas que eu escrevo).

      E sério, é a primeira vez que alguém me informa sobre o tal mote bobo dos ombros do gigante_ nunca tinha ouvido falar.

      E o megafone não é uma prerrogativa de qualidade. Onde eu disse isso? Não cobro tal coisa de Ginzburg, e usei a metáfora para falar sobre a estridência usada (e bem usada) por intelectuais para falar sobre os problemas suicidas gravíssimos que nos cerca, referentes à degradação ambiental. Zizék fala sobre isso, Jared Diamond, etc, etc. Gunter Grass escreveu todo um romance sobre isso, envolvendo bomba nuclear e ecologia.

      O dia que você ler Reflexões de um século esquecido, você vai mudar sua opinião vazia sobre Judt. Pena que mora tão longe e envolva tantas pendengas aduaneiras (e seja demasiado mais fácil você comprar a edição original aí por menos que cinco dólares, o que inviabilizaria todo meu hipotético esforço), senão te enviaria tal livro. Só o ensaio sobre Camus já te faria ser menos leviano.

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    2. Achei:

      "Ginzburg escrevia coisas que podiam ser lidas em questão de minutos; escrevia em blocos encabeçados por números sequenciais, como fichas de resumos;"

      Há alguma mentira nessa frase? "Fichamento", pois, é uma palavra sua. Esse texto está um horror (como falar de Ginzburg?), o que já seria coerente que não se inventasse outros erros fora os que ele já tem em excesso.

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  5. E pra você não me acusar de mau-humor.
    Escuta depois o belo novo disco do Brad Mehldau. Modern Music. Que coleta, claro, versões do cânone da música moderna interpretadas pelo Mehldau e Kevin Hays.
    Mehldau toca uma versão comovente de um excerto do String Quartet # 5 do Philip Glass. Belíssima mesmo.
    E tem lá também o Lonely Woman do Ornette Coleman que eu venero. Primeira vez que escuto uma versão de piano dessa peça que eu pensava ter sido escrito apenas para ser ouvida no agora tradicional sax tenor.

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    1. Não sabia desse novo disco dele. Vou atrás agora. Glass!

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    2. Não encontrei o tal disco. Trata-se de "Mehliana"?

      Aqui, só achei esses, já anteriormente captados:

      http://newalbumreleases.net/?s=Brad+Mehldau

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  6. Equívoco meu. O album não é tão novo assim. 2011.
    http://www.amazon.com/Modern-Music-Kevin-Hays/dp/B005DKLPCE

    Eu estou na cozinha, no meio do preparo de uma sopa de couve-flor.
    Mas deixa-me rapidamente dizer que eu não tenho ressalvas nenhuma em relação ao Judt. Apenas não o conhecia antes do seu blog.
    Já o Eric... ah, Eric...

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