sábado, 18 de janeiro de 2014

Tio Sebastian (um fragmento)



Talvez possa parecer que estou exagerando. As mentes mais acostumadas com o prosaísmo dos homens de mercado devem pensar que estou me superestimando, nesse arremedo de argumentação sobre minha inferioridade diante à tal personalidade realística e extremamente zelosa do que lhe exige o maquinário do mundo. Mas olha essa história da progenitora de Sebastian Sás, retirado de um artigo fresquinho das minhas memórias familiares. O garoto era um prodígio das relações públicas aos 14 anos, a julgar pelas lembranças que involuntariamente comprovam isso de minha falecida avó Anastácia. Uma senhora simples_ poderia certamente dizer simplória, se não fosse o eufemismo espontâneo provocado pelas minhas considerações infantis a seus ambiguamente reconfortantes conselhos bíblicos, que ao mesmo tempo em que potencializava o inferno da danação para uma criança para a qual as tentações do mundo se abriam convidativas, me resgatava do sofrimento eterno que se avizinhava da minha alma leviana, permitindo acolher-me em suas convicções pentecostais_, para quem várias das enganações do demônio estavam disfarçadas nos rituais do catolicismo. Segundo essa senhora, uma tarde em São Miguel em que ela fazia sonhos com calda de açúcar na cozinha, Sebastian Sás entra pela casa na companhia de dois mendigos para dar-lhes a compartilhar da massa em fermentação que a receita secreta da mãe tornava tão deliciosa. Diante o olhar espantado da velha, que na certa parara a grande colher de madeira por sobre a panela de caldo borbulhante, o bom samaritano do Sebastian Sás senta-se com os dois andarilhos à mesa, conversando com eles com alegre e despreocupado interesse, como se fossem conhecidos destemidos de longa data, com muitas histórias do vasto mundo para dividirem entre si, não demonstrando nenhum sinal de estranhamento pela quebra da unicidade familiar ou mesmo por qualquer perigo. Esse era o novo Sebastian Sás, muito antes de se tornar o grande capitalista, capaz de mexer com a acomodada consciência cristã de sua mãe com uma atitude tão desnudante, colocando em xeque as nobres teorias de amor abnegado da mãe que por si mesma nunca chegaria àquele grau de pragmatismo, tão violento, de amor aos pobres, tão devastador e ofensivo, se ela não fosse uma mulher sem vaidades e mesmo já há muito sem paixões, além da vaidade e da paixão de servir obsequiosamente ao senhor Jesus Cristo. Embora com aquela falta de detalhes de seu relato herdado do estilo bíblico, atentando-se apenas à notificação circunstancial do evento, eu ficava imaginando essa cena um sem número de vezes, ampliando-a sob a luz amarelada das fotos da velha casa e das crianças (uma delas com o tio Sebastian com não mais que cinco anos, de bermuda e fartos cabelos negros penteados para trás), os objetos da cozinha que cercavam aquele trio inusitado e_ na minha imaginação_ com uma alegria selvagem. As mãos grossas dos mendigos, com unhas negras perigosas, avançando sem nenhum pudor por sobre os bolinhos de sonho por sobre a mesa, legitimamente autorizados à franqueza do sacio pelo tio Sebastian que aquela sinceridade faminta os dignificava, lhes dava uma áurea de inexplicável e paradoxal elegância. O tio Sebastian ali bem poderia ser Jesus e os dois maltrapilhos representariam todos os excluídos e desgraçados do mundo. Nunca cansei de reprisar a cena, vendo o tio Sebastian alto e muito magro, com a juventude fresca estampada na cara.

Depois disso, eu sei, vieram as etapas da maturidade que o conduziriam para um outro entendimento, um entendimento sucessivo e vertiginoso, que deve ter-lhe custado muito se adaptar. Vieram as mulheres (os homens da minha família possuem uma libido superdesenvolvida), veio a morte do patriarca, Gerônimo Sás, e uma divisão de um cartório de terras cuja ardilosa premeditação o repartiu entre apenas dois dos treze filhos (Sebastian um deles), isso não condizendo nem um pouco com o generoso coração compartilhador do radiante adolescente de outrora. Veio o casamento, três filhos, o divórcio, um começo de uma depressão que quase o levou ao suicídio, e depois, do fundo do abismo, a restauração, a volta por cima. O tipo de resiliência que deixaria todos os seus inimigos com uma certeza prostrante de uma predestinação divinatória. Tornara-se não só imbatível, como também infalível. Se tivesse aproveitado em outras áreas essa possível benção, se houvesse optado pela medicina, por exemplo, teria acontecido algo como a descoberta da cura do câncer, se fosse a música, uma sinfonia para suceder à Nona. Mas, por não ser mais jovem e por tais iluminações não costumarem vir acompanhadas de uma devoção mítica pela espécie, ele continuou na advocacia. Tornara-se tão inacreditavelmente rico que mesmo os mais céticos analistas da inocuidade terrena o olharia com temor devocional, atento a movimentos e palavras que revelassem o excepcionalismo por sobre todos os demais. Se tivesse escrito uma dessas autobiografias de como ficar milionário que no fim do século XX tornara-se moda entre os mega executivos, não faltaria quem a estudasse como uma cabala, à procura de sinais cifrados. 

Claro que para todos da família ele ocupou por muitos anos o assunto central, e não havia como esconder o orgulho que sentíamos. Parte era culpa nossa, de nossa natural inclinação à banalidade e nossa envergonhante capacidade de nos excitarmos com essas coisas, parte porque o tio Sebastian não nos oferecia nenhum conteúdo espiritual elevado ou uma decepção suficientemente embaraçosa para nos demover desse caminho_ não era o sacerdote nem o condenado sob liberdade condicional da família_, mas apenas aquele fascínio primitivo e inevitável do dinheiro. Mas algo paralelo começou a acontecer com ele, a mudar o seu caráter. Era algo tão perceptível que não poderia ser atribuído apenas ao rancor dos que se viram decepcionados pela proximidade não ter lhes trazido os benefícios pretendidos. É um lugar comum associar riqueza com a perca da alma. Algumas canções populares tratam desse assunto. Poderíamos todos nos consolar com tal diagnóstico, embora talvez eu esteja mais uma vez superestimando a acuidade intelectual da minha família e forçando uma percepção que só era tida por mim, e ainda tardiamente. As possibilidades abertas com as contas bancárias em franca atividade_ os cifrões girando em alta velocidade as roldanas da caixa registradora_ em vez de produzir algum efeito inconscientemente esperado, gerou uma retroação que deixou um pasmo no ar. Quando tio Sebastian aparecia de forma cada vez mais esporádica nas reuniões familiares, com sua cara bonacheirona demonstrando mais pacífica bondade do que qualquer sinal ativo de inteligência, a ampla barriga cujo desarranjo do terno potencializava sua desamparada simpatia (o desamparo despertando piedade sendo uma de suas armas mais letais), não se viam os esperados acompanhamentos mecênicos , e seu toque, cheio de um impossível prosaísmo, deixava os objetos inalterados em suas características naturais, não tendo transformado nada em ouro. Tive o pressentimento, no alto de meus 13 anos e no auge do sucesso dele, de que aquele dia era o começo de sua derrocada, o prólogo de seu inferno de extremo isolamento ao qual ele sempre simularia ter se adaptado, com aquele ar de imolação simpática que forjava tão bem ter, mas que na verdade sempre o deixava em um desbaratino infantil. A sua forte insistência em se valer de comentários banais cheios de um humor preguiçoso quanto ao caricatural da família, chegava a desgastar a atenção de todo mundo, o que a certeza perplexa depois de muita atividade de destrinchamento de que ali não havia nada mais que uma rasa demonstração de espírito, causava uma profunda decepção. Quando se despedia, geralmente depois de longas concordâncias com as observações de saúde e passagem do tempo, saía para seu Mercedes novo, com vidros automáticos com protetor solar e ar condicionado que parecia uma turbina, cuja pequenez de fragmento de apoio no amplo oceano de expectativas frustradas se desfazia pela solidão que tio Sebastian passava, abrindo a porta do motorista e fazendo uma ultima afirmação calorosa, as falhas de seus cabelos tingidos de negro aparecendo sob pontas soltas rebeldes que lhe caíam na testa, como uma paisagem de coníferas siberianas, as costas do paletó amassadas e umedecidas de suor, com a falda da camisa saindo para fora da calça.

7 comentários:

  1. (não sei se interessa a alguém, mas o Mogwai lançou um novo disco, estou ouvindo enquanto leio: http://grooveshark.com/#!/album/Rave+Tapes/9326018 )

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  2. "Nota: como vencer o realismo fantástico sem cair no noir indesejável e na depressão crônica de autores alternativas como Bolaño?
    Não sou entendido, mas a tua própria biografia é de um realismo... fantástico, e nos teus textos sempre foi sustentada da melhor maneira q podem ser todas essas coisas insustentáveis. Graves pero sín perder la leveza. Com humor. Não que eu diga q tu tenha q escrever tua biografia pra começar, ou pelo menos se basear nela ou no seu GEIST (tá, era isso q eu queria ler)... mas tbm, creio ser meio impossível fugir muito disso, não é? Imagino q tu só tenha q ter disciplina e pouca vaidade (pra saber a hora de parar), pq talento tu tem. Então escreve e nos felicite com um livro teu.

    "Antítese hegeliana: descobrir, como sempre, cinco dias depois, que a coisa não presta, que o peso de toda predestinação ao fracasso na escrita desmorona, até com alívio, sobre mim."
    A antítese hegeliana existe só para uma síntese. Mastigue aí tua subestimação e, pelamor, escreva pra gente.

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    1. Essa história do fragmento é "baseada em fatos reais". Não se trata de subestimação, até tenho um amor próprio condenável, mas medo. O terrível medo de acessar esse texto novamente...

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    2. Pois então, era isso q tava falando. Teus melhores textos têm essa base. Ainda q eu não colocasse este em particular entre os melhores.

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    3. Esse eu escrevi há seis anos. Foi antes de meu casamento e antes de ser pai. É um texto ruim, palavroso. Eu tenho minhas razões exorcísticas para colocá-lo aqui.

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  3. Em particular considero estes teus textos os melhores (arbo aqui). Rico na exata medida, em detalhes e palavras. Como um russo a pouco biografado, descreve as particularidades de cada um dos envolvidos a partir de umm posicionamento involuntariamente justo. Mesmo tendo vc arrematado com acerto, fica uma vontade de seguir para o próximo capítulo

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  4. ( nao eh minha intencao desvirtuar o post mas acho q isso nao chegou à alemanha. Constantino vs ciro gomes: http://m.youtube.com/watch?v=Q2A3c78C-kM&desktop_uri=%2Fwatch%3Fv%3DQ2A3c78C-kM )

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