quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um palácio em Júpiter



A questão que pega mais é que nós não merecemos. Só isso. Não o tom de absurdo total da coisa, a propensão à fantasia descarada, a linguagem pomposa de uma bondade enjoativa. Nada disso: apenas que não merecemos tal coisa, tal supervisão constante; não merecemos, como pensou uma vez Herzog, que seres divinatórios e luciferinos ainda se importem com uma raça tão sem transcendência como a nossa.

Apesar dessas conjecturas da vida toda, comprei a biografia de Kardec escrita pelo Souto Maior. Me vi fazendo a transação inconscientemente com o volume com a capa voltada para o pano do meu jeans. Fazia a coisa de modo escondido, como se comprasse pornografia. Daí, como é natural nessas horas, entra um amigo na livraria e vai direto perguntar que livro eu tenho nas mãos. Explico: "não acredito nessas coisas, mas acho um passatempo razoável". Se ele partisse para a ironia, eu tinha a arma de atirar na cara dele que ele era o maior fã de Dan Brown que eu conhecia, aquela chatice toda de simbologista e de um clã milenário para proteger o segredo que todo mundo sabia sobre a prostituta mais famosa da História. Mas ele só concorda com a cabeça e passa para outros assuntos, me poupando de dar rédeas à minha mediocridade inerente. Pago o livro e saio me despedindo ainda sentindo o temor de que aquele título me comprometa de alguma maneira indistinta, eu que me julgo alguém que não se importa nem um pouco sobre o que pensam de mim. 

Todo ano nesse mês de dezembro eu sinto a nostalgia da neve alpina e de sensações exóticas associadas com meus primeiros natais da infância. Transporto isso para minha sede de leitura, o que acarreta uma mudança brusca em minhas leituras. Ano passado ou retrasado, não me lembro, li Umberto Eco pela primeira vez, baseado na tentativa de resgate desse aconchego. Leio best-sellers com cenários em Londres ou na Finlândia, ou na Noruega; ouço Sigur Rós e todos os álbuns natalinos suportáveis (digo isso também por temor de ser desprezado, pois tenho uma real inclinação por músicas natalinas). Daí que Kardec me parece, de uma maneira que não saberia explicar, propício a se encaixar nessa minha procura por saturação de uma atmosfera natalina. Leio o livro em dois dias. A maioria das vezes sentado na varanda ou na garagem, nesse tempo de chuva adstringente. Sempre me pego policiando para que a capa esteja escondida dos olhares que passam lá fora.

O livro não passa do esquematismo raso típico da revista Superinteressante e da mídia geral que temos por aqui. Souto Maior é autor e produtor de programas da Globo, e isso me poupa de tentar gastar mais palavras sobre ele. O subtítulo, que virou moda editorial, de "A biografia", é uma mentira gritante. Não se trata de uma biografia de Kardec, mas uma compilação de seus momentos mais popularmente degustáveis. Talvez isso seja uma vantagem, pois não sinto interesse em saber dele o que ótimas e verdadeiras biografias fazem sobre Tolstói e Darwin. Souto Maior é um perito em literatura descartável. Um ecologista da palavra: nenhum dos materiais que publica passa por períodos de decomposição maior que umas semanas ou um mês. Logo se esquece de tudo que ele escreveu, com exceção de algumas informações anedóticas que resistem como porções isoladas de matéria orgânica sólida. Recordo de sua biografia do Chico Xavier uma solitária formiga que o jovem mágico astral do título não conseguiu desviar da infestação do quintal de sua casa, e de que Chico a chama de "subversiva". Desse volume do Kardec, ainda fresco na memória, recordo uma bela passagem em que Victor Hugo, ainda encarnado, tem de resposta de um espírito que visita sua casa em Paris a seguinte frase (sobre o propósito do homem na Terra): "Comer, caminhar e orar". O espírito, através da batidas na madeira (uma batida corresponde à letra A, duas à B, e assim sucessivamente), dá uma frase incompreensível por muito tempo ao autor de Os miseráveis, até que muitas consultas leva à descoberta de que se trata de uma vertente do latim, e que a tradução é essa concisão genial de tudo a que pode chegar a sabedoria regrada de nossa ambições: "Comer, caminhar e orar". Isso já valeu o preço do livro, e eu até me aventurei a deixar que a vizinha católica visse a capa quando ela me cumprimentou vindo de sua caminhada vespertina.

Não vou cair no lugar comum de ser irônico ou sarcástico com o espiritismo. Fazer isso é tão acintoso quanto os sequiosos barrigudos executivos à espera do infarte fulminante conversando com a certeza da imortalidade física sobre corrupção de menores. Considero todas as coisas e isso não por ser sábio ou ultra-inteligente, mas porque, sinceramente, a maior parte das vezes tenho a certeza irredutível de que sou um completo energúmeno com ares de prepotência. E isso é um consolo. Me perdoem os que estão começando a ficar por aqui comigo, mas a inteligência me cansa profundamente. Com essa bosta da vida digital então, essa Stupid Social Media Generation, sinto um exaurimento de forças quando vejo textos absolutamente estúpidos na net seguidos por centenas de comentários de pessoas que dizem que seu autor é um gênio e tal texto mudou a vida deles para sempre (até o próximo texto, que todos esquecem do anterior e repetem a mesma ladainha). Essa necessidade paranoica de dizer algo inteligente, de ser relevante, de ser cool, de arvorar os melhores gostos, de ser enquadrado em algum logotipo de sociedades reservadas e requintadas. Se pegassem todas essas pessoas geniais e líderes natos da humanidade, que aparecem todos os dias na luz radiante em frente da tela e na solidão do quarto escuro de seus quartos, e os organizassem para dar um alento verdadeiro ao mundo, veríamos um grupo de masturbadores tristes e crianças de 40 anos perdidas, mal sabendo balbuciar uma sentença gramatical coerente. Na verdade trata-se de um bando de ultra-egoístas que ligam pouco para seus semelhantes, mas que se apaixonam por corações cor-de-rosa e choram à míngua com comerciais de bancos (a menina de tranças sendo rodopiada pelo pai em um parque em sépia com uma música de saudades espectrais ao fundo, como eu queria ser ela, como eu queria ser ela).

Continuando a digressão: me afasto cada vez mais da internet porque o vazio está cada vez mais retumbante. A internet, sério, deveria ser estudada com um afinco paranoicamente detalhista pelo que tem de diagnóstico terrível sobre nosso destino esotérico. Acho que Pynchon planejou fazer isso, e Delillo também. Talvez esteja ainda acima de nossa forças perceptivas mais bem preparadas. E nada disso é um segredo incomensurável. Nada de novo sob o sol e essas balelas cerebrais do bardo. Já aconteceu antes, como diz Pynchon naquela página memorável_ mas, contudo, mas nada como dessa vez. A net antes era interessante, como as magias mirabolantes o são no início. Mas depois os cordões sustentando os bonecos flutuantes e os alçapões por onde entram os funcionários de palco para fazer desaparecer a moça se tornam evidentes demais. E a net transparece cada vez mais como o novo e consensual quadro de propagandas moderno. Cada vez mais não passa disso. Por isso a necessidade de ser radical e conservador. Por isso cada vez menos me vejo na net e cada vez mais me recolho em meu obsoleto Mann e Proust e que tudo vá para a puta que pariu. Sendo ultrapassado na velocidade da luz por jovens descolados que sabem de tudo com a perícia descuidada da libélula que toca o rabo na superfície da água e segue adiante, mas me deixem com a minha inanição feliz em meu pouco tempo de vida. Cada vez mais dou razão ao narrador de O náufrago quando diz que chegar aos 50 anos é a mais obscena e despropositada das intenções. Levar tanto tempo para consolidar o ciclo de idiotice que nos consome nessa terra sem graça, nessa luta infrênica (e porque não existe a palavra infrênica, conforme a onisciência gramatical desse meu computador que no mais é burro e não fala uma palavra sequer acusa com um gritante sublinhamento em vermelho?); e quem vive até os 80 e 90? Minha avó, com 97 anos, que me diz o quanto é triste ser velho (deixar de ser jovem, ela diz, em sua vaidade eterna de não aceitar a palavra velha). (Ontem assisti a um programa na tv em que se pergunta a três candidatos a um alto cargo de executivo na maior empresa de propagandas do país uma série de perguntas as quais respondo em um átimo, mas eles, as bestas, nem sequer tangenciam; perguntas sem o mínimo grau de dificuldade, mas eles me transformam em gênio: quem escreveu vinte mil léguas submarinas, volta ao mundo em 80 dias, e tem em Londres um museu chamado MUSEU VERNE? um só se aventura e responde: PETER GABRIEL! E tais candidatos eram SEMI-FINALISTAS!) 

Tudo bem. Ler não anda sendo a mais saudável das ocupações hoje em dia. Ler para quê (sem ironia)? Todos meus colegas de trabalho tem celulares inteligentes e ficam 24 horas neles. Sentam ao meu lado com os celulares à mil. Facebook? What´s up (não se escreve assim, que se foda)?

Ontem e antes de ontem li quatro magníficos contos de Nabokov. Por um estranho acaso, três deles falam sobre espiritismo, mesas rodantes, músculos calcâneos estralantes. São eles Última Thule, Solus Rex, As irmãs Vane e Detalhes de um pôr-do-sol. Com exceção do último, os outros são absolutas obras-primas. Nabokov é tudo que falam nas orelhas desse volume da Alfaguara de seus contos completos. Lê-lo é se expor a uma sensação de prazer quase libidinoso pela escrita. O cara é tão bom que ele brinca enquanto escreve, superpõe enigmas para segundas leituras, acrônimos, piadinhas; me lembra alguém muito proficiente no futebol driblando vários adversários atrasando a hora do gol certo apenas para mostrar a molequice de seu talento. Escrever como Nabokov deve ser uma felicidade, a maior das felicidades. E penso: 99% dos doutores da net não seriam capazes de entender esses contos, ou achá-los minimamente toleráveis. E isso é o mundo. Ler Nabokov para quê? Nabokov caminha para se tornar cada vez mais uma excrecência, como hoje é aquele pintor que desenhava frutas e legumes como rostos de pessoas (Arcimboldo, ou algo assim, se não me engano). A inteligência está agonizando, meu caríssimo Nabokov, e estamos você e eu aqui vivendo em nossa bolha de tempo, nem um pouco segura, logo talvez venham os cães, como costumam vir em cada início de século, seres matematicamente infalíveis, e aí estaremos na merda, nós contra milhões de estúpidos, mas tais estúpidos os donos do novo mundo, os gerentes da razão, seres requintados de sexualidades saudavelmente desregradas que pouco terão paciência em esperar que recolhamos nossos casacos velhos e sumamos daqui, da frente de seus narizes estereosféricos. Suas frases são sublimes, sua sutileza é quase dolorosamente inapreensível, mas aí vem os novos Maomés condenarem o elemento deletério da distração sem propósito de sua música infinita. Música para matar os espíritos materialistas irredimíveis, e por isso veementemente condenada. Logo seus livros, esse monumental livro de 800 páginas com uma bela figura de borboleta pousada em uma haste na capa (tão delicada quanto os contos que envolve), será vendido como objeto sem apelo mercadológico por 25 centavos em alguma banca de feira, e não é exagero.

(Estou no aguardo de 1Q84, volume 3. Isso é o que eu gosto de Murakami. Ele não quer ser inteligente. Ele não quer ser Nabokov. Ele se limita entre os muros de seu talento. Há frases constrangedoramente puras em 1Q84, volumes 1 e 2. Constrangedoramente infantis. E é disso que gosto em Murakami: nele eu posso descansar de toda essa tralha dos caras ultra-inteligentes, as galinhas empoleiradas em turbulentas declarações bombástica sobre as artes do empoleiramento.)

Voltemos a Kardec. Fui à fazenda do Galheb lhe entregar de presente o volume já lido. Passamos horas e horas falando sobre espiritismo. Galheb é o cara mais inteligente e mais culto que eu conheço. Ele não é inventado. Mas se me falassem dele eu jamais acreditaria. Por isso aceito a suspeita de que eu seja um mentiroso. Ele tem 60 anos, ou pouco mais. Tentou o suicídio e foi salvo por um kardecista. É uma história incrível. Ele tem um conhecimento enciclopédico, uma memória prodigiosa. E me assegura com absoluta certeza de que existe vida após a morte. Me diz isso sem mágoa, não é um fanático. Mas tem a certeza. Uma pessoa está destinada a só conhecer alguém como Galheb uma vez na vida. Já gastei minha cota. Uma vez o levei para uma palestra na universidade quando cursava História. Os idiotas não entenderam nada. Saímos e enchemos a cara e rimos até passarmos mal. Enquanto os funcionários da fábrica de guariroba da propriedade trabalhavam, falamos sobre o destino da humanidade. Assunto negro. E sobre Kardec. Por que ele dizia que Marte, a Lua e Júpiter eram habitados? Por que ele disse que Mozart morava em um palácio em Júpiter e trouxera de lá um fragmento de uma sonata? Galheb vai explicando com extrema paciência, tim-tim por tim-tim. Há um convincente tom sagrado no que fala, esse velho bebum que pouco se preocupa com higiene pessoal e fala o que lhe der na telha, sem mínimos pudores. A imortalidade explicaria muita coisa. Volto para casa encenando acreditar. Luto com a pergunta de que não merecemos algo assim, de que havendo colônias espirituais mais evoluídas elas deveriam, se nos amam, promover uma revolução para nos salvar da estupidez, nos salvar de sermos idiotas.

5 comentários:

  1. Ah, Charlles. Esse tipo de misoginia não lhe cai bem. Não que ela não tenha o seu charme. O misógino verdadeiro exerce extrema fascinação. Afinal, quem é esse que não tem o mínimo interesse em mim, que prefere a solitude à minha companhia, e assim por diante?
    Todos os seus sintomas não me enganam. Seu arremedo do deserto Pacômio no mato Goiano, a clausura, o anonimato, etc.
    Você é um colonizador, meu caro. Então as referências a colônias na lua e em Júpiter. Sua utopia não é a mesa dos monges medievais, o scriptorium, ou a caverna dos Pais do deserto. Sua utopia é aquela comunidade cujos princípios são aqueles os quais os filósofos antigos chamavam de vida contemplativa, a vida do espírito. Você é um Colombus do não-lugar do Espírito.

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    1. Venho me sentindo misógino nos últimos dias, Luiz. Não é tipo não. Fico impressionado que esse não seja um sentimento natural moderno. Talvez seja, com outro nome. Pressa cotidiana, desavença no trânsito. Esse texto ruim foi um fluxo de consciência.

      A vida do espírito! Venho combatendo o sarcasmo. A palavra escrita tem um peso mentiroso, né. Não me sinto depressivo nem suicida. Jamais me mataria por uma coisa dessas. Mas escrever sobre parece uma carta de despedida.

      Talvez seja questão de maior disciplina.

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  2. O texto não está ruim não. Pelo contrário. Está bem bom.
    Imaginei algum mal-estar por detrás do seu mood atual.
    Eu cá com o meu narcisismo de leitor às vezes imagino que você entra no blog, vê os acessos nossos, suspira, e diz para si mesmo, "vamos lá, eles querem mais um texto..."

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    1. Hahaha. Claro que não, Luiz. A coisa mais fácil é fechar um blog. Mantenho esse blog por prazer, e escrevo movido pelo mesmo sentimento. Estou passando sim por uma fase de auto-reavaliação na escrita e no meu modo de pensar. E o prazer é todo meu em ver as visualizações no blog de gente igual a você e os demais frequentadores. A literatura é uma das razões da minha vida, e esse blog é muito mais importante para mim do que você imagina. Essa negatividade é sim falta de disciplina pura e simplesmente.

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  3. Espontâneo foi vc. aqui meu camarada. E quando acontece isso, estamos com um bravo homem.
    Os frutos desses momentos são verdadeiros, diferentes daqueles que vêm empacotados e esterilizados( não vejo por aqui).
    Esse universo abordado, inclusive estando monge, é belíssimo e desafiador. Não se detenha e aproveite da sadia indignação que brota do espírito quando todo o mundo é desafiado.
    Caramba, Charlles por um ano em uma cela no novo monastério dos monges que pretendem vencer o mundo moderno plantando uvas e produzindo vinho. Sei não, mas acho recomendável sob o ponto de vistas dos previsíveis frutos literários. Após, espírito fortificado e livre para descobertas verdadeiramente interessantes, e mais frutos nobres e frescos.

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