sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Hooligans




Só fiquei conhecendo a Tatiana Feltrin e seus vídeos sobre livros hoje. Eu li um post do Caetano Galindo no blog da Companhia das Letras e vi nos comentários que a Tatiana havia causado certa polêmica com esse tradutor de Ulisses. Mas nos comentários não se falava no nome dela, nem sobre o motivo da controversa. Tive que procurar no Google, e demorei considerável tempo para achar as combinações corretas de palavras que dispusesse os algoritmos do buscador a buscar os links certos. Achei o vídeo e achei o blog da moça, Tiny Little Things. O que ela disse, o que despertou a alfinetada no texto de Galindo e os tantos xingamentos na caixa de comentário do pronunciamento dela, foi, aparentemente (até onde eu, um Jeca feliz e assumido da net pude ver), que ela preferia mais a tradução de Houaiss à tradução de Galindo. Depois ela lançou outro vídeo em que respondia os xingamentos, dizendo uma série de coisas interessantes (porque ia colocando mais lenha na fogueira), entre elas a de que Galindo tinha um ego enooorme para se ofender com aquilo, e que um tradutor não devia aparecer tanto na obra; que Ulisses era de James Joyce, não de Caetano Galindo; que uma boa tradução é aquela em que o leitor pouco fica sabendo sobre quem traduziu; que Houaiss era o melhor porque era filólogo, e por isso tal e tal...

De cara gostei da moça. Assisti a mais vídeos dela; fiquei horas à tarde nessa ocupação. Ela é uma máquina de leitura, e fala sobre livros como deveria se falar tendo-se em vista um meio exponencialmente propagador como a net: com a paixão da fofoca e com futebolismos. Seu vlog (é assim que se chama?) não é para debates profundos sobre literatura; se presta a ser mais como esses sites de "o que você está lendo", tais como o Skoob, em que se avalia o potencial de entretenimento de uma obra com a quantidade de estrelinhas_ como um caderno escolar com decalques de coração que se prega acima do cabeçalho da aula de Física. Nesse prisma, a Tatina é bem divertida, e uma arma importante para um país carente de leitores como o nosso. Só para ver o quanto ela sabe impregnar bem o livro com o fetiche da mercadoria desejável, em sua mala de viagens para as férias de dezembro ela levará Os miseráveis na bela edição da Cosac (e mostra as páginas do volume como um gourmet mostraria os detalhes de uma torta de framboesas), e algumas bijuterias livrescas que eu desconheço mas que eu pressenti sua força entre o público jovem. Mostra o Humano demasiado humano que uma espectadora do vlog lhe mandou, revirando-o como um delicioso saco de pães quentinhos, e diz que também vai na mala.

O Galindo eu já gosto desde que li sua tradução do Pynchon. Li sua tradução do Ulysses, mas acho que ele perde para a professora Bernardina. Não li a do Houaiss, apesar de ter passado toda a minha juventude na tentativa de fazê-lo. E discordo muito do que a Tatiana falou sobre o ego do Galindo. Não quanto ao tamanho dele, mas quanto à sua proibição de que um tradutor não pode ser alicerçado como ícone das letras. Galindo tem o ego inflado, e eu não vejo mal algum nisso, nesse país em que a boçalidade reina inconteste e o mérito é visto com suspeitas. Se o cara traduziu Ulysses, ele tem todo o direito de ficar calado em seu canto, assim como também sair cantando odes à felicidade aonde quer que vá. O ônus da chatice será dele, e eu não o acho chato, até onde o conheço. Há um contexto mais complexo, não percebido pela Tatiana, que justifica o reconhecimento em holofotes de um tradutor brasileiro. A Tatiana se limita a achar que se trata apenas de um truque mercadológico, mas a coisa vai além disso. O truque mercadológico é legítimo, não há mal algum nele. Se uma editora como a Companhia das Letras faz propaganda de seu pessoal da casa, ela age como empresa e nada mais saudável do que isso. Foi graças a essa atitude de marketing que Daniel Galera foi traduzido em não sei quantos países e ganhou importantes prêmios, que a biografia de Marighella também tenha arrebanhado tanto reconhecimento, e que exista, ainda que de forma discutível, um boom de escritores do sul brasileiro.

A questão não é essa. A questão é que o Brasil purgou anos com uma política editorial de péssimas traduções. Já falei disso aqui, sobre traduções de Dostoiévski. Não vou me alongar de novo nesse assunto (o propósito é um post rápido), mas em minha juventude, o que havia de acesso à alta literatura era algo lamentável, com traduções prostitutas de Kafka, Nietzsche, os grandes autores russos, Faulkner, etc_ quando havia traduções. De vinte anos para cá, ou pouco mais, que essa situação mudou radicalmente. E essa abertura, essa justiça aos leitores brasileiros, fez com que nomes como Paulo Henriques Britto, Paulo Bezerra, Rubens Figueiredo, Sérgio Molina, Eduardo Brandão e Modesto Carone se tornassem o equivalente a grifes no mundo literário nacional. Eu sempre procuro por esses nomes quando estou à procura de uma ótima tradução. Eles tem todo o direito_ e a honestidade_ de serem postos na capa dos livros que traduzem, para que se fique sabendo a qualidade do que se está adquirindo.

Outra coisa em que a Tatiana se engana: lá fora, em países com tradições editoriais mais avançadas, existe sim o tradutor como referência, às vezes seus nomes ficando em relevância equivalente ao do autor da obra. É só ler o ensaio de Borges sobre os tradutores das Mil e uma noites para ter uma real dimensão das idiossincrasias e da importância do tradutor para a consolidação da obra na cultura na qual chega na forma de uma tradução.

Eu vejo essas polêmicas com bons olhos. Que se fale o quanto mais possível de livros em um país em que o futebol é onipresente aonde quer que se vá e o que quer que se assista na tv e na net. Vou continuar assistindo aos vídeos da Tatiana e lendo as traduções do Galindo. Há uma parte no vídeo em que uma Tatiana que parece que vai chutar o balde ao responder a seus detratores faz uma pausa antes de concluir a frase "eu quero que vocês vão...". Fiquei em uma expectativa esfuziante, que se quebrou quando ela terminou a frase com "ler Ulisses antes de virem aqui escreverem tais xingamentos". Respirei um pouco decepcionado. Não será agora que teremos hooligans da literatura.

P.S.: assisti agora o vídeo "resenha" da Tatiana Feltrin sobre o Ulisses. Ela incorre em um sem número de lugares comuns e, fica evidente, ela pegou mesmo uma zinca contra o Galindo. E exagera na informalidade à lá revista Capricho ao tratar de Joyce, ao definir que Ulisses "é um pé na jaca", seja o que queira dizer isso. E ela parece certa demais que fala a um público pouco exigente ao criar informações improcedentes, como essa de que é unânime de que a tradução de Houaiss é a melhor. Não existe essa unanimidade: à época do lançamento da tradução da professora Bernardina, parte considerável das críticas apontou a tradução dela como superior à do Houaiss. E bate na tecla de que Ulisses não é um livro fluido, de difícil leitura, etc. Ao tentar, com cara séria de quem acabou de enfrentar um pit-bull e sair ilesa, dizer que Ulisses é "um objeto para ser lido como qualquer outro, um livro com orelhas e capa", acaba inferindo na tautologia cansativa de sacralizar o romanção de Joyce em tudo em que ele é visto pejorativamente. Mas tá valendo: literatura como show business.

49 comentários:

  1. Já conhecia esse canal da Tatiana. Mas de uns tempos pra cá, pra mim, a graça se esvaiu. Sei lá, muito comércio, e, confesso, temo esses vendilhões do templo. Realmente, ela é uma máquina de leitura, aí reside outro problema. Quantidade não é qualidade, rumino cá comigo o velho chiclete/clichê.
    Sou fã incondicional de Joyce. Tenho as três edições brasileiras. As duas mais recentes inclusive no meu Kindle. E gosto de ler Ulisses em voz alta. Por isso deixo aqui a minha humilde opinião: o trabalho da professora Bernardina é o melhor, depois vem o do Galindo.

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    1. É o tipo de coisa em que a graça se esvai rapidamente mesmo. Vi um vídeo dela em que ela fala sobre os 5o tons de cinza, tendo ela passado pelo martírio de ler toda a trilogia. Isso já é leitura sadomasoquista, e não por causa do tema da trilogia.

      Eu tinhas as três edições, mas dei a do Houaiss para um amigo. Discordei de tudo que a Tatiana falou sobre Ulisses. Ele é sim um livro divertido e fluido.

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  2. aproveito a ocasião para agradecer a indicação de Breaking Bad. Meo Deus! O que é aquilo? Estou indo devagar, pequenas doses, pra não acabar logo, mas já estou na 3ª temporada, e lá adiante visualizo a ratoeira para dentro da qual vou correndo...

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  3. Cheguei a pensar que um dia falarias sobre vlogs literários, mas esse dia estaria ainda distante. Errei. Outro vlog:

    http://www.youtube.com/watch?v=hmGI2SKDQd8

    A moca levara Os miseraveis, e eu trouxe Luz em Agosto (hipnotico, estou na metade), Sabbath e Coracao das Trevas, e puto da cara por ter trocado na ultima hora esse ultimo pelo Montanha Magica (queria le-lo aqui por viadagem literaria e mistica).

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    1. Virou moda entre as moças? Estou pensando em fechar isso aqui e fazer um vlog também. (Brincadeira.)

      Ler Montanha mágica na Alemanha é um fetiche interessante. Melhor seria se o seu tour comporta uma passagem pela Suíça.

      Aproveita bastante aí.

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    2. Assisti mais esse vídeo da Tatiana e achei ótimo. Sua defesa do direito de qualquer um falar sobre livro é muito contundente. Só falha um pouco ao dizer que o Foster Wallace ficou famoso com o suicídio; ele já era uma promessa se cumprindo em vida.

      E tenho quase certeza que a lombada azul do livro que está à direita dela, deitado, é o Arco-Íris da Gravidade.

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    3. Pô, o link do vídeo:

      http://www.youtube.com/watch?v=YrOGE_DVJHM

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    4. Prometo encerrar esse assunto, só um adendo. Vi o vídeo da Tatiana sobre 1984, o romance de Orwell. Para contrabalançar meus elogios sobre a iniciativa dela, suas opiniões sobre 1984 são constrangedoras. Errou sobre data e sobre personagens, e foi da profundidade de uma poça de leite derramado.

      Chega disso.

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  4. Olá Charlles, eu conheço o canal da Tatiana desde o meio do ano talvez. É verdade que ela não é uma critica literária (Quem espera isso no YouTube?), mas ela faz um trabalho bacana, principalmente de incentivo à leitura pros iniciantes. Como vc disse, num país de pouco cultura literária, eu acho a atitude dela louvável.

    Obs:E então, quando teremos uma "bookshelf tour" (parece que esse é o nome) do Charlles, hã??? kkkkk - Calma....brincadeirinha...

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    1. Concordo, Diego. Acho a Tatiana bem simpática. É claro que passível de crítica, ainda que fazer uma crítica pesada sobre o que ela diz é um disparate, já que o propósito dela não é ser crítica literária. Só penso que em países de leitores mais avançados, ela teria que medir o que diz e certificar fontes. Mas o Brasil... Acho o serviço dela válido.

      Bookshelf tour? Não sei o que é isso. Acho que se eu fosse me lançar na seara do vlog, não teria para ninguém. Seria sucesso imediato, milhões de acesso e uma vaga no BBB ou na Fazenda. Imagine um cara com jeitão de louco, com barba, meio-gago, falando sobre literatura para as massas. Cara, seria sensacional. Pena que minha moral e meu objetivo seja completamente outro. Uma lastimável pena!

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    2. a Cia das Letras e o Istitututoto dos Gagos do Brasil-sil! deveriam patrocinar isso.
      Charlles, tu já foi mais cara de pau e sem vergonha.

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    3. Hahahaha. Isso não é falta de permissividade, arbo.

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    4. Para quequem titinha prog (...) pro (...) gggrama de rá-á-dio...

      Poderíamos fazer. Meia hora só para nossas apresentacoes haha.

      Ainda nao acordei em panico sem condicoes de mandar um simples guten tag huasuahuahs MAS ESSE DIA VIRÁ, EU SEI, QUE TERROR SAINT PPPAULI

      Quatro horas da tarde e estara tudo escuro, que barbaridade essa europa falida de louros de olhos azuis Lulululalala estava certo saudade da gente morena sol saias e seios (e decotes)

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    5. Fez a peregrinação liberal até a casa da Angela Merkel?
      Estou levando o História do Olho no Kindle para as minhas curtas férias.

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    6. Ainda nao fiz a peregrinacao conservadora a Merkelhause, mas ja vi umas muculmanas tapadas so com os olhos de fora e fiquei BEGE menina!!!

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  5. Aí, Charlles,

    Breaking bad já deu filhote...

    http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/12/1386249-serie-derivada-de-breaking-bad-sera-transmitida-pela-netflix.shtml

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    1. Rapaz, o Saul Goodman é um de meus personagens preferidos na série.

      Não sei se você viu, mas o México está produzindo uma versão de Breaking Bad.

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    2. que tal?

      http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2013/12/homem-chamado-walter-white-foi-preso-nos-estados-unidos-por-traficar-metanfetamina-4368381.html

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  6. João Antonio Guerra20 de dezembro de 2013 18:38

    Já provoquei que escreveria aqui sobre uma palestra que Galindo e Rubens Figueiredo deram lá na Letras da Ufrj. Empurrei com a barriga ao ponto de ficar obsceno, mas agora cumpro um pouco da promessa:

    Era uma semana todinha de encontro com escritores, mesas sobre esse e aquele assunto; a dos dois estava marcada para as 18h e uns trocados, e eu e uma amiga jantamos rápido para arranjar bons lugares na plateia. Arrumamos assentos quase no colo dos palestrantes (no fim das contas, nos enganamos: plateia pouca, e pouco entusiasmada) e, deixando que a guria guardasse as mochilas, fui escovar os dentes. Escovo, e eis que encontro Galindo no banheiro, ele magrelo que nem eu, entrando enquanto eu ainda tinha a boca cheia de espuma; prontamente fui apertar sua mão e agradecer muito muito muito por James Joyce & por Pynchon & pela vovòzinha & por me ensinar que o acento grave, antes da reforma de 1971 era usado para registar o timbre aberto de uma vogal quando da formação de um derivado, como cafèzinho (e vovòzinha) & declarar que eu te admiro muitíssimo, Galindo, acredite em mim, apesar de eu estar literalmente babando em cima do senhor.

    O tema da mesa era tradução -- provavelmente estava sob algum título vergonhosamente ruim que fizesse uso de dois-pontos ou travessão ou ambos, dando orgulho aos corações dos doutores do prédio --, e os dois logo de cara disseram que não estavam ali para falar de Ulysses ou Guerra e Paz, mas foi inevitável. Galindo trouxe para a mesa There but for the, o livro da Ali Smith que estava terminando de traduzir, e que tem esse título estranho mesmo, fazendo referência a um trecho bíblico que qualquer falante da língua inglesa consegue reconhecer, "There but for the grace of God"*; vinte minutos palestra adentro, porém, e o assunto já era Ulysses e Guerra e Paz.

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    1. João Antonio Guerra20 de dezembro de 2013 18:39

      A primeiríssima coisa que Galindo fez foi deixar bem explicadinho que a briguinha entre as três traduções não é muito inteligente. Fez questão de contar que a tradução do Houaiss, embora muito criticada, foi um feito sobre-humano, considerando as condições em que o Houaiss se encontrava, o prazo absurdamente pequeno dado pra ele. Ele agradeceu muito ao Houaiss e à Bernardina, que, entre outras coisas, deram um espaço bem amplo para que ele trabalhasse, já que cada um dos dois se plantou num extremo: Houaiss no eruditão, Bernardina no povão.

      Portanto, essas briguinhas sobre qual dos três tradutores tem o pau maior (voto na Bernardina) são um passatempo mais dos ociosos de internet ou cátedra (não faz diferença: são sempre todos uns vaidosos) do que de quem realmente se encantou com James Joyce. A menina do vlog fez sua parte quando estranhou todo aquele tesão da crítica quanto ao Galindo, mas a partir daí foi tudo muito cagado.

      Ela diz que o bom tradutor é aquele que não aparece no texto, e ao mesmo tempo que seu favorito é o Houaiss. Primeiro: isso me soa tão impossível quanto jornalismo neutro; segundo: pegando o Ulysses do Houaiss, a primeira coisa que lembro é que a última palavra da tradução é um estranho "Sims", ao invés do simples "Sim" que a Bernardina e o Galindo chuparam do simples "Yes" original.

      Um momento marcante da fala do Rubens Figueiredo foi a resposta dele à pergunta da minha amiga na plateia, sobre se traduzir poesia era mais difícil. Na mesma hora, o Rubens pegou o livro da Ali Smith da mesa e disso Mas isso aqui é poesia!, não faz tanta tanta diferença assim, vai de autor pra autor. O Galindo logo emendou com uma passagem daquele mesmo There but for the (aqui estou dizendo sem ter certeza se foi mesmo desse livro, mas sei que foi sim de um livro da Ali Smith), em que uma das personagem faz uma piada, algo como How can you send a letter to the North Pole? Through norse code. Contou que não tinha ideia de como traduziria aquele trocadilho entre morse e norse, mas que, entrando em contato com a escritora, ficou sabendo que o necessário era apenas HAVER um trocadilho envolvendo o polo norte ali; daí, o resultado: Como é que se manda um telegrama prum pinguim? Por código morsa. Num trabalho de tradução assim, como continuar com a teima escrota de que o tradutor não pode existir?

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    2. João Antonio Guerra20 de dezembro de 2013 18:40

      Pra mim, só falar de livros não se segura, nem aqui nem lá fora. Pega um site conceituado como o TheMillions, Charlles, e vê se a crítica que se faz não tá no mesmo nível da guria, ou seja, na segurança da propaganda, que só nada no rasinho; o mesmo para sites mais pop como o BookRiot (de onde chuparam o também vergonhoso Literatortura) ou Flavorwire. É o mesmo nível, só diferindo no fato de que esses ianques são endinheirados, enquanto a menina não. Eu sigo esses sites há muito tempo, leio seus livros depois de caçar versões pirateadas na internet e baixar todas elas pro meu kindle, e pouquíssimas vezes verifico que a coisa é verdadeira (este ano descobri duas mulheres maravilhosas, Donna Tartt e Jesmyn Ward) e não puro hype publicitário.

      Ser tupiniquim não deveria dar à coisa a desculpa de ser pequena, muito menos mesquinha. Essa semana inteirinha passei triste, que meu contrato de estágio no município atingiu o prazo máximo de dois anos sexta passada. Perdi meus alunos, foi um chororô fodido. Você já transformou em postagem um comentário meu em que eu contava sobre esses alunos e o interesse deles nas minhas leituras. Eu tinha o hábito de ler para eles toda segunda feira, quando subíamos para a biblioteca da escola. Eles insistiam que eu lesse sempre o livro que estava carregando, e eu acatava. Na última segunda, li um pouco do julgamento de Máslova, lá no Ressureição de Tolstói. Expliquei o caso entre ela e Nekhliúdov e comecei a ler a partir do auto de acusação do capítulo dez; no onze, há exatamente este trecho:

      "(...) O senhor admite ser culpado? - perguntou e inclinou-se para a direita.
      - Não pode ser, de maneira alguma, porque nosso trabalho é servir os hóspedes...
      - Depois o senhor vai explicar. Admite ser culpado?
      - Não, de maneira alguma. Eu apenas...
      - Depois o senhor vai explicar. Admite ser culpado? - repetiu o presidente, com calma, mas com firmeza.
      - Não posso fazer isso, porque...
      De novo, o oficial de justiça aproximou-se bruscamente de Simon Kartínkin e o deteve com um sussurro em tom trágico."

      Quando eu passei por esse trecho, uma aluna comentou que era assim mesmo. Mas assim mesmo o quê, dona Odete?, eu perguntei. E aí ela me apontou uma coisa incrível: eles não queriam que o camponês Kartínkin respondesse se era culpado ou não, pois Kartínkin responde que não várias vezes; o que é exigido dele ali não é a resposta, mas a submissão ao processo, é ele responder no formato que eles querem. Porque assim ele joga na regra deles, João. Porque é assim que eles fazem, João.

      Isso tudo duma senhoria duns setenta anos, que só frequenta o turno noturno da Educação de Jovens e Adultos porque a neta dela, também aluna, tem complicações mentais e não podia ir e voltar de ônibus sozinha; uma senhorinha que lê devagar e devagar, uma palavra de cada vez, e que enche os olhos d'água emperrando nos exercícios de matemática, que detesta; para quem ninguém daria um nada, mas que, se duvidar, se encantou mais com Tolstói do que eu. Eu exijo sempre esse encantamento com poesia, não porque eu sou exigente, mas porque ele pousa no dedo de qualquer um. E também porque eu sou chato pra caralho.

      * - Essa coisa do título quebrado ser automaticamente consertado pelo leitor tem tudo a ver com a Ali Smith, que é obcecada por malabares.

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    3. João Antonio Guerra20 de dezembro de 2013 18:41

      Ficou grande demais, tive que quebrar em três partes. Agora, botando uma cereja no bolo, Charlles: http://flavorwire.files.wordpress.com/2013/12/111.jpg

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    4. Não vou te elogiar, João. Comentário com grandeza literária e tudo...

      Não sei se você viu a discussão entre o Ssó e eu lá no blog do Milton, em que ele acusa o Molina (que eu admiro bastante, tradutor da melhor e insuperável tradução do Quixote aqui no Brasil), de cometer um erro preguiçoso que, na minha visão, foi um acerto preguiçoso (e acabou que o Ramiro é quem deu a tradução espetacular para a frase do suposto erro do Molina). Pois bem; se você leu a edição da extinta EntreLivros que trata desde a capa da tradução da Bernardina para Ulisses, se lembrará das tantas gafes e incorreções do Houaiss desencavados nesta revista e numa matéria da revista Veja. Claro que o tradutor é fundamental e tem o direito de ser uma grife. Defendo isso, e mais não falo porque está aí no post.

      Suas aulas devem ser fantásticas, cara; como ainda não acredito que você tenha 21 anos, mas você insiste em dizer isso (brincadeira minha), não poderia eu dizer que gostaria de ter um professor assim, mas é um caminho de uma mente esclarecida e de um comportamento cordial e humano em que direciono os meus filhos.

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    5. E eu estava procurando uma foto sensacional para colocar no blog no dia do natal. Obrigado!

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    6. João Antonio Guerra20 de dezembro de 2013 21:39

      Muitíssimo obrigado, Charlles.

      Li lá no Milton a tal postagem. Há tempos não vou lá, que o Sul21 tem muita palhaçada; a gota d'água foi um ataque que deram por causa dos poemas do Ramiro. A exceção pra mim é o pqpbach, que visito todo santo dia, principalmente por causa do bisnaga.

      De início não achei a postagem. Passei por uma sobre Matisse desenhando Uysses, mas não era lá; logo abaixo, um post babão sobre namoradinhas, que pulei sem nem suspeitar que era ali a porradaria; mais abaixo, cravo (e bom cravo!), uma versão glorificada de um álbum de fotos do Facebook, Phes*, etc.

      Tu e o Ramiro são ótimos: junto com o Ssó, transformaram aquele textinho em algo verdadeiramente bom.

      Já tinha visto a Vanessa Bárbara pedindo arrego no New York Times. O que realmente me incomodou foi isto: "(...) writing is seen as about as useful and profitable (...)"

      Meu amado Manoel de Barros fez aniversário ontem, 97 aninhos. Fico imaginando a risadinha do meu velho, poeta do inutensílio, se soubesse que o desejo duns poetas aí é ser útil e endinheirado - na verdade dá pra rever essa risada aqui neste vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=56Lsyci_gwg

      O resto do arrego da Bárbara dá uma discussão longa longa longa. Tem sim seus méritos quando fala da situação de professores, filósofos, jornalistas, etc. O problema é quando fala de poetas. Poesia é pra ser difícil, sempre; se for fácil, fodeu, tem alguma coisa errada. É só ver a produção literária americana recente, onde Franzen escreve um livro de merda como aquele Freedom e o Times declara aquele lixo o livro do século (em 2010!).

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    7. João Antonio Guerra20 de dezembro de 2013 21:45

      * - E uma edição extra escrota do Phes: pegou um filme lindo e transformou em mais material de punheta, como se lésbicas já não fossem fetichizadas o suficiente na pornografia, no cinema, na propaganda, mochilas de crianças, caixas de leite, pacotes de biscoito, etc.

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    8. João Antonio Guerra20 de dezembro de 2013 21:50

      Errata ramiresca: esqueci de avisar que a risada do Manoel está nos 23:25 do vídeo.

      Aliás, ela é muito boa pra entender o Manoel. O vídeo que passei é um documentário sobre a visão na arte. O Manoel aparece ali e destrói toda a proposta do documentário da maneira mais simples possível. Faulkner faria a mesma coisa, ele que dizia que a experiência é muito mais do que o fato feito e acontecido e registrado, indo desde aquilo que se sente e se esvai pelos dedos até aquilo que se inventa e matuta e que nos consome.

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    9. João Antonio Guerra20 de dezembro de 2013 21:53

      Pra falar de Faulkner e essa coisa de experiência, lembrei deste link aqui: http://faulkner.lib.virginia.edu/display/wfaudio21

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    10. O blog do Milton me parece cada vez mais um prosseguimento descuidado do Facebook, e ele não anda se importando muito com a coisa não. Pena.

      Já fui professor durante muitos anos, João. Dei aula de tudo, matemática, física, história, artes, filosofia, e até ensino religioso. Também fazia as minhas extravagâncias, como mostrar os Beatles, John Coltrane e músicos minimalistas para uma sala de alunos profundamente assustados. Não me aventurava a ler alta literatura para eles (os seus alunos são da EJA, não são?, mais velhos e mais propícios a se deixarem deslumbrar; os meus pouquíssimos se deslumbravam com coisas fora de seus opressivos ambientes musicais e televisivos). Já participei por dois anos de um projeto solidário aqui na minha cidade, feito por amigos meus, que consistia em um cursinho pré-vestibular a dez reais a mensalidade (valor suficiente para cobrir as despesas com água, luz e energia), e dei aula de redação paras as turmas, redação e interpretação de texto. Mas a sala de aula já não é mais para mim, e o que me desmotivou de todo não foi nem o ensino público, mas o colégio particular que me pagava bem e tinha alunos da assim chamada elite da cidade. Acho que já escrevi sobre isso aqui. Percebi que iria entrar em pane se continuasse falando para pessoas narcotizadas pelo cotidiano pressupostamente eterno da juventude, distraídos da distração pela distração, como dizia o Eliot. A questão fundamental, política, econômica, social, do Brasil é a educação. É algo tão sério, que chegou a um nível em que se deveria acionar as instituições de direitos humanos internacionais. Daqui a décadas, se o mundo obtiver uma auto-consciência reavaliativa, isso será visto como um crime impiedoso que acontecia cronicamente nesse país durante muitos e muitos anos. Isso é o que mais me preocupa, os tantos mutilados mentais e espirituais que as instituições do poder produzem por ano para manter o equilíbrio entre a percentagem mínima de endinheirados e a multidão de despossuídos. E são tão eficazes nisso que eu não te culparia se estiver aí pensando o quanto isso pode ser um clichê da minha parte.

      Vou ver o documentário sobre o Manoel. Obrigado.

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    11. Errata ramiresca: é claro que os 10 reais era para água, luz e aluguel.

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    12. João Antonio Guerra21 de dezembro de 2013 18:39

      Dos estudantes dopados pela mistura da própria preguiça mais a dos outros, é só eu olhar para os da Ufrj. Mas uma situação pior ainda é a que sinto quando observo os professores. Abra sua Piauí na seção de poesia, e veja lá o nome de Eucanaã Ferraz, poeta premiado e professor de literatura brasileira. São poemas sobre poetas soterrados, eles escritos por um poeta professor que, num episódio de empáfia e fúria totalmente despropositada, disse que seus alunos tinham o privilégio de falar a língua de Drummond mas não liam Drummond - nesse episódio, provavelmente retornou com calma à sua aulinha, que é apenas a velha longa lenga lenga longa de esterilizar poetas com pedestais, a papagaiagem das mesmas apostilas do tempo em que ainda se datilografava. A avaliação dele era um calhamaço com vários poemas espedaçados, e cada pedacinho pedindo dez linhas de análise literária; era uma prova de resistência e memorização das análises que ele próprio fez em sala, nada longe do que qualquer criatura cansada consegue fazer.

      E ainda assim, toma pra si o direito a cantar os ofendidos e esquecidos, ele mesmo que só ofende e ignora. Fica tudo mais engraçado com a edição que a Piauí fez, seguindo o tema do sítio arqueológico, mostrando acidentalmente que aquilo e mera emulação de dor: quem editou aquelas páginas pôs na primeira uma caveira e, por preguiça de arranjar outra para a segunda página, apenas inverteu a primeira num programa de edição, confiante de que mais uma vez os leitores deixariam passar.

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    13. João Antonio Guerra21 de dezembro de 2013 19:56

      Numa conversa qualquer com uma professora, ela fez uma observação sobre o pouco que eu leio de escritoras. Uma observação feita só a partir dos livros que eu levo no sovaco pra faculdade, sem nem suspeitar que Emily Dickinson é uma das minhas favoritas, ou que eu dou sangue por Clarice Lispector em toda oportunidade que aparecer. Eu comecei a listar as escritoras que gosto; a certa altura, resolvi brincar:

      - E a Evelyn Waugh também é outra querida.

      A reação? O mesmo sobe e desce da cabeça, um elogio genérico do mesmo nível dos anteriores. Tadinho do Evelyn Waugh...

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    14. João Antonio Guerra21 de dezembro de 2013 20:01

      É duro, e há até quem se horrorize, mas sempre digo que foi essa minha experiência maravilhosa como estagiário daquelas pessoas que matou e enterrou toda a minha fé na educação.

      É complicado e eu mesmo ainda não parei pra organizar a coisa (afinal, acabei de terminar esse estágio). Mas dia desses conto aqui. Concordo com cada palavrinha sua nesse assunto.

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    15. Aguardo o relato de sua experiências, João. (Eucanaã é um nome onipresente; vejo-o em muitos lugares diferentes. Não li seus poemas na Piauí, vou conferir.)

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  7. Bah, mas o velho bardo também gosta do cascalho, ah, se gosta...

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  8. Charlles, esse mês li Santa Evita (como você adorou Soldados de Salamina, recomendo; é muito divertido). Quando estava ali pela metade me lembrei: "ah, esses dias o Ssó comentou que tinha algo tosco nessa tradução. Se eu achar algo digno de nota vou marcar aqui." Passei batido. Aquilo da vaca boba é uma ninharia. Achei o julgamento a Molina muito severo, assim por tão pouco.

    Por outro lado, como sempre digo aqui, acho que você deveria dar uma chance a alguns livros brasileiros (pra não fugir do debate lá). Penso que, assim como a monomania de Ssó com a vaca boba, você concentrou demais sua mira em bergamotas, cowboys e patins, e colocou no mesmo bolo antropólogos suicidas, irmãos do norte e trovas claras, estes que merecem mais atenção.

    E estamos focados demais nos lançamentos e opiniões do povo da Companhia. Isso pode ser um problema. Às vezes esquecemos de olhar para outras editoras, pra gente diferente. (Naquela avalanche polimórfica de livros da Record mesmo, achei umas edições miraculosas: quem diria, por exemplo, que temos Wilkie Collins traduzido por aqui?)

    Agora produção contemporânea respeitável mesmo está nos quadrinhos. Estou besta com a qualidade das edições independentes, com o sucesso internacional de trabalhos autorais (Daytripper em especial), com a dedicação dos leitores e dos autores em fazer um trabalho bem feito. Parecem estar resolvendo todos esses problemas de mercado. (ou talvez Kavalier & Clay tenha me deixado empolgado demais!)

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    1. Paulo, como disse lá, meu ataque à literatura brasileira é contra A literatura brasileira institucional, e contra a ortodoxia de usá-la como inspiração para novos escritores. Acho fundamental para um escritor ir contra a literatura que se produz em seu país. Isso é prova de que se apega à qualidade da literatura sem pátria, e não a ufanismos tolos. Como eu disse, tem-se que acabar com a "literatura brasileira", e criar algo novo no lugar dela. Eu sempre estou disposto a ler e leio literatura escrita aqui, que seja no nível das minhas expectativas (sendo isso sapiência ou não). Onde estão os realmente novos escritores nacionais?

      Acho que eu falo mais de livros de outras editoras do que eu falo da Cia, Paulo. Um dos meus posts mais lidos é o do Vargas, A Civilização do Espetáculo, e tem mais outras resenhas sobre Vargas por aqui. Tem o Beckett da Cosac, o Houellebecq de não sei qual editora, a biografia do Tolstói, etc. A Cia aparece por aqui não por patrocínio, mas por que ela tem um catálogo mais amplo e melhor que outras editoras, e os lançamentos que ora ou outra eles me mandam, são escolhidos por mim, sem risco de que eles imponham algum tipo de leitura para mim por mera obrigação promocional. E, se você prestar atenção, há alguns títulos da Cia aqui em que eu sento o sarrafo, como os do McEwan (que faz muito tempo que não lança algo bom), entre outros.

      Interessante sobre os quadrinhos. Vou atrás, estou meio que distante das novidades nesse campo.

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    2. Esses dias li o primeiro capítulo do livro dos cowboys da Bensimon, na Livraria Saraiva. Ela tem um estilo notável, e escreve muito melhor que o Galera. Dá pra ver que ela bebe muito do Eugenides. Mas estilo não é tudo. Uma garotinha insegura querendo dançar como uma mulher cheia de experiência e sabedoria. Falta a sabedoria para a Bensimon, ou a dor necessária para mostrar que está no caminho. Vê-se que ela se deslumbra demais com as músicas que ela evoca em sua escrita, mostrando ser uma boa aprendiz.

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    3. Eu também sou contra esse negócio (coisa de livrarias) de colocar tudo junto lá em "literatura nacional", como se Sérgio Sant'anna, Raduan Nassar e Joaquim Manuel de Macedo estivessem muito próximos. O mesmo para o "cinema nacional". Eu não consigo descobrir um autor brasileiro em livrarias, porque é um saco dar uma olhada numa estante em que tem tudo misturado. Pode ver que os estrangeiros estão bem separadinhos; praticamente os colocam em nossas mãos. Literatura nacional não deveria ser gênero ou categoria.

      Talvez não tenha ficado claro, mas quando disse que estamos focados demais na Cia, me referi a todos nós leitores brasileiros que fomos além de Dan Brown. Conheço muita gente, quase todo mundo, na verdade, que olha com mais atenção um livro completamente desconhecido apenas porque tem o selo da Cia. Claro que a editora faz por merecer tanto prestígio. É o melhor catálogo do Brasil. A questão é só que tanto brilho às vezes ofusca outras coisas que possam vir a ser interessantes. Um exemplo bom é o do próprio Eugenides. Minha irmã comprou a edição da L&PM d'As Virgens Suicidas da Rocco há anos, mas só me interessei quando saiu a nova tradução da Companhia. E assim com Sebald, Marias e muitos outros. E assim com muitos leitores. Claro que é bom que ao menos a Cia compra os direitos de grandes livros que passaram batido quando publicados por outras editoras; mas e o que eles não reeditam? E o que de bom (possivelmente) estamos perdendo agora? Você entende o que eu quero dizer?

      Você critica esses escritores que reclamam da vida apesar de estarem nas melhores editoras do país, com toda assistência possível, de receberem pra traduzir literatura, de escreverem para revistas de circulação nacional, de ganharem uma boa grana pra discursar em festas e eventos, ou seja, numa posição relativamente confortável, invejada por muitíssimos outros; e eu também sempre me perguntei porque muitos deles ainda reclamam, enquanto pra ganhar meus trocados por fora eu tenho que traduzir artigos científicos de áreas que não entendo nada, quase sempre intragáveis (nos melhores meses). Mas acabei de me ligar numa coisa lendo o texto da Vanessa Bárbara (cujas crônicas são excelentes). Eles reclamam porque se baseiam numa carreira de escritor americano. Claro, você está vivendo numa espécie de paraíso, escrevendo e traduzindo com um sorriso na cara na sala de um prédio que, especificamente, é um dos centros culturais de seu país; ali você tem tudo na mão, até que você se depara com o opulente estilo de vida de seus semelhantes, no mercado mais poderoso do mundo. Realmente, pensar assim deixa tudo muito mais difícil, não é?

      Rapaz, de quadrinhos recomendo de verdade o Daytripper. E a história sobre as vidas e as mortes de um escritor de obituários. Uma coisa terna, bonita de verdade. Muita gente diz que é o melhor da produção nacional recente, e a grande ironia é que saiu primeiro nos EUA, em inglês. Mas independentemente disso, é uma obra tocante.

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  9. Terminando Luz em Agosto e me aparece o Faulkner de gorrinho? s2

    Happy Holidays a todos!

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  10. ESCREVE/TRADUZIR
    by Ramiro Conceição
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    Antes de qualquer palavra, gostaria de dizer que me sinto um pouco sem jeito, pois sou comentarista dos dois blogs mencionados. Bem, especificamente, quanto à minha sugestão de tradução da expressão “la vaca de la boda”, gostaria de deixar claro algumas coisas:
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    i) primeira: ela só foi possível depois da contradição fomentada pelo Charlles, um extraterreste que mora no interior de Goiás, e pelo Ssó, um dos tradutores do Quixote para o português;
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    ii) segunda: ela só foi possível depois do Ssó esclarecer que “la vaca de la boda” era uma festa medieval semelhante à nossa, da “farra do boi”;
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    iii) terceira: de fato, o Ssó estava com a razão, pois, sem qualquer dúvida, havia uma cacofonia em “como uma vaca boba”, pois a conjunção “como” é traiçoeira em muitas expressões pertencentes ao português falado no Brasil; por outro lado, nem tanto naquele de Portugal;
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    iv) quarta: portanto, a eliminação da referida conjunção era necessário, mas restava o substantivo “vaca”: esse era o entrave de tudo! Pensei inicialmente em bezerra, porém, para mim, existem palavras que são engraçadas por si, e “bezerra” é uma delas. Então fui atrás de um sinônimo: ah!... “novilha”! Era a solução, pois dava ritmo a “a luz oscila…”. Pronto, foi só anexar a informação do Ssó – um bichinho, diante de imbecis humanos, assustado: “a luz oscila entre o cinza, o púrpura e o laranja qual uma novilha com medo”;
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    v) quinta: o ato de escrever – ou de traduzir - é essencialmente de humildade…

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  11. errata: é óbvio, catralhos!, que o título é: ESCREVER/TRADUZIR

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    1. O Ssó erra por desqualificar o excelente trabalho do Molina por causa de algo irrisório. Mas a sua solução ficou ótima, Ramiro.

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    2. Bem, Charlles,
      sobre isso aí,
      sobre o Ssó
      e o Molina:
      NÃO TENHO
      PEDIGREE.

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  12. POEMA TESTAMENTO
    by Ramiro Conceição
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    Não meti nenhuma bala no coração
    pra entrar pra história; ao contrário,
    fiz poesia pra viver na humanidade.

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  13. O Joyce deve se revirar no túmulo quando entra no youtube...

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