terça-feira, 11 de junho de 2013

Uma leitura sofisticada



Leio na revista Piauí de junho um artigo sobre a médica Virgínia Soares de Souza, intitulado A Doutora. É assinado pela Daniela Pinheiro (sua assinatura é marca incontestável de um texto instigante e excepcionalmente bem escrito). A médica é aquela mesma que é personagem principal de denúncias de antecipação da morte de pacientes da UTI de um hospital de Curitiba, que ocupou os principais noticiários escritos e televisivos e ganhou a alcunha de "doutora Morte". O caso é recente e faz parte ainda da memória policial do país pelo que apresenta de grotesco e terrível. A médica ficou presa por um mês ou dois, durante a enxurrada de enfermeiros, sobreviventes da UTI e parentes de pacientes mortos que alegaram que ela chefiava um esquema de eutanásia em massa por vários anos na instituição. Agora em liberdade, esperando o andamento das investigações, a dita doutora apresentou seu lado da história para a jornalista. Com o adendo proveitoso das primeiras mea culpas da polícia responsável pela apuração do suposto crime, como a da retificação de que uma das palavras ouvidas nas tantas conversas telefônicas interceptadas entre a médica e seus subalternos não era "vamos assassinar", mas "vamos trabalhar", a médica constrói uma versão que, tida como certa, fará parte dos anais da história jurídica nacional como a maior injustiça cometida contra uma médica no Brasil. Ajudada pela perícia do texto de Daniela Pinheiro, o leitor é confrontado com a hipótese bem documentada de que a médica Virgínia Soares é alvo de um complô, talvez não de todo voluntário, de subalternos inconformados com a sucessão de maus tratos e assédio moral que a médica quase acintosamente admite ter cometido devido à sua personalidade decidida e seu profissionalismo ímpar. Aqui está a parte melhor e mais sintomática da eficiência da Daniela Pinheiro: a jornalista é um ás da parcialidade velada, disfarçada astutamente de imparcialidade. Seu texto, se fosse uma simples peça paga de defesa (tudo é possível no jornalismo pátrio, incluso aqui a distinta e elitizada revista Piauí), já teria todos os elementos do convencimento circunstancial pelo que apresenta de pontos duvidosos nas investigações que beneficiam a absolvição da acusada, mas o texto da Daniela é inteligente demais para se restringir apenas a essa interpretação.

Daniela retrata a médica como as outras pessoas, quase de forma unânime, a vêem: arrogante, racista, preconceituosa, prepotente, mau-educada, feia, esnobe, insociável. O leitor, na parte inicial do ensaio, é levado a crer que a doutora é isso que a mídia apresentou mesmo: uma assassina fria, desalmada, cuja indiferença estampada em sua figura de olheiras e cabelos curtos se encaixa à perfeição com o que o imaginário dos filmes de terror tem por uma sociopata. Daniela apresenta a voz das vítimas e das testemunhas, para, assim que transcorrido a primeira metade do texto, ir decantando-as diligentemente. Daniela, se fôssemos cair na comparação com a famigerada frase de Nietzsche de que, quando olhamos para o abismo, o abismo também nos olha, parece que se deixou seduzir pela observação direta com o alvo da matéria, daí que por detrás de suas palavras, há um arzinho indisfarçável de arrogância e admiração pela empáfia de ser superior que a médica Virgínia parece ter. A médica é descrita com uma isenção eloquente não só quando solta suas frases racistas de que "só podia ser preto mesmo", "pobre é uma desgraça mesmo", ou de que não suporta se parecer com pobre, ou dos tantos xingamentos com que martiriza as enfermeiras que trabalham com ela, ou de seu costume de trabalhar na UTI vestida com um casaco fino de peles (meio rico para cultivo de bactérias, como declarou uma das funcionárias), mas também quando a médica, presa, tem que passar pelos ritos penitenciários de costume de se agachar na revista ("fazer a dancinha da garrafa", no humor tosco da médica), em que Daniela escreve que a médica teve que tratar a carcereira de "Sua Agente", "na forma majestática conforme era obrigada". Onde que "Sua Agente" é um tratamento majestático, e obrigatório, para se dirigir a uma funcionária pública como qualquer outra, inclusive a própria médica? Daniela escreve isso como se fosse a maior das violências que alguém com a truculência e a ascensão social da médica tivesse que se dirigir a uma carcereira usando o mínimo de educação requerida, nada de "senhora", mas um simples "Sua Agente". Ainda mais no quadro de formação defeituosa de profissionais médicos do país em que basta ter-se os dois anos de residência para já ser tratado de "doutor". Daniela continua com o desenho do perfil da acusada, que diz que o curto período que passou na companhia de três outras detentas (uma realidade aerada e feliz diante o quadro de superpopulação carcerária do país), se a médica colocasse em papel, faria Graciliano Ramos ficar com inveja. 

Para quem já passou pelo universo do sistema de saúde brasileiro_seja público ou privado_ as sub-linhas do texto da Daniela são afrontosas. Eu saí com asco da leitura. Um texto com a marca sofisticada da revista mais sofisticada do país, e eu, um de seus assinantes, teria que ler com o distanciamento da pessoa agraciada por esse círculo de sofisticação. Mas o que eu senti é, mais uma vez, o enorme distanciamento dos profissionais da opinião da realidade do leitor. As mazelas morais da profissional Virgínia Soares são tratadas como meras idiossincrasias de uma classe profissional que, privilegiada ao extremo por salários cósmicos e horas de trabalho relativizadas para favorecê-los na aquisição de mais outros empregos paralelos, ainda teriam que ser vistos com o bom-humor de poderem tratar os pacientes como meros utensílios descartáveis. Assim a médica Virgínia responde  à Daniela por uma das gravações telefônicas em que um funcionário a chama de "Virgininha Mengele", como sendo parte do fino humor interno que atribuiu seu esquecimento em ministrar um analgésico a uma paciente com dor às experiências do referido médico nazista em potencializar a dor de seus prisioneiros. Assim o texto se conclui com a necessidade irresistível de uma claque quando a médica diz que pensou em preencher seus dias de ócio, em que espera pelo transcurso do processo, em revisar  o livro didático que ela e seu falecido marido escreveram sobre medicina, mas daí que se lembrou que não poderia fazer por tal livro ser destinado... à enfermagem, classe de onde vem a maioria das acusações que pesam sobre ela (aqui a plateia de leitores sofisticados rindo e balançando a cabeça: ah, essa Virgininha Mengele é impossível!). Não se justifica uma apologia dessas com sua absoluta indiferença ao extremo para onde a atividade médica deveria ser direcionada, racionalizada e justificada: o paciente, a população como um todo. Daí que me pareceu um show de horrores adequado às tantas pontos soltas e mal explicadas das acusações do que aconteceu na UTI de Curitiba (e acontece nos hospitais de todo o país), esse texto da Daniela Pinheiro. Uma defesa de um dos poucos médicos que ficaram do lado da médica Virgínia é que ninguém sabe sobre os procedimentos que são decididos legalmente nas UTIs, e que se prontificassem a explicar à população, ninguém iria compreender. A questão é exatamente esta.

P.S.: na mesma edição da Piauí há um ensaio sobre Cuba, escrito por um americano chamado Gary Indiana, e intitulado Cuba com passaporte. Ele começa dizendo que seu amante de quando esteve em 2012 em Cuba foi preso por simplesmente ser visto andando com ele, na política de prender antecipadamente nativos que assediam turistas, por mera precaução. Diz ainda que todo mundo em Cuba tem uma atividade ilegal para sobreviver. Diz ainda que há ramificações criminosas de surdos-mudos que perseguem e coagem pessoas com filmagens de celular, e que as extorquem para não revelar esses vídeos à polícia local. Vídeos de encontros homossexuais e mais uma série de coisas que devem comportar essa trâmite de ilegalidade ubíqua que o autor revela no início do texto. Depois diz que teve que se livrar da perseguição dessa gangue famélica, uma vez, atirando-lhes pela janela restos de comida. Daí, numa reviravolta com a mesma sofisticação do texto sobre a "doutora", ele passa a elogiar Cuba; que Cuba já aceita homossexuais e até permite casamentos entre pessoas de mesmo sexo, e que o sistema público de saúde oferece cirurgias de mudança de sexo gratuitas. Depois diz que quando volta para Nova York lhe dá uma saudade enorme de Cuba, pois NY parece uma caixa empoeirada, enquanto de Cuba ele fica nostálgico dos morcegos que passam pela luz dos postes de iluminação, e de outros animais da paisagem (sintomaticamente ele não sente falta de nenhuma pessoa e de nenhuma paisagem específica, mas só dos morcegos e gatos). E quando ele retorna a Cuba ele diz aos cubanos que eles não iriam gostar do local onde ele vive (NY). "Costumo dizer a eles que, a meu ver, não iriam preferir muito o lugar onde eu vivo. Sempre me perguntam como eu sei. E sempre respondo que não sei." Vai entender isso!

2 comentários:

  1. Hum,vou ter que comprar essa Piauí, mais ainda porque viajo na próxima sexta-feira. A Daniela Pinheiro é a autora do sensacional texto "O Consultor", onde acompanha as idas e vindas de José Dirceu já cassado e acusado de ser o mentor do mensalão. Sem falar que eu me divirto sempre com The Piauí Herald, que tem sacadas geniais.

    Eu conheço uma boa meia dúzia de médicos. E eles tem histórias, piadas e invenções que transitam entre o genial e o repulsivo. Tipo um intensivista da SAMU que chegou para socorrer um fulano acusado de algum crime. O cara estava baleado, tiro no abdômen, risco altíssimo. Quando iniciou procedimentos, foi linchado pelos populares que queriam que o bandido morresse. Ambos, médico e suposto bandido, deram entrada no Pronto Socorro: os dois sobreviveram.

    Uma neurologista conta o caso de uma menina de uns cinco anos com suspeita de TDAH. A sintomatologia era de quase de um vegetal. Uma tomografia revelou que a menina tinha praticamente um amendoim no crânio. "Como é que o pediatra suspeita de TDAH se a menina nem cérebro tem?", indignou-se.

    Um psiquiatra verificou que um menino nada tinha de errado. O problema era a mãe, completamente histérica, e o pai, um zero à esquerda. Ao ouvir que precisava de tratamento, a histérica tem um desmaio dentro do consultório. O marido tenta acudi-la e ele fala. "Deixa, ela está nos ouvindo. Quando quiser participar da conversa, poderá se sentar". Daí a um tempo a mulher desperta, simulando confusão mental. Tempos depois, o psiquiatra recebeu intimação do Conselho de Medicina por supostamente ter omitido socorro durante um pico de hipertensão que fez a histérica "desmaiar".

    E eles riem. O psiquiatra, que também é psicanalista, gosta de dizer que no consultório dele o paciente nunca tem razão. Uma dermatologista está cansada de receber cocotas que querem conhecer o último grito da estética publicado na revista Nova. Ambos têm uma idéia: vão desenvolver um creme rejuvenescedor com anti-depressivo.

    Ao que um outro, um cardiologista recém-separado da esposa que lhe cria mil problemas, intervém. Ele promete uma fórmula que vai misturar Viagra e Dramin. Pra quê? "Para comer a mesma mulher durante muitos anos sem enjoar".

    P.S.: No caso da médica Virgínia, ainda resta a ironia de chefiar a UTI do Hospital Evangélico. Tá amarrada em nome de Jesus?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Viagra com Dramin, que maldade. :-)

      Bons enredos para aquelas séries americanas sobre hospitais.


      O texto da Daniela é sempre impecável. Recordo desse do Dirceu. Mas acho que nesse ela exagerou na camaleonice. Na premissa de adotar a pauta da Piauí,que é ostensivamente parecer não ter pauta nenhuma (tanto é de direita quanto de esquerda, séria e debochada), ela me soou elitizada da pior maneira possível. É importante que se estude a possibilidade que de essa doutora Virgínia esteja sendo vingada da pior maneira possível, mas defendê-la por ser o que é, um ser-humano com as piores qualidades possíveis, me pareceu leviano e acrítico.

      Excluir