sexta-feira, 5 de abril de 2013

O Avô de Thomas Bernhard


Quando me embrenhei nas páginas da auto-biografia de Thomas Bernhard, entre tantas imagens impactantes, tantas avaliações raivosas sobre o catolicismo austríaco, sobre a promíscua população austríaca, sobre a arquitetura e a música daquela região serem o atestado de um envergadura de alma pobre e fútil, foi a serenidade imperial de um personagem o que mais me chamou atenção. Tal personagem é o soberbo avô do autor, um senhor cuja integridade artística e uma tocante incorruptibilidade em se manter coeso à sua ideologia de não-compactuação o torna o único ser-humano declaradamente amado por Bernhard. Só encontrei três outros personagens na literatura que tem algo de semelhante a ele, no que diz respeito à sua imensa coragem de ser fiel a si mesmo; são estes, Sam Fathers, o velho de setenta anos que vive apartado na natureza, na saga dos Compsons; Jim, o marinheiro do livro homônimo de Conrad; e Bartleby, o escriturário da magistral novela pré-kafkiana de Melville. Mas o avô de Bernhard tem uma diferença que o coloca em sentido oposto e em um grau acima em determinação a esses outros heróis da narrativa moderna: ele é sempre ativo, altivo, aristocrático, jamais propenso a nenhuma forma de traição (mesmo as relativizáveis, como a de Lord Jim), e dele nunca se pode pensar uma atitude de submissão, escravidão ou ausência. Ele sempre fez o que quis, às custas da enorme pobreza material em que passou sua família, mas sempre fez o que quis. Sam Fathers, aquele que, somente como o Urso e como o cão mestiço Lion, na memorável frase de Faulkner, era imaculado e incorruptível, assumira por toda a vida a descrição de inteligência faulkneriana, a de que ser inteligente era como o cavalo que se sujeita ao cabresto do dono mas que conserva astutamente uma reserva limítrofe em que ninguém interfere em sua liberdade. Já o avô de Bernhard foi livre do começo ao fim de sua vida, em uma independência excêntrica a todas as bajulações, nunca se deixando dominar pela alienação condescendente que foi um dos requisitos para a sobrevivência nas épocas das duas grandes guerras europeias do século passado.

Não é para menos que Origem, a compilação das auto-biografias completas de Bernhard publicado por aqui pela Companhia das Letras, começa com uma cena demasiado lírica para a venenosa obra do autor de Extinção. Um Bernhard ainda criança enfrenta uma tempestade devastadora, montado em sua bicicletinha, no intuito de atravessar os longos quilômetros que o separam da casa do avô. É para sorver a enorme beleza que essas páginas oferecem que esse livro deve ser lido por último na bibliografia de Bernhard, assim o leitor acostumado sente a súbita mudança de tom, o inesperado apaziguamento, que um Bernhard carregado de ternura abre concessão em sua metralha para comportar a sacralidade da lembrança do avô. Essa música inédita e o fato de sua biografia se iniciar com essa recordação, atestam o quanto estamos diante uma figura mítica carregada de símbolos e valores para o grande romancista da língua alemã. Quando o Bernhard criança chega à casa do avô, depois de quase morrer no meio da tormenta, enquanto sua avó e suas tias ensaiam a repreensão que darão ao fedelho extenuado, o avô transforma em silêncio todas as indignações da casa ao acolher o viajante em um abraço que revela também a extensão de sua saudade. E Bernhard descreve isso tudo como se deve esperar de Bernhard, com nada do pedantismo amoroso de Dickens, com nenhuma sofreguidão moral: a fúria com que sempre escreveu, revertida para esses fios ressoantes de sensibilidade, transformam essas páginas em uma carga de força memorável.

O avô de Bernhard ensinou ao autor a importância das palavras e da aristocracia espiritual através da arte. Quando o neto nascera, decretara que Bernhard seria um pensador proeminente. Lia para o autor os grandes filósofos e os grandes romancistas, ensinou-lhe a tocar violino e planejou que ele seria um virtuose da música quando crescesse. Ele mesmo_ o avô_, se dedicava a escrever em um cotidiano de disciplina espartana. Ninguém podia interromper-lhe em seu gabinete no segundo andar  da casa simples onde morava com suas filhas, seu genro e seu neto. Nenhum ruído era tolerado no período da manhã e de grande parte da tarde em que o barulho da máquina incansável era ouvido pelo garoto em seu quarto contíguo. Os outros componentes da família que tinham que se esmerar em profissões que resultavam em sustento; o avô apenas escrevia. Escreveu durante anos em que suas filhas se afundavam na penúria, em que a comida era escassa e as agruras muitas, e que dois braços a mais da labuta teriam feito uma diferença singela. Mas nunca perdeu a fé e sempre foi integro e fiel a si mesmo. Quando lançou seu livro, a obra se tornou um best-seller instantâneo e um clássico das letras austríacas, o que garantiu que pudesse comprar uma casa para cada integrante da família. Uma casa separada para a filha e o genro e o neto, da qual o neto sairia debaixo da mais feroz tempestade para poder vê-lo naquela que seria uma das últimas vezes.

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