terça-feira, 19 de março de 2013

Notinha


Um de meus melhores amigos é um comunista que perdeu a fé na ideologia mas, como acontece com todos os que foram demasiadamente apaixonados, não consegue encarar a questão de frente. Foi petista de carteirinha; me lembro que, à época da primeira vitória do partido para a presidência do país, ele intentou fazer uma camiseta vermelha com um estampa de uma mão com quatro dedos, em referência a até então deficiência mais evidente do presidente. Depois de tudo que aconteceu, ele se mostra profundamente desiludido. Mas, por mais que o provoque, ele não é capaz de pronunciar em vão os nomes do partido. E o duro é que sua condição profissional não lhe permite se embrenhar nem pelo mais singelo eufemismo: sendo professor, é impossível não vivenciar na carne a promiscuidade do velho jogo político de cultura da ignorância em massa para a manutenção do poder. Semana passada, por exemplo, o colégio onde dá aula fez uma reunião e foi instituído que as aulas das sextas-feiras terão meia hora e os alunos serão dispensados às nove da noite, para poderem ir a uma feirinha local; e mais, os alunos já não precisariam levar os livros para casa, deixando-os no armário coletivo do colégio_ ou seja, a meia hora de aula se reduzia quase à metade, já que dez minutos eram dedicados a recuperarem molejamente os livros de volta. Coisas assim são mais um vergão na combalida alma de meu amigo. Quando lhe perguntei se o governo federal havia mesmo distribuído um tablet para cada aluno da rede pública, conforme prometido, ele emitiu seu sorriso amargo e disse que as únicas coisas parecidas com tablets dado na escola era o macarrão instantâneo insosso do lanche. Existem dois livros dos quais meu amigo foge como vampiro da cruz: o Menos que Um, do Joseph Brodsky, e Mente Cativa, do Czeslaw Milosz, que os tenho na minha biblioteca mas que esse amigo, um homem altamente culto, se nega a tomá-los emprestado. Dois livros que são condenados pelos stalinistas nacionais. E hoje, visitando, como faço todos os dias, ao blog do Aguinaldo Severino, encontro mais um dos livros a serem abominados pela trupe (já o comprei pela Livraria Cultura, no ato), o Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio, da Herta Müller. Segue um trecho do excelente post do Aguinaldo:

"Herta Müller fala da loucura que foram os anos da ditadura comunista romena; do enorme esforço do aparelho do estado para controlar as coisas mais simples da vida dos cidadãos; do preço incalculável em vidas e recursos financeiros desperdiçados naqueles dias; do grotesco que eram os argumentos dos senhores do poder; da lógica perversa dos tiranos; das legiões de ignorantes subservientes, que são o esteio de todas as ditaduras; das técnicas de tortura e encarceramento; dos sofrimentos que sua mãe e tantos outros daquela geração experimentaram em campos de trabalhos forçados na URSS. Nos textos que correspondem aos anos posteriores à queda do Muro de Berlin Herta Müller denuncia a continuidade dos serviços de espionagem e tortura estatal romena, inclusive utilizando-se de remanescentes do comunismo.As imagens que ela invoca são sempre poderosas (o livro chega a ser tóxico, pela surpreendente, quase cruel, dissecação do comportamento humano). Para ela a Romênia é mesmo o país do fracasso universal. Nota Bene: Tenho lá minhas dúvidas, há legiões de entusiastas do stalinismo aqui no Brasil, prontos para prender, torturar e matar qualquer indivíduo que não se submeta a seu dirigismo, suas mentiras, suas loucuras. O Brasil tem uma relação com a estupidez e o atraso, uma vocação para a escravidão mental, que poderiam vir a surpreendê-la, mas é melhor deixá-la em paz com seus fantasmas pessoais."

10 comentários:

  1. olá Charlles, como vais?
    obrigado pelas palavras gentis. o 'menos que um" é estupendo, mas esse do Milosz não conheço. já anotei para conferir no futuro. e em breve tem mais Magris no blog. estou tateando o "Microcosmos".
    abraços
    aguinaldo

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    1. Obrigado pela indicação da Muller. Vi uma publicidade dos livros dela na revista Piauí, e não sabia qual pedir em primeiro. Microcosmos tem passagens de extrema beleza, de extrema ternura e estoicismo. Magris é um dos maiores.

      Forte abraço.

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  2. O maior problema da "revolução proletária mundial" foi ter acontecido na Rússia, um país atrasado, agrário, com imaginário dominado por santos e czares. O poder soviético nunca foi soviético: "Todo poder aos sovietes!" foi lema de campanha abondonado no vamos ver do dia a dia do governo, e logo os sovietes foram sufocados e um estado militar, de "comunismo de guerra" se impôs, para tornar-se, enfim, um regime de bandeira vermelha, mas ambíguo o bstante para depois entronizar Stálin que, ao levar seu regime para o mundo, agregou ao "comunismo" algo que nele originalmente não havia, o Super Estado, enquanto fingia defender o princípio sem o qual não haveria comunismo de fato: a supressão, pura e simples, do Estado... Daí que na Romênia não houve "comunismo", e sim um regime ditatorial que envergonharia qualquer comunista, caso não houvesse uma Guerra Fria quentíssima e, no calor do momento, os comunistas de fato de então virassem a cara para os fatos, tal qual os capitalistas viram a cara para os fatos de sempre: o capitalismo exaure o planeta em todos seus recursos, naturais e humanos, e não representa nenhum ideal, quer para a "natureza humana" que advoga (a egoísta, a individualista, a perdulária...), quer para a sobrevivência do ecossistema. Na verdade, capitalismo e o comunismo "realmente existente" sempre foram duas faces de uma mesma moeda centralizadora de poderes, pautadas em discursos que contradiziam abertamente seus pressupostos enquanto fingiam adotá-los e pô-los em vigor. Isso tudo é uma confusão dos diabos.

    Quanto a passagem "há legiões de entusiastas do stalinismo aqui no Brasil, prontos para prender, torturar e matar qualquer indivíduo que não se submeta a seu dirigismo, suas mentiras, suas loucuras. O Brasil tem uma relação com a estupidez e o atraso, uma vocação para a escravidão mental, que poderiam vir a surpreendê-la, mas é melhor deixá-la em paz com seus fantasmas pessoais", basta trocar a palavra stalinismo por capitalismo e verás quanto a coisa funciona do mesmo modo. A dizer que aqueles que de fato prenderam, torturaram e mataram no Brasil foram os militares do Golpe de 64, nenhum deles stalinista, como também não o são os leitores de O Globo, por exemplo, todos bons cidadãos representantes de nossas classes abastadas, que ora defendem justamente o retorno dos militares e a execução sumária dos "comunistas e terroristas" ora à testa do governo. No final das contas, será que eles são fãs do paredão de Fidel Castro?

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    1. Não entendo como o capitalismo exaure o planeta. Nunca se produziu tanta coisa, nunca teve tanta comida, pessoas sendo alimentadas nessa quantidade. Os lugares mais preservados costumam ser justamente os privados.A cada novo dia encontra-se uma nova maneira de maneira mais eficiente e menos nociva uma tecnologia, um combustível, etc. É impressionante imaginar o mundo de 300 anos atrás e a diferença para o de hoje. Tudo mudou para melhor graças ao "capitalismo". Aliás, não gosto nenhum pouco da palavra capitalismo pois só se dizia LIBERALISMO, que representava o sistema de livre mercado, produção, etc., a liberdade do homem de todas as amarras possíveis, principalmente do estado. O capitalismo ruim, nefasto, que só prejudica os homens é o de estado, esse mesmo que criou as crises de 29 e 08. Mas a "culpa" cai sempre no colo dos liberais...E a elite conservadora brasileira vai no mesmo caminho: todos anti-comunistas, mas anti liberalismo.

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  3. Vestindo a carapuça... Até certo ponto...


    A 1ª HOMILIA DE PACO

    Leituras: Is 2,2-5; Sl 97; 1Pd 2, 4-9; Evangelho: Mt 16, 13-19


    “Nestas três leituras reconheço-lhes algo de comum: o movimento. Na Primeira Leitura o movimento no caminho, na Segunda Leitura, o movimento na edificação da Igreja; na terceira, no Evangelho, o movimento no professar. Caminhar, edificar, professar.”
    “Caminhar. “Casa de Jacó, vinde, caminhemos na luz do Senhor” (ls 2,5). Esta é a primeira coisa que Deus diz a Abraão: Caminha na minha presença e sê irrepreensível. Caminhar: a nossa vida é um caminho e quando paramos, não corre bem. Caminhar sempre, na presença do Senhor, à luz do Senhor, procurando viver com aquela irrepreensibilidade que Deus pedia a Abraão na sua promessa.”
    “Edificar. Edificar a Igreja. Fala-se em pedras: as pedras têm consistência; mas pedras vivas, pedras untadas pelo Espírito Santo. Edificar a Igreja, a Esposa de Cristo, sobre aquela pedra angular que é o próprio Senhor. Eis um outro movimento da nossa vida: edificar.”
    “Em terceiro lugar, professar. Podemos caminhar quanto quisermos, podemos edificar muitas coisas, mas se não professarmos Jesus Cristo, não corre bem. Nos tornaremos uma ONG que presta assistência, e não a Igreja, Esposa do Senhor. Quando não caminhamos, permanecemos parados. Quando não se edifica sobre as pedras o que é que acontece? PASSA-SE O MESMO COM AS CRIANÇAS, NA PRAIA, QUANDO CONSTROEM CASTELOS NA AREIA E TUDO DESABA SEM CONSISTÊNCIA.”
    “Quando não se professa Jesus Cristo, vem-me à memória a frase de León Bloy: “Quem não prega o Senhor, prega o diabo”. Quando não se professa Jesus Cristo, professa-se a mundanidade do demônio.”
    “Caminhar, edificar-construir, professar. Não é assim tão fácil, porque no caminhar, no construir, no professar, por vezes sofremos choques, sucedem ações que não são próprias das ações do caminhar: são ações que nos fazem andar para trás.”
    “Este Evangelho prossegue com uma situação especial. O mesmo Pedro que professou Jesus Cristo, diz-Lhe: Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo. Seguir-te-ei. Seguir-te-ei mas não falemos de Cruz. Isso não interessa. Seguir-te-ei de outras formas que não a Cruz. Quando caminhamos sem a Cruz, quando edificamos sem a Cruz e quando professamos um Cristo sem a Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos Bispos, Padres, Cardeais, Papas, mas não discípulos do Senhor.”
    “Queria que todos, assim que passarem estes dias de graça, que tivéssemos a coragem, uma verdadeira coragem, de caminhar com o Senhor presente, com a Sua Cruz; de edificar a Igreja sobre o Seu sangue derramado sobre a Cruz; e de professar a única glória: Cristo Crucificado. Assim a Igreja seguirá em frente.”
    “Desejo para todos nós que o Espírito Santo, pela oração a Nossa Senhora, nossa Mãe, nos conceda esta graça: de caminhar, edificar, professar Jesus Cristo Crucificado (AINDA…, MEU CARAJO?!).”
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    À 1ª HOMILIA DE PAQUITO
    (Castelos de areia caem: ainda bem!)
    by Ramiro Conceição
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    Línguas amargas ensinam há séculos
    que os castelos de areia sempre caem
    porque a fantasia cria inconsistências.
    Então
    como é possível construir, sem fracassos,
    escrever, sem tropeços, se é com eles que
    se aprende a essência desse real efêmero?
    Sim
    tais línguas são bajuladoras de velhas técnicas
    mas não fomentadoras de epistemologias novas.
    São pescadoras de seres… ao vil aquário ornamental
    e, por isso, não admitem aqueles… do mar abissal.
    Portanto, a elas a concupiscência. A nós… a inocência.




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  4. Os sonhos e ideais comunistas e capitalistas foram construídos com areia, e o que o mundo precisa é de distributivismo, defendido por quem orienta construir sobre a rocha. Velhas técnicas das línguas amargas pela areia e epistemologias novas pela rocha.

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  5. Olá charlles,

    Sou uma de suas(seus) leitora(e)s anônima(o)s. Imagino que meu comentário vai soar super clichê, mas lá vai: Gosto muito do seu blog, é um dos meus preferidos dentre o tanto que acompanho. Te falar que é difícil encontrar gente que goste tanto de literatura quanto vc e seus comentaristas ( e eu ) gostam. Então, vir aqui é me sentir num ambiente do qual eu me sinto parte, de certa forma. Comprei um livro aqui por indicação sua - viagem ao fim da noite, ainda não lido. Comprei tbm, e li, uma confraria de tolos, recomendado pelo milton ribeiro em seu blog - tbm um dos meu preferidos, o qual me atiçou a ler o livro que estou lendo agora, Viagens de Gulliver - recomendação essa ratificada por aqui. Uma das coisas mais engraçadas que já li em toda a minha vida, recomendadíssimo a conhecidos que tbm gostam de literatura; infelizmente, não me deram muita bola.


    A verdadeira intenção nesse meu comentário, digo isso pq não costumo comentar os blogs que leio, era te deixar esse link, caso n tenha visto: http://www.livrosabertos.com.br/2013/03/18/philip-roth-oitenta/

    Sei o quanto vc gosta desse cara :) Ainda não li nd dele, mas está na lista que mantenho de 'coisas a se ler antes de morrer', junto a javier marias e saul bellow e tantos outros comentados e recomendados por aqui.


    Um bjo,

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    1. Carina, que delicadeza! Muito obrigado. Não sabe o quanto fico feliz com esse comentário. Vai entrar para a classe de comentários valiosos que devem ser lido quando eu estiver meio para baixo.

      Vou lá ler o texto do link.

      Beijos.

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    2. Pois é, Carina, esse porãozinho do Charlles é um dos nossos refúgios, assim como o Milton Ribeiro e outros. Com o tempo deixamos de só ler e adicionamos nossas bobagens diárias e espero que faça isso também :)

      Preciso mandar várias contas de cartão pro Charlles...várias.

      Ah, hoje falei brevemente com o Milton. Menos um na lista hehe

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